Open-access “Que tal a Alemanha?” Migração familiar e projetos de educação da prole: o que os números nos permitem imaginar?

“How about Germany?” Family migration and children’s education plans: what do the numbers allow us to imagine?

Resumo

O artigo se debruça sobre algumas características do perfil demográfico da população brasileira na Alemanha, que vem passando por alterações em direção a um perfil de migração laboral altamente qualificada. Examino indícios estatísticos de que tais alterações possam estar parcialmente fundadas em projetos de migração familiar e em estratégias de formação escolar da prole, aspectos ainda pouco conhecidos desse contexto migratório. Interpreto dados demográficos dessa população relativos à sua composição de gênero, ao estado civil e às entradas anuais divididas por idades. Interpreto ainda a evolução no número de matrículas de crianças brasileiras nos diferentes tipos de escola do sistema escolar alemão. As variáveis observadas indicam: 1) constante diminuição da taxa de feminização; 2) diminuição abrupta do percentual de mulheres casadas com pessoas de nacionalidade alemã; 3) diminuição percentual de homens solteiros; 4) aumento de entradas nas faixas etárias de 0-15 anos e de 31-45 anos e diminuição das entradas na faixa de 16-30 anos; e 5) aumento de matrículas em tipos escolas com capital simbólico superior. Argumento que a interpretação conjunta dos dados permite imaginar o incremento de projetos de migração familiar associado a estratégias de educação da prole no contexto da imigração brasileira na Alemanha.

Palavras-chave
migração familiar completa; estratégias de formação escolar; Brasil; Alemanha

Abstract

The article focuses on some characteristics of the demographic profile of the Brazilian population in Germany, which has been undergoing changes toward a highly skilled labor migration. I examine statistical evidence that such changes may be partially based on family migration projects and strategies for educating their children, aspects that are quite unknown in this migratory context. I interpret demographic data on this population in terms of gender composition, marital status, and annual entries divided by age. I also interpret the evolution in the number of Brazilian children enrolled in different types of schools in Germany. The variables observed indicate: 1) a steady decline in the feminization rate; 2) a sharp decline in the percentage of women married to German nationals; 3) a percentage decline in single men; 4) an increase in entries in the 0-15 and 31-45 age groups and a decrease in entries in the 16-30 age group; and 5) an increase in enrollment in types of schools with higher symbolic capital. I argue that the interpretation of the dataset allows us to imagine an increase in family migration projects associated with strategies for educating children among the Brazilian population in Germany.

Keywords
whole family migration; school education strategies; Brazil; Germany

1 Introdução

O ano de 2024 marcou o bicentenário da imigração de povos de língua alemã para o Brasil. A data remete à fundação da Colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em 1824. As comemorações contaram com uma grande quantidade de eventos, tanto no Brasil quanto na Alemanha, muitos deles registrados na Agenda Alemã2, lançada pelo Instituto Martius-Staden no contexto das comemorações.

Se a imigração das regiões de língua alemã para o Brasil no século XIX e início do século XX é um processo histórico que conta com uma vasta bibliografia de estudos3 em diversas áreas do conhecimento, sendo que as comemorações do bicentenário incentivaram novas publicações, grupos e projetos de pesquisa4, a direção inversa dos fluxos migratórios é ainda menos conhecida, embora sua compreensão seja tão importante e, talvez, até mais urgente. Desde há pelo menos 35 anos, há um fluxo migratório importante na direção inversa: do Brasil para a Alemanha. Tal fluxo migratório conta com menos atenção da comunidade acadêmica e com um esforço de pesquisa proporcionalmente reduzido frente à sua importância no sistema migratório brasileiro5 (Feijó 2015).

Os vínculos entre os deslocamentos migratórios contemporâneos do Brasil para a Alemanha se devem menos aos fluxos do passado entre Alemanha e Brasil do que aos processos de emigração de brasileiros e brasileiras, que se avolumaram desde os anos 1990 e se tornaram os mais volumosos dentro do sistema migratório brasileiro (Patarra 2005; 1996; 1995; Patarra; Fernandes 2011). Nesse contexto, a Alemanha se tornou, sobretudo na última década, um dos principais destinos de brasileiras e brasileiros que emigram (MRE 2024). Entretanto, as interpretações desses processos migratórios, de suas dinâmicas demográficas, dos projetos e das trajetórias de vida que os conformam, de seus efeitos culturais e econômicos estão sendo apenas lenta e timidamente construídas, desde aproximadamente o início da década de 2010.

Até a metade da década de 2010, a população brasileira na Alemanha poderia ser descrita como fundamentalmente feminina, em constante crescimento, consolidada e segmentada do ponto de vista do gênero, sendo reservada às mulheres a maior fatia do mercado matrimonial e a constituição de famílias, enquanto aos homens era reservada maior fatia do mercado de trabalho e do mercado acadêmico (Feijó 2021). Há, contudo, uma tendência de reversão nesse perfil demográfico, marcada pela gradual diminuição da taxa de feminização e pelo aumento da imigração de mão de obra altamente qualificada (Feijó; Bhattacharjee 2025). O presente artigo se insere nesse contexto interpretativo de compreensão das dinâmicas atuais do perfil demográfico da população brasileira na Alemanha e busca verificar interseções das alterações nesse perfil demográfico com possíveis projetos de migração familiar que incluem estratégias de formação escolar da prole.

Na próxima seção, descrevo brevemente a metodologia do trabalho e faço alguns comentários sobre as bases de dados utilizadas. Após apresentar a metodologia, divido o artigo em mais três seções, nas quais interpreto diferentes indicadores das alterações no perfil demográfico da população brasileira residente na Alemanha.

Na seção 3, “População, feminização e estado civil”, retomo a constatação feita alhures (Feijó 2021) sobre a consolidação, estabilização e relativo enfraquecimento da característica demográfica que mais fortemente marcou a população brasileira na Alemanha por cerca de três décadas, a saber, sua alta taxa de feminização. Também observo como essas alterações estão atreladas à composição do estado civil da população brasileira registrada na Alemanha.

Na seção 4, “Entradas anuais e inserção na escola alemã”, busco, inicialmente, dialogar com a bibliografia dedicada à compreensão da inserção de brasileiros e brasileiras na escola alemã e aos projetos migratórios que orientam essas escolhas. Sigo com uma sucinta interpretação dos dados de registros de novas entradas de brasileiros e brasileiras na Alemanha na última década e com uma descrição do sistema escolar tripartite alemão. A partir disso, construo minhas próprias interpretações sobre os números de matrículas de crianças brasileiras por tipo de escola dentro de um sistema complexo e fortemente marcado por hierarquias e influenciado por questões de pertencimento de classe e de raça.

Por fim, na seção 5, “Diálogos, indícios e o papel da imaginação”, a partir de um diálogo imaginado, tento transformar números em nomes e histórias. Em um exercício estético de intergenericidade, reafirmo a lenta alteração no perfil migratório da imigração, que vai de uma população com basicamente um único traço demográfico diacrítico, qual seja, sua alta taxa de feminização, para uma população com uma demografia multifacetada, marcada ainda pela feminização, mas também pela migração familiar, pela imigração de mão de obra qualificada e por vidas e trajetórias diversas de pessoas que, de alguma forma, deram corpo a 20 anos de investigação sobre o tema.

2 Metodologia

Para a intepretação sobre as mudanças demográficas que apontam para o incremento de projetos de migração familiar entre a população brasileira residente na Alemanha na última década: 1) parto da descrição geral do perfil demográfico dessa população até o final da década de 2020, realizada em trabalhos anteriores (Feijó 2015; 2021); 2) apoio-me em trabalhos recentes que já apontam para algumas mudanças, sobretudo no que diz respeito ao perfil laboral dessa população, com aumento da imigração de pessoas com qualificação profissional e acadêmica elevada, que resultam em altos vencimentos (Feijó; Bhattacharjee 2025); e 3) interpreto a flutuação de alguns indicadores como indícios das mudanças demográficas investigadas, concentrando-me, nominalmente, na interpretação da evolução do estado civil e das entradas anuais divididas por faixa etária da população brasileira residente na Alemanha como indícios do incremento de projetos de migração familiar. Reforçando o argumento, interpreto ainda dados sobre a evolução do número de matrículas escolares de crianças brasileiras na Alemanha na última década por tipo de escola, buscando associar o provável incremento da migração familiar com estratégias parentais de educação de suas proles.

Ademais, trabalho com séries estatísticas do Registro Central de Estrangeiros da Alemanha (AZR) contabilizadas pelo Escritório Federal de Estatísticas do país (DESTATIS). Os dados do AZR são bastante precisos, pois remetem à contagem de todas as pessoas registradas como estrangeiras na Alemanha. Contudo, os dados do AZR apresentam também limitações, que precisam ser explicitadas.

