Open-access Adesão de pessoas diagnosticadas com transtorno mental à assistência do Sistema Único de Saúde: revisão de escopo

Adhesión de personas diagnosticadas con trastorno mental a la asistencia del Sistema Brasileño de Salud: revisión de alcance

Resumo

A presente revisão de escopo objetivou mapear o conhecimento científico sobre adesão de pessoas com transtorno mental aos serviços de Saúde Pública do Brasil. A busca em bases bibliográficas resultou em 27 publicações, nas quais predominou a avaliação da adesão a medicamentos por instrumentos e entrevistas, as associações entre as variáveis estudadas e a participação de usuários de Centros de Atenção Psicossocial com transtornos mentais específicos. Não houve consenso sobre critério, definição ou método de mensuração, exceto sobre fatores positivos e negativos à adesão. No entanto, a literatura existente não reflete a multifatorialidade do fenômeno, tampouco evidencia a relevância das intervenções não medicamentosas e da participação do usuário no acompanhamento. Considerando-se a adesão um indicador de qualidade e fator de redução de gastos em Saúde Pública, sugerem-se estudos com delineamentos robustos e condizentes com a realidade nacional.

Palavras-chave
Cooperação e adesão ao tratamento; Sistema único de saúde; Transtornos mentais; Saúde mental; Revisão


Abstract

This scoping review aimed to map scientific knowledge on adherence to public health services among people with mental disorders in Brazil. The search of bibliographic databases resulted in 27 publications, which predominantly evaluated medication adherence using instruments and interviews, the associations between the variables studied, and the participation of users of Psychosocial Care Centers with specific mental disorders. There was no consensus on criteria, definition, or measurement method, except for positive and negative factors for adherence. However, the existing literature does not reflect the multifactorial nature of the phenomenon, nor does it highlight the relevance of non-pharmacological interventions and user participation in follow-up. Considering adherence to be an indicator of quality and a factor in reducing public health costs, the article suggests studies with robust designs consistent with the national context.

Keywords
Cooperation and adherence to treatment; Brazilian National Health System; Mental disorders; Mental health; Review


Resumen

El objetivo de la presente revisión de alcance fue mapear el conocimiento científico sobre la adhesión de personas con trastorno mental a los servicios de salud pública de Brasil. La búsqueda en bases bibliográficas resultó en 27 publicaciones en las cuales predominó la evaluación de la adhesión a medicamentos por medio de instrumentos y entrevistas, las asociaciones entre las variables estudiadas y la participación de usuarios de Centros de Atención Psicosocial con trastornos mentales específicos. No hubo consenso sobre criterio, definición o método de medición, excepto sobre factores positivos y negativos para la adhesión. No obstante, la literatura existente no refleja la multifactorialidad del fenómeno, ni tampoco evidencia la relevancia de las intervenciones no medicamentosas y de la participación del usuario en el acompañamiento. Considerándose la adhesión como un indicador de calidad y factor de la reducción de gastos en salud pública, se sugieren estudios con delineaciones robustas y adecuadas a la realidad nacional.

Palabras clave
Cooperación y adhesión al tratamiento; Sistema Brasileño de Salud; Trastornos mentales; Salud mental; Revisión


Introdução

A adesão é definida como aceitação ou concordância de uma pessoa que busca assistência em saúde com a proposta elaborada em conjunto com os profissionais responsáveis, de forma ativa e voluntária. Esse contexto requer cooperação, implementação, persistência e manutenção de comportamentos que correspondam ao plano de cuidado1,2.

Considerada um fenômeno multifatorial, processual, dinâmico e colaborativo, a adesão abrange aspectos físicos, psicológicos, sociais e culturais. É influenciada por fatores relacionados ao problema de saúde e suas possíveis comorbidades, à assistência prestada pelos serviços, às questões subjetivas e comportamentais do usuário, aos sistemas e às equipes de saúde, e à situação socioeconômica3-5. Recomenda-se, assim, o uso de uma abordagem multidimensional que utilize diferentes métodos para avaliar o fenômeno, além de desenvolver e aprimorar estratégias para superação de barreiras identificadas6.

