Open-access A prática de atividade física durante a gestação e sua associação com características sociodemográficas: um estudo transversal

RESUMO

Introdução:  A gestação representa um período de intensas mudanças físicas, emocionais e sociais, que requerem adaptações para garantir o bem-estar materno e fetal. Nesse contexto, a prática de ati-vidade física (AF) pode contribuir para a prevenção de complicações gestacionais e para a promoção da saúde da gestante e do bebê. No entanto, a adesão a níveis adequados de AF durante a gestação permanece baixa.

Objetivo:  Avaliar a prática de AF entre gestantes atendidas na rede pública de saúde de Curitiba, Paraná, Brasil, bem como sua associação com fatores sociodemográficos e clínicos relacionados ao acompanhamento pré-natal.

Métodos:  Trata-se de um estudo transversal, vinculado à Coorte de Saúde Materno-Infantil de Curitiba, com participação de 195 gestantes com idade igual ou superior a 16 anos. Foram coletadas informações sociodemográficas, clínicas e relacionadas à prática de AF, analisadas por estatística descritiva e inferencial, utilizando teste Qui-quadrado e regressão de Poisson com estimador robusto.

Resultados:  Há elevada prevalência de inatividade física: 80,5% das gestantes não atingiram os 150 minutos semanais de AF moderada e 89,2% não realizaram atividades vigorosas por ao menos 10 minutos contínuos. Apesar disso, 77,4% relataram caminhar por pelo menos 10 minutos diários. O tempo sedentário predominou entre 4 a 6 horas diárias. A consulta com profissional de Educação Física foi um fator associado positivamente à maior prática de AF moderada.

Conclusão:  Há necessidade de ampliar o acesso à orientação profissional e desenvolver estratégias interdisciplinares para promoção da AF segura durante a gestação, visando melhores resultados materno-infantis.

Palavras-chave:
Gravidez; Exercício físico; Saúde pública; Promoção da saúde.

ABSTRACT

Introduction:  Pregnancy is a period of intense physical, emotional, and social changes that require adaptations to ensure maternal and fetal well-being. In this context, physical activity (PA) can con-tribute to preventing gestational complications and promoting the health of the pregnant woman and her baby. However, adherence to adequate levels of PA during pregnancy remains low.

Objective:  To evaluate the practice of PA among pregnant women receiving care in the public health network of Curitiba, Paraná, Brazil.

Methods:  This is a cross-sectional study, linked to the Maternal and Child Health Cohort of Curitiba, with the participation of 195 pregnant women aged 16 years or older. Sociodemographic, clinical, and PA-related information were collected and analyzed by descriptive and inferential statistics, using the Chi-square test and Poisson regression with a robust estimator.

Results:  There was a high prevalence of physical inactivity: 80.5% of pregnant women did not reach 150 minutes of moderate PA per week and 89.2% did not perform vigorous activities for at least 10 continuous minutes. Despite this, 77.4% reported walking for at least 10 minutes per day. Sedentary time predominatly ranged between 4 and 6 hours per day. Consultation with a Physical Education professional was a factor positively associated with greater practice of moderate PA.

Conclusion:  There is a need to expand access to professional guidance and develop interdisciplinary strategies to promote safe PA during pregnancy, aiming at better maternal and child outcomes.

Keywords:
Pregnancy; Physical exercise; Public health; Health promotion.

Introdução

A gestação é um marco na vida familiar, especialmente para a mulher, que enfrenta transformações corporais e adaptações necessárias para atender às demandas de um novo ser que depende dela. Este período provo-ca inúmeras mudanças físicas e emocionais, incluin-do ganho de peso, alterações hormonais e adaptações posturais, que podem resultar em desconfortos, como a lombalgia, afetando a saúde da mulher1. O período gestacional demanda atenção especial dos profissionais de saúde para que a gestante tenha qualidade de vida e bem-estar2,3.

No entanto, essas mudanças não caracterizam a ges-tação como um estado patológico. Tais alterações, embo-ra necessárias, muitas vezes geram conflitos psicológicos, como o medo, as angústias, a ansiedade, as dúvidas, in-certezas, baixa autoestima e depressão3. Nesse contexto, a prática de exercícios pode auxiliar na prevenção de dores musculares, melhorar a saúde mental e proporcionar um parto mais tranquilo, desde que a atividade física (AF) a seja adaptada às condições da gestante3,4.

A prática de AF durante a gestação traz inúmeros benefícios. Estes, podem ser: a prevenção de doenças como pré-eclâmpsia, de complicações no parto e no recém-nascido, da hipertensão e diabetes gestacional, há um controle do ganho do peso da gestante, ma-nutenção da aptidão cardiorrespiratória, um alívio do estresse, ajuda no retorno do pós-parto e oferece uma amamentação confortável5,6. A Organização Mundial da Saúde recomenda exercícios aeróbicos, de fortale-cimento muscular e alongamento, variando sua in-tensidade de acordo com a rotina da gestante e com o avanço da gravidez e evitando atividades com risco de queda e trauma fetal7. Essas diretrizes sugerem que a gestante faça pelo menos 150 minutos de AF aeróbica de intensidade moderada, ao longo da semana7.

Entre os tipos de atividades físicas recomendadas para gestantes, também estão caminhada leve, bicicleta, sessões de alongamento, yoga e exercícios leves na água (natação e hidroginástica), que irão oferecer pouco im-pacto e alívio no estresse articular por proporcionarem a flutuabilidade8,9. Alguns exercícios para a respiração são importantes por favorecer a conscientização cor-poral e possibilitar as trocas gasosas, auxiliando no re-laxamento e no trabalho de parto4. Já os exercícios de flexibilidade irão auxiliar no equilíbrio das musculatu-ras abdominais, assoalho pélvico e dorso lombar, sendo mais utilizados para manter a postura da gestante8.

Estudos revelam que a prática de exercícios físicos na gestação está associada a fatores como idade mais jovem, maior escolaridade, planejamento da gravidez e orientações recebidas durante o pré-natal10. A re-comendação de atividades físicas por profissionais de saúde também mostrou aumentar significativamente a adesão das gestantes11.

Diversas iniciativas públicas, como a Rede Mãe Curitibana, são exemplos de programas que buscam garantir cuidados abrangentes às gestantes, promo-vendo práticas educativas sobre a importância da AF12. Essa rede incentiva a realização de atividades físicas como parte do pré-natal, integrando-as ao cuidado multiprofissional13. O acompanhamento por equipes interdisciplinares - compostas por médicos, enfer-meiros, nutricionistas, profissionais de Educação Física e psicólogos - tem se mostrado essencial para ampliar o acesso a informações qualificadas, favorecer a adesão a práticas saudáveis e abordar as necessidades físicas, emocionais e sociais das gestantes14.

Ao redor do mundo, programas como o “Centering Pregnancy”, nos Estados Unidos, demonstram os benefícios desse modelo, ao promover encontros em grupo que combinam consultas médicas com educação em saúde, fortalecendo o apoio social e melhorando os desfechos perinatais15,16. Outro exemplo é o “Pacote de Maternidade” da Finlândia, que estimula o acompa-nhamento pré-natal ao oferecer suporte e orientações desde o início da gestação. Embora em outros países, essas políticas não estejam relacionadas especificamen-te à AF, sua implementação de visa melhorar a qualida-de de vida das gestantes, especialmente em comunida-des onde o acesso à informação é limitado, reforçando a importância da atuação conjunta e coordenada de diversos profissionais de saúde15.

Apesar dos benefícios da AF na gestação serem amplamente documentados, muitos estudos indicam que grande parte das gestantes não atinge os níveis recomendados de AF, muitas vezes devido à falta de orientação adequada17,18. No município de Curitiba, a prática de AF de mulheres no tempo livre (equivalen-tes a pelo menos 150 minutos por semana) mostrou aumento ao longo da série histórica até 2021, alcan-çando 32,6%19. Em contraste, o indicador de prática insuficiente de AF apresentou elevação em 2021, fi-cando em 54,1%19.

Portanto, é fundamental que os serviços de saúde ampliem o acesso à educação sobre o tema e incenti-vem práticas seguras e eficazes para as gestantes. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a prática de AF entre gestantes atendidas na rede pública de saúde de Curitiba-PR e analisar sua associação com fatores sociodemográficos, clínicos e relacionados ao acompa-nhamento pré-natal.

Métodos

Este estudo transversal, está vinculado à Coorte de Saúde Materno-Infantil de Curitiba, Paraná, Brasil (COOSMIC), que acompanha gestantes e seus filhos ao longo dos primeiros mil dias de vida no Brasil, com o objetivo de explorar redes causais complexas, identi-ficando iniquidades e vulnerabilidades de mães e crian-ças atendidas pela rede de serviços públicos municipais. Este estudo resulta de uma parceria entre a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Secretaria Muni-cipal da Saúde de Curitiba. Em sua fase prospectiva, o estudo envolveu 1200 gestantes e seus filhos, com se-guimento até os dois anos de idade.

Considerações éticas

O protocolo de pesquisa do estudo COOSMIC foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Pon-tifícia Universidade Católica do Paraná, sob parecer 6.498.474. Ele também foi aprovado pelo Comitê de Ética da Secretaria Municipal de Curitiba, sob parecer 6.588.994.

Coleta de dados

Os dados foram coletados por meio de entrevistas pre-senciais e adaptada durante a pandemia de covid-19 por meio de entrevistas online, conduzidas por entre-vistadores previamente treinados. As variáveis e itens da coleta foram integrados com o instrumento do Questionário Internacional de Atividade Física20. As informações foram registradas em dispositivo eletrô-nico e processadas na plataforma Qualtrics, de acordo com o protocolo do estudo, publicado anteriormente20.

Amostra

Participaram do estudo gestantes com 16 anos de idade ou mais, acompanhadas na Unidade de Saúde Mãe Curitibana, seja por realizarem o pré-natal nesse serviço, ou por terem sido encaminhadas pela rede de Unidades de Saúde do município de Curitiba para a realização de exames complementares.

A subamostra analisada foi selecionada por conve-niência e incluiu todas as gestantes vinculadas ao es-tudo COOSMIC até abril de 2021 que apresentaram respostas completas para as variáveis dependentes e independentes consideradas nesta investigação, per-fazendo um total de 195 participantes. As gestantes que integraram o estudo piloto não foram incluídas na amostra final, em razão de modificações realizadas nos instrumentos de coleta após essa etapa inicial21.

Critérios de elegibilidade

Foram incluídas na pesquisa gestantes com idade igual ou superior a 16 anos, atendidas na Unidade de Saúde Mãe Curitibana. Foram excluídas da pesquisa gestan-tes que apresentassem desordens de origem psíquica que interferissem ou impossibilitassem a compreensão e comunicação com a equipe de pesquisadores21.

Esse critério de exclusão baseou-se em dois procedi-mentos complementares: (1) observação do pesquisador, que identificava sinais comportamentais incompatíveis com a participação adequada no estudo, e (2) auto-relato das participantes sobre condições psíquicas previamente diagnosticadas que pudessem comprometer sua com-preensão ou interação durante as etapas da pesquisa.

Análise dos dados

Foram analisados os dados referentes às características sociodemográficas das gestantes, ao acesso a consulta com o profissional de Educação Física e à prática de AF durante a gestação. A análise dos dados obtidos foi conduzida por meio de análise estatística descritiva e analítica21.

As variáveis dependentes foram: a prática de cami-nhada por pelo menos 10 minutos contínuos em casa, no trabalho, como forma de transporte para ir de um lugar para outro, por lazer, por prazer ou como forma de exercício (não ou sim); a prática de AF de intensi-dade moderada por pelo menos 10 minutos contínuos (não ou sim); o acúmulo de pelo menos 150 minutos de AF de intensidade moderada por semana (não ou sim); a realização de atividades físicas vigorosas por pelo me-nos 10 minutos contínuos (não ou sim); o tempo em que a gestante permanece sentada por dia da semana (inferior a 3 horas, entre 4 e 6 horas, de 7 a 9 horas e igual ou superior a 10 horas); e o tempo em que a gestante permanece sentada por dia no fim da semana (inferior a 3 horas, entre 4 e 6 horas, de 7 a 9 horas e igual ou superior a 10 horas)21.

As variáveis independentes consideradas neste estudo incluíram: idade materna (16-19 anos; 20-34 anos, 35 anos ou mais); raça/cor autodeclarada (branca, preta, parda, amarela ou indígena); situação conjugal (solteira, separada/divorciada, casada ou vive com companhei-ro(a) ou viúva); escolaridade (fundamental completo ou menos, ensino médio incompleto, ensino médio completo ou ensino superior); renda domiciliar mensal (igual ou inferior a 1 salário mínimo, de 1 a 3 salários mínimos, de 3 a 5 salários mínimos, superior a 5 sa-lários mínimos, considerando como referência o ano de 2019); recebimento de benefício de programas so-ciais (não ou sim); densidade domiciliar por dormitório (adequado - até duas pessoas por dormitório, ou ina-dequado - três ou mais pessoas por dormitório); estra-tificação de risco gestacional (alto, intermediário alto, intermediário médio ou habitual); trimestre gestacional (primeiro, segundo ou terceiro trimestre); e atendimen-to pelo profissional de Educação Física (não ou sim)21.

Para evitar potenciais riscos de viés, o questionário foi previamente validado e adaptado para a população-alvo, garantindo a clareza e a relevância das perguntas, os entrevistadores foram devidamente treinados para evitar interpretações inconsistentes e reduzir a influên-cia da subjetividade na coleta dos dados. Além disso, o anonimato dos participantes foi garantido, incentivan-do respostas honestas, e os critérios de inclusão e exclu-são foram definidos de forma rigorosa para garantir a homogeneidade da amostra.

Neste estudo, as variáveis analisadas foram mensu-radas em escalas nominal e ordinal, motivo pelo qual foram utilizados testes estatísticos não paramétricos, especificamente o teste do Qui-quadrado. Os testes não paramétricos são indicados por não exigirem pres-supostos de normalidade ou homogeneidade dos da-dos. Todas as análises consideraram exclusivamente as respostas completas fornecidas pelas gestantes21.

Todas as análises estatísticas foram realizadas utili-zando o software IBM SPSS Statistics®, versão 25.0.

Resultados

A Tabela 1 apresenta o perfil socioeconômico e demográfico das gestantes incluídas no estudo. Observou-se predominância de mulheres com idade entre 20 e 34 anos (69,7%), que se autodeclararam brancas (60,8%), eram casadas ou viviam com companheiro(a) (70,8%) e possuíam ensino superior (44,6%). Quanto à ren-da familiar mensal, a faixa mais frequente foi de um a três salários-mínimos (42,1%), considerando o valor de referência do ano de 2019. Ademais, a maior par-te das participantes informou não ser beneficiária de programas de transferência de renda (74,9%) e residir em domicílios sem adensamento excessivo, ou seja, sem aglomeração familiar (94,4%). Na Tabela 2 estão descritas informações referentes à saúde gestacional, como trimestre de gestação e a classificação de risco, bem como os dados referentes à prática de AF pelas gestantes. Observa-se que a maioria das entrevistadas estava no segundo (39%) ou terceiro trimestre da ges-tação (39%), sendo o risco gestacional habitual o mais frequente (52,3%). O atendimento pelo profissional de Educação Física foi pouco frequente durante a gestação, sendo relatado por somente 4,1% das gestantes.

Tabela 1
Características sociodemográficas da população de estudo
Tabela 2
Características da população de estudo
Tabela 3
Análise da atividade física e tempo sentado e suas correlações com variáveis gestacionais e atendimento do profissional de Educa-ção Física
Tabela 4
Análise do tempo sentado e suas correlações com variáveis gestacionais e atendimento do profissional de Educação Física

Em se tratando especificamente da prática de AF durante a gestação, 77,4% das gestantes relataram ca-minhar por pelo menos 10 minutos contínuos em casa, no trabalho, como forma de transporte para ir de um lugar para outro, por lazer, por prazer ou como forma de exercício (Tabela 2).

Quanto à realização de atividades físicas de intensi-dade moderada, tais como pedalar de forma leve, nadar, dançar, praticar ginástica aeróbica leve, jogar vôlei re-creativo, carregar cargas leves e executar tarefas domés-ticas no interior da residência, no quintal ou no jardim (como varrer, aspirar ou cuidar do jardim), bem como outras atividades que provoquem leve sudorese ou au-mento moderado da frequência respiratória ou cardíaca, verificou-se que 57,9% das gestantes relataram não pra-ticá-las por períodos contínuos de, no mínimo, 10 mi-nutos. Ademais, a maioria das participantes não atingiu o acúmulo semanal de 150 minutos de atividade física moderada (80,5%), conforme apresentado na Tabela 2.

No que se refere à prática de atividades físicas de intensidade vigorosa - como correr, realizar ginásti-ca aeróbica, jogar futebol ou basquete, pedalar em rit-mo acelerado, executar tarefas domésticas pesadas no domicílio, no quintal ou no jardim, transportar cargas elevadas ou qualquer atividade que resulte em sudorese intensa e aumento acentuado da frequência respiratória ou cardíaca - observou-se que 89,2% das gestantes re-lataram não realizá-las por períodos contínuos de pelo menos 10 minutos, conforme apresentado na Tabela 2.

Em se tratando do sedentarismo, avaliou-se o tempo em que a gestante permanece sentada ao todo no trabalho, em casa, na escola ou faculdade e durante o tempo livre, assistindo televisão, lendo, entre outras ati-vidades. Observou-se que a maioria das gestantes passa entre 4 a 6 horas sentada por dia da semana (32,8%). Resultado semelhante foi observado ao fim de semana (37,4%). Mais de 20% das gestantes relataram passar mais de 10 horas sentadas por dia, tanto durante a se-mana, como aos finais de semana (Tabela 2).

Os achados provenientes da análise utilizando o tes-te do Qui-quadrado estão apresentados nas Tabelsa 3 e 4. A variável considerada associada estatisticamente à variável dependente “caminhada por pelo menos 10 mi-nutos contínuos”, considerando p<0,05 são: risco ges-tacional, faixa etária, escolaridade, trimestre gestacional, classificação de risco e atendimento por profissional da Educação Física; associadas à variável dependente “acú-mulo de 150 minutos de AF moderada durante a semana” são: raça/cor, trimestre gestacional e atendimento por profissional da Educação Física; associadas à variá-vel dependente “Realização de atividades vigorosas por pelo menos 10 minutos contínuos” são: raça/cor, classi-ficação de risco e atendimento por profissional da Edu-cação Física; associada à variável dependente “Tempo sentada por dia da semana” é faixa etária; e associada à variável dependente “Tempo sentada por dia no fim de semana” são: faixa etária, estado conjugal e atendimento por profissional da Educação Física.

Discussão

O presente estudo teve como objetivo avaliar a prática de AF por gestantes atendidas na rede pública de saúde do município de Curitiba, Paraná, Brasil. Os resultados indicaram que, embora a caminhada esteja presente na rotina da maioria das gestantes, seja em casa, no tra-balho, como meio de transporte ou por lazer, a prática de atividades físicas com intensidades moderada e vi-gorosa mostrou-se limitada. Observou-se que grande parte das gestantes não realiza atividades moderadas por tempo suficiente, tampouco atinge a recomendação semanal mínima para esse nível de intensidade. A prá-tica de exercícios vigorosos foi ainda menos frequente entre as participantes, sugerindo uma predominância de comportamentos sedentários no que diz respeito à realização de esforços físicos mais intensos.

Entre as gestantes incluídas no estudo, a maior frequência de prática de atividade física foi observada nas atividades de intensidade leve, especialmente a cami-nhada realizada por, no mínimo, 10 minutos contínuos, seja no domicílio, no ambiente de trabalho, como meio de deslocamento, ou ainda por lazer, prazer ou exercício físico. Esse comportamento foi referido por 77,4% das participantes. Dados semelhantes foram encontrados no estudo realizado em Pelotas, com 4.471 gestantes, cons-tatou-se que a caminhada era responsável por 77,5% das atividades físicas por elas realizadas, sendo que 10,4% das gestantes praticavam AF no início da gestação22.

A prática de atividades físicas de intensidade mode-rada por pelo menos 10 minutos contínuos, a maioria das gestantes (57,9%) relataram não a realizar. Além disso, 80,5% delas não acumula 150 minutos de AF de intensidade moderada por semana. Resultados pareci-dos foram encontrados em um estudo transversal com gestantes atendidas em Unidades de Atenção Primária à Saúde do município de Botucatu, SP, em que somente 10,2% delas atingiram a recomendação de 150 minutos semanais de atividades físicas moderadas/intensas no tempo de lazer23. De modo adicional, as Diretrizes da Organização Mundial da Saúde sobre Atividade Física e Comportamento Sedentário e o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, recomendam que a gestante faça pelo menos 150 minutos de AF aeróbica de intensidade moderada, ao longo da semana7,24.

Outro dado encontrado na presente pesquisa refe-riu-se ao fato de a maioria das gestantes (89,2%) não realizarem atividades físicas de intensidade vigorosa, como correr, fazer ginástica aeróbica, jogar futebol, pe-dalar rápido na bicicleta, jogar basquete, fazer serviços domésticos pesados em casa, no quintal ou no jardim, carregar pesos elevados ou qualquer atividade que faça transpirar bastante, aumente muito a frequência respiratória ou cardíaca por pelo menos 10 minutos. Segundo o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, as gestantes que já eram ativas fisicamente previamente à gravidez e que preferem realizar as ati-vidades vigorosas, devem praticar, no mínimo, 75 mi-nutos por semana, sendo estas atividades aconselhadas durante a gravidez e pós-parto7. Um estudo de revisão sistemática e de meta-análise identificou que exercí-cios de intensidade vigorosa durante o terceiro trimes-tre gestacional parecem ser seguros para gestantes de baixo risco, as quais tiveram risco menor de ter bebês prematuros25.

Mais de 20% das gestantes da amostra relatam pas-sar mais de 10 horas sentadas durante o dia tanto du-rante a semana, como aos finais de semana. Observa-se, assim, um quadro de sedentarismo por parte das mu-lheres, que se assemelha com os dados obtidos no es-tudo transversal com gestantes atendidas nas Unidades Básicas de Saúde de Ribeirão Preto, São Paulo26. No referido estudo, das 799 gestantes, 57% apresentaram o padrão sedentário26. Outro estudo apontou resultados semelhantes, na qual foi encontrada uma alta prevalên-cia de gestantes insuficientemente ativas 77,7%23. Em um estudo mais recente constatou-se que 52,6% das gestantes são sedentárias, e esse padrão é ainda maior quando se consideram as atividades físicas de lazer, não praticadas por 98,9% delas27.

Em um estudo de coorte observou-se que o padrão de AF durante a gestação reduziu com o avanço da ida-de gestacional, passando de 98,3% das gestantes inati-vas na 24ª semana, para 100% na 32ª semana, podendo ser devido a fatores de ordem biológica, fisiológica e/ou cultural28. Destaca-se que o aumento do peso e a altera-ção no centro de gravidade podem levar à indisposição da gestante ao final da gestação.

Contrapondo-se a este resultado, na presente pes-quisa, observou-se prevalência de acúmulo da prática de 150 minutos de AF de intensidade moderada por semana associada ao trimestre de gestação, porém en-contrando menor prevalência de prática de AF de in-tensidade moderada para as gestantes que estão no 1º trimestre comparadas às que estavam no 3º trimestre.

Outro dado relevante observado nesta pesquisa foi o escasso atendimento pelo profissional de Educação Física, relatado por apenas 4,1% das gestantes. Essa baixa cobertura limita a capacidade de avaliar de for-ma mais precisa o impacto desse acompanhamento es-pecializado sobre a prática de AF durante a gestação. Ainda assim, verificou-se que a prevalência de acúmulo da prática de 150 minutos de AF de intensidade mo-derada semanais foi maior entre as gestantes que rece-beram atendimento desse profissional, em comparação àquelas que não receberam. Esses achados sugerem um possível efeito positivo da orientação especializada; no entanto, devido ao número reduzido de atendimentos, tais resultados devem ser interpretados com cautela, e estudos com maior representatividade desse serviço são necessários para confirmar essa associação.

Evidências de intervenções supervisionadas em gestantes, reforçam a relevância do papel do profissio-nal de Educação Física na saúde materna durante o pe-ríodo gestacional. Estudos indicam contribuição para melhor controle do ganho de peso materno, além de favorecerem o bem-estar físico e a qualidade de vida das gestantes. A supervisão qualificada aumenta a efi-cácia das intervenções, reduzindo a incidência de ga-nho ponderal excessivo de peso e promovendo efeitos positivos sobre sintomas e percepções de saúde29-31.

Nesta pesquisa não foi identificada associação entre a prática de AF e fatores socioeconômicos na análise mul-tivariada. Esse achado pode ser explicado pela relativa homogeneidade socioeconômica da amostra, o que limi-ta a variabilidade necessária para detectar diferenças en-tre grupos, além do possível efeito nivelador da pande-mia sobre os comportamentos de AF. Em contrapartida, no estudo transversal, conduzido em Vitória da Con-quista/Bahia, foi percebido que possuir a maior renda (maior que 2 salários-mínimos) e ter maior escolaridade teve associação com o nível de AF das gestantes, sendo menor quando essas variáveis se mantiveram baixas25.

Ademais, é importante ressaltar o contexto pandêmico do atual estudo. Diversos outros estudos demons-tram que a pandemia de covid-19 reduziu significativamente os níveis de AF na população. Uma revisão de escopo encontrou queda consistente da prática de AF e aumento do comportamento sedentário durante os períodos de confinamento32. Em gestantes, um estudo prospectivo nos Estados Unidos, identificou redução da AF total e aumento do tempo sentado após o início das restrições impostas em 202033. Em geral, os estudos relatam que gestantes reduziram a prática de exercícios devido ao medo de exposição ao vírus e ao fechamento de parques, academias e espaços de convivência33. Esses achados sugerem que o contexto pandêmico pode ter influenciado diretamente os resultados do presente es-tudo, contribuindo para menores níveis de AF e maior sedentarismo entre as gestantes avaliadas, embora, a prática de AF e exercício físico durante a pandemia te-nha sido considerada essencial à manutenção da saúde34.

Este estudo apresenta algumas limitações que po-dem ter influenciado o nível de AF das gestantes. A coleta ocorreu durante a pandemia de Covid-19, pe-ríodo marcado por medidas de quarentena, restrições de circulação e maior permanência em casa. Essas con-dições podem ter reduzido substancialmente as opor-tunidades de prática de atividades físicas orientadas, estruturadas ou realizadas em ambientes abertos, além de favorecer o aumento do comportamento sedentário.

Além disso, a amostragem por conveniência pode ter introduzido viés de seleção, uma vez que as par-ticipantes representam apenas as gestantes presentes na unidade de saúde durante o período de coleta, pos-sivelmente excluindo mulheres com menor adesão ao pré-natal. Assim, os padrões observados podem refletir um contexto excepcional quanto um perfil específico de gestantes acessíveis, limitando a generalização dos achados para outras populações. Também deve ser considerado o risco de viés de informação, já que os dados referentes à prática de AF foram autorrelatados e podem estar sujeitos a erros de lembrança ou dese-jabilidade social. Ademais, por se tratar de um estudo transversal, não foi possível estabelecer temporalidade ou avaliar mudanças ao longo da gestação, o que limita inferências causais.

Também é importante considerar potenciais vieses de confusão não controlados. Variáveis como histórico prévio de AF, apoio social, barreiras individuais e ca-racterísticas do ambiente não foram incluídas na análi-se e podem ter influenciado os resultados. Além disso, a generalização dos achados é limitada, pois a amostra é proveniente de uma única unidade da rede pública e foi coletada em um contexto pandêmico, refletindo uma realidade específica que pode não representar ou-tras populações ou regiões.

Estudos futuros, idealmente prospectivos e com amostragem probabilística, são necessários para elucidar a magnitude desses vieses e fortalecer a generalização dos achados. Além disso, outros artigos devem compa-rar esses padrões em cenários não restritivos (pós pan-dêmicos), a fim de esclarecer a magnitude desses vieses. Para concluir, os resultados evidenciaram uma alta prevalência de mulheres que não realizaram AF du-rante o período gestacional, especialmente no que se refere às atividades de intensidade moderada e vigo-rosa. Constatou-se ainda que mulheres que passaram por consulta com profissional de Educação Física apre-sentaram maior prevalência na realização de AF de intensidade moderada, reforçando o potencial impacto positivo desse acompanhamento. Apesar disso, o acesso a esse profissional ainda é baixo, indicando a necessi-dade de ampliar a oferta deste serviço no pré-natal da rede pública.

Diante deste cenário, destaca-se a importância de fortalecer o trabalho interprofissional, promovendo ações educativas e de promoção da saúde que reduzam barreiras e estimulem a prática de AF entre gestantes. Os achados deste estudo também podem ter aplica-bilidade para outras populações atendidas em redes públicas de saúde, especialmente em regiões com ca-racterísticas socioeconômicas semelhantes, oferecendo subsídios para políticas que ampliem o acesso a profis-sionais de Educação Física e incentivem a incorporação sistemática da AF no pré-natal.

  • Financiamento
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Declaração quanto ao uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de escrita do artigo

Os autores não utilizaram de ferramentas de inteligência artificial para elaboração do manuscrito.

Agradecimentos

Os autores agradecem a Coorte de Saúde Materno-Infantil de Curitiba (COOSMIC) por viabilizar a pesquisa.

  • Avaliação dos pareceristas

Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Editado por

  • Editor Chefe
    Atila Alexandre Trapé
    Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil

Avaliador A

Sobre o autor do parecer

Avaliador A

Prezados autores,

Parabenizo pela elaboração do manuscrito, que bus-ca analisar, por meio de um estudo transversal, o nível de atividade física de gestantes atendidas na rede públi-ca de saúde de Curitiba-PR.

Gostaria de destacar os seguintes pontos para apri-moramento:

Contexto da Pandemia

  • • Os dados foram coletados durante a pandemia de COVID-19, o que pode ter impactado significati-vamente os padrões de atividade física das gestan-tes. Isso limita a representatividade demográfica do estudo. Uma comparação com dados pós-pandemia seria necessária para fortalecer esse aspecto.

Profundidade da Análise

  • • A quantidade de informações coletadas e as con-clusões apresentadas parecem mais adequadas a um resumo de congresso do que a um artigo cien-tífico. A discussão, por vezes, torna-se vaga. Seria importante aprofundar a análise, especialmente em relação aos impactos da presença do profissional de Educação Física na saúde das gestantes. Questões como melhora de sintomas, controle de peso corpo-ral e qualidade de vida poderiam ser exploradas para reforçar a relevância científica do estudo.

Relevância Científica e Linguagem

  • • O artigo necessita de modificações substanciais para reforçar sua relevância científica e reduzir o viés pandêmico. Além disso, recomenda-se o uso de uma linguagem mais formal ao longo do texto.

Parecer final (decisão)

  • • Correções obrigatórias

Avaliador B

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Avaliador B

Considerações e sugestões específicas.

Introdução (linhas 35-55)

  • • A fundamentação está adequada, mas falta apontar lacunas específicas da literatura local. Justificar com mais precisão o foco na rede pública de Curitiba pode fortalecer a originalidade do estudo. Sugerese incluir dados epidemiológicos locais atualizados (pós-2021) para contextualização.

Objetivo do Estudo

  • • Embora esteja claro no resumo e introdução, reco-menda-se destacá-lo com mais ênfase ao final da introdução, reforçando o foco nos fatores sociode-mográficos associados.

Desenho do Estudo (linhas 70-115)

  • • A descrição está adequada, mas a amostragem por conveniência (linha 85) deve ser discutida quanto ao viés de seleção. O critério de exclusão relaciona-do a desordens psíquicas (linhas 90-95) carece de detalhamento sobre o método de avaliação.

Instrumentos de Coleta

  • • Os instrumentos foram mencionados, mas seria im-portante detalhar a adaptação e validação do ques-tionário para a população específica (linha 105).

Análise Estatística (linhas 120-135)

  • • Os métodos são adequados, porém não há menção ao tratamento de dados faltantes, o que pode ser relevante neste tipo de estudo.

Apresentação dos Resultados (linhas 140-215)

  • • Sugere-se apresentar as características da amostra, níveis de atividade física e associações estatísticas com maior detalhamento, utilizando tabelas com destaque para valores de p significativos.

Discussão e Limitações

  • • A baixa frequência de atendimento por profissio-nal de Educação Física (4,1%) limita a análise de impacto.

  • • A limitação relacionada à pandemia (linha 270) é válida, mas poderia ser expandida, discutindo os vieses comportamentais decorrentes do confina-mento.

  • • A ausência de associação com fatores socioeconômicos (linha 260) merece maior exploração.

  • • As limitações (linhas 280-290) poderiam ser am-pliadas, incluindo riscos de viés de seleção, viés de informação por autorrelato e ausência de análise prospectiva.

  • • Faltou discutir potenciais vieses de confusão não controlados e limitações na generalização dos resul-tados.

Conclusão e Aplicabilidade

  • • A conclusão está consistente, mas recomenda-se enfatizar a importância da ampliação do acesso a profissionais de Educação Física e saúde no pré-na-tal. Sugere-se discutir a aplicabilidade dos resulta-dos para outras populações, especialmente de redes públicas de outras regiões, fortalecendo o impacto prático e político do estudo.

Revisão Técnica

  • • Verificar consistência no uso de unidades de medi-da e termos técnicos.

  • • Uniformizar nomenclaturas e siglas (ex.: uso de “AF” para atividade física).

  • • Atualizar referências antigas (2004, 2007, 2009, 2013, 2019), substituindo por revisões sistemáticas e meta-análises mais recentes, se possível.

Parecer final (decisão)

  • • Correções obrigatórias

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    08 Set 2025
  • Revisado
    11 Nov 2025
  • Aceito
    12 Out 2025
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