Considerando que tanto a legislação alemã quanto a legislação brasileira permitem a manutenção de dupla cidadania, milhares de pessoas que nasceram e, muitas vezes, cresceram no Brasil, mas depois obtiveram passaporte alemão devido a laços de parentesco e foram viver na Alemanha, não contam como pessoas estrangeiras e, logo, não aparecem nos números aqui trabalhados. Situação similar é a de filhos e filhas de brasileiros ou de brasileiras nascidas na Alemanha, que, em muitos casos, ao nascerem, podem adquirir tanto nacionalidade alemã quanto a nacionalidade brasileira. Essas crianças também não estão entre as pessoas estrangeiras residentes, pois não são estrangeiras para a Alemanha. Também pessoas brasileiras naturalizadas alemãs podem manter a nacionalidade brasileira, mas desaparecem dos registros de estrangeiros, pois passam a ser alemãs. Há ainda que se acrescentar as outras possíveis milhares de pessoas brasileiras que possuem qualquer outro passaporte da União Europeia e vivem na Alemanha. Embora essas pessoas sejam estrangeiras na Alemanha, elas não aparecem nos números como brasileiras, mas sim como europeias.

Uma fonte alternativa seriam os dados dos microcensos (MCs) anuais, realizados diretamente pelo DESTATIS. Nos MCs, o DESTATIS trabalha com a categoria “pessoas com histórico de migração” (PHM), subdividida em “pessoas com histórico de imigração e experiência própria de imigração” (PHMCEP), e “pessoas com histórico de imigração, mas sem experiência própria de imigração” (PHMSEP). PHM são descritas como pessoas que não nasceram elas próprias, ou ao menos um de seus genitores, com nacionalidade alemã. Nessa categoria, estão incluídas tanto pessoas registradas como estrangeiras nas oficinas de imigração, quanto pessoas alemãs nascidas em outros países e imigradas depois para a Alemanha, assim como pessoas alemãs, nascidas na Alemanha, mas filhas de mãe ou pai originalmente imigrante6.

Potencialmente, os dados dos MCs, devido ao uso da categoria PHM, incluem todos os casos listados acima que não são registrados pelo AZR. Contudo, os dados dos MCs têm também suas limitações. Primeiro, eles são amostrais e não uma contagem, como são os dados do AZR. Segundo, não é possível afirmar categoricamente que todas as pessoas com histórico de migração ligado ao Brasil possuem, de fato, a nacionalidade brasileira. Devido à possibilidade da dupla cidadania e às vantagens que ela carrega consigo, parece ser plausível acreditar que a grande maioria das PHM ligado ao Brasil tenha a nacionalidade brasileira, mas isso não pode ser constatado. Por fim, nos dados dos MCs disponibilizados online e gratuitamente, não aparecem os dados relativos à nacionalidade brasileira. Esses dados existem, mas eles precisam ser solicitados ao DESTATIS, que atende às solicitações, mas o atendimento não é gratuito e demanda tempo.

Para termos uma ideia da dimensão da diferença entre os números do AZR e dos MCs, a Tabela 1 traz os números de pessoas registradas como brasileiras na Alemanha, segundo dados do AZR (AZR-BRA), e de pessoas com histórico de migração ligado ao Brasil (PHM-BRA), segundo dados dos MCs para os anos de 2011 a 2018.

Tabela 1
Pessoas registradas como brasileiras e PHM vinculado ao Brasil

Apresentadas as limitações e vantagens de cada uma das fontes, opto por trabalhar com os dados do AZR, por serem mais precisos, por serem de acesso imediato e gratuito e por representarem uma amostra confiável (sempre acima de 50%) do número total estimado de pessoas com nacionalidade brasileira residentes na Alemanha, que pode ser presumido a partir dos dados dos MCs. Nas duas seções que seguem, trabalho com dados sobre crescimento populacional, taxa de feminização e composição por estado civil da população brasileira registrada na Alemanha (seção 3), e com dados sobre a distribuição etária das entradas anuais dessa população e sobre matrículas de crianças brasileiras em diferentes tipos de escola na Alemanha (seção 4).

3 População, feminização e estado civil

Uma alta taxa de feminização, que chegou a 75% em seu ápice no ano de 2004, marca não apenas o perfil demográfico da população brasileira na Alemanha, como também a produção acadêmica sobre essa população migrante. Com raras exceções, as interpretações até aqui construídas sobre os processos e projetos migratórios de brasileiras e brasileiros na Alemanha são construídas por uma literatura acadêmica feminina e feminista, que se debruça sobre as experiências migratórias de brasileiras na Alemanha e cujas autoras são, em boa parte, brasileiras que experenciaram elas mesmas a migração na Alemanha. São exemplos dessa produção os trabalhos pioneiros de Kahrsch (1996), Figueiredo-Iken (2000) e Regis (2007) e trabalhos mais atuais como o de Ávila (2024). Mais recentemente, outras autoras brasileiras, cujos trabalhos sobre outros contextos migratórios são referência nos estudos sobre o sistema migratório brasileiro, voltaram seus olhos para a migração brasileira na Alemanha, e o que viram foi seu traço mais marcante: a feminização. Nesse grupo, destaca-se a produção recente de Assis em parceria com outras pesquisadoras (Assis; Siqueira 2021; Assis et al. 2023).

Pesquisadoras de outras nacionalidades, sobretudo alemãs, também se interessaram pelas experiências de imigrantes brasileiras na Alemanha e seus trabalhos ajudam a preencher esse quadro ainda bastante incompleto de estudos. Aqui se destacam a pesquisa de Stelzig-Willutzki (2012) e o incontornável trabalho de Lidola, quem, por mais de 10 anos (Lidola 2007; 2009; 2011; 2012; 2013; 2014; 2016; 2021), se debruçou com apurado olhar de antropóloga sobre questões de gênero e de racialidade que marcam a imigração brasileira feminina na Alemanha. Os trabalhos de Lidola exploram as negociações e conflitos em torno do imaginário sexista europeu sobre a mulher brasileira, marcado pela erotização racializada de seu corpo (Corrêa 1996; Stolke 2006). Sobretudo, mas não exclusivamente, as negociações e conflitos abordados se dão no contexto das relações afetivas e de trabalho.

Há ainda estudos feitos por autores homens brasileiros que não se enquadram em uma literatura feminina, mas trazem marcas do feminismo ao se deixarem inspirar pelos trabalhos citados anteriormente. Cruz, Falcão e Santos (2022) fazem parte de um grupo de pesquisadores que se dedica a aplicar e interpretar surveys com pessoas brasileiras imigrantes, por eles classificadas como empreendedoras, ao redor do mundo. Como, no contexto alemão, a questão de gênero não pode ser contornada, eles recorrem, sobretudo, ao trabalho de Lidola em suas interpretações. A própria Lidola abordou, em alguns trabalhos, a questão do empreendedorismo migrante, que ela trata como “empreendedorismo étnico”. Por fim, eu mesmo venho argumentando, desde 2015, que a marca mais visível e a questão maior da imigração brasileira na Alemanha é o gênero, destacando o fato de que nem o pioneirismo nem a superioridade numérica das mulheres na Alemanha garantem a sua participação integral em todos os campos sociais no país – sobretudo a fatia do mercado de trabalho reservado às mulheres foi, por décadas, bastante limitada a alguns segmentos e a posições mal remuneradas (Feijó 2015). Disso resulta que, mesmo com algumas aberturas nos últimos anos, ser homem ainda é uma vantagem no posicionamento de brasileiros e brasileiras no mercado laboral alemão (Feijó; Bhattacharjee 2025).

O Gráfico 1 permite visualizar tanto a preponderância feminina nos números da população brasileira registrada na Alemanha quanto o crescimento constante e acelerado dessa população desde 1990 até 2024 – crescimento que reflete o fluxo total da migração brasileira para o exterior, intensificando-se a partir da segunda metade da década de 1980, como apontam estudos da área desde a década de 1990 (Patarra 1996; 1995).

Gráfico 1
Brasileiros e brasileiras na Alemanha, 1990-2024

O processo de feminização das migrações internacionais detectado na década de 1990 (Zlotnik 1998) marca sobremaneira a imigração brasileira na Alemanha. As mulheres brasileiras mantêm uma curva de crescimento bastante mais acentuada do que os homens entre 1990 e 2003, mantêm curvas de crescimento quase paralelas aos homens entre 2004 e 2014 e, a partir desse ano, há uma lenta e constante aproximação do número de homens ao número de mulheres que compõem a população brasileira residente na Alemanha. Entre 2004 e 2024, a taxa de feminização na população brasileira no país cai de 75% para 64%. É ainda uma taxa bastante elevada e a feminização ainda é uma das características centrais dessa população. Contudo, a queda de mais de 10 pontos percentuais é um indício de alterações que precisam ser interpretadas e compreendidas.

Em trabalho recentemente publicado, defendemos que novas entradas de mão de obra altamente qualificada, aproximadamente paritárias entre homens e mulheres a partir de 2012, são uma das razões da alteração do perfil demográfico dessa população (Feijó; Bhattacharjee 2025). Essas novas entradas de brasileiros e brasileiras trazem consigo outras alterações demográficas ainda desconhecidas. Duas alterações imediatas estão nos índices do estado civil dessa população e nas faixas etárias das novas entradas anuais.

