Open-access A mística do reformador: a força na fraqueza e a comunhão no conflito

The Mystique of the Reformer: Strength in Weakness and Communion in Conflict

RESUMO

O artigo reflete sobre o significado do gesto do Papa Francisco de rezar no túmulo de Pio X em estado de convalescência e desvestido dos trajes papais no final de sua existência. A reflexão rejeita a interpretação de um gesto casual e assume hipótese da intencionalidade do Papa de expor o confronto entre os símbolos da fraqueza e da força, do conflito e da comunhão. Fraqueza e força podem ser encarnadas pelos respectivos pontífices e seus projetos eclesiais de reforma e preservação. Ao mesmo tempo entende a visita como reveladora do significado do diálogo que supera os isolamentos e as prepotências que caracterizaram os opositores de seu pontificado. Esses significados inferidos do gesto podem representar, simbolicamente, o que Francisco assumiu como postura e ensinamento ao longo de seu pontificado reformador.

PALAVRAS-CHAVE
Fraqueza; Pio X; Reforma; Segurança; Tradicionalismo

ABSTRACT

This article reflects on the meaning of Pope Francis’ gesture of praying at the tomb of Pius X, who was convalescing and taking off his papal robes at the end of his life. The reflection rejects the interpretation of a casual gesture and assumes the hypothesis of the Pope’s intention to expose the confrontation between the symbols of weakness and strength, of conflict and communion. Weakness and strength can be embodied by the respective pontiffs and their ecclesiastical projects of reform and preservation. At the same time, it understands the visit as revealing the meaning of dialogue that overcomes the isolation and arrogance that characterized the opponents of his pontificate. These meanings inferred from the gesture can symbolically represent what Francis assumed as a stance and teaching throughout his reforming pontificate.

KEYWORDS
Weakness; Pius X; Reform; Security; Traditionalism

Introdução

As reformas projetadas e realizadas pelo Papa Francisco foram recepcionadas com entusiasmo pelos adeptos da renovação eclesial e como perigo de heterodoxia pelos católicos tradicionalistas. Os primeiros recebiam cada postura, discurso e ato reformadores com otimismo e pressa, muitas vezes frustrando-se com as defasagens entre os discursos e as realizações da parte do pontífice. Os tradicionalistas denunciavam as reformas ditas e feitas como rupturas com as autênticas tradição e doutrina católicas e cerraram fileiras contra o pontificado e a própria pessoa de Francisco. O Papa assumidamente reformador levou adiante seus propósitos, com a calma própria do discernimento permanente das situações conflitivas e com a convicção de que toda reforma se concretiza somente a partir do desencadeamento de processos e não de gestos de poder que buscam implantar sistemas hegemônicos de verdade por meios legais. Nessa perspectiva, Francisco não teve medo de frustrar os reformadores e nem de se opor aos conservadores que negam toda mudança como ilegítima. Nos doze anos de trabalho intenso e inovador executou com paciência e coragem seus propósitos e dialogou com as diferenças, tanto de dentro quanto de fora da Igreja.

A imagem da construção de pontes foi a marca das reformas projetadas e realizadas. O bispo do fim do mundo não demarcou fronteiras rígidas com suas renovações, embora não tenha jamais se furtado a expor abertamente suas convicções. Não perseguiu seus opositores mais acirrados e sequer adotou crivo ideológico no memento de escolher seus pares para o exercício do episcopado ou para a própria função do cardinalato. Foi de forma exemplar um primus inter pares, no jogo real da unidade-diversidade que compõe todas as instituições. No passo a passo que suporta as demoras foi reformando as várias dimensões da Igreja, professando concretamente que o tempo é superior ao espaço e que a unidade superior ao conflito (EG, n. 222-230). Francisco foi dialogante nas diferenças, foi paciente nas urgências e forte na fraqueza. Preferiu a construção de consensos às decisões impostas por meios legais e adotou o magistério do gesto, antes do magistério oficial. Talvez esse modus operandi ainda não tenha sido compreendido com suficiente clareza por todos os que acompanharam o dia a dia de seu pontificado.

