RESUMO
Introdução: O câncer de cavidade oral apresenta altas taxas de mortalidade na Bahia, sendo relacionado ao diagnóstico tardio.
Objetivo: Investigar os fatores relacionados ao intervalo para o diagnóstico e tratamento do câncer de cavidade oral em serviços de saúde do Estado da Bahia no período de 2000 a 2022.
Método: Pesquisa de corte transversal e base hospitalar, com 1.305 casos recuperados dos Registros Hospitalares de Câncer. Foi realizada análise estatística descritiva da população em estudo, apresentando as frequências absolutas e relativas das variáveis categóricas e as medianas e intervalos interquartílicos para a idade e o número de dias entre os intervalos (datas) de interesse, considerando o nível de significância de 5% (α=0,05) e aplicado o modelo de regressão de Poisson com distribuição negativa binomial.
Resultados: Dos 1.305 baianos com câncer oral, a maioria foi diagnosticada em estádio avançado (69,2%), encaminhada pelo Sistema Único de Saúde (98,2%) e precisou se deslocar do município de residência para receber assistência oncológica (69,9%). A mediana do número de dias entre a entrada no serviço oncológico e o início do tratamento foi de 91 dias, variando entre 61 e 144 dias. O tempo foi associado à necessidade de deslocamento, como fator protetor (IRR 0,57), ao sexo, idade e estadiamento.
Conclusão: O intervalo de tempo para iniciar o tratamento nos serviços de saúde na Bahia ultrapassa 90 dias, o que pode impactar no tratamento, prognóstico e na qualidade de vida dos baianos. As origens do encaminhamento e do deslocamento se mostraram como fatores importantes em relação ao intervalo para diagnóstico e tratamento.
Palavras-chave:
Neoplasias Bucais/epidemiologia; Neoplasias Bucais/diagnóstico; Sistemas de Informação em Saúde/estatística & dados numéricos; Serviços de Saúde/ estatística & dados numéricos
ABSTRACT
Introduction: Oral cavity cancer shows high mortality rates in Bahia, largely attributed to late diagnosis.
Objective: To investigate factors associated with the diagnostic and treatment intervals for oral cavity cancer in health services across the state of Bahia between 2000 and 2022.
Method: A cross-sectional, hospital-based study was conducted with 1,305 cases retrieved from Hospital Based Cancer Registries. Descriptive statistical analyses included absolute and relative frequencies for categorical variables, and medians with interquartile ranges for age and time intervals of interest (dates) were performed. A significance level of 5% (α=0.05) was adopted, and Poisson regression with a negative binomial distribution was applied.
Results: Most of the 1,305 individuals with oral cancer were diagnosed at advanced-stage (69.2%), were referred through the Brazilian National Health System (98.2%), and had to leave their city of origin to receive oncologic care (69.9%). The median of days since entry into oncology services to treatment initiation was 91 days, ranging between 61 and 144 days. Time was associated with the necessity of transportation as protective factor (IRR 0.57) and with sex, age and staging.
Conclusion: Time range to begin treatment at health services in Bahia exceeds 90 days, potentially compromising treatment outcomes, prognosis, and quality of life. Referral pathways and the need to travel for care emerged as key factors influencing the diagnostic and treatment timelines.
Key words:
Mouth Neoplasms/epidemiology; Mouth Neoplasms/diagnosis; Health Information Systems/statistics & numerical data; Health Services/statistics & numerical data
RESUMEN
Introducción: El cáncer de cavidad oral presenta elevadas tasas de mortalidad en el estado de Bahía, asociadas principalmente al diagnóstico tardío.
Objetivo: Investigar los factores relacionados con los intervalos para el diagnóstico y el tratamiento del cáncer de cavidad oral en los servicios de salud del estado de Bahía entre los años 2000 y 2022.
Método: Estudio transversal, de base hospitalaria, realizado con 1305 casos recuperados de los Registros Hospitalarios de Cáncer. Se efectuó análisis estadístico descriptivo de la población objetivo, calculando las frecuencias absolutas y relativas de las variables categóricas, y las medianas e intervalos intercuartílicos para la edad y el número de días entre los intervalos (fechas) de interés. Se aplicó un modelo de regresión de Poisson con distribución binomial negativa, adoptándose un nivel de significación del 5% (α=0,05).
Resultados: La mayoría de los 1305 individuos fue diagnosticada en estadio avanzado (69,2%), fue derivada por el Sistema Único de Salud (98,2%) y necesitó desplazarse fuera de su municipio de residencia para recibir atención oncológica (69,9%). La mediana del número de días entre el ingreso al servicio oncológico y el inicio del tratamiento fue de 91 días, variando entre 61 y 144 días. Se asoció el tiempo a la necesidad de desplazamiento, como factor protector (IRR 0,57), al sexo, edad y estadificación.
Conclusión: El tiempo de espera para iniciar un tratamiento en los servicios de salud de Bahía supera los 90 días, lo que puede comprometer el tratamiento, el pronóstico y la calidad de vida de los pacientes. Los orígenes de la derivación y el desplazamiento fueron factores relevantes con relación al intervalo de diagnóstico y tratamiento.
Palabras clave:
Neoplasias de la Boca/epidemiología; Neoplasias de la Boca/diagnóstico; Sistemas de Información en Salud/estadística & datos numéricos; Servicios de Salud/estadística & datos numéricos
INTRODUÇÃO
O número de novos casos de câncer de lábio e cavidade oral no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atingiu cerca de 377.713 em 2020, sendo estimados mais de 450 mil casos novos até o ano de 2030, o que representa um aumento aproximado de 19% ao longo de dez anos1. O Brasil está entre os países de maior incidência para o câncer de cavidade oral2, com taxa estimada em 7,98 para cada 100 mil habitantes, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-20283. Na Região Nordeste, este é o quinto tipo de câncer mais comum entre homens, especialmente acima dos 40 anos4. No Estado da Bahia, no mesmo período, a taxa de incidência para essa doença é de 11,05 por 100 mil homens e 4,26 por 100 mil mulheres3.
O câncer de cavidade oral se desenvolve, predomi-nantemente, pela interação entre fatores ambientais e a predisposição genética do indivíduo5. A doença pode ser detectada com a identificação de alterações teciduais observadas pelo indivíduo ou durante a realização do exame clínico, sendo confirmada com a biópsia da lesão suspeita6. Contudo, a maioria dos casos de câncer de cavidade oral é diagnosticada em estádios avançados (III ou IV), exigindo tratamentos mais agressivos e impactando negativamente a qualidade de vida e sobrevida dos pacientes7. Estudos apontam que quanto maior a classificação do estadiamento, pior o prognóstico8,9, de modo que o estabelecimento do diagnóstico e início do tratamento no menor intervalo de tempo são fundamentais para melhorar a taxa de sobrevida10.
Alguns autores consideram que, para o diagnóstico e tratamento do câncer, pontos-chave devem ser estabelecidos no tempo. Desse modo, o intervalo do serviço de saúde tem início na entrada no serviço de cuidado oncológico, seguido da primeira consulta com o especialista em oncologia, confirmação diagnóstica e sendo encerrado quando o tratamento para o câncer é iniciado11. Intervalos superiores a 60 dias no início do tratamento reduzem a sobrevida em 26% em comparação com pacientes tratados em até 30 dias, aumentando o risco de morte12. O intervalo do serviço de saúde pode ser influenciado pelas características dos sistemas e serviços de saúde, que envolvem desde a disponibilidade de serviços, acesso, distribuição geográfica, qualidade dos recursos humanos e tecnológicos, até os mecanismos de funcionamento e informação sobre o sistema13.
Neste sentido, considerando as Leis Brasileiras n.° 13.896/201914 e 12.732/201215, que estabelecem um prazo de até 30 dias para diagnóstico e no máximo 60 dias para início do tratamento após o diagnóstico, estudos que avaliam o intervalo do serviço de saúde permitem o monitoramento e cumprimento ou descumprimento da lei, bem como seus fatores relacionados. Podendo, dessa forma, identificar as barreiras de acesso aos serviços de saúde e propor medidas para reorientação dos serviços de forma a contribuir com o aprimoramento do controle do câncer de cavidade oral no Estado.
Assim, o objetivo deste estudo é investigar os fatores relacionados ao intervalo para diagnóstico e tratamento do câncer de cavidade oral nos serviços de saúde do Estado da Bahia, no período de 2000 a 2022.
MÉTODO
Pesquisa observacional, do tipo transversal de base hospitalar, realizada com dados disponibilizados pelos hospitais habilitados em atenção oncológica distribuídos no Estado da Bahia: Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) em Feira de Santana, Aristides Maltez e Irmã Dulce em Salvador, Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, Hospital Regional Costa do Cacau em Ilhéus, Hospital Geral de Vitória da Conquista e Hospital Municipal de Teixeira de Freitas.
No Brasil, as informações em saúde são armazenadas e disponibilizadas em nível nacional por meio de grandes bancos de dados, como o IntegradorRHC16, utilizado para o levantamento de dados desta pesquisa. Trata-se de um sistema voltado à coleta, armazenamento, processamento e análise contínua e organizada de informações de brasileiros com diagnóstico confirmado de câncer, atendidos em unidades hospitalares que oferecem tratamento oncológico. O funcionamento de um Registro Hospitalar de Câncer (RHC) e o envio periódico dos dados para o IntegradorRHC são obrigatórios para os hospitais credenciados na Atenção Especializada em Oncologia no Sistema Único de Saúde (SUS)17.
Foram incluídos no estudo todos os registros analíticos da Bahia, com confirmação histopatológica para câncer de cavidade oral nas categorias C00, C02 a C06 (C00 lábio, C02 outras partes não específicas da língua, C03 gengiva, C04 assoalho da boca, C05 palato e C06 outras partes não específicas da boca), diagnosticados como carcinoma de células escamosas (código 8070/3), identificados no IntegradorRHC com faixa etária a partir de 19 anos, no período de 2000 a 2022, classificados de acordo com a 2ª edição da Classificação Internacional de Doenças para Oncologia (CID-O/2), até o ano de 2004, e segundo a CID-O/3, a partir de 2005.
A idade mínima para participação nesse estudo foi determinada, uma vez que, no Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera que a adolescência vai até os 18 anos de idade completos18.
Não participaram deste estudo os casos que chegaram ao hospital com diagnóstico, apresentaram diferença negativa entre os pontos-chave ou faltava a informação da data de algum dos pontos-chave para o intervalo do serviço de saúde e nas variáveis usadas para o modelo.
Foram consideradas, para os registros elegíveis, as variáveis sociodemográficas (sexo, idade, raça/cor, estado conjugal, escolaridade, ocupação principal), relacionadas aos fatores de risco (histórico de consumo de tabaco, bebida alcoólica e histórico familiar de câncer), à caracterização do tumor (localização do tumor primário, TNM e estadiamento) e ao intervalo do serviço de saúde (origem de encaminhamento, deslocamento, data dos pontos-chave — entrada no serviço, primeira consulta, diagnóstico, início do tratamento).
É importante destacar que, para fins de análise, as variáveis sociodemográficas raça/cor, estado conjugal, escolaridade e ocupação principal foram categorizadas. A variável raça/cor foi dicotomizada em: brancos e não brancos, incluindo, na primeira, os indivíduos que se autodeclararam brancos e, na segunda, os pretos, pardos, amarelos e indígenas, permitindo analisar separadamente aqueles que estão dentro do perfil de morbidade para doença. O estado conjugal foi separado em: com companheiro(a) (casado, união consensual) e sem companheiro(a) (solteiro, viúvo, separado). A escolaridade foi categorizada em: analfabeto, fundamental (completo e incompleto), nível médio e nível superior (completo e incompleto). As ocupações foram categorizadas segundo a estrutura agregada em grandes grupos da Classificação Brasileira de Ocupações19.
E os dados de intervalo de tempo foram analisados como uma variável contínua, visando reduzir o enviesamento pejorativo para "atraso, espera". Desse modo, os intervalos de tempo para o diagnóstico e tratamento do câncer de cavidade oral foram considerados de acordo com os critérios propostos pela Declaração de Aarhus11, com ênfase na investigação do intervalo do serviço de saúde.
Para a análise de dados, foi realizada inicialmente uma avaliação estatística descritiva da população em estudo, apresentando as frequências absolutas e relativas das variáveis categóricas e as medianas e intervalos interquartílicos para a idade e o número de dias entre os intervalos de interesse. Foram calculados quatro intervalos de tempo (em dias), definidos pelas seguintes balizas temporais: i) Intervalo Entrada-Consulta: tempo decorrido entre a data de entrada no serviço oncológico e a data da primeira consulta; ii) Intervalo Consulta-Diagnóstico: tempo entre a primeira consulta e a confirmação diagnóstica histopatológica; iii) Intervalo Diagnóstico-Tratamento: tempo entre o diagnóstico e o início da primeira terapêutica oncológica; iv) Intervalo do Serviço de Saúde (tempo total): tempo decorrido entre a entrada na unidade e o início do tratamento efetivo. As medianas e intervalos interquartílicos foram calculados para cada um desses períodos, utilizando o teste de Wilcoxon para comparações entre grupos, com nível de significância de 5%.
Para estimar a taxa de incidência de dias adicionais de espera entre a entrada no serviço de cuidado oncológico e o início do tratamento em função de um ou mais preditores, foi utilizado o modelo de regressão de Poisson com distribuição negativa binomial, que ajusta para a sobredispersão dos dados. A seleção das covariáveis para o modelo inicial foi baseada em critérios teóricos. Todas as análises foram realizadas com o software R20 versão 4.3.2 e o programa SPSS21, versão 22.0 (SPSS Inc., Chicago. Estados Unidos).
As informações utilizadas são de domínio público e estão disponibilizadas na internet pelo INCA, sem identificação dos indivíduos, de modo que seu uso não apresenta riscos aos seres humanos por se tratar de um estudo com dados secundários. Dessa forma, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução do Conselho Nacional de Saúde n.° 510/201622.
RESULTADOS
No Estado da Bahia, no período de 2000 a 2022, foram registrados 3.919 casos analíticos de câncer de cavidade oral, sendo 86,5% destes do tipo carcinoma de células escamosas. Após aplicar os demais critérios de elegibilidade e exclusão, 1.305 registros compuseram a população final deste estudo e foram analisados (Figura Suplementar 1).
As características sociodemográficas e os hábitos de vida dos baianos diagnosticados com câncer de cavidade oral revelaram que a maioria dos indivíduos era homem (74,8%), com mediana de idade de 60 anos, variando entre 52 e 70 anos, autodeclarados não brancos (83,6%), com nível de escolaridade ensino fundamental (61,5%), sem companheiro(a) (65,6%), trabalhadores dos setores agropecuário, florestal e da pesca (50,9%), sem histórico familiar de câncer (68,4%), mas com histórico de consumo de tabaco (72,1%) e bebida alcoólica (50,7%) (Tabela 1).
Características sociodemográficas e hábitos de vida dos baianos diagnosticados com câncer de cavidade oral. Bahia, 2000-2022 (n=1.305)
A Tabela 2 revela que a língua (33,2%) foi o sítio anatômico mais comum de ocorrência do câncer de cavidade oral. Sendo que mais da metade (50,8%) dos pacientes recebeu o diagnóstico no estádio mais avançado da doença, o estádio IV. A grande maioria (98,2%) foi encaminhada pelo SUS e precisou deslocar-se do município de residência para realizar o tratamento (69,9%).
Características clínicas e histopatológicas das lesões em cavidade oral dos baianos diagnosticados com câncer de cavidade oral. Bahia, 2000-2022 (n=1.305)
Analisando o tempo decorrido entre os pontos-chave que demarcam as etapas do atendimento no serviço de atenção oncológica, observou-se que a mediana do intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento (superior a 60 dias) foi a que mais colaborou para o maior intervalo do serviço de saúde, o qual ultrapassou 90 dias, variando entre 61 e 144 dias (Tabela 3).
Mediana do número de dias entre os pontos-chave do intervalo do serviço de saúde para os baianos com câncer de cavidade oral. Bahia, 2000-2022 (n=1.305)
Os resultados do modelo de regressão de Poisson com distribuição negativa binomial, que avaliou a associação entre o intervalo do serviço de saúde e a origem do encaminhamento, e o deslocamento, revelam que ambos são fatores significativos para o número de dias no intervalo do serviço de saúde baiano (p<0,001) (Tabela 4).
Taxa de incidência e intervalo de confiança de 95% entre o intervalo do serviço de saúde e a origem do encaminhamento e deslocamento dos baianos com câncer de cavidade oral. Bahia, 2000-2022 (n=1.305)
Realizou-se análise multivariável por regressão binomial negativa, incluindo as variáveis origem do encaminhamento, necessidade de deslocamento, sexo, idade e estadiamento clínico no modelo, com o objetivo de estimar os efeitos independentes dessas variáveis sobre o tempo de espera. Os resultados demonstram associação com a necessidade de deslocamento, indicando que pacientes que precisaram se deslocar têm intervalo do serviço de saúde menor em comparação aos que não precisaram de deslocamento. Além disso, o sexo apresentou significância estatística, sugerindo que mulheres tiveram um intervalo do serviço de saúde maior do que homens. A idade e o estadiamento clínico também apresentaram significância estatística. Não foi observada associação estatisticamente significativa para a origem do encaminhamento (Tabela 5).
Análise de regressão binomial negativa para o Intervalo do Serviço de Saúde para os baianos com câncer de cavidade oral Bahia, 2000-2022 (n=1.163)
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo revelaram que a maioria dos indivíduos com câncer de cavidade oral no Estado da Bahia foi diagnosticada em estádio avançado da doença e acessou os serviços oncológicos por meio de encaminhamentos realizados dentro da própria rede pública de saúde. Muitos desses baianos também precisaram se deslocar de seus municípios de residência para receber atendimento especializado, o que evidencia a abrangência regional da assistência oncológica no Estado. O intervalo entre o ingresso no serviço oncológico e o início do tratamento mostrou-se relativamente longo, com variações importantes entre os casos.
Os achados do presente estudo apontaram que o perfil sociodemográfico dos indivíduos diagnosticados com câncer de cavidade oral no Estado da Bahia inclui homens, autodeclarados não brancos, com idade média de 60 anos, trabalhadores dos setores agropecuário, florestal e da pesca, sem histórico familiar de câncer, sem companheiro(a) e com baixo nível de escolaridade, o que está de acordo com a literatura7,23. A maior prevalência em homens pode estar associada a fatores comportamentais, como o maior consumo de bebidas alcoólicas e tabaco, conforme indicado por outros autores23 e dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 201924, que apontaram prevalência de 37,1% de consumo regular de bebidas alcoólicas entre homens, em contraste com 17,0% entre mulheres. O setor agropecuário, florestal e de pesca é um pilar fundamental da economia baiana, representando cerca de 14,3% do PIB do Estado no primeiro trimestre de 202525. Pessoas que trabalham em áreas externas estão sujeitas à exposição solar e, especialmente quando desprotegidas, têm o risco aumentado para o câncer de cavidade oral26.
De acordo com o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população baiana é composta por 22,4% de pessoas que se autodeclaram pretas e 57,3%, pardas, totalizando 79,7% de indivíduos pretos e pardos no Estado, o que reforça a posição da Bahia como o Estado com a maior proporção de população negra do Brasil25. Esses dados destacam a relevância de se considerar as características sociodemográficas, como raça/cor, nas estratégias de prevenção e cuidados em saúde, a fim de promover equidade no diagnóstico e tratamento do câncer de cavidade oral. Uma análise retrospectiva dos casos de carcinoma de células escamosas em cavidade oral na Bahia, entre 2010 e 2017, evidenciou associação estatisticamente significativa entre o nível de escolaridade e o estadiamento do tumor no momento do diagnóstico (p<0,05), indicando que indivíduos com menor escolaridade apresentaram maior frequência de tumores em estádio avançado, sugerindo que a limitação no acesso à informação compromete a detecção precoce da doença27.
Embora esse tipo de câncer apresente, na maioria dos casos, fácil acesso para detecção, por meio de um procedimento simples, como a inspeção visual da boca e biópsia das lesões suspeitas, no Estado da Bahia, a maioria dos casos foi diagnosticada em estádios avançados, em consonância com o Relatório do INCA de 2020, que revelou que, no Brasil, o estadiamento mais frequente do câncer de cavidade oral foi o estádio IV (62,24%)28. Esse fato é atribuído ao caráter assintomático dos tumores nos estádios iniciais, culminando em impactos significativos tanto na qualidade de vida quanto na sobrevida dos pacientes. Além disso, barreiras de acesso aos serviços de saúde e falta de preparo de profissionais devem ser destacados27.
Os achados deste estudo também indicaram que a maioria dos casos foi encaminhada pela rede pública e, ao diagnóstico, apresentava a doença em estádios avançados. Um estudo observacional retrospectivo, envolvendo 37.121 pacientes diagnosticados com carcinoma de células escamosas na região de cabeça e pescoço entre 2016 e 2018, sendo 36.914 em hospitais públicos e 207 em serviços privados (oncoclínicas) brasileiros, observou que, entre homens e mulheres, a cavidade oral foi o sítio primário predominante, correspondendo, respectivamente, a 52,2% e 33,5% dos casos da doença23. A maioria dos casos também foi diagnosticada com estádio localmente avançado (estádios III-IVB), independentemente do sítio primário. Doença metastática (estádio clínico IVC) foi diagnosticada em um pequeno percentual dos casos (2,9%)23. Outro estudo aponta que pacientes dos serviços de saúde públicos brasileiros apresentam condições socioeconômicas mais baixas do que os pacientes do setor privado29. No setor de saúde privado, o estádio localmente avançado foi observado na maioria dos casos diagnosticados e tratados. Por outro lado, em relação à predominância do sítio primário da doença, uma menor proporção de tumores da cavidade oral foi observada em comparação aos tumores da orofaringe23. Isso pode refletir a trajetória de pacientes com tumores da cavidade oral que são submetidos à ressecção cirúrgica e nem sempre são encaminhados para clínicas de oncologia23. O aumento na proporção de câncer de orofaringe ao longo do tempo no setor privado pode sugerir um aumento na prevalência de tumores relacionados à infecção pelo HPV23,30–32.
A mediana do intervalo do serviço de saúde evidencia que o número de dias que os baianos aguardam para receber o diagnóstico está de acordo com o que estabelece a Lei n.° 13.896/201914, indicando que os hospitais baianos entregam o diagnóstico em tempo oportuno. É importante destacar que as diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal — Brasil Sorridente — preveem que o diagnóstico do câncer de cavidade oral possa ser realizado pelos Centros de Especialidade Odontológica, a fim de acelerar o diagnóstico da doença, permitindo a detecção em estágios iniciais e o paciente acessar o hospital apenas para o tratamento. Já a mediana entre o diagnóstico e início do tratamento observada no Estado da Bahia contraria a Lei Federal n.° 12.732/2012, que preconiza que o paciente com neoplasia maligna tem direito de se submeter ao primeiro tratamento no SUS no prazo de até 60 (sessenta) dias contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário único15. Um estudo de séries temporais no Brasil, com base em dados do DATASUS entre 2019 e 2021, identificou que mais da metade dos pacientes com câncer de boca e orofaringe iniciaram o tratamento após 60 dias do diagnóstico33.
Nesse sentido, é importante destacar que o SUS, para onde é referenciada a maior parte dos casos de tumor de cavidade oral, apresenta importantes desafios na detecção e tratamento desses tumores no menor intervalo de tempo23. Neste estudo, a origem do encaminhamento e deslocamento se mostraram como fatores importantes para o intervalo do serviço de saúde. No entanto, na análise multivariada, a origem do encaminhamento perdeu significância estatística e a necessidade de deslocamento apresentou uma relação inversa. Apesar disso, é importante destacar que barreiras geográficas e estruturais do sistema de saúde dificultam o acesso ao tratamento, especialmente entre os usuários do SUS que necessitam se deslocar para centros especializados33. Tal situação reflete a realidade do Estado da Bahia, marcada por desafios semelhantes, como a escassez de serviços de média e alta complexidade em oncologia fora dos grandes centros urbanos, a fragilidade de um sistema de referência e contrarreferência eficaz entre os diferentes níveis de atenção, pactuação com setores privados, burocratização dos processos, entre outros. Esses entraves comprometem o acesso oportuno ao diagnóstico e ao início do tratamento, influenciando diretamente no prognóstico e na evolução clínica dos pacientes.
Apesar de este estudo ser realizado a partir de dados secundários e estar sujeito ao viés da informação por falhas no preenchimento e incompletude dos dados, um estudo descritivo que avaliou a qualidade dos dados dos RHC no Brasil, entre os anos de 2000 e 2022, demonstrou uma melhoria progressiva na completude das variáveis ao longo do tempo, com destaque para o aumento da completude das variáveis clínicas no ano de 2020, em comparação com os três anos anteriores34. No entanto, ressalta-se que os dados fornecidos pelo IntegradorRHC não representam a totalidade dos casos novos de câncer diagnosticados no Estado, uma vez que sua cobertura se restringe aos indivíduos que acessam unidades habilitadas para o cuidado oncológico, não contemplando aqueles que não procuram tratamento16.
Vale ressaltar que os critérios propostos pela Declaração de Aarhus11 para promover a qualidade, consistência e melhorar a comparabilidade dos estudos sobre intervalos de diagnóstico e tratamento para o câncer foram pensados para um sistema de saúde organizado de forma diferente do brasileiro. Bem como o período explorado neste manuscrito inclui os anos da pandemia da covid-19, o que pode ter influenciado o tempo observado nos intervalos analisados. Desse modo, fazem-se necessários novos estudos com dados mais robustos, considerando a diversidade cultural, étnica e socioeconômica da população, assim como a organização da Rede de Atenção em Saúde, a pandemia da covid-19 e que incorporem variáveis relacionadas aos processos de trabalho, fluxos assistenciais e barreiras de acesso aos serviços, a fim de identificar maiores especificidades relacionadas ao intervalo para diagnóstico e tratamento do câncer de cavidade oral.
CONCLUSÃO
Os achados deste estudo indicam que o intervalo do serviço de saúde para o diagnóstico e o tratamento dos casos de câncer de cavidade oral no Estado da Bahia ultrapassa 90 dias. O intervalo foi associado à necessidade de deslocamento, ao sexo, à idade e ao estadiamento. Observou-se