Tabela 2
Percentuais do estado civil da população brasileira na Alemanha, 1998-20248

A Tabela 2 nos permite inferir uma das razões da alta taxa de feminização da população brasileira na Alemanha: o casamento, que, durante 3 décadas, afetou as mulheres de forma bem mais expressiva do que os homens. Em 2012, o número de brasileiros e brasileiras registrados na Alemanha era de 34.945 pessoas: 24.431 mulheres e 10.514 homens. Dessas pessoas, 17.363, ou 49,7% do total da população eram casadas. A taxa de pessoas solteiras era de 35,4%. Entre as mulheres, 57,5 % eram casadas e 26,2% eram solteiras em 2012. Já entre os homens, 31,5% eram casados e 56,9%, solteiros.

No transcurso de pouco mais de uma década, ocorrem alterações significativas nos percentuais de estado civil da população brasileira, marcadas, sobretudo, pela alteração nos percentuais masculinos. Entre 2012 e 2024, o percentual de mulheres casadas cai 4,6% e o percentual de solteiras sobe 3,5%. Entre os homens, a tendência é contrária e mais acentuada: cai o percentual de solteiros – uma queda de 9,1% –, enquanto o percentual de casados sobe 9,8 pontos percentuais.

Assim, as curvas dos percentuais de estado civil da população brasileira residente na Alemanha apresentam, na última década, uma tendência de inversão no estado civil dos homens, resultado da grande diminuição de homens solteiros e o grande aumento de homens casados. Entre as mulheres, também há um movimento de aproximação das curvas de solteiras e casadas, mas de forma muito menos acentuada. O Gráfico 2 permite visualizar essas flutuações entre os anos de 2012 e 2024.

Gráfico 2
Percentual do estado civil da população brasileira na Alemanha, 2012-2024

As curvas do Gráfico 2 deixam nítidos os movimentos de aproximação mencionados, com uma tendência à equiparação entre o número de homens solteiros e casados e de diminuição da distância entre o número de mulheres solteiras e casadas. Acompanhada da interpretação de outros dados – como a variação da distribuição etária nas entradas no mesmo período, o que será visto mais adiante, e dados sobre emissão de títulos de residência, que serão apenas brevemente abordados nos limites deste artigo –, a alteração na composição do estado civil da população brasileira na Alemanha indica o aumento do número de famílias compostas por um casal brasileiro e o aumento de mulheres jovens que têm outras razões para a residência na Alemanha, que não seja o casamento (Cruz; Falcão; Santos 2022).

Por fim, há ainda uma variável relativa ao estado civil relevante para a construção do argumento, que aqui se persegue, da existência de um incremento de projetos de migração familiar entre brasileiros e brasileiras que migram para a Alemanha. A Tabela 3 introduz a flutuação do percentual de pessoas brasileiras casadas com pessoas de nacionalidade alemã de 2007 a 202111. Esse novo dado é bastante relevante como indício para a nova característica de migração familiar que se pretende delinear.

Tabela 3
Estado civil, incluindo casamento com alemãs/es em %, 2007-2021

Mais abruptas e significativas do que as alterações nos percentuais do estado civil de pessoas brasileiras registradas na Alemanha, vistas na Tabela 2 e no Gráfico 2, são as alterações nos percentuais dessas pessoas registradas como brasileiras que são casadas com pessoas de nacionalidade alemã. Considerando-se o percentual da população feminina brasileira casada registrada na Alemanha em 2021, 45,94% dessas mulheres estavam casadas com uma pessoa alemã. Em 2007, esse percentual era de 70,42%, ou seja, em 15 anos houve uma queda de quase 25% no percentual de mulheres casadas que se uniram a uma pessoa com nacionalidade alemã.

Entre os homens, essa queda é também vertiginosa. Nos três lustros que correm entre 2007 e 2021, há uma queda de cerca de 18% no percentual de homens casados, unidos a uma pessoa de nacionalidade alemã, indo de 41,69% em 2007 para 23,85% em 2021. Essa queda se reflete diretamente nos motivos das permissões de residência de brasileiros e brasileiras registrados na Alemanha, com aumento dos números de permissão de residência devido a atividades laborais e uma curiosa manutenção da relevância percentual das permissões de residência para reunião familiar, apesar da queda de matrimônios com pessoas de nacionalidade alemã.

Gráfico 3
Permissões de residência por motivo de trabalho e familiar, 2015-2024

Além dos motivos de emissão de permissões de residência, que são imagem e semelhança das alterações na composição do estado civil dessa população migrante, tais alterações nos permitem outras conjecturas. Ainda que os dados disponíveis não permitam averiguar qual a nacionalidade dos cônjuges de brasileiros e brasileiras casados e casadas com pessoas de nacionalidade não alemã, é plausível apostar que grande parte desses matrimônios sejam endógenos, ou seja, que o casal seja composto por duas pessoas de nacionalidade brasileira. Tal fato, por si só, já configura uma relevante alteração no perfil da população brasileira na Alemanha: de um perfil anteriormente marcado por uniões matrimoniais exógenas com uma pessoa de nacionalidade alemã (65,89% dos casamentos em 2007), para uma população com maior concentração de casamentos endógenos entre duas pessoas de nacionalidade brasileira (em 2021, somente 39,40% das pessoas brasileiras casadas estavam unidas a uma pessoa com nacionalidade alemã).

Se fizermos um esforço de imaginação ainda maior, também é plausível acreditar que a maior parte das uniões endógenas tendem a ocorrer no país de origem, quer dizer, antes da migração, e que, sendo assim, a migração seria realizada como um projeto familiar, em que o casal migra junto ou uma pessoa migra primeiro e busca construir as condições imaginadas pelo casal para a reunião familiar a posteriori. A manutenção da relevância percentual da emissão de permissões de residência para reunião familiar, apesar da redução do percentual de casamentos com pessoas de nacionalidade alemã, é tomada como outro indício de projetos de migração familiar completa.

Obviamente, os dados não nos permitem fazer afirmações categóricas, estamos saindo aqui do terreno aparentemente seguro dos números e entrando no fértil terreno da imaginação sociológica. A próxima seção trata da interpretação de dados sobre a variação da distribuição etária das entradas anuais de brasileiros e brasileiras na Alemanha e das matrículas de crianças brasileiras nos diferentes tipos de escola no país. Esses novos dados nos permitem avançar nesse exercício criativo de interpretação.

Entradas anuais e inserção na escola alemã

Ressaltei na seção 3 que grande parte da escassa produção acadêmica sobre a imigração brasileira na Alemanha se dedica às questões de gênero, que marcam profundamente esse contexto migratório. Há, contudo, outras questões abordadas pela reduzida produção acadêmica sobre a imigração brasileira na Alemanha. Uma dessas questões é em que medida e como a imigração de brasileiros e brasileiras para a Alemanha se orienta por projetos de migração familiar e estratégias de formação escolar. Apesar de quantitativamente reduzida, essa produção acadêmica é qualitativamente relevante entre os estudos sobre a imigração brasileira na Alemanha. Tal produção se limita basicamente aos resultados do projeto de pesquisa Transnational educational careers and social positioning between Brazil and Germany, conduzido por Fürstenau (2015; 2016; 2019) e Carnicer (2016; 2019) na Universidade de Hamburgo, entre os anos de 2015 e 2019, em parceria com pesquisadoras brasileiras (Bahia; Santos 2016).

Os estudos de Fürstenau e Carnicer se inserem no quadro teórico dos estudos migratórios transnacionais. Apesar do que o adjetivo “transnacionais” nos leva a pressupor, Carnicer (2016: 18) afirma que

estudos sobre transmigração e transnacionalização não parecem ter prestado muita atenção a questões educativas, apesar de que (...), educação (...) deveria ser considerada como um processo essencial para a reprodução social e perpetuação de estruturas como campos sociais transnacionais. Existe um discurso sobre “transnational education”, mas as contribuições deste discurso se centram, as mais das vezes, em educação universitária

Além de apontar ser rara a questão educacional nos estudos transmigratórios e, quando abordada, quase sempre focada no ensino superior, Carnicer (2016: 19) afirma ainda que o termo “educação transnacional” muitas vezes parece estar limitado a estratégias de migração das elites. Em sentido oposto, vários trabalhos publicados no âmbito do projeto Transnational educational careers and social positioning between Brazil and Germany se voltam para projetos de educação transnacional de “baixo para cima” (Carnicer 2016: 19) e tentam levar em consideração “o impacto de classe nas estratégias educacionais, assim como as interações entre classe e gênero e processos de racialização” (Carnicer 2016: 20). Assim como defende Fürstenau (2019), também Carnicer (2019: 16-17) afirma que um dos achados do projeto de pesquisa sobre educação transnacional entre Brasil e Alemanha é que “educational opportunities influence the migration decisions of young people and families. This refers not only to social privileged groups”.

Ainda que abordem, em alguns casos, o peso de diferentes pertencimentos de classe nas estratégias educacionais inseridas nos projetos migratórios interpretados – como, por exemplo, na interpretação que faz Carnicer (2016: 28-31) acerca da relação entre pertencimento de classe e valorização ou estigmatização do multilinguismo (avaliação do capital simbólico associado à manutenção do português como língua materna) –, os trabalhos publicados como resultados do projeto de pesquisa se concentram, sobretudo, na interpretação de entrevistas com mulheres imigrantes brasileiras na Alemanha, oriundas de famílias das classes trabalhadoras e com baixo capital econômico e cultural.

Há nos resultados uma nítida preferência pela interpretação de entrevistas com mulheres racializadas, oriundas de favelas e que tiveram que tomar caminhos alternativos para alcançarem o objetivo de estudar na Alemanha. Entre os caminhos alternativos, há uma ênfase na escolha dos programas Au Pair e de voluntariado (Freiwilliges Soziales Jahr – FSJ) como forma de obtenção de vistos de longa duração, que não só permitem a entrada na Alemanha, mas também possibilitam os recursos mínimos de manutenção da permanência e, sobretudo, a aprendizagem do idioma, essencial para o ingresso futuro na universidade alemã (Carnicer 2019; Fürstenau 2019). Quando se dedicam às questões e estratégias de educação da prole, o foco também recai sobre o protagonismo das mulheres brasileiras – muitas vezes casadas com alemães – dentro das redes familiares e nas suas estratégias e projetos sobre a trajetória educacional de suas crianças nesse contexto educacional transmigratório.

Os estudos de Fürstenau (2016; 2019) e Carnicer (2016; 2019), assim como as contribuições de Bahia e Santos (2016), abrem reflexões e abordam uma parte indiscutivelmente relevante do contexto educacional transmigratório envolvendo Brasil e Alemanha. Tais estudos lançam mão de dados anteriores àqueles que servem para o presente artigo. Tanto Carnicer (2016; 2019) quanto Fürstenau (2019) apresentam dados do MRE relativos ao ano de 2014, os quais sofreram uma alteração substancial na última década. Os dados do MRE em 2014 são também anteriores a um processo de sistematização da consolidação de dados feita pelo Ministério, o que ocorreu apenas recentemente. Antes disso os dados do MRE sobre as populações brasileiras no exterior eram bem menos confiáveis (o número de cerca de 140 mil pessoas brasileiras vivendo na Alemanha em 2014, por exemplo, parece pouco crível quando comparado a outras fontes mais bem sistematizadas). Talvez mais relevante seja o fato de que Carnicer e Fürstenau trabalham ainda em 2019 com uma taxa de feminização da população brasileira na Alemanha de 75%, número que foi constatado no ano de 2004 e por outra base de dados, a do AZR, que descrevia uma população de cerca de 38 mil brasileiros e brasileiras na Alemanha em 2014, e não de cerca de 140 mil, como apontava o MRE no mesmo ano.

De forma alguma as fragilidades dos dados estatísticos apresentados por Carnicer e Fürstenau influenciam a relevância e a qualidade de suas interpretações, pois estas não se baseiam nos dados estatísticos. Tais dados são apenas introdutórios e servem como ilustração de um cenário mais amplo, no qual transitam suas colaboradoras de pesquisa. Creio, contudo, que os dados podem ter influenciado o recorte das entrevistas interpretadas. A não percepção de uma complexificação no perfil demográfico da população brasileira na Alemanha (percepção que, creio, não teria sido possível até o ano de 2019, devido à longa tradição de uma população marcada sobretudo pela alta taxa de feminização) pode ter contribuído para o foco nas entrevistas com mulheres muitas vezes casadas com alemães, racializadas e oriundas de favelas e das classes trabalhadoras, com baixo capital econômico e baixo capital cultural no contexto de um mercado mundial de bens culturais.

As escolhas me parecem muito acertadas para o ano de 2019 e os resultados oriundos das escolhas são excelentes. Passados alguns poucos anos mais, as alterações no perfil demográfico da população brasileira na Alemanha se mostram de forma mais nítida, parecem mais consolidadas e se me apresentam como uma tendência no atual contexto transmigratório Brasil-Alemanha. Essa nova conjuntura pede interpretações complementares, que voltem o foco também para os projetos migratórios e estratégias educacionais de famílias das classes médias brasileiras, que vêm alterando a composição demográfica da população brasileira na Alemanha. Segue aqui um primeiro esforço nesse sentido.

Tabela 4
Percentual de entradas anuais por faixa etária, 2014-2024

Muito brevemente, eu gostaria de chamar atenção na Tabela 4 para o aumento do percentual de crianças (pessoas na faixa etária de 0 a 15 anos) nas entradas anuais de brasileiros e brasileiras na Alemanha na última década, que vai de 5,3 para 8,4. Também cresce abruptamente o percentual de pessoas na faixa etária de 31 a 45 anos e de 46 a 60 anos, sendo que, nessa última faixa, o crescimento está concentrado entre 46 e 50 anos (dado não visível na Tabela 4). Paralelamente a esses crescimentos percentuais nas faixas de 0 a 15 anos e de 31 a 60 anos, decresce muito o percentual de novas entradas anuais na faixa de pessoas jovens de 16 a 30 anos.

Demograficamente, há uma tendência de que as faixas etárias de maturidade dos 31 a 60 anos sejam compostas percentualmente por mais pessoas casadas e com filhos e filhas do que a faixa etária anterior de 16 a 30 anos. Juntando-se a isso o fato de que crianças entre 0 e 15 apenas em situações excepcionais migram sozinhas em quantidade expressiva (como no caso de refúgios por situação de guerra ou desastres naturais) e retomando os dados das tabelas e gráficos anteriores sobre estado civil, distribuição de títulos de residência e queda na taxa de feminização, é possível supor que esse quadro se deve a um incremento no número de famílias que migram completas, ou seja, casais compostos por pessoas de mais de 30 anos e seus filhos e filhas. E essas crianças precisam ir para escola...

Antes da apresentação dos dados relativos às matrículas de crianças brasileiras em escolas na Alemanha, faz-se necessária ainda uma explicação sobre o modelo tripartite da escola alemã e seus três principais tipos de escola: Hauptschule, Realschule e Gymnasium.

Na Alemanha, como regra geral, após a escola fundamental, que normalmente vai até o quarto ano, as crianças são destinadas, de acordo com o desempenho escolar, a um dos três tipos de escola secundária (aqui também há algumas variações e combinações possíveis, além de outros tipos de escola com número menor de matrículas). Nesse contexto, o capital cultural, marcante no currículo oculto, além de ter grande influência no “desempenho escolar”, também influencia a decisão final sobre a escola a ser seguida, pois, embora a indicação caiba aos e às docentes que avaliam o desempenho escolar, pais e mães familiarizadas com a cultura escolar têm como exercer maior influência na escolha e, ao final, decidir sobre o caminho a ser seguido.

Na Hauptschule, adolescentes e crianças são preparadas para o mundo do trabalho. Essa modalidade vai até o 9º ano escolar, sem exame final e com obtenção de certificado de conclusão, ou pode ser estendida até o 10º ano, caso em que a certificação final inclui qualificação para o trabalho e o exame final abre a possibilidade de continuidade dos estudos. A Realschule é semelhante à Hauptschule, contudo, além da qualificação para o trabalho, a Realschule oferta uma formação geral mais ampla, incluindo a obrigatoriedade do estudo de uma língua estrangeira e a opção por uma segunda. A Realschule pode terminar no 9º ano, sem exame final, ou no 10º ano, com exame final. Nesse último caso, e com algumas outras exigências (como o estudo de duas línguas estrangeiras), uma boa nota no exame final pode permitir a continuidade dos estudos nos últimos anos do Gymnasium.

O Gymnasium é a modalidade escolar que conduz ao Abitur, o exame final necessário para acesso à universidade. O Gymnasium vai até o 12º ou 13º ano e deve promover a formação filosófica, humanística, científica, tecnológica e artística das crianças e adolescentes, incluindo a obrigatoriedade do ensino de duas línguas estrangeiras. Seu término, o Abitur, é, na verdade, uma passagem para a universidade.

Após anos de críticas, incluindo uma reprovação contundente do Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2007 (Muñoz 2007), cresceu uma oferta alternativa de escola, que existe desde os rebeldes anos da década de 1960, chamada de Gesamtschule, que oferece as três conclusões escolares possíveis, sem separação das crianças aos 10 anos de idade de acordo com o desempenho escolar aferido até então. Nos últimos 10 anos, sobretudo após a pandemia do coronavírus, aumentou bastante o percentual de matrículas nesse tipo de escola.

Para nossa interpretação, importa saber que há uma hierarquia de capitais simbólicos no modelo tripartite. O Gymnasium conta com um capital simbólico maior do que a Hauptschule e a Realschule. A Realschule, por sua vez, sobretudo por permitir uma entrada tardia no Gymnasium, tem capital simbólico superior à Hauptschule. Resumidamente, a divisão tripartite alemã repete a dualidade da escola moderna denunciada pela tradição marxista entre uma escola de formação humanista e filosófica para as classes dirigentes (representada aqui pelo Gymnasium) e uma escola pensada para a classe trabalhadora, com uma formação voltada para atividades práticas e mecânicas, de treinamento corporal, que leva direto para o mercado de trabalho, incluindo aí o necessário exército de reserva (representada aqui pela Hauptschule).

É nesse cenário extremamente hierarquizado, sobretudo pelo pertencimento de classe e pelo histórico migratório, que passa pelo racismo estrutural inconfesso e negado que marca a sociedade e a escola alemã (Fereidooni 2011), que se movem brasileiros e brasileiras na escolha das escolas de sua prole. As escolhas provavelmente envolvem a experiência no país e a maturidade para entender a complexidade do sistema escolar alemão, contudo, ao menos potencialmente, também envolvem visões de mundo e projetos traçados talvez mesmo antes a imigração.

O Gráfico 4 mostra dois momentos, os anos de 2014 e 2025, do quadro de matrículas de crianças brasileiras, estrangeiras e alemãs em escolas alemãs por tipo de instituição no nível secundário de ensino. Como na educação fundamental há apenas um tipo de escola, escolhi não apresentar esses números, pois não há aí uma ação de escolha. Também não apresento as matrículas em instituições noturnas, pois estas são destinadas a adultos e estou interessado aqui nos projetos educacionais familiares para as crianças. Opto também por não apresentar os números de escolas com características especiais e que, percentualmente, contam com pouquíssimas matrículas (exemplos são as escolas Waldorf e as de educação especial). Por fim, agrego os dados de instituições com dois ou com três itinerários formativos diferentes sob a rubrica da Gesamtschule, ainda que, tecnicamente falando, apenas as escolas com os três itinerários formativos sejam assim classificadas.

Gráfico 4
Percentual de matrículas por grupo populacional, 2014 e 2025

Salta aos olhos, no Gráfico 4, o esvaziamento percentual de matrículas em escolas do tipo Hauptschule entre 2014 e 2025. Ainda que isso aconteça em todos os três recortes populacionais selecionados, o comportamento é diferente em cada um desses grupos.

A população com nacionalidade alemã apresenta, já em 2014, os menores percentuais de matrículas em Hauptschulen. Um pouco menos de 10% do total de crianças com nacionalidade alemã estavam matriculadas em escolas desse tipo em 2014; em 2025 essa taxa cai para apenas 1,8%. Queda quase tão drástica acontece também com a taxa de crianças da população estrangeira total matriculadas em Hauptschulen, indo de cerca de 28% em 2014 para 7% em 2025. A queda dessa taxa entre a população brasileira é, contudo, ainda mais expressiva: as matrículas em Hauptschulen vão de 32% em 2014 para menos de 3,5% em 2025.

O número de matrículas nas escolas de tipo Realschule também cai cerca de 5 pontos percentuais em cada um dos três grupos populacionais. Não é uma queda pequena, mas ela se torna menos interessante frente à abrupta queda dos percentuais de matrículas nas escolas do tipo Hauptschule. Deixo, então, a queda nas taxas das matrículas nas Realschulen de lado e concentro-me no caso das Hauptschulen.

O que difere no comportamento das três populações comparadas não é a queda de matrículas nas escolas com capital simbólico hierarquicamente inferior, ainda que a queda de matrículas entre a população brasileira seja bastante maior do que entre os outros dois grupos. A principal diferença no comportamento de cada grupo é o redirecionamento dessas matrículas, ou seja, para onde vão as crianças que saem das Hauptschulen e das Realschulen.

Entre as crianças das populações estrangeiras e com nacionalidade alemã, a transferência é quase que completamente feita para as escolas de tipo Gesamtschule. Para esses dois grupos, a alteração no número de matrículas nas escolas do tipo Gymnasium entre 2014 e 2025 é irrelevante, com um aumento de cerca de 1% em cada um dos dois grupos.

No caso da população brasileira, a saída das Hauptschulen e das Realschulen se refletem em um aumento expressivo tanto das matrículas nas Gesamtschulen quanto nos Gymnasien. Em 2014, cerca de 22% das crianças brasileiras estavam matriculadas em Gesamtschulen; em 2025, essa taxa é de quase 37%. No caso dos Gymnasien, a taxa de matrículas de crianças brasileiras passa de menos de 30% em 2014 para mais de 45% em 2025. O percentual de matrículas nos Gymnasien entre crianças brasileiras e crianças com nacionalidade alemã em 2025 é muito próximo: 45,72% e 48,00%, respectivamente.

Assim, se a transferência de matrículas do total de crianças estrangeiras e de crianças com nacionalidade alemã das escolas com capital simbólico hierarquicamente inferior pode ser interpretada como resultado das crescentes críticas ao modelo hierárquico tripartite do sistema escolar alemão e ao consequente aumento da visibilidade e da implantação de escolas com duas ou três terminalidades, o comportamento da população brasileira pode ter outras razões e talvez vá além de uma reação às críticas ao modelo tripartite. Um indício para isso é o aumento na taxa de matrículas de estudantes brasileiros e brasileiras nos Gymnasien.

Para muitas famílias das classes subalternas na Alemanha, incluídas aqui tanto famílias com nacionalidade alemã quanto famílias com histórico de migração, o Gymnasium não se apresenta como uma alternativa. O término do Gymnasium ocorre com um exame final que habilita para o acesso à universidade e não com um certificado de conclusão de uma etapa escolar que permite um leque de escolhas na vida. O Gymnasium não tem outra finalidade a não ser o ingresso na universidade, adiando o ingresso no mercado de trabalho – o que não é uma opção para muitas famílias das classes subalternas.

Além disso, e talvez mais grave do que isso, o insucesso no exame final do Gmynasium, se repetido duas vezes seguidas, inabilita também o acesso à universidade e, nesses casos, há que se começar um novo ciclo de estudos para adultos, que levará provavelmente apenas a empregos com pior remuneração e capital simbólico mais baixo dentro da hierárquica sociedade alemã. Para famílias das classes subalternas, tendencialmente com menor intimidade com os universos escolar e acadêmico, a possibilidade do fracasso no exame final de uma escola do tipo Gmynasium é uma barreira simbólica, cujo peso nas escolhas não pode ser desconsiderado.

No caso da população brasileira, apostando-se que essa população é cada vez mais constituída por famílias de classe média com formação de nível superior, a barreira simbólica de um possível fracasso no exame final do Gmynasium pode não existir ou ter um peso bem menos significativo. Além disso, se tudo der errado, para grande parte dessas famílias, há sempre o retorno ao país de origem como possibilidade concreta. O retorno não é uma possibilidade concreta para todas as populações imigrantes.

Assim, as alterações nas taxas de matrículas de crianças brasileiras na Alemanha na última década, de escolas com menor capital simbólico para o tipo de escola de maior capital simbólico, por um lado, é mais um indício da alteração na composição dessa população pelo aumento de famílias de classe média com nível superior de educação. Por outro lado, essas alterações no número de matrículas embasam a segunda parte do argumento aqui perseguido, qual seja, que esse incremento da migração familiar pode talvez vir acompanhado de estratégias de formação escolar da prole. À medida que aumenta o percentual de migração familiar completa de famílias de classe média com formação de nível superior e à medida que essas famílias têm tempo para entender as hierarquias do sistema escolar alemão e a função de cada escola dentro da sociedade alemã, diminui o número de matrículas nas escolas que levam as crianças direto para o mercado do trabalho e aumenta o número de matrículas em escolas que adiam a entrada no mercado de trabalho e conduzem a uma continuidade da vida de estudante por mais alguns anos.

Não é de se desprezar, nas escolhas das famílias brasileiras, também o peso da formação cultural e do habitus das classes médias no Brasil, com sua aversão pelo trabalho, associado às classes subalternas, e seu apego ao bacharelismo como capital simbólico que, em seu imaginário de classe, as aproxima das elites do país. Para as classes médias brasileiras, o adiamento da entrada de sua prole no mundo do trabalho e no mundo adulto pode, talvez, não ser tomado como um problema, como no caso dos outros dois grupos populacionais.

Concluídas as interpretações dos dados apresentados nas quatro tabelas e quatro gráficos anteriores e antes de passarmos para a seção de conclusão, esperada em um texto do gênero acadêmico, permito-me aqui quebrar as expectativas e abro espaço para um experimento intergenérico, que visa a tensionar e a refletir sobre possibilidades e formas outras de produção do conhecimento acadêmico frente às imposições mandatórias do modelo de cientificidade cartesiana. Além de um exercício estético e intergenérico, a próxima seção carrega também uma crítica implícita ao solipsismo como método de produção do conhecimento – outra herança cartesiana –, ao trazer para o texto personagens fictícias e reais, que dão corpo e alma aos números apresentados até aqui. Além disso, as personagens me são úteis para afirmar que é de pessoas migrantes de carne e osso, de seus sonhos e desejos, que estou tratando aqui.

Chamo a próxima seção de “epílogo”, acredito com isso estar ressaltando: a hibridização de gêneros textuais pretendida; a homenagem a personagens reais dessa história; e a intencionalidade político-epistêmica e narrativa do texto.

5 Epílogo: diálogos, indícios e o papel da imaginação

  • Que tal a Alemanha?

  • Alemanha? A gente não tinha decidido Portugal?

  • Eu sei, mas a gente não tinha pensado na Alemanha.

  • Será por que será que a gente não tinha pensado na Alemanha? Alguém nessa casa fala alemão, amor?

  • O Júlio tá fazendo curso, ele gostou da ideia...

  • Peraí, cê já falou com as crianças? Vem cá, de onde vem essa ideia de Alemanha, heim?

  • Lembra do Bruno?

  • Aquele do tribunal, que dava em cima de você?

  • Gente! Isso foi há mais de 15 anos, eu devia ter uns 25, 27! Para com isso...

  • Tá bom. Que que tem o Bruno?

  • Eu encontrei ele ontem por acaso no shopping... Com a mulher e com os filhos.

  • E a mulher e a crianças são alemãs, por acaso?

  • Deixa de ser bobo. A irmã dele tá na Alemanha, faz uns 15 anos. Casou com um alemão que é de TI, gerente de uma firma grande, diz ela. Falei com o Bruno que a gente ia pra Portugal, que num tamo aguentando esse clima barra pesada. Na hora ele ligou pra irmã. Ela disse que ajuda e que você não precisa falar alemão pra trabalhar com o marido dela.

  • Peraí, cê já me arrumou emprego? Sem me perguntar, amor? Que isso? É em Berlim?

  • Diz que é perto de Munique. Eu olhei direitinho onde fica Munique, é perto da Itália, da Áustria... E tem a escola alemã, amor. A irmã do Bruno disse que ajuda a gente a escolher, que vai junto, pra não botarem as crianças em escola com muito imigrante.

    Suspiro alto.

  • Você sabe quanto ganha um cara de TI com sua formação na Alemanha? 6 mil! Euros, claro. Em Portugal não seria nem metade, amor. E a Malena disse que se eu fizer uma formação pra professora de jardim de três meses (três meses!), eu logo arrumo vaga, tão precisando muito: tem creche fechando, jardim fechando, cê acredita? Uma loucura!

  • Malena? Quem é Malena, amor? Professora de jardim? E o seu doutorado em Lisboa?

  • Malena é a irmã do Bruno, amor. E uma professora de jardim ganha 2 mil e quinhentos.

  • Euros?!

  • Ahãm.

  • E a Sofia?

  • Amor, Sofia tem 3 anos. Ela vai pro jardim comigo, risos.

  • E o Júlio.

  • Fez o teste de A1 de alemão ontem. E passou.

Talvez esse diálogo imaginado e verossímil tenha ocorrido mais ou menos dessa forma entre o dia 17 de abril de 2016 e o mês de fevereiro de 2020, antes da eclosão da pandemia de COVID-19. O cenário pode ter sido um apartamento de três quartos em um bairro de classe média em alguma grande capital do país, talvez Brasília, São Paulo, Rio, Salvador, Recife. Talvez, depois de alguns meses, vencidas as burocracias e as inseguranças, vendido o carro e tendo sido encontrada uma solução para o apartamento ainda não quitado, a imigração para a Alemanha tenha ocorrido, junto à migração de outras milhares de famílias brasileiras que lentamente estão alterando a paisagem migrante brasileira entre o Reno e o Oder.

Quando Malena imigrou, também imigraram com ela centenas de mulheres brasileiras que, muitas vezes, acabavam se casando no país, ainda que o projeto migratório inicial não necessariamente tivesse passado pelo casamento. Aí, de sua solidão de pioneiras, recorreram aos estereótipos e os transformavam em fortaleza, abriram salões de depilação em Berlim (Lidola 2016), guardaram os diplomas superiores e viraram professoras de samba em Gera (Regis 2007) e matricularam seus filhos e filhas no Gymnasium, mesmo contra recomendação docente e diante de olhares desconfiados e de simpáticos comentários sobre a beleza exótica das filhas ou sobre as prováveis habilidades dos filhos no futebol.

Desde a segunda metade da década de 2010, sobretudo a partir de 2017 – seja para fugir de uma normalidade na qual torturadores viraram heróis, seja atendendo ao chamado de políticas de atração de mão de obra estrangeira em determinadas áreas do mercado postas em marcha na Alemanha –, junto com as Malenas, começaram a chegar jovens brasileiras e brasileiros com alta qualificação e com empregos bem remunerados nas áreas STEM16, assim como famílias completas com planos de formação de seus filhos e filhas em uma escola alemã, que, de longe, julgavam boa e, quem sabe, com uma inserção mais tarde nas melhores universidades europeias ainda gratuitas.

Provavelmente haviam planejado ficar por alguns anos, o suficiente para garantir experiência internacional na carreira ou talvez um pouco mais, pelo menos até as crianças adquirirem a cidadania alemã. Algumas, de fato, voltaram ou foram para outros lugares (Dizem que a Escandinávia é muito aberta para imigrantes, não é como aqui, ou seria o Canadá?). Mas muitas ficaram, ficaram e ficaram e formam hoje o que eu aqui chamei de “perfil demográfico da população brasileira na Alemanha”. São Malenas, Jacquelines, Gauthiers, Giseles, Márcios, Suzanas, Estevãos, Carolinas, Thâmiles, Reas, Marcelos, Tânias... São essas histórias e diálogos que os números, tomados como indícios, e o ofício de sociólogo – acompanhados de 20 anos de entrevistas, de vivências, de feijoadas, de festas brasileiras, de trocas de receitas de pão de queijo, de folhas de Kohlrabi para substituir a couve, da angústia de ter as crianças nessa escola e de tantas outras coisas – me permitem imaginar. Sem imaginação são só números, e números, noves fora, zero.

6 A guisa de conclusão

Após o estranhamento que pode ter provocado a quebra do texto, com o experimento intergenérico e a inclusão de outras vozes e personas em argumentos pautados até então em números, retorno à “normalidade” esperada em um texto acadêmico e termino com alguns destaques à guisa de conclusão.

Para tanto, gostaria primeiro de sumarizar o que os dados interpretados até aqui me permitem inferir. Em suma, os dados observados indicam: 1) uma constante diminuição da taxa de feminização; 2) uma diminuição abrupta do percentual de mulheres casadas com pessoas de nacionalidade alemã; 3) igual diminuição percentual de homens solteiros; 4) o aumento percentual de entradas nas faixas etárias de 0-15 anos e de 31-45 anos e forte diminuição das entradas na faixa de 16-30 anos; e 5) aumento de matrículas em tipos escolas com capital simbólico hierarquicamente superior.

A interpretação conjunta desses dados permite a construção do argumento de um provável incremento de projetos de migração familiar associado a estratégias de educação da prole no contexto da imigração brasileira para e na Alemanha. Tais estratégias parecem, sobretudo, visar acúmulo de capital social e de prestígio. Esse é o argumento perseguido ao longo do texto.

Por fim, ressalto que os dados interpretados atiçam a imaginação e provavelmente traduzem as trajetórias de migração de alguns ou de muitos brasileiros e brasileiras, que, junto com seus filhos e filhas, migraram para a Alemanha: daqueles e daquelas que vivem agora entre o Reno e o Oder ou que já voltaram ao Brasil, ou ainda de quem partiu para uma nova aventura migratória. Contudo, de forma alguma, os números permitem afirmar, deduzir, inferir ou mesmo imaginar que todas as trajetórias migrantes de famílias brasileiras na Alemanha são ou foram assim. Além disso, esse intérprete, fundando em minhas próprias experiências, leituras, estudos e conhecimentos prévios pode, inclusive, compreender determinadas trajetórias de forma distinta à compreensão dos próprios sujeitos que as traçaram. São venturas e desventuras possíveis quando nos abrimos à imaginação sociológica.