Na política dos gestos por ele praticada, a visita ao túmulo de Pio X mostra-se instigante e reveladora. Qual seria o significado da visita inesperada à sepultura do Papa símbolo da antirreforma, em visível convalescência e desvestidos dos trajes papais? Uma cena pública paradoxal que deixará interrogações para os que não desviaram o olhar de sua imagem incômoda e sem um significado explicitado. Contudo, um aparente enigma pode ser emblemático das posturas de humildade e diálogo que foram as marcas do processo reformador de Francisco. O objetivo da reflexão é demonstrar que o gesto pode ser adotado como uma chave de leitura que ajuda a entender as políticas que acompanharam seu pontificado, entendido como ministério do servo dos servos capaz de construir pontes entre as posturas mais extremas. E pode ainda revelar a espiritualidade da misericórdia que sustentou o reformador durante seu pontificado. A análise parte da cena exposta na mídia oficial (Vatican News, 2025) e busca decodificá-la a partir das categorias oferecidas pelo próprio Francisco em seus documentos. A circularidade entre o gesto e os discursos franciscanos compõem, desse modo, o conjunto do ensaio. O resultado é modesto, mas pode oferecer desvelamentos do que Francisco entendeu a mística e o caminho de seu ministério. Além dessas fontes primárias digitais e escritas, a reflexão conta com apoio de fontes referentes ao tradicionalismo católico, ao processo de reforma conciliar e do pontificado de Francisco.

1 A cena desconcertante ou uma chave de leitura?

No dia 10 de abril uma das últimas cenas de aparição publica foi protagonizada pelo Papa Francisco que se encontrava em repouso absoluto na Casa Santa Marta, após mais de um mês de internação. Nesta fase de convalescência, aparições de surpresa aconteceram, inclusive a última às vésperas de sua morte quando circulou pela Praça de São Pedro e abençoou os fiéis. Mas a aparição do dia 10 entrará para a história como a mais desconcertante. A surpresa não era somente pela aparição não programada, mas pelo modo como apareceu: vestido com trajes simples de uso íntimo. Jamais seria esperado um Papa se apresentar ao público, permitir ser abordado, tocado e fotografado vestido daquela forma. A cena foi tão desconcertante que o Site oficial do Vaticano, Vatican News (2025), notificou o fato da aparição inesperada, sem, contudo, fazer referência ao traje escolhido pelo Papa para fazer a visita ao túmulo de Pio X. Um traje ultrajante (que passa dos limites) para rezar justamente na sepultura do Santo adotado como patrono pelos conservadores católicos, contrários declarados às reformas e ao próprio Papa Francisco. O referido Site sequer publicou na matéria (Papa visita Basílica de São Pedro para rezar no túmulo de São Pio X) a foto seguramente autorizada pelo Pontífice: o papa desnudado de suas vestes oficiais e exibindo sua imagem um tanto desfigurada pela enfermidade. De fato, o autor da matéria adotou a regra da comunicação institucional: notificar a normalidade dos fatos, das cenas e dos pronunciamentos oficiais. Fora do normal era apenas a aparição inesperada e, até mesmo, Pio X foi logo incluído entre as devoções de Francisco, fato real, mas pouco conhecido e divulgado ao longo do pontificado. Ainda que se possa afirmar uma relação devocional de Bergoglio com São Pio X, o fato é que, verificando ao menos suas Encíclicas e a Exortações Apostólicas, não se encontra nenhuma referência sobre o magistério de Pio X. Em outros termos, não se verifica relação de continuidade entre os dois magistérios papais. A devoção de Francisco se inscreve, por certo, em outra dimensão da vida eclesial, aquela da longa tradição quando passado e presente se entrelaçam em uma unidade fundamental (Congar, 2025) e a da espiritualidade do processo que inclui na mesma comunhão possíveis divergências. A relação com Pio X estaria, assim, localizada certamente no âmbito da devoção, sem aderência às ideias daquele pontífice marcadamente temeroso da modernidade dentro e fora da Igreja.

Com efeito, a opção devocional não elimina o caráter paradoxal da visita; ao contrário, evidencia uma das hipóteses da reflexão que expõe a capacidade de Francisco de se relacionar e construir pontes entre margens consideradas opostas. De toda forma estamos diante de uma cena inédita que fala pelos gestos e pelos personagens em si mesmos e tornam certas interrogações inevitáveis. Qual seria o significado da visita em plena convalescência com repouso imposto pelos médicos? Por que teria optado por aparecer publicamente pela primeira e única vez em seu pontificado sem as vestimentas papais? Por que permitiu que as imagens fossem registradas e divulgadas? Partindo do princípio de que nas regras da agenda papal não há improviso que não seja por ele deliberado, bem como imagens e cenas casuais, restam legítimas as interrogações sobre o que a cena pouco convencional representou ou quis dizer.

