Open-access Disposições e Permanência Estudantil no Curso Superior em Administração: uma Análise Biográfica de Jovens de Meios Populares

Resumo

Este artigo tem por objetivo compreender de que modo as disposições de jovens dos meios populares (entendidas como lugares periféricos) influenciam a permanência no curso de Administração. Para tanto, foram biografados três estudantes oriundos de meios populares do Rio Grande do Sul (RS). Nas biografias, analisaram-se os patrimônios disposicionais dos participantes, identificando-se disposições interindividuais, como a flexibilidade moral, apreensão e apropriação sociais; e intraindividuais, a exemplo da autossuperação, disciplina, pensamento prospectivo, pensamento projetado para o futuro e trabalho duro. Em relação à permanência no ensino superior, destacaram-se especialmente a autossuperação, apreensão social, mimetismo social, disciplina, florescimento e o pensamento prospectivo. O trabalho emerge como elemento central na vida dos biografados, contribuindo para a permanência estudantil e a para a constituição de suas identidades. A família também influencia na permanência, e proporciona que os jovens reflitam sobre sua trajetória de vida e origem social, projetando possibilidades de mobilidade e ascensão profissional por meio da educação superior. A pesquisa indica que a permanência assume uma posição de destaque em pesquisas que buscam compreender trajetórias juvenis, pois desvelam sentidos de pertencimento e estranhamentos às estruturas educacionais no decorrer das experiências acadêmicas, descortinando condições materiais e simbólicas. A permanência deve ser compreendida como instrumento de transformação e de constituição do sujeito no espaço acadêmico; para continuar estudando, é essencial que o indivíduo se sinta parte das redes de relações constituídas, as quais reforçam o sentimento de pertencimento.

Palavras-chave:
Patrimônio disposicional; Permanência estudantil; Jovens; Meios populares

Abstract

This article aims to understand how the dispositions of young people from low-income backgrounds (understood as peripheral areas) influence their permanence in Administration courses. To this end, the biographies of three students from low-income backgrounds in Rio Grande do Sul (RS) were examined. The participants' dispositional heritage was analyzed to identify inter-individual dispositions, such as moral flexibility, social apprehension, and social appropriation, as well as intra-individual dispositions, such as self-improvement, discipline, forward thinking, forward planning, and hard work. Self-improvement, social apprehension, social mimicry, discipline, flourishing, and forward thinking were particularly important in relation to remaining in higher education. Work emerges as a central element in the lives of those profiled, contributing to student permanence and the formation of their identities. Family influences permanence as well, enabling young people to reflect on their life trajectory and social origin and project possibilities for mobility and professional advancement through higher education. The research indicates that permanence plays a significant role in studies that seek to understand youth trajectories because they reveal feelings of belonging to and alienation from educational structures during academic experiences, unveiling material and symbolic conditions. Permanence should be understood as an instrument of transformation and constitution of the subject in the academic space. In order to continue studying, it is essential that the individual feels part of networks of relationships that reinforce a sense of belonging.

Keywords:
dispositional heritage; student permanence; young people; low-income backgrounds

Introdução

A posse de capital cultural, econômico e social é um dos definidores para o acesso aos diversos espaços sociais (Bourdieu, 2007), contribuindo para a distribuição desigual de recursos e oportunidades entre as pessoas. Nesse contexto, especialmente os jovens dos meios populares não possuem todos os capitais esperados no ambiente universitário, contudo, demonstram capacidade para cumprir as exigências acadêmicas e apresentar um desempenho acadêmico satisfatório. Ao analisar a permanência estudantil, tal desempenho torna-se uma estratégia de aceitação e de reconhecimento entre os pares, e de superação de exclusão e de preconceitos, sobretudo pela condição de bolsista e a origem educacional precarizada (Ganam & Pinezi, 2021).

A razão pela qual o estudo focaliza jovens de meios populares no curso de Administração deve-se ao fato de que este público, embora represente parcela crescente dos ingressantes na educação superior brasileira, ainda enfrenta barreiras estruturais que comprometem sua permanência e êxito acadêmico. Estudos como o de Moraes (2023) demonstram que os cursos de Administração, em especial em instituições públicas, têm recebido um número expressivo de estudantes de origem popular, cuja trajetória é marcada por estratégias de resistência e superação diante das adversidades impostas pela desigualdade de capital cultural e econômico.

Nos últimos anos, observa-se uma crescente, embora ainda incipiente, incorporação do referencial teórico de Bernard Lahire — especialmente o conceito de patrimônio disposicional — no campo da Administração e das ciências sociais aplicadas. Estudos como os de Silva (2018) e Machado (2019) contribuem para esse debate ao discutir as limitações do modelo de habitus unificado de Bourdieu e propor uma análise sociológica “à escala individual”, sensível à pluralidade de disposições formadas ao longo de trajetórias múltiplas. Embora essas contribuições se concentrem majoritariamente no plano teórico, oferecem bases relevantes para a compreensão de processos formativos em cursos como o de Administração. Nesse sentido, Moraes (2023) propõe uma articulação entre patrimônio disposicional e aprendizagem situada para compreender a permanência de estudantes de origem popular em cursos de Administração, destacando como disposições herdadas e adquiridas são ativadas ou inibidas em diferentes momentos da trajetória formativa.

Ainda assim, permanecem lacunas importantes. Primeiramente, são escassos os estudos empíricos que mobilizam o conceito de patrimônio disposicional no contexto específico do ensino de Administração, especialmente no Brasil. Além disso, poucos trabalhos se debruçam sobre a reconstrução aprofundada das trajetórias individuais dos discentes, condição metodológica essencial para captar a composição e a ativação das disposições em contextos concretos, conforme defendido por Lahire (2002). Por fim, observa-se uma carência de investigações que analisem como diferentes situações de ensino — como disciplinas, estágios e projetos — influenciam a mobilização de disposições diversas, limitando a compreensão de como os estudantes navegam entre expectativas acadêmicas, institucionais e profissionais. Assim, destaca-se a necessidade de novos estudos que integrem abordagens biográficas e situacionais para compreender, de modo mais fino, os processos formativos em cursos de Administração sob a ótica disposicional.

Essas lacunas sinalizam a necessidade de estudos futuros que: (a) utilizem um desenho metodológico longitudinal e biográfico para mapear trajetórias disposicionais em cursos de Administração; (b) examinem as condições de ativação/inibição de repertórios em laboratórios, salas de aula e estágios; (c) considerem o contexto institucional e socioeconômico que moldam o patrimônio e sua mobilização no processo formativo. Dessa forma, avançar-se-ia na compreensão da constituição profissional dos administradores como produto de um patrimônio disposicional plural e situado.

Outros fatores que amparam a permanência estudantil compreendem o ambiente familiar, as redes de apoio financeiras e emocionais; o transporte entre a moradia e o local de estudo; e as normas culturais e sociais do lugar de origem. A preferência por disciplinas ministradas por professores admirados e aquelas que despertam vínculos sociais positivos também são fatores essenciais para a permanência. Em contrapartida, sinais de despreocupação dos professores em compreender as diferentes realidades socioeconômicas e as necessidades dos estudantes influenciam de forma negativa a permanência (Soares et al., 2022). Nesse sentido, Tinto (1997) destaca que o envolvimento dos estudantes com a comunidade acadêmica, aliado ao apoio institucional, é fundamental para sua permanência e sucesso no ensino superior.

No campo da Administração, pesquisas recentes têm se dedicado a compreender a permanência de estudantes de perfis diversos. Por exemplo, Silva et al. (2022) identificaram que políticas institucionais de apoio estudantil, aliadas ao reconhecimento das trajetórias sociais dos alunos, contribuem significativamente para o êxito acadêmico. Já Carvalho e Souza (2020) evidenciam que a construção de pertencimento institucional é um fator decisivo para a permanência dos estudantes em cursos de Administração, sobretudo entre aqueles oriundos de contextos socioeconômicos desfavorecidos.

Paralelamente, a preocupação com a inserção do jovem no trabalho, para famílias dos meios populares, é crucial enquanto fonte de sobrevivência e desenvolvimento. Assim como na educação básica, ingressar em curso de graduação é uma estratégia de inserção laboral, pois a educação superior representa um facilitador para a participação nas disputas no mercado de trabalho. Para tanto, os jovens costumam pautar seus esforços e escolhas em condições objetivas e subjetivas para a tomada de decisão (D’avila & Coutinho, 2019) nas diferentes áreas de suas vidas, estudo e trabalho passaram a ser atividades concomitantes para as juventudes populares desde os anos de 1990 (Borghi, 2013).

Os jovens de meios populares têm como um de seus incentivos para a inserção no ensino superior a precariedade material de suas famílias. Neste nível de formação, jovens periféricos lidam com demarcações “naturais” dos espaços em que podem ou não circular e, para isso, estabelecem interações e formam redes com pessoas semelhantes, de forma consciente ou não (Borghi, 2013). Para eles, o trabalho não se limita à remuneração recebida, mas envolve a possibilidade de ascensão social, buscando ocupações que possibilitem a conciliação com os estudos, já que trabalho e estudo são associados a um futuro melhor e, finalizada a formação acadêmica, vislumbram-se melhores condições de trabalho (Costa, Marques & Ferreira, 2020).

A análise das permanências de jovens oriundos de meios populares permite não apenas compreender os limites e possibilidades das políticas institucionais de apoio, mas também problematizar as desigualdades educacionais persistentes no campo da Administração. Estudos como o de Teixeira e Figueiredo (2023) reforçam que os desafios enfrentados por esse grupo contribuem para a reflexão sobre práticas pedagógicas, estrutura curricular e cultura institucional, promovendo uma educação superior mais inclusiva e equitativa.

Do ponto de vista teórico-metodológico, este estudo apresenta um avanço significativo ao adotar a teoria dos patrimônios disposicionais (Lahire, 2004; 2005), deslocando o foco do conceito de habitus, entendido como uma matriz estruturada e estruturante relativamente estável (Bourdieu, 2007), para uma abordagem mais dinâmica, sensível à heterogeneidade das experiências de socialização dos indivíduos. Essa mudança permite compreender os jovens de meios populares não a partir de uma lógica homogênea de reprodução de desigualdades, mas como sujeitos portadores de múltiplas disposições, por vezes contraditórias, que são mobilizadas seletivamente em contextos distintos — como o ambiente universitário.

Essa abordagem tem se revelado frutífera em pesquisas no campo da Administração, ao permitir que se capturem nuances das trajetórias acadêmicas de estudantes em vulnerabilidade social e se compreenda como eles articulam diferentes disposições — escolares, familiares, profissionais — na construção de estratégias de permanência (Lima, Andrade & Teixeira, 2022). Além disso, ao considerar a diversidade de influências que moldam os repertórios de ação dos estudantes, essa perspectiva evita explicações deterministas ou excessivamente estruturais, ampliando o entendimento sobre agência e adaptação institucional, elementos centrais para as análises organizacionais contemporâneas.

Na área da Administração, onde ainda prevalecem enfoques funcionalistas e economicistas sobre a evasão e permanência estudantil, a introdução da teoria das disposições representa uma inovação epistemológica. Ela permite aproximar os estudos sobre gestão educacional de discussões mais amplas sobre desigualdades, subjetividade e práticas sociais no cotidiano das instituições. Integrar abordagens sociológicas refinadas aos estudos organizacionais tem potencial para enriquecer análises sobre cultura acadêmica, pertencimento e performance, articulando questões de gestão, identidade e justiça social. Assim, a adoção deste referencial fortalece o rigor analítico da pesquisa e a alinha-se às tendências críticas e interdisciplinares que vêm se consolidando na Administração como campo científico.

Diante das questões apresentadas, este estudo ancora-se na teoria dos patrimônios disposicionais (Lahire, 2004; 2005) – que consiste na ideia de que os indivíduos acumulam ao longo da vida um conjunto de disposições, saberes, habilidades e hábitos incorporados por meio da socialização, que orientam suas práticas e percepções no mundo social, e tem como objetivo compreender como as disposições de jovens dos meios populares influenciam a permanência no curso de Administração. Para tanto, foi realizado um estudo biográfico com três indivíduos oriundos de meios populares no estado do Rio Grande do Sul (RS), de modo a reconstituir suas biografias, identificar disposições e compreender de quais formas as disposições podem influenciar a permanência estudantil. A reconstrução das biografias possibilita capturar as experiências de socialização (Lahire, 2017) e, a partir daí, analisar aspectos relacionados à permanência estudantil.

