Neste artigo procuro contrariar a ideia de que Merleau-Ponty, em “A fenomenologia da perceção”, renuncia por completo à realização de uma ‘redução fenomenológica’. Mostro que Merleau-Ponty não só não rejeita a redução fenomenológica, como os capítulos da secção introdutória consistem precisamente na sua realização. A redução fenomenológica de Merleau-Ponty tem, portanto, como ponto de partida a crítica à noção de sensação. A redução fenomenológica de Merleau-Ponty difere, no entanto, da redução fenomenológica husserliana. Enquanto que, para Husserl, realizar a redução significava suspender a nossa adesão imediata à crença na existência no mundo, para Merleau-Ponty a redução fenomenológica consiste num retorno ao ‘imediato’, ao ‘mundo da vida’ ou ‘campo fenomenal’. Não é possível, portanto, reconduzir, por sua vez, este ‘campo fenomenal’ à sua constituição no interior de uma consciência transcendental. Concluiremos que a razão para a diferença na conceção e realização da redução fenomenológica entre Husserl e Merleau-Ponty está precisamente relacionada com modo como o último concebe o sujeito. O corpo-sujeito de Merleau-Ponty é essencialmente opaco para si mesmo e, portanto, nunca se pode reconstituir em transparência o modo como constitui ou se abre ao mundo.
Palavras-chaves:
Merleau-Ponty; Husserl; fenomenologia; redução fenomenológica