Resumo
Objetivo: Este estudo teve como objetivo investigar o impacto das sessões mediúnicas, especialmente das mensagens evidenciais, no processo de luto, e analisar as percepções de enlutados, médium e colaboradores envolvidos no evento.
Metodologia: A pesquisa adotou uma abordagem metodológica mista, combinando técnicas qualitativas e quantitativas, e foi conduzida em três fases: (1) aplicação de questionário fechado a 105 enlutados na fila de espera para sessões mediúnicas; (2) aplicação de questionários semiabertos ao médium e a seis colaboradores; (3) aplicação de questionários abertos a 12 enlutados que receberam mensagens evidenciais. A análise quantitativa utilizou estatísticas descritivas e inferenciais, enquanto a análise qualitativa seguiu a técnica de Análise de Conteúdo.
Resultados: As mensagens mediúnicas evidenciais contribuíram para alívio emocional e sensação de reconexão com os entes falecidos, apesar do desconforto inicial na fila de espera. A percepção do médium e dos colaboradores sobre o impacto do evento foi positiva, embora a imprevisibilidade das mensagens limite a adoção dessa prática como uma terapia estruturada.
Conclusão: As sessões mediúnicas podem desempenhar um papel importante na adaptação de indivíduos com luto prolongado, oferecendo consolo espiritual e promovendo a ressignificação da perda, destacando a importância da integração entre suporte clínico e espiritual.
Palavras-chave:
Transtorno do luto prolongado; Saúde Mental; Espiritualidade; Mediunidade; Fenômenos psíquicos
Abstract
Objective: This study aimed to investigate the impact of mediumistic sessions, particularly evidential messages, on the grieving process and analyze the perceptions of mourners, medium, and collaborators involved in the event.
Methodology: The research adopted a mixed-methods approach, combining qualitative and quantitative techniques, and was conducted in three phases: (1) the administration of a closed-ended questionnaire to 105 mourners in the waiting line for mediumistic sessions; (2) the administration of semi-structured questionnaires to the medium and six collaborators; (3) the administration of open-ended questionnaires to 12 mourners who received evidential messages. The quantitative analysis used descriptive and inferential statistics, while the qualitative analysis followed the Content Analysis technique.
Results: The evidential mediumistic messages contributed to emotional relief and a sense of reconnection with the deceased loved ones, despite the initial discomfort in the waiting line. The perception of the medium and collaborators regarding the event's impact was positive, although the unpredictability of the messages limits the adoption of this practice as a structured therapy.
Conclusion: Mediumistic sessions can play an important role in the adaptation of individuals with prolonged grief, offering spiritual comfort and promoting the re-signification of loss, highlighting the importance of integrating clinical and spiritual support.
Keywords
Prolonged grief disorder; Mental Health; Spirituality; Mediumship; Psychic phenomena
Introdução
No contexto brasileiro, o luto parental tem sido progressivamente silenciado, com o século XX marcando um ponto de inflexão nesse comportamento social (Mello et al., 2021, p. 72), dificultando a plena expressão dos sentimentos. Essa barreira torna o enfrentamento da morte ainda mais desafiador, devido ao estigma associado (Rodrigues et al., 2024, p. 1.411). A tentativa de normatizar como o enlutado deve manifestar ou reprimir seu sofrimento, somada à pressão externa e fatores internos, como entorpecimento, anseio e desespero (Bowlby, 1982, p. 125-137; Fukumitsu, 2018, p. 207), pode agravar o processo de luto e contribuir para transtornos emocionais prolongados.
A perda e o luto são aspectos complexos de transição, ligados à dinâmica familiar, à natureza da morte e às crenças e valores individuais. Essas variáveis interagem, moldando as formas de lidar com a ausência e ressaltando a singularidade de cada processo, o que demanda abordagens personalizadas no apoio aos enlutados (Sequeira; Sampaio, 2020, p. 131-132). Isso é refletido na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, 11ª revisão (CID-11), que, apesar das discordâncias de alguns profissionais da Saúde Mental (SM), classifica o luto prolongado como uma condição patológica (WHO, 2023, s.p).
O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed. (DSM-5), classifica o luto complicado como uma condição clínica que exige cuidado devido à sua associação com sintomas significativos para a psique. Na versão revisada, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR), o enlutamento por morte recebe um novo diagnóstico, o transtorno de luto prolongado (TLP), distinguindo-se do luto natural pelas intensas respostas emocionais, pela longa duração do sofrimento e pelos efeitos deletérios na mente e no corpo (APA, 2022, s.p). Antes disso, a American Psychiatric Association (APA) apenas aventava a possibilidade de o luto se tornar um transtorno e requisitava pesquisas para melhor compreendê-lo.
No luto, a perspectiva multifatorial é essencial, pois, além da dor da perda, a reestruturação emocional do enlutado envolve buscar por significado e compreender a vida diante da morte (Franco, 2021, p. 24). A literatura tem explorado como os enlutados enfrentam a ausência e preservam a memória dos entes queridos, ressaltando a espiritualidade como um fator crucial na ressignificação do luto (Rigão et al., 2024, p. 329). Dentre as várias interpretações de “espiritualidade”, destaca-se a religião, que pode oferecer explicações sobre o pós-morte, proporcionando um alicerce significativo para a vivência do sagrado (Koenig, 2015, p. 20).
O Espiritismo propõe uma visão da morte como uma transição para uma nova etapa existencial, não como um fim. Para Kardec (2009, p. 9), a cessação das atividades biológicas no plano material representa uma fase evolutiva da alma, que continua seu aprendizado no plano espiritual. Nesse contexto, os enlutados têm buscado diversas terapias alternativas para aliviar a dor da perda, destacando-se, no âmbito da espiritualidade religiosa, práticas como a escrita e a mensagem verbal mediúnica, vinculadas à Doutrina Espírita.
