Open-access Uma experiência de dispositivo grupal em psicanálise: a roda de sonhos

An experience of group device in psychoanalysis: the dream circle

Expérience d’un dispositif de groupe en psychanalyse : la roue des rêves

Una experiencia de dispositivo grupal en psicoanálisis: la rueda de los sueños

Resumo:

A “roda de sonhos” é um dispositivo grupal em psicanálise para enfrentar os desafios advindos da eclosão da pandemia do novo coronavírus e da inabilidade do governo brasileiro em proteger sua população. O objetivo deste artigo é não só apresentar a experiência de uma ação extensionista, a metodologia de partilha e tratamento das narrativas oníricas, como também ilustrar esse processo, por meio de transcrições literais de um sonho acompanhado das cadeias associativas produzidas pelo grupo em um dos encontros do projeto de extensão. A narrativa onírica e a interdiscursividade grupal operam como testemunho de um momento obscuro da nossa história que precisa ser rememorado para que não seja repetido. Os resultados revelam que construir um espaço de confiança entre os integrantes da roda pode se transformar em cuidado mútuo diante de catástrofes humanitárias nas quais o terror da morte é emergente.

Palavras-chave:
cuidado; grupos; sonhos; pandemia; testemunho

Abstract:

“Dream circle” is a group device in psychoanalysis employed to address the challenges arising from the new coronavirus pandemic outbreak and the Brazilian government’s inability to protect its population. It presents the outreach experience, the methodology for sharing and interpreting dream narratives, and illustrates the process with literal transcriptions of a dream followed by the group’s associative chains. The dream narrative and group interdiscursivity operate as a testimony of an obscure moment in our history that must be remembered as to not be repeated. Results show that building a space of confidence among circle members can be transformed into mutual care under humanitarian catastrophes in which the fear of death is latent.

Keywords:
care; groups; dreams; pandemic; testimony

Résumé :

La “roue des rêves” est un dispositif de groupe en psychanalyse utilisé pour faire face aux défis posés par l’éclosion de la pandémie du nouveau coronavirus et à l’incapacité du gouvernement brésilien à protéger sa population. Cet article présente l’expérience d’extension, la méthodologie de partage et traitement des récits oniriques et illustre ce procès par le biais de transcriptions littérales d’un rêve accompagné de chaînes associatives produites par le groupe. Le récit onirique et l’interdiscursivité du groupe opère comme un témoignage d’un moment obscur dans notre histoire dont il faut se souvenir pour ne pas le répéter. Les résultats montrent que la construction d’un espace de confiance entre les membres peut se transformer en soins mutuels face aux catastrophes humanitaires dans lesquelles la terreur de la mort émerge.

Mots-clés :
soin; groups; rêves; pandémie; témoignage

Resumen:

La “rueda de los sueños” es un dispositivo grupal en Psicoanálisis en el enfrentamiento de los desafíos derivados de la emergencia de la pandemia del nuevo coronavirus y la incapacidad del Gobierno brasileño en proteger a su población. El objetivo de este artículo fue presentar la experiencia de una acción de extensión, la metodología para compartir y tratar las narrativas oníricas, así como ilustrarlas a través de las transcripciones literales de un sueño acompañado de las cadenas asociativas producidas por el grupo en una de las reuniones del proyecto de extensión. El relato onírico y la interdiscursividad grupal operan como testigo de un momento oscuro de nuestra historia que necesita ser recordado para que no se repita. Los resultados indican que la construcción de un espacio de confianza entre los integrantes de la rueda puede transformarse en un cuidado mutuo frente a las catástrofes humanitarias en las que se perfila el terror a la muerte.

Palabras clave:
cuidado; grupos; sueños; pandemia; testimonio

Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não o repetir infinitamente, mas a ousar esboçar uma outra história, a inventar o presente.

Jeanne Marie Gagnebin

Introdução

A pandemia de covid-19, vista em retrospecto do tempo em que o uso das máscaras era obrigatório e o isolamento físico era compulsório, pode parecer um passado distante na nossa memória, mas seu espectro ainda paira como um pes(o)adelo sobre nossos corpos, afetos e mentes. E se não conseguimos imprimir outros gestos e mudar o rumo do progresso técnico, como “esperançava” o texto inspirador do filósofo Bruno Latour (2020), algumas atividades vieram para ficar no intuito de nos ajudar a imaginar outros horizontes políticos possíveis. Entre elas, podemos citar as pesquisas e as propostas que têm a produção onírica como objeto, sejam aquelas que coletaram sonhos por meio de formulários e analisaram tendo como referência diversos autores da psicanálise (Dunker, Perrone, Iannini, Rosa & Gurski, 2021; Mamede, Endo & Sousa, 2020; Pereira & Coelho, 2021), sejam aquelas pesquisas-intervenções que criaram grupos de acolhimento e cuidado em momento de catástrofe humanitária (Castanho, 2021; Castanho, Emílio, Angelis, Silva & Coutinho, 2022; Imbrizi, Silva, Vieira & Freitas, 2021; Imbrizi, 2021).

