Resumo
O presente artigo aborda as principais feiras agropecuárias internacionais realizadas no Brasil e na França, destacando a maneira pela qual esses eventos operam como círculos de cooperação no espaço dos diferentes circuitos espaciais produtivos do campo (Santos, 1996). Ressaltamos a importância da proximidade geográfica temporária no atual período técnico-científico-informacional, buscando entender a função dessas feiras no cenário contemporâneo de fragmentação geográfica da produção, internacionalização da economia e crescente demanda por circulação de informações e conhecimentos. Nesse contexto, abordamos como algumas feiras atuam no setor da agropecuária das formações socioespaciais brasileira e francesa, considerando como o comércio agropecuário globalizado e as feiras internacionais articulam as escalas locais e globais.
Palavras-chave:
círculos de cooperação no espaço; feiras agropecuárias internacionais; eventos; Brasil; França
Abstract
This article analyzes the major international agricultural fairs held in Brazil and France, examining how these events function as strategic cooperation circles in space within different rural spatial circuits of production (Santos, 1996). We underscore the significance of temporary geographic proximity in the current technical-scientific-informational period, seeking to understand the role of these fairs within the contemporary context marked by the geographic fragmentation of production, economic globalization, and a growing demand for the exchange of information and knowledge. Within this framework, we explore how selected fairs operate in the agricultural sectors of the Brazilian and French socio-spatial formations, highlighting the ways in which the globalized agricultural trade and international fairs articulate local and global scales.
Keywords:
cooperation circles in space; international agricultural fairs; events; Brazil; France
Résumé
Cet article analyse les principales salons agricoles internationaux organisées au Brésil et en France, en mettant en lumière leur rôle en tant que centres de coopération au sein des différents circuits de production rurale (Santos, 1996). Il souligne l’importance de la proximité géographique temporaire dans l’actuelle ère techno-scientifico-informative, et cherche à comprendre la fonction de ces salons dans un contexte marqué par la fragmentation géographique de la production, la mondialisation économique et l’échange croissant d’informations et de savoirs. Dans ce cadre, l’étude examine comment certaines salons influencent les secteurs agricoles des formations socio-spatiales brésiliennes et françaises, en considérant la manière dont le commerce agricole mondialisé et les foires internationales articulent les échelles locales et globales.
Mots-clés:
cercles de coopération dans l’espace; foires agricoles internationales; événements; Brésil; France
Introdução
As crescentes e renovadas possibilidades do período de globalização, decorridas especialmente do avanço dos sistemas técnicos, favorecem a criação de múltiplos canais de comunicação entre agentes localizados em diferentes partes do mundo, ampliam os contextos de interação e abrangem porções cada vez maiores do planeta, inserindo lugares até então desconectados em um movimento singular de convergência de momentos (Santos, 1996).
Neste cenário, destacamos o papel das tecnologias de comunicação e informação e suas consequências, como o surgimento de uma economia política global, mantida pelas relações entre agentes geograficamente distantes, mas que se tornam cada vez mais interdependentes.
Segundo esse pressuposto, o presente artigo aborda as feiras comerciais de caráter internacional1 do setor da agropecuária em duas formações socioespaciais (Santos, 1996) distintas, Brasil e França, bem como a ocorrência dessas feiras, que têm o papel de promover a copresença (Santos, 1994) ou proximidade temporária, e seu papel no atual período técnico-científico-informacional (Santos, 1996), o que as torna imprescindíveis na constituição de círculos de cooperação no espaço (Santos, 1986; Santos, 1996; Santos; Silveira, 2005).
Nas atividades agropecuárias atuais, as feiras são relevantes para que a produção se efetive por meio do encadeamento dos diversos circuitos espaciais produtivos (Santos, 1986; Santos, 1996) para atender demandas sociais e econômicas importantes, como o comércio e o consumo de alimentos e matérias primas para diversas indústrias.
Esse tipo de feira no Brasil e na França tem cada vez mais relevância, abrindo novas possibilidades no contexto da globalização. Elas são aqui entendidas como eventos (Santos, 1996), pois são viabilizadas e facilitadas pelas redes de transporte e redes informacionais, que aproximam os agentes fisicamente e criam novas dinâmicas de interação.
Tais eventos fomentam o crescimento atual dos fluxos de importação e exportação de produtos agropecuários, bem como a rápida circulação de capital e de informações relacionadas a essas atividades, resultados da progressiva globalização da produção, da oferta de serviços e do consumo dessas mercadorias.
Portanto, há uma integração de diversos circuitos espaciais produtivos e seus círculos de cooperação no espaço (Santos, 1986; Santos, 1996), num complexo de várias escalas de produção e de diferentes níveis de tecnologias aplicadas no campo, evidenciando as disparidades entre os agentes do circuito superior e do circuito inferior das economias agrárias (Elias, 2013), tanto na França como no Brasil.
Os círculos de cooperação também envolvem, além desse tipo de feiras, uma grande variedade de empresas, Estados, instituições internacionais multilaterais, instituições públicas e privadas de pesquisa e desenvolvimento, organizações não governamentais, cooperativas, movimentos sociais e ampla divisão territorial financeira e comercial do trabalho, abarcando agentes que produzem vasta gama de produtos mais ou menos transformados provenientes do campo.
As feiras analisadas no Brasil foram a Agrishow, na cidade de Ribeirão Preto-SP, Show Rural Copavel, em Cascavel-PR, e Expodireto Cotrijal, na cidade de Não-Me-Toque-RS. As feiras abordadas na França são a Space, na cidade de Rennes, a Journée Agri-Business Cofarming, em La Roche-Sur-Yon, e o Salón International de l'Agriculture, em Paris. Esses eventos revelam que a singularidade de cada uma dessas feiras se fundamenta na especialização dos lugares e das cidades em que se instalam, dada principalmente pela interação face-a-face entre profissionais expertos para atender demandas de vários setores da agropecuária, desde a escala do produtor local até a escala global, com um tipo de produção que utiliza tecnologias digitais como Internet das Coisas (Internet of Things ou IoT) e inteligência artificial (IA), por exemplo. O principal objetivo desses eventos é a criação de novas condições para a realização de cooperação, de trocas comerciais e de difusão de conhecimento tecnológico.