No que diz respeito à adesão de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais, pesquisas recentes destacam a importância de aspectos para aumentá-la como: uso de tecnologia e meios de comunicação para desmistificar o tratamento medicamentoso7; confiança na equipe e satisfação com a assistência prestada8; intervenções voltadas para os determinantes sociais dos transtornos mentais9; participação dos familiares no tratamento10; consideração dos fatores que influenciam a adesão de cada ação específica11; compreensão de facilitadores e barreiras à adesão aos medicamentos12; e recuperação da implementação de ações na Saúde Pública prejudicadas pela pandemia do Covid-1913. A atual compreensão biopsicossocial da saúde-doença e da assistência, além da centralização do usuário no processo de cuidado, possibilita que, pela mediação de profissionais, a pessoa aceite e conheça sua condição, participe ativamente do tratamento e desenvolva recursos de autogestão2.

Nas últimas décadas, diversos países avançaram significativamente na área de Saúde Mental com a promoção de práticas e tecnologias baseadas em evidências. Foram ampliadas as discussões sobre a temática e o reconhecimento da importância por profissionais, líderes políticos e pela comunidade. Houve a disseminação de conhecimentos por meios de comunicação, o interesse das agências internacionais e a implementação de políticas e programas nacionais e globais14. Por outro lado, a não adesão de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais permanece um problema de Saúde Pública. Há inúmeras lacunas como subfinanciamento, baixa disponibilidade e alto custo de medicamentos, além de falta de acessibilidade, abordagens não farmacológicas e equipes treinadas para realizar intervenções específicas14,15.

No Brasil, a assistência às pessoas com transtornos mentais e/ou demandas decorrentes do uso de substâncias psicoativas é ofertada pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa rede oferece assistência integral, interprofissional e intersetorial, buscando promover ações de promoção, prevenção, assistência, cuidado, reabilitação e reinserção em serviços diversificados de forma ampliada, integrada, articulada e efetiva16,17. É composta por serviços como: Unidade Básica de Saúde (UBS), Consultório na Rua, Centro de Convivência e Cultura (Ceco), Centro de Atenção Psicossocial (Caps), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Serviço de Atenção em Regime Residencial, Unidade de Acolhimento (UA), Hospital Geral, Serviço Residencial Terapêutico (SRT), Programa “De Volta para Casa” (PVC) e Estratégias de Reabilitação Psicossocial18,19.

Estruturada em consonância com os princípios doutrinários e organizacionais do SUS20, observaram-se avanços significativos na assistência pública à Saúde Mental no Brasil, com a criação de dispositivos como a Clínica Ampliada e o Projeto Terapêutico Singular (PTS)21, que partem dos princípios de desinstitucionalização, participação social, cuidado em liberdade, reabilitação psicossocial e garantia de direitos humanos da Reforma Psiquiátrica. No entanto, observou-se um retrocesso notório na última década22, agravado pelos impactos da pandemia do Covid-1923. Como em toda a América Latina, ainda predomina o discurso biomédico que limita a assistência em Saúde Mental às prescrições psicofarmacológicas, em detrimento de outras abordagens2,24,25.

A adesão à assistência é um indicador de qualidade na avaliação dos serviços públicos de saúde no Brasil, além de refletir o progresso quanto às metas definidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS)15. Este estudo visa facilitar o acesso ao conhecimento existente, possibilitando novas reflexões que contribuam para auxiliar a tomada de decisão de profissionais, assim como o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas que sejam informadas por evidências. Tem por objetivo mapear o conhecimento científico sobre adesão à assistência em saúde de pessoas diagnosticadas com transtorno mental nos serviços do SUS do Brasil.

Métodos

A presente Revisão de Escopo (RE) / Scoping Review, resultado de um Trabalho de Conclusão de Especialização em Saúde Pública, foi realizada de acordo com as orientações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Prisma)26, Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses - Scoping Review (Prisma-ScR)27 e do Joanna Briggs Institute Manual for Evidence Synthesis for Scoping Reviews28. O Protocolo de Revisão de Escopo foi elaborado com base no Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Protocol (Prisma-P)29 e registrado no Open Science Framework. O projeto de pesquisa foi avaliado pela Comissão de Pesquisa da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e seguiu as diretrizes das Resoluções CNS n. 466/1230 e CNS n. 510/1631, ainda que não tenha tido necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).

Estratégias de busca

O acrônimo PCC (População-Conceito-Contexto) foi utilizado para elaborar a questão de pesquisa: “O que existe na literatura científica sobre adesão à assistência em saúde (Conceito) de pessoas diagnosticadas com Transtorno Mental (População) que são acompanhadas no SUS do Brasil (Contexto)?”.

Inicialmente, foi realizada uma busca utilizando Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), que serviram como base para as estratégias de busca utilizadas nas bases eletrônicas de dados bibliográficos. A busca, atualizada no dia 11 de novembro de 2024, foi realizada nas seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via PubMed, Scopus, Embase e Web of Science.

