Resumo
O objetivo deste estudo foi analisar como as mídias digitais retratam o suicídio entre policiais penais, identificando narrativas predominantes, aspectos enfatizados e possíveis impactos na opinião pública. Foram coletadas 106 notícias em plataformas sociodigitais entre setembro de 2023 e março de 2025 por meio de estudo exploratório com método de rastreamento de tópicos. As publicações foram classificadas em três categorias: “Ocorrência” (25,5%), “Informativa” (29,2%) e “Medidas preventivas” (45,3%). A maioria das postagens partiu de sindicatos da categoria e de portais jornalísticos. A narrativa mais recorrente relaciona o aumento do suicídio entre policiais penais às precárias condições de trabalho e à necessidade de medidas de prevenção. Os resultados indicam que o discurso digital tende a reforçar o reconhecimento do sofrimento psíquico desses profissionais ao mesmo tempo em que demanda ações institucionais de cuidado e proteção à Saúde Mental.
Palavras-chave
Policial penal; Suicídio; Saúde mental; Redes sociais
Abstract
The objective of this study was to analyze how digital media portray suicide among prison officers, identifying predominant narratives, emphasized aspects, and possible impacts on public opinion. A total of 106 news reports were collected from social media platforms between September 2023 and March 2025 through an exploratory study using topic tracking methods. The posts were classified into three categories: "Occurrence" (25.5%), "Informative" (29.2%), and "Preventive measures" (45.3%). Most posts originated from labor unions and news portals. The most recurrent narrative links the rise in suicides among prison officers to precarious working conditions and the need for effective prevention measures. The results indicate that digital discourse tends to reinforce the recognition of the psychological suffering of these professionals, while also demanding institutional actions for mental healthcare and protection.
Keywords
Prison officers; Suicide; Mental health; Social media
Resumen
El objetivo de este estudio fue analizar cómo los medios digitales retratan el suicidio entre funcionarios de prisiones, identificando narrativas predominantes, aspectos enfatizados y posibles impactos en la opinión pública. Se colectaron 106 noticias en plataformas sociodigitales entre septiembre de 2023 y marzo de 2025, por medio de un estudio exploratorio con método de rastreo de tópicos. Las publicaciones se clasificaron en tres categorías: “Evento” (25,5%), “Informativa” (29,2%) y “Medidas preventivas” (45,3%). La mayoría de las publicaciones partió de sindicatos de la categoría y de páginas web periodísticas. La narrativa más recurrente relaciona el aumento del suicidio entre funcionarios de prisiones con las precarias condiciones de trabajo y la necesidad de medidas de prevención. Los resultados indican que el discurso digital tiende a reforzar el reconocimiento del sufrimiento psíquico de esos profesionales, al mismo tiempo en que demanda acciones institucionales de cuidado y protección de la salud mental.
Palabras clave
Funcionarios de prisiones; Suicidio; Salud mental; Redes sociales
Introdução
O suicídio constitui problema de Saúde Pública global. Segundo a Organização Mundial da Saúde1, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos, o que corresponde a uma morte a cada quarenta segundos. Trata-se de um fenômeno complexo e multifatorial que pode ser analisado por diferentes perspectivas teóricas e disciplinares2.
Tradicionalmente, os estudos sobre o tema enfatizam a dimensão psicopatológica, relacionando o suicídio a transtornos mentais e ao sofrimento psíquico individual. No entanto, abordagens sociológicas, inauguradas por Émile Durkheim em 1978 e aprofundadas por autores contemporâneos, destacam o papel de fatores sociais (desigualdade, desemprego e precarização das condições de vida), culturais e institucionais na compreensão desse fenômeno3,4.
Essa ampliação na análise sobre o suicídio também é defendida pela suicidologia contemporânea, tensionando o discurso hegemônico que reduz o suicídio exclusivamente a um problema de Saúde Mental, ressaltando sua natureza multifacetada e a necessidade de abordagens interdisciplinares que considerem também contextos históricos, políticos e sociais5.