É forçoso observar ainda que Francisco não foi rezar perante o tumulo de São Pedro, o primeiro papa na tradição católica. Não foi também perante o corpo de João XXIII exposto dentro da Basílica, ou no tumulo de Paulo VI que conduziram o Vaticano II e que estariam, portanto, entre os personagens inspiradores imediatos de suas reformas. Foi ao túmulo de Pio X, o papa antimoderno que foi adotado como patrono dos tradicionalistas que rejeitaram as reformas conciliares e, por conseguinte, as reformas conduzidas por Francisco. A Fraternidade São Pio X (2019) foi a instituição que, sob a proteção de Papa homônimo, agregou de modo oficial e ativo os sujeitos eclesiais que rejeitaram as renovações conciliares e tornou-se o epicentro da ruptura com a Igreja desde o fim do Concilio, sendo considerada cismática e dando muitas vezes abrigo para a tese da sede vacante que voltou a ganhar força na boca de outros sujeitos de fora da Fraternidade como antidoto das reformas de Francisco. O contraste entre os dois Papas é, de fato, inevitável, razão pela qual a cena desperta interrogações.

Tendo em vista a cosmovisão e a práxis de Francisco, seria irracional tratar aquela visita como rotineira, como coincidência ou como banalidade. Ao contrário, o Papa convalescente após grave enfermidade escolheu deliberadamente permanecer na função e encontrava-se em pleno juízo no exercício de seu ministério. Jamais haveria protagonizado tal cena sem pensar na força simbólica da decisão sobre o conteúdo e a forma que ali seriam transmitidos ao mundo pelos múltiplos meios de comunicação. Um Papa improvisa sabendo precisamente o que quer, sobretudo quando se trata de uma performance pública, o que permite afirmar que quem foi rezar no túmulo de Pio X foi o Papa Francisco e não Bergoglio desvestido dos trajes papais e surpreendido por fotógrafos penetras em um gesto íntimo de devoção pessoal.

Uma constatação se mostra inevitável: o gesto surpreendente então comunicado foi pensado e realizado pelo Papa, certamente como algo importante para ele mesmo, mas, ao mesmo tempo, como um recado a ser dado a determinado público. Como Francisco não revelou o significado de sua opção, resta somente como provocante e legitimo aventar hipóteses que arrisquem explicações. As hipóteses que orientam as reflexões podem ser explicitadas como: 1ª) A cena protagonizada no final do pontificado possui um significado deliberado que confronta duas visões sobre a Igreja; 2ª) A performance desconcertante pode comunicar o significado do despojamento e da fraqueza perante a segurança e a força; 3ª) A cena revela também o papa que surpreende como construtor de pontes entre projetos e ideias diferentes de Igreja; 4ª) Francisco adotou a mística da fraqueza em seu modo de pensar e agir como postura que inverte a lógica do poder exercido pela força. Em suma, embora a visita seja um gesto inédito e desconcertante, traduz com força simbólica chocante o que, na verdade, caracterizou as convicções e posturas de Francisco durante as reformas em seu ministério como servo dos servos.

2 O reformador e o antirreformador

As reformas e a personalidade do Papa Francisco estão inseridas em uma temporalidade e em uma complexidade maiores que se referem às relações entre a longa tradição católica e as mudanças modernas. O propósito de aggiornamento da Igreja realizado e desencadeado pelo Vaticano II tem como motivação, pano de fundo e desafio, essa dinâmica de atualização eclesial. As reformas assumidas, realizadas e projetadas por Francisco estão inseridas nesse processo que avança por mais de meio século. Pode-se afirmar que o Papa do fim do mundo recolocou a Igreja na rota do aggiornamento conciliar, reafirmando o duplo movimento do método fundamental do Concílio: a volta às fontes e o diálogo com a realidade presente (Küng, 1999, p. 131-132). A Igreja em saída (EG, n. 20) assenta-se sobre o “coração do Evangelho” e sobre o avanço para as “periferias humanas”, porém, agora como um movimento inseparável em que as fontes evangélicas coincidem com a experiência do mesmo Cristo vivo presente na carne dos que sofrem. A partir desse mistério encarnatório a Igreja renova-se permanentemente. A concepção da Igreja em saída rompe com aquela da Igreja autocentrada que existe para si mesma e se apresenta como portadora de uma verdade que dispensa o diálogo com as realidades presentes (Passos, 2018, p. 71-80). É dentro dessa percepção que adquirem sentido a personalidade de Francisco, seus gestos e ensinamentos. Trata-se do Papa em permanente saída, servo dos servos e em permanente diálogo com as diferenças que compõem a sociedade atual.