No mesmo dia, foi realizada uma pesquisa por literatura cinzenta no Google Scholar, abrangendo as cem primeiras publicações por relevância; na Scientific Electronic Library Online (SciELO); na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD); e em sites de instâncias governamentais nacionais como o Ministério da Saúde (MS), e internacionais, como a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Não foi estabelecida qualquer restrição de data ou idioma. Para a organização dos dados, foram utilizados os softwares Zotero como gerenciador de referências bibliográficas32 e Rayyan para seleção inicial de resumos e títulos33.

Critérios de elegibilidade

A presente RE incluiu publicações que tinham por objeto de estudo a adesão à ação de assistência em Saúde Mental realizada pelo SUS do Brasil para pessoas diagnosticadas com transtorno mental. As fontes de evidência foram: artigo científico, tese de Doutorado, dissertação de Mestrado, trabalhos de conclusão de curso de Graduação, especialização ou residência e documentos publicados por órgãos governamentais e organizações internacionais. Já os critérios de exclusão foram: estudos em animais e pessoas menores de 18 anos, cartas ao editor, livros, estudos de caso, séries de casos, artigos de opinião, manuais, resumos e banners de congressos, artigos incompletos e não disponíveis após três tentativas de contato com o autor durante três semanas.

Os artigos duplicados nas bases de dados foram excluídos, segundo diretrizes internacionais. Foi conduzida uma verificação prévia cuidadosa para identificar eventuais erratas ou retratações nos artigos selecionados. Publicações sem resumo, ou cujo título não fosse suficientemente claro, foram incluídas para posterior análise.

Extração de dados

Inicialmente, foi realizado um teste-piloto para alinhar os revisores e definir os critérios de elegibilidade. Em seguida, dois revisores realizaram a seleção das publicações com auxílio do software Rayyan, utilizando a blindagem das decisões e avaliações, além da eliminação de duplicatas não identificadas pelo software Zotero. Divergências foram resolvidas por consenso ou decisão de um terceiro revisor.

Todos os artigos selecionados para leitura na íntegra foram lidos por, no mínimo, um pesquisador. As variáveis extraídas foram registradas em planilha excel® para análise posterior, sendo elas: ano, nome do(s) autor(es), título, tipo de publicação, idioma, local de realização do estudo, periódico, tipo de estudo, objetivos, metodologia, critérios de avaliação do fenômeno, instrumentos utilizados, população/participantes, transtorno mental, serviço da Raps, intervenção, definição do fenômeno, resultados e conclusões.

Análise de dados e apresentação dos resultados

Foi elaborado um fluxograma para representar o processo de seleção dos artigos, incluindo o número final de publicações e as justificativas para exclusões após leitura na íntegra. Uma síntese narrativa foi elaborada para contextualizar os achados. Os resultados foram extraídos e mapeados de forma descritiva, com contagem simples da frequência dos aspectos identificados e apresentados em figuras e tabelas para facilitar a visualização e a interpretação dos dados.

Resultados e discussão

Durante o processo de busca e seleção de dados, descrito na Figura 1, foram excluídos dois estudos disponíveis parcialmente por estarem em fase de submissão para publicação, conforme informado pelos autores. Outros dois estudos não foram encontrados na íntegra, nem se obteve retorno de e-mail. Identificou-se significativa similaridade entre dois estudos, ambos não publicados, o que levou à decisão de excluí-los. Além disso, dois artigos foram selecionados para substituir uma dissertação de Mestrado e uma tese de Doutorado.

Figura 1
Fluxograma do processo de seleção das publicações sobre adesão a serviços de Saúde Mental no Brasil. Brasil, 2025.

Como demonstrado na Figura 2, o estudo mais antigo encontrado foi publicado em 1998 e o mais recente, em 2021.

Figura 2
Distribuição dos estudos incluídos na revisão de escopo, segundo o ano de publicação. Brasil, 2025.

De acordo com a Figura 3 e a Tabela 1, nas quais são apresentadas variáveis referentes às 27 publicações34-60 incluídas na revisão, destaca-se que 19 eram publicações de periódicos científicos, 11 deles da área de Enfermagem, com delineamento observacional (n=19), sendo apenas um ensaio clínico randomizado controlado55, escritos em português (n=19) e realizados no estado de São Paulo (n=13). Os resultados ressaltam a importância de incentivar estudos sobre o tema61 e sistematizar produções que promovem reflexões e incentivam pesquisadores a se aprofundar no tema, a repensar a acessibilidade da produção científica e a investigar os desdobramentos da questão de pesquisa em outras regiões do Brasil.