Nesta pesquisa, as discussões têm como base teórica a Teoria disposicional de Bernard Lahire (Lahire, 2002; 2004; 2005; 2015), as disposições interindividuais — que são compartilhadas — e intraindividuais (Silva, 2017), e questões relativas à permanência estudantil (Barbosa, 2015; Bisinoto, 2016; Gonçalves, Tude & Junior, 2020; Felinto, 2019; Seabra, 2019; Barbosa, 2015). As subseções a seguir apresentam tais conceitos e reflexões pautadas em estudos anteriores que possibilitam compreender as disposições dos jovens de meios populares e fatores que contribuem para a sua permanência no curso superior em Administração.

A Teoria disposicional de Bernard Lahire

O ponto de partida para Lahire problematizar a Teoria disposicional (isto é, investigar a origem dos patrimônios de disposições) é a noção de habitus (Bourdieu, 2007), associada a estilos de vida, maneiras e gostos incorporados pelas pessoas. O autor critica o entendimento sobre habitus elaborado por Bourdieu, enquanto um “sistema homogêneo de disposições gerais, permanentes, sistemas transferíveis de uma situação à outra, de um domínio de práticas a outro” e afirma, a priori, ser inconsistente o uso de expressões como princípios geradores e unificados — como o habitus —, para referir-se às práticas ou condutas, uma vez que “os patrimônios individuais de disposições raramente são muito coerentes e homogêneos” (Lahire, 2004, p. 318).

As práticas sociais resultam de diferentes interações e das imbricações de experiências passadas e presentes nas ações dos sujeitos. (Lahire, 2005). Os esquemas de ação, que incluem percepções, avaliações e apreciações; os hábitos de ver, sentir, fazer e dizer; e a situação presencial influenciam o acionamento de disposições, as quais possuem grau de fixação, de força e regularidade conforme a intensidade das socializações (Lahire, 2005). O habitus é percebido como heterogêneo e não como unificador de “todas as práticas em todas as situações”, uma vez que coexistem diversos contextos socializadores, a exemplo da família, bairro, escola, rede de amigos, entre outros (Roldão, 2015, p. 78).

Essas reflexões sobre a noção de habitus implicam em entender que as disposições não devem ser generalizáveis (Lahire, 2005), resultando em uma abordagem microssociológica que se propõe a compreender as variações disposicionais. Isso significa conhecer os patrimônios disposicionais existentes tanto internamente em um grupo social (disposições interindividuais), quanto nos próprios indivíduos (disposições intraindividuais). A proposta de Lahire (2005) rompe com a ideia de uma unidade do habitus e enfatiza a pluralidade de disposições incorporadas ao longo de trajetórias sociais diferenciadas.

As disposições intraindividuais referem-se aos modos de conduta adquiridos pelas experiências dos indivíduos em diferentes contextos sociais, enquanto as interindividuais contribuem para o entendimento das desigualdades sociais e culturais existentes (Boaes, Oliveira & Assis, 2019). Elas são provenientes da interação entre fatores sociais, culturais, históricos e biográficos, conforme destaca Lahire (2002). Por sua vez, as disposições interindividuais indicam diferenças entre as pessoas decorrentes de suas experiências e vivências, enfatizando não somente aspectos biológicos, mas também as disparidades quanto a oportunidades e experiências de vida. Dessa forma, há um compartilhamento heterogêneo de disposições dentro de um mesmo grupo social, evidenciando-se de forma particular em cada pessoa. Essas disposições podem ser ativadas ou não pelos indivíduos, dependendo das socializações estabelecidas em seus contextos específicos (Boaes, Oliveira & Assis, 2019).

Lahire (2015) busca compreender a gênese das disposições e os modos de socialização as embasam (Alves, 2016), considerando que elas possuem origem, são agrupadas pelas socializações, têm intensidade decorrente da repetição em experiências análogas, são observáveis em atitudes, práticas e comportamentos, e revelam tendências, inclinações e propensões comportamentais.

Tabela 1
Síntese dos aspectos discutidos na Teoria disposicionalista de Bernard Lahire

As disposições podem ser sintetizadas em: instinto gregário, trabalho duro, pensamento prospectivo, disciplina, senso prático, autossuperação, ascetismo, hedonismo, conciliação, enfrentamento, prudência, temeridade, autonomia, flexibilidade moral, retidão, distinção social e apropriação social (Silva, 2017). O primeiro conjunto (instinto gregário, trabalho duro, pensamento prospectivo, disciplina, senso prático, autossuperação) refere-se às disposições interindividuais (compartilhadas). O segundo (ascetismo, hedonismo, conciliação, enfrentamento, prudência, temeridade, autonomia, flexibilidade moral, retidão, distinção social e apropriação social) corresponde às disposições intraindividuais. Tal síntese é proposta por Silva (2017), considerando os resultados de uma pesquisa com jovens egressos que se formaram no curso de Administração como bolsistas do Programa Universidade para Todos (PROUNI), cujo objetivo foi compreender a influência da origem social sobre a formação e a inserção profissional.

A ideia de instinto gregário refere-se a um comportamento de união e fortalecimento de laços familiares, onde há dependência mútua entre membros da família quanto ao compartilhamento de dificuldades, conselhos, companhias, suporte financeiro e atividades domésticas. Trata-se de um projeto familiar, visando o crescimento coletivo e retribuição futura dos filhos aos pais, que os apoiaram e transmitiram exemplos e valores. Esse instinto relaciona-se também com a manutenção de amizades originadas na infância, mesmo com as relações de amizade futuras. Isso é uma forma de valorização da origem social e da superação das dificuldades no decorrer da trajetória (Silva, 2007).

O trabalho duro refere-se à possibilidade de ascensão social através do esforço, dedicação e trabalho, associados à qualificação profissional. O trabalho é um caminho para a melhoria de vida e, por isso, conciliar trabalho e estudo é natural, sobretudo para jovens das camadas populares, para quem o trabalho é comum desde a infância (Souza, 2010). Esse conceito relaciona-se com o pensamento prospectivo, que envolve planos e estabelecimento de objetivos futuros tanto para si, quanto para a família, atentando-se às oportunidades. Busca-se evitar erros e desperdícios de recursos, por isso, planejamento, autocontrole e sacrifícios são fatores preponderantes para a consolidação da noção de um futuro melhor (Souza, 2010).

Por disciplina compreende-se os comportamentos incorporados desde a infância, com a família, em que hábitos para estudos e outras atividades são essenciais para a concretização de objetivos. Envolve a ideia de oferecer o melhor de si nas atividades que são desempenhadas. Essa disposição é importante para o sucesso escolar e a formação de comportamentos autônomos, agregando a capacidade de realizar por si mesmo o que é demandado (Lahire, 1997; Souza, 2010).

As disposições intraindividuais, por sua vez, relacionam-se com a ideia de ascetismo, ou seja, ao cálculo racional de recursos, voltando esforços ao que poderá gerar maior retorno, disposição associada às disposições para disciplina e trabalho duro (Lahire, 1997; Souza, 2010); ao hedonismo, que consiste na valorização do prazer, do descanso e da diversão, permitindo-se usufruir de prazeres momentâneos. Pode-se considerar o hedonismo como um privilégio de classe, sem que seja necessário comprometer outras esferas da vida (Souza, 2010); e à conciliação, tendência em evitar conflitos, ceder ou mudar de posição em momentos de impasse ou divergência aparente, adaptando-se a diferentes meios e códigos de conduta (Silva, 2007).

Outras disposições individuais são: o enfrentamento, adoção de uma posição firme frente a um questionamento ou conflito, não desistindo facilmente em uma discussão ou disputa; a prudência, condutas cuidadosas, evitando-se correr riscos desnecessários e optando pela segurança e estabilidade; a temeridade, falta de prudência, resultando em condutas ousadas, com tendências a correr riscos e comportamentos audaciosos; a autonomia, existência de um impulso que mobiliza os indivíduos a alcançarem o que almejam, não esperando por outras pessoas nem pelo momento ideal; a flexibilidade moral, comportamento adaptativo a diferentes contextos, situações e opiniões a fim de receber reconhecimento e legitimidade, mesmo daqueles de quem discorda ou é diferente; a retidão, conduta íntegra, agindo a favor do dever, das regras e da lei, prezando pela retidão de caráter; a distinção social, necessidade de diferenciação social em relação àqueles pertencentes a diferentes classes sociais; e a apropriação social, facilidade em circular por diferentes meios sociais, interagindo com pessoas de diferentes origens e adaptando-se aos diferentes contextos (Silva, 2017).

Outras duas disposições interindividuais (compartilhadas) são o senso prático e a autossuperação. Enquanto a primeira relaciona-se à renúncia de prazeres pessoais e da vaidade em detrimento de retornos objetivos e concretos. Isto é, uma conduta de sacrifício pessoal onde, não se percebendo vantagens em relação a algo pessoal, decide-se pela abdicação – geralmente o foco recai sobre a ascensão profissional e a busca de espaço no mercado de trabalho (Souza, 2010), a segunda envolve a crença na possibilidade de ascensão social e conquista de uma vida melhor por meio do estudo e do trabalho, transmitida pela convivência com os pais. Há a reprodução de um discurso de perseverança e de responsabilização e esforço individual (Lahire, 1997).

As disposições descritas por Silva (2017), identificadas em jovens egressos do curso de Administração oriundos do PROUNI, revelam um conjunto complexo de valores e comportamentos que refletem tanto estratégias de mobilidade social quanto adaptações às exigências do mundo do trabalho contemporâneo. Tais disposições encontram eco em diversas pesquisas brasileiras da área de Administração, especialmente aquelas que tratam da gestão de pessoas, da cultura organizacional e da inserção profissional de indivíduos de classes populares.

O instinto gregário, como projeto familiar coletivo de ascensão social, é frequentemente discutido em estudos sobre o capital social e a importância das redes de apoio informais para a carreira de profissionais em início de trajetória. Pesquisas como a de Lima e Conserva (2006) e Fontes (2018) apontam que o apoio familiar e comunitário influencia diretamente a construção da identidade profissional e o enfrentamento das dificuldades no ambiente corporativo. O fortalecimento desses vínculos atua como uma estratégia de resistência diante das desigualdades estruturais.

A disposição para o trabalho duro e o pensamento prospectivo relaciona-se diretamente ao conceito de empregabilidade, segundo o qual o indivíduo deve estar continuamente comprometido com seu próprio desenvolvimento, cultivando competências que o tornem relevante no mercado (Oliveira & Batista, 2017). Tal perspectiva se entrelaça com o discurso meritocrático amplamente difundido em ambientes organizacionais, mas que, como alertam Conceição (2011), Ribeiro (2014), Rodrigues (2017) e Fontes (2018), pode ocultar desigualdades de origem e ignorar os efeitos do habitus de classe sobre as oportunidades reais de mobilidade.

Nesse mesmo sentido, a disciplina e o senso prático apontam para a incorporação de um ethos gerencial, voltado à racionalização de recursos, à eficiência e ao desempenho individual. Tais características são valorizadas no campo da Administração, especialmente em ambientes que exigem alta produtividade e adaptabilidade constante. Entretanto, estudos como o de Lima e Conserva (2006), Valle, Barrichello e Tomasi (2010), Barbosa (2014) e Abrantes e Gonçalves (2023) destacam que esse ethos, ao ser naturalizado, pode legitimar práticas de autogestão do sofrimento e intensificação do trabalho, sobretudo entre trabalhadores que buscam afirmação social.

As disposições intraindividuais, como ascetismo, prudência e retidão, podem ser interpretadas à luz das exigências de comportamentos éticos e do autocontrole em contextos organizacionais, reforçando o papel da subjetividade na governança corporativa contemporânea. Por outro lado, a presença simultânea de disposições aparentemente contraditórias — como hedonismo e ascetismo, ou prudência e temeridade — revela o caráter ambivalente das trajetórias desses sujeitos, que precisam constantemente negociar valores internalizados e exigências externas para manter sua posição no mercado.

Além disso, a flexibilidade moral e a apropriação social são fundamentais para o entendimento das práticas de navegação em diferentes campos sociais. Como apontam Conceição (2011), Rodrigues (2017) e Fontes (2018) a inserção de sujeitos oriundos das classes populares em espaços tradicionalmente ocupados por elites econômicas e culturais demanda habilidades simbólicas específicas, entre elas a capacidade de “ler” e adaptar-se a diferentes códigos de conduta. Isso envolve tanto a construção de uma imagem legítima quanto o controle de aspectos da própria origem.