a) A figura do Papa Pio X

O Papa Pio X ocupa um lugar significativo no processo tenso de relação entre a Igreja Católica e o processo de modernização da sociedade ocidental que vai abalando o sistema católico em todas as suas dimensões. Seu predecessor, Pio IX, havia protagonizado o enfrentamento mais duro contra os tempos modernos com sua Encíclica Quanta cura (1864). Lançara um veredicto final contra a era que colocava em xeque a velha tradição que embasara o catolicismo e o velho regime. Essa espécie de solução final que, desde o Vaticano I, contava com a retaguarda indireta/direta da infalibilidade papal, não havia conseguido controlar as seduções e impactos das ideias modernas dentro da própria Igreja. Se as condenações às revoluções modernas já haviam sido concluídas por Pio IX, restava, para Pio X planejar a batalha contra as tendências e os defensores da modernização da Igreja (os modernistas). A postura antimoderna que reagia ao que era considerado como anticatólico e anticristão torna-se então postura antirreformadora. O sistema de verdade católico constitui, então, uma autorreferência que dispensa e renega qualquer influência do pensamento e da práxis modernos em seu interior. Os intentos de modernização da Igreja constituem a partir de então heresias que devem ser combatidas com todo o empenho da hierarquia eclesial (Vilanova, 1992, p. 643-648).

As posições antimodernistas adotadas por Pio X foram explicitadas no Decreto Lamentabili Sane Exitu (1907), na Encíclica Pascendi Dominici Gregis de 1907 e no Juramento antimoderno (Juramento de fé) de 1910. A partir desses marcos regulatórios, as posturas e ensinamentos antimodernistas tornaram sua marca principal, embora não possam ser entendidas como sinônimo de seu magistério como um todo. Contudo, aqueles que rejeitaram as renovações conciliares adotaram São Pio X como patrono, portanto como fonte de ensinamentos que serviram de munição contra as decisões conciliares e, em última instância como autoridade de um grupo que será declarado cismático. A conhecida Fraternidade São Pio X, fundada pelo Bispo francês Marcel Lefebvre em 1970 constitui o caso emblemático dessa apropriação – devida ou não? – do Papa que testemunhou o início da primeira grande convulsão mundial dos tempos modernos que culminou na grande guerra (Caldeira, 2015). A Fraternidade São Pio X tornou-se, de fato, o símbolo mundial das rejeições às renovações conciliares, ao próprio Concílio (Iraburu, 2021) e, por conseguinte, aos Papas eleitos desde então. É preciso reconhecer que não se trata de uma escolha arbitrária por parte dos tradicionalistas conservadores. Ainda que não se possa por razões históricas responsabilizar o Papa da Lombardia-Veneza pelo patronato do grupo anticonciliar, seus ensinamentos contra a modernização da Igreja foram adequadamente adotados como fontes de resistência ao Concilio e seu nome, então reforçado pelo título de Santo, assumido como legitimo patrono do tradicionalismo católico.

Entretanto, vale lembrar que o próprio Papa Francisco manifestou sua admiração por Pio X, ressaltando seu lugar positivo na tradição católica como Papa sensível aos pobres, devoto da eucaristia e mestre da catequese, ao prefaciar livro a ele dedicado (Bonora, 2024). Observa na mesma ocasião que as qualidades de Pio X não permite que esteja “confinado a épocas passadas da história nem monopolizado por grupos particulares, mas pertence à Igreja de hoje, ao povo da Igreja...” (Francisco, 2024, não paginado). Não obstante a confessada admiração, o paradoxo da cena e da própria devoção explicita um traço original do Papa reformador que jamais se deixou confinar em posturas exclusivistas, mesmo quando era pressionado por seus opositores. A afirmada postura de devemos construir pontes e não muros acompanhou, de fato, suas convicções.

b) O Papa antirreformador

Um fato é inegável: o Papa Pio X representa a postura eclesial católica antimoderna e, por conseguinte, autorreferenciada em sua tradição. Diferentemente de seu antecessor (Leão XIII) que acolhia os desafios das coisas novas e orientava os católicos a se inserirem crítica e ativamente na atividade social e política, Pio X se apresentou como defensor intransigente da verdade católica perante a sociedade em transformação. As influências do pensamento moderno de todos os vieses e em várias frentes dentro da Igreja, denominadas modernismo, foram objeto de crítica e condenação por parte do Pontífice. A Encíclica Pascendi Dominici Gregis de 1907, condena o modernismo como um sistema definido como a “síntese de todas as heresias” (1ª Parte). Não se pode, evidentemente, exigir do Pontífice que governou a Igreja entre 1903 a 1914 posturas que foram assimiladas pela Igreja décadas mais tardes. No entanto, suas posturas antimodernas foram a marca de seu pontificado e a referida Encíclica significou a resistência mais intransigente às influências da modernidade dentro da Igreja e, por conseguinte, a afirmação de uma cosmovisão anterior aos tempos modernos (Laboa, 2019, p. 28-49).

Os ensinamentos antimodernos de Pio X têm sido a fonte das frentes, grupos e sujeitos tradicionalistas que rejeitam totalmente ou em parte as renovações conciliares (Haynes, 2025, p. 16-17). Vale lembrar que a Encíclica supracitada dedica um número específico sobre as reformas modernas que ameaçariam a autêntica tradição da Igreja. As posturas dos modernistas reformadores teriam como causas dois vícios: o amor à novidade e o orgulho. O primeiro rejeita o edifício da tradição. O segundo rejeita a verdade objetiva ensinada pela autoridade.

c) O paradoxo da cena

A cena que coloca no mesmo ato Francisco e Pio X, o reformador e o conservador, expõe uma espécie de “dissonância cognitiva” (Aronson, 2023, p. 81-92), ao menos para os que a observam de fora e carregam no imaginário a contraposição entre os processos de rejeição e de diálogo com o tempo presente e, sobretudo, o antagonismo entre conservar e renovar a Igreja. Restará como saída para a contradição admitir que Francisco rendeu-se à antirreforma de Pio X e ali se apresentou despojado de suas próprias vestimentas papais, ou, que optou por oferecer uma cena paradoxal na qual quis comunicar que suas posturas reformadoras não foram rupturas nem mesmo com o seu predecessor antirreformador e patrono de seus opositores, ou por fim, que as reformas inadiáveis da Igreja podem dialogar com a longa tradição e, até mesmo, com paradigmas que no passado foram contra as reformas da Igreja e contra as próprias rupturas operadas pelos tempos modernos.

A contraposição entre símbolos e personagens pró reforma e antirreforma é inegável na cena em foco, mesmo que tenha prevalecido a narrativa disfarçada – que visa diminuir a dissonância — por parte da imprensa oficial do Vaticano ou que Francisco tenha manifestado sua simpatia sobre o Santo catequista. Francisco afirmava que a Igreja devia estar em estado permanente de reforma e deveria passar por uma “reforma inadiável” (EG, n. 27) enquanto Pio X entendia a postura reformadora da Igreja como “delírio”: “Homens católicos, até muitos sacerdotes, afirmaram estas coisas publicamente, e com delírios tais se vangloriam de reformar a Igreja” (1ª Parte). Não deve ser inútil uma observação por demais evidente: estamos diante de dois personagens antagônicos, mas antes, de duas eras eclesiais configuradas por dois projetos de Igreja. A primeira, a era tridentina/Vaticano I com sua visão de estabilidade, unidade, ordem e hierarquia eclesiocêntricas. A segunda, a era do Vaticano II marcada pela renovação eclesial que entende a Igreja como comunhão de iguais, sinal de salvação dentro da história e servidora da humanidade.

O Papa Francisco resgata e aprofunda as renovações conciliares e desta postura fundamental jamais abriu mão. Contudo, de sua parte, a clareza e firmeza na condução deste propósito não configurou uma guerra entre grupos e tendências; ao contrário, a relação com seus opositores – dos quais tinha consciência da existência e estratégias – foi sempre vivenciada como processo conflitivo que se dava dentro do processo histórico que exigia paciência. Repetia como máxima que em todas as mudanças o tempo é superior ao espaço e não poderia haver lutas por poder (EG, n. 222-224).

3 A força na fraqueza

A aparição pública em cadeiras de roda, com cânula de oxigênio e com roupas usadas somente na intimidade expôs a fragilidade do pontífice. Lá estava o homem de carne e osso consumido pela doença com limites de locomoção e de respiração. Uma autêntica exibição do Ecce homo! (Jo 19,5). O homem desfigurado era o contraponto do Habemos papam; a aparição gloriosa versus a aparição dolorosa. O papa desfigurado e sem qualquer disfarce exibia o não-poder do servo dos servos e a força que vem da fraqueza e jamais do poder e da prepotência. Embora a cena seja emblemática, sobretudo por se tratar de um epilogo do pontificado, ela alinha-se às posturas do papa que escolheu como modelo o pobrezinho Franscisco de Assis: a) nos gestos de empatia e solidariedade com os pobres e sofredores que o faziam romper com os protocolos e abraçar os fracos; b) na mística do sofredor que encarna em sua carne os sofrimentos do próprio Cristo; c) na negação do poder como caminho de construção e da afirmação do processo como caminho da espera e da paciência, sabendo que o tempo é superior ao espaço; d) na negação da segurança doutrinal que dispensa o discernimento; e) na opção pela construção do consenso eclesial e rejeição das decisões canônicas; f) na rejeição dos domínios do espaço da Igreja por meio de atitudes autorreferenciadas e centradas na segurança de modelos do passado; g) na negação do clericalismo que se firma na prepotência e transforma o serviço em dominação. A cena com aparente dissonância coroava, portanto, um percurso ministerial como gran finale do seguidor do Santo de Assis (Passos, 2025, p. 70-77, 101-103) que pediu para ser despido na hora da morte.

A pessoa, a práxis e os ensinamentos do Papa do fim do mundo tiveram como marca a negação do poder religioso e a afirmação do serviço, da misericórdia e da ternura (Fernández, 2021). Negar a estratégia do poder que domina o outro é assumir a provisoriedade das coisas e o limite dos projetos almejados. A perspectiva do tempo como superior ao espaço (EG, n. 222-224) afirma o longo prazo que supera as frustrações imediatas. Há um horizonte maior de esperança que não teme nem a fraqueza e nem o fracasso imediato; “Ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de planos que o dinamismo da realidade impõe” (EG, n. 222). A cena do papa desnudo de seus trajes usuais expõe a tensão entre a plenitude e o limite, entre os doze anos de pontificado reformador e os limites encontrados dentro da Igreja pelos refratários às mudanças. Ir ao túmulo de Pio X é abraçar o símbolo maior dos “hostis às mudanças” desvestido de todos os símbolos do poder papal. A fraqueza estampada no papa desfigurado remete para o significado mais profundo da própria fé cristã no crucificado nu à beira da estrada e dos seguidores que repetiram com o Apostolo dos gentios: “Para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder [...]. Pois quando sou fraco é que soa forte” (2Cor 12,9-10). Não será absurdo concluir que o sentido do pontificado reformador se encontra na fraqueza capaz de esperar no tempo de Deus, na paciência histórica e de dialogar com o símbolo mais contundente de rejeição às reformas modernas da Igreja articulado no epicentro de Pio X. Francisco realiza em seu gesto nada além do que havia ensinado sobre a Igreja em saída que renuncia a comodidade da autorreferencialidade e se põe a caminho: “...prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG, n. 49). O gesto final recapitula a programática inicial, ironiza a prepotência e expressa com imagens fortes os dramas do reformador da Igreja.

a) A rejeição da estratégia da força

Ao analisar os mundanismos presentes na Igreja atual (o gnosticismo e o neopelagianismo) que buscam os meios de “dominar a Igreja” Francisco conclui que em qualquer dos casos “não traz o selo de Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado, encerra-se em grupos de elite, não sai realmente à procura dos que andam perdidos nem das multidões sedentas de Cristo” (EG, n. 95).

As reformas franciscanas poderiam ter adotado uma estratégia burocrático-legal onde as decisões são executadas por meio de decretos, dispensando a busca de consensos e adotando uma postura condenatória de seus opositores que desafiaram o magistério papal ao longo do pontificado. Francisco seguiu a mística e o método do processo que coloca o tempo acima do espaço, adotou o caminho mais difícil e, até mesmo, doloroso. A cena de fraqueza e de diálogo com o espaço simbólico do poder coroa o percurso da reforma franciscana como gesto cifrado que deixará interrogações pedagógicas para a posteridade.

b) A condição carnal

A condição carnal define a fé cristã. É na carne do Cristo que a fé cristã se consolidou com sua identidade, distinta e escandalosa para as religiões do mundo antigo, incluindo o judaísmo (Henry, 2014). A cruz é o ato revelador (1Cor 1, 22-23) da condição radical do Deus encarnado que assume a humanidade em sua totalidade até a morte. A fraqueza do divino que se esvazia de si mesmo ao humanizar-se ainda não teve seu lugar no imaginário do divino dos seguidores de Jesus. Profissão de fé cristã não significa afirmar que acredita em Deus (o que a maioria das religiões o fazem), mas que Deus encarnou-se e que sua carne é, portanto, o lugar de manifestação. O quarto Evangelho oferece na cena da profissão de fé de Tomé a ligação direta entre carne-chaga-fé. Ao tocar a chaga aberta do crucificado o Apostolo professa sua fé: Meu senhor e meu Deus (Jo 20,24-28). Não foi na presença milagrosa do morto ressuscitado que se apresentou atravessando as portas fechadas que o convenceu da divindade de Jesus, mas precisamente a sua condição de crucificado (Hálik, 2023, p. 199).

O Deus encarnado crucificado é o fundamento da fé e, por consequência, o caminho dos seguidores de Jesus. Assim Paulo compreendeu a fé a partir de Jesus Cristo e a própria comunidade cristã:

Todavia, esse tesouro nós o levamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa. Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos, somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo, somos perseguidos, mas não somos abandonados, prostrados por terra, mas não aniquilados

(2Cor 4,7-9).

Da convicção de que a fraqueza é força que nasce da cruz advém a fé da experiência de Cristo presente na carne de todos os que sofrem. Esta percepção teológica foi a base do ensinamento franciscano e se encontra presente no fundo de seus ensinamentos (Passos, 2025, p. 201-221). O cadeirante conduzido pelo enfermeiro que expõe todo o seu limite não protagoniza, na verdade, uma postura inédita, mas na sua própria carne manifesta a mística que orientou seu percurso como Bispo de Roma. Revela, assim, o Papa que sai de si mesmo, sai do seu leito na mais pura simplicidade, sem adornos e sem poder. Assim como o Evangelho exige saída da Igreja e de cada um sair de si na direção do outro (EG, n. 39), no epílogo do pontificado o Papa mostra o que é a essência do ministério petrino: serviço despojado e não poder. Mostra antes de tudo o caminho de todo seguidor de Jesus que se orienta pela confiança em meio aos sofrimentos: “Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem dar por vencido [...]. O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal” (EG, n. 85).

c) A Igreja em movimento

A Igreja em saída renuncia a prepotência das seguranças estruturais e de sua tradição intocável tão instaladas na história e nas estruturas eclesiais. A igreja que sai permanentemente, não teme o risco da mudança que pode expor seus limites e fraquezas (EG, n. 49). Francisco realiza em seu gesto o que afirmou sobre a Igreja. O literalmente enfermo sai de seus aposentos e se apresenta sem seguranças ao público que se surpreende por sua condição. A visita ao túmulo do Papa das seguranças e da autorreferencialidade católica confronta segurança e insegurança, a saída e a permanência, fraqueza e força; ensina a condição humana do Papa e da Igreja e que nenhuma conjuntura ou sujeito podem ser absolutizados em suas personalidades e em seus projetos. Trata-se da encenação do sentido mais radical da contingência histórica que convida a Igreja a não se cristalizar em nenhum modelo como se fosse eterno, transcendente ou onipotente. É somente na consciência de sua contingência que a Igreja se coloca em atitude de reforma permanente e não na certeza de possuir a única verdade e ensiná-la de modo absoluto.

4 A unidade superior ao conflito

A era pós conciliar constituiu um campo de luta pelo sentido (Faggioli, 2013) das renovações que assumiram formas variadas pelas Igrejas espalhadas pelo mundo. Os defensores da suposta imutabilidade eclesial e os adeptos do aggiornamento construíram polos hermenêuticos distintos e, muitas vezes, antagônicos. A antirrenovação agregou grupos e sujeitos que reinterpretavam as renovações conciliares por uma ótica conservadora ou que negavam o Concilio em sua totalidade. Na medida em que o Papa Francisco retoma as renovações conciliares tirando delas as consequências mais radicais, as posturas de resistência iam sendo reafirmadas e ampliadas. As velhas frentes anticonciliares agregaram em torno de suas posturas antimodernas as novas frentes reacionárias às mudanças empreitadas por Francisco. A tensão entre preservação e renovação foi o clima e o desafio permanente do pontificado.

O gesto de despojamento e de desempoderamento da função papal não possui, portanto, tão somente um sentido místico, teológico e pastoral, mas ao mesmo tempo um sentido político na medida em que expõe a relação direta entre as figuras do renovador e do conservador e o caminho de diálogo de Francisco com Pio X. A polarização entre os dois projetos eclesiais representadas pelos dois pontífices oferece uma solução simbólica que desestabiliza os dogmatismos conservadores que buscou desqualificar Francisco como um radical incapaz de acolher os defensores da conservação.

A cena paradoxal que expõe o contato do reformador com o antirreformador afirma o que Francisco sempre ensinou: a unidade é superior ao conflito (EG, n. 226-230) e, por conseguinte, que o conflito: a) não pode ser ignorado ou dissimulado; b) deve ser aceito e assumido em sua concreticidade; c) deve ser suportado e transformado em elo de um novo processo; d) deve acolher o opositor e considera-lo na dignidade mais profunda; e) o conflito assumido pode tronar-se uma construção da história onde os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera vida.