Figura 3
Local de realização do estudo das publicações incluídas na revisão. Brasil, 2025.
Tabela 1
Distribuição dos estudos, segundo tipo de publicação, idioma, periódico e tipo de estudo. Brasil, 2025.

Todas as pesquisas analisadas destacaram a multifatorialidade da adesão, e alguns autores36,38,41,53,56,60 enfatizaram a variedade de compreensões sobre ela. Em dez estudos, é utilizada a definição da OMS5 e predomina o entendimento de que aderir significa compreender, concordar, participar, adotar e manter as recomendações e indicações dos profissionais da saúde. Para um dos autores54, adesão envolve estar vinculado com a instituição, tendo início no acolhimento e encerramento na alta ou na interrupção. Em três estudos41,45,46, a adesão ao tratamento medicamentoso é definida como seguir a prescrição em pelo menos 80% do tempo total de observação. A pesquisa que estudou o abandono (dropout)43 não definiu o fenômeno; duas definiram a não adesão42,55 como oposto de adesão; e dez34,35,37,39,40,44,47,51,57,58 não definiram o fenômeno estudado.

Na Tabela 2, encontram-se objetivos, métodos e instrumentos utilizados nos estudos incluídos. Destaca-se que apenas um estudo avaliou a satisfação e a percepção dos usuários54, apesar de ser um aspecto indispensável para promover a adesão62. Embora apenas dois estudos tenham identificado o impacto de uma intervenção na adesão44,55, como um fenômeno multifatorial que enfrenta impasses na Saúde Pública, é imprescindível incentivar pesquisas sobre ações como Testes Farmacogenômicos63 e Telefarmácia64 que são mais adequados e viáveis para o atual contexto socioeconômico brasileiro.

Tabela 2
Distribuição dos estudos incluídos, segundo os objetivos, a metodologia e os instrumentos utilizados. Brasil, 2025.

Quanto aos métodos, observou-se que a maioria utilizou entrevistas estruturadas e/ou semiestruturadas (n=24) com ou sem uso de questionários para coleta de dados, e empregou outros instrumentos (n=15) como testes, índices e escalas. Destaca-se que em 16, os autores empregaram, como estratégia de análise, os escores dos instrumentos. Contudo, todos eles mensuram apenas a adesão ao(s) medicamento(s). Nas outras cinco publicações, dentre as 21 que informaram os critérios, os autores os descreveram como: comparecimento semanal às atividades conforme os encaminhamentos34; conclusão de um ano de acompanhamento da pesquisa57; taxa de comparecimento igual ou superior a 50% nas atividades58; e permanência em tratamento, por, no mínimo, noventa dias, respeitando seu PTS59. Em outro estudo43, foi considerado abandono quando o usuário compareceu à primeira consulta, mas faltou às subsequentes durante o período avaliado.

Percebe-se que não há consenso sobre a definição do fenômeno, apesar de sua necessidade65, nem sobre o critério para avaliá-lo e o método para mensurá-lo, assim como faltam informações detalhadas sobre as evidências de validade dos instrumentos, que foram originalmente desenvolvidos para outras populações, contextos e problemas de saúde, podendo não refletirem a realidade brasileira de Saúde Mental66. Em projetos que buscaram e buscam padronizar a avaliação em saúde67,68, destaca-se a necessidade de implementar uma cultura de análise de dados na Raps, em especial de resultados de intervenções em serviços que carecem de instrumentalização. Da mesma forma, desenvolver indicadores de qualidade que incluam a adesão e a eficácia do cuidado prestado69. Observa-se que todos os instrumentos citados avaliam a adesão medicamentosa mensurando apenas fatores subjetivos e comportamentais, o que também os impede de compreender e contextualizar adequadamente os resultados, embora reconheçam essa adesão como multifatorial.

Em seguida, na Tabela 3, são apresentados os transtornos mentais, serviços de saúde e intervenções estudados nas publicações incluídas. Em 16 estudos, o enfoque foi dado a transtornos mentais específicos. Destaca-se que apenas 15 pesquisas informaram a qual classificação se referiam, sendo 1434,35,37-39,43-46,52,53,57,59,60 embasadas na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e uma55 no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V). É importante informar o referencial para compreensão sobre quais critérios diagnósticos são considerados.