Por fim, a distinção social, como necessidade de demarcar fronteiras simbólicas entre grupos, reflete uma busca por reconhecimento que transcende a esfera econômica. Em estudos como o de Conceição (2011) observa-se que a ascensão profissional é frequentemente acompanhada por tensões identitárias, nas quais o sujeito se vê entre o pertencimento à origem e a integração em novos espaços, muitas vezes marcados por discriminação velada.

Dessa forma, os achados de Silva (2017) aproximam-se de debates centrais na Administração contemporânea, ao revelar como as disposições individuais e coletivas são mediadas por trajetórias sociais, relações de poder e exigências organizacionais. As estratégias subjetivas de inserção e permanência no mundo do trabalho evidenciam o entrelaçamento entre estrutura e agência, desafiando modelos normativos que tratam a carreira como uma jornada puramente individual.

A Permanência Estudantil

No âmbito das instituições públicas, permanência estudantil é vista sob o entendimento de políticas ou programas assistenciais, respaldando estratégias de manutenção e garantia de direitos dos estudantes (Silva, 2017; Maciel; Júnior &Lima, 2019). Em contrapartida, o termo pode relacionar-se à retenção de alunos, sobretudo nas instituições da rede privada (Silva, 2017). O fenômeno também pode representar ações dos estudantes para continuar no ambiente acadêmico até a conclusão do curso, englobando a compreensão de obstáculos, dificuldades da trajetória (materiais e simbólicas) e fatores motivacionais (Felinto, 2019; Maciel; Júnior & Lima, 2019).

Neste estudo parte-se do último entendimento — obstáculos e fatores motivacionais — uma vez que essa perspectiva dialoga com a lente teórica adotada — os patrimônios disposicionais — e possibilita compreender não apenas elementos materiais para a permanência como as simbologias do processo e as motivações para a permanência. As origens sociais (ética, nacional) atravessam as trajetórias escolares, bem como o lugar de residência (periferia, centro da cidade, área rural) e o gênero, e os estudantes de origem popular geralmente são penalizados pelo sistema escolar, devido ao conjunto de características que os constituem: em grande parte são negros, de áreas rurais ou moradores de regiões precárias da cidade (Seabra, 2019).

Esses indivíduos usualmente possuem uma escolarização básica deficitária, de pouca qualidade (Barbosa, 2015), são os que mais evadem no Ensino Superior, em especial por conta das condições socioeconômicas, do baixo desempenho, das reprovações e da ausência de um suporte efetivo da instituição de ensino e dos professores; nas disciplinas, na dificuldade em estudar e trabalhar, das incertezas quanto à carreira a trilhar e ao mercado de trabalho (Kampff, Teixeira & Mentges, 2018). Bisinoto (2016) sintetiza em três eixos os motivos para a (não) permanência dos estudantes no curso superior: características pessoais, características internas e externas às instituições de ensino.

As características pessoais englobam os seguintes fatores: habilidades de estudo, personalidade, formação escolar anterior, escolha precoce da profissão, dificuldades de adaptação à vida universitária, incompatibilidade entre demandas acadêmicas e do mercado de trabalho, desmotivação decorrente de cursos escolhidos em segunda ou terceira opção, desinformação sobre os cursos e dificuldades na relação ensino-aprendizagem (reprovações constantes e/ou baixa frequência.

Por parte das instituições, as características de ensino envolvem: currículos desatualizados e/ou alongados, alta exigência de pré-requisitos e pouca clareza sobre o projeto pedagógico do curso, critérios impróprios de avaliação, e ausência de programas institucionais de apoio e de desenvolvimento discente. Essas condições estão associadas a um modelo de educação superior marcado pela precarização do trabalho docente e pela heterogeneidade nas condições de oferta, como apontam Sguissardi (2023) e Vargas, Zuccarelli e Honorato (2024). Do ponto de vista externo, as características das instituições de ensino relacionam-se ao mercado de trabalho, ao reconhecimento social sobre a carreira na área, à conjuntura econômica, à desvalorização da profissão docente e às dificuldades financeiras enfrentadas pelos estudantes. Esses fatores são agravados pela ausência de políticas públicas consistentes e continuadas voltadas à valorização do ensino superior, como indicam Sousa Sobrinho, Lima e Santos (2022) e Patrocino (2023), que também destacam o impacto das reformas educacionais e do receituário de organismos multilaterais nesse cenário. Além disso, a escassez de apoio à formação inicial e continuada, somada à massificação do ensino, compromete a qualidade e a permanência dos estudantes no ensino superior (Bertolassi, 2021; Bisinoto, 2016).

Há duas correntes teóricas mais frequentes na literatura sobre permanência estudantil, a sociológica, ligada ao contexto familiar, experiências sociais e acadêmicas, suporte de amigos, integração social e acadêmica, desempenho acadêmico (esforço e notas) e instituição, e a psicológica, relativa ao aprendizado, contato informal com professores, fatores pré-ingresso e ambientais, oportunidades e envolvimento do estudante (Gonçalves et al., 2020). De modo geral, os fatores decisivos para continuar ou desistir da formação envolvem a identificação ou satisfação com o curso; as dificuldades na aprendizagem; falta de materiais para auxílio nos estudos; possibilidades de carreira e oportunidades de trabalho; desenvolvimento pessoal e profissional; condições financeiras e geográficas (acesso, indisponibilidade ou ausência de transporte e de caronas); e problemas pessoais e familiares (Souza & Reinert, 2009).

O método da pesquisa: Retratos Sociológicos

Para a análise do patrimônio disposicional, parte-se da realização de entrevistas biográficas, que buscam capturar as experiências de socialização passadas e presentes em diferentes fases da vida de uma pessoa (Lahire, 2017). As entrevistas possuem caráter qualitativo, com roteiro semiestruturado para compreender detalhadamente suas histórias, e não necessitam ser numerosas, tal como é feito em outros estudos qualitativos que usam de entrevistas como técnica de coleta de dados. Pesquisas brasileiras que investigam patrimônios disposicionais, geralmente localizadas nas áreas de Educação e Ensino, partem de um (1) sujeito para biografar (Dias & Gauche, 2021).

De acordo com Lahire (2017), as biografias sociológicas não separam o indivíduo do contexto em que está inserido. Ao contrário, possibilitam uma reconstrução gradual das conexões que esse sujeito estabelece com outras pessoas, grupos sociais e instituições ao longo de sua vida. Dessa forma, tornam-se ferramentas analíticas detalhadas e eficazes para observar como se formam as relações sociais entre os sujeitos e os espaços que ocupam. Ao captarem as estruturas sociais vividas e os traços incorporados pelos indivíduos em suas trajetórias, essas biografias demonstram grande potencial metodológico para investigar a experiência social (Lahire, 2017).

A perspectiva proposta por Lahire, que concebe as biografias como "retratos sociológicos", apresenta importância teórica por, no mínimo, dois motivos. Primeiro, por oferecer uma alternativa às abordagens macrossociológicas, frequentemente mais abstratas e generalizantes, ao focar na dimensão microssociológica e nos processos singulares de socialização. Tal enfoque evidencia que as dinâmicas entre classes sociais e culturas dominantes não ocorrem de forma homogênea, tampouco se reproduzem de maneira automática no plano individual. Segundo, essa abordagem possibilita um tratamento especificamente sociológico da individualidade, ao reconhecer os indivíduos como portadores de disposições múltiplas, moldadas socialmente e situadas historicamente (Junior & Massi, 2015).

Os retratos sociológicos são elaborados com base em entrevistas biográficas semiestruturadas, marcadas por sua flexibilidade quanto aos temas e pela ausência de uma ordem rígida de tópicos (Lopes, 2012). Tais entrevistas devem ocorrer em diferentes fases da investigação, permitindo que o entrevistado revisite suas experiências com mais profundidade e nuance. O intervalo entre os encontros entre pesquisador e o participante é essencial, pois estimula a reflexão do sujeito sobre sua trajetória, aumentando as chances de construção de uma narrativa mais genuína, que ultrapasse discursos fixos, idealizados ou moldados por padrões de sucesso pessoal.

A elaboração dos retratos sociológicos exige um roteiro de entrevistas capaz de transitar pelas experiências passadas, atuais e futuras dos participantes. Essa abordagem busca contemplar a complexidade dos contextos sociais nos quais os indivíduos estão inseridos, favorecendo uma compreensão ampliada das interações que moldam suas trajetórias (Silva, 2018). O foco, portanto, não recai sobre a quantidade de entrevistados, mas sobre a densidade e a profundidade das informações produzidas. Por essa razão, o método busca escapar de leituras genéricas ou simplificadas, assumindo uma postura atenta às singularidades.

No âmbito desta pesquisa, cujo propósito é compreender as condições que favorecem a permanência de estudantes de origem popular no ensino superior, foi desenvolvido um roteiro de entrevistas — embasado em contribuições de Ferreira (2020), Silva (2018), Gomes et al. (2014), Reis (2014) e Ruskowski (2012) — que incorporou diferentes esferas da vida social — como os vínculos familiares, experiências escolares, inserção no mundo do trabalho, relações de amizade, práticas culturais e formas de lazer. Foi adicionado um eixo sobre permanência estudantil para compreender características do curso e da instituição consideradas fundamentais para a permanência, processos de adaptação, estratégias para manter-se estudando, incentivos ao estudo, rotina de estudos, facilidades e dificuldades de aprendizagem, relacionamentos com professores e colegas, aspectos familiares, profissionais e de outros ambientes presentes na trajetória acadêmica.

Essa abordagem metodológica busca evitar relatos centrados na autopromoção ou em narrativas heroicas, promovendo condições que possibilitem ao biografado acessar aspectos mais profundos de sua vivência social. Nesse processo, o pesquisador deve exercer uma escuta sensível, elaborando perguntas que provoquem o núcleo social presente nas histórias de vida dos participantes. A escuta comprometida e situada, portanto, é fundamental para revelar as múltiplas disposições socialmente adquiridas que atravessam cada trajetória biográfica (Lahire, 2002, 2004).

A condução das entrevistas e do tratamento dos dados seguiram as orientações de Lahire (1997) e Silva (2017). Diante disso, a Tabela 2 sistematiza a preparação e o processo de coleta de dados e a análise dos resultados, culminando a construção dos retratos sociológicos.

Tabela 2
Procedimentos analíticos para construção dos retratos sociológicos

Neste estudo, três pessoas foram biografadas: Larissa, Thainã e Aline, oriundas de três bairros populares da cidade de Porto Alegre (RS): Lomba do Pinheiro, Restinga e São Tomé (Viamão). Elas foram acessadas pelas redes sociais de um dos pesquisadores, que apresentou o objetivo da pesquisa e verificou o interesse. Aceito o convite, iniciou-se o processo de entrevista (online), que ocorreu entre março de 2022 e abril de 2023, com duração média de 1h45min. Foram realizadas 14 entrevistas, distribuídas da seguinte forma: Aline participou de cinco entrevistas, Larissa de outras cinco, e Thainã de quatro entrevistas. No primeiro encontro, leu-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), alinhou-se o uso do nome real (autorizado), condições de gravação e pausas desejadas, assim como a transcrição das entrevistas e o compartilhamento dos escritos com os entrevistados para ajustes.

A escolha dos participantes desta pesquisa foi guiada por dois critérios de saturação aplicados à análise do espaço social: estratos e representações. Os estratos referem-se a dimensões estruturais amplamente reconhecidas e essenciais na definição de uma amostra ou grupo investigativo, como faixa etária, ocupação, religião, gênero, entre outros. Já as representações dizem respeito às variações subjetivas na relação entre indivíduos e objetos, evidenciando como esses aspectos se articulam. De acordo com Bauer e Aarts (2003), essa dimensão ainda é pouco explorada e requer maior aprofundamento, uma vez que a pesquisa qualitativa visa justamente compreender as representações específicas que surgem na interação entre sujeitos e objetos em contextos sociais.

Nessa abordagem, os estratos são considerados em associação ou tipificação com essas representações. Dessa forma, a delimitação do corpus às biografias permite uma compreensão mais profunda dos contextos socioculturais e históricos, além das vivências particulares dos participantes, possibilitando a identificação de pontos em comum e divergências nas narrativas, todas analisadas sob uma mesma base teórica.