A articulação e a troca de informações, que caracterizam as atividades econômicas atuais tanto nas cidades quanto no campo, demandam intercâmbio, vínculos, cooperação e solidariedade, incluindo situações que promovam relações face-a-face (copresença) (Santos, 2009) entre os agentes econômicos de diversos contextos e tamanhos que compõem a cena da economia global nas atividades agropecuárias. Essas ações são concretizadas por esse tipo de feiras.
1. As feiras agrícolas: eventos e agentes dos círculos de cooperação no espaço
O acontecimento das feiras agrícolas em determinado lugar, num dado momento e com certa duração, é condicionado por diversos fatores: pela densidade das diversas redes de infraestruturas de transporte e comunicação onde elas serão instaladas, pelo seu alcance (local, regional, nacional ou internacional) e pela eficácia a que cada tipo de feira se propõe.
Assim, entendemos que essas feiras são, em termos geográficos, eventos, uma vez que os eventos “mudam as coisas e transformam os objetos, dando-lhes novas características [...] [os eventos] se tornam empíricos nos objetos” (Santos, 1996, p. 123). Ainda segundo Santos (1996), um evento tem uma extensão ou espacialidade, uma área de ocorrência, com ações operantes, fluxos e repercussões em várias escalas.
As feiras de vários ramos da economia concentram, temporariamente e num único ponto do território, pessoas e objetos advindos de diversos lugares e com interesses em comum (Vendrusculo, 2017), e, por isso, sua característica principal é criar uma vida de relações por meio de densidades comunicacionais temporárias (Santos, 1996).
Partindo das contribuições de Bathelt et al. (2014) e Bathelt e Gibson (2010), entendemos que múltiplas escalas - entre o local e o global - se articulam no âmbito das feiras agrícolas. No caso das feiras de alcance internacional voltadas ao agronegócio, as tecnologias informacionais, bem como os contextos nacionais nos quais essas feiras se inserem, influenciam agentes situados em diferentes níveis geográficos: desde a escala local, no próprio campo, até os sistemas agroindustriais de alcance nacional e global. Para que tais articulações se efetivem, elas dependem das estruturas locais, regionais e nacionais, uma vez que se vinculam a distintos padrões de especialização territorial, tão diversos quanto as próprias formações socioespaciais (Santos, 2005).
Além disso, as feiras estão integradas à divisão internacional do trabalho, influenciando profundamente o contexto da formação socioespacial e suas respectivas condições de produção (Vendrusculo, 2017). As feiras, sobretudo as agrícolas, estão inseridas no que Santos, 1996, designou como evento, sendo uma “rede complexa de interdependência e inter-relação mobilizada por uma grande quantidade de variáveis - Estados, empresas, instituições de toda natureza juntamente com indivíduos, que são capazes de ação” (Santos, 1996, p. 163).
Compreendendo o evento como “resultado de um feixe de vetores, conduzido por um processo, levando uma nova função ao meio preexistente” (Santos, 1996, p. 165), as feiras podem ser interpretadas como círculos de cooperação no espaço, articulados às dinâmicas imateriais da produção no território. Elas reúnem, de forma temporária e concentrada, aquilo que a divisão territorial do trabalho fragmentou (Moraes, 1985; Antas Jr., 2015; Castillo; Frederico, 2010; Santos; Silveira, 2005). Ao mesmo tempo, essas feiras expressam o “movimento de especialização produtiva e o aprofundamento da divisão territorial do trabalho, fenômenos associados à crescente internacionalização da produção” (Antas Jr., 2015, p. 38).
Deste modo, as feiras também operam no âmbito da comunicação, efetivada na transferência de capitais, ordens e informações (fluxos imateriais), e, como parte dos círculos de cooperação, “asseguram níveis de organização para articular lugares e agentes dispersos geograficamente, organizando as diversas etapas espacialmente segmentadas da produção” (Castillo; Frederico, 2010, p. 463).
O papel das feiras agrícolas no período atual se torna cada vez mais importante, dado o processo de internacionalização da produção do campo. Elas integram lugares numa mesma circularidade (de mercadorias e de capitais), e, sendo parte dos círculos de cooperação, “desenham hierarquias”, como afirma Moraes (1985, p. 25), além de promoverem o avanço produtivo da agropecuária moderna no Brasil e na França.
Esse processo produtivo hierarquizado, que utiliza cada vez mais sistemas técnicos informacionais e integra, por exemplo, a IoT no campo, gera novas dinâmicas produtivas e socioespaciais relacionadas à adaptação de lugares, regiões e territórios às exigências da competitividade. Isso ressalta “a importância do espaço geográfico na lógica de localização das atividades econômicas, na atividade produtiva e na dinâmica dos fluxos” (Castillo; Frederico, 2010, p. 468).
Ressaltamos que os processos observados nos campos brasileiro e francês apresentam características complementares e contraditórias: a aplicação de técnicas, por um lado, intensifica desigualdades, mas, por outro, potencialmente oferece oportunidades para reduzir disparidades. Além das feiras, instituições públicas de pesquisa tanto brasileiras quanto francesas, que desenvolvem ciência e tecnologia para o setor agrícola, também estabelecem círculos de cooperação que operam sobre uma ampla variedade de mercadorias com circulação global, presentes em diversos países e continentes, abrangendo múltiplas escalas e agentes, como já tratado em trabalhos pregressos (Bertollo, 2023; Bertollo; Castillo; Busca, 2022; Bertollo; 2021; Bertollo; 2024).
As feiras promovem oportunidades de interação física com produtos, metodologias de produção, tecnologias e acesso a especialistas, num momento em que ocorrem experiências de aprendizado entre técnicos e profissionais (Bathelt et al, 2014), sobretudo no ramo da agropecuária, em que produtores se veem cada vez mais compelidos a atualizarem seus conhecimentos frente ao ritmo de inovação tecnológica no campo, seja no Brasil ou na França. Assim, as feiras são espaços relacionais, e ensejam situações decisivas por meio das quais as redes internacionais de produção podem ser mantidas, promovidas e ampliadas (Bathelt et al, 2014).
Outro ponto importante são as indústrias de alta tecnologia atuantes na agropecuária, que nesse e em outros setores dependem do estabelecimento de um contexto caracterizado por intensa disseminação de conhecimento e pela circulação constante de informações produtivas (Vendrusculo, 2017). Por isso, as feiras são eventos importantes, principalmente porque induzem a uma atualização contínua dos sistemas produtivos, na qual as situações de copresença (Santos, 1996) figuram mesmo como uma necessidade, numa conjuntura em que as condições informacionais possibilitam a comunicação e troca de informações entre grandes distâncias, mas que não são suficientes para determinadas negociações, que precisam ainda ser presenciais.
