Os Kaiowá e Guarani se organizam em parentelas bilaterais, reunindo certo número de fogos domésticos. Cada parentela é articulada e politicamente dirigida por um ou mais casais de velhos, os donos da casa – ogajara, metaforicamente reconhecidos como os avós (ramõi e jaryi) de toda a parentela. Até 1988, o SPI e a Funai impuseram o deslocamento das parentelas de seus territórios de ocupação tradicional para reservas, e implantaram aí um regime de controle político, instrumentalizando-se do recurso da administração indireta, nomeando um “capitão” e auxiliares indígenas. Esse regime se mantém até hoje, a despeito das mudanças na legislação. Resultam daí conexões, oscilações e contrapontos entre um sistema político que poderíamos nominar como “presentação”, baseado na figura do líder diretamente vinculado à reciprocidade entre parentes, e um sistema político pretensamente representativo, onde a pessoa que lidera o grupo da “capitania” intenta representar todas as parentelas reunidas na reserva, acionando a categoria “comunidade” ou “aldeia”. Mas, inconformadas com esse sistema imposto pelo Estado, as parentelas kaiowá e guarani constituíram importantes espaços de fuga, como nas retomadas. Estas são situadas como tentativas de operar com suas próprias referências organizacionais, orientadas pela reciprocidade entre parentes – teko joja, conjugando guerra e festa.
PALAVRAS-CHAVE
política indígena; indigenismo; Kaiowá e Guarani; autonomia indígena