A inclusão dos participantes biografados ocorreu de forma voluntária, a partir do interesse espontâneo demonstrado por eles. Antes de fazer os contatos diretos, o pesquisador divulgou, por meio de suas redes sociais, um convite à participação, apresentando de forma clara os objetivos da pesquisa, os procedimentos previstos e oferecendo canais de contato para eventuais dúvidas. Essa estratégia gerou algumas respostas, nas quais foi possível perceber tanto a curiosidade quanto a disposição em compartilhar suas histórias de vida dentro de um contexto acadêmico. Após esses primeiros retornos, o pesquisador forneceu informações mais detalhadas sobre os objetivos e a metodologia da investigação. Ao final, quatro pessoas demonstraram interesse em participar, embora uma delas tenha desistido antes que as entrevistas tivessem início.

As entrevistas seguiram as categorias previamente definidas para cada dimensão do roteiro elaborado. Em cada encontro, os participantes eram informados sobre os temas a serem discutidos, o que favorecia a clareza e o alinhamento durante as conversas. As sessões sempre começavam com uma retomada dos tópicos tratados no encontro anterior, com o objetivo de contextualizar o participante na trajetória da pesquisa em andamento.

Após as entrevistas, procedeu-se à transcrição completa do material coletado, visando uma leitura minuciosa das narrativas, a identificação de aspectos sensíveis das trajetórias — muitas vezes ressaltados pelos próprios entrevistados – e a seleção de trechos que demandavam exploração mais profunda em encontros posteriores. Foram respeitados intervalos entre as entrevistas, permitindo momentos de reflexão tanto para o pesquisador quanto para os participantes, como recomenda Bernard Lahire (1997, 2002), no que se refere à elaboração consciente das próprias histórias de vida.

Na transcrição, optou-se por registrar fielmente as falas dos entrevistados, incluindo interjeições e formas de expressão típicas da oralidade, realizando ajustes gramaticais apenas quando necessários para atender às normas de citação aplicadas às análises. Em relação à construção das biografias, os participantes foram envolvidos no processo de elaboração das narrativas, colaborando especialmente na validação dos conteúdos, com atenção à sequência cronológica dos eventos relatados e à precisão das referências a pessoas e lugares. Assim, as biografias foram construídas por meio de um processo colaborativo.

Biografias, resultados e discussão

Aline

Aline tem 27 anos, autorreconhecida como pessoa branca, nasceu em Porto Alegre (RS) e desde criança reside em Viamão, região metropolitana de Porto Alegre. Integra uma família nuclear pequena, possui uma irmã e mora com seus pais. Teve sempre sua mãe presente enquanto o seu pai provia o sustento da casa. Até os 16 anos de idade morava em uma casa de madeira e alvenaria atrás da casa da avó, no mesmo pátio. A casa possuía cozinha (sendo a mesa a bancada de estudos de Aline), sala, um banheiro e dois quartos. Sua trajetória escolar é constituída por vivências em escolas públicas. O ingresso no ensino superior ocorreu no ano de 2015, onde passou a circular pelos corredores da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A entrada no ensino superior é marcada pelas aulas de preparação para o vestibular em um instituto popular de educação onde convivia com pessoas em condição social muito semelhante à dela. Cursar uma formação superior na UFRGS sempre foi o objetivo de Aline: “sempre foquei na UFRGS pelo fato dela ser gratuita. Eu não teria outra opção, não teria condição financeira de pagar uma faculdade privada”. O trabalho sempre esteve presente na sua trajetória e seu ingresso na vida profissional aconteceu por uma “necessidade de sobrevivência”. Em 2015 (até meados de 2017), logo no início do curso, ela começou a trabalhar em uma feira, junto com sua mãe e sua tia, aos fins de semana. Em 2018 iniciou estágio na Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Estudava pela manhã e trabalhava à tarde.

A permanência no curso de Administração se deu por um misto de tentar sobreviver nesse ambiente e focar em seu futuro profissional. As disciplinas que envolviam gestão de pessoas ajudaram a refletir sobre a sua trajetória profissional e a analisar as oportunidades ao redor. Para Aline, foram os professores que incentivaram a permanência e não a UFRGS, enquanto apoio institucional, mas ressalta que programas de assistência estudantil são importantes para outros estudantes. Ela retomou as dificuldades do início da jornada, frisando a diferença de notas e de desempenho acadêmico e o contraste com a realidade de ensino de sua formação básica. Sua pouca abertura com colegas de condições sociais melhores era algo que causava frustração — situação diferente quando interagia em dinâmicas em aula.

As experiências profissionais também foram importantes para continuar estudando. No geral, o trabalho na feira, na Prefeitura e na empresa de contabilidade contribuíram para desenvolver a comunicação, a reflexão, o agir e o ser, sobretudo, quando as atividades estavam alinhadas às disciplinas ou conteúdo do curso. As experiências de convívio na universidade ajudaram a dimensão relacional de Aline em seu trabalho, principalmente no escritório de contabilidade. As relações interpessoais sobrepuseram a relevância de conteúdos, por exemplo, nas atividades laborais de Aline. Além disso, o fato de trabalhar no escritório com entidades do terceiro setor influenciou muito em suas escolhas, no seu propósito e em seus trabalhos acadêmicos, como no tema do trabalho de conclusão de curso.

Thainã

Por sua vez, Thainã, homem negro, tem 30 anos e mora no bairro Hípica, na cidade de Porto Alegre. É namorado da Letícia há mais de seis anos e eles residem juntos. Possui um filho, gerado de uma relação anterior. Ele inspira-se nas pessoas ao seu redor, reflete sobre as vivências que teve ao longo da vida e as avalia positiva ou negativamente de forma que possa extrair algum aprendizado dessas situações, faz projeções de futuro com base em um planejamento de vida sólido e dentro de suas possibilidades. Seus pais são funcionários concursados em uma instituição financeira. Sua mãe possui ensino médio completo e já está aposentada. Seu pai possui ensino fundamental incompleto e ainda não está aposentado.

A vida profissional de Thainã começou no segundo ano do ensino médio. Atuou como estagiário em um banco, permanecendo por dois anos até finalizar esse nível de ensino. Com a intenção de continuar os estudos, decidiu ingressar em um curso técnico em Administração, contando com o apoio de seu pai para o pagamento do curso. A percepção de Thainã de que o curso de Administração seria um caminho a seguir surgiu a partir da análise de sua trajetória profissional e acadêmica. Assim que iniciou no ensino superior privado, ingressou em um estágio na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, de modo que conseguiu conciliar suas atividades profissionais e as do curso. Sua principal expectativa era a empregabilidade.

Quando questionado sobre o motivo de continuar estudando, Thainã diz que são seus planos para o futuro, e a busca para transformar as dificuldades em motivações, por isso, cabe a ele saber agir, entender as situações, adquirir conhecimento para tomar decisões. A situação financeira e sua condição social foram importantes motivadores para permanecer estudando, uma vez que sempre toma o seu núcleo familiar como parâmetro de existência. Os professores também são inspiração para a permanência. As trajetórias profissionais comentadas pelos docentes em sala de aula o motivam não apenas a continuar no curso, como também a refletir sobre mercado de trabalho, posições profissionais de gestão ou, até mesmo, um negócio próprio. Hoje, Thainã já é formado no curso superior em Administração.

Larissa

Larissa tem 26 anos, mulher branca, é casada e mora no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Ainda é estudante do curso de Administração em um centro universitário particular em Porto Alegre. Nasceu quando sua mãe tinha 20 anos. Sempre teve sua avó presente em sua educação, pois como seus pais trabalhavam, a mãe revezava o cuidado diário com a avó. Eles também possuem um restaurante no bairro. Antes do restaurante, sua mãe trabalhou como faxineira e cozinheira em um restaurante. O laço da mãe de Larissa com a cozinha é antigo, começando em uma de suas primeiras entrevistas de emprego. Seu pai trabalhou anteriormente em um hipermercado. Larissa mudou-se para a residência atual aos 15 anos de idade. Antes, desde o seu nascimento, morou em outro bairro localizado na mesma cidade.

O estudo sempre foi um importante incentivo dos pais, vislumbrando a não reprodução do trabalho que exerciam. A orientação recebida da mãe era questionar os professores sempre que necessário, evitando dúvidas. Seus pais sempre deixaram evidente a condição limitada para oferecer estudo de qualidade, bem como as restrições que possuíam para auxiliar Larissa em suas atividades de escola. Cursou todas as séries do ensino fundamental e médio em escolas estaduais. Realizou um curso técnico em Administração concomitantemente ao ensino médio, período em que realizou o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), sendo aprovada para o curso de Pedagogia. Contudo, percebeu que não possuía afinidade com o curso e evadiu-se, decidindo cursar Administração na mesma instituição. Ingressou como aluna pagante, contando com o apoio de seus pais para despesas nos meses iniciais, até empregar-se.

A história de vida de seus pais fortaleceu a sua permanência nos estudos, sobretudo as memórias sobre o restaurante e o empenho de seus pais em busca da concretização desse sonho. Os colegas de curso que se tornaram amigos também são fontes de inspiração e de motivação, e nos momentos de desânimo busca relembrar com eles as razões para estarem na graduação, da sua história e de seu lugar de origem. Sua permanência no curso de Administração tem como fator norteador o seu desejo de conquistar: “Onde eu posso chegar se eu estudar, o que eu vou conquistar, que área [profissional] quero?”. Além disso, sua permanência no curso deriva da necessidade de sustento, muito influenciada pela reflexão de sua mãe: “Se você desistir de tal coisa, se você desistir de trabalhar, quem é que vai te sustentar?”

Outro elemento basilar na história de Larissa é o trabalho. Desde criança, aos seis anos, observava que seus familiares costumavam trabalhar bastante. Por isso, quando teve a oportunidade de trabalhar, ela não hesitou: “Eu simplesmente encarei, vou trabalhar porque quero ter minhas coisas”. Atualmente ela realiza estágio administrativo no banco comunitário Sicredi. Suas atividades de lazer envolvem ir à praia, ler livros do Harry Potter e de ficção científica, frequentar parques da cidade — Germânia e Parque Farroupilha —, ir ao cinema, escutar música sertaneja, ir a parques aquáticos, zoológico, shows, aniversários infantis e viagens.

As disposições intraindividuais dos sujeitos biografados

Aline

A biografada ressaltou a importância de fazer o bem, algo que aponta para uma inclinação ao humanitarismo: “Não tem sentido nenhum estar na Terra se não for para fazer uma mínima diferença na vida de uma pessoa”. Esse comportamento é indicativo de uma missão social, um compromisso do sujeito com uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária, com o cuidado alheio e com princípios e valores dos indivíduos que legitimam sua ação (Nascimento, 2013). Ela se percebe merecedora das conquistas que obteve, apesar de sentir que necessita trabalhar os sentimentos de autoconfiança e a crença em seu potencial. Há uma reflexão sobre a sua trajetória social e econômica, reconhecendo a dedicação e o esforço aplicados na superação das dificuldades que emergem ao longo de sua trajetória.

Outra disposição identificada foi a apreensão social, pois Aline reconhece as desigualdades sociais nos espaços que frequenta, principalmente no Ensino Superior, do qual ressaltou o choque de realidades, que resultou em sentimentos de exclusão e, por conseguinte, em limitações nas relações interpessoais; dificuldades de convivência e interação com colegas em condições socioeconômicas superiores, e da capacidade de aprendizagem. Essa disposição externaliza a capacidade de um sujeito de assimilação mais imediata de categorias sociais em um determinado contexto e expressa a singularidade do sujeito na compreensão dos eventos que surgem e que possuem seus conteúdos objetivados (Carraro; Oliveira & Rovati, 2017).

No Ensino Superior Aline externaliza a apropriação social (Silva, 2017) enquanto estratégia de superação, buscando adaptar-se ao contexto acadêmico por meio da flexibilidade comportamental, apesar de ter consciência das dessemelhanças sociais instauradas, reforçando a disposição para apreensão social. As relações sociais estabelecidas na universidade, as quais considera poucas, são influenciadas ou resultantes de sua assimilação das condições sociais dos atores, da limitação que se impunha a partir da apreensão social, de sua personalidade e de sua situação socioeconômica. Portanto, nota-se emergir uma inclinação para a flexibilidade moral (Silva, 2017), um comportamento adaptativo a contextos, situações e a opiniões em busca de reconhecimento ou legitimação em um dado campo social.