Esse contexto é necessário para que os processos de aprendizado coletivo e de difusão de conhecimento entre empresas, pesquisadores, fornecedores e compradores se realizem, desenvolvendo importante sinergia entre esses agentes. Destacamos a transformação significativa de grandes áreas em cidades no Brasil e na França para acomodar centros de convenções cada vez maiores e mais integrados às redes de transportes e comunicação.
Logo, a promoção da copresença temporária da oferta e de demanda globais em ambos os países analisados têm potencial de criar laços entre agentes econômicos de diferentes países, pois, em termos gerais, as feiras concentram “produtores, fornecedores, distribuidores e consumidores de todo o mundo, que se aglomeram temporariamente para engajar-se em comunicação face-a-face” (Vendrusculo, 2017, p. 52).
No caso das feiras agropecuárias, a interação temporária entre participantes possibilita que as empresas ajustem seus produtos às necessidades provenientes de diferentes regiões do mundo. Esse caráter global do setor permite que demandas específicas sejam atendidas por empresas situadas fora dos mercados de origem.
A presença de empresas de diferentes ramos e tamanhos exige um intenso engajamento em interações presenciais, que ocorrem paralelamente a outras interações, sejam elas planejadas ou espontâneas. Durante essas interações, informações e conhecimentos sobre produtos e métodos de produção são compartilhados, interpretados, filtrados e retransmitidos (Vendrusculo, 2017).
Essa circulação resulta na dependência cada vez maior do desenvolvimento do setor da agropecuária de múltiplas fontes de informação e interação precedentes para aumentar a confiança dos produtores rurais, que serão afetados pela introdução de novas tecnologias no campo, como o uso de robôs, drones, IoT, IA, aplicativos, receituários, etc.
Outro aspecto relevante é que as feiras, de maneira geral, são estrategicamente concebidas para atrair comunidades de profissionais fortemente vinculadas a uma mesma indústria ou área tecnológica (Bathelt; Glücker, 2011). Esses eventos reúnem regularmente pessoas de diversos países, criando uma comunidade global de especialistas que compartilham conhecimentos e experiências profissionais (Bathelt; Glücker, 2011). O objetivo principal é resolver problemas associados às práticas cotidianas de suas profissões. Essas comunidades são conhecidas como comunidades de prática (Wenger, 1998) e comunidades epistêmicas (Knorr, 1999), pois englobam campos profissionais especializados, nos quais os membros compartilham problemas comuns e perspectivas, por vezes divergentes, sobre suas áreas de atuação.
A relação entre os círculos de cooperação e as feiras em situações de copresença demonstra que existe uma economia baseada no conhecimento e em redes de relacionamentos traçadas por meio das interdependências entre os agentes do sistema econômico (Vendrusculo, 2017), sobretudo quando analisamos as feiras agropecuárias e seus distintos ramos. Isso também aponta para a importância do papel da proximidade, ainda que temporária, na dinâmica dos círculos de cooperação no espaço.
Tais eventos não são instâncias isoladas da produção de valor, mas perfazem reuniões temporárias, periódicas e conectadas, inseridas em circuitos globais de feiras (Power; Jansson, 2008) segmentados por tipos de indústria, que constituem uma agenda mundial para o lançamento de novas tecnologias e produtos de acordo com as datas das respectivas feiras (Power; Jansson, 2008).
A divisão territorial do trabalho, que agora torna rentável a divisão em múltiplas etapas técnicas das produções no campo e na agroindústria em diversos lugares do mundo, impõe a conexão entre as várias fases produtivas dispersas numa mesma lógica, o que leva a traçar as redes dos círculos de cooperação baseadas em “ordens, informações, propaganda, dinheiro [...] [para os quais] são necessários abundantes conteúdos organizacionais com importante e prévio trabalho intelectual” (Silveira, 2010, p. 81).
Os círculos de cooperação no espaço ligados à produção e distribuição da produção da agropecuária pelo globo, em escalas mais ou menos mecanizadas e informacionais, expõem a estratégia das corporações transnacionais para obter acesso a tecnologias, a novos e maiores mercados, a novas metodologias de produção e a novas maneiras de conduzir o desenvolvimento técnico e de monitorar o uso das novas tecnologias, principalmente as digitais, no campo.
As feiras, em termos gerais, se realizam “numa área delimitada e se promovem pretensamente como ubiquidade confinada, ao tentar encerrar numa área limitada um microcosmo da indústria global” (Vendrusculo, 2017, p. 81). Logo, as feiras agropecuárias abarcam distintos níveis de círculos de cooperação no espaço, que atuam em forma de redes relacionadas globalmente, sob a organização sistemática de um conjunto de agentes econômicos centrais.
2. As feiras agrícolas no Brasil e na França no contexto técnico científico e produtivo atual
As feiras agrícolas internacionais são instrumentos indispensáveis do período da globalização: servem como ferramentas de promoção de exportação e como estratégias de internacionalização das empresas e da produção, pois, há muito tempo, as feiras de vários setores fornecem o canal material para que as empresas dialoguem entre si e com clientes, além de estabelecerem uma presença comercial (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
Em termos de desenvolvimento histórico das feiras internacionais de vários setores, a sua distribuição geográfica está fortemente relacionada aos núcleos de produção e ao crescimento ou declínio das trocas de longa distância entre regiões, países, subcontinentes ou continentes (Power; Jansson, 2008).
Tanto nas feiras agrícolas na França como no Brasil, a busca por informações por parte dos compradores comerciais concentra-se em aspectos específicos da produção agrícola que são difíceis de comunicar e encontrar e, muitas vezes, são destinados a um número limitado de compradores. Por esse motivo, mesmo com a banalização da comunicação online, ainda há a necessidade de se estar presente pessoalmente para examinar as amostras de produtos antes de tomar decisões de compra (em razão, inclusive, do alto preço de alguns equipamentos) e, por isso, esse tipo de evento continua a prosperar em vários setores (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014), sobretudo na agropecuária.