Kardec (2006, p. 36) define “psicografia” como o registro, escrito por médiuns, de comunicações de entes falecidos. Na ausência de um termo consolidado para a mensagem verbalizada não psicofônica – na qual o médium descreve ao enlutado o que relata escutar ou visualizar –, esta pesquisa adota o termo “evidencial”. Um estudo recente constatou que a psicografia pode atenuar sintomas do TLP, no entanto, sua imprevisibilidade impede a adoção terapêutica (Hott; Reinaldo, 2020, p. 19). Ainda assim, é essencial que profissionais de SM respeitem essa busca como uma forma legítima de enfrentamento do luto.
Psicografias e mensagens evidenciais são frequentemente transmitidas durante sessões mediúnicas voltadas ao amparo dos enlutados, oferecendo consolo por meio de informações atribuídas aos entes falecidos. No entanto, o foco desta pesquisa não recai sobre a psicografia em si, mas no processo que a antecede, em que o enlutado estabelece uma conexão direta com o médium, possibilitando o contato espiritual e a comunicação de mensagens evidenciais. Para garantir a eficácia desse processo, é essencial um planejamento rigoroso, que considere as condições emocionais, físicas, sociais e espirituais dos participantes, assim como a atuação do médium e da equipe responsável pela condução da sessão.
A lacuna que esta pesquisa visa suprir diz respeito à escassez de estudos que abordam a mediunidade como uma potencial forma de consolo para os enlutados. Embora a demanda por sessões mediúnicas tenha experimentado um aumento considerável, persiste uma carência substancial de investigações que explorem a relação entre tais experiências e a ressignificação da perda pela morte. O objetivo deste estudo foi analisar se as sessões mediúnicas influenciam o processo de luto, com ênfase nas mensagens evidenciais, além de investigar as percepções dos enlutados, do médium e dos colaboradores envolvidos no evento.
Este estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar a compreensão das dimensões biopsicossociais associadas ao TLP, além de oferecer novas perspectivas para profissionais de SM que lidam com enlutados. Ao proporcionar uma reflexão acadêmica sobre saúde, espiritualidade e o papel da mediunidade, esta pesquisa visa expandir o conhecimento sobre a relevância dessas abordagens no enfrentamento da perda.
Em busca do elo perdido: o luto e suas barreiras (extra)físicas
O luto é um processo complexo que afeta a saúde do sobrevivente de maneira multifacetada (Oliveira et al., 2024, p. 7). A perda de um ente querido desencadeia reações intensas, desde a dor emocional aguda até o vazio existencial crônico, gerando desafios (Closs-Boeff; Scherer-Casagrande, 2023, p. 141). O estado de enlutamento é único e irreversível, sendo impossível reconstruir o universo vivido (Bousso, 2011, p. vii), exigindo transformação na relação com a pessoa perdida e demandando a ressignificação da ausência (Freitas, 2013, p. 103).
A adaptação à morte, psiquicamente, requer encontrar renovação nas acepções da vida (Santos et al., 2014, p. 85). Para aqueles com TLP, a conciliação da dualidade “morte e vida” pode ser difícil de alcançar por meios convencionais, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Uma pesquisa sobre promoção da saúde no luto revelou que os profissionais da TCC enfrentam impasses devido aos intricamentos do enlutamento (Luna; Silva, 2021, p. 213).
O DSM-5-TR orienta intervenções em SM, especialmente no TLP. Sua inclusão na seção II evidencia a complexidade do fenômeno, com critérios diagnósticos que consideram a intensidade da dor emocional e a dificuldade em aceitar a perda (APA, 2022, s.p.). Apesar de representar um avanço, a categorização pode patologizar reações naturais em contextos culturais, desafiando a prática clínica e exigindo abordagens que respeitem a diversidade das vivências (Neto et al., 2024, p. 648).
A CID-11 também aprimorou sua abordagem ao luto, reconhecendo o prolongamento do estado de enlutamento como transtorno mental na categoria 6B42 (WHO, 2023, s.p.). Ambas as classificações conferem legitimidade ao sofrimento dos enlutados, mas levantam preocupações quanto à medicalização excessiva do luto, exigindo equilíbrio entre suporte clínico e respeito à diversidade cultural das experiências de perda (Neto et al., 2024, p. 5).
A espiritualidade é fundamental no enfrentamento do luto, oferecendo significados e estratégias adaptadas aos valores culturais. Mesmo sem vínculo religioso específico, ela proporciona conforto e reconstrói o sentido da vida (Koenig, 2012, p. 15). No Brasil, onde a religião é central, a espiritualidade ajuda as famílias a atribuir significado à perda e a lidar com ela (Rigão et al., 2024, p. 329; Franco, 2021, p. 89), associando a morte a forças divinas e possibilitando a transcendência (Portela et al., 2020, p. 74418).
No contexto do TLP, práticas espirituais como a psicografia e as mensagens evidenciais, postuladas pela Doutrina Espírita, surgem como tentativas de confirmar a continuidade do vínculo afetivo com o ente falecido. A psicografia permite receber mensagens escritas, enquanto a mensagem evidencial facilita a comunicação verbal com os espíritos, ambas trazendo consolo ao validar a continuidade da vida no mundo espiritual (Hott, 2024, p. 120).
A crença na continuidade da existência após a morte física e na comunicação com os mortos gera respostas variadas à inevitabilidade da morte (Kardec, 2009, p. 11). As abordagens mediúnicas podem proporcionar conforto, mas também acarretar codependência, criando um ciclo de ansiedade e frustração, uma vez que apenas uma minoria recebe comunicações com os falecidos (Hott, 2024, p. 99). A insistência nessas práticas, somada a longas viagens e esperas prolongadas, pode intensificar o sofrimento sem oferecer um fechamento real, retardando a adaptação e dificultando a busca por novos significados.