Uma inclinação para o enfrentamento também é notada. Tal disposição está relacionada à marcação de posicionamentos firmes frente a questionamentos, discussões ou conflitos (Silva, 2017). Essa disposição pode ser associada a determinação de Aline em dar continuidade ao curso de Administração ainda que fossem perceptíveis as dificuldades que surgiam no decorrer de sua caminhada: “[...] quando eu percebi que não iria mais [desistir] e já estava no meio do curso, então eu falei: bom, vamos até o fim. Começou, termina [...]”. No trecho, observou-se um ascetismo, que se refere ao cálculo racional sobre o emprego de esforços em atividades que gerem resultados significativos. Sua inclinação ascética pode ser associada aos ganhos proporcionados pelo diploma universitário.

Para Aline, ambientes profissionais desrespeitosos, corruptivos, coercitivos e com agressões físicas e/ou morais são inadmissíveis. Nesses pontos, disposições para prudência e retidão são observadas. A prudência está relacionada a condutas cuidadosas, necessárias, seguras e estáveis. Já a retidão aproxima-se a condutas íntegras, do caráter e de ações em prol de leis, regras e deveres (Silva, 2017). O ascetismo também é evidenciado, sendo observado no próprio trabalho que realiza no escritório de contabilidade, onde ela compreende seu labor como necessário para a sua sobrevivência e entende que o próprio conteúdo de suas atividades profissionais é o que a motiva a querer estar trabalhando nessa empresa.

Indo além, observou-se duas outras disposições: servidão e hedonismo. A servidão refere-se à autorresponsabilização do sujeito pelos resultados e riscos da organização em que trabalha, também como consequência da valorização e da centralidade do trabalho preconizadas na sociedade capitalista (Carelli & Andrade, 2022), identificada no trecho: “[...] você está prestando um serviço, está ajudando alguém através do seu serviço. Você está fazendo algo, não importa o que está fazendo, ajudando, de certa forma, alguma área ficar melhor [...]”. Por fim, a disposição hedônica relaciona-se à valorização do prazer, do descanso e da diversão (Silva, 2017), sendo percebida nas atividades culturais que Aline experiência.

Larissa

Larissa demonstra uma inclinação para o enfrentamento (Silva, 2017), semelhante a Aline, pois se diz educada e firme, sendo ofensiva ou defensiva, dependendo de como a pessoa se dirige a ela em situações diversas, agindo dessa maneira porque observa a influência do gênero sobre o posicionamento adotado pelos indivíduos. Logo, busca expressar suas opiniões e assume posições quando em campos de disputa ou em conflitos. A retidão é outra disposição (Silva, 2017) presente: ela narra seu desligamento do escritório de advocacia em decorrência do tratamento desrespeitoso — gritos e palavrões — recebido por um dos sócios da empresa, não sendo valorizada como indivíduo, especificamente no local de trabalho.

Flexibilidade moral e hedonismo e apropriação social são outras disposições (Silva, 2017) identificadas. Larissa, costuma adaptar-se ao contexto, às situações e às pessoas que os constituem, demonstrando uma flexibilidade aparente nos comportamentos ou nas interações com os demais profissionais — flexibilidade moral e apropriação social. Quanto ao hedonismo (Silva, 2017), observa-se que Larissa busca organizar em sua rotina momentos de lazer, como ir a parques e a shoppings, cinema e viagens. Ela gosta de ir à praia e viajar, sendo essas as atividades priorizadas em termos de lazer.

Há uma inclinação para a gratulação, compreendida como uma disposição na formação da personalidade que enseja a reciprocidade. Tal disposição surge mediante apreciação da ação dirigida por alguém; reconhecimento dos custos dessa ação; sentimento positivo pela intenção da pessoa na prática da ação (Pieta & Freitas, 2009; Alves, 2010). Em diferentes momentos, registou-se agradecimento à vida, a Deus, às oportunidades profissionais e pessoais e às pessoas que fazem parte de sua história. No trabalho, ela potencializa em seu discurso os ensinamentos e possibilidades de aprendizagem e crescimento que contribuem para suas conquistas pessoais. De seus pais, é agradecida pelo papel que desempenharam em sua criação, educação, pelos valores transmitidos, e pelo exemplo enquanto pessoas e profissionais. De seu namorado e de seus amigos expressa o companheirismo e o apoio mútuo.

O altruísmo também se faz presente na biografia. Essa disposição relaciona-se a um estado empático e de motivação para a promoção do bem-estar alheio, em que o benfeitor realiza trocas e lida com obstáculos para assegurar um estado de bem-estar. É necessário que existam elementos afetivos, motivacionais e cognitivos para ação. Esse comportamento é descolado de interesses particulares e não está imbricado a retribuições, prevalecendo o senso de comunidade (Sampol, 2019). No ensino fundamental, preocupava-se em ajudar os colegas com dificuldades de aprendizagem. No ensino superior, mobilizou-se para auxiliar os colegas com dificuldades em uma disciplina, articulando-se para discutir o caso junto à coordenação de curso. No trabalho, instigou uma ação voltada ao acúmulo de tampinhas de garrafa que seriam destinadas aos coletores de materiais recicláveis de seu bairro; com as pessoas, em geral, costuma dedicar tempo e recursos para auxiliá-las em questões materiais/existenciais.

Thainã

No discurso de Thainã é evidente a disposição para a apreensão social. O tensionamento de questões como discriminações étnicas-raciais, estereótipos (oriundos por seu lugar de origem), estrutura de classes sociais, desigualdades socioeconômicas, meritocracia etc. Para ele, o ensino superior constituiu-se um campo de manifestação de desigualdades étnicas e sociais, a partir de discursos, objetos materiais e fenótipo das pessoas. Observou-se também a apropriação social (Silva, 2017), sobretudo no ambiente acadêmico. Thainã busca observar as relações e interações entre professores e estudantes sobre o mercado de trabalho e inserção profissional, visando adaptar-se a esse contexto, de forma que consiga estar presente nas discussões e construir relações que sirvam de elos para o seu desenvolvimento profissional.

Ascetismo e flexibilidade moral são outras disposições observadas (Silva, 2017). A inclinação para o ascetismo vincula-se ao posicionamento calculado para saber como se articular quando em interação com docentes e colegas de curso nas conversas relacionadas à profissão, à carreira na área do curso e aos conselhos e ao apoio em determinados processos seletivos. A flexibilidade moral, por sua vez, evidencia-se quando ele se diz ciente que deve saber conduzir situações e pessoas, mesmo que não demonstre apreço pelas últimas, pois entende que elas são importantes para o seu progresso.

A disposição para a autonomia (Silva, 2017) é desenvolvida desde a infância, uma vez que sua mãe lhe atribuía atividades da casa enquanto ele provia o sustento dos dois. Além disso, o altruísmo é outra disposição incorporada por ele, a qual se exprime através de retribuições aos familiares quando em necessidade e pela ação social que realiza em sua lanchonete, onde distribui cachorros-quentes à comunidade em datas específicas. Também possui uma disposição para a gratulação e para o benemérito, uma vez que é grato por suas conquistas, principalmente porque reconhece os esforços dobrados que, comumente, são feitos por aqueles que são de origem popular.

As disposições interindividuais dos sujeitos biografados

Aline

Aline demonstrou uma disposição para o instinto gregário, visto que realça a preocupação de seus pais com sua educação, saúde e com a convivência com outras pessoas na escola (Silva, 2017). O cuidado em tornar o lar um espaço confortável e seguro; as viagens à praia e às cidades interioranas, os passeios aos parques, aos estádios de futebol, ao cinema e ao teatro. As amigas são fontes de inspiração, mesmo que apresentem comportamentos divergentes em relação à Aline. Elas constituem um núcleo de amizade com muita liberdade de opinião, trocas sobre relacionamentos e outros assuntos.

O trabalho duro (Souza, 2010) é outra disposição fortemente externalizada. O trabalho é uma premissa na vida dela, pois permeou seu desenvolvimento. Surge como uma necessidade de sobrevivência — e ainda é — mas atualmente o compreende como um espaço para aprendizagens e (re)significações. Ela cresceu observando o esforço dos pais para proporcionar bem-estar para a família, independentemente das condições financeiras que possuíam, valorizando um lugar de afeto, união e, sobretudo, com incentivo à educação, sendo exigentes quanto às lições escolares.

Sua inclinação para a disciplina (Silva, 2017) foi aprendida desde a infância. Por ter consciência de sua condição de vida, preparou-se para o ingresso na UFRGS, pois era a única maneira de cursar o ensino superior, já que não dispunha de estabilidade financeira para arcar com despesas dessa ordem. Todas as suas estratégias — cursar um pré-vestibular popular e realizar edições do ENEM para agregar pontuação no vestibular — foram pautadas na decisão de ingressar na UFRGS. Para Aline, o ensino superior representa o acesso a melhores oportunidades profissionais e uma forma de manter a sua competitividade no mercado de trabalho por conta do diploma universitário, demonstrando uma disposição para autossuperação (Silva, 2017).

As disposições para o trabalho duro e para a autossuperação foram mencionadas nos diálogos com Aline. Sua decisão em continuar estudando Administração foi orientada pela possível segurança profissional oferecida pelo curso, entendido também como um plano alternativo e fundamental para a conquista de uma posição de trabalho em empresa privada e/ou para a participação em concursos públicos. Essa compreensão aponta para outra disposição: o pensamento prospectivo (Silva, 2017), denotando o estabelecimento de planos e objetivos futuros, atentando-se a oportunidades, evitando-se erros e desperdícios de recursos; envolvendo planejamento, autocontrole e sacrifícios, como a privação do lazer (Silva, 2017).

Por fim, uma disposição para o trato social foi notada. Tal disposição refere-se a um comportamento orientado por regras de condutas sociais com protocolos ou padrões de etiqueta e de cortesia que norteiam comportamentos individuais para agir, para ser e para se comunicar em diferentes situações (Barros, Souza, Silva, Silva & Neto 2016). Dois momentos exemplificam essa disposição: o primeiro, quando Aline incorpora em sua conduta social a delicadeza de sua chefe na condução de situações e problemas diversos; e o segundo, o senso de responsabilidade, e a forma de comunicar, interagir e lidar com as pessoas e suas particularidades, também inspiradas nas relações sociais que participa em seu ambiente profissional.

Larissa

O trabalho duro e a autossuperação (Silva, 2017) são disposições identificadas nas entrevistas. O trabalho é um fator central na família, pois oportunizou conquistas e o desenvolvimento social. É sua força motriz desde a infância, que cresceu observando o esforço dos pais para garantir os meios de sobrevivência e o bem-estar da família. É também fonte de concretização de desejos e sonhos e, por isso, não mede esforços para demonstrar engajamento em suas atividades, para aprender e se destacar naquilo que se propõe a fazer. Já sua disposição para a autossuperação é um dos aspectos que nutrem sua dedicação ao trabalho. Larissa, desde muito cedo, teve gosto pelos estudos e já compreendia sua relevância para o progresso de uma pessoa no âmbito profissional.

Junto às disposições para trabalho duro e autossuperação, a disciplina foi uma constante desde a infância como na rotina para estudar e auxiliar nas atividades de casa e no restaurante; planos para viagens, atividades de lazer e tomada de decisão profissionais. A inclinação para o pensamento prospectivo (Silva, 2017) é uma disposição que permeia todas as demais identificadas, pois as falas de Larissa demonstram esforço, dedicação e responsabilização pelas ações vigentes e os consequentes resultados dessas decisões. Enquanto narrava sua história, geralmente traçava um comparativo entre o seu passado e o seu presente como justificativo racional para seus comportamentos e suas ações, corroborando com o pensamento antecipativo, isto é, projetado para o futuro.

A inclinação para o pensamento antecipativo refere-se às estratégias adotadas por uma pessoa com o intuito de traçar objetivos, táticas e meios para alcançá-los em um futuro, desse modo planejando e antecipando eventos antes da ação efetiva (Santos, Ramos & Silva, 2020; Silva, Garcia & Ramos, 2021). Essa disposição pressupõe uma autorregulação, ou seja, o indivíduo regula o seu comportamento mediante uma consciência racional sobre os cursos de ação a serem adotados.