A primeira autora do artigo estava inserida, à época, em um desses grupos de pesquisas sobre sonhos, principalmente um dos núcleos de São Paulo, coordenado por Miriam Debieux-Rosa, que imprimia a abordagem das intervenções psicanalíticas clínico-políticas nas investigações sobre relatos singulares de sonhos, cuja metodologia era tomar a narrativa onírica como testemunho de um tempo e que, nesse sentido, interpelava tanto o sujeito que sonha quanto aqueles que escutam ou leem um sonho. Essas reflexões culminaram na publicação de dois capítulos de livro que abarcavam as análises de narrativas oníricas articuladas ao contexto pandêmico (Imbrizi, Silva, Lemos, Teixeira & Rosa, 2021; Rosa et al., 2021).

As duas autoras deste artigo, por sua vez, estiveram envolvidas na implantação de um dispositivo grupal em psicanálise, cujo mediador é a partilha de narrativas oníricas (Imbrizi, 2020; Imbrizi, 2021; Imbrizi & Domingues, 2021; Silva, Paegle, Freitas & Imbrizi, 2021). Trata-se do projeto de extensão “Arte e sonho: abordagem psicanalítica nos modos de cuidar das juventudes” (Imbrizi, 2020) e sua principal ação extensionista intitulada “Roda de Conversa sobre Sonhos”. Essa iniciativa está localizada nas intervenções que criaram grupos de acolhimento e cuidado no contexto de catástrofe humanitária.

Sato, Martins, Guedes & Rosa (2017) afirmam que a invenção de dispositivos grupais se faz necessária para responder a um acontecimento inusitado e à interpelação de um momento de urgência aos psicanalistas atentos ao seu tempo, às necessidades e aos desejos da população. Ou seja, um acontecimento em que as pessoas ainda não tinham recursos simbólicos para lidar com os efeitos de uma pandemia que, já naquele momento, previa grandes proporções de mortes e expunha a inabilidade do governo federal para implantar ações com vistas à proteção da população, principalmente com relação às pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Defendemos a singularidade dessa proposta de dispositivo grupal quando a comparamos com outras práticas e produções que privilegiam o sonho como mediador das relações e do encontro entre integrantes de um grupo. Sabemos que a nossa propositura é singular e plural (Kaës, 2011). É plural porque reconhecemos que a proposta está embebida nesse caldo cultural dos projetos de pesquisa e extensão que viram no sonho, na oniropolítica (Dunker et al., 2021), na oniricopandemia (Pereira & Coelho, 2021) e nas intervenções grupais (Castanho et al., 2022) a possibilidade de criar estratégias de sobrevivência no Brasil dos anos de catástrofe humanitária. É singular porque é valorizado, no espaço grupal, o conteúdo onírico manifesto como testemunho de um momento histórico (Beradt, 2017; Endo, 2016; 2018; Imbrizi & Rosa, 2021), como também são privilegiadas as redes associativas produzidas por todos os participantes da Roda. Apenas um sonho é narrado no grupo e ele pode produzir polifonias e polissemias pretendendo criticar o contexto sociopolítico que o embebe.

Nesse sentido, inovamos no método de apresentação do material produzido ao privilegiar a exposição de uma narrativa onírica - não apenas seus trechos ou vinhetas - e as cadeias associativas grupais, exaltando a voz dos sonhantes e participantes do processo grupal ao transcrever tanto a narrativa onírica em sua completude quanto algumas falas dos participantes. A despeito disso, as duas autoras são sobreviventes da pandemia e elas se utilizam da escrita para testemunhar uma parte da nossa história. Houve assim a opção por um modo de narrar a contrapelo (Benjamin, 2012) a história de um sonho produzido durante a pandemia sob a especificidade do contexto sociopolítico brasileiro. O objetivo do artigo é apresentar a experiência de uma ação extensionista, a metodologia de partilha e tratamento das narrativas oníricas, além de ilustrar esse processo por meio de transcrições literais de um sonho acompanhado das cadeias associativas produzidas pelo grupo em um dos encontros do projeto de extensão.

Apresentação da experiência da Roda de Sonhos

A Roda de Sonhos nasceu on-line para os estudantes do segundo ano de Psicologia. Nesse formato, a experimentação aconteceu de março até maio de 2020 e se referia a uma primeira etapa na tentativa de trabalhar em grupo com a temática onírica, e o convite inicial para os participantes era “conte-me os seus sonhos”. A segunda etapa se refere ao fato de que, em junho de 2020, foi oficializado o projeto de extensão e as atividades foram abertas à comunidade acadêmica e ao público externo à universidade, sendo vigentes até a presente data. O público não é fixo, o que possibilita novas participações a cada encontro. Muitas vezes, há a aproximação da ideia mais livre de “oficinas de sonhos”, pois não estamos falando de integrantes e papéis fixos, sendo que há oscilação do número de pessoas - de cinco até 28 sonhantes - nos encontros com periodicidade quinzenal.

A terminologia “roda de conversa” advém do fato de que levamos em consideração a característica específica do projeto político-pedagógico da Universidade Federal de São Paulo - campus Baixada Santista -, centrado na proposta de ensino-aprendizagem mais participativo e horizontalizado. As coordenadoras se inspiraram no conceito desenvolvido por Paulo Freire (1967) em sua proposta de educação popular, a metodologia dos Círculos de Cultura e sua insistência na conjugação do verbo “esperançar”.

A proposta freireana também prevê a horizontalidade de posições na roda de conversa para que as pessoas se sintam confortáveis em expor suas experiências cotidianas. Outros autores que nos apoiaram à época foram: Sigmund Freud (1900/2017), principalmente o livro A interpretação de sonhos, que indicava a importância de privilegiar as associações do sonhante logo após partilhar seu sonho; Pichon-Rivière (1980/1994), com sua proposta de grupo operativo centrado na tarefa; e Charlotte Beradt (2017), com seu modo de tomar a narrativa onírica como testemunho de um tempo, revelando um núcleo comum nos processos de subjetivação inseridos em contextos sociopolíticos totalitários.

Há, também, inspiração no psicanalista e grupalista francês René Kaës (2003; 2004), que enfatiza o espaço interpsíquico do sonho que segue pistas deixadas por Freud. Para o grupalista, o sonho, como foi caracterizado por Freud, é fruto de uma realidade intrapsíquica na qual o cenário onírico se refere a experiências e histórias de vida de um único sonhante. No entanto, foi o criador da psicanálise que também nos legou os conceitos de identificação, transferência e transmissão que ressoam como espaços de indiferenciação e invisibilidade dos elos entre o singular, o plural e o comum, que oferecem subsídios para pensar “o espaço interpsíquico do sonho”.

Kaës denomina de espaço interpsíquico o resultado de “outra fonte de fomentação e onde ele desenvolve efeitos específicos: nesse espaço, são levadas em consideração as condições e os efeitos da capacidade onírica do outro e de mais de um outro” (Kaës, 2003, p. 4). Isto é, o espaço onírico é comum e compartilhado, pois tanto “o espaço psíquico quanto o onírico aparecem como espaços relativamente porosos, encaixados em três outros espaços: o físico e corporal, o intersubjetivo, o social e cultural” (Kaës, 2003, p. 6). Assim, como afirma Kaës (2011, p. 57), “esse sujeito, enquanto sujeito do vínculo, é um sujeito ‘singular plural’ e, nesse duplo sentido, ele é sujeito do inconsciente, trata-se de um sujeito singular-plural e sujeito do inconsciente”.

No que se refere ao manejo do grupo, ele se estrutura em três tempos, após a solicitação de que um dos integrantes narrasse seu sonho. Em um primeiro momento, o sonhante-narrador é convidado a falar sobre as experiências que antecederam ao sonho e que podem ter sido as disparadoras do conteúdo - privilegiamos as primeiras associações da/do sonhante; depois, convidamos os participantes a questionar a/o sonhante e a estabelecer associações ao que foi relatado; no terceiro e último momento, há a proposta de discussão sobre pontos que emergiram nas falas e conversas do grupo que possam encaminhar críticas à cultura e às reflexões sobre possibilidades futuras para a sociedade e o meio ambiente. As coordenadoras têm a função de facilitar a circulação da palavra e fazer intervenções no sentido de contemplar os três momentos.

Desde o início, foi solicitada a autorização dos/das participantes para que os encontros fossem gravados, respeitando as narrativas oníricas em sua integridade e valorizando a singularidade do sonhante no modo de contar o sonho. Também ocorreu um registro mais apurado da partilha da experiência onírica entre os integrantes do grupo.

Nesse percurso, houve transformações no modo de manejar as relações intersubjetivas, facilitar a circulação da palavra no grupo e exercitar intervenções vinculadas às dimensões de tratamento do material onírico produzido pelos participantes na Roda. É necessário referir que a única intervenção grupal mediada pelo sonhar, em terras brasileiras, que tivemos acesso à época, foi ao projeto de pesquisa de Gurski e Perrone (2019). As duas psicanalistas criaram a roda de sonhos com adolescentes, bem antes da eclosão da pandemia, e foram referência para a construção da nossa proposta, porém com diferenças no que se refere às intervenções pautadas nos modos de tratamento do material onírico. Cabe destacar que, após um tempo é que tivemos a oportunidade de localizar publicações no Brasil, cuja proposta dialogava com a nossa, uma delas intitulada de Matriz do sonhar social (Hazan, Knobel & Fernandes, 2014); as intervenções grupais inspiradas nos trabalhos do inglês Gordon Lawrence sobre o sonhar social (Gui & Coelho, 2013; Penna, 2013); e o sonhar grupal (Castanho et al., 2022).

Ressaltamos ainda que o encontro com as ideias de Kaës foi fundamental para os avanços na compreensão do modo de funcionamento do grupo; há vários pontos em nossa proposta que dialogam com a obra do psicanalista e grupalista. Nossa propositura, no entanto, é mais singela que seu arrojado projeto de análise psicanalítica em grupo. O que pretendemos é produzir um espaço de acolhimento e cuidado que, ao se estruturar no nosso diálogo com a literatura de testemunho, tem nos ajudado a avançar na crítica às condições sociopolíticas que produzem o sofrimento, o desejo e o sonho. Essa parece ser a inovação na proposta de dispositivo grupal apresentada neste artigo: a articulação entre três modos de tratamento do material onírico e as redes associativas grupais que desembocam em uma crítica cultural. Trata-se de uma crítica ao modo de organização capitalista inspirado em autores da Teoria Crítica da Sociedade, que visa a um posicionamento político diante da desigualdade social brasileira. Ou seja, visamos analisar as implicações do psicanalista diante da dimensão sociopolítica do sofrimento (Rosa, 2016).

O método de trabalho na Roda de Sonhos

O modo singular de tratamento do material onírico

O modo de tratamento singular do material onírico que pauta as intervenções na Roda faz referência ao livro A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/2017). Nessa dimensão, prioriza-se a história de vida do sonhante, suas experiências nos dias que antecederam a produção do pensamento do sonho - o que Freud denomina de restos diurnos -, as suas associações sobre o material onírico e os possíveis descompassos entre os conteúdos latentes e manifestos no sonho relatado. Busca-se caracterizar o sonho, se era uma realização de desejos, um sonho de angústia ou um sonho traumático. Estes últimos não protegiam o sono do sonhante, mas o despertava de modo a produzir incômodos. Cabe aqui também ressaltar as ideias de Freud (1920/2010a) e Ferenczi (2011) sobre os sonhos traumáticos que repetem a cena que causou o choque como modo de apoiar o sonhante na conquista de uma posição ativa diante da situação que ele viveu passivamente. De modo geral, a maioria dos sonhos compartilhados na Roda corroboram as observações de Pontalis (2005) sobre a produção onírica na contemporaneidade: o fato de que os sonhantes produzem um sonho sem fantasia, invadido pelos restos diurnos e pela literalidade, como será demonstrado mais à frente no “sonho carnavalesco em um ano pandêmico”.

O modo comum e partilhado de tratamento do material onírico

A segunda dimensão de tratamento do material onírico diz respeito ao que o sonho revela de elementos comuns às experiências de cada participante, apresentadas nas articulações estabelecidas com o contexto social e político do Brasil. No caso, o fato de que a gestão da pandemia estava marcada pelos resultados das eleições de 2018 e a ascensão ao poder de um governo de extrema-direita. Há, portanto, inspiração no trabalho produzido por Charlotte Beradt (2017), que percebeu a literalidade das narrativas oníricas que apresentavam pouca oscilação entre conteúdos manifestos e latentes, mas nossa proposta vai mais além, associando ao conteúdo testemunhal do sonho uma crítica cultural às condições que delineiam um sofrimento que se manifesta singularmente, mas é fruto da dimensão sociopolítica (Rosa, 2016).

Beradt tratou as narrativas como textos literários que testemunharam um momento político traumático para a humanidade, assim como foi feito, mais tarde, com a literatura de testemunho que faz referência ao sonho de Primo Levi sobre as suas experiências no Campo de Concentração (Endo, 2016; 2018; Imbrizi & Rosa, 2021). À vista disso, muitos sonhos literais são contados na Roda de Sonhos, e os participantes são incitados a se deixarem afetar por suas figurabilidades e seus conteúdos, fomentados pela pandemia de covid-19, que expõem questões sociais e culturais do momento político brasileiro.

No que se refere ao que pode ser partilhado no grupo, podemos citar a noção de espaço interpsíquico, que faz referência ao “espaço transicional e criativo” passível de ser construído tendo o sonho como referência. O espaço do sonho que é construído “entre” a singularidade e o encontro com o outro e com o grupo, no qual é possível sonhar junto (Kaës, 2003; Pontalis, 2005; Winnicott, 2021).

Assim, o sonho, a partir do momento em que é narrado no grupo, não pertence mais somente ao sonhante, e se transforma em produção onírica concernente aos participantes daquele encontro. É o exercício de uma função fórica no grupo, denominada “porta-sonho”: um sonhante que sonha por todos e que pode representar elementos referentes à realização de desejos, medos e traumas do grupo. O porta-sonhos, desse modo, seria o lugar ocupado pelos pontos de encontro entre quatro espaços: o do sonhante, o da fantasia compartilhada, o da interdiscursividade (Fernandes & Hur, 2022) e o da estrutura intersubjetiva, como demonstram as transferências grupais. É essa configuração que produz o sonho que, muitas vezes, pode ser dirigido para o grupo. Como nos ensina Ferenczi (2011), os diferentes endereçamentos de um sonho fazem parte do trabalho do sonho.

Portanto, a narrativa onírica endereçada aos demais participantes, no encontro, possibilitaria uma mobilização psíquica no grupo, convocando reflexões singulares, plurais e comuns sobre a constituição subjetiva dos participantes e o contexto sociopolítico. O porta-sonhos seria quem forneceria uma figuração dos conflitos e das fantasias grupais que não teriam sido apresentados até então. Seria nessa função intermediária que os outros encontrariam apoio para os processos de elaboração psíquica. Conforme sustenta Kaës (2004, p. 169), “sonhos viajam entre os membros de um grupo, personagens, ‘cartas/letras’ são trocadas, e essa troca supõe uma porosidade dos envoltórios psíquicos, eles mesmos contidos pelas identificações no envoltório narcísico do sonho compartilhado”.

O modo prospectivo de tratamento do material onírico

A dimensão prospectiva dos sonhos, por sua vez, se refere ao que haveria de elementos na produção onírica que pudessem apontar a possibilidade de construção de novos horizontes políticos. Esse modo de trabalhar com o sonho está articulado às contribuições do ambientalista Ailton Krenak e do neurocientista Sidarta Ribeiro (Krenak & Ribeiro, 2020). Para eles, o material onírico ajuda na organização simbólica, potencializa a capacidade de imaginar outros modos de organizar a vida em sociedade visando ao bem-viver, ao bem comum. O líder indígena “esperança” que é possível que o material onírico potencialize a construção de um novo corpo que caiba e proteja o planeta Terra e todos os seres viventes. Ribeiro (2021) afirma que a capacidade de sonhar está presente em qualquer mamífero, mas somente o ser humano é capaz de compartilhar narrativas oníricas para tecer o devir coletivo. Destaca-se que a incorporação da cosmogonia dos povos originários no terceiro modo de tratamento do material onírico é outra das diversas especificidades na proposta de dispositivo grupal em exposição neste artigo. Essa dimensão corrobora com achados de Freud:

No fundo, o sonho não é outra coisa senão uma forma especial de nosso pensamento, .... Digo isso para levar em conta a famigerada “tendência prospectiva” do sonho. O fato de o sonho se ocupar das tentativas de resolver as tarefas que se apresentam à nossa vida psíquica não é mais notável do que o fato de nossa vida consciente de vigília se ocupar com isso, cabendo apenas acrescentar que esse trabalho também pode acontecer no pré-consciente. (Freud, 1900/2017, p. 533)

Essa ideia também está presente na concepção de W. Bion (1989): o sonho como Uma memória de Futuro. Podemos ir além, ao incorporar as contribuições de autores decoloniais (Limulja, 2022) que questionam o antropoceno e propõem que imaginemos outros gestos para barrar o modo de produção capitalista (Latour, 2020) e a consequente devastação da natureza. Cabe também acrescentar a crítica à cultura aos moldes dos autores da Teoria Crítica da Sociedade, como as de Walter Benjamin (2012), que nos convida a ouvir a história dos vencidos. Envidamos não somente a produção de críticas às direções tomadas pelo progresso técnico, mas sim convidar, por meio do sonho, os participantes da Roda a imaginarem proposituras com vistas à transformação da sociedade. De todas as propostas de dispositivos grupais a que tivemos acesso, a nossa é a que mais destaca as contribuições dos filósofos vinculados à Escola de Frankfurt e a crítica às condições sociopolíticas que produzem sofrimento.

A narrativa onírica compartilhada no grupo em uma Quarta-Feira de Cinzas

O sonho foi relatado em um encontro do grupo do dia 17 de fevereiro de 2021. À época, o Brasil totalizava 242 mil mortos, registrando mais de mil mortes por dia (Brasil soma 242, 2021). A vacinação estava acontecendo, mas somente 2,55% da população brasileira tinha tomado a primeira dose e somente 0,32%, a segunda (Brasil soma 242, 2021).

O sonho carnavalesco em um ano pandêmico

Estava recebendo em casa um parente, era meu tio. Ele vinha de uma outra cidade, era a primeira vez que visitava minha casa. Estávamos em isolamento, estávamos na pandemia. No entanto, meu tio queria conhecer a cidade. Entramos em seu carro para dar uma volta. O plano era ficar vendo a cidade pelas janelas do carro. Em determinado momento, meu tio falou assim: “vamos a pé” e decidiu estacionar o carro e caminhar pelas ruas. Eu achava perigoso, não queria sair do carro, mas saí.

Aí no sonho, a gente ia, andava pela cidade. A gente saía do carro e andava pelas ruas e, num momento, eu olhava para uma viela e tinha um bloco de carnaval. As pessoas aglomeradas, todas, aquela coisa que hoje a gente olha com terror, mas que no sonho eu pensei: “meu Deus! É carnaval, né?” E esse meu tio, ele queria ir e eu ficava olhando o bloco e pensava “meu Deus, eu quero ir, mas e a covid? E a pandemia?”. E aí eu ficava assim, eu dava um passo em direção ao bloco, não, nunca chegava à multidão, mas eu chegava perto e eu pensava: “não, não, não posso ir”, e retrocedia.

Meu tio saiu em direção ao bloco, muito animado. Eu olhava e desejava muito estar ali, mas hesitava em seguir em direção ao bloco, dava um passo para a frente, parava, pensava, olhava e dava um passo para trás. Até o momento que eu falei: “não, a gente precisa voltar para o carro, a gente não pode ficar aqui, essas pessoas estão sem máscara”. Chamei meu tio para que retornássemos ao carro. Contrariado, aceitou e no caminho até o carro encontrávamos com um colega de turma da escola conhecido como Bahia. Bahia tinha em suas mãos uma cartela de LSD 1 . Meu tio pediu 1/2 para que tomasse. Bahia me entregou 1/4. Colocamos na boca e entramos no carro. Sugeri que fôssemos para casa de uma das minhas melhores amigas. Fiquei atenta, pois dada a situação do LSD ...., pensei que precisava me concentrar o dobro do necessário para não errar o caminho. Direcionava as ruas para acessar a casa, mas no meio do caminho me lembrava que minha amiga não morava mais lá e então sugeri que fizéssemos um retorno para irmos para a localidade certa. O sonho acabou quando retomamos o caminho para a nova casa de minha amiga.

A dimensão singular que baliza a análise do sonho e as intervenções grupais

Gal2, a sonhante, se define como uma pessoa bem carnavalesca e que foi muito difícil para ela passar esse ano sem as festas de carnaval. Diz que gosta da alegria da data, mas agora, com o governo Bolsonaro, é só tristeza. Não reconhece a pessoa que representa o tio, mas considera que há muitas figuras masculinas em sua vida que estão condensadas na imagem construída por identificações, inclusive o seu atual namorado, que já apresentou muitas cidades a ela. Relata que o afeto que emanava no sonho se referia a certo constrangimento definido como “meio sem saber se devia fazer ou não e isso causou um pouco de vontade de voltar logo para casa”; uma dúvida, uma tendência mais para o recolhimento do que para se arriscar em aglomerações de festas carnavalescas.

Entretanto, havia a força contrária representada pelo tio, como se uma voz dissesse: “Não, a gente não vai voltar para casa, a gente vai conhecer a cidade, a gente vai dar mais uma volta”. A casa da amiga, que esteve muito presente em sua infância, representava um ambiente familiar que já não existe mais, os pais de ambas sempre conviveram, a amizade é forte e compartilhada. Em relação às figuras paternas, há a sensação de que elas já não são mais as mesmas quando comparadas ao seu olhar de criança voltado para um passado perdido no tempo. A sonhante já teve experiências com LSD na realidade e diz que é uma droga muito cara.

Podemos afirmar que é um sonho de realização de desejo, pois a sonhante foi para o carnaval no espaço onírico. A cidade aparece cheia de surpresas e expressa o perigo das aglomerações e o terror da morte (Birman, 2020) representado pela possibilidade de contaminação pelo vírus. O LSD é associado à certa transformação na percepção da realidade e revela as diferentes posições das pessoas diante das normas sanitárias.

A dimensão comum e compartilhada que baliza a análise do sonho e as intervenções grupais

Os participantes do grupo são convidados a se manifestar sobre o sonho. Eles comentam que a sonhante realizou o desejo de todos os integrantes do encontro, pois, mesmo em seu movimento oscilante de ir e não ir, ela foi para o carnaval. Há associações entre LSD e o partido anterior de Jair Messias Bolsonaro - PSL -, pois um altera a percepção e o outro, o presidente e o partido, produzem percepções alteradas da realidade. Outra cadeia associativa foi a de que o efeito do LSD pode conduzir a pessoa para outros lugares e dimensões e revela o desejo do grupo de fugir de um país à deriva nas mãos de um desgoverno ultraconservador.

A condensação entre a figura do tio e o namorado, por sua vez, faz pensar que um relacionamento amoroso é repleto de identificações cruzadas e de movimentos de ir e vir, e pode desencadear o desejo de controlar o que não se tem controle. Uma integrante discute a ausência do “não” no inconsciente, pois, às vezes, uma negação se manifesta para mascarar a afirmação daquilo que o sujeito deseja. Assim, há a impressão de que Gal não errou o caminho, mas foi na direção exata para a qual desejava ir desde o princípio.

Outra cadeia associativa vai na direção de que a sonhante expressa o mecanismo de defesa “negação” (Freud, 1925/2011) inerente aos discursos dos negacionistas na contemporaneidade: há aqueles que negam que a pandemia existe e, por conta disso, desobedecem às normas sanitárias e frequentam blocos de carnaval que produzem aglomeração. Há o retorno da ideia de controle, que revela o fato de que as pessoas não conseguem controlar tudo o que está à sua volta, mas existe uma falsa sensação de controle sobre a própria vida que visa tamponar o desamparo estrutural dos seres humanos.

Houve associações dos integrantes com atividades que os participantes postergaram e agora, com a pandemia, não “tem o mais tarde eu vou”. Uma das pessoas afirma achar que o sonho de Gal gera o seguinte questionamento: como é possível aproveitar as circunstâncias que são dadas? Como aproveitar os sonhos possíveis? Ademais, ela compartilha a ideia de que as discussões no grupo significam um convite, uma oportunidade para o despertar para a vida, tanto no sentido do que é passível de transformação quanto daquilo que é preciso aceitar e que faz parte do incontrolável e imponderável próprios das relações intersubjetivas e dos acontecimentos sociopolíticos.

Outro elemento ressaltado nas cadeias associativas diz respeito a algumas reclamações das pessoas, tais quais: “eu não estou vivendo”, “um ano que não aconteceu”, “o novo normal”, o uso do LSD e os efeitos de outros tipos de drogas. Os exemplos citados se referem ao fato de que o sujeito frequenta o shopping, consome em excesso, está preocupado com o aparentar “ter” e vive para a externalização de uma suposta felicidade. Parece que se sentir bem, para essas pessoas, significa usar a “droga”, que é fugir da realidade por meio do consumo.

Além disso, no cenário do sonho, a casa já não existe mais. Então é preciso mudar de rota para novamente procurar um lugar de proteção. Talvez todos os lares que signifiquem proteção estejam fechados. Familiares se transformaram em infamiliares e lugares que antes eram acolhedores agora produzem incômodo (Freud 1919/2021) e estranhamento. Como se o sujeito falasse para si mesmo: “Não consigo olhar para dentro de mim, não consigo ficar comigo, então eu preciso fruir esse carnaval neste ano de qualquer jeito, e agora, mesmo que eu fique doente depois e morra”.

No sonho, a droga aparece como o LSD, mas no dia a dia, durante a pandemia, é possível ter outras formas de se entorpecer, de mudar a percepção da realidade. Trata-se do fato de que o passado não é mais referência para as pessoas viverem o momento pandêmico, pois elas precisam de outros recursos simbólicos, outras ferramentas. A questão que ressoou no grupo foi: quais os artefatos que nós temos que não são os de reproduzir nosso passado e que não sejam os do gozo imediato do sujeito em detrimento do coletivo? Um sujeito cujo lema é “eu quero agora, imediatamente e mesmo que isso me destrua”. Ou seja, há atos repetitivos que levam à autodestruição.

Há, também, a referência a uma cultura que evita falar sobre a finitude da vida. Houve quem resgatasse ideias do senso comum sobre o fato de que a morte só se aproxima quando a pessoa é idosa. Como se ela já tivesse vivido o tempo dela, então melhor que morra. Cabe ressaltar que esse discurso também está presente nas narrativas do maior representante do governo federal à época (Sakamoto, 2020). Há a hipótese de uma racionalidade específica que pauta o pensamento das pessoas que não aceitam as normas de isolamento: já que ela vai morrer ou tem uma convicção cega de que essa morte não chegará para ela agora, a pessoa vai sair e socializar sem máscara.

A negação pode estar referida ao fenômeno no qual algumas pessoas aceitam que corpos caiam, sejam enterrados, que jovens negros periféricos sejam assassinados, e isso não gera indignação, como se estivéssemos próximos a um processo de recusa da realidade e de criação de um universo paralelo. Esse processo de recusa foi descrito por Freud (1927/2014) no texto sobre o fetichismo. Nesse sentido, é como se o grupo refletisse criticamente sobre uma reação comum que afeta brasileiros e brasileiras: a naturalização da violência contra as pessoas em situação de vulnerabilidade social. Como se as pessoas estivessem acomodadas em assistir a seres humanos morrendo, ver vacinas não sendo aplicadas em idosos, pois alguns profissionais de saúde fingiram aplicá-las (Patriarca & Júnior, 2021).

A participante assinala que esse absurdo retoma a nossa raiz escravocrata ao afirmar que estamos recusando a percepção da realidade desde 500, 600 anos, pois continuamos a transformar alguns seres humanos em objetos descartáveis. Ela reconhece que sua fala tem um tom de desabafo, por conta do espaço de confiança construído no grupo que propicia a sua reflexão sobre os sentimentos de revolta silenciados no cotidiano.

A dimensão prospectiva que baliza a análise do sonho e as intervenções grupais

Essa camada de tratamento se refere à dimensão prospectiva de modo a destacar quais são as aspirações dos participantes do grupo no que se refere ao futuro da sociedade. Ou seja, trata-se da questão que não quer calar: como construir um modelo de sociedade que inclua a morte e que, ao mesmo tempo, as pessoas não recusem a fragilidade inerente à ideia de finitude humana e a devastação do meio ambiente? Questionando, outrossim, o homem como centro da terra (e seus modos extrativistas de lidar com o planeta) de maneira a apontar na direção de partilha do espaço geopolítico com outras espécies animais e minerais.

Outra cadeia associativa produzida pelo grupo diz respeito às impressões sobre o fato de que a sonhante oscila em sua decisão de ir ou não ir, o que pode estar relacionado com a pergunta “O que eu tenho a perder?”. Talvez nada. Ela afirma que, dependendo do gênero e da orientação sexual, da classe social, da condição étnico-racial, às vezes, a morte é quase um alento. A vida, na verdade, é rara. Outra integrante complementa dizendo que acha que é essa a questão, não a morte que é rara, é a vida que se torna algo extremamente raro, já que viver já é muito perigoso para alguns grupos, ou seja, não se sabe se a sociedade não aceita a ideia da morte ou se, na verdade, há algumas vidas que são mais matáveis e não passíveis de luto (Butler, 2018) no cotidiano.

Houve a partilha de uma experiência de estágio com jovens em situação de vulnerabilidade social que vivem em territórios nos quais a morte acontece como ordem natural das coisas, subsidiada pelo Estado, financiada pelo capital. Um comentário sobre a dessensibilização em relação à morte e à violência levou a uma discussão no grupo sobre o fato de que, se as pessoas morrem, nada acontece, e cabe refletir sobre seus sentidos: será que algumas vidas são consideradas descartáveis, pois o que interessa é a economia, e não a vida? A manutenção de um posto de trabalho vale mais do que a vida?

Há também a associação de que o movimento de ir e vir no sonho também pode se referir às duplas mensagens, representadas pelo discurso da ciência - pautado nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) - e o discurso dos representantes do governo brasileiro à época, vinculados às forças da extrema direita. Há a referência ao absurdo de as aulas presenciais voltarem, mesmo com o alto risco de contaminação, pois, por mais que a vacinação esteja avançando, prevalece a sensação de que as pessoas estão anestesiadas, como se professoras, assim como a participante, não existissem. Há a referência aos que estão mortos-vivos. Para a participante, o LSD do nosso cotidiano tem sido muito forte porque as pessoas não percebem que estão indo para o matadouro, associando-o com a instituição escolar.

Uma professora do ensino fundamental, por sua vez, afirma que não existe mais alegria nas aulas que ela está ministrando, diz olhar para aquelas crianças no contexto escolar, que antes era um ambiente vivo e agora está morto, produzindo uma sensação de pós-guerra na comunidade escolar. Antes, a escola representava a potência de vida, agora ela figura a finitude humana, porque o que importa é a instituição escolar estar com as portas abertas, e não as relações que acontecem lá. A participante pergunta para as pessoas ao seu redor: “Você não está vendo isso? Você está vendo isso?” Direcionando a seguinte reflexão para o grupo: antes a quarta-feira de carnaval era motivo para que todos nós estivéssemos numa outra atmosfera, mas há um cheiro de enxofre no dia de cinzas em contexto da pandemia.

Freud (1920/2010a, 1915/2010b) afirma que cada ser vivo deseja morrer à sua maneira, mas na pandemia até essa possibilidade está impedida. Nos processos associativos do grupo, o que emergiu foram diversas camadas de significados relacionados à finitude humana que, construídas com delicadeza, dispararam árduas reflexões sobre a contemporaneidade. Igualmente, esse é um grupo que não aceita o negacionismo e, em decorrência disso, ao discutir o processo de negação, pode perceber como ele nos atinge diretamente e, muitas vezes, também nos constitui. Podemos entender o relato dessas discussões como testemunho de um momento histórico e, assim, em formato de autorreflexão crítica, podem operar como disparadores de possíveis ações coletivas rumo à construção de novos modos de viver em sociedade. Cabe destacar outra especificidade de nosso modo de tratamento do material onírico, que é a nossa inspiração na cosmogonia dos povos originários: a valorização do sonho como um articulador de ações coletivas para o bem-estar de todos os seres viventes e sencientes.

Considerações finais

Ao apresentar a experiência de um dispositivo grupal em psicanálise, foi possível dialogar com psicanalistas e grupalistas que já vinham pesquisando o sonho como mediador das relações grupais, seja para fins terapêuticos, como na clínica psicanalítica grupal de René Kaës, seja para implantar a técnica do sonhar social criada por Lawrence (Castanho et al., 2022; Gui & Coelho, 2012; Penna, 2013), seja nos experimentos psicodramáticos que também se utilizam do sonhar social (Hazan, Knobel & Fernandes, 2014). Porém, pudemos demonstrar que a experiência da Roda de Sonhos tem especificidades: o acolhimento grupal e a perspectiva de tomar a narrativa onírica compartilhada no grupo como testemunho de um tempo, possibilitando contar a história a contrapelo (Benjamin, 2012); criticar a cultura que se estrutura na racionalidade instrumental e antropocêntrica; explicitar a dimensão sociopolítica do sofrimento. E é essa crítica imanente que viabiliza que o sujeito imagine outros gestos que confrontem o modo de produção capitalista vigente (Latour, 2020).

Neste artigo, pudemos evidenciar que a ação de extensão Roda de Conversa sobre Sonhos já percorreu mais de três anos de atividades ofertadas para um público diverso e, no decurso do tempo, sofreu alterações no modo de manejar as relações intersubjetivas em um espaço onírico, compartilhado e aberto para a livre associação de seus participantes.

O manejo do grupo foi se configurando, cada vez mais, no modo como ocorria o impacto da narrativa onírica nas relações estabelecidas entre os participantes da Roda. Como foi possível demonstrar na narrativa onírica que apresentamos neste artigo, o conteúdo manifesto dos sonhos comumente remetia às temidas (e desejadas) aglomerações, à morte, ao enclausuramento e à fuga, configurando-se como um testemunho de um momento histórico brasileiro que não pode ser esquecido: a gestão mortífera do chefe maior de nossa república em tempos pandêmicos e a crítica contundente que deve ser feita à sua gestão para que a história tanto da ditadura quanto de toda forma de manifestação do fascismo não se repita no Brasil e em qualquer outro país.

Já o conteúdo latente, que emergia por meio das cadeias associativas do grupo, muitas vezes causava o descontentamento com a situação política vigente e os afetos em relação à pandemia, entre suas infinitas possibilidades. Essas associações, ainda, desvelaram algo tanto da singularidade do sonhador, quanto da pluralidade de vozes dos outros participantes, permitindo um exercício crítico sobre si, sobre a interdiscursividade no grupo e o cenário sócio, político e cultural. No caso do sonho da Quarta-Feira de Cinzas de carnaval, “o vai e não vai” da sonhante refletiu as duplas mensagens (entre o discurso da ciência e as declarações do presidente à época) que aumentavam o desamparo de todos os brasileiros diante do terror da morte (Birman, 2020).

Entre as polissemias e interdiscursividades produzidas na Roda, primeiro apareceu o raciocínio de que é difícil encarar a morte e que a sociedade que não prepara os sujeitos para ela, mas os processos associativos desencadearam um questionamento mais complexo: “nós estamos em uma sociedade distópica na qual não vale a pena viver, viver para quê e para quem?”, conduzindo à reflexão de que estamos levando uma vida sem sentido: “A vida é tão rara, mas vale a pena viver?” Foi possível problematizar que a ilusão de que os jovens não morrem pode ser contrastada com as vidas matáveis dos jovens, negros, de classe social baixa e que vivem em territórios desassistidos pelo Estado. Ou seja, é onde emerge a ilusão de que só quem está na periferia é quem vai morrer e que balas perdidas não atingem a todos que estão em segurança em suas casas gradeadas e com seus sofás revestidos de veludo. O vírus desconstruiu essa naturalização da violência à brasileira e a doce ilusão de segurança de alguns privilegiados, pois na verdade, ninguém está assegurado na sociedade capitalista cuja ameaça de ascensão das forças fascistas é uma constante. Foi em 2018 que o inimigo, representante da extrema direita, venceu as eleições no Brasil. Portanto, rememoremos o alerta do filósofo Walter Benjamin: “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador [do psicanalista] convencido de que tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer” (Benjamin, 2012, p. 244).

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    Gal, nome fictício que homenageia Gal Costa, a nossa cantora carnavalesca das festas do interior.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    22 Fev 2024
  • Aceito
    20 Mar 2024
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