As pesquisas sobre a interseção entre SM, TLP, espiritualidade e religiosidade ainda são escassas. Embora o interesse pelo impacto das atividades mediúnicas no alívio do luto esteja crescendo, segmentos espíritas resistem à investigação científica, temendo explicações reducionistas das experiências espirituais. Essa resistência reflete a histórica tensão entre ciência e religião (Rio; Nascimento, 2023, p. 570). É fundamental promover o diálogo entre esses saberes, ampliando a compreensão sobre o impacto das práticas mediúnicas no luto e reconhecendo a importância de integrar as dimensões emocionais e espirituais.
Metodologia
O presente estudo adotou uma abordagem metodológica mista, combinando técnicas qualitativas e quantitativas, a fim de obter uma compreensão mais completa e multifacetada do fenômeno do luto. Embora o luto seja uma experiência singular e subjetiva, a aplicação de questionários permitiu capturar tendências e padrões gerais em uma amostra mais ampla. Essa estratégia quantitativa, que utiliza estatísticas para analisar as percepções dos enlutados, complementa e enriquece a análise qualitativa, que se aprofunda na dimensão emocional e simbólica das experiências relatadas. A combinação de métodos, portanto, foi intencional, buscando uma análise que integra a visão estatística com a riqueza das vivências individuais.
A pesquisa foi conduzida em três fases:
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Fase 1: Aplicação de questionário na fila de espera: Nesta fase, um questionário fechado com dez perguntas foi aplicado aos 105 participantes presentes na fila de espera para a sessão mediúnica, selecionados entre 150 convidados. O objetivo foi avaliar o estado físico e emocional dos participantes e suas expectativas em relação ao evento. O questionário buscou informações sobre luto, esperança, ansiedade e confiança nas mensagens mediúnicas. As respostas foram analisadas por meio de medidas descritivas (média, mediana, moda, desvio padrão e intervalo), como ilustrado no Quadro 1.
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Fase 2: Aplicação de questionários ao médium e colaboradores: Na segunda fase, foram aplicados questionários semiabertos ao médium Orlando Noronha Carneiro1 e a seis colaboradores diretamente envolvidos na sessão. O objetivo foi entender os desafios e as expectativas desses indivíduos antes, durante e após o evento, além de investigar as percepções sobre os bastidores da sessão mediúnica. A análise das respostas foi feita por meio de uma escala ordinal (Muito Baixo [1] a Muito Alto [5]), permitindo classificar a intensidade das percepções dos participantes. As respostas foram detalhadas nas Tabelas 1 e 2.
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Fase 3: Aplicação de questionário aos enlutados receptores de mensagens mediúnicas evidenciais: A terceira fase foi direcionada a 12 participantes que receberam mensagens evidenciais atribuídas a entes queridos falecidos. Os participantes foram selecionados com base na autoidentificação com o transtorno do luto persistente (TLP), conforme definição do DSM-5. O questionário semiestruturado coletou dados quantitativos e qualitativos, focando no impacto das comunicações mediúnicas sobre o estado emocional dos participantes. O perfil sociodemográfico dos participantes foi descrito na Tabela 3, e as percepções dos participantes, no Quadro 2.
Distribuição das Respostas e Medidas Descritivas das Expectativas e Percepções dos Participantes na Fila de Espera para Acolhimento e Sessão Mediúnica
Escala Ordinal de Avaliação dos Aspectos Emocionais, Físicos e Espirituais do Médium no Processo de Sessão Mediúnica
Percepções dos Colaboradores sobre as Sessões Mediúnicas: Comparação entre os Anos de 2022 e 2023
Acesso ao campo e caracterização dos participantes
A coleta de dados para esta pesquisa foi conduzida em duas etapas, nos meses de agosto de 2021 e agosto de 2022. O percurso para o acesso ao campo empírico foi particularmente desafiador e requer contextualização para garantir a transparência do estudo. A investigação teve seu início em um centro espírita em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, mas a aprovação inicial foi revogada pela dirigente da instituição, que impôs restrições não previstas. Essa interrupção abrupta, após aproximadamente 12 horas de entrevistas com os enlutados na fila de espera, culminou na perda integral do material de pesquisa.
Diante do imprevisto, o Centro Espírita Scheilla se prontificou a acolher a pesquisa nos eventos subsequentes, por sugestão de trabalhadores reconhecidos na seara espírita e incentivadores de trabalhos acadêmicos. A seleção do médium foi um processo rigoroso, iniciado pelas pesquisadoras em 2017, por meio da prospecção em sessões de psicografia com diversos médiuns. Alguns, ao serem convidados a participar do projeto, impuseram restrições que comprometiam a integridade ética da pesquisa, como a exigência de acesso aos resultados antes da publicação.
A escolha de Orlando Noronha Carneiro se fundamenta justamente em sua total disponibilidade e na ausência de restrições desde o início da colaboração, nos anos de 2017 e 2018. Sua notória reputação como um dos mais respeitados médiuns psicógrafos, com mais de quatro décadas de atuação e orientação direta de Francisco Cândido Xavier2, foi um fator determinante para a sua participação no estudo.
A amostra dos demais participantes do estudo foi delineada conforme os seguintes critérios:
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Enlutados na fila de espera: foram convidados a participar todos os enlutados presentes na fila para a sessão de psicografia.
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Enlutados com mensagens evidenciais: a subamostra foi composta por todos os participantes que receberam uma mensagem mediúnica e se prontificaram a conceder entrevistas detalhadas.
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Colaboradores do centro espírita: os colaboradores foram selecionados por indicação da dirigente do centro, levando-se em consideração sua disponibilidade e seu envolvimento direto na organização e condução do evento.
Análise de dados
Análise quantitativa: Os dados dos questionários fechados foram analisados usando ferramentas estatísticas descritivas e inferenciais. As frequências das respostas foram calculadas e apresentadas em tabelas, com o uso de medidas de tendência central e dispersão (média, mediana, moda, desvio padrão e intervalo). A correlação entre variáveis foi analisada com o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 28.0. Para testar a significância das relações entre variáveis categóricas, foram aplicados os testes de proporção e qui-quadrado (X2).