  • 2
    A “Agenda Alemã” é uma iniciativa do Instituto Martius-Staden de divulgação colaborativa de eventos comemorativos do bicentenário. A agenda pode ser acessada em www.agendaalema.org.br, (01/12/ 2025).
  • 3
    Entre 2010 e 2016, René Gertz coordenou um levantamento bibliográfico de publicações sobre a imigração de língua alemã no sul do Brasil. Na última atualização, em maio de 2024 (Gertz 2024), o levantamento contava com mais de 6000 títulos.
  • 4
    O presente Dossiê, a coletânea Prediger e Pereira (no prelo), organizada na Universidade de Heidelberg, e a plataforma internacional de pesquisa DPB-Deutschsprachige Presse in Brasilien, 1852-1941, que envolve mais de uma dezena de universidades e é capitaneada pelo Centro para o Brasil e a América Latina da Universidade de Tübingen (https://uni-tuebingen.de/forschung/zentren-und-institute/brasilien-und-lateinamerika-zentrum/forschungsplattform-dpb/) são alguns exemplos expressivos. Além disso, o Instituto Histórico de São Leopoldo (IHSL) e a Editora Oikos lançaram 51 títulos sobre a temática da imigração de língua alemã no Brasil, todas no âmbito do selo do bicentenário (ver oikoseditora.com.br, aba “200 anos”).
  • 5
    No último relatório divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), relativo ao ano de 2023, a Alemanha aparece como sexto país com maior número de pessoas brasileiras residentes. Entre os países europeus, a Alemanha é o terceiro país com maior número de brasileiros e brasileiras residentes, atrás apenas de Portugal e Reino Unido (MRE 2024).
  • 6
    Ainda que se julguem pertinentes as críticas ao conceito “histórico de migração”, utilizo-o aqui na falta de outro que o substitua. O debate em torno desse conceito pode ser visto em Will e Nowicka (2021).
  • 7
    Gráfico gerado com dados da plataforma online Genesis do DESTATIS . Acesso aos dados em: https://www-genesis.destatis.de/datenbank/online/statistic/12521/table/12521-0002
  • 8
    Nas categorias “casadas” e “casados”, estão incluídas as uniões estáveis. Para simplificar a tabela e porque os números são relativamente muito baixos, foram suprimidas as categorias “divorciados/as” e “viúvos/as”.
  • 9
    Tabela gerada com dados da plataforma online Genesis do DESTATIS. Acesso aos dados em: www-genesis.destatis.de/datenbank/online/statistic/12521/table/12521-0005
  • 10
    Gráfico gerado com dados da plataforma online Genesis do DESTATIS. Acesso aos dados em: https://www-genesis.destatis.de/datenbank/online/statistic/12521/table/12521-0005
  • 11
    Nesse caso, o período não foi estendido até 2024, pois os percentuais de pessoas de uma determinada nacionalidade estrangeira casadas com pessoas de nacionalidade alemã não estão disponíveis online e gratuitamente após o ano de 2021. As flutuações até o ano de 2021 são mais do que suficientes como indício para a construção do argumento aqui proposto.
  • 12
    Tabela gerada a partir de dados disponíveis nos anuários DESTATIS. Ausländische Bevölkerung, Ergebnisse des Ausländerzentralregisters. Fachserie 1, Reihe 2. Wiesbaden, 2008-2022.
  • 13
    Gráfico gerado com dados da plataforma online Genesis do DESTATIS. Acesso aos dados em: https://www-genesis.destatis.de/datenbank/online/statistic/12521/table/12521-0008
  • 14
    Tabela gerada com dados da plataforma online Genesis do DESTATIS. Acesso aos dados em: www-genesis.destatis.de/datenbank/online/statistic/12521/table/12521-0010
  • 15
    Gráfico gerado a partir de dados disponíveis nos anuários: DESTATIS Bildung und Kultur, Allgemeinbildende Schulen. Fachserie 11, Reihe 1. Wiesbaden: 2015-2021 e DESTATIS Statistischer Bericht, Allgemeinbildende Schulen. 2022-2024.
  • 16
    Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática, na sigla em inglês comumente utilizada.

Declaração de disponibilidade de dados

Todos os dados apresentados neste estudo foram publicados no próprio artigo.