Tabela 3
Distribuição dos estudos, segundo transtornos mentais, serviços de saúde e intervenções estudadas. Brasil, 2025.

Em 25 pesquisas, os participantes eram usuários da Raps e, dentre esses, uma estudou egressos de internação psiquiátrica39, outra estudou não aderentes44 e duas estudaram usuários e seus familiares34,38. Apenas duas pesquisas tiveram por participantes os profissionais, sendo em uma, enfermeiros50 e em outra, a equipe multiprofissional (assistente social, enfermeiros, psicólogos, médico clínico-geral, médico psiquiatra, terapeuta ocupacional e técnico de enfermagem)48.

A maioria dos estudos aconteceu em serviços especializados e apenas um51 colheu informações de mais de um serviço (Hospital, Caps II, Ambulatório Regional de Saúde Mental, Núcleo de Saúde Mental e Ambulatório de Saúde Mental da UBS). Já quanto a intervenção, prevaleceram estudos sobre a adesão ao(s) medicamento(s) e apenas três avaliaram intervenções não medicamentosas34,43,58. Como mencionado anteriormente, o cuidado em Saúde Mental precisa ser articulado entre os pontos de atenção da Raps, envolvendo equipes multiprofissionais, uso do PTS, diversas modalidades de cuidado e serviços intersetoriais.

É importante que as pesquisas mostrem um panorama da adesão aos diferentes serviços e às ações de cuidado, como de promoção e prevenção na APS70. As pesquisas investigaram a adesão de pessoas que já tinham acesso aos serviços, o que limita o entendimento desse fator em populações, como pessoas em situação de rua71. Sugere-se o investimento em tecnologias que possibilitem o acompanhamento do usuário, a integração das redes intersetoriais e a articulação entre diferentes níveis de atenção, desde a APS, com participação dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), tendo o território e o auxílio de egressos de internações hospitalares e intervenções clínicas como aliados à potencialização do cuidado.

Em relação às intervenções medicamentosas, na Tabela 4, apresentam-se os fatores positivos e negativos que influenciam a adesão, encontrados nos resultados dos estudos analisados. Não foram incluídas as pesquisas42,45,53,60 que não encontraram associações estatísticas significativas entre o fenômeno e as variáveis estudadas. Embora os fatores identificados estejam alinhados à literatura disponível5,6,72, a ausência de associações estatisticamente significativas limita conclusões mais robustas.

Tabela 4
Fatores positivos e negativos que influenciam a adesão medicamentosa. Brasil, 2025.

Quanto às intervenções não medicamentosas, o estudo que avaliou o Programa de Atendimento Domiciliar (Pado) observou que a maioria dos usuários e suas famílias aderiu às intervenções propostas, o que resultou na redução de internações psiquiátricas por facilitar a manutenção do acompanhamento ambulatorial34, algo que é esperado com o incentivo das propostas de desinstitucionalização da Raps73. A pesquisa que analisou o abandono das ações Avaliação/Aconselhamento, Tratamento Simbólico (Psicoterapia) e Medicamento ofertadas por um Centro Regional de Referência em Saúde Mental, identificou taxa de adesão alta e variáveis associadas ao abandono, como: duração do tratamento inferior a sessenta dias, renda inferior a um salário mínimo, alto controle de impulsos/tolerância à frustração e nível médio de insight. Porém, não foi observada associação entre abandono e modalidade de tratamento adotada43.

Já o estudo realizado sobre as Atividades Multiprofissionais Coletivas (CMPA), identificou que a maioria dos usuários apresentou baixa adesão à intervenção, mas avaliou o tratamento medicamentoso importante, apresentou boa adesão aos medicamentos e frequentou consultas psiquiátricas. Os motivos das ausências atribuídos pelos usuários incluem: doenças clínicas, compromissos médicos, desmotivação, responsabilidades com familiares, dificuldades financeiras, sintomas psiquiátricos e diagnóstico psicótico de base. Os fatores com significância estatística associados à adesão são: Positivos - benefício permanente; Negativos - maior número de filhos, filhos menores de 14 anos, maior número internações psiquiátricas após a admissão no Caps, baixa frequência em atividades grupais, ausência de renda e má adesão medicamentosa58.