Análise qualitativa: Seguiu a técnica de Análise de Conteúdo de Bardin (2010). As entrevistas e questionários semiestruturados foram transcritos e categorizados manualmente, com o auxílio do software Non-numerical Unstructured Video Indexer (Nvivo), versão 12. A codificação foi feita por duas pesquisadoras, garantindo confiabilidade através da intercoder reliability. Divergências nas categorias e interpretações foram discutidas e resolvidas, seguindo rigorosamente o processo de verificação da confiabilidade.
O estudo seguiu as diretrizes éticas do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, conforme o Parecer nº 2.419.512. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foram informados de que poderiam se retirar do estudo a qualquer momento. A pesquisa respeitou as diversidades culturais e religiosas dos participantes e garantiu a confidencialidade dos dados, mantendo postura empática durante a coleta de informações sensíveis. Não há conflito de interesse.
Entende-se como limitação do estudo o critério de inclusão baseado na autoidentificação com o TLP, sem avaliação diagnóstica formal, o que pode não refletir a total complexidade do transtorno. Além disso, o ambiente mediúnico e as expectativas dos participantes podem se entrelaçar com suas respostas, introduzindo um viés devido ao estado emocional vulnerável. No entanto, esse contexto acrescentou valor à pesquisa, permitindo uma análise dos impactos emocionais e espirituais no enfrentamento do luto.
Outra limitação importante é que, apesar da relevância dos achados, este estudo se restringe a uma análise detalhada de eventos específicos. Por ter sido conduzido em um único centro espírita com um médium determinado, os resultados não podem ser generalizados para outras práticas mediúnicas ou para o processo de luto em diferentes contextos.
Resultados e Discussão
Fase 1: Participantes na fila de espera da sessão mediúnica
O Quadro 1 – Expectativas e Percepções dos Participantes na Fila de Espera para Acolhimento e Sessão Mediúnica apresenta dez questões avaliadas em uma escala de 0 a 10, sendo 10 o valor que corresponde à maior intensidade. Essa metodologia permitiu a análise das atitudes e sentimentos dos participantes durante o período de espera pelo evento mediúnico. A distribuição das respostas e as medidas descritivas oferecem uma visão de aspectos do processo de luto relacionado à busca por comunicação espiritual, fornecendo informações sobre as vivências emocionais, físicas e as expectativas dos participantes.
A variável sobre o sentimento de luto obteve uma média de 7,62, indicando uma intensidade emocional considerável entre os participantes. A alta frequência de respostas com pontuação máxima (32,4%) e o desvio padrão de 2,47 refletem as variações individuais no processo de luto. A variabilidade emocional do luto, conforme apontado por Freud, Kübler-Ross, Parkes, Bowlby e Worden, é confirmada por estudos recentes (Filho; Lima, 2023, p. 55; Sousa, 2023, p. 291; Santos et al., 2024, p. 2; Fidelix; Mendonça, 2024, p. 5.255).
A média de 7,21 sobre a esperança de receber uma mensagem espiritual reflete a visão significativa dos participantes sobre a comunicação com o plano espiritual, destacando a função psicológica dessa esperança no enfrentamento do luto. Reis e Ribeiro (2024, p. 18) enfatiza a esperança como ferramenta central para lidar com a perda. A busca por uma mensagem espiritual vai além de um desejo, funcionando como alívio emocional e manutenção do vínculo com o falecido, sendo crucial na adaptação ao luto e na redução da sensação de ausência.
O estado de ansiedade relacionado à expectativa de receber uma mensagem espiritual obteve média de 7,37, desvio padrão de 2,55 e intervalo de 10 pontos, indicando altos níveis de inquietação entre os participantes. A mediana de 8 e a moda de 10 reforçam essa tendência para valores elevados de ansiedade. A ansiedade, nesse contexto, é uma emoção transitória e não patológica, surgindo da incerteza de uma situação específica (Andrade et al., 2001, p. 367). A distinção entre "traço" (tendência duradoura) e "estado" (resposta momentânea) é fundamental para entender os resultados (Gama et al., 2008, p. 20).
A média de 9,11 sobre o contentamento caso a mensagem fosse recebida, com 55,2% dos participantes atribuindo a nota máxima, reflete um alto nível de satisfação, indicando que a comunicação mediúnica é vista como uma importante fonte de alívio emocional. Esse dado sugere que, ao atingir esse objetivo, os participantes vivenciam uma experiência significativa, potencializando uma possível ressignificação do luto. O desejo, nesse contexto, desempenha papel essencial ao proporcionar sensação de preenchimento psíquico e bem-estar, como destacado por Breviglieri (2023, p. 2), que ressalta a centralidade do desejo para a satisfação emocional.
A insatisfação pela ausência de uma mensagem foi expressiva, com média de 1,81, indicando que os participantes atribuem valor à comunicação mediúnica no enfrentamento do luto. A falta de resposta gera sensação de incompletude emocional, refletindo o sofrimento pela não realização do desejo, o que, segundo a teoria freudiana, resulta em desconforto psíquico. A dificuldade em se conectar espiritualmente com um ente querido provoca um impacto emocional considerável. Breviglieri (2023, p. 3) sustenta que a frustração de desejos profundos desencadeia um impacto psíquico significativo, corroborando que a ausência de comunicação mediúnica pode ser um fator de sofrimento emocional.
Os resultados indicam uma busca constante por comunicação espiritual, com médias de 7,33 e 7,24, antes e após a recepção de uma mensagem, sugerindo que esse processo é contínuo no luto. No entanto, a busca incessante pode ter aspectos negativos, como a dificuldade de ressignificar a perda. O indivíduo pode se apegar à expectativa de novas mensagens, em vez de processar a dor. Luna (2023, p. 13) aponta que, com o tempo, o apoio emocional dá lugar a um suporte mais pragmático, o que pode sobrecarregar o indivíduo, pressionando-o a deixar o luto antes de concluir o processo emocional.