Thainã

A disciplina é uma disposição apreendida desde muito jovem (Silva, 2017), pois ele cresceu assumindo responsabilidades importantes junto à sua mãe, aflorando também sua disposição para a autonomia. Não apenas em casa, no auxílio de sua mãe nas tarefas do lar, a disciplina foi um fator presente nos estudos e no trabalho. A autossuperação e pensamento prospectivo são disposições interligadas (Silva, 2017), uma vez que orbitam pelo desejo de um futuro próspero pessoal e profissionalmente. Por essa razão, Thainã esforçava-se em ser um bom aluno, julgando ser sua obrigação o compromisso com os estudos. Esse pensamento perdura, sendo reforçado pelo seu ingresso no ensino superior.

Thainã passou a buscar oportunidades profissionais com o intuito de começar a traçar uma trajetória em sua área de atuação e, aos poucos, ir estabelecendo-se socialmente, o que sugere a externalização da autossuperação e do senso prático (Silva, 2017). Indo além, o pensamento prospectivo é uma disposição que mobiliza suas ações cotidianas, principalmente quando relacionadas a conquistas de médio e longo prazos. Cabe observar a imbricação das disposições para autossuperação e para o pensamento prospectivo com a apreensão social, demonstrando a leitura social que ele faz considerando fatores associados à sua origem sociodemográfica e espacial (geográfica).

Mimetismo social, organização e pensamento antecipativo são outras disposições identificadas. Na primeira, considera-se uma disposição que se fundamenta nos diferentes modos de interação, de comunicação e de linguagens (Vieira, 2021) presentes na socialização, onde os indivíduos apreendem e reproduzem comportamentos de outros, os quais são transformados, recriados e recontextualizados (Bazanini, Silva & Biffi, 2020; Vieira, 2021), não representando imitação ou espelhamento de uma realidade. O comportamento mimético pode estar associado à formação ou endossamento da personalidade, tomando por base aspectos culturais, de convivência, físicos e emocionais que são acionados em ações cotidianas (Bazanini et al. 2020; Vieira, 2021).

Thainã tende a analisar os comportamentos de outras pessoas em diferentes momentos de socialização, de modo crítico e reflexivo. Ele avalia a incorporação de comportamentos em seu cotidiano, colocando-os em prática em situações oportunas. A introjeção comportamental é motivada por inspirações e pelas vivências das pessoas, como os professores do curso de Administração e sua chefia na empresa em que trabalha. Quanto à disposição para a organização, ela refere-se à ação de controle dos indivíduos sobre os próprios comportamentos com o intuito de conduzir as contingências decorrentes dos comportamentos que exprimem, prevendo a aplicação de esforços e competências pelos indivíduos na tentativa de organizar para a geração de resultados positivos a partir de suas ações (Rodrigues & Pereira, 2007).

No caso de Thainã, suas disposições revelam de forma exemplar como jovens oriundos de meios populares mobilizam repertórios para sustentar a permanência no curso de Administração. A disciplina e a autonomia, cultivadas desde a infância em função das responsabilidades familiares, somam-se ao pensamento prospectivo e à autossuperação como forças orientadoras de sua trajetória acadêmica. Além disso, a apreensão social e a flexibilidade moral, associadas à apropriação social, demonstram sua capacidade de interpretar as desigualdades étnico-raciais e socioeconômicas vividas na universidade e, ao mesmo tempo, de elaborar estratégias de adaptação e inserção. Sua experiência evidencia que a permanência não é apenas resultado de apoios institucionais, mas também da ativação seletiva de disposições construídas ao longo da vida, que permitem transformar barreiras em recursos simbólicos e práticos.

As disposições e suas influências sobre a permanência estudantil

Nesta seção, as biografias são analisadas em conjunto, visto aproximações entre elas. Na biografia de Aline, as disposições para a disciplina, para a autossuperação e para o pensamento prospectivo (Silva, 2017) foram basilares para a permanência no curso de Administração, que Aline associa à sobrevivência e ao foco no futuro. A biografia de Aline é permeada de nuances sociais e econômicas que atravessaram diferentes episódios de sua vida, como a família e a relação com o trabalho; o autoconhecimento e o desenvolvimento nos espaços acadêmico e profissional; e suas expectativas quanto ao futuro a partir da posse de um diploma universitário. A permanência no curso é influenciada também por seus objetivos de conquistar a carreira pública ou uma colocação profissional mais qualificada.

Larissa também menciona que a influência de seus pais é um fator que a fez permanecer no curso de Administração, ressaltando que o empenho deles para a construção do restaurante da família é um recorte igualmente relevante. Thainã reforça que a família também é um fator para que ele permaneça estudando, uma vez que o instiga a refletir sobre sua trajetória de vida e sobre sua origem social, bem como sobre o empenho profissional dos familiares, situação que influencia a externalização de sua disposição para o trabalho duro (Silva, 2017). Observa-se que ele aciona sua disposição para o pensamento prospectivo (Silva, 2017) quando salienta a ideia de projeção de futuro, inclinação que foi identificada quando ele comparou os seus atributos educacionais e profissionais aos de seus colegas.

Também se percebe em Aline uma disposição para a flexibilidade moral (Silva, 2017), visto que adere a um comportamento adaptativo e busca o reconhecimento do que ela aparenta ser aos colegas, legitimando sua presença e pertencimento em um campo que acreditava não fazer parte. Em relação à aprendizagem no curso, especificamente nos trabalhos coletivos, Aline era diplomática e prezava pelas boas relações nos grupos. Nesse sentido, conciliação e prudência (Silva, 2017) eram disposições acionadas sempre que envolvia trabalho e decisões conjuntas.

Sobre a disposição para o trato social, localizada em Aline, ela revela-se por meio da incorporação de aprendizagens oriundas de experiências profissionais, dos modos de comunicar, de ser e de agir em ambientes com texturas sociais diversas. No caso dela, foi possível visualizar tal disposição em suas experiências na feira, no estágio na Prefeitura, e no escritório contábil, incitando a reflexão sobre comportamentos e interações coerentes com o contexto de socialização. Ela também desenvolveu uma disposição interindividual para o mimetismo social, onde comportamentos compreendidos como oportunos e coerentes para serem reproduzidos eram incorporados em suas práticas, sobretudo acadêmicas e profissionais. Observa-se que Aline incorporou também uma disposição intraindividual para o florescimento. Neste estudo conceitua-se florescimento como uma disposição que possui como premissa o estado completo de bem-estar do indivíduo, o qual deve ser capaz de desenvolver emoções positivas, relações sociais, realizações, engajamento e atribuições de sentido, assim também virtudes como respeito próprio, orgulho, dignidade e honra. (Oliveira-Silva & Porto, 2021; Sousa & Fukuda, 2021; Wazlawick, 2023). No caso de Larissa o florescimento se manifesta na idealização de uma situação socioeconômica melhor e estável, boas oportunidades profissionais e justa valorização do trabalho.

Ademais, em Larissa percebeu-se que a disposição intraindividual para a reafirmação de objetivos foi acionada em momentos de desânimo, sendo que ela se esforça em relembrar as motivações para estar no ensino superior, a sua história de vida e o seu lugar de origem. A inclinação para a reafirmação de objetivos está relacionada com a atitude do indivíduo em confirmar os objetivos traçados em diferentes âmbitos de sua vida, reforçando o propósito, realinhando a direção dos planos e mantendo a motivação para alcançar os resultados projetados, representando uma oportunidade para a identificação de obstáculos ou desafios e para o planejamento de novas estratégias de enfrentamento.

Larissa mantem uma rotina de estudos desde a infância, algo que ressalta sua disposição para a disciplina. Sempre obteve boas notas, motivo de orgulho e satisfação, e diz abdicar de momentos para concentrar-se em sua formação, principalmente renunciando momentos de lazer. Assim, esse comportamento sinaliza sua disposição para o senso prático (Silva, 2017), focalizando os objetivos profissionais e a conquista de uma posição melhor no mercado de trabalho em detrimento do lazer. Isso também é observado na trajetória de Thainã, que busca concentrar e priorizar seus esforços nas atividades acadêmicas e profissionais. Ambos acionam a disposição para a autossuperação (Silva, 2017), já que possuem a tenacidade em estudar e trabalhar.

A inclinação para a distinção social (Silva, 2017) integra o comportamento de Larissa. Essa disposição faz alusão à conduta de diferenciação social como um modo de expressão valorativa da origem social quando em um contexto de classe social diverso, assim como uma forma de elucidar a ascensão social. A inclinação para a distinção social, juntamente com a disposição para a apreensão social, corroborou para que Larissa compreendesse as dinâmicas e as origens sociais — estrutura de classes — no espaço acadêmico: passou a adotar posicionamentos firmes em aula, sempre que identificava atitudes discriminatórias ou estereotipadas de colegas e professores ao seu lugar de origem e ao seu modo de se expressar e de ser, acionando sua disposição para o enfrentamento (Silva, 2017).

Conclusão

Este estudo teve o objetivo de compreender como as disposições de jovens dos meios populares influenciam a permanência no curso de Administração. A partir da reconstrução biográfica de três estudantes, foi possível identificar disposições inter e intraindividuais mobilizadas ao longo de suas trajetórias e mostrar de que modo elas são acionadas diante das exigências acadêmicas e profissionais. De maneira geral, a principal contribuição teórica do artigo consiste em articular a permanência estudantil à teoria disposicional de Bernard Lahire, oferecendo uma leitura que desloca explicações centradas apenas em fatores estruturais ou assistenciais e revela como disposições múltiplas, contraditórias e situadas orientam estratégias de continuidade no ensino superior.

Referente às disposições intraindividuais, pode-se observar que é um comportamento recorrente a adaptação (flexibilidade moral) aos diferentes contextos socializadores, uma vez que almejam a (i) inserção social nesses ambientes, (ii) legitimando a sua participação e a (iii) internalização dos capitais (social, cultural, educacional, econômico etc.) presentes. As relações interpessoais constituídas tornam-se fundamentais porque oportunizam o acesso a outros grupos sociais (portanto, a outros capitais) e servem como nós para oportunidades profissionais, principalmente, nas redes de sociabilidade dos sujeitos.

Ao retomar a obra de Lahire, nosso trabalho reforça a crítica ao modelo de habitus unificado de Bourdieu e evidencia a pertinência da análise disposicional em escala individual. Entretanto, avançamos ao aplicar este referencial ao campo da Administração e da permanência estudantil, mostrando empiricamente como disposições herdadas e adquiridas se entrelaçam em contextos acadêmicos concretos. As trajetórias biográficas analisadas confirmam a heterogeneidade e a seletividade no acionamento das disposições, mas também indicam que, no caso dos estudantes de Administração oriundos de meios populares, elementos como disciplina, pensamento prospectivo, autossuperação e trabalho duro assumem centralidade na permanência. Nesse sentido, o artigo amplia a contribuição de Lahire ao evidenciar não apenas a pluralidade disposicional, mas também os mecanismos específicos de ativação e inibição das disposições em processos formativos de nível superior.

Do ponto de vista teórico e conceitual, o trabalho se revela um elemento vital nas trajetórias dos jovens, articulando dimensões simbólicas, materiais e práticas. No plano simbólico, representa um valor transmitido pelas famílias, associado à dignidade, ao reconhecimento social e à possibilidade de ascensão. No plano material, constitui condição de sobrevivência e de contribuição direta para a renda doméstica, como no caso de Aline. Já no plano prático, o trabalho aparece como espaço de aprendizagem, de construção de competências e de conquista de independência, como relatado por Larissa e Thainã. Assim, o trabalho não apenas compõe a identidade desses indivíduos, mas também se apresenta como estratégia de permanência e legitimação em diferentes campos sociais, reforçando a centralidade da família como referência de compromisso com o labor e como instância de enfrentamento aos estigmas territoriais e individuais.

A constituição de uma identidade serviu tanto como um elemento de diferenciação social comparativamente aos indivíduos do mesmo lugar de origem, quanto um elemento de fixação de uma “marca” em outros ambientes. Salienta-se que o trabalho é tido como um elemento central para a promoção do acesso à educação, aos bens de consumo e a outros lugares; e um lócus de aprendizagem para a sociabilidade, de tal forma que os participantes da pesquisa ressaltaram a incorporação de modos de comunicação, de comportamentos e, inclusive, de formas agir e de se relacionar em diferentes situações e ambientes.

No tocante à permanência estudantil, a percepção de assimetrias — sociais, culturais e econômicas — serviu de força para que os pesquisados pudessem se desenvolver academicamente, pois a ativação das disposições para a autossuperação, apreensão social e mimetismo social auxiliaram na leitura do ambiente e das relações sociais que se estabeleciam. Além disso, as histórias narradas aqui apontam para tal incompletude da vivência acadêmica, sendo que os encontros em sala de aula foram os únicos ou principais ambientes para a vivência universitária, haja vista a conciliação necessária com o trabalho. A dupla jornada de trabalho e estudo de muitos acadêmicos dos meios populares pode representar um aspecto complicador não somente para a formação como também no processo de inserção no ambiente acadêmico.

Continuar estudando também foi uma recomendação dos pais, mesmo que possuíssem pouca escolaridade, pois acreditavam que a ascensão social dos filhos poderia ser facilitada por meio dos estudos. Assim, a disposição para a disciplina foi uma constante para os pesquisados, dado que mantinham hábitos e uma rotina de trabalho, estudo e lazer equilibrada e compatível com os objetivos traçados, especialmente profissionais. Ainda, todos os biografados dedicavam-se em suas atividades, pois almejavam o reconhecimento pela qualidade do que se propuseram a fazer. Por último, as disposições para os pensamentos prospectivo e antecipativo sustentaram os planos profissionais e pessoais dos sujeitos investigados, que se articulavam calculadamente de modo que os planos traçados fossem alcançados.

A partir da literatura em educação em Administração, o artigo contribui ao problematizar a permanência para além das perspectivas funcionalistas ou meramente gerenciais, que a tratam como retenção ou como questão de eficiência institucional. Os achados demonstram que a permanência deve ser entendida como processo relacional e disposicional, atravessado por redes familiares, experiências de trabalho e sociabilidades universitárias. Avançamos, assim, em relação a estudos que enfatizam políticas institucionais de apoio ou fatores socioeconômicos isolados, ao mostrar que a permanência se ancora em repertórios disposicionais complexos que articulam agência individual e condições estruturais. Com isso, aprendemos que a educação em Administração pode se beneficiar de abordagens sociológicas sensíveis às desigualdades e às trajetórias dos estudantes, ampliando o debate sobre inclusão, pertencimento e justiça social no campo.

Estudos sobre permanência em cursos de Administração, como os de Seabra (2019), Gonçalves et al. (2020) e Teixeira e Figueiredo (2023), evidenciam que políticas institucionais de apoio, sentimento de pertencimento e reconhecimento das trajetórias sociais dos estudantes são fatores decisivos para evitar a evasão. Pesquisas inspiradas em Lahire, por sua vez (Silva, 2018; Machado, 2019; Moraes, 2023), têm enfatizado a relevância do patrimônio disposicional como alternativa ao modelo de habitus unificado, mas permanecem majoritariamente em nível teórico, com poucos trabalhos empíricos no campo da Administração. Este artigo avança ao integrar essas duas vertentes: mostra empiricamente, a partir de retratos sociológicos de estudantes de meios populares, como disposições herdadas e adquiridas — como disciplina, autossuperação, pensamento prospectivo e trabalho duro — são mobilizadas seletivamente para sustentar a permanência acadêmica. Assim, aprendemos que a permanência não pode ser reduzida apenas a apoios institucionais ou condições materiais, mas deve ser compreendida como processo disposicional e relacional, no qual os estudantes articulam agência, redes familiares, experiências de trabalho e sociabilidades acadêmicas.

No campo metodológico, ao adotar a biografia como abordagem principal, a pesquisa reafirma o potencial analítico das narrativas de vida como instrumento de compreensão profunda dos itinerários individuais e coletivos, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. A opção pela análise de trajetórias biográficas permite captar não apenas os eventos objetivos das vidas dos sujeitos, mas também os sentidos que eles atribuem às suas experiências, revelando nuances subjetivas que frequentemente escapam aos modelos analíticos quantitativos ou estruturais. Essa escolha metodológica valoriza a escuta atenta e situada, respeitando a singularidade das vozes juvenis e contribuindo para práticas de pesquisa mais dialógicas, reflexivas e éticas.

Do ponto de vista social, o estudo aporta elementos significativos ao campo da permanência estudantil ao visibilizar as estratégias desenvolvidas por jovens dos meios populares para manterem-se na universidade, mesmo diante das precariedades materiais, da dupla jornada trabalho-estudo e da ausência de redes de apoio institucionais. Ao escancarar os mecanismos informais de sustentação da trajetória acadêmica, como o apoio familiar simbólico, o engajamento laboral e a construção de pertencimento por meio da performance acadêmica os resultados desta pesquisa evidenciam que compreender a permanência exclusivamente por meio de indicadores objetivos — como taxas de evasão, desempenho acadêmico ou renda familiar — é insuficiente para capturar a complexidade das experiências de jovens de meios populares. Emergem dimensões de agência, nas quais os estudantes ativam seletivamente disposições herdadas e adquiridas para lidar com barreiras institucionais, preconceitos e desigualdades. Essa perspectiva contribui não apenas para o aprimoramento das políticas públicas educacionais, mas também para a construção de uma universidade mais sensível à pluralidade das juventudes e comprometida com a transformação social.

Uma pesquisa nestes moldes pode enfrentar algumas limitações, a exemplo da representatividade dos resultados, que pode ser questionável devido à quantidade de participantes, o que não reflete a diversidade de experiências e trajetórias presentes em contextos populares. Além disso, a subjetividade inerente à análise biográfica pode introduzir vieses, uma vez que as interpretações do pesquisador podem influenciar as conclusões. Ademais, a generalização dos resultados para além do contexto específico dos participantes pode ser problemática, visto que as experiências individuais podem não ser representativas da totalidade dos estudantes de Administração de origem popular.

Em estudos futuros pode ser oportuno incluir uma variedade de perfis socioeconômicos, étnico-raciais e de gênero, a fim de capturar a diversidade de experiências e trajetórias. Além disso, é importante adotar abordagens metodológicas que minimizem vieses e permitam uma análise mais objetiva das narrativas biográficas, como a triangulação de dados e a participação de múltiplos pesquisadores na análise. Outro aspecto relevante é a realização de estudos longitudinais que acompanhem os jovens ao longo do tempo, desde o ingresso no ensino superior até a conclusão do curso, a fim de compreender melhor os fatores que influenciam a permanência e o sucesso acadêmico.

