Nós escolhemos a vida acadêmica movidos por uma vocação: a de criar e compartilhar conhecimento e de contribuir para o desenvolvimento de outras pessoas. Nesse sentido, causa surpresa e até certo incômodo a dificuldade recorrente em encontrar revisores dispostos a colaborar com o processo editorial. É como se as pressões da vida acadêmica - a sobrecarga de atividades docentes, a exigência por produtividade em múltiplas frentes e a falta de reconhecimento formal da revisão - nos afastassem, pouco a pouco, do nosso propósito original.
De fato, a vida editorial traz um paradoxo conhecido por qualquer editor ou editora: quando submetem seus artigos, os autores desejam que sejam avaliados com rapidez e qualidade; no entanto, quando convidados a revisar, muitos pesquisadores respondem que não têm tempo disponível ou nem respondem ao convite. Esse paradoxo é ainda mais desafiador no Brasil, onde a infraestrutura científica depende fortemente do trabalho voluntário de pesquisadores. Revisar não é apenas uma contribuição pontual: é uma engrenagem essencial para o funcionamento do sistema de publicações acadêmicas. E exige não apenas disponibilidade, mas também um compromisso com a coletividade acadêmica.
Um periódico científico pode ser entendido como uma plataforma de dois lados, que conecta autores - provedores de conteúdo científico - e leitores - consumidores desse conhecimento (Eisenmann et al., 2006). Essa interação é mediada por revisores, que funcionam como o mecanismo que garante qualidade, relevância e credibilidade ao que circula na plataforma. Sem revisores, o sistema simplesmente não funciona: artigos ficam sem avaliação, autores aguardam indefinidamente, leitores deixam de ter acesso a novos achados e os periódicos sofrem com métricas e reputação prejudicadas.
Na Revista de Administração Contemporânea (RAC) e na Brazilian Administration Review (BAR), periódicos da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD), esse modelo assume características particulares. Os periódicos da ANPAD adotam as práticas da ciência aberta (open science): não cobramos taxas de submissão, não cobramos para publicação e oferecemos acesso gratuito e irrestrito a todo o conteúdo. A sustentabilidade desse modelo depende de um princípio simples: o engajamento voluntário da comunidade acadêmica. Em termos de efeitos de rede (Gawer & Cusumano, 2014), quanto mais revisores ativos e comprometidos, mais rápido e robusto é o processo editorial, beneficiando todos - autores, leitores e a própria reputação da revista. O contrário também é verdadeiro: a falta de revisores qualificados e engajados reduz a eficiência da plataforma e afeta todo o ecossistema. Nesse sentido, revisões de qualidade fortalecem todo o ecossistema e contribuem para que mais pesquisas relevantes sejam publicadas e compartilhadas no nosso país.
Por exemplo, quando temos dificuldades para achar revisores, o processo de avaliação de um manuscrito é atrasado, o que prejudica muito os autores (que esperam uma decisão célere, para que possam ou publicar ou redirecionar o trabalho para outro periódico), os leitores (que demoram mais tempo para ter acesso ao novo conhecimento que foi criado), os editores (que precisam buscar estratégias para gestão do fluxo editorial em detrimento de outros avanços) e o próprio periódico (que tem suas métricas de prazos prejudicadas junto aos indicadores e bases de dados, comprometendo sua avaliação e reputação).
Além disso, engajar-se como revisor não é suficiente: é preciso revisar bem. Nesse sentido, um ponto de partida valioso é o EMPATHY framework, proposto por Sridhar (2025) no Journal of Marketing. Embora desenvolvido em um contexto de periódicos internacionais consolidados, seus princípios podem e devem inspirar a prática no Brasil. A escolha da palavra EMPATIA como acrônimo foi muito interessante, pois realmente revisar um trabalho deve ser um ato de empatia. É um momento em que o revisor se coloca no lugar do leitor e do autor, pensando em como pode contribuir para aquele trabalho. Afinal, estamos como revisores, porém somos sempre autores e pesquisadores.
A partir da empatia, a proposta de Sridhar resume-se em sete dimensões:
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End goal in mind - compreender a missão e o escopo da revista ao avaliar.
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Developmental mindset - adotar uma postura de mentor, ajudando o autor a aprimorar o trabalho.
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Peruse thoroughly - ler com atenção e compreender antes de criticar.
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Allocate critique wisely - priorizar questões centrais, distinguindo entre revisões maiores e menores.
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Tone - evitar toxicidade, ser profissional e respeitoso.
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Holistic and balanced assessment - reconhecer forças e fraquezas de forma equilibrada.
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Your review as a roadmap - estruturar o feedback de forma clara e acionável.
Cada uma dessas dimensões pode ganhar adaptações práticas. Por exemplo, peruse thoroughly pode significar dedicar tempo para compreender a metodologia empregada, ainda que não seja a preferida do revisor; allocate critique wisely pode se traduzir em separar com clareza observações estruturais de ajustes formais; e tone é particularmente relevante diante de um cenário acadêmico marcado por escassez de tempo, em que comentários ríspidos tendem a desestimular autores em início de carreira, e, claro, são pouco construtivos. Especificamente sobre tone, é importante acrescentar que uma boa revisão jamais será uma destruidora de artigos. Muito pelo contrário: uma boa revisão constrói, melhora, clarifica, auxilia.
Revisões construtivas trazem benefícios individuais e coletivos: para autores, aumentam as chances de publicação e enriquecem a qualidade da pesquisa; para os periódicos, reduzem prazos, elevam padrões de qualidade e fortalecem seu posicionamento no ecossistema científico. Mas queremos explorar aqui as vantagens para os revisores.
Existem as vantagens mais tangíveis, como ampliar a reputação acadêmica, fortalecer a rede de contatos e abrir portas para participação em conselhos editoriais. Além disso, revisar fortalece competências metodológicas e analíticas, pois, ao avaliar o trabalho dos pares, o pesquisador se depara com abordagens teóricas e técnicas que ampliam seu repertório. Essa prática constante refina a própria escrita científica e melhora a capacidade de estruturar argumentos com clareza. Porém, é mais que isso. Bons revisores são, em certo sentido, coautores dos artigos que revisam. Essa generosidade está no centro da vida acadêmica e é extremamente gratificante e engrandecedora. Quando revisamos, compreendemos melhor o ‘outro lado’ e vamos amadurecendo como pesquisadores. Ganhamos uma percepção mais profunda de como editores e revisores recebem e analisam trabalhos, sobre o que funciona (e não funciona), sobre o processo de publicação e o que é esperado da revisão por pares. Nesse sentido, ao revisar, nos tornamos pesquisadores melhores e, quanto maior o engajamento no processo editorial, mais clareza adquirimos sobre sua dinâmica, o que nos permite contribuir de forma mais efetiva e aumentar as chances de progressão no fluxo editorial.
Como editores-chefe da RAC e da BAR, deixamos aqui um convite: façam revisões. Mais do que um gesto de colaboração, essa é uma responsabilidade coletiva que sustenta a ciência no Brasil, em especial a ciência aberta, dando mais transparência a todo o processo. Revisar é mais do que colaborar: é exercer liderança acadêmica. Quando revisamos, não apenas ajudamos a construir ciência, mas projetamos o futuro da produção científica no Brasil, sustentado por engajamento, empatia e compromisso coletivo com o avanço do conhecimento.
Referências bibliográficas
- Eisenmann, T., Parker, G., & Van Alstyne, M. (2006). Strategies for two-sided markets. Harvard Business Review, 84(10), 92-101.
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Gawer, A., & Cusumano, M. A. (2014). Industry platforms and ecosystem innovation. Journal of Product Innovation Management, 31(3), 417-433. https://doi.org/10.1111/jpim.12105
» https://doi.org/10.1111/jpim.12105 -
Sridhar, S. (2025). Constructive peer review made practical: A guide to the EMPATHY framework. Journal of Marketing, 89(3), 1-12. https://doi.org/10.1177/00222429241312127
» https://doi.org/10.1177/00222429241312127
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Financiamento
Os autores informaram que não houve suporte financeiro para a realização deste trabalho.
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Verificação de Plágio
A RAC mantém a prática de submeter todos os documentos aprovados para publicação à verificação de plágio, mediante o emprego de ferramentas específicas, e.g.: iThenticate.
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Disponibilidade dos Dados
A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
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Como citar:
Chimenti, P., & Limongi, R. (2025). Revisar é construir: A sustentabilidade da ciência e o papel dos revisores. Revista de Administração Contemporânea, 29(4), e250305. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2025250305.por
Editado por
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A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