A comparação dos resultados sobre o conforto emocional e físico durante a espera pela sessão mediúnica revela experiências diversas. O conforto emocional, com média de 6,71 e desvio padrão de 2,81, sugere bem-estar moderado, mas a variação reflete sentimentos contraditórios, como inquietação e reflexão (Sousa; Correa, 2009, p. 133; Taverna; Souza, 2022, p. 51; Santos et al., 2023, p. 295). O conforto físico, com média de 5,14, varia significativamente, com alguns achando a espera aceitável e outros, desconfortável. A espera prolongada, com participantes dormindo na fila, reforça a vivência multifacetada, envolvendo aspectos emocionais, físicos e individuais.
A confiança nas mensagens trazidas pelo médium, com uma média de 9,16 e a predominância de respostas atribuídas à nota máxima (89,5%), demonstra um elevado nível de crença na legitimidade do processo. Esse alto grau de confiança reflete a robustez da crença no fenômeno espiritual como meio de comunicação com os entes queridos falecidos, conferindo à prática mediúnica um valor terapêutico dentro do contexto de luto. Esse resultado corrobora as premissas defendidas por Hott e Reinaldo (2020, p. 20), que destacam o potencial das cartas consoladoras como recurso de enfrentamento da dor e da perda, ainda que imprevisível e não instituído.
Fase 2: Aspectos emocionais, físicos e espirituais do médium
O questionário aplicado ao médium Orlando Noronha Carneiro, representado na Tabela 1, explora questões relacionadas ao processo da sessão mediúnica e suas implicações emocionais, físicas e espirituais. A análise foi realizada com base na Análise de Discurso de Bardin (2010, p. 280), categorizando e atribuindo notas para examinar os aspectos da mediunidade. Essa abordagem permite compreender os fenômenos mediúnicos sob uma perspectiva psicológica, espiritual e social.
A primeira questão evidencia um vínculo emocional com a missão mediúnica, refletindo a reverência a Francisco Cândido Xavier, ícone do espiritismo e natural de Pedro Leopoldo, MG (Lewgoy, 2004, p. 11), e o simbolismo do trabalho em sua terra natal. Isso remete ao "efeito da herança espiritual", conceito que destaca o impacto das tradições espirituais sobre o médium (Ferry, 2012, p. 152). Esse processo fortalece a conexão interpessoal e a identidade mediúnica, consolidando o pertencimento afetivo e estabilizando o propósito de vida do indivíduo (Mathias, 2023, p. 185).
O médium relata que as dificuldades físicas devido ao afastamento de seu ambiente doméstico são mínimas, e os aspectos mentais e emocionais não causam impacto. Essa resposta reflete a resiliência psicológica, a capacidade de enfrentar adversidades e alcançar bem-estar (Brandão; Nascimento, 2019, p. 23). Sua experiência mediúnica permite adaptação, já que o desconforto físico é ligado ao desgaste cognitivo ou emocional (Sczufuca et al., 2002, p. 417; Sousa, 2024, p. 243). Assim, o propósito espiritual da atividade prevalece sobre os desconfortos físicos, orientando suas ações e facilitando o enfrentamento das dificuldades.
O apoio de uma figura próxima, como a esposa, é salientado como essencial para o médium. De acordo com uma recente revisão da literatura, o suporte emocional oferecido por familiares, com ênfase no vínculo conjugal, é fundamental para o bem-estar, desempenhando um papel crucial na mitigação de fatores estressantes da vida comum (Silva; Ponciano, 2022, p. 130). No âmbito da mediunidade, uma investigação recente evidencia que o apoio e a compreensão familiar são considerados elementos fundamentais para o desenvolvimento do processo mediúnico (Scorsolini-Comin; Suzuki, 2021, p. 8).
O médium relata não perceber interferência nas suas necessidades fisiológicas durante a atividade mediúnica, o que pode ser interpretado pela teoria da alteração de estados de consciência, que sugere que o foco na tarefa psicográfica transcende as limitações do corpo físico. Esse fenômeno, que remonta ao final do século XIX, desafia a visão patologizante e considera essas manifestações como reflexos de tendências espirituais latentes, ampliando a compreensão dos fenômenos dissociativos e do funcionamento mental (Miranda, 2016, p. 114). Assim, a experiência do médium se insere na tradição de estudo da mediunidade e suas implicações no comportamento humano e nas alterações da consciência.
Durante a psicografia, o médium mantém suas percepções sensoriais básicas (visão, audição e tato) mesmo com alta concentração, caracterizando uma mediunidade ostensiva (Kardec, 2012, p. 56). Esse fenômeno pode ser explicado pela neurociência, como destaca Benson e Proctor (2010, p. 85), que aponta como a meditação ativa o sistema nervoso parassimpático, equilibrando o corpo enquanto intensifica o foco mental, sem prejudicar as funções sensoriais. Além disso, Miyake e Friedman (2012, p. 15) sugerem que o cérebro pode gerenciar múltiplas tarefas cognitivas ao mesmo tempo, permitindo intensa concentração na psicografia sem afetar as funções sensoriais.
Durante o processo psicográfico, o médium regula suas emoções para garantir clareza na transmissão das mensagens, evitando interferências pessoais. No entanto, após a sessão, ele experimenta um aumento emocional, sugerindo a internalização das experiências. Esse fenômeno pode ser explicado pela empatia, como afirmado por Rogers (1975, p. 101), que destaca a importância de compreender e compartilhar as emoções alheias no contexto terapêutico. Assim, o médium vivencia uma conexão emocional mais profunda com o destinatário, revelando uma dimensão terapêutica no processo mediúnico.