Referências bibliográficas

  • Abrantes, C. G., & Gonçalves, M. G. M. (2023). Meritocracia: uma ideologia em prol do neoliberalismo. Psicologia Revista, 32(2), 279-298. doi:/10.23925/2594-3871.2023v32i2p279-298
    » https://doi.org/10.23925/2594-3871.2023v32i2p279-298
  • Alves, A. R. C. (2016). From habitus of class to individual heritage of dispositions: reflections on the practice in Pierre Bourdieu and Bernard Lahire. Sociologias, 18, 294-327. doi: 10.1590/15174522-018004213
    » https://doi.org/10.1590/15174522-018004213
  • Barbosa, P. N. (2015). O processo de democratização do ensino superior no Brasil: programas federais de acesso e permanência (Monografia de graduação). Universidade de Brasília, Brasília.
  • Barbosa, L. (2014). Meritocracia à brasileira: o que é desempenho no Brasil? Revista do Serviço Público, 65(3), 449-472. doi:/10.21874/rsp.v47i3.396
    » https://doi.org/10.21874/rsp.v47i3.396
  • Barros, S. G. M. et al. (2016). A moral e as regras de trato social como forma de orientação comportamental dos indivíduos. https://jus.com.br/artigos/47619/a-moral-e-as-regras-de-trato-social-como-forma-de-orientacao-comportamental-dos-individuos
    » https://jus.com.br/artigos/47619/a-moral-e-as-regras-de-trato-social-como-forma-de-orientacao-comportamental-dos-individuos
  • Bazanini, R., Silva, J. R., & Biffi, M. A. (2020). Empreendedorismo social em redes interorganizacionais: o fluxo mimético como absorção adaptativa na formação de competências para o empoderamento social. Gestão & Regionalidade, 36(109). doi:/10.13037/gr.vol36n109.6632
    » https://doi.org/10.13037/gr.vol36n109.6632
  • Bertolassi, A. (2021). Fatores contributivos para a desvalorização da carreira do magistério da rede estadual em Goiás e seu impacto na qualidade do trabalho desses profissionais. Revista Fatores. 28(136). doi:10.5281/zenodo.12809085
    » https://doi.org/10.5281/zenodo.12809085
  • Bisinoto, G. D. S. (2016). Gestão da permanência: um estudo sobre o perfil socioeconômico, permanência e evasão dos discentes do curso de bacharelado em administração pública da UAB/UNEMAT (Dissertação de Mestrado). Universidade do Estado de Mato Grosso, Mato Grasso.
  • Boaes, G., de Oliveira, S. B., & de Assis, R. V. (2019). Sociologia (s) em escala individual. Revista de Ciências Sociais, (50), 13-28. doi:10.22478/UFPB.1517-5901.2019V1N50.45949
  • Bonaldi, E. V. (2018). Tentando "chegar lá": as experiências de jovens em um cursinho popular. Tempo Social, 30 (1), 259-282. https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2018.119387
    » https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2018.119387
  • Borghi, I. S. M. (2013). Uma margem outra: itinerâncias de jovens das classes populares na educação superior (Tese de Doutorado). Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia, Brasil. Bourdieu, P. (2007). A distinção. São Paulo: Edusp.
  • Conceição, W. D. S. (2011). Trajetórias de jovens de origem popular rumo à carreira acadêmica: mobilidade social, identidade e conflitos. https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/10100
    » https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/10100
  • Carelli, R. D. L., & Andrade, M. S. D. (2023). Sujeição E Servidão No Trabalho Em Plataformas Digitais De Transporte: Um Estudo De Caso No Rio De Janeiro. Caderno CRH, 35, e022042. doi:/10.9771/ccrh.v35i0.42629
    » https://doi.org/10.9771/ccrh.v35i0.42629
  • Carraro, G., de Oliveira, M., & Rovati, A. O. (2017). Leituras de Realidade: ferramentas de apreensão da concreticidade da vida social e seus impactos barbarizantes e de visualização de possibilidades para além do capital. Textos & Contextos (Porto Alegre), 16(2), 328-344. doi:10.15448/1677-9509.2017.2.28797
    » https://doi.org/10.15448/1677-9509.2017.2.28797
  • Costa, S. D. M., Marques, E. D. M. I., & Ferreira, A. C. C. (2020). Entre sentidos do trabalho, prazer e sofrimento: um estudo baseado na perspectiva de jovens trabalhadores-estudantes. Revista Gestão Organizacional, 13(1), 64-85. doi:10.22277/rgo.v13i1.4802
  • D'Avila, G. T., & Coutinho, M. C. (2019). Entre movimentos e trajetórias laborais de jovens profissionais. Psico, 50(2), e29659-e29659. doi:10.15448/1980-8623.2019.2.29659
    » https://doi.org/10.15448/1980-8623.2019.2.29659
  • Dias, G., & Gauche, R. (2021). O Retrato Sociológico como método investigativo em pesquisas brasileiras nas áreas de Educação e de Ensino: uma revisão de teses publicadas entre 2011 e 2020. Ciência & Educação (Bauru), 27, e21066. doi:10.1590/1516-731320210066
    » https://doi.org/10.1590/1516-731320210066
  • Felinto, J. F. et al. (2019). Ensino superior privado: a permanência dos estudantes que ingressaram por políticas de Financiamento Estudantil-FIES e Programa Universidade para Todos-PROUNI (Dissertação de Mestrado), Universidade Federal da Paraíba, Paraíba.
  • Fontes, L. D. O. (2018). O direito à periferia: experiências de mobilidade social e luta por cidadania entre trabalhadores periféricos de São Paulo. https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/15527
    » https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/15527
  • Ganam, E. A. S., & Pinezi, A. K. M. (2021). Desafios da permanência estudantil universitária: um estudo sobre a trajetória de estudantes atendidos por programas de assistência estudantil. Educação em Revista, 37, e228757. doi:10.1590/0102-4698228757
    » https://doi.org/10.1590/0102-4698228757
  • Gonçalves, O. L., Tude, J. M., & Junior, J. S. S. (2020). Evasão e permanência em cursos superiores de uma Instituição Agrícola - o caso do Campus Alegre do IFES. Revista Cocar, 14(28), 322-340. https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/3124/1386
    » https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/3124/1386
  • Junior, J. R. A. C. (2023). Mobilidade social e melhoria de vida de egressos cotistas das universidades federais brasileiras (Tese de Doutorado). Universidade Federal de Viçosa. Viçosa, Minas Gerais, Brasil.
  • Júnior, W. M., & Gebara, A. (2020). A metáfora do jogo e o mimetismo social: delimitações e apropriações na pesquisa e na análise sociológica do esporte. Revista Da ALESDE-Associación Latinoamericano de Estudos Socioculturales Del Deporte, 12(2), 22-32. https://doi.org/10.5380/jlasss.v12i2.75094
    » https://doi.org/10.5380/jlasss.v12i2.75094
  • Kampff, A. J. C., Teixeira, R. P., & Mentges, M. J. (2018). Gestão da permanência no ensino superior: fatores de evasão e estratégias de permanência presentes nas pesquisas brasileiras. Anais do VIII Clabes Cidade do Panamá, Panamá.
  • Lahire, B. (1997). Sucesso escolar nos meios populares. As razões do improvável (p. 368). Editora Ética.
  • Lahire, B. (2002). O homem plural: os determinantes da ação. Porto Alegre: Editora UFRGS
  • Lahire, B. (2004). Retratos sociológicos: disposições e variações individuais. Porto Alegre: Artmed.
  • Lahire, B. (2005). Patrimónios Individuais de Disposições. Para uma sociologia à escala individual. Sociologia, problemas e práticas, 49, 11-42.
  • Lahire, B. (2015). A fabricação social dos indivíduos: quadros, modalidades, tempos e efeitos de socialização. Educação e Pesquisa, 41, 1393-1404. doi:10.1590/S1517-9702201508141651
    » https://doi.org/10.1590/S1517-9702201508141651
  • Lahire, B. (2022). Sociological biography and socialisation process: A dispositionalist- contextualist conception. In Biographical Research (pp. 21-35). Routledge.
  • Lima, P. F., Andrade, M. S., & Teixeira, J. R. (2022). Socialização universitária e permanência: reflexões a partir do conceito de disposições. Revista de Administração Contemporânea, 26(4), e210224.
  • Lima, J. C., & Conserva, M. D. S. (2006). Redes sociais e mercado de trabalho: entre o formal e o informal. Política e Trabalho, 24, 73-98. https://periodicos.ufpb.br/index.php/politicaetrabalho/article/view/6602/4158
    » https://periodicos.ufpb.br/index.php/politicaetrabalho/article/view/6602/4158
  • Lopes, J. T. (2012). Subjetividade plural no mundo contemporâneo. Revista Cronos, 13(1), 81- 88. https://periodicos.ufrn.br/cronos/article/view/562
    » https://periodicos.ufrn.br/cronos/article/view/562
  • Lopes, J. T., Boia, P. D. S., Veloso, A. L., & Caldas, M. (2018). A orquestra e a vida: percursos juvenis na Orquestra Geração. Sociologia, Problemas e Práticas, (86), 91-108. https://journals.openedition.org/spp/4136
    » https://journals.openedition.org/spp/4136
  • Machado, P. H. B. (2019). Prolongamentos críticos a Pierre Bourdieu: a Sociologia "à escala individual" de Bernard Lahire. Sociologias Plurais, 5(1). doi:10.5380/sclplr.v5i1.68202
    » https://doi.org/10.5380/sclplr.v5i1.68202
  • Maciel, C. E., Cunha Júnior, M., & Lima, T. D. S. (2019). A produção científica sobre permanência e evasão na educação superior no Brasil. Educação e Pesquisa, 45, e198669. doi:10.1590/S1678-4634201945198669
  • Moraes, J. P. (2023). Permanência de jovens oriundos dos meios populares em cursos de Administração sob a ótica dos patrimônios disposicionais (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.
  • Nascimento, D. (2013). Do "Velho" ao "Novo Humanitarismo": os dilemas da ação humanitária em contextos de conflito e pós-conflito violento. Nação e Defesa. n. 135, v. 5, pp. 93-113. http://hdl.handle.net/10400.26/14556
    » http://hdl.handle.net/10400.26/14556
  • Oliveira-Silva, L. C., & Porto, J. B. (2021). Bem-estar subjetivo e florescimento no trabalho: o impacto da realização profissional. RAM. Revista de Administração Mackenzie, 22, eRAMG210117. doi:10.1590/1678-6971/eRAMG210117
    » https://doi.org/10.1590/1678-6971/eRAMG210117
  • Oliveira, S. R., & BATISTA, S. S. (2017). Empregabilidade e inserção social dos jovens como desafios para a educação profissional e tecnológica. Impulso, 27(70). https://www.researchgate.net/publication/324664751_Empregabilidade_e_insercao_social_dos_jovens_como_desafios_para_a_educacao_profissional_e_tecnologica
    » https://www.researchgate.net/publication/324664751_Empregabilidade_e_insercao_social_dos_jovens_como_desafios_para_a_educacao_profissional_e_tecnologica
  • Patrocino, L. B. (2023). Desvalorização da docência: Condições históricas e sociais. Educação em Debate, 44(87). doi:10.24882/eemd.v44i87.81177
    » https://doi.org/10.24882/eemd.v44i87.81177
  • Pietta, M. A. M.; De Lucca, F. L. B (2009). Sobre a gratidão. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 61, n. 1, p. 100-108. https://pepsic.bvsalud.org/pdf/arbp/v61n1/v61n1a10.pdf
    » https://pepsic.bvsalud.org/pdf/arbp/v61n1/v61n1a10.pdf
  • Rodrigues, D. M., & Pereira, C. A. A. (2007). A percepção de controle como fonte de bem- estar. Estudos e pesquisas em psicologia, 7(3), 541-556. https://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v7n3/v7n3a14.pdf
    » https://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v7n3/v7n3a14.pdf
  • Rodrigues, T. M. (2017). Juventude e mercado de trabalho no Brasil: formação e empregabilidade. https://tede.pucsp.br/bitstream/handle/19868/4/Thiago%20Machado%20Rodrigues.pdf
    » https://tede.pucsp.br/bitstream/handle/19868/4/Thiago%20Machado%20Rodrigues.pdf
  • Roldão, C. (2015). Fatores e perfis de sucesso escolar "inesperado": trajetos de contratendência de jovens das classes populares e de origem africana (Doctoral dissertation) ISCTE-Instituto Universitario de Lisboa (Portugal).
  • Sampol, L. S. (2020). Altruismo y empatía. Universitat de les Illes Balears. http://hdl.handle.net/11201/154670
    » http://hdl.handle.net/11201/154670
  • Santos, F. C., Ramos, M. F. H., & Silva, E. P. (2020). A Autorregulação da Aprendizagem e Autoeficácia Acadêmica: contribuições para o contexto educacional. Research, Society and Development, 9(10), e8379106526-e8379106526. doi: 10.33448/rsd-v9i10.6526
    » https://doi.org/10.33448/rsd-v9i10.6526
  • Seabra, T. (2009). Desigualdades escolares e desigualdades sociais. Sociologia, problemas e práticas, n. 59, p. 75-106. https://sociologiapp.iscte-iul.pt/pdfs/10120/10123.pdf
    » https://sociologiapp.iscte-iul.pt/pdfs/10120/10123.pdf
  • Sguissardi, V. (2023). O trabalho docente na educação superior no Brasil: Heterogeneidade, insegurança e futuro incerto. Integración y Conocimiento, 6(2). doi:10.61203/2347-0658.v6.n2.18695
    » https://doi.org/10.61203/2347-0658.v6.n2.18695
  • Silva, C. S. Depois do acesso: a inserção profissional de jovens egressos do Prouni. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
  • Silva, J. G. D. S., Garcia, L. A., & Ramos, M. F. H. (2021). Autorregulação emocional na perspectiva social cognitiva: uma revisão integrativa. Comunicações Piracicaba. v. 28, n. 2, p. 21-41. https://doi.org/10.15599/2238-121X/comunicacoes.v28n2p21-41
    » https://doi.org/10.15599/2238-121X/comunicacoes.v28n2p21-41
  • Silva, W. P. (2018). Da praxiologia bourdieusiana à sociologia psicológica de Lahire: estabelecendo um diálogo disposicionalista. Estudos de Sociologia, 2(24), 37-61. doi:/10.51359/2317-5427.2018.243417
    » https://doi.org/10.51359/2317-5427.2018.243417
  • Soares, A. A.; Mansueto, A. P. S. M.; Silva, L. M. M.; Nascimento, V. P. M.; Prata, T. B. S.; Assunção, M. M. S. (2021). Segregação e desigualdade: percepção de jovens periféricos sobre a realidade em que estão inseridos. Pretextos-Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, 6(11), 344-369. https://periodicos.pucminas.br/pretextos/article/view/28310
    » https://periodicos.pucminas.br/pretextos/article/view/28310
  • Sousa Sobrinho, J. P. de, Lima, J. A., & Santos, M. de F. O. (2022). Trabalho docente e precarização: a (des)valorização do trabalho docente nas políticas brasileiras, através das orientações dos organismos multilaterais. Ensino em Perspectivas Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/ensinoemperspectivas/article/view/1160
    » https://revistas.uece.br/index.php/ensinoemperspectivas/article/view/1160
  • Sousa, G. Z. P., & Fukuda, C. C. (2021). Florescimento: características e definição constitutiva. Revista JRG De Estudos Acadêmicos, 4(9), 319-337. doi:10.5281/zenodo.5767443
    » https://doi.org/10.5281/zenodo.5767443
  • Souza, S. A. De; Reinert, J. N. (2009). Motivação para entrada e permanência nos cursos de graduação em Administração da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Anais Encontro da Anpad, São Paulo, SP, Brasil.
  • Teixeira, C. M., & Figueiredo, R. S. (2023). Inclusão e permanência no ensino superior: contribuições de estudantes de origem popular. Revista Interinstitucional Brasileira de Educação, 15(1), 208-226. doi:10.1590/2175-3539/2018/010
    » https://doi.org/10.1590/2175-3539/2018/010
  • Valle, I. R., Barrichello, F. A., & Tomasi, J. (2010). Seleção meritocrática versus desigualdades sociais: quem são os inscritos e os classificados nos vestibulares da UFSC (1998-2007)?. Linhas críticas, 16(31), 391-418. doi:10.26512/lc.v16i31.3641
  • Vargas, H. M., Zuccarelli, C., & Honorato, G. de S. (2024). Século XXI e desigualdades nas condições de trabalho docente na educação superior. Lepes UFRJ. doi:10.7213/1981-416X.21.069.AO04
  • Vieira, K. A. L. (2021). Mimesis e ritual: bases do agir social, funções e fenômenos sociais e culturais na educação. Revista Contexto & Educação, v. 36, n. 113, p. 221-233. doi:10.21527/2179-1309.2021.113.221-233
    » https://doi.org/10.21527/2179-1309.2021.113.221-233
  • Wazlawick, P. (2020). Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização (Trabalho de conclusão de curso). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
  • Verificação de plágio:
    A O&S submete todos os documentos aprovados para a publicação à verificação de plágio, mediante o uso de ferramenta específica.
  • Linguagem inclusiva:
    Os autores usam linguagem inclusiva que reconhece a diversidade, demonstra respeito por todas as pessoas, é sensível a diferenças e promove oportunidades iguais.
  • Disponibilidade de dados:
    A O&S incentiva o compartilhamento de dados. Entretanto, por respeito a ditames éticos, não requer a divulgação de qualquer meio de identificação dos participantes de pesquisa, preservando plenamente sua privacidade. A prática do open data busca assegurar a transparência dos resultados da pesquisa, sem que seja revelada a identidade dos participantes da pesquisa.
  • Editor Associado:
    Marcelo de Souza Bispo

Disponibilidade de dados

A O&S incentiva o compartilhamento de dados. Entretanto, por respeito a ditames éticos, não requer a divulgação de qualquer meio de identificação dos participantes de pesquisa, preservando plenamente sua privacidade. A prática do open data busca assegurar a transparência dos resultados da pesquisa, sem que seja revelada a identidade dos participantes da pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    Mar 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Out 2024
  • Aceito
    18 Set 2025
location_on
Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia Av. Reitor Miguel Calmon, s/n 3o. sala 29, 41110-903 Salvador-BA Brasil, Tel.: (55 71) 3283-7344, Fax.:(55 71) 3283-7667 - Salvador - BA - Brazil
E-mail: revistaoes@ufba.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro