Resumo
A violência interpessoal no Ensino Superior é recorrente e frequentemente velada, sustentada por assimetrias de poder que favorecem o silenciamento. Este estudo descreve as intervenções do projeto Dar Voz voltadas ao enfrentamento da violência na relação docente e discente em um curso de Odontologia de uma universidade pública entre 2018 e 2022. Trata-se de um relato de experiência com análise documental de atas, diário de campo e materiais produzidos nas intervenções realizadas. O público-alvo incluiu docentes e discentes e as ações compreenderam cartazes, vídeos, oficinas, documentário e criação de disciplina. O projeto evidenciou tensões antes invisibilizadas na relação docente e discente e contribuiu para a promoção da equidade social. Também fomentou o protagonismo estudantil, fortaleceu o convívio ético e indicou necessidade de aprimorar mecanismos institucionais. Seu componente disciplinar estimulou educação crítica e reflexiva com repercussões políticas e sociais.
Palavras-chave
Violência interpessoal; Educação superior; Inclusão social; Democracia
Abstract
Interpersonal violence in higher education is common and often hidden, being sustained by power asymmetries that favor silencing. This study describes the interventions of the Dar Voz (Give Voice) project, aimed at addressing teacher-student violence on a dentistry degree course at a public university between 2018 and 2022. This experience report presents a documentary analysis of minutes, field notes and materials produced during the interventions. The target audience included teaching staff and students, and the actions consisted of posters, videos, workshops, a documentary and the creation of subject within the course. The project highlighted previously invisible tensions in teacher-student relationships and contributed to the promotion of social equity. It also fostered student leadership, strengthened ethical coexistence and highlighted the need to improve institutional mechanisms. The subject component stimulated critical and reflective education with political and social repercussions.
Keywords
Interpersonal violence; Higher education; Social inclusion; Democracy
Resumen
La violencia interpersonal en la enseñanza superior es recurrente y frecuentemente oculta, sostenida por asimetrías de poder que favorecen el silenciamiento. Este estudio describe las intervenciones del proyecto Dar Voz, enfocadas en el enfrentamiento de la violencia en la relación docente y discente en un curso de odontología de una universidad pública entre 2018 y 2022. Se trata de un relato de experiencia con análisis documental de actas, diario de campo y materiales producidos en las intervenciones realizadas. El público-objetivo incluyó a docentes y discentes y las acciones incluyeron carteles, videos, talleres, documentación y creación de disciplina. El proyecto mostró tensiones antes invisibilizadas en la relación docente y discente y contribuyó con la promoción de la equidad social. También fomentó el protagonismo estudiantil, fortaleció la convivencia ética e indicó la necesidad de perfeccionar mecanismos institucionales. Su componente disciplinario incentivó la educación crítica y reflexiva con repercusiones políticas y sociales.
Palabras clave
Violencia interpersonal; Educación superior; Inclusión social; Democracia
Introdução
A violência no Ensino Superior apresenta caráter endêmico e implica elevados níveis de vitimização1,2. Violência pode ser definida como:
[...] uso intencional da força física ou do poder, na prática ou sob forma de ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resulte, ou apresente elevada probabilidade de resultar, em lesão, morte, dano psicológico, comprometimento do desenvolvimento ou privação3. (p. 4)
No ambiente acadêmico, os docentes figuram como principais perpetradores das violências contra discentes da área da Saúde4,5 em um contexto no qual a assimetria de poder favorece práticas abusivas que produzem impactos psíquicos e prejuízos acadêmicos às vítimas1,2,6-9.
Esse tipo de violência na relação docente-discente é classificado como de ordem interpessoal comunitária, sendo definida como aquela que ocorre entre indivíduos que se conhecem ou não, geralmente em espaços fora do ambiente doméstico como as universidades10.
As violências mais prevalentes envolvendo docentes e estudantes de Odontologia são de natureza psicológica, expressas por agressões verbais, humilhações, intimidações e práticas de desqualificação e de natureza sexual, manifestadas sobretudo por meio de piadas, brincadeiras e insinuações de teor sexual11-13. Estudos evidenciam que essas violências se dirigem à condição dada por marcadores sociais da diferença como gênero, raça e classe social ou pela intersecção de mais de um marcador11-14.
O enfrentamento efetivo dessas violências tem sido dificultado devido à “cultura do silêncio” aliada à naturalização dessas ocorrências e à complacência institucional1,2. Diante desse cenário, torna-se essencial implementar projetos que promovam o debate sobre essa problemática, garantam espaço seguro para a escuta dos estudantes e viabilizem intervenções concretas que possam contribuir para uma convivência ética, respeitosa e saudável entre os membros da comunidade acadêmica.
O presente estudo tem por objetivo descrever e refletir sobre as intervenções desenvolvidas pelo projeto “Dar Voz: o estudante de Odontologia e seu cotidiano universitário” (“Dar Voz”) voltadas ao enfrentamento das violências na relação docente-discente que permeiam o cotidiano dos estudantes em uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro.
Percurso metodológico
Tipo de pesquisa
Trata-se de um relato de experiência conduzido por meio da análise de documentos referentes às intervenções voltadas ao enfrentamento das violências na relação docente-discente realizadas pelo projeto de extensão universitária “Dar Voz” entre 2018 e 2022.
Cenário de estudo
O “Dar Voz” foi criado em 2018 na Faculdade de Odontologia de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro, que conta com uma média de 380 estudantes regularmente matriculados por semestre. O objetivo de sua criação foi estabelecer um espaço de debate na comunidade acadêmica sobre situações, conflitos e dilemas que permeiam o cotidiano universitário, com enfoque nos aspectos éticos e sociais que emergem da relação docente-discente. A justificativa para a criação do “Dar Voz” baseia-se na premissa de que a universidade tem a responsabilidade de atuar ativamente para evitar violência de qualquer natureza e buscar promover relações respeitosas e justas em seu cotidiano acadêmico, em especial na relação docente-discente, socialmente caracterizada por hierarquias e diferenças de poder15.
A dinâmica de funcionamento do “Dar Voz” baseou-se em encontros semanais envolvendo docentes e discentes, nos quais eram realizadas rodas de conversa. Vinte desses encontros estiveram voltados ao debate e à produção das intervenções dedicadas ao enfrentamento da violência na relação docente-discente. A divulgação dos convites para participar dos encontros ocorria por cartazes e redes sociais digitais, além de contar com o apoio do diretório acadêmico da instituição.
As rodas eram conduzidas em um ambiente de acolhimento, respeito e aprendizado mútuo. Dessa forma, configurava-se um ambiente seguro no qual as violências vivenciadas ao longo da Graduação eram livremente narradas pelos estudantes e as propostas de intervenção eram elaboradas pelos próprios estudantes.
Procedimentos
Para o presente estudo foi realizada análise documental dos arquivos físico e digital das intervenções realizadas, incluindo atas dos encontros regulares (rodas de conversa), relatórios semestrais e anuais, fotografias, cartazes, produções audiovisuais e materiais utilizados nas campanhas nas redes sociais. Além disso, foi analisado o diário de campo produzido pelas duas docentes coordenadoras do projeto e autoras deste estudo.
Cada roda de conversa tinha duração de cerca de 90 minutos, com mediação não diretiva, realizada pelas duas coordenadoras docentes, as quais também faziam os registros em ata e anotações em diários de campo com impressões e reflexões. As perguntas norteadoras das rodas eram: “O que vocês desejam conversar sobre o cotidiano universitário na roda de hoje?” “É possível transformar essa realidade?”, “O que podemos fazer nesse sentido?”.
Os documentos revelaram que as rodas de conversa abordaram vários tipos e motivações de violência em distintas relações interpessoais (docente-discente, discente-discente e docente-docente). O presente estudo, porém, adotou um recorte analítico centrado na relação docente-discente considerando os elementos que demonstraram maior relevância nos documentos referentes às vinte rodas dedicadas a essa temática, tanto quantitativamente, pela frequência com que emergiam, quanto qualitativamente, pela intensidade emocional e pelo sentimento de violação evidenciados. Dessa forma, o foco analítico recaiu sobre as seguintes motivações de violência na relação docente-discente identificadas nos documentos: baseada em classe social e em humilhação intelectual, baseada em gênero, baseada em raça e manifestadas, majoritariamente, pela violência do tipo psicológica.
Adotamos a definição de violência psicológica explicitada na Lei Maria da Penha (Art 7º, II, 11.340/2006) entendida como:
[...] qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação16. (p. 1)
Além disso, pelo fato de as violências na universidade acontecerem de forma intensificada em função de parâmetros sociais como raça, etnia, gênero e classe social7,14, os documentos foram analisados à luz da interseccionalidade. Como ferramenta analítica e política, a interseccionalidade explica as complexas e sobrepostas formas de opressão, permitindo uma análise que leva em conta a totalidade da experiência de raça, de gênero e de nível social para além de meras identidades somadas17.
Violência baseada em classe social e humilhação intelectual
A violência baseada em classe social, usualmente denominada classismo na literatura, refere-se ao preconceito direcionado às pessoas de classes sociais mais baixas manifestando-se, por exemplo, na crença de que elas são preguiçosas ou menos capazes18. Observa-se, nesse ponto, uma articulação com humilhação intelectual, que emerge como gestos verbais ou não verbais, explícitos ou sutis, que promovem inferiorização motivada pela capacidade cognitiva do outro. Bell Hooks19 denomina essa dinâmica de “humilhação intelectual de classe”, frequentemente associada a processos de deslegitimação operados por violência psicológica.
Com base na análise documental, emergiram manifestações de violência psicológica perpetradas por docentes a discentes motivadas pela subalternização de classe, operada mediante a inferiorização de classes sociais desfavorecidas e a humilhação intelectual, caracterizada por insultos à capacidade cognitiva do discente. Percebeu-se que a violência baseada em classe social e a humilhação intelectual se interseccionavam com a questão racial, sustentadas por um tensionamento hierárquico e por normas sociais elitizadas do curso em vias de abuso de poder docente.
Tais manifestações denotavam constrangimento, inferiorização, invisibilidade e desrespeito e foram compartilhadas nas primeiras rodas do “Dar Voz”, provocando o desejo de conferir visibilidade aos constrangimentos sofridos. Assim, foi concebida coletivamente a primeira intervenção do “Dar Voz” que envolvia a confecção e a exposição de cartazes com as frases abusivas proferidas por professores.Para a produção do material, os discentes produziram fotografias uns dos outros dentro das instalações da instituição. Os alunos posaram de máscara cirúrgica e jaleco e as frases constrangedoras que eram proferidas pelos professores foram reproduzidas, literalmente, nas máscaras (Ilustração 1). O Quadro 1 ilustra algumas dessas frases que, embora mantidas em sua literalidade, foram divulgadas de forma anônima, sem identificação dos autores das agressões verbais.
Situações de violência na relação docente-discente, estratégias de intervenção empregadas e teor das frases contidas nos cartazes.
Os relatos apontam que a intervenção alcançou ampla repercussão com os cartazes sendo expostos nos corredores institucionais e nas redes sociais do projeto. A ação desvelou práticas abusivas naturalizadas e contribuiu para a indução de mudanças na conduta de docentes, por um período considerável, bem como promoveu uma reflexão coletiva sobre as violências no espaço universitário.
Violência baseada em gênero
A violência, tendo como motivação o gênero, consistia em um dos assuntos mais presentes nos documentos analisados, predominando relatos de violência do tipo psicológica e sexual de professores homens contra alunas. Como foi observado na presente análise, a violência baseada em gênero (VBG) ocorreu na intersecção de múltiplos sistemas de opressão (gênero, raça e classe), produzindo experiências específicas e qualitativamente distintas para mulheres em diferentes posições sociais.
Diante da demanda estudantil para o desenvolvimento de estratégias voltadas para o enfrentamento da VBG, o “Dar Voz” estabeleceu uma parceria com o Grupo de Estudos em Violência baseada em Gênero da Faculdade de Direito e com o Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva da mesma universidade onde ocorreu o projeto. Nesse sentido, realizou-se uma oficina com o tema “Papéis de gênero e violência contra mulher: o que a Odontologia tem a ver com isso?”
A oficina trabalhou com dinâmicas, abordando o machismo institucional, as situações abusivas e seus desdobramentos, as festas universitárias e a perpetuação da cultura de VBG. O evento abordou distintas formas de violência a que a mulher está exposta dentro e fora do ambiente acadêmico.
Vale salientar que a oficina permitiu o reconhecimento dos vários tipos de violência (física, psicológica, sexual) e como operam interseccionalmente envolvendo marcadores sociais da diferença, em especial gênero e raça, dentro e fora do ambiente acadêmico, que passavam despercebidas por muitas estudantes. A natureza frequentemente sutil das manifestações de violência na relação entre estudantes e professores dificulta, por si só, sua identificação6, coexistindo com formas de violência simbólica.
Violência simbólica é a dominação não física pela qual autoridades impõem significados e classificações que parecem “naturais”, legitimando hierarquias baseadas em gênero, raça ou classe e produzindo humilhação, desqualificação e exclusão simbólica, sem recurso direto à coerção física20.
Além disso, foram disponibilizadas orientações aos participantes sobre coletivos feministas existentes dentro da universidade e serviços que deveriam ser acessados pelas estudantes em casos de violência.
Diversas outras intervenções ocorreram, tais como a elaboração de cartazes denunciando episódios de VBG na instituição. As frases dos agressores (Quadro 1) foram estampadas sobre as máscaras cirúrgicas que cobriam a boca das alunas fotografadas (Ilustração 2).
Além disso, foi produzido material audiovisual abordando as situações de VBG em domicílio, festas e trotes. Os vídeos foram exibidos nas televisões das áreas de circulação da faculdade e nas redes sociais.
De acordo com os registros em relatórios e atas, a violência baseada em gênero foi manifestada, em grande parte, mediante insinuação sexual, comentário depreciativo sobre o corpo feminino e desqualificação acadêmica. A interseccionalidade entre gênero e raça ficou evidente por meio dos relatos de insultos proferidos pelos docentes às alunas, com objetificação sexual do corpo feminino negro, comentários negativos sobre seus traços físicos, características identitárias e capacidade cognitiva.
Violência baseada em raça
Os documentos evidenciaram relatos de falas racistas por parte de docentes, caracterizando violência baseada em raça. Tal violência decorre do racismo entendido como um sistema estruturado de discriminação que produz vantagens ou desvantagens conforme o grupo racial de pertencimento21.
Comentários repletos de menosprezo e subjugação ofendiam os estudantes negros nesses espaços acadêmicos. Vale salientar que, em 2018, 37% dos estudantes da faculdade de Odontologia da instituição se autodeclaravam pretos ou pardos22.
Para discutir o racismo institucional, estudantes e docentes produziram o documentário “As cores por trás da máscara”, no qual alunos negros relataram experiências de racismo na Graduação. Divulgado nas mídias sociais e no canal do projeto “Dar Voz”, o vídeo teve ampla repercussão ao expor essas vivências.
Além disso, foram produzidos cartazes com as fotos dos alunos negros em uma perspectiva de afirmação de direitos. Os cartazes foram expostos nos corredores da faculdade e veiculados nas redes sociais do projeto (Ilustração 3).
O projeto também convidou o Coletivo NegreX para discutir o racismo na formação em Saúde por meio da oficina “As cores por trás da máscara”, que abordou temas como branquitude, racismo institucional e políticas de cotas. Na ocasião, exibiu-se ainda o documentário Anamnese, disponível no canal Cineclube Atlântico Negro.
Além dessas intervenções, evidenciou-se a necessidade de ampliar os debates institucionais sobre justiça social, dado que a violência na relação docente e discente revela falhas estruturais e pedagógicas. Nesse contexto, as docentes coordenadoras, em diálogo com os estudantes, criaram uma disciplina voltada à inclusão da temática de justiça social na formação acadêmica.
Criação de uma disciplina curricular por meio das demandas do “Dar Voz”
Em 2019 foi criada a disciplina optativa “Formação Profissional em Saúde e Justiça Social” destinada a analisar o papel da universidade na formação em Saúde, discutir relações de poder e refletir sobre como dimensões políticas e pedagógicas influenciam a justiça social. Com temas como violência, gênero, classe e racismo, a disciplina buscou formar estudantes críticos e reflexivos, capazes de atuar como agentes de mudança em seus contextos profissionais e comunitários.
A criação da disciplina fundamentou-se na compreensão de que as violências interpessoais na relação docente e discente constituem um conflito ético e social, podendo influenciar negativamente a futura prática profissional quando naturalizadas. Assim, o desenvolvimento de competências ético-relacionais nessas interações, incluindo a transmissão implícita de valores, comportamentos e afetos, contribui para a formação da identidade do futuro profissional de saúde15.
A metodologia pedagógica inclui trabalhos em grupo, debates, participação de especialistas e visitas técnicas a projetos e serviços. Ao desconstruir estereótipos, busca promover relações acadêmicas mais justas, democráticas e respeitosas.
Resultado
A análise dos registros do “Dar Voz” evidenciou que a violência na relação docente-discente foi motivada por três marcadores sociais da diferença: classe, gênero e raça. A violência baseada em classe e humilhação intelectual, manifestada sobretudo por violência psicológica, apareceu em cerca de 45% das vinte rodas de conversa. A violência de gênero, expressa por violências psicológica e sexual, ocorreu em aproximadamente 35% dos encontros. A violência racial, embora menos frequente (cerca de 20%), mostrou-se altamente relevante nas experiências relatadas. Essa proeminência dos temas orientou a priorização das intervenções definidas pelos participantes.
Cada roda de conversa contou com a participação de dois a quatro docentes (incluindo as facilitadoras), ao menos metade mulheres, e de 10 a 15 discentes, majoritariamente (80%) do gênero feminino. Aproximadamente metade dos estudantes era beneficiária de políticas de ação afirmativa, e alunos pretos e pardos representavam cerca de um terço do grupo, sobretudo mulheres. Assim, cada encontro reuniu entre 12 e 19 participantes. Esses dados representam um perfil agregado, pois não houve coleta sistemática de variáveis sociodemográficas.
Emergiram da análise qualitativa dos registros, relatos de estudantes negras sobre situações de discriminação social, racial e de gênero, bem como episódios de humilhação intelectual, expressos de formas sutis e explícitas por docentes. As rodas de conversa também evidenciaram a escassez de docentes negros na instituição, indicando a falta de representatividade como componente estrutural das experiências acadêmicas narradas.
As ações de enfrentamento ao racismo impulsionaram a criação do primeiro coletivo negro do curso, reunindo estudantes negros de diferentes períodos. Segundo os documentos, foi a primeira ocasião em que puderam compartilhar experiências de opressão vivenciadas no ambiente acadêmico.
Os registros indicaram desafios para abordar a violência na relação docente e discente motivada por marcadores sociais da diferença em um curso de Odontologia historicamente elitista, de alto custo, integral, com corpo docente majoritariamente branco que mantém padrões machistas apesar da crescente feminização.
O projeto constituiu o primeiro espaço de debate sobre violência interpessoal na formação, especialmente na relação docente e discente, e indicou caminhos para seu enfrentamento. A participação de profissionais de diferentes áreas nas oficinas e eventos, segundo os documentos analisados, ampliou a compreensão da violência universitária ao integrar saberes interdisciplinares e oferecer apoio às demandas estudantis.
Os registros analisados apontam o Dar Voz como ferramenta de promoção de valores e atitudes que favorecem uma convivência ética, respeitosa e saudável no ambiente acadêmico. O projeto reforça a necessidade de a universidade assumir seu papel de liderança no enfrentamento das violências, considerando a complexidade das interseções entre gênero, raça e classe social em um cenário de democratização do Ensino Superior. O “Dar Voz”, portanto, passou também a pressionar a instituição a cumprir seus deveres legais, éticos e pedagógicos, combatendo a banalização e a invisibilidade da violência universitária.
As rodas de conversa motivaram, em 2018, a criação do primeiro banco de instrumentais odontológicos da instituição, em resposta à vulnerabilidade social de estudantes minoritários e ao alto custo dos materiais. Embora importante para a permanência estudantil, a iniciativa revelou a necessidade de maior conscientização docente sobre o novo perfil socioeconômico dos alunos. As atas e os diários de campo registraram que alguns docentes rejeitavam instrumentais do banco por exigirem marcas de alto custo, configurando violência baseada em classe social.
Ao longo do período analisado, observou-se baixa adesão docente ao projeto, frequentemente limitada à criação de frases de apoio divulgadas em redes sociais e murais. Mesmo com esforços de ampliação da divulgação entre docentes nas reuniões departamentais, a participação permaneceu reduzida, refletindo a resistência de uma cultura institucional conservadora às iniciativas propostas.
Discussão
A análise dos documentos demonstrou que a violência psicológica era perpetrada por docentes nas relações pedagógicas e eram motivadas pela classe social, pelo gênero e pela raça dos estudantes. Esses resultados estão em linha com estudos que identificam o professor como o principal perpetrador de violências no ambiente universitário9,23 e apontam a natureza psicológica como a configuração mais prevalente resultante da assimetria de poder entre as partes6,13,14,24. Essas violências costumam se manifestar na forma de humilhações, maus-tratos e agressões verbais8,14,24, sobretudo no cotidiano pedagógico, manifestando-se como brincadeiras, chacotas e comentários que reforçam um ambiente sexualizado, machista e heteronormativo8,13,24. Os registros documentais analisados no presente estudo, portanto, apresentam forte convergência com a literatura.
Os estudos também destacam que, nos casos de VBG, a assimetria de poder opera como mecanismo de silenciamento e de indução ao medo nas vítimas9,12,23,25. Maito7 destaca que a VBG constitui um fenômeno social estrutural que atravessa o ambiente universitário, afetando diferentes segmentos da comunidade acadêmica e contribuindo para a reprodução de desigualdades que atingem mulheres e grupos marginalizados.
Cumpre destacar que, embora a Odontologia, historicamente, tenha se caracterizado como uma área tipicamente masculina, atualmente atravessa um processo crescente de feminização26. Em 2018, o curso de Odontologia, em que foram conduzidas as ações, possuía 83% de estudantes do sexo feminino22.
Estudos também dão destaque à violência baseada em raça no ambiente universitário demonstrando que ela se expressa frequentemente pela agressão verbal e de forma sutil mediante piadas racistas e outras atitudes discriminatórias7,9,14,24.
Os marcadores sociais, como gênero, raça e classe social, estiveram presentes simultaneamente nos relatos de violência na relação docente-discente evidenciando a interseccionalidade. Esses achados estão em linha com estudos realizados sobre essa temática em outras universidades5,7,14,27. A interseccionalidade intensifica as desigualdades observadas nos níveis de discriminação sofrida por estudantes de Odontologia no Brasil, na medida em que mulheres negras, LGBTQIAP+ e aquelas de baixa renda enfrentam camadas adicionais de exclusão e discriminação social28.
Essas violências no contexto universitário geram uma atmosfera marcada por constrangimento e insegurança que impacta negativamente a Saúde Mental dos estudantes, especialmente entre os grupos minoritários29. Além disso, compromete o desenvolvimento acadêmico e aumenta a chance de evasão6,29.
Diante desse cenário, o projeto “Dar Voz” promoveu um espaço de escuta, acolhimento e apoio permitindo o compartilhamento de experiências de violência e o desenvolvimento de intervenções voltadas ao enfrentamento dessas incivilidades. O projeto buscou superar as limitações das clássicas intervenções contra violências no Ensino Superior, geralmente informativas, pouco participativas e descoladas das estruturas de poder que as reproduzem2,30.
As intervenções realizadas fortaleceram o protagonismo estudantil no planejamento e na execução das ações, alinhando-se a estratégias reconhecidas como eficazes no enfrentamento da violência universitária30. Destacou-se o apoio do Diretório Acadêmico e da direção da Faculdade de Odontologia, cuja legitimidade e suporte institucional foram essenciais para viabilizar as iniciativas e evidenciar a importância do compromisso institucional no enfrentamento de violências estruturais1.
Os registros da experiência também evidenciaram que o projeto abordou as dinâmicas de poder rompendo com a “cultura do silêncio” e denunciando, por meio do material produzido, as múltiplas formas de discriminação social no âmbito universitário. Transformações significativas nas relações interpessoais acadêmicas também foram demonstradas nos registros, na medida em que o projeto foi capaz de estimular reflexões críticas entre docentes e discentes sobre comportamentos antiéticos e sensibilizar a comunidade acadêmica para temas que impactam a vida universitária.
O projeto “Dar Voz” também revelou a persistência de processos burocráticos, carência de serviços de apoio psicológico e aconselhamento, situação frequente em várias instituições de Ensino Superior31. Além disso, os registros apontaram que o receio de retaliações e a descrença na efetividade das medidas institucionais desencorajavam os estudantes a fazer as denúncias, corroborando os achados de um estudo recente conduzido em uma universidade pública brasileira32.
A título de exemplo, pesquisa recente revelou que apenas 7% das universidades federais brasileiras possui mecanismos institucionais para responsabilizar os agressores e encaminhar as denúncias de assédio sexual27. Soma-se a isso o desconhecimento por parte dos gestores e representantes de associações estudantis sobre os procedimentos e mecanismos institucionais de enfrentamento e acolhimento das vítimas32,33. Esse cenário compromete a integridade institucional e fragiliza os princípios éticos que deveriam nortear essas instituições.
Considerações finais
A violência na relação docente e discente compromete a formação profissional e o bem-estar da comunidade acadêmica, contrariando a responsabilidade social da universidade. Seu enfrentamento exige ações articuladas entre política, ética, educação e saúde, a fim de romper estruturas de dominação e garantir dignidade, autonomia e bem-estar aos estudantes.
É necessário que os currículos das instituições de Ensino Superior incorporem a análise das origens da violência universitária, abordando as estruturas sociais e históricas das desigualdades reproduzidas no ambiente acadêmico e incorporando temas como sexualidade, relações étnico-raciais, gênero e interseccionalidade.
Nesse sentido, o componente disciplinar do projeto tem potencial para promover uma educação crítica e reflexiva, sustentada por princípios éticos e abordagens inclusivas e cooperativas com implicações tanto no âmbito político quanto no social. Contudo, o impacto do “Dar Voz” depende da continuidade das ações, sendo essencial manter campanhas e espaços formativos permanentes que envolvam toda a comunidade acadêmica.
As análises dos documentos demonstraram, portanto, que o projeto não se propôs a solucionar os conflitos históricos que permeiam a formação acadêmica. O objetivo principal foi promover conscientização e dar visibilidade às tensões e conflitos normalmente negligenciados no ambiente educacional, pressionando a universidade a criar mecanismos eficazes de denúncia que garantam segurança, anonimato e responsabilização dos agressores. Destaca-se a importância de instituir espaços qualificados de acolhimento e canais seguros de denúncia, fundamentais para consolidar uma cultura institucional pautada na ética, no respeito e na equidade de oportunidades.
Novas pesquisas precisam ser desenvolvidas para se conhecer a frequência, tipos e motivações das violências no contexto universitário a fim de subsidiar respostas institucionais para o enfrentamento dessa questão.
Nesse contexto, este artigo busca inspirar outros cursos e instituições a implementarem iniciativas similares contribuindo para um ambiente acadêmico mais seguro, democrático e inclusivo.
Agradecimentos
Ao apoio e à dedicação das bolsistas de extensão Gabriela Alves Ribeiro, Gabriella Castro de Sousa e Mariana Campos Baptista da Silva às ações desenvolvidas pelo Projeto Dar Voz no período de 2018 a 2022.
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Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
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Editado por
-
Editora
Roseli Esquerdo Lopes https://orcid.org/0000-0001-9572-4586
-
Editora associada
Anna Cristina Rodopiano https://orcid.org/0000-0002-2473-109X







Legenda: Cartazes produzidos pelo Projeto de Extensão “Dar Voz” denunciando as violências na relação docente-discente em curso de Odontologia de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro.
Legenda: Cartazes produzidos pelo Projeto de Extensão “Dar Voz” denunciando as violências na relação docente-discente em curso de Odontologia de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro.
Legenda: Cartazes produzidos pelo Projeto de Extensão “Dar Voz” denunciando as violências na relação docente-discente em curso de Odontologia de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro.
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