O médium, ao realizar a psicografia, tem altas expectativas quanto ao consolo que pode oferecer, refletindo seu compromisso com a tarefa, alinhado com a teoria das metas de Carver e Scheier (2002, p. 74). No entanto, a imprevisibilidade das manifestações espirituais é central na mediunidade, como descrito por William James (1902, p. 104), que destaca a natureza que frequentemente escapa à lógica convencional. Essa imprevisibilidade também é abordada por Kardec (2010, p. 70), que ressalta a variabilidade das manifestações mediúnicas.
Percepções dos colaboradores sobre as sessões mediúnicas
As respostas dos seis colaboradores, avaliadas por meio da análise do discurso, apresentaram unanimidade nas percepções sobre a organização, logística e impacto das sessões mediúnicas. Dado o fato, optamos por utilizar o modelo de habitus de Bourdieu e Wacquant (1992, p. 102) para discutir os resultados, conforme a Tabela 2. O habitus é um conjunto de disposições adquiridas ao longo da trajetória social e religiosa dos indivíduos, moldando suas percepções e ações dentro de um grupo. A escolha desse referencial teórico se justifica pela coerência nas respostas dos colaboradores, que refletem a internalização de práticas e valores grupal.
A percepção sobre os desafios para a organização do evento variou de alta intensidade em 2022 para média intensidade em 2023, com uma média geral de 3,5. Essa diminuição pode refletir uma maior familiaridade e adaptação com o processo organizacional ao longo do tempo, indicando que os colaboradores adquiriram disposições mais eficazes para lidar com os desafios logísticos.
O receio quanto a falhas organizacionais diminuiu significativamente, passando de média intensidade em 2022 para baixa intensidade em 2023, resultando em uma média geral de 2,5. Isso sugere que, ao longo do tempo, os colaboradores sentiram-se mais confiantes em relação à capacidade organizacional do evento, o que pode ser interpretado como uma internalização de práticas mais eficientes e uma maior confiança nas estratégias de planejamento.
A percepção sobre a repercussão do evento antes de sua realização permaneceu alta tanto em 2022 quanto em 2023, com uma média geral de 4. Essa estabilidade indica uma consistência nas expectativas dos colaboradores sobre o impacto do evento, o que é reforçado pelo habitus, já que o grupo parece ter internalizado a importância e o significado desses eventos para a comunidade.
A expectativa quanto à repercussão após o evento se manteve muito alta nos dois anos, com uma média geral de 5. Esse dado demonstra que os colaboradores têm uma forte confiança nos resultados e no impacto positivo das sessões mediúnicas, refletindo uma disposição coletiva voltada para um resultado positivo, provavelmente internalizada ao longo das experiências anteriores.
A percepção sobre o atendimento às necessidades dos enlutados evoluiu de média em 2022 para alta em 2023, com uma média geral de 3,5. Essa melhoria pode ser explicada pelo aprimoramento das práticas e do apoio oferecido ao longo do tempo, evidenciando um ajuste nas disposições dos colaboradores para atender de maneira mais eficaz às necessidades emocionais e físicas dos participantes.
A expectativa em relação ao consolo proporcionado aos enlutados permaneceu alta nos dois anos, com uma média geral de 4. Esse dado revela a continuidade da esperança dos colaboradores no impacto espiritual e emocional das sessões mediúnicas, uma vez que o habitus molda uma expectativa coletiva, reforçando a confiança na eficácia do evento.
O reconhecimento das capacidades mediúnicas do intermediário manteve-se muito alta em ambos os anos, com uma média geral de 5. A constância dessa percepção sugere que os colaboradores atribuem um elevado grau de credibilidade e legitimidade às capacidades mediúnicas, o que pode ser explicado pela internalização de normas e práticas religiosas do grupo.
A percepção sobre a presença da pesquisa científica no contexto religioso permaneceu alta em 2022 e 2023, com uma média geral de 4. Isso indica que os colaboradores reconhecem a importância da pesquisa científica como ferramenta para legitimar e apoiar as práticas mediúnicas, o que reforça a integração entre ciência e religiosidade, refletindo as disposições do habitus no campo religioso.
A ausência de associação significativa entre as percepções de 2022 e 2023, com p-valor de 0,9995 e estatística X² de 0,47, pode ser atribuída à permanência das disposições culturais e sociais no grupo ao longo do tempo. O habitus molda as percepções e práticas dos colaboradores de forma consistente. As percepções sobre organização, expectativas e reconhecimento das capacidades mediúnicas não mudaram substancialmente, refletindo estabilidade nas respostas. A continuidade das práticas religiosas contribuiu para a constância nas opiniões.
Fase 3: Enlutados destinatários de mensagens mediúnicas evidenciais
A Tabela 3 apresenta a análise do perfil sociodemográfico dos participantes, incluindo variáveis como sexo, idade, escolaridade, localidade, vertente religiosa, tempo de luto, parentesco com o falecido, idade do falecido e causa do falecimento.
A maioria dos participantes é do sexo feminino (75,00%), o que reflete uma tendência cultural, com mulheres mais envolvidas nos processos de luto e apoio emocional. Um estudo mostrou que as mulheres experimentam o luto com maior intensidade, apresentando altas pontuações na dimensão "Dificuldades de Separação" (Sepulcro et al., 2024, p. 77). Em contraste, os homens evitam o sofrimento, enquanto as mulheres buscam mais apoio e enfrentam o luto com menos negação da morte (Santos et al., 2023, p. 12).
A faixa etária predominante entre os participantes é de 38 a 47 anos (33,33%), sugerindo que indivíduos dessa fase enfrentam perdas significativas, como a morte dos pais, que marca o fim de uma etapa importante da infância e adolescência. A perda de um filho interrompe o ideal de um futuro compartilhado e cria uma ruptura nos projetos familiares (Zimerman, 2010, p. 115).