Alguns estudos apontam aspectos clínicos e biológicos6,7 como fatores de risco para o suicídio, outros destacam fatores de risco sociodemográficos como idade, gênero, orientação sexual, estado civil e parental, educação, renda, religião, situação migratória ou minoritária4. Além desses, privação de liberdade e profissão são relatados como fatores que desempenham um papel importante para o comportamento suicida8,9.
Embora as condições relacionadas ao trabalho apareçam como fator de risco ao suicídio, há poucos estudos dedicados ao tema, ainda que existam indícios de que trabalhos com baixo controle e baixo suporte social se associem a maiores taxas de suicídio10. Algumas categorias profissionais são recorrentes nos estudos que discutem a relação entre suicídio e trabalho, tais como profissionais da saúde11,12, trabalhadores da construção civil13 e da segurança pública14-18.
Para trabalhadores, questões como assédio moral e sexual; elevadas demandas psicológicas, cognitivas e físicas; baixo grau de autonomia e controle sobre o trabalho; baixo suporte social no ambiente laboral; conflitos entre trabalho e família; insatisfação no trabalho; receio de perder o emprego ou de ser rebaixado; jornadas extensas ou em turnos; e precarização das relações de trabalho são fatores de risco para a ocorrência de transtornos mentais e suicídio8,19.
No Brasil, as taxas de suicídio têm aumentado para alguns grupos de trabalhadores. Desigualdades sociais, raciais, baixa escolaridade, isolamento e precarização das relações de trabalho são elencados como fatores contributivos para o agravamento do sofrimento psíquico e o aumento dessas taxas8.
Apesar de sua importância, são escassos os estudos nacionais que investigam a relação entre trabalho e suicídio. Palma e colaboradores8 analisaram a tendência temporal de suicídios no Brasil avaliando o perfil sócio-ocupacional dos casos registrados por meio de dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) entre 2010-2019. Nesse período, foram identificados 112.164 suicídios (7,4% das mortes por causas externas). O risco de suicídio foi 3,5 vezes maior nos homens (com taxa de 10,6/100.000 homens) se comparado ao de mulheres. Entre as vítimas no ano de 2019, destacaram-se agricultores e pescadores, com taxa de mortalidade por essa causa de 21,7/100.000; e entre os trabalhadores das forças de segurança essa taxa foi de 20,4/100.0008.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública20, o suicídio entre policiais civis e militares no Brasil aumentou desde 2018, quando registrava cerca de 99 ocorrências. O número subiu para 137 em 2023 e fechou em 126 em 2024. Apesar da leve queda de 2023 para 2024 (8% de redução), a série histórica iniciada em 2018 indica um aumento mais ou menos constante de mortes por essa causa entre os policiais20.
Nesta publicação, a ausência de dados sobre suicídio de Policiais Penais (PP) sugere um silenciamento ou apagamento do sofrimento mental desses trabalhadores, e muitas Unidades da Federação não os divulgam ou os classificam como sigilosos21. Essa invisibilidade dificulta a compreensão do fenômeno e pode explicitar o desamparo da categoria na formulação de políticas públicas de prevenção.
Embora a atividade de custódia de pessoas privadas de liberdade (PPL) tenha surgido junto com as prisões, foi apenas em 2019, no Brasil, por meio da Emenda Constitucional n. 104/1922, que os até então denominados “carcereiros” ou “agentes penitenciários” foram reconhecidos como integrantes das demais polícias brasileiras, passando a ser denominados policiais penais. No entanto, os avanços na regulamentação dessa atividade profissional ocorrem lentamente, ao passo que esses profissionais são constantemente expostos a situações violentas e desafiadoras, que exigem grande resiliência para lidar com riscos diários23,24.
Além da vigilância e da guarda das unidades prisionais, suas funções incluem o conhecimento de leis e regulamentos, habilidades de comunicação e capacidade de reagir rapidamente em emergências, como rebeliões ou tentativas de fuga24. São ainda responsáveis pela avaliação de situações de urgência/emergência em saúde nas prisões e escolta para cuidados médicos e audiências no judiciário. Esses profissionais enfrentam, portanto, uma carga de trabalho intensa e significativa responsabilidade na garantia da segurança pública, acesso das PPL aos serviços previstos na Lei de Execução Penal e no funcionamento do sistema prisional, o que pode impactar sua Saúde Mental25.