Nos dois estudos que avaliaram o Programa de Atenção a Dependentes Químicos (PADQ), foram identificados fatores positivamente associados à adesão ao tratamento, por exemplo, ter filhos; achar que tem problemas psicológicos; desejo persistente ou esforços para reduzir ou controlar uso da substância; abandono ou redução de importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas em função do uso da substância; procura voluntária por tratamento no PADQ35,37; saber por que consome álcool; redução do consumo por influência familiar; internação para tratamento por irritabilidade35; sentir-se autossuficiente, expansivo, insatisfeito e mal quando sóbrio37. Já os dois estudos que analisaram usuários diagnosticados com TUS, acompanhados no Caps AD, apesar de não especificarem as ações, indicaram associações entre a não adesão e, por exemplo, uso de crack, histórico prisional e preocupação com relacionamentos interpessoais59, efeitos colaterais, sensação de melhora ou cura, receio de dependência do medicamento, falta de comprometimento, fanatismo religioso e falta de rede de apoio; e entre a adesão e boas condições socioeconômicas, local de moradia seguro, vínculo com serviço de saúde, infraestrutura adequada do serviço e capacitação dos profissionais48.

Quanto ao grau de conhecimento sobre a condição clínica e o tratamento medicamentoso, pôde-se observar que, em sua maioria, o conhecimento de aspectos como nome do transtorno mental, além de dose, nome e frequência do(s) medicamento(s) em uso, de sete estudos, em cinco deles os participantes alcançaram níveis ≤50%38-41,47. Destaca-se a importância do letramento em saúde para a adesão ao tratamento, como também a compreensão da percepção subjetiva do usuário, da participação dele na criação do PTS por meio da identificação de dificuldades para aderir. Além disso, a promoção da Saúde Mental deve incluir estratégias para reduzir o preconceito e a estigmatização de pessoas com transtorno mental74, o que diminui, inclusive, a adesão ao paradigma psicossocial em detrimento do biomédico75.

Considerações finais

A presente Revisão de Escopo fornece um panorama da literatura disponível sobre a adesão de pessoas diagnosticadas com transtorno mental à assistência em serviços de Saúde Pública no Brasil. Os resultados permitem reflexões que incentivam pesquisadores e, consequentemente, outras instâncias da comunidade a investir em ações não farmacológicas, como é proposto pelo SUS. A limitação do estudo refere-se à impossibilidade de acesso a publicações pelas estratégias e bases bibliográficas utilizadas.

Sugere-se que estudos futuros compreendam a adesão com base nos princípios e diretrizes do SUS e da Reforma Psiquiátrica, em contraponto com a priorização de tratamentos medicamentosos e a tutela de usuários. Ademais, que realizem uma análise aprofundada sobre indicadores e instrumentos de adesão, para identificar qualidade metodológica de desenvolvimento, validação e propriedades psicométricas para a população; pesquisem sobre como uma intervenção afeta a adesão para propor projetos e políticas que a favoreçam; utilizem instrumentos direcionados para a realidade nacional, sejam menos heterogêneos e considerem delineamentos mais robustos; e possibilitem a criação e o uso de instrumentos que avaliam todas as dimensões que afetam a adesão. Nessa perspectiva, sugere-se a escuta de gestores, profissionais, familiares e usuários para identificar as percepções que têm sobre indicadores e fatores intervenientes no processo, além da participação nas tomadas de decisão.

Considerando a necessidade de diminuir gastos em Saúde Pública, a adesão é essencial para resultados de intervenções em Saúde Mental e um indicativo da qualidade dos serviços de saúde e da eficácia dos tratamentos, mas, pelo que foi encontrado, não há pesquisas nesse sentido. Destaca-se que há estudos que não identificam se o serviço de saúde estudado é próprio ou conveniado ao SUS. É importante que isso não aconteça para diferenciar as ações no país e valorizar a Saúde Pública que tanto tem sido sucateada para manter, também, o respeito às conquistas da Reforma Psiquiátrica.

Agradecimentos

À bibliotecária Raquel Schimitt Domingos, pelo apoio na escolha dos descritores e na criação das estratégias de busca, bem como pelas coordenadas.

  • Corrêa LM, Mombelli MA, Reis RA. Adesão de pessoas diagnosticadas com transtorno mental à assistência do Sistema Único de Saúde: revisão de escopo. Interface (Botucatu). 2026; 30: e250178 https://doi.org/10.1590/interface.250178
  • Financiamento
    A presente pesquisa não recebeu suporte financeiro para sua realização, seja de ordem pública ou privada.

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no SciELO Data e pode ser acessado em: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.TCMWAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    31 Mar 2025
  • Aceito
    17 Dez 2025
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