A amostra revela uma prevalência significativa de participantes com nível superior (58,33%), sugerindo que indivíduos mais escolarizados podem buscar explicações mais racionais ou introspectivas para suas experiências de perda. Estudos, como o de Queluz et al. (2022, p. 5), mostram que 42% dos enlutados com ensino superior lidam com o luto de forma distinta, indicando a influência da educação formal nesse processo.
A diversidade geográfica dos participantes (50% em Belo Horizonte/MG, 25% em Pedro Leopoldo/MG e 25% em outros estados) amplia a representatividade e reflete a heterogeneidade cultural e social dos enlutados. O fator geográfico pode influenciar as formas de enfrentamento, redes de apoio e práticas culturais relacionadas à morte, já que diferentes regiões têm abordagens distintas sobre a perda (Rosenblatt, 2008, p. 111). A inclusão de enlutados de várias localidades enriquece a análise do luto no Brasil.
A maioria dos enlutados segue a fé católica (58,33%), seguida pelo espiritismo (25,00%) e pelo evangelicalismo (16,67%), refletindo diferentes influências no processo de luto e crenças sobre a vida após a morte. A presença de indivíduos sem religião (8,33%) também indica diversidade de visões espirituais. Apenas os espíritas acreditam na comunicabilidade dos espíritos, conforme Kardec (2010, p. 38), sugerindo que outras religiões podem não oferecer consolo ou clareza sobre o destino do ente querido após a morte.
Em relação ao tempo de luto, os dados evidenciam uma distribuição equilibrada entre os participantes que vivenciaram a perda nos últimos 1 a 5 anos (66,66%) e aqueles com períodos de luto mais prolongados, de 6 a 20 anos (33,33%). Essa diversidade no tempo de luto sugere que o fator temporal por si só não é determinante para o desenvolvimento de mecanismos de adaptação à perda, uma vez que o processo de luto envolve tanto o tempo que se tem para lidar com a dor quanto o tempo já transcorrido desde a perda (Mendes; Tavares, 2019, p.28).
A diversidade no parentesco dos participantes é notável, com a maioria sendo filhos do falecido (33,33%), seguidos por mães (25,00%) e pais (16,67%). A inclusão de cônjuges e avós reforça a ideia de que o luto é uma experiência única, dependendo do vínculo e da configuração familiar. Isso desafia a ideia de que a dor da perda é mais intensa entre pais e filhos, como enfatizado por Bowlby (1982, p. 57), que destaca que a qualidade da relação afetiva influencia a experiência do luto, independentemente do parentesco.
A análise da idade dos falecidos revela uma concentração significativa em faixas etárias mais jovens, com 25% entre 31 e 40 anos e 16,67% entre 41 e 50 anos, refletindo a perda de indivíduos em idades produtivas. A morte de crianças e jovens (0 a 10 anos) (16,67%) resulta em um luto de grande intensidade emocional devido à perda precoce. Worden (2009, p. 147) aponta que o luto pela morte de jovens é particularmente profundo, pela interrupção de projetos de vida e a perda de expectativas futuras.
A análise da causa do falecimento revela que a maioria das mortes ocorreu por doença (66,67%), comum em lutos "naturais". Contudo, também houve registros de acidentes (25,00%), homicídios (8,33%) e autoextermínio (8,33%), frequentemente associados ao TLP. Prigerson et al. (2009, p. 160) destacam que, embora causas traumáticas sejam gatilhos para o TLP, esse transtorno pode surgir independentemente da natureza da morte, pois o impacto emocional é central em todo processo de luto.
Enlutados durante o acolhimento com o médium
A análise dos dados coletados de 12 enlutados durante o acolhimento com o médium visa explorar as percepções dos participantes acerca das manifestações espirituais e seus impactos emocionais. As respostas foram organizadas em três categorias principais: o que ocorreu durante o acolhimento, a autenticidade das manifestações espirituais e as respostas emocionais em relação ao ocorrido e ao processo de luto, totalizando quatro perguntas, conforme Quadro 2.
A maioria dos participantes (75%) relatou que o médium trouxe informações diretamente do ente querido falecido, atendendo às suas expectativas. Isso reflete a teoria do apego de Bowlby (1982), que sugere que a perda gera um rompimento emocional profundo, levando os enlutados a buscar reconectar-se com o vínculo perdido. Nesse contexto, o médium facilita esse tipo de reconexão espiritual, ajudando os enlutados a lidar com a dor da perda e a encontrar conforto emocional.
Parte dos participantes (16,67%) mencionou que o médium trouxe informações de outro ente querido, mas também fez referência ao desejado, enquanto 8,33% relataram que o médium trouxe informações sobre um ente querido sem mencionar o desejado. A imprevisibilidade da comunicação mediúnica é explicada pela teoria de Kardec (2010), que destaca a influência de fatores como o médium, o espírito e as condições emocionais dos participantes, resultando em respostas nem sempre alinhadas às expectativas do enlutado.
Alguns participantes (16,67%) relataram que o médium trouxe informações de outro ente querido, enquanto 8,33% não receberam referências ao ente desejado. A imprevisibilidade da comunicação mediúnica, explicada por Kardec (2010), reflete a variabilidade das experiências, influenciada por fatores como o médium, o espírito e as condições emocionais dos participantes.
A maioria dos participantes (91,67%) relatou vivências intensas, como emoção e êxtase, o que pode ser explicado pela teoria de Maslow (1970), que vê experiências transcendentes, como a comunicação mediúnica, como um meio de autorrealização e fortalecimento do senso de continuidade. A análise estatística (p = 0,0039) confirma o impacto emocional significativo da experiência, aliviando a dor do luto e proporcionando renovação espiritual, alinhando-se com a autorrealização e transcendência em Maslow.
Quanto aos sentimentos relacionados ao luto, 91,67% dos enlutados indicaram alívio, conforto e mudanças positivas na percepção da dor, como consequências do acolhimento mediúnico. A experiência mediúnica facilita o enfrentamento do luto, proporcionando consolo momentâneo e uma reinterpretação duradoura da perda. A teoria de Neimeyer (2001) sobre a reconstrução do significado no luto sugere que a prática mediúnica ajuda os enlutados a encontrar um novo significado para sua dor e a ressignificar a perda de maneira positiva.