A exposição constante a conflitos, a sensação de vulnerabilidade e a cultura institucional que desencoraja a busca de ajuda psicológica contribuem para o aumento do adoecimento mental entre os profissionais de segurança pública20. Devido às peculiaridades da profissão, a taxa de suicídio desses trabalhadores é duas a três vezes maior que a da população em geral20.
Em 2024, o Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) publicou, em seu Boletim, a ocorrência de 104 suicídios de PP ativos entre 2018 e 2023 e 7 suicídios de policiais inativos21. Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e monitoramento de fontes extraoficiais (jornais, notas de pesar, redes de agentes), uma vez que a subnotificação desses eventos é recorrente, o que explica dados discrepantes entre diferentes fontes de informação21.
Em função de sua importância e magnitude, o debate sobre o suicídio e a Saúde Mental desses profissionais tem ganhado cada vez mais espaço nas mídias digitais, especialmente em redes sociais, portais de notícias e sites institucionais. Considerando a importância que as mídias sociais apresentam na vida contemporânea, como fonte de informação, disseminação de opiniões, formação de identidades e disseminação de estilos de vida, estudiosos têm se debruçado sobre diversas facetas das representações do suicídio nesses espaços.
Tais estudos abordam principalmente os efeitos de reportagens sobre suicídios de celebridades26, a detecção de conteúdos (prejudiciais ou protetores) ligados ao suicídio27, a quantificação da tendência suicida em mídias sociais28 e a relação entre uso problemático da internet e suicídio29,30. As abordagens metodológicas são variadas, incluindo análises de conteúdo, visualização lexical (nuvem de palavras) e revisões sistemáticas, destacando o uso das mídias sociais na prevenção31,32.
Desse modo, considerando a contemporaneidade das plataformas digitais e a importância do suicídio como um problema de Saúde Pública, o objetivo deste artigo foi identificar e analisar como as mídias digitais retratam o suicídio de PP e as principais narrativas construídas sobre o tema. Busca-se compreender quais aspectos são enfatizados, como o problema é abordado e quais discursos predominam, considerando possíveis padrões, tendências e influências na percepção social do fenômeno.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo, de caráter exploratório e analítico, que coletou e analisou dados sobre notícias online e postagens em redes sociais entre setembro de 2023 e março de 2025. A seleção do material foi realizada por meio do buscador Google, utilizando as abas “Todas” e “Notícias”. Essa estratégia foi adotada para abranger uma variedade de fontes, incluindo portais jornalísticos, blogs políticos e informais, páginas institucionais de sindicatos de PP e outras associações públicas.
Além disso, foram analisadas postagens em redes sociais, com foco específico no Facebook e no Instagram, reconhecendo a importância dessas plataformas na disseminação de informações e na formação de opiniões. Para a coleta das publicações, foram utilizados os descritores “policiais penais”, “agentes penitenciários”, “suicídio” e “Saúde Mental”.
A busca por palavras-chave no Google e no Facebook recuperou postagens e notícias publicadas entre 2013 e 2025. O Facebook, porém, diferentemente do Google, não forneceu a quantidade exata de publicações retornadas por palavra-chave. No Instagram, devido à impossibilidade de busca por palavras-chave, o material foi selecionado manualmente em perfis oficiais (sindicatos e associações) de policial penal, garantindo a relevância e a contextualização.
Os critérios de inclusão consideraram publicações completas, disponíveis em português, de acesso gratuito e que abordassem diretamente a Saúde Mental ou o suicídio de PP. Foram excluídas postagens repetidas em diferentes sites e aquelas que tratavam do suicídio em outras categorias profissionais.
Para a identificação das notícias em redes sociais foi empregado o método de detecção de eventos em redes sociais, conforme proposto por Hu et al.33. A primeira etapa desse processo foi a coleta de dados por meio de plataformas de redes sociais, Instagram e Facebook, além de portais de notícias online, incluindo jornais, sites de sindicatos e organizações. Neste estudo, a coleta de dados foi realizada de forma manual, alimentando uma base de posts e notícias que abordam o tema do suicídio e da Saúde Mental no contexto dos PP. Essa abordagem permitiu a inclusão contínua de informações relevantes à medida que novas postagens e artigos surgissem, garantindo que a base de dados estivesse sempre atualizada.