Aos que utilizaram o paradigma Pio X como munição contra as reformas o recado foi dado: as reformas e o reformador não fazem guerra, mas se apresentam desvestidos de toda prepotência e se mostram como fraqueza que convence como diálogo e não pela força. Na Encíclica Fratelli Tutti, Francisco assentou seus ensinamentos sobre esta postura fundamental, quando, mais uma vez evoca a figura do Santo de Assis que visita o sultão Malik-al-Kamil no campo de batalha entre cristãos e mulçumanos no norte da África. “Não fazia guerra dialética imponto doutrinas, mas comunicava o amor de Deus...” (FT, n. 4) sinaliza o Francisco de Roma e explicita o significado profundo do gesto: “Lá, Francisco recebeu, no seu íntimo, a verdadeira paz, libertou-se de todo desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos menos favorecidos e procurou viver em harmonia com todos” (FT, n. 4).

Considerações finais

Estive no meio de vocês cheio de fraqueza, receio e tremor... (1Cor 2,3).

A imagem da “túnica inconsútil” foi utilizada pela Igreja Católica ao longo do tempo para designar sua unidade ou seu desejo de unidade, para além de todas as divisões que ocorriam na esfera das ideias e das práticas. A imagem é carregada de sentido para afirmar a comunhão eclesial. O fato é que, ao longo do tempo, a Igreja focou mais na imagem da túnica do que na nudez do crucificado despido na mais absoluta fraqueza. Na medida em que se entendia como exercício de poder sagrado, a Igreja acentuava uma identidade centrada mais a força da unidade do que na fraqueza, preferiu a unidade onipotente de Deus à humilhação e aniquilação do Deus crucificado.

A Igreja esqueceu e escondeu a nudez do crucificado, bem como a sua própria nudez, como ecclesia dos fracos, como havia ensinado o Apóstolo Paulo (Arbiol, 2018, p. 117-122). Contudo, Francisco jamais ocultou a nudez da Igreja, na medida em que publicava os escândalos de sujeitos eclesiais e exigia as devidas respostas legais dentro e fora da Igreja. Repetia que preferia uma Igreja ferida e suja por ter se colocado em movimento a uma Igreja adoecida pela estagnação. A organização institucional da Igreja não poderia ocultar sua missão de servir com afirmações de poder, com estruturas imóveis e com estéticas pomposas e o Bispo de Roma era o servo dos servos.

A fraqueza eclesial tem um sentido cristológico: a identificação com o Cristo pobre que revela sua força na fraqueza. O despojamento do poder constitui o centro dessa postura mística fundante do próprio cristianismo. Francisco se desfez de muitas vestimentas e adornos papais que remetiam mais para a nobreza antiga e medieval do que para o pescador da Galileia, mais para os mistérios gloriosos que para os mistérios dolorosos, seu último gesto totalmente desvestido do uniforme papal selou de forma radical a postura de despojamento do poder que acompanhou seu ministério. Também selou as construções de ponte com o ato de ir ao extremo oposto das reformas, ao antirreformador Pio X, patrono dos tradicionalistas que rejeitaram as renovações conciliares e que, em seu pontificado, firmou-se como referência para os segmentos tradicionalistas presentes e atuantes no corpo eclesial.

O gesto de Francisco é revelador, fala por si mesmo, para além das intenções não verbalizadas pelo pontífice. A exposição da fraqueza extrema e o gesto de empatia com o seu oposto sinaliza para a afirmação da unidade para além dos conflitos. Na perspectiva da Igreja em saída para as periferias humanas movida pelo coração do Evangelho reside a exigência de uma espiritualidade do processo que acolhe as diferenças, incluindo aquelas que se apresentam como opostas. A unidade é sempre superior ao conflito, embora os conflitos devam ser reconhecidos e assumidos sem subterfúgios. O gesto desconcertante de Francisco expos simbolicamente como uma espécie de último ato o significado profundo de suas posturas reformadoras. Ensinou por si mesmo e poderá permanecer como um legado político-espiritual para os futuros papas e para a Igreja que só poderá sobreviver como serva e servidora da humanidade.

Siglas
  • EG  Exortação apostólica Evangelii Gaudium
  • FT  Carta Encíclica Fratelli Tutti

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Referências

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Editado por

  • Editores:
    Márcia Eloi Rodrigues e Franklin Alves Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Dez 2025
  • Aceito
    09 Mar 2026
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