Open-access Sintomas de Ansiedade, Depressão, Estresse e Variáveis Associadas Entre Estudantes de Medicina

Resumo

Transtornos psiquiátricos são mais reportados entre acadêmicos de medicina, comparados a outros universitários. O objetivo deste estudo foi investigar a prevalência de sintomas de ansiedade, depressão e estresse entre estudantes de medicina e as variáveis associadas. Cem estudantes responderam a um questionário do Google Forms, incluindo a DASS-21, analisado com Excel e SciPy. Resultados mostraram predomínio de sintomas de estresse (67,85%) e depressão (67,86%) no ciclo clínico e de ansiedade (57,69%) no básico. As variáveis mais associadas aos sintomas foram sexo feminino, condições socioeconômicas inferiores, prática de atividades físicas e hábitos alimentares irregulares, consideração de abandonar ou trancar o curso e não percepção de apoio. Os resultados apontaram alta prevalência dos sintomas estudados, sugerindo a necessidade de novas técnicas interventivas na área.

Palavras-chave:
ansiedade; depressão; estresse; estudante; medicina

Abstract

Psychiatric disorders are more frequently reported in medical students when compared to other university students. This study aimed to investigate the prevalence of anxiety, depression and stress symptoms among medical students and associated variables. A hundred students responded to a Google forms questionnaire, including the instrument DASS-21, which was analyzed with Excel and Scipy. Results revealed a greater prevalence of stress (67,85%) and depression (67,86%) in the clinical cycle and anxiety (57,69%) in the basic cycle. The most associated factors included female gender, lower socioeconomic conditions, irregular eating habits, considering dropping out or taking a leave of absence, and no perceived support. Results showed a high prevalence of the symptoms, suggesting the need for new intervention techniques in the area.

Keywords:
anxiety; depression; stress; medical students

Transtornos mentais, incluindo depressão e ansiedade, são recorrentes na sociedade moderna e frequentemente associados ao estresse. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2022a), em 2019, havia 280 milhões de pessoas no mundo vivendo com depressão e 301 milhões com ansiedade. Esses transtornos podem comprometer a qualidade de vida em geral, como no caso da depressão, em que há risco de agravamento e de evolução para suicídio, cujas estatísticas apontam cerca de 800.000 casos ao ano (Ribeiro et al., 2020).

Transtornos mentais atingem todos os segmentos da população, incluindo 15% a 25% dos estudantes universitários, dentre os quais predominam os transtornos de ansiedade e depressão (Ribeiro et al., 2020). A maior frequência ocorre entre estudantes de medicina (Puthran et al., 2016; Shawahna et al., 2020), em geral associados ao suicídio, reconhecido como a segunda causa de morte entre eles e frequentes em casos de depressão profunda (Asfaw et al., 2020; Machado et al., 2019).

Múltiplas variáveis têm sido associadas aos transtornos mentais entre esses estudantes, envolvendo aspectos acadêmicos, sociodemográficos e psicossociais. As condições relativas ao próprio curso são estressantes, como a extensa carga horária, atividades curriculares e extracurriculares de alta complexidade, competitividade entre pares, além de variáveis pessoais como receio do fracasso, exigência pessoal por alto desempenho e necessidade de atender à expectativa sociofamiliar (Machado et al., 2019; Pacheco et al., 2017).

Dentre os estressores inerentes à rotina de estudo, são referidos a exposição aos pares durante seminários e provas orais e o ingresso no internato, que implica novas práticas junto ao paciente, para as quais o aluno ainda inexperiente teme a possibilidade de erro (Machado et al., 2019). Na evolução do curso, aumenta a exposição ao sofrimento humano e à morte, que são ainda mais impactantes para aqueles não familiarizados com essas situações (Brito et al., 2020). A estrutura do curso e o momento em que as práticas se iniciam são aspectos relevantes nesse sentido, pois a estrutura curricular mais antiga, fragmentada e muito teórica, é mais associada ao comprometimento da saúde mental do estudante (Pacheco et al., 2017).

Os fatores sociodemográficos e psicossociais mais associados ao risco de comprometimento da saúde mental incluem o sexo feminino (Puthran et al., 2016), dificuldades financeiras, personalidade mal adaptativa e condições de saúde mental pré-existentes (Pacheco et al., 2017); ser não heterossexual, não branco, ter renda familiar limitada, baixo acesso a suporte psicológico e viver sozinho ou com colegas (Demenech et al., 2021; Sacramento et al., 2021); e pouca interação social, devido ao uso do tempo em atividades acadêmicas, que limita as chances de receber acolhimento e bem-estar oferecidos por terceiros (Machado et al., 2019). A percepção de estar sendo acolhido pelos colegas envolve o apoio emocional, informativo, material, social e afetivo que, individualmente, a pessoa entende como disponível caso ela necessite. Isso implica, além do comportamento do grupo, as características pessoais e o padrão de interação social de cada estudante. O entendimento pessoal das próprias habilidades acadêmicas, incluindo rendimento ou desempenho e capacidade de aprendizagem, é outra variável relevante, com frequência comparada pelo estudante ao rendimento e desempenho observados nos demais colegas (Sherbourne & Stewart, 1991).

Os comprometedores da saúde mental do médico e do estudante de medicina são associados às condições acadêmicas e de trabalho por serem, em geral, identificadas nesse contexto, mas estudos também mostram situações nas quais sintomas relevantes são referidos antes do ingresso na faculdade. Um período significativo é o pré-vestibular, que implica mudanças na rotina de vida, grande competitividade, reprovações e preocupação com as expectativas de familiares e amigos (Machado et al., 2020). Ao pesquisar indicadores de ansiedade, depressão e fatores associados a essas condições, Ribeiro et al. (2020) aplicaram a Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS) a 355 estudantes de medicina e encontraram indicadores de ansiedade em 41,4% deles, seguidos de depressão (8,2%) e das duas condições simultâneas (7,0%). Os fatores associados a maior risco de ansiedade foram sentir-se sozinho, ter histórico de acompanhamento psiquiátrico/psicológico antes do ingresso no curso e sentir-se moralmente lesado na faculdade. Para depressão e para as duas condições simultâneas, os principais fatores de risco foram também sentir-se sozinho e ter histórico de acompanhamento psiquiátrico/psicológico antes de ingressar na universidade.

Revisando a literatura sobre condições de saúde mental diagnosticáveis entre estudantes de medicina, Pacheco et al. (2017) destacaram o estresse, a ansiedade, a depressão, o transtorno do sono, o burnout, os transtornos alimentares e o uso considerado perigoso de álcool. Os estudos mostraram maior prevalência de ansiedade (89,6%) e apontaram a possibilidade de condições preexistentes ao ingresso no curso. Esses achados sugerem que os altos índices de problemas mentais entre os estudantes podem estar associados às características pessoais, em um contexto de alta competitividade, e não necessariamente às características adversas do ambiente acadêmico. Outro dado relevante foi o relato de menos sintomas depressivos nos últimos anos do curso. Nesse caso, deve ser considerada a possibilidade de os alunos estarem em tratamento psicológico ou psiquiátrico e se sentindo mais confiantes ao atender os pacientes, ou que tenham desenvolvido modos de enfrentamento eficazes no processo de adaptação ao curso.

Para avaliar o impacto das novas experiências acadêmicas, Brito et al. (2020) aplicaram um questionário sobre a vivência e percepção do tema morte e morrer a 60 acadêmicos de medicina da UNIVÁS, em Minas Gerais. Dentre os participantes, 58% disseram não se sentirem ainda aptos a lidar com a terminalidade devido à inexperiência na área, aos aspectos psicológicos envolvidos e às repercussões desse trabalho no contexto acadêmico. Outros 16% referiram estar preparados para vivenciar a morte, mas não para atuar no processo de morte e morrer, o que foi atribuído ao pouco treinamento na comunicação de más notícias, incluindo a terminalidade.

Como bem mostra a literatura, a saúde mental de estudantes de medicina tem sido foco de interesse em várias universidades, considerando a alta prevalência do comprometimento entre esses estudantes (Chiesa, 2020; Conceição et al., 2019; Moir et al., 2018). Nesse contexto já preocupante surgiu, em 2020, a pandemia da COVID-19 como variável comprometedora da saúde e da qualidade de vida em todos os setores sociais, acadêmicos e hospitalares.

Em 2020, antes da pandemia, a OMS estimava que 193 milhões de pessoas no mundo sofriam de transtorno depressivo maior e 298 milhões sofriam de ansiedade, o que significava, respectivamente, 2.471 e 3.825 casos para cada 100.000 pessoas. Considerando o período pandêmico, a estimativa inicial subiu para 246 milhões, com 3.153 casos por 100.000 pessoas para transtornos depressivos e 347 milhões com 4.802 casos para transtornos de ansiedade (OMS, 2022b).

Esta nova situação levou à necessidade de distanciamento social e intensificou aspectos como a má qualidade do sono, devido à irregularidade da rotina, e o aumento significativo do tempo diante de telas eletrônicas (Saraswathi et al., 2020). A pandemia demandou adaptações rápidas, muitas delas insuficientes para o ensino, em que estudantes passaram a depender de recursos próprios e da busca pessoal por material de estudo e tiveram interações limitadas com colegas e professores, aumentando os sintomas de estresse, ansiedade e depressão (Arima et al., 2020).

A situação pandêmica enfatizou a necessidade de propostas que viabilizem cuidados psicológicos adequados aos futuros profissionais. Para isso, é essencial identificar as condições de saúde mental comprometidas e os fatores associados a esse comprometimento nas situações acadêmicas, o que permitirá o desenvolvimento de propostas adequadas à demanda geral e específica a cada contexto. Assim, este estudo foi conduzido com o objetivo de investigar a prevalência de sintomas de ansiedade, depressão e estresse entre estudantes de medicina, associados à rotina, semestre letivo, acolhimento por eles percebido no ambiente universitário e autopercepção das habilidades sociais e acadêmicas.

Método

Participantes

Participaram do estudo 100 estudantes de graduação em medicina, de ambos os sexos, sendo os critérios de inclusão ser maior de 18 anos e estar com a matrícula ativa na universidade participante no período da coleta de dados. Foi critério de exclusão enviar respostas incompatíveis com a pergunta.

Instrumentos

Para a coleta de dados foi utilizada a plataforma virtual Google Forms, incluindo um questionário contendo (a) Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE); (b) variáveis sociodemográficas; (c) variáveis estressoras ou causadoras de mal-estar ao participante, com quatro blocos de questões relativas a relacionamentos interpessoais na universidade; atividades, rotinas e hábitos; vida acadêmica; e bem-estar e (d) Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21).

Os quatro blocos de questões incluíram os subtemas: 1. Relacionamentos interpessoais na Universidade, com 15 itens sobre a interação com colegas, professores e técnicos administrativos; 2. Atividades, Rotina e Hábitos, com sete itens sobre o uso do tempo para realizar atividades acadêmicas e pessoais, como exercícios físicos, rotina de sono e manejo do estresse; 3. Vida Acadêmica, com 10 itens sobre o semestre em curso, incluindo estresse em situações específicas, consideração sobre trancar ou abandonar o curso, comparação com colegas nas atividades realizadas; e 4. Bem-Estar e Saúde Mental, com 12 itens, incluindo percepção de estresse geral, histórico de transtornos mentais diagnosticados, uso de substâncias lícitas e ilícitas e conhecimento sobre serviço assistencial oferecido pela universidade.

A DASS-21 contém 21 itens no formato Likert, variando de 0 (não se aplicou nada a mim) a 4 (aplicou-se a mim a maior parte das vezes), que investigam a presença de sintomas de ansiedade, depressão e estresse com 7 itens para cada fator. A DASS-21 foi validada para uso no Brasil com alpha de Cronbach de 0.92 para depressão; 0.90 para estresse; e 0.86 para ansiedade, o que indica boa consistência interna para cada subescala (Vignola & Tucci, 2014). Pontuações mais altas indicam níveis mais altos de sintomas de ansiedade, depressão e estresse.

Procedimento

Coleta de dados

O estudo é transversal e o recrutamento não probabilístico ocorreu por conveniência entre estudantes de medicina da Universidade de Brasília. Para isso, foram enviados convites aos e-mails pessoais e institucionais de todos os 397 estudantes com matrícula ativa no curso de graduação em medicina da universidade, durante os meses de outubro a dezembro de 2021. Os e-mails e informações sobre matrículas foram obtidos junto à coordenação e ao centro acadêmico do curso. Ao todo, 100 alunos com 18 anos de idade ou mais aceitaram participar. No e-mail com o convite, estava incluído o questionário, que iniciava com o TCLE, que garantia anonimato e sigilo total, e pedia a marcação do aceite para participar da pesquisa. Após o aceite, o instrumento iniciava as perguntas. O último item do questionário perguntava se, caso fossem identificados sintomas graves das condições avaliadas, o participante aceitaria ser contatado para encaminhamento à assistência psicológica ou psiquiátrica. Em caso afirmativo, era facultada a inclusão do número de telefone ou do endereço de e-mail para contato. O tempo estimado para responder ao questionário foi de 15 minutos. Após a marcação do “enviar” ao final do questionário, o instrumento preenchido seguia diretamente para a pesquisadora responsável.

Análise dos dados

A análise dos dados foi descritiva e quantitativa, conduzida com recursos do Microsoft Excel e das funções do Google Planilhas, além das bibliotecas Python pandas e SciPy. Foram calculados média e desvio padrão para os dados paramétricos; moda e significância estatística pelo teste qui-quadrado de independência para os dados não paramétricos; e foi realizada análise correlacional entre os sintomas e as variáveis do questionário. Para análise, os dados foram agrupados em três ciclos, conforme o semestre em curso: (a) ciclo básico, do 1º ao 3º semestre; (b) ciclo clínico, do 4º ao 8º semestre; e (c) internato, do 9º ao 12º semestre.

Considerações Éticas

Este é um estudo descritivo, quantitativo e transversal, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais, conforme as Resoluções 466/2012 e 510/2016.

Resultados

Dentre os 100 participantes, 57 eram mulheres e 42 homens (um não declarou), com idade entre 19 e 38 anos (M = 23,1, DP = 3,97), 75% heterossexuais, 47% brancos (no internato, 83,3% brancos), 31% pardos, 14% pretos, 5% indígenas (um não informou). O nível socioeconômico predominante foi alto ou médio-alto (45%), seguido de médio (32%) e médio-baixo ou baixo (23%). No internato, o nível alto e médio-alto foi mais frequente (72,2%; p = 0,022) do que nos demais ciclos, que foram de 42,86% no clínico e de 30,77% no básico. Atividades remuneradas não vinculadas ao curso eram exercidas por 23 estudantes, dos quais 11 haviam concluído alguma graduação; os outros 12, também graduados, não trabalhavam. Foram obtidas respostas em todos os semestres, sendo a maioria do 8º (n = 19), seguida pelo 4º (n = 15) e pelo 2º (n = 11). As menores participações ocorreram no 11º (n= 1), 12º (n = 3), 5º (n = 5) e 9º (n = 5) semestres. Entre os participantes, 26 cursavam o ciclo básico, 56 o ciclo clínico e 18 o internato.

As pontuações médias na DASS-21 foram maiores para sintomas de estresse (21,06), seguidos de depressão (16,62) e de ansiedade (11,62), com frequências de 63% para estresse, 61% para depressão e 51% para ansiedade, em diferentes níveis de gravidade (Tabela 1). Foi observada sintomatologia acima do normal nos três fatores em 39 participantes, com nível extremamente grave em 13 deles. Os níveis grave ou extremamente grave predominaram no sexo feminino para estresse (F = 53%; M = 26%; p = 0,015), depressão (F = 40%; M = 29%; p = 0,3178) e ansiedade (F = 35%; M = 21%; p = 0,2104); e entre brancos (40%), com pontuação média um ponto acima dos pretos, pardos ou indígenas.

Tabela 1 -
Prevalência e Gravidade de Sintomas de Depressão, Ansiedade e Estresse

Estudantes que exerciam atividades laborais não associadas ao curso tiveram frequências de 65,22% para estresse, 65,22% para depressão e 56,52% para ansiedade. Aqueles já graduados em outro curso tiveram frequências de 74%; 69,56%; e 56,52%; e, para os que cursavam a primeira graduação, as frequências foram 60%, 58,44% e 50,65%, respectivamente.

Entre os 63 alunos com sintomas de estresse acima do normal, 42 marcaram nível grave ou extremamente grave, sendo 67,85% no ciclo clínico, 61,54% no básico e 50% no internato (p = 0,387). A maior prevalência (80%) foi no sexto (87,5%) e no quarto (75%) semestres.

Sintomas de ansiedade ocorreram para 51 participantes, com nível grave ou extremamente grave para 30 deles. A maior prevalência em todos os níveis ocorreu nos ciclos básico (57,69%) e clínico (57,14%). No internato, essa prevalência foi de 22,22%, com diferença significativa em relação aos outros ciclos (p = 0,026). As maiores frequências ocorreram no 1º (83,33%), 4º (73,33%) e 6º semestres (70%), com predomínio do nível grave ou extremamente grave no 4º semestre (46,67%), alcançando 64,64% dos participantes. A maior prevalência acima do normal ocorreu no gênero feminino (F = 61,4%; M = 35,71%; p< 0,05) e a menor no nível socioeconômico alto e médio alto (35,56% x 64,64%, p= 0,0095).

Sintomas depressivos foram apontados por 36 alunos no nível grave ou extremamente grave e por 25 outros nos níveis moderado ou leve. A maior frequência foi no ciclo clínico (67,86%), seguida pelo básico (61,54%) e internato (38,89%) (p = 0,09); as menores foram nos níveis socioeconômicos alto e médio-alto (44,4% x 74,54%, p = 0,0042).

Variáveis associadas aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse

A autopercepção de tristeza, ansiedade e estresse correspondeu, respectivamente, aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse da DASS-21. A maioria dos participantes que afirmaram não apresentar esses sintomas com frequência também apresentou escores abaixo do limiar patológico para a sintomatologia. Apenas para ansiedade, 40% dos que se consideravam ansiosos apresentaram sintomatologia normal pela DASS-21. A maioria daqueles que reconheciam sintomas de depressão (38,24%), ansiedade (37,8%) e estresse (33,75%) disse apresentar esses sintomas "desde sempre". O início dos sintomas foi associado à pandemia de COVID-19 por 25 respondentes, incluindo tristeza (n = 14), estresse (n = 11) e ansiedade (n = 7). Dentre eles, 21 apresentaram algum desses sintomas acima do nível normal na DASS; dois cursavam o 12º semestre e apresentavam sintomas em nível normal ou leve; e 19 cursavam o ciclo clínico, sendo a maioria do 4º (n = 7) e do 8º (n = 6) semestres.

Ter histórico de diagnóstico psiquiátrico foi informado por 38 alunos, dos quais 13 relataram 2 diagnósticos ou mais, sendo os mais frequentes Transtorno de Ansiedade Generalizada (n = 21) e Transtorno Depressivo Maior (n = 21). Outros diagnósticos foram: Transtorno Obsessivo-Compulsivo (n = 4), Transtorno Bipolar (n = 2), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (n = 1), Transtorno de Ansiedade Social (n = 1) e Transtorno do Pânico (n = 1). A maioria foi diagnosticada após o ingresso no curso, sendo três deles durante a pandemia, com maiores frequências para Transtorno de Ansiedade Generalizada (n = 15) e Transtorno Depressivo Maior (n = 15). A média de escores na DASS-21 foi maior entre aqueles já diagnosticados (20,47 ± 13,44) do que entre os demais (12,95 ± 11,76). A ocorrência de diagnósticos foi maior no internato (55,6%), seguida dos ciclos básico (39%) e clínico (36,5%).

Já ter feito tratamento psiquiátrico foi referido por 42 participantes, dentre os quais 3 informaram nunca ter recebido diagnóstico e 3 preferiram não responder. Dentre os 38 diagnosticados, 24 haviam recebido tratamento medicamentoso e psicoterapêutico; 7, apenas tratamento medicamentoso; 5, apenas tratamento psicoterapêutico; e 2 não haviam recebido nenhum tratamento. Aqueles que receberam apenas tratamento medicamentoso apresentaram a menor média de escores dos sintomas. Nos ciclos básico e clínico, os escores de depressão e estresse foram mais altos entre os que não fizeram tratamento, tendo sido diagnosticados ou não. No internato, todos os já diagnosticados (n = 10) haviam feito algum tratamento, sendo seus escores mais altos do que os daqueles não diagnosticados.

Ter padrão alimentar irregular foi informado por 85 participantes, dentre os quais os níveis de sintomas grave ou extremamente grave foram de 40% para depressão, 34,12% para ansiedade e 47,06% para estresse. Dentre os 15 que relataram hábitos alimentares regulares, esses níveis foram, respectivamente, de 13,33%, 6,67% e 13,33% (Tabela 2).

A prática de atividade física foi também associada aos sintomas, com níveis grave ou extremamente grave mais altos entre aqueles que não tinham prática regular. Dentre estes, 60% apresentaram depressão e estresse (p = 0,0046) e 40%, ansiedade (Tabela 2).

Tabela 2 -
Associação Entre Rotina e Sintomas de Depressão, Ansiedade e Estresse

Dentre os participantes que faziam uso de redes sociais por mais do que 2 horas diárias, 46,67% apresentaram sintomas depressivos grave ou extremamente grave. E dentre aqueles que investiam menos tempo, 27,27% apresentavam os mesmos sintomas (Tabela 2).

A percepção de acolhimento por pares e de apoio por professores também foi associada a sintomas depressivos grave ou extremamente grave, apresentados por 53% daqueles que não se sentiam incluídos e por 19,61% dos que se percebiam incluídos. Sintomas depressivos foram apresentados também por 52% daqueles que não percebiam apoio vindo de professores e por 30,67% daqueles que percebiam esse apoio (Tabela 3).

Ter considerado trancar ou abandonar o curso foi referido por 64 participantes, dentre os quais foram identificados sintomas grave ou extremamente grave para estresse (53%; p= 0,0052), depressão (52%; p = 0,00004) e ansiedade (38%; p = 0,051), com proporção semelhante nos três ciclos (61,1% a 66,1%). Entre aqueles que nunca consideraram essas possibilidades, a prevalência dos mesmos sintomas e níveis foi de 22%, 8% e 16%, respectivamente (Tabela 3).

Tabela 3 -
Autopercepção e Frequência de Sintomas de Depressão Ansiedade e Estresse

Os motivos citados para considerar o trancamento ou abandono do curso foram a sobrecarga de trabalhos acadêmicos (n = 41), problemas de saúde pessoais e/ou familiares (n = 26) e rendimento acadêmico insatisfatório (n = 25). Os fatores impeditivos foram a identificação com a medicina (n = 38), o mais referido, especialmente no ciclo básico (n= 12); necessidade de concluir rapidamente o curso (n = 38), o mais referido no ciclo clínico (n = 26) e no internato (n = 8); ter colegas acolhedores (n = 31); medo de estigmas (n= 31); e pressão familiar (n = 27).

A orientação sexual, o uso de substâncias lícitas ou ilícitas, a religiosidade, o tempo de estudo (considerando tempo de corte de 4 horas/dia) e o tempo de sono (considerando tempo de corte de 7 horas/dia) não apresentaram variação superior a 2 pontos nas pontuações médias de nenhum dos sintomas avaliados.

Discussão

Este estudo foi conduzido para investigar os níveis de depressão, ansiedade, estresse e as variáveis associadas aos sintomas entre estudantes de medicina de uma universidade brasileira. Os achados são compatíveis com a literatura (Barbosa-Medeiros & Caldeira, 2021), sendo que as prevalências de depressão (61%) e ansiedade (51%) foram ainda mais altas do que aquelas já documentadas no Brasil, como 28,5% para depressão e 37,7% para ansiedade (Demenech et al., 2021). Para estresse, a prevalência encontrada (63%) foi semelhante a alguns achados mais altos, que apontam, por exemplo, índices de 66,3% (Costa et al., 2020), 65% (Kam et al., 2019) e 60,09% (Lima et al., 2016). Dentre os sintomas avaliados, 42% de estresse, 36% de depressão e 30% de ansiedade estavam nos níveis grave e extremamente grave, sugerindo a gravidade da atual prevalência entre os participantes.

Alguns dos fatores associados aos sintomas foram também consistentes com a literatura, como considerar o trancamento ou o abandono do curso (Nogueira et al., 2021) e o predomínio entre mulheres. Fatores associados a esse predomínio não foram investigados neste estudo, mas podem estar relacionados a variáveis inerentes às demandas do curso, ou à própria condição feminina, pois tanto a literatura quanto a OMS referem maior frequência desses sintomas entre mulheres, sem que a causa seja clara (Sacramento et al., 2021). Os escores mais altos para sintomas de ansiedade e depressão ocorreram entre alunos de nível socioeconômico mais baixo, com menor prevalência no internato, podendo estar associados às diferenças observadas entre os ciclos.

A pandemia da COVID-19 pode ter favorecido a piora da saúde mental dos participantes, considerando principalmente o contexto de ensino a distância nesse período e o consequente isolamento social. Estimativas da OMS pelo Global Burden of Disease Study mostraram aumento de 27,6% em casos de transtorno depressivo maior e de 25,6% em transtornos de ansiedade na população geral durante a pandemia em 2020, sendo mais afetadas pessoas do gênero feminino e jovens entre 20 e 24 anos (OMS, 2022b). Essa possível relação com a pandemia tem respaldo nos achados de dois estudos. O primeiro deles, realizado no início da pandemia, mostrou níveis de ansiedade e depressão entre estudantes semelhantes aos relatados na literatura internacional pré-COVID-19 (27,2% vs. 28% e 22,6% vs. 27,5%) (Ernst et al., 2021). No segundo estudo, realizado durante a pandemia, 81,4% de 656 estudantes relataram mudanças psicológicas ou comportamentais no período (Teixeira et al., 2021). Na presente pesquisa, os dados não permitem avaliar a influência do contexto pandêmico nos resultados, mas essa possibilidade deve ser considerada, comparando os resultados obtidos com aqueles encontrados por Ernst et al. e Teixeira et al.

As prevalências dos sintomas sugerem maior comprometimento da saúde mental dos participantes no ciclo clínico, seguido pelo básico. No internato, os índices foram menores para as três sintomatologias, sugerindo melhores condições psicológicas. Entretanto, o relato de diagnósticos psiquiátricos foi maior no internato e menor no ciclo clínico, o que pode decorrer de condições ainda não diagnosticadas nos dois primeiros ciclos. Esta possibilidade é consistente com os dados do 6º semestre, no qual apenas um aluno relatou ter diagnóstico e a maioria apresentou sintomatologia alta. É possível também que algumas variáveis incluídas no questionário não constem na DASS-21, como o TDAH ou outros transtornos de ansiedade, cujos sintomas não sejam avaliados pela escala. É possível que algum diagnóstico prévio já tivesse os sintomas minimizados por tratamentos realizados, o que não seria igual para todos, pois alguns alunos do internato que relataram ter feito tratamento apresentavam escores elevados. Deve ser considerado, ainda, que a DASS-21 é uma ferramenta de avaliação sintomática e não de diagnóstico. Como houve apenas uma avaliação, os resultados podem descrever uma condição momentânea que não cumpre critérios para um transtorno.

A qualidade de vida de estudantes de medicina da mesma universidade onde foi realizado este estudo foi avaliada em 2010-2011, utilizando o WHOQOL-BREF e um questionário sociodemográfico com dados acadêmicos e de saúde. Participaram 84 alunos, dos quais 92,5% relataram sintomas de mau humor, desespero, ansiedade e depressão, considerados frequentes por 50% deles (Bampi et al., 2013). Em nosso estudo, realizado 10 anos depois, utilizando outro instrumento e após mudanças na estrutura curricular, as condições de saúde mental dos alunos são semelhantes. Mesmo considerando o período pandêmico, os resultados aqui relatados respaldam a recorrência de riscos à saúde mental dos estudantes e demandam propostas interventivas que alterem o contexto, evitando os possíveis desfechos adversos.

A prevalência dos sintomas não variou com o número de horas de sono, a prática religiosa e o uso relatado de substâncias lícitas ou ilícitas. Devido ao pequeno tamanho da amostra e ao baixo número de respostas afirmativas ao uso de substâncias, os dados são insuficientes para sugerir a possível não associação entre as variáveis, o que requer mais estudos focados no tema.

Os dados aqui obtidos demonstram a possível associação entre as variáveis estudadas e sintomas de depressão, ansiedade e estresse, mesmo não implicando relação de causa e efeito. Os índices mais baixos de sintomas entre estudantes que praticavam atividade física, tinham melhor alimentação e percebiam mais apoio por parte de colegas e professores, por exemplo, podem decorrer desses comportamentos. Por outro lado, apresentar menos sintomas pode ter favorecido o interesse desses alunos por atividade física, melhor alimentação e pode ter mediado a percepção do tipo de apoio oferecido por colegas e professores. Assim, estudos com delineamentos específicos e quase-experimentais, que permitam a comparação entre grupos que apresentam e que não apresentam os sintomas, são necessários para um melhor entendimento das possíveis correlações e relações de causalidade entre os sintomas e as variáveis envolvidas.

A promoção do acolhimento, da avaliação e da redução de situações adversas, por equipes multidisciplinares e revisão das estruturas curriculares, pode minimizar a percepção das variáveis referidas como comprometedoras do bem-estar, favorecendo o modo como o futuro médico conduzirá sua própria formação. Seriam adequados procedimentos estimuladores e facilitadores do relacionamento entre pares e entre alunos e professores, a inclusão de intervalos nas grades horárias e a alternância entre atividades mais e menos longas e mais e menos complexas. A atenção diferenciada à saúde e às horas de sono desses alunos é relevante e deve ser discutida entre supervisores e professores, inclusive com especialistas em sono.

Uma grade horária que permita tempo para uso pessoal, como atividades esportivas e de lazer, poderia evitar o uso de substâncias, lícitas ou não, na busca de alívio dos sintomas de ansiedade e depressão. Possibilidades já apontadas na literatura incluem a oferta de disciplinas de psicologia médica, rodas de conversa e capacitação de professores para lidar com o contexto (Bassols et al., 2014). Iniciativas dessa natureza podem incluir cuidados psicológicos, novas atividades e técnicas curriculares, com suporte teórico-prático que favoreça um treinamento estimulador de maior confiança e serenidade entre futuros médicos. A busca individual por psicoterapia, quando necessária, é relevante e deve ser estimulada pelos próprios professores, o que facilitaria a redução do reconhecido estigma sobre o assunto entre médicos.

Este estudo mostrou consistência no tema em diferentes contextos e aponta a grande relevância para o cenário médico da saúde mental desses profissionais, bem como para as variáveis a elas associadas. Como contribuições relevantes, foram apresentados dados atualizados de uma grande universidade, enfatizando a importância de que sejam desenvolvidos procedimentos que possam assegurar melhores condições de saúde mental entre estudantes de medicina. Além disso, os dados foram coletados durante o período pandêmico, o que enfatiza a alta demanda de trabalho desses estudantes e profissionais, mesmo durante períodos críticos. Como limitações, temos um número pequeno de participantes, o que não permite a generalização dos resultados para a comunidade universitária de medicina, e não temos dados recentes no país que permitam a comparação entre amostras de diferentes universidades. Outro ponto limitante é o fato de o número de estudantes variar em cada semestre do curso e, especialmente, a baixa participação de alunos do internato.

Ressaltamos, ainda, que o cenário pandêmico em que o estudo foi conduzido pode ter impactado a saúde mental da população em geral, como aponta a revisão de literatura conduzida por Min et al. (2021) sobre as possíveis consequências da COVID-19 em longo prazo. Ao comparar dados dos períodos pré- e pós-pandemia e as implicações psiquiátricas em longo prazo observadas na Coreia do Sul, os autores observaram aumento nos índices de depressão, ansiedade e estresse psicológico em todos os países estudados. Possíveis motivos para esses resultados seriam a ocorrência de estresse pós-traumático, consequências em longo prazo de restrições sociais, e resposta mal adaptativa ao “novo normal”. A crise foi global e até então única, apontando para a necessidade de mais pesquisas internacionais para o entendimento, o tratamento e a prevenção de seus efeitos sobre a saúde mental em longo prazo.

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  • Declaração de Disposição de Dados
    Os dados de pesquisa estão disponíveis por solicitação ao autor correspondente.

Editado por

  • Editor Chefe
    Tiago Jessé Souza de Lima
  • Editor Associado
    Angela Marin

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis por solicitação ao autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Jul 2023
  • Aceito
    29 Maio 2024
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