Após a coleta, foram aplicadas as técnicas de detecção de eventos33, que incluem a identificação de características específicas relacionadas a eventos de suicídio e discussões sobre Saúde Mental. Essa sequência de etapas assegura robustez à análise e que os dados coletados reflitam com precisão as conversas em andamento sobre o tema.
Para sistematizar os dados, as publicações foram categorizadas em três grupos principais, conforme o foco das postagens:
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Ocorrência – publicações que relatam casos concretos de suicídio entre PP, incluindo notas de falecimento e reportagens jornalísticas sobre episódios específicos.
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Informativa – postagens que visam a divulgação do fenômeno do suicídio na categoria, fornecendo referências, dados e informações sobre o tema.
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Medidas preventivas – conteúdos que abordam campanhas, programas e eventos voltados à prevenção do suicídio entre PP.
A análise do conjunto de publicações foi orientada pela perspectiva da análise do discurso foucaultiana34, que o concebe não apenas como expressão da linguagem, mas como uma prática social que produz e organiza saberes e modos de compreender determinados fenômenos. Nesse sentido, buscou-se compreender como narrativas sobre sofrimento psíquico e morte entre PP são produzidas, reiteradas ou silenciadas e de que modo essas formações discursivas configuram campos de visibilidade e exclusão no espaço digital.
Para operacionalizar essa leitura, a etapa de processamento de linguagem natural (PLN) em Python funcionou como meio técnico de identificação empírica das regularidades discursivas. As palavras mais recorrentes, identificadas pelo tratamento automatizado dos textos, indicaram os eixos de enunciação predominantes sobre Saúde Mental e suicídio entre PP.
Inicialmente, o endereço único das notícias na internet, denominado pela sigla em inglês URL (Uniform Resource Locator), foi extraído e os textos foram coletados, e utilizando a biblioteca requests e a BeautifulSoup foi feito o pareamento dos dados. Depois, o texto foi pré-processado, realizando-se a remoção de palavras irrelevantes (stopwords), como preposições, artigos e as próprias palavras-chave do estudo: “suicídio”, “policiais penais” e “agente penitenciário”, por se tratar dos descritores de pesquisa.
A contagem das palavras restantes foi realizada por meio da função Counter, que gerou uma lista das palavras mais frequentes. Essas foram utilizadas para a criação de uma nuvem de palavras com o objetivo de visualizar as narrativas predominantes nas notícias, excluindo termos específicos que não contribuem para o entendimento do contexto. O processo automatizado e a utilização de bibliotecas no Python permitiram uma análise eficaz e escalável dos dados textuais, facilitando a identificação das tendências e dos padrões de discurso nas notícias.
Para os dados coletados das redes sociais, muitos posts eram constituídos por imagens e vídeos, o que não permitiu a análise da mesma forma que foi aplicada para as notícias, que dependia de textos íntegros. Desse modo, foi feita análise qualitativa manual, categorizando os temas abordados e identificando padrões de discurso, observando quais palavras aparecem com frequência e os padrões na forma como as postagens são estruturadas.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), da Universidade Federal de Minas Gerais, conforme Parecer Consubstanciado n. 7.035.000.
Resultados e discussão
Foram identificadas ao todo 106 publicações, sendo 62 do Google e 44 postagens de redes sociais (Instagram e Facebook) (Figura 1). Na categoria “Ocorrência” foram observadas 27 (25,5%) notícias; na categoria “Informativa”, 31 (29,2%) notícias; e entre as “Medidas preventivas”, 48 (45,3%) notícias. Observou-se que o tipo de página que mais faz publicações sobre o tema é a de sindicatos de PP e instituições como Assembleias Legislativas, Secretarias de Segurança Pública, Câmara dos Deputados, tanto em portais de notícias quanto nas redes sociais.
A análise dos dados resultou na identificação de postagens provenientes de 19 estados brasileiros, a saber: Acre, Alagoas, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraíba, Pernambuco, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins (Figura 2). Destaca-se que a busca foi realizada sem filtros geográficos e a concentração dessas postagens nesses estados reflete os locais de origem das publicações encontradas.
Nas redes digitais analisadas, observou-se que os sindicatos dos PP foram os principais responsáveis por disseminar informações sobre o tema nas redes sociais (54,5%). Já nos portais online do Google, as reportagens de notificações da imprensa digital foram as fontes predominantes (46,8%), com os sindicatos e organizações oficiais aparecendo em segundo lugar como agentes de divulgação (ambos com 22,6%). Minas Gerais destacou-se como o estado com maior volume de postagens nas redes sociais (25%) e o Ceará, de notícias do Google (18,3%) (Figura 2).
A análise das postagens revelou que os casos de suicídio de PP são atribuídos às condições de trabalho adversas, como sobrecarga de trabalho, assédio moral, pressão psicológica e rigidez da hierarquia penitenciária. Além disso, cita o medo de denunciar abusos e a falta de suporte institucional. Todas essas condições já foram observadas em outros estudos sobre o tema13,20,24,35.
A importância dos aspectos relacionados à participação dos sindicatos e ao adoecimento mental pode ser visualizada na nuvem de palavras (word cloud) apresentada na Figura 3. Embora seja uma ferramenta visualmente útil, é importante ressaltar que a nuvem de palavras não captura a complexidade das interações entre os termos e deve ser interpretada como uma ferramenta complementar à análise qualitativa.
Como se observa na Figura 3, os termos “sindicato”, “psicológico” e “prevenção” aparecem em destaque, indicando que esses termos são representativos nas conversas sobre Saúde Mental e suicídio de PP. O destaque da palavra “sindicato” está alinhado com a missão dessas organizações de defesa dos interesses corporativos dos PP, o que inclui a saúde no trabalho23. Além disso, pode sinalizar a importância que os PP atribuem à ação coletiva implementada por suas associações para defesa dos seus interesses e interlocução com o Estado; no caso, empregador e gestor das condições, dos ambientes e processos de trabalho, além de ordenador da oferta de serviços de saúde em todo o país por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
A força da presença das palavras “psicológico” e “prevenção” pode sinalizar o entendimento de que o suicídio não é uma fatalidade, mas o desfecho de um processo de sofrimento e adoecimento mental resultante de múltiplos fatores, tais como o exercício do trabalho exposto a riscos psicossociais e estresse no ambiente laboral, por exemplo13,20. É reconhecida a necessidade de medidas preventivas voltadas à gestão do estresse e ao desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, como o acesso a suporte psicológico para lidar com os impactos emocionais e mentais associados ao exercício dessa profissão17,24,25.
A “prevenção” surgiu no conjunto de postagens como tema muito relevante presente em quase metade das publicações e como termo muito representativo também na nuvem de palavras. Prevenção é um conceito-chave nas postagens sobre suicídio e na promoção da Saúde Mental, com divulgação de eventos e programas de prevenção (Setembro Amarelo, Janeiro Branco, webinários, entre outros). Muitos desses eventos já fazem parte das agendas das instituições públicas de saúde e constituem estratégias para disseminação de informações sobre a identificação de sinais de sofrimento e risco de suicídio, a redução do estigma que cerca o tema e a divulgação de informações sobre serviços que prestam cuidados à saúde de pessoas em situação de risco.
A prevenção envolve não apenas a educação sobre Saúde Mental17, o enfrentamento de problemas como alcoolismo, o uso de drogas ilícitas e o tratamento de transtornos mentais sem relação com o trabalho7,10, mas fundamentalmente a identificação e a mitigação dos fatores de risco, sobretudo os presentes nos ambientes de trabalho sobre os quais os PP raramente têm governabilidade13-16. Trata-se de condições que exigem mudanças na forma de organização do trabalho, dos estilos de gestão e da ambiência dos locais de trabalho, estando assim fortemente subordinadas a decisões da administração do sistema prisional. Não por acaso, a palavra “administração” também aparece em destaque na Figura 3.
Outros termos em destaque foram: “social”, sobre o entendimento de que, para além das contingências biológicas e das biografias pessoais que participam do contexto o qual gera um suicídio, a sua determinação social alicerçada nas condições de vida e trabalho é fortemente percebida. Segundo Oliveira e Ribeiro35, o ambiente de trabalho dos PP é marcado por desafios hierárquicos que impactam diretamente sua Saúde Mental, além de enfrentar o estigma de lidar diretamente com os indivíduos socialmente rejeitados, e de serem frequentemente qualificados como violentos, corruptos e torturadores23.
No tempo histórico da realização da pesquisa, a palavra “pandemia” também se destacou (Figura 3). Além dos desafios habituais associados ao trabalho do PP36, a emergência de Saúde Pública provocada pelo vírus da Covid-19 trouxe desafios adicionais para a Saúde Mental dos PP brasileiros.
A exposição a situações de risco e a incerteza gerada pela pandemia nos locais altamente insalubres e superlotados que caracterizam as prisões brasileiras intensificaram o estresse e a ansiedade entre esses profissionais37. A necessidade de lidar com novas diretrizes de segurança, mantendo o trabalho presencial, além da pressão para manter a ordem em um contexto de crise, pode ter exacerbado problemas de Saúde Mental preexistentes, pois, apesar de continuarem em serviço, muitos perderam a vida ou tiveram familiares acometidos pela doença37.
O “estresse” é um fator crítico central que afeta a Saúde Mental dos PP, resultando de uma combinação de fatores, incluindo a natureza exigente de suas funções e a pressão constante para tomar decisões rápidas em situações de alta tensão. Segundo a nota técnica divulgada pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da Fundação Getúlio Vargas (NEB/FGV)38, o estresse ocupacional foi associado, no contexto pandêmico, à necessidade de manter rigorosos cuidados com a higienização pessoal na abordagem e no contato com os presos, ao distanciamento dos colegas de trabalho, ao medo de contaminar seus familiares, ao aumento da carga de trabalho decorrente da redução do efetivo em serviço, à tensão diária, às mudanças na rotina e à adoção de novos procedimentos laborais.
Foi identificado também um tom predominante de preocupação e denúncia nas postagens e interações, reconhecendo que o aumento nos casos de suicídio entre policiais evidencia um cenário de negligência institucional em relação à Saúde Mental desses profissionais. Ao mesmo tempo, algumas postagens enfatizavam que a publicização da precariedade das condições de trabalho dá margem à cobrança de medidas políticas concretas para melhorar a Saúde Mental desses profissionais por parte do Estado.
A recorrência dos temas destacados na Figura 3 sugere que a questão do suicídio não é pontual, mas estrutural, exigindo, portanto, mudanças institucionais. A magnitude real do problema não é clara, pois dados numéricos e suas fontes não são plenamente apresentados e as postagens parecem ser motivadas pela agenda de campanhas institucionais de prevenção ao suicídio e pela ocorrência de casos de suicídio entre membros da categoria, o que cria o ensejo para postagens, especulações acerca da relação com o trabalho, denúncias e cobranças de melhoria das condições e dos ambientes de trabalho.
Johnston e Ricciardelli39 ressaltam que o ambiente prisional se caracteriza por uma cultura organizacional que desencoraja a expressão de vulnerabilidades emocionais. Esse “silêncio organizacional” dificulta a busca por ajuda e agrava o risco de suicídio20,21.
Contudo, existem relatos de experiências de prevenção interessantes. Há, entre as postagens analisadas, menções a iniciativas institucionais voltadas à prevenção do suicídio entre PP, especialmente campanhas de Setembro Amarelo e Janeiro Branco em que são realizados webinários, palestras e rodas de conversa. Muitas dessas ações promovem o cuidado e o acompanhamento psicológico/psiquiátrico direto, o reconhecimento da gravidade do problema e a mobilização institucional em torno dele40.
Postagens também sinalizam a importância de medidas de proteção relacionadas a fatores individuais que melhoram a qualidade de vida e previnem o suicídio. Como já indicado em estudos anteriores14,15,17, exercícios, boas relações familiares, coesão no trabalho e autonomia profissional estão ligados a melhores indicadores de Saúde Mental. Contudo, poucas postagens detalham práticas de cuidado que vão além do suporte tradicional, como atividades integrativas e terapias alternativas.
Para a prevenção do suicídio entre PP, as melhorias no trabalho devem incluir: programas permanentes de Saúde Mental com atendimento psicológico confidencial, criação de espaços de escuta e acolhimento nos ambientes penitenciários21, treinamentos de resiliência emocional e gestão do estresse4, triagens periódicas para detecção precoce de transtornos mentais41 e adoção de medidas organizacionais que reduzam a sobrecarga de trabalho e os conflitos trabalho-família42.
No âmbito das instituições de segurança pública brasileiras, ações específicas são implementadas para o cuidado à Saúde Mental e para a prevenção do suicídio entre os PP, tais como: 1) Projeto Escuta Susp, que oferece atendimento psicológico gratuito e confidencial a profissionais de segurança pública43; 2) Projeto Valoriza Saúde em Foco, que visa promover ações de saúde integral e qualidade de vida para servidores do sistema penitenciário44; e 3) Programa Nacional de Qualidade de Vida para Profissionais de Segurança Pública (Pró-Vida), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que visa promover a Saúde Mental e a qualidade de vida dos profissionais de segurança pública, incluindo PP43. Trata-se de iniciativas ainda não avaliadas e das quais se desconhece o impacto.
No estado de São Paulo, a Lei n. 12.622, aprovada em 2007, autorizou o Poder Executivo estadual a criar o Programa de Saúde Mental dos Agentes de Segurança Penitenciária de São Paulo, a implementação de uma série de medidas voltadas para a prevenção, a assistência integral aos acometidos por transtornos mentais e o acesso gratuito a medicamentos43. Entre as propostas apresentadas, destaca-se a criação de um sistema de informações vinculado ao SUS. Essa iniciativa permitiria uma compreensão mais aprofundada das condições vivenciadas pelos PP, contribuindo para o desenvolvimento de políticas públicas mais coerentes com suas necessidades.
A criação de programas específicos para profissionais da segurança pública tem sido defendida como um passo essencial para mitigar os impactos da profissão na Saúde Mental desses trabalhadores20,21. Idealmente, essas medidas devem ser estruturadas e integradas às práticas de gestão de pessoas, superando o caráter pontual e reativo que ainda predomina em muitas iniciativas, assim como contar com a participação da representação dos trabalhadores na sua implementação.
Apesar de bem-intencionadas, ações de cuidado e prevenção centradas na Saúde Mental tendem a simplificar fenômenos complexos, reduzindo o sofrimento psíquico à esfera individual e ignorando desigualdades e violências estruturais40. A promoção da Saúde Mental exige mais que autocuidado ou medicalização: requer reestruturação das condições que perpetuam o sofrimento e garantia de direitos básicos compreendendo o sofrimento emocional como um fenômeno coletivo e não apenas individual.
Como dito anteriormente, a prevenção do suicídio exige uma abordagem multifacetada que considere a interação entre fatores individuais, sociais e culturais, uma vez que não existe uma solução universal aplicável a todos os contextos. Nesse sentido, ações isoladas têm pouco impacto populacional, sendo fundamental articular estratégias de Saúde Pública com intervenções clínicas individualizadas45 que podem incluir: redução do acesso a meios letais, tratamento adequado de transtornos mentais, treinamento de profissionais de saúde e comunicação midiática responsável31,45.
Recomenda-se uma abordagem sustentada em dados de notificação de lesões autoprovocadas, fortalecimento dos sistemas de vigilância em saúde, capacitação de profissionais da Atenção Primária (AP) para identificar sinais precoces, e equipes de emergência para realizar acolhimento humanizado, ações específicas para grupos vulneráveis (indígenas, pessoas negras, população LGBTQIA+ e trabalhadores precarizados), e abordagem culturalmente sensível que reduza o estigma e faça acompanhamento pós-tentativa. A prevenção deve envolver ações intersetoriais e territoriais coordenadas entre saúde, educação, assistência social e comunidade, ampliando redes de apoio e estratégias de promoção da Saúde Mental40,45-47.
Cabe ressaltar que a abordagem metodológica adotada neste artigo permitiu compreender não apenas a frequência e a distribuição geográfica das postagens sobre o tema, mas também as principais preocupações expressas pelos profissionais e entidades representativas dos trabalhadores. O cruzamento entre os dados coletados nas redes sociais e nas notícias jornalísticas possibilita uma visão ampliada sobre como o tema tem sido debatido publicamente entre PP, oferecendo elementos para a formulação de ações voltadas à proteção da Saúde Mental desses profissionais.
Considerações finais
Este estudo mostrou que os meios digitais de comunicação atuais constituem espaços relevantes de visibilização do sofrimento mental de PP e predominam narrativas que associam os casos de suicídio às condições de trabalho, à sobrecarga, ao assédio moral, à rigidez hierárquica e à ausência de suporte institucional a esses profissionais.
A análise das postagens evidenciou dados de diferentes estados brasileiros e protagonismo dos sindicatos e entidades representativas da categoria. Além disso, essas entidades, ao retratar os casos de autoextermínio, mobilizam debates por políticas de prevenção ao suicídio e promoção da saúde desses profissionais.
Os resultados indicam que as publicações analisadas não apenas informam, mas também performam atores políticos, expressando uma demanda coletiva por reconhecimento, cuidado e justiça institucional. A centralidade de termos como “prevenção”, “psicológico”, “sindicato” e “administração” nas nuvens de palavras e discursos reforça a compreensão do suicídio como um fenômeno social e organizacional, não apenas individual.
A identificação de termos e conteúdos relacionados à prevenção demonstra esforços nesse sentido mesmo que pontuais, , mas também uma necessidade para instituições e gestores dessa categoria profissional. Destaca-se que a escassez de relatos sobre práticas estruturadas e contínuas de cuidado com a Saúde Mental dos PP indica uma lacuna entre o reconhecimento do problema e a implementação de ações efetivas.
O presente estudo contribui ao oferecer um panorama nacional de como o suicídio entre policiais penais é retratado nas mídias sociais, revelando os padrões discursivos nas postagens e notícias e as estratégias de enfrentamento em circulação nas redes. A pesquisa destaca a necessidade de que ações de prevenção estejam articuladas a mudanças profundas nos ambientes e relações de trabalho, como o fortalecimento de espaços de escuta, a implementação de programas permanentes de Saúde Mental, o investimento em formação continuada e a valorização da participação dos próprios trabalhadores na construção dessas políticas de prevenção.
A metodologia de coleta dos dados e a natureza dinâmica das redes digitais apresentam-se como limitação deste estudo podendo influenciar a representatividade e a atualidade dos dados. Trata-se de um tema complexo, que necessita de mais investigação com o emprego de outras metodologias e ferramentas. Estudos futuros poderão aprofundar a análise do impacto dessas narrativas na percepção social e institucional sobre o suicídio de PP, bem como investigar os efeitos das campanhas e programas atualmente implementados.
Por fim, ao lançar luz sobre um tema ainda pouco explorado na literatura brasileira, este trabalho reafirma a urgência de tratar a Saúde Mental dos PP como uma prioridade ética, política e institucional. A forma como esse sofrimento é narrado nas mídias digitais convoca a sociedade, as instituições e os gestores de políticas públicas a buscar soluções coletivas que garantam condições de trabalho mais justas, seguras e saudáveis.
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Financiamento
A pesquisa integra o projeto “Quando o trabalho encarcera: sofrimento psicossocial em trabalhadores do sistema prisional brasileiro”, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde (MS), no âmbito da chamada CNPq/MS/SCTIE/DECIT n. 45/2022 que tem por bolsistas Giovanna Reis Monteiro de Souza e Rafaelle Lopes Souza.
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Souza GRM, Oliveira GL, Souza RL, Ribeiro AP, Silveira AM. Suicídio e saúde mental de policiais penais: uma análise de como as mídias digitais retratam estes eventos. Interface (Botucatu). 2026; 30: e250459 https://doi.org/10.1590/interface.250459
Disponibilidade de dados
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no SciELO Data e pode ser acessado em: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.W6UWJK
Referências
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Editado por
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Editora
Erotildes Maria Leal https://orcid.org/0000-0002-8468-4571
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Editor associado
Robert Filipe dos Passos https://orcid.org/0000-0003-0900-4262




Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Fonte: Dados da pesquisa.
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