A alta taxa de validação e o impacto positivo nos sentimentos de alívio e confiança na vida após a morte indicam que o acolhimento mediúnico oferece uma dimensão terapêutica significativa, auxiliando na adaptação emocional à perda. Isso reforça a importância da continuidade espiritual e do apoio psicoterapêutico, como abordado por Bowlby (1982), para promover maior resiliência no luto. A experiência de transformação emocional nos participantes valida o papel terapêutico da comunicação mediúnica no enfrentamento da perda.
Conclusão
Este estudo apresentou uma análise aprofundada sobre o impacto das sessões mediúnicas nos processos de luto, explorando as complexas interações humanas e espirituais que ocorrem nesse contexto. Ao longo das três fases da pesquisa, foi possível compreender as dimensões biopsicossociais dos enlutados, abrangendo também o médium e seus colaboradores.
A análise do comportamento dos enlutados na fila das sessões mediúnicas revelou o desconforto físico e emocional com o qual eles se apresentam. A ansiedade, o desejo de obter respostas e o anseio por alívio para a dor estão presentes nesse momento. No entanto, é importante destacar que, apesar dessa sensação inicial de desconforto, muitos enlutados reconhecem que, ao longo do processo, há uma compensação espiritual, gerando um espaço para a reflexão e compreensão da perda.
O médium desempenha um papel crucial, não apenas como canal de comunicação, mas também influenciado por sua vivência e pelas dinâmicas subjetivas do fenômeno. Os colaboradores refletem o habitus coletivo, formado por crenças e práticas compartilhadas, que os leva a atuar de forma empática no processo de luto e espiritualidade. Com o tempo, essa sensibilidade aumentada contribui para um acolhimento mais eficaz e uma compreensão mais profunda das necessidades dos enlutados.
O estudo revelou que aspectos sociodemográficos, como idade, gênero e crenças pessoais, influenciam a experiência dos enlutados nas sessões mediúnicas. As mensagens espirituais, embora variáveis em clareza e profundidade, têm um papel terapêutico significativo, auxiliando na adaptação emocional à perda. Apesar da imprevisibilidade das comunicações, a maioria dos enlutados relatou benefícios emocionais, como alívio e reconexão com os falecidos, além de uma melhoria nos sentimentos negativos com o tempo.
Finalmente, os resultados deste estudo indicam que as sessões mediúnicas, embora não possam ser consideradas como uma terapia formal ou estruturada, oferecem uma ferramenta importante para o enfrentamento do luto, ao permitir que os enlutados reconfigurem o significado da perda. A natureza imprevisível dessas comunicações não desqualifica o impacto terapêutico que elas podem ter, funcionando como um espaço de consolo espiritual que favorece a adaptação emocional dos envolvidos.
Diante dos achados, é crucial adotar uma abordagem abrangente sobre o luto, reconhecendo não apenas sua capacidade de desestabilizar emocionalmente, mas também seu potencial de ressignificação. O luto é um processo dinâmico, e os profissionais de SM devem compreender o papel da espiritualidade na adaptação emocional. A escuta empática e intervenções terapêuticas fundamentadas podem promover formas saudáveis de ressignificação, respeitando as crenças e necessidades emocionais dos enlutados.
Espera-se que os resultados deste estudo contribuam para o desenvolvimento de intervenções psicoterapêuticas mais sensíveis ao papel da espiritualidade em indivíduos com TLP. Os participantes evidenciaram que a busca por contato mediúnico oferece um sentido renovado de conexão e bem-estar, auxiliando no processo de luto. A ampliação das amostras e a continuidade das investigações sobre os efeitos das sessões mediúnicas são essenciais para avançar no conhecimento desse fenômeno humano complexo, assim como a diversificação dos contextos e metodologias de pesquisa.3
Agradecimentos
Ao Grupo Espírita Scheilla, de Pedro Leopoldo-MG, por receber a pesquisa em campo e pela participação direta dos colaboradores da instituição.
Ao Orlando Noronha Carneiro, pela atuação como médium e sua contribuição direta na pesquisa.
A Letícia Ferraro, pelo apoio logístico gentilmente prestado.
Ao Eugênio Eustáquio dos Santos, pelo apoio logístico e pela intermediação de contatos.
Ao Ajenário Teixeira Miranda (in memoriam), pela inspiração do projeto.
Aos enlutados e seus entes queridos (in memoriam), pela participação neste estudo, em um momento tão delicado e singular de suas vidas, o que confere grande valor e sensibilidade a este trabalho.
Notas
-
1
A identificação nominal do médium Orlando Noronha Carneiro foi realizada com seu consentimento expresso, após ele ter sido devidamente informado sobre os objetivos da pesquisa, as condições de participação e os possíveis riscos de exposição. Adicionalmente, consideramos que, devido à natureza pública das sessões de psicografia no Centro Espírita Scheilla, que são amplamente divulgadas na mídia, o anonimato do médium seria inviável. Essa abordagem buscou reforçar a integridade ética do estudo e a transparência em relação ao seu papel central na pesquisa.
-
2
Francisco Cândido Xavier (1910-2002), conhecido como Chico Xavier, foi um dos mais importantes médiuns e expoentes da Doutrina Espírita no Brasil. Sua atuação se deu principalmente por meio da psicografia, deixando um vasto legado de livros e mensagens, sendo uma figura de grande relevância e influência no Movimento Espírita Brasileiro.
-
3
M. C. M. Hott e A. M. dos S. Reinaldo: conceitualização, análise formal, investigação, metodologia, redação, revisão e edição.
Data availability:
Todos os dados da pesquisa estão disponíveis neste texto.
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Editora responsável:
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