Nas feiras agrícolas do Brasil e da França, os expositores se adaptaram às novas demandas dos visitantes, organizando estandes voltados para a apresentação de suas habilidades e de sua capacidade de estabelecer parcerias. Além da promoção de produtos para aumentar a visibilidade do setor de um país/região e da validação de padrões tecnológicos em setores concorrentes em outros territórios, ocorre sobretudo a venda direta de serviços na área anfitriã da feira, chamados de spin-offs econômicos (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
Esse fenômeno promove a visibilidade das empresas nas localidades e é importante para seu o desenvolvimento na escala local, resultando na criação de concorrência entre os governos locais/regionais para atrair feiras comerciais (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
As feiras agrícolas em ambos os países tratados estabelecem interações entre fornecedores, produtores, usuários, especialistas, representantes da mídia e outros agentes que se reúnem para trocar informações sobre o desenvolvimento atual e futuro do agronegócio, questões normativas, tributos, acordos econômicos, meio ambiente, fontes energéticas e situação política.
As feiras brasileiras e francesas também têm em comum o foco nas exibições de produtos, protótipos e inovações, com a presença simultânea de muitas empresas e instituições especializadas, em que a comunicação constante face-a-face gera um ambiente propício para a troca de experiências, conhecimentos e firmar acordos comerciais. As feiras de vários setores concentram informações específicas sobre tecnologias, mercados, estratégias e soluções, que são discutidas de diversas maneiras, tanto em reuniões planejadas quanto em encontros não programados (Bathelt; Schuldt, 2008).
Do ponto de vista de um expositor, essa troca inclui discussões sobre transações comerciais com clientes e fornecedores, conversas com agentes interessados sobre as características dos produtos e o desenvolvimento da indústria, possibilidades específicas de solução de problemas ou melhorias, e negociações com clientes de diferentes partes do mundo (Borghini et al. 2004).
As empresas se beneficiam do caráter descentralizado das informações e da multiplicidade de canais pelos quais elas fluem durante as feiras. E por serem como mercados temporários, tais eventos têm um papel importante como pontos na economia global do conhecimento e para internacionalização de distritos industriais tradicionais, numa conjuntura de processo gradual do abandono de empresas locais por pequenas feiras (em nível de distrito industrial) em favor de feiras internacionais que oferecem contato direto com mercados estrangeiros (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
A relação entre a especialização das feiras e a especialização territorial no que diz respeito às economias locais, regionais ou nacionais é influenciada pelas características das empresas localizadas nas áreas de captação dos eventos, que representam mercados cativos para os organizadores.
As estratégias de diferenciação entre as feiras, baseadas na especialização territorial, provêm das especificidades culturais locais e moldam a imagem da região ou nação anfitriã, juntamente com variações institucionais nacionais que também contribuem para a especialização das feiras de maneira singular (Golfetto, 2004; Rinallo; Golfetto, 2011). Esses fatores, em conjunto, resultam na diversidade de feiras agropecuárias realizadas em diferentes cidades ou regiões da França e do Brasil.
2.1 A especialização das feiras comerciais internacionais
As feiras têm implicações distintas para o desenvolvimento econômico em diferentes escalas geográficas. Localmente, geram fluxos econômicos e fomentam o desenvolvimento de uma economia de serviços especializada nesses eventos. Na escala regional, se relacionam aos padrões de especialização territorial produtiva. Em nível nacional, as feiras ensejam processos de aprendizado e escolhas tecnológicas das empresas participantes sob influência da especialização produtiva existente e, simultaneamente, elas contribuem para padrões nacionais de especialização que estão em desenvolvimento (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
Assim, as feiras mantêm um caráter distintivo, fundamentado na especialização territorial nacional. As intensas trocas de conhecimento durante esses eventos, apoiadas por transações comerciais e fluxos materiais (frequentemente em etapas posteriores), promovem a especialização econômica territorial, considerando suas indústrias subjacentes, influências territoriais, culturais e econômicas.
A especialização econômica pode assumir diferentes formas e ocorrer em diversos níveis espaciais. Por exemplo, pode-se observar uma aglomeração industrial local/regional altamente integrada, composta de uma indústria específica e de seus setores fornecedores e serviços vinculados, evoluindo para concentrações industriais que dominam as economias locais ou regionais, como no caso das agroindústrias de laticínios da França e das voltadas ao processamento de grãos no Brasil.
Também pode haver uma concentração de empresas concorrentes em um setor específico que não colaboram entre si, mas se beneficiam de um mercado de trabalho compartilhado e da atração conjunta de clientes, como é o caso de Agtechs2 tanto na França como no Brasil. Outra possibilidade é a especialização nacional de indústrias, em que certos setores nacionais se tornam globalmente competitivos, com atividades de exportação intensas, resultando na força relativa dessas indústrias em um país específico, como a exportação de certas commodities do Brasil e da França com cada vez mais uso de tecnologias informacionais. Essas estruturas são descritas como expressões de “especialização territorial em diferentes escalas” (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014, p. 111).
As atividades relacionadas às feiras geram impactos econômicos diretos e indiretos significativos para as cidades anfitriãs e região, como gastos realizados diretamente na economia local por organizadores de feiras, expositores e visitantes, por exemplo, às taxas de admissão ao evento, gastos com configuração e montagem de estandes, serviços relacionados à exibição, transporte de mercadorias, aluguel de equipamentos e suporte técnico, consumo em hotéis, restaurantes e atividades de lazer ou entretenimento pelos participantes. Como se nota, estes eventos são capazes de criar e destinar identidades às cidades, concorrendo entre si e criando expectativas diversas no mercado.
Os fluxos financeiros gerados pelas feiras estimulam diversos setores da economia local, como turismo, serviços e infraestrutura, promovendo um crescimento econômico mais amplo para a região, além de estabelecerem certa convergência de conhecimentos que geram fluxos contínuos de mercadorias, pessoas e ideias para os territórios que os sediam (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
3. As principais características das feiras agrícolas internacionais no Brasil e na França no período técnico-científico-informacional
Considerar feiras como formas de proximidade geográfica temporária e compreendê-las como expressão dessa proximidade no período técnico-científico e informacional realçou o seu papel de importante agente dos círculos de cooperação no espaço.
Com base nas ideias de Boschma (2005) e Torre (2008) sobre o papel da proximidade na troca de informações, somadas às contribuições de Bathelt et al. (2014) e Bathelt e Glücker (2011) sobre clusters temporários, entendemos que as feiras são, além de mecanismos de consolidação da fragmentação da produção global, representações das novas dinâmicas de integração entre economia e território, principalmente num cenário atual de consolidação de blocos econômicos como os BRICS, acordos entre o Mercosul e União Europeia e as recentes “guerras tarifárias”.
Destacamos que a definição de clusters temporários pelos autores mencionados está vinculada às modalidades de produção de conhecimento e cooperação, as quais têm suas bases em situações de copresença, ao mesmo tempo em que se observa uma crescente relevância das formas temporárias de agrupamento e interação econômica.
Os exemplos de algumas das maiores feiras agropecuárias no Brasil e França revelam essas dinâmicas, tendo em vista as diferenças de cada uma das formações socioespaciais e a posição de cada país na divisão territorial do trabalho.
3.1 Algumas das principais feiras agropecuárias no Brasil
Em primeiro lugar, trataremos de uma das maiores feiras de agronegócio no Brasil, a Agrishow, que acontece na cidade de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, considerando a magnitude de vendas, negócios firmados e número de participantes e visitantes. Esse evento reúne centenas de estandes e apresentações de novos produtos e métodos de produção para vários tipos de culturas e tamanhos de propriedades, cada vez mais focados em aplicação de tecnologia no campo, como o uso da IoT, IA, robôs, máquinas agrícolas e soluções financeiras online. Cabe ressaltar a importância da cidade de Ribeirão Preto para o agronegócio por sua diversificada atividade agroindustrial, bem como para outras áreas como saúde, ensino, pesquisa, comércio e serviços.
Em 2024, a 30ª edição da Agrishow reuniu cerca de 800 expositores e 195 mil visitantes numa área de 520 mil m2, cujos principais estandes nacionais e internacionais eram ligados à agricultura de precisão, agricultura familiar, armazenagem e silos, autopeças e pneus, fertilizantes, corretivos e defensivos, equipamentos de segurança, equipamentos para irrigação, ferramentas, financiamentos e serviços financeiros, máquinas agrícolas e para construção, pecuária, sementes, telas, fios e cercas, transporte e logística.
A maior parte dos visitantes foi composta por agricultores e produtores rurais de várias grandezas, além de consultores, administradores de fazendas, engenheiros agronômicos, técnicos agrícolas, veterinários e zootecnistas.
Dada a importância da produção e exportação de commodities no Brasil, as principais culturas presentes na feira foram a soja, o milho, a pecuária, a cana, o café, os hortifrutis, a citricultura, o algodão e a silvicultura. A feira contou com o patrocínio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Sistema de Crédito Cooperativo (Sicred) e Governo Federal.
Essa feira, como um importante agente do círculo de cooperação de alguns seguimentos produtivos, promoveu eventos de divulgação de resultados do primeiro trimestre da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) junto ao Sindicato Nacional da Indústria de Máquinas, bem como o lançamento do Censo Agropecuário 2026, em desenvolvimento por meio da parceria entre a Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (SOBER, 2024). Também houve a manifestação da Frente Parlamentar de Apoio à Agropecuária (FPA) para pedir um Plano Safra3 mais robusto ao Governo Federal. A FPA, conhecida como “Bancada Ruralista”, é formada por parlamentares que atuam no âmbito federal (deputados e senadores).
Destacamos que a FPA tem um papel direto na formulação e promoção de leis dedicadas a impulsionar as capacidades produtivas, a lucratividade e a atuação do agronegócio no Brasil. Além disso, está envolvida em ações para impedir a aprovação de projetos de lei que se oponham aos interesses desse setor, disseminando um discurso que exalta o modelo hegemônico do agronegócio, alinhando-se com a narrativa predominante na grande mídia.
Desse modo, as feiras analisadas no Brasil desempenham um papel estratégico no fomento das ações e dos discursos de um tipo de uso do território, no modo como a estrutura fiscal brasileira favorece a lucratividade dessa atividade e num certo modelo de investimento. Isso ocorre, principalmente, devido à baixa tributação sobre a exportação de commodities e a propriedade da terra, como, por exemplo, o Imposto Territorial Rural (ITR), além do acesso aos financiamentos oferecidos por bancos públicos e privados, aprovação de agrotóxicos e de outros incentivos respaldados pelo poder legislativo federal, amplamente influenciado por uma bancada alinhada aos interesses do agronegócio.
Tal feira proporcionou o ingresso de cerca de R$ 500 milhões em Ribeirão Preto e região (Agrishow, 2024), o que revela a capacidade desse tipo de evento de gerar fluxos econômicos, influenciar as redes urbanas e mobilizar diversos agentes, com consequências locais, regionais e nacionais.
Outra feira analisada é a Expodireto Cotrijal, na cidade de Não-Me-Toque, no estado do Rio Grande do Sul, com 131,2 hectares de infraestrutura e realizada desde o ano 2000. Na edição de 2024, contou com 377 mil visitantes, 600 expositores e participação de 71 países em estandes com uma série de produtos e metodologias de produção, além da participação de instituições de pesquisa, empresas privadas e estatais, e instituições financeiras (Expodireto Cotrijal, 2024).
Ressaltamos que o município de Não-Me-Toque, de aproximadamente 18 mil habitantes, foi a cidade gaúcha que mais recebeu investimentos do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) em 2023, um montante de R$ 130 milhões para a armazenagem de grãos e desenvolvimento de energia fotovoltaica contratados pela Cotrijal, a cooperativa que organiza a Expodireto (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, 2024).
A feira Expodireto Cotrijal concentrou expositores de máquinas e equipamentos agrícolas, produção vegetal, produção animal, metodologia de produção para agricultura familiar, meio ambiente, desenvolvimento de pesquisa, serviços e tecnologia.
Outra feira importante no Brasil é a Show Rural Copavel, que acontece em Cascavel, no estado do Paraná, com edições desde 1989 e com o objetivo de atender pequenos e grandes produtores, principalmente ligados à produção de alimentos, com foco em inovação tecnológica. Na edição de 2024, atraiu 600 expositores em 720 mil m2 de infraestrutura (Show Rural Copavel, 2024). Cabe ressaltar que essa feira acontece na cidade de Cascavel, considerada a “metrópole do Mercosul”, cujo Valor Bruto da Produção (VBP) atingiu R$2,7 bilhões em 2022. A cidade se localiza numa região estratégica, visto que a região de Cascavel fica próxima da Argentina e do Paraguai (Hirakuri, 2018).
A agropecuária é fundamental para a economia da região de Cascavel, pois, além de agregar valor significativo ao Produto Interno Bruto regional, é responsável pela consolidação de um grande parque agroindustrial e rede de serviços agropecuários, que fornecem máquinas, equipamentos, financiamentos, insumos, análises laboratoriais e atividades terceirizadas, necessários aos produtores rurais e que impactam diretamente outros setores econômicos, como indústria, comércio e serviços (Hirakuri, 2018). Esta região está entre as principais produtoras de grãos do estado do Paraná́ e do Brasil, especialmente de soja, milho e trigo.
Portanto, fatores territoriais, como aglomerações industriais locais e identidades culturais desempenham um papel central na definição do foco e dos temas das feiras nas cidades de Ribeirão Preto-SP, Não-Me-Toque-RS e Cascavel-PR.
3.2 As principais feiras agropecuárias na França
Por meio de trabalhos de campo, constatamos que a França promove uma série de feiras que abrangem desde o agronegócio até os pequenos e médios produtores ligados aos padrões do chamado terroir. Esse conceito está relacionado ao território, à indicação geográfica e ao meio social e ambiental, distintos em relação ao solo, clima, topografia, população e às práticas agrícolas que influenciam o produto do campo. São territórios que apresentam certas características que os distinguem, do ponto de vista agronômico, dos seus vizinhos (Aveni, 2024).
A denominação terroir já foi utilizada no sentido de país e território, e atualmente designa a combinação entre o ambiente local e o savoir-faire, que confere suas especificidades a uma produção, geralmente alimentar (Aveni, 2024).
Esse conceito é amplamente utilizado nas principais feiras agropecuárias da França e também é aplicado em outros países europeus, principalmente na enologia e gastronomia, referindo-se à interação única entre aspectos espaciais, o solo, o clima e as práticas culturais locais que influenciam as características de um produto agrícola, como vinho, café́, queijo e cacau (Bonfante; Brillante, 2022). No contexto brasileiro, o conceito de terroir tem sido aplicado principalmente na produção de vinho, café́ e alimentos regionais (Oliveira et al, 2024).
Além do terroir, a França também conta com um sistema chamado Appellation d'Origine Contrôlée (AOC), denominação de origem controlada, com ênfase na denominação de origem protegida, e outros países europeus têm suas próprias abordagens adaptadas a suas tradições e produtos específicos, visto que, no âmbito normativo, a legislação da União Europeia visa a proteger produtos com características específicas associados a uma determinada origem geográfica, como vinho, queijo, alimentos tradicionais e produtos agrícolas (Aveni, 2024).
Essas considerações são importantes para compreender os objetivos das feiras francesas e os dilemas entre padrões de alimentos tradicionais, a agroecologia, a produção em pequena escala, os alimentos ultraprocessados e o agronegócio globalizado.
No que diz respeito às soluções para os pequenos e médios produtores, principalmente de alimentos tradicionais, um elemento em comum nas feiras Space, Journée Agri-Business Cofarming e Salón International de l'Agriculture foi a presença de instituições de fomento à agricultura familiar e aos pequenos e médios produtores, como a Confédération Paysanne (CP)4 e os Chambres d’Agriculture5, agentes importantes dos círculos de cooperação no espaço dos circuitos espaciais produtivos dos segmentos de laticínios, cereais, viticultura, pecuária, agricultura (frutas, hortaliças), raízes e tubérculos e produção orgânica.
Essas duas instituições se apresentavam em estandes e realizavam palestras sobre fomento e auxílio aos pequenos e médios produtores, com o apoio da interação por meio da copresença e situações face-a-face em todas as feiras analisadas.
Ambos os agentes fomentam a comercialização dos produtos agroalimentares em sistemas com venda direta do produtor ao consumidor ou venda indireta por meio de um único intermediário, tendo como base a proximidade geográfica e relacional entre produtores e consumidores e circuitos curtos.
O principal aspecto desse processo é a fundamentação na origem local e identificada do produto, como a rastreabilidade e sazonalidade, com papel decisivo do produtor, sobretudo pequenos e médios, em todas as fases da produção, na transformação e na comercialização das mercadorias.
O apoio à venda por meio de canais de distribuição abarca o desenvolvimento e capacitação no processamento dos produtos, a comunicação em rede, as estratégias logísticas, etc., bem como investimentos substanciais em laboratórios, equipamentos e veículos. Para esses processos, os Chambres d’Agriculture e a Confédération Paysanne oferecem pacotes de apoio, como treinamento especializado em assuntos específicos, visibilidade para o público nas redes sociais, eventos, ferramentas de comunicação e publicidade, organização comercial com mercados de agricultores, visitas técnicas em fazendas, inserção em rede de agricultores e consultoria de equipe técnica multidisciplinar.
Tanto os estandes para venda de produtos, equipamentos e metodologias de produção quanto as entidades como a Confédération Paysanne e os Chambres d’Agriculture demandam uma forma de interação face-a-face entre profissionais especializados que se relaciona às necessidades dos vários setores da agropecuária. Assim, as feiras e os agentes dos círculos de cooperação, desde a escala local à escala global, têm condições para a realizar cooperação, trocas e difusão de conhecimento tecnológico.
Ressaltamos também a presença, em todas as feiras, do Ministério da Agricultura e Alimentação e da instituição de pesquisa e desenvolvimento francesa Institut National de la Recherche Agronomique et Environnement (INRAE)6.
A Feira Space, que acontece na cidade de Rennes, é um evento anual dos mais importantes no setor da agropecuária na França e na Europa, reunindo produtores, empresas, startups, laboratórios, o Ministério da Agricultura e Alimentação, instituições de pesquisa e demais atividades dos setores de carne bovina (leite e carne), aves, suínos, ovinos, caprinos, coelhos e aquicultura, com destaque às exposições de maquinário e inovações tecnológicas do setor.
A edição da feira em 2024 contou com 1.200 expositores no chamado “coração do grande oeste”, uma das principais regiões de criação de gado da Europa, num ambiente em que produtores se encontram e têm contato com empresas e instituições de desenvolvimento de tecnologia nos ramos da genética e monitoramento animal, IoT e IA. Houve patrocínio do Banque Populaire, um dos maiores bancos para crédito agrícola, e de corporações transnacionais de fertilizantes, defensivos e sementes, como a Yara e Syngenta.
Essa feira tem muito em comum com o Salón International de l’Agriculture em Paris, cuja 60ª edição, em 2024, teve a maior dimensão de todas as feiras da França, com cerca de 600 mil visitantes. Nela houve debates sobre as políticas agrícolas da Europa e estandes sobre tecnologia aplicada no campo, Agtechs, aquicultura e ferramentas digitais e analíticas aplicadas ao plantio e criação de animais. O evento foi patrocinado por grandes empresas, por exemplo, a Delaval, uma das maiores empresas produtoras de leite da França, e o Banco Crédit Agricole para financiamento de produção agrícola, presente nas duas feiras citadas.
A feira Journée Agri-Business Cofarming, em La Roche Sur-Yon, aconteceu no departamento chamado Vendée, na região noroeste da França, influenciada pelos atributos dessa região, que é um importante polo agropecuário, sobretudo da criação de gado e frango, com muitas empresas agroalimentares que empregam as tradições culinárias locais, como a produção de presunto cru com Indicação Geográfica Protegida (IGP). Além da criação de gado e frango, há influência de vários portos de pesca importantes, como o Les Sables-d'Olonne com a criação de peixes e ostras.
Essa feira reúne produtores rurais de várias grandezas, cooperativas de fazendas experimentais que usam IoT, cooperativas agrícolas como a Cavac (que atende produtores da região de Vendée) e estandes de instituições francesas de pesquisa aplicada às tecnologias na produção de alimentos, meteorologia, IoT, tecnologia veterinária, agroecologia, ações normativas de intercâmbio comercial e tecnológico entre departamentos e comunas, capacitação de produtores, Agtechs e parcerias com as instituições de pesquisas importantes da França, como INRAE.
O tema da matriz energética, envolvendo a implantação de infraestruturas e o aumento dos valores de energia elétrica, gás e combustíveis fósseis que impactam na produção foi tratado quase que pela totalidade dos expositores nas feiras Space, Salón International de l'Agriculture e Journée Agri-Business Cofarming, com várias discussões e palestras sobre o uso de tecnologias alternativas, como as fotovoltaicas, na produção agropecuária na França e na União Europeia como um todo, numa busca de soluções energéticas mais econômicas.
Ressaltamos que, em 2022, a França começou a importar, após 40 anos, energia da Espanha, Suíça, Reino Unido e, especialmente, da Alemanha. O último país está sob intensa pressão energética, principalmente por causa da interrupção (ou menor fornecimento) de gás da Rússia, em consequência da guerra entre Ucrânia/ OTAN e Rússia (Marques, 2024).
Além disso, a empresa estatal francesa Électricité de France (EDF) diminuiu a geração de eletricidade nas usinas nucleares, sobretudo dos rios Ródano e Garonne, na região sudeste do país, pois o recente aquecimento de suas águas reduziu a capacidade desses rios de resfriar as usinas, tendo em vista que o aumento da temperatura é nocivo para a vida aquática.
Essa crise é também agravada pelo desligamento de metade dos 56 reatores nucleares do país em 2022, ação necessária para manutenção, reparação ou por limitações de infraestrutura. Como resultado, a geração de energia pelo parque nuclear francês em 2023/2024 foi a menor em mais de três décadas (ASNR, 2024), acompanhada de uma elevação significativa dos preços da energia: o preço da eletricidade aumentou cerca de 100%, de € 0,1256/kWh em 2020 para € 0,2516/kWh em 2025 (Ministères Territoires Écologie Logement, 2025).
As três feiras têm em comum, além do tema da transição energética, a fundamentação de suas ações segundo a especialização dos lugares e das cidades, como é o caso de Rennes e La Roche Sur-Yon, com uma atividade agropecuária importante, e Paris, capital da França, onde acontecem os negócios, trocas financeiras e demais acordos e conversações mais próximos com o Ministério da Agricultura e Alimentação. Ocorre, a partir daí, uma adaptação das feiras às exigências de cada atividade no campo, domínio profissional especializado e mercados de consumo específicos.
Assim, podemos verificar que, no período atual, o foco das feiras de vários setores não é somente as vendas, mas sobretudo os fluxos de informações entre fornecedores, consumidores e empresas competidoras, isto é, as redes de relações que podem gerar ganhos tangíveis (financeiros) e intangíveis (capital simbólico, como confiabilidade, qualidade e relacional) (Vendrusculo, 2017).
Destacamos que, atualmente, os centros de exposições na França são geralmente propriedades conjuntas da Câmara de Comércio local (acionista majoritária) e de empresas privadas de gestão imobiliária (acionista minoritária). As feiras internacionais são predominantemente organizadas por empresas privadas e, em alguns casos, por associações de comércio (Bathelt; Golfetto; Rinallo, 2014).
O papel da estrutura industrial local/regional gerou uma alta demanda por exposições e, ao longo dos anos, resultou no estabelecimento de várias feiras internacionais importantes. A especialização dos eventos nas principais feiras da França é, em grande parte, uma resposta aos processos de especialização nos sistemas de produção do país, marcado pela consolidação de sistemas agroindustriais e por uma forte presença de instituições de apoio técnico e associativo.
Nesse contexto, esses eventos refletem não apenas a força de determinados setores agropecuários, mas também a articulação entre a produção e o território, frequentemente relacionada a regiões com denominação de origem e a práticas produtivas próprias de um terroir específico.
Há importante participação de instituições representativas da agricultura de pequeno e médio porte, como a Confédération Paysanne (CP) e os Chambres d’Agriculture, em feiras de caráter internacional, e que desempenham papel relevante na mediação entre produtores, Estado e mercado. Também notamos que as feiras francesas costumam se articular intensamente a territórios específicos, promovendo e valorizando a diversidade regional como componente de competitividade e identidade econômica.
Os estudos sobre as feiras agrícolas, de modo geral, podem contribuir para compreender de que modo elas se configuram como arenas de cooperação produtiva e tecnológica, e expressam tanto as estratégias corporativas quanto as formas de territorialização da produção agropecuária em todas as suas grandezas, do pequeno ao grande produtor, em distintas formações socioespaciais.
Considerações finais
As feiras comerciais de caráter internacional do setor da agropecuária são formas de proximidade geográfica temporária no contexto do período técnico-científico-informacional, e têm um funcionamento importante como agentes dos círculos de cooperação no espaço nos diversos circuitos espaciais produtivos desse setor.
Tais eventos não se limitam a atuar exclusivamente como instrumentos para reunir a fragmentação da produção global, mas também desempenham um papel como elementos das novas dinâmicas de integração entre economia e território em diversos tipos de formações socioespaciais, seja no Brasil ou na França.
As feiras refletem uma economia global, sobretudo na produção de alimentos, commodities, matérias primas e demais mercadorias provenientes do campo, cada vez mais dependentes de informações e conhecimento, influenciando a economia global por meio da produção de formas de co-presença temporárias, o que pode gerar novos modelos de círculos de cooperação espacial no período atual.
Destacamos que a união de diversos agentes da economia agropecuária - de escalas locais, regionais, nacionais e globais - está fundamentada num mesmo universo de relações, pois se trata de uma rede que vincula segmentos específicos de determinado circuito espacial produtivo, cuja abrangência ultrapassa a escala geográfica de atuação de cada agente de forma individual. A base dos círculos de cooperação no espaço que conecta todos os agentes são os laços na construção de redes e na propagação de um tipo de solidariedade coerente à globalização.
Aqui, o conceito de laços (Lazzarini, 2011) deriva das relações sociais que estão enraizadas tanto nas estratégias empresariais quanto nas interações de mercado. Esses laços funcionam como canais por meio dos quais circulam informações, conhecimentos e práticas empresariais e produtivas.
Concomitantemente a esses nexos, ocorre a transformação da composição técnica do território, que intensifica os fluxos de pessoas, objetos e informações, tornando mais complexa a vida de relações dos lugares, empresas e das pessoas inseridos tanto na formação socioespacial brasileira quanto na francesa.
E, nesse contexto, as diferentes feiras agropecuárias analisadas, em um campo industrial/tecnológico, sugerem que esses aglomerados temporários estão interconectados: os eventos têm agendas que se sobrepõem, atraindo diferentes grupos de participantes com expectativas diversas que demonstram objetivos variados de participação.
Logo, os círculos de cooperação no espaço fazem a mediação entre os atores envolvidos na produção agrícola e o consumidor final e impulsionam os circuitos espaciais produtivos agropecuários em diferentes escalas, intensificando os fluxos de produtos, capitais, ordens e informações.
Essas feiras fazem parte de um ciclo contínuo e integrado de outros eventos que conduzem à geração reflexiva e cumulativa de conhecimento no campo, e são fundamentais para o fomento da produção, parcerias, trocas comerciais e desenvolvimento de ciência na agropecuária. Os impactos dessas ações nos territórios brasileiro e francês se dão conforme a complexidade no campo de ambos os países: a coexistência de diferentes formas, as lutas de classes, conflitos, contradições, complementaridades, fatores externos, como os recentes conflitos territoriais e de taxações de produtos importados, e toda a diversidade do campo que não se resume somente a agronegócio ou somente a campesinato, mas abarca também a convivência conflituosa entre todos esses elementos.
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1
Grafamos “feiras” no lugar de “feiras comerciais de caráter internacional” no decorrer do texto pois são muito recorrentes neste artigo.
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2
Agtechs são empresas, geralmente startups, cuja finalidade é produzir inovações para as atividades agropecuárias, com base no Big Data, na IoT e na inteligência artificial.
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3
O Plano Safra é um programa do Governo Federal que tem como objetivo fornecer recursos para o financiamento de atividades agrícolas no Brasil.
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4
A CP é um sindicato agrícola com 30 anos e reúne pequenos agricultores que cultivam alimentos em pequenas comunidades, em fazendas de menor escala com uso racional de recursos naturais. A CP tem como pressuposto a soberania alimentar, rastreabilidade na compra, produção, processamento e venda de produtos, com máximo de autonomia na administração das fazendas e dignidade no trabalho. O sindicato também busca parcerias com outras partes interessadas do setor rural, visando a diversidade nas populações de animais criados e nas variedades de plantas cultivadas. Nas feiras agrícolas, a CP dá suporte aos produtores para questões ambientais, como no caso de danos agrícolas, bem como orienta no âmbito de biossegurança, desenvolvimento de agroecologia, vacinas, tratamento contra pragas, compra de terreno para projetos de produção agrícola, treinamentos técnicos, atendimento jurídico ligado à terra, impostos e condições de trabalho. Há também um esforço em apoiar produtores que desejem manter práticas adaptadas ao seu modo de vida e resistir contra a apropriação de terras por investidores estrangeiros e empresas (Confédération Paysanne, 2024).
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5
Os Chambres d’Agriculture, também fortemente presentes nas feiras, são órgãos consulares em operação na França desde 1924 e representam os diferentes agentes econômicos das atividades agropecuárias, como agricultores, proprietários de terras, funcionários, organizações agrícolas, cooperativas, instituições de crédito e sindicatos. O objetivo é apoiar os agricultores no desenvolvimento técnico, científico, econômico e social, e, ao participarem dos Chambres d’Agriculture, eles podem ser convocados pelas autoridades locais para tratar de questões de desenvolvimento regional. Essa entidade é dividida em Chambre National, a escala nacional que representa os Chambres d’Agriculture, e é responsável por fornecer serviços públicos, coordenar missões em escala local ou regional, definir diretrizes e condições para a implementação de políticas agrícolas, para desenvolvimento rural e ambiental definidas pelo Estado, pelas regiões francesas e pela União Europeia, e fornecer suporte técnico, jurídico, econômico e financeiro aos produtores agropecuários (Chambres d’Agriculture, 2024). Os Chambres também são importantes no apoio para criação de pequenas empresas de processamento de leite, laticínios, comercialização de carne e produção agrícola nos chamados circuitos curtos.
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6
O INRAE é um dos maiores institutos de pesquisa da França (com 18 centros de pesquisa localizados no país e cerca de 10 mil funcionários) e da Europa em ciência e tecnologia aplicadas à agricultura, com objetivo de fomentar políticas de segurança alimentar e nutricional, transição agrícola (agroecologia, redução do uso de produtos químicos), gerenciamento de recursos naturais e ecossistemas (água, solo, florestas), proteção da biodiversidade, economia circular e riscos naturais. Também trata de temas como condições de vida e remuneração de agricultores, competitividade econômica das empresas, planejamento regional e acesso a alimentos saudáveis e diversificados (INRAE, 2025).
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Declaração de disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