Referências bibliográficas

  • Assis, Gláucia Oliveira; Siqueira, Sueli. Entre o Brasil e a Europa: brasileiras negociando gênero e raça nas representações sobre “a mulher brasileira”. Cadernos Pagu, n. 63, 2021. Disponível em: scielo.br/j/cpa/a/ttsdSYVDcgJfzjWwLKfNVCp/?format=pdf⟨=pt (04/10/2025).
    » scielo.br/j/cpa/a/ttsdSYVDcgJfzjWwLKfNVCp/?format=pdf⟨=pt
  • Assis, Gláucia Oliveira; Alves, Isadora; Canella, Francisco; Martendal, Laís. Os projetos migratórios de Brasileiras/os na Alemanha no século XXI e as configurações de famílias transnacionais. Desenvolvimento Socioeconômico em Debate, v. 9, n. 1, 111-136, 2023. Disponível em: https://periodicos.unesc.net/ojs/index.php/RDSD/article/view/7852 (04/10/2025).
    » https://periodicos.unesc.net/ojs/index.php/RDSD/article/view/7852
  • Ávila, Juliana. Mulheres brasileiras na Alemanha: Experiências e estratégias de integração laboral Dissertação (Mestrado em Estudos sobre as Mulheres: Gênero, Cidadania e Desenvolvimento) - Universidade Aberta, Lisboa, 2024.
  • Bahia, Joana; Santos, Mirian. Aspectos socioeducativos dos processos migratórios. In: Bahia, Joana; Santos, Mirian (orgs.). Um olhar sobre as diferenças: a interface entre projetos educativos e migratórios São Leopoldo: Oikos, 2016, 7-17. Disponível em: https://oikoseditora.com.br/files/Um%20olhar%20sobre%20as%20diferencas%20-%20e-book%20-%20BAHIA%20e%20SANTOS.pdf (04/10/2025).
    » https://oikoseditora.com.br/files/Um%20olhar%20sobre%20as%20diferencas%20-%20e-book%20-%20BAHIA%20e%20SANTOS.pdf
  • Carnicer, Javier. Multilinguismo e educação em famílias transnacionais entre o Brasil e a Alemanha. In: Bahia, Joana; Santos, Mirian (orgs). Um olhar sobre as diferenças: a interface entre projetos educativos e migratórios São Leopoldo: Oikos, 2016, 18-34. Disponível em: https://oikoseditora.com.br/files/Um%20olhar%20sobre%20as%20diferencas%20-%20e-book%20-%20BAHIA%20e%20SANTOS.pdf (04/10/2025).
    » https://oikoseditora.com.br/files/Um%20olhar%20sobre%20as%20diferencas%20-%20e-book%20-%20BAHIA%20e%20SANTOS.pdf
  • Carnicer, Javier. Transnational Family and Educational Trajectories. Transnational Social Review, v. 8, n. 2, 170–184, 2018. doi:10.1080/21931674.2018.1463056 (04/10/2025).
    » https://doi.org/10.1080/21931674.2018.1463056
  • Carnicer, Javier. Transnational migration and educational opportunities: A case study of migration from Brazil to Germany. London Review of Education, v. 17, n. 1, 14-25, 2019. Disponível em: https://journals.uclpress.co.uk/lre/article/id/2746/ (04/10/2025).
    » https://journals.uclpress.co.uk/lre/article/id/2746/
  • Corrêa, Mariza. Sobre a invenção da mulata. Cadernos Pagu (6-7), 1996, 35-50. Disponível em: periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1860 (04/10/2025).
    » periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1860
  • Cruz, Eduardo Picanço; Falcão, Roberto Pessoa de Queiroz; Santos, Aurélio José dos. Brasileiros na Alemanha: motivações, perfil dos imigrantes e questões para debate. População e Sociedade CEPESE. Porto, v. 38, 118-141, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.52224/21845263/rev38v2 (04/10/2025).
    » https://doi.org/10.52224/21845263/rev38v2
  • Destatis - Statistisches Bundesamt. Ausländische Bevölkerung, Ergebnisse des Ausländerzentralregisters Fachserie 1, Reihe 2. Wiesbaden, 2008-2022. Disponível em: www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00000018 (04/10/2025).
    » www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00000018
  • Destatis - Statistisches Bundesamt. Bildung und Kultur, Allgemeinbildende Schulen Fachserie 11, Reihe 1. Wiesbaden: 2015-2021. Disponível em: www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00000110 (04/10/2025).
    » www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00000110
  • Destatis - Statistisches Bundesamt. Statistischer Bericht, Allgemeinbildende Schulen 2022-2024. Disponível em: statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00007588 (04/10/2025).
    » statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00007588
  • Feijó, Glauco Vaz. O Brasil lá fora: a invenção de nacionalidades brasileiras na Alemanha e em Portugal (1989-2012). Narrativas e discursos de identidades. Tese (Doutorado em História) - Departamento de História, Universidade de Brasília, Brasília, 2015. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/18467 (04/10/2025).
    » https://repositorio.unb.br/handle/10482/18467
  • Feijó, Glauco Vaz. Retratos do Brasil na Alemanha. 30 anos de imigração Campinas: Pontes Editores, 2021.
  • Feijó, Glauco Vaz; Bhattacharjee, Arindam. Skilled birds of passage? The places of Indian and Brazilian migrants on the academic market in Germany. REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, n. 33, 2025, e332116. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-85852503880003313 (04/10/2025).
    » https://doi.org/10.1590/1980-85852503880003313
  • Figueiredo-Iken, Isabel. Integrationsprobleme brasilianischer Frauen in Deutschland. Dissertação (Mestrado em DaF) - Universität Köln, Köln, 2000.
  • Fereidooni, Karim. Schule - Migration – Diskriminierung. Ursachen der Benachteiligung von Kindern mit Migrationshintergrund im deutschen Schulwesen. Wiesbaden: Springer VS, 2011.
  • Fürstenau, Sara. Transmigration und transnationale Familien. Neue Perspektiven der Migrationsforschung als Herausforderung für die Schule. In: Leiprecht, Rudolf; Steinbach, Anja (orgs.). Schule in der Migrationsgesellschaft (Band 1). Schwalbach i.T.: Wochenschau, 2015, 143-165.
  • Fürstenau, Sara. Educação transnacional e posicionamento social entre o Brasil e a Europa. Um estudo qualitativo com famílias migrantes. In: Bahia, Joana; Santos, Miriam (orgs.). Migrações, redes e trajetórias entre a Alemanha e o Brasil, Porto Alegre: Letra e Vida, 2016, 69–86.
  • Fürstenau, Sara. Educational aspirations of underprivileged female migrants. An ethnographic case study of a transnational network of care workers between Brazil and Germany. Zeitschrift für Erziehungswissenschaft, Sonderheft 34, Migration und Bildungserfolg, 1885-202, 2019. Disponível em: link.springer.com/article/10.1007/s11618-019-00882-4 (04/10/2025).
    » link.springer.com/article/10.1007/s11618-019-00882-4
  • Gertz, René. Bibliografia sobre imigração e colonização alemã no Rio Grande do Sul, 2024. Disponível em: https://www.renegertz.com/17-outros-textos/textos/76-bibliografia-imigracao-colonizacao-alema-rs (04/10/2025).
    » https://www.renegertz.com/17-outros-textos/textos/76-bibliografia-imigracao-colonizacao-alema-rs
  • Kahrsch, Vania Maria. Perspektive des Lebens der brasilianischen Immigrantinnen in Deutschland. In: Briesemeier, Dietrich; Rouanet, Sérgio Paulo. Brasilien im Umbruch: Akten des Berliner Brasilien-Kolloquiums vom 20. – 22. September 1995 Frankfurt am Main: TFM, 1996.
  • Lidola, Maria. O Nós Fragmentado: Identifikationsprozesse brasilianischer Migrantinnen in Berlin. In: Feijó, Glauco Vaz; Regis, Jacqueline Fiuza (orgs.). Festival de Colores: Dialoge über die portugiesischsprachige Welt Tübingen: Calepinus-Verlag: 2007.
  • Lidola, Maria. Als ‘Basilianerin” in Berlin: eine Auseinandersetzung mit symbolischen Verortungen. In: Ebert, Anne; Lidola, Maria; Bahrs, Karoline; Noack, Karoline (orgs.). Differenz und Herrschaft in den Amerikas: Repräsentationen des Anderen in Geschichten und Gegenwart Bielefeld: Transkript, 2009.
  • Lidola, Maria. Appropriating “die Brasilianerin”. Negotiating Belonging and Unbelonging in Everyday Practice in Berlin. In: Drotbohm, Heike; Kummels, Ingrid (orgs.). Zeitschrift für Ethnologie 136/2, 2011, 155–176. Disponível em: www.jstor.org/stable/23333555 (04/10/2025)
    » www.jstor.org/stable/23333555
  • Lidola, Maria. Es leben die Zwischenräume? Ambivalente Erzählungen über Zugehörigkeiten von brasilianischen Frauen in Berlin. In: Dilger, Hansjörg; Hoffmann, Bea (orgs.), Räume durch Bewegung. Ethnographische Perspektiven auf eine vernetzte Welt Berlin: Panama-Verlag, 2012.
  • Lidola, Maria. Changing boundaries and redefining relations: migration and work experiences of Brazilian women in Germany. In: Fritz, Barbara; Kummels, Ingrid; Rinke, Stefan (Eds.). Migrations between Spaces in the Americas and Beyond FIAR Forum for Inter-American Research. The Journal of the International Association of Inter-American Research (IAS) 6/2, 2013. Disponível em: http://interamerica.de/current-issue/lidola/ (04/10/2025)
    » http://interamerica.de/current-issue/lidola/
  • Lidola, Maria. Negotiating integration in Berlin’s Waxing Studios: Brazilian migrants’ gendered appropriation of urban consumer spaces and ‘ethnic’ entrepreneurship. Journal of Contemporary History, v. 49, n. 1, 228-251, 2014. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0022009413505664 (04/10/2025)
    » https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0022009413505664
  • Lidola, Maria. Intime Arbeit und migrantische Unternehmerschaft: Professionalität, Körperlichkeit und Anerkennung in brasilianischen Waxing Studios Berlins Bielefeld: Transcript, 2016.
  • Lidola, Maria. Civilizing the other: Beauty, intimate labor, and affective encounters in Berlin’s Brazilian Waxing Studios. Cadernos Pagu, n. 63, 2021, e216302. Disponível em: https://doi.org/10.1590/18094449202100630002 (04/10/2025).
    » https://doi.org/10.1590/18094449202100630002
  • MRE - Ministério das relações exteriores. Comunidades brasileiras no Exterior. Ano-base 2023, 2024, Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/portal-consular/BrasileirosnoExterior2023.pdf (04/10/2025).
    » https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/portal-consular/BrasileirosnoExterior2023.pdf
  • Muñoz, Vernor Villalobos. Report of the Special Rapporteur on the right to education Addendum mission to Germany United Nations - Human Rights Council, 2007. Disponível em: https://digitallibrary.un.org/record/595224?v=pdf (04/10/2025).
    » https://digitallibrary.un.org/record/595224?v=pdf
  • Patarra, Neide Lopes (coord.) Emigração e imigração internacionais no Brasil contemporâneo São Paulo: FNUAP, 1995.
  • Patarra, Neide Lopes. Migrações Internacionais: Herança XX, Agenda XXI São Paulo: FNUAP, 1996.
  • Patarra, Neide Lopes. Emigração e imigração de e para o Brasil contemporâneo. Volume, Fluxos e significados. Em: São Paulo em Perspectiva, v. 19, n. 3, 23-33, jul./set. 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-88392005000300002 (04/10/2025).
    » https://doi.org/10.1590/S0102-88392005000300002
  • Patarra, Neide Lopes; Fernandes, Duval. Brasil: país de imigração? Em: Revista Internacional de Língua Portuguesa – Dossiê Migrações, 2011, 65-96.
  • Prediger, Angélica; Pereira, Marília Pinheiro. 200 Jahre deutschsprachige Migrationen nach Brasilien MinGLA, Lausanne: Perter Lang, no prelo
  • Regis, Jacqueline Fiuza da Silva. Die Integrationskurse nach dem Gesetz zur Steuerung und Begrenzung der Zuwanderung und zur Regelung des Aufenthalts und der Integration von Unionsbürgern und Ausländern (Zuwanderungsgesetz) und ihre Auswirkung auf die Integrationserfahrungen Betroffener. Dissertação (Mestrado em DaF) - Universidade de Jena, 2007. Disponível em: www.db-thueringen.de/receive/dbt_mods_00010004 (04/10/2025).
    » www.db-thueringen.de/receive/dbt_mods_00010004
  • Stelzig-Willutzki, Sabina. Soziale Beziehungen im Migrationsverlauf: Brasilianische Frauen in Deutschland Wiesbaden: Springer, 2012.
  • Stolke, Verena. O enigma das interseções: classe, “raça”, sexo, sexualidade. A formação dos impérios transatlânticos do século XVI ao XIX. Estudos Feministas, v. 14, n. 1, 15-42, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2006000100003 (04/10/2025).
    » https://doi.org/10.1590/S0104-026X2006000100003
  • Will, Anne-Kathrin; Nowicka, Magdalena. Der „Migrationshintergrund“ und seine Fallstricke. Wie weiter in der interkulturellen Öffnung des öffentlichen Dienstes in Deutschland?, WiSo Direkt, n. 18, 2021. Disponível em: https://library.fes.de/pdf-files/wiso/17900.pdf (04/10/2025)
    » https://library.fes.de/pdf-files/wiso/17900.pdf
  • Zlotnik, Hania. International migration 1965-96: an overview. Population and development review, v. 24, n. 3, 429–468, 1998. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2808151 (04/10/2025).
    » https://www.jstor.org/stable/2808151
  • Editor:
    Ebal Bolacio Filho.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Out 2025
  • Aceito
    12 Dez 2025
location_on
Universidade de São Paulo | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas | Departamento de Letras Modernas | Área de Lingua e Literatura Alemã Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 - Cidade Universitária, CEP: 05508-900 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: pandaemonium.germanicum@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro