Resumo
As principais dimensões das escolhas públicas na economia brasileira, estabelecidas a partir do modelo da public choice. Esse foco, quando aplicado a uma economia que opera sob regras instáveis, como é o caso do Brasil, permite que melhor se entenda o funcionamento dos mecanismos da intermediação política, em sua relação com as propriedades dos resultados de política pública. Atenção especial é dada à opção do governo em produzir tais resultados, seja por políticas convencionais que preservam as instituições, seja pelo caminho de alterar as próprias regras constitucionais.
public choice; política pública; regras constitucionais; medidas provisórias
Abstract
The main dimensions of economic policy in the Brazilian economy based on the public choice model. This approach, when applied to an economy that operates under unstable rules, as is the case of Brazil, allows a better understanding of how political mediation mechanisms work in their relationship with the properties of public policy results. Special attention is given to the government choice to bring about these results, either through conventional policies that preserve the institutions, or by changing the very constitutional rules.
public choice; public policy; constitutional rules; temporary acts
ARTIGOS
Escolhas públicas no Brasil
Public choices in Brazil
Jorge Vianna Monteiro
Professor associado do Departamento de Economia da PUC-Rio e professor de políticas públicas no Cipad/Ebape/FGV. Endereço: PUC-Rio Departamento de Economia Rua Marquês de São Vicente, 225 Gávea, CEP 22453-900, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: jvinmont@econ.puc-rio.br
RESUMO
As principais dimensões das escolhas públicas na economia brasileira, estabelecidas a partir do modelo da public choice. Esse foco, quando aplicado a uma economia que opera sob regras instáveis, como é o caso do Brasil, permite que melhor se entenda o funcionamento dos mecanismos da intermediação política, em sua relação com as propriedades dos resultados de política pública. Atenção especial é dada à opção do governo em produzir tais resultados, seja por políticas convencionais que preservam as instituições, seja pelo caminho de alterar as próprias regras constitucionais.
Palavras-chave: public choice; política pública; regras constitucionais; medidas provisórias.
ABSTRACT
The main dimensions of economic policy in the Brazilian economy based on the public choice model. This approach, when applied to an economy that operates under unstable rules, as is the case of Brazil, allows a better understanding of how political mediation mechanisms work in their relationship with the properties of public policy results. Special attention is given to the government choice to bring about these results, either through conventional policies that preserve the institutions, or by changing the very constitutional rules.
Key words: public choice; public policy; constitutional rules; temporary acts.
1. Introdução
Por longo tempo tenho colaborado com a Revista de Administração Pública, assinando uma seção especial sobre a conjuntura das escolhas públicas.1 Em razão disso, uma opinião mais apressada descontaria a essa posição privilegiada minha freqüência tão alta de artigos publicados na RAP.2 Não disputo essa opinião.
Todavia, chamo a atenção do leitor para duas qualificações a esse ponto de vista que me parecem muito relevantes, na avaliação dessa circunstância tão peculiar:
a originalidade das contribuições, na extensão em que a cena econômica brasileira é rastreada nesses artigos, na perspectiva da complexa intermediação política que define o ambiente em que se formam e se sustentam as políticas públicas;3
a base intelectual em que essas contribuições se apóiam é definida na fronteira contemporânea4 da economia com o direito, a ciência política e a administração campo analítico que tem sido reconhecido por diferentes marcas de fantasia.5
2. Três vertentes de análise
Nessa ordem de considerações, esses ensaios muito contribuem para desenvolver uma visão pouco freqüente da economia brasileira: sua trajetória institucional ou, ainda, a especificação de como se formam e se sustentam as políticas públicas; de certo modo, o foco da análise é deslocado da habitual escolha entre resultados macroeconômicos (jogo de política econômica propriamente dita) para a escolha entre processos ou regimes de decisão alternativos (jogo constitucional).
Uma decorrência relevante dessa ambientação analítica é que ela torna possível definir com maior precisão o tipo de problema decisório que se tem a resolver. Isso fica bem ilustrado na área fiscal-previdenciária: esse é um problema que requer mais do que soluções tomadas no sistema fiscal, e mais propriamente na cultura política da sociedade, uma vez que a questão relevante a ser resolvida é se os cidadãos-contribuintes-eleitores poderão se confrontar com as escolhas que devem ser feitas (Pfifner, 2007:422-423). A figura 1 sintetiza essa ênfase.
Assim, o conceito de política econômica é expandido para incluir a mudança de regras constitucionais o que, em uma economia emergente, é sempre uma característica muito evidente da feitura das leis e da operacionalização da intervenção governamental. Sob essa percepção, identificam-se duas classes de estratégias:
o sentido habitual de estratégia macroeconômica, isto é: {[2] ® [4]};
De fato, na economia brasileira o governo dispõe de amplo poder discricionário para escolher em qual jogo deseja localizar uma dada decisão de política pública:6 seja reconfigurando regras e procedimentos constitucionais, seja por meio da emissão de atos legislativos ordinários (medidas provisórias) e mesmo atos da alta gerência do Executivo (Monteiro, 2007:39-41).
Uma segunda dimensão dos ensaios publicados na seção "A Conjuntura das Escolhas Públicas", da RAP, tem sido o desenvolvimento de uma economia de medidas provisórias (Monteiro, 1997, 2000, 2004), vale dizer, da extensão em que o presidente da República e a burocracia sob seu comando exercitam peculiar capacidade de legislar e definir políticas, adicionalmente às atribuições usuais do presidencialismo: o poder decorrente de sua posição de iniciador do jogo (first mover)7 e o poder de veto ex post incidente sobre projetos de lei aprovados no Congresso Nacional.8
Por fim, uma terceira frente em que "A Conjuntura das Escolhas Públicas" tem se estendido é a especificação das regras do jogo,9 ou seja, do ambiente institucional em que os participantes das escolhas públicas definem suas estratégias.
Nessa perspectiva, as análises possibilitam desenvolver a conexão entre atributos das instituições políticas e propriedades das políticas públicas.
A figura 2 resume essa interação. O sentido habitual da análise de políticas é pressupor uma dada configuração institucional (ou das regras do jogo). Assim, por exemplo, na vertente [1] apresentada na figura 2, sendo ai o atributo da centralização do processo decisório no Executivo, pode-se inferir que uma propriedade da política pública é sua instabilidade (pj), uma vez que o custo de reverter uma decisão de política é relativamente mais reduzido do que em um ambiente em que vigore plenamente a separação de poderes.10
Por outro lado, essa metodologia permite reverter a causação [1] e, ao invés, indagar que configuração de atributos de regras e procedimentos institucionais melhor sustenta um dado rol de propriedades das políticas públicas; essa é a vertente [2] na figura 2. Na verdade, esse tipo de indagação coloca o analista de políticas no papel de designer constitucional.
Tal ponto de observação instrui mais apropriadamente a definição de estratégias de reforma, nos moldes já tratados na figura 1.
Artigo recebido e aceito em jun. 2007.
Referências bibliográficas
- PFIFNER, James. The institutionalist: a conversation with Hugh Heclo. Public Administration Review, v. 67, n. 3, p. 418-423, May/June 2007.
- MUELLER, D. C. Torsten Persson and Guido Tabellini, The Economic Effects of Constitutions. Constitutional Political Economy, v. 18, n. 1, p. 63-68, Mar. 2007.
- MONTEIRO, J. V. Economia & política: instituições de estabilização econômica no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 1997.
- _________. As regras do jogo: o Plano Real, 1997-2000. Rio de Janeiro: FGV, 2000.
- _________. Lições de economia constitucional brasileira Rio de Janeiro: FGV, 2004.
- _________. "Estado oco" e parcerias público-privadas. Revista de Economia & Relações Internacionais, v. 5, n. 9, p. 56-73, jul. 2006.
- _________. Como funciona o governo: escolhas públicas na democracia representativa. Rio de Janeiro: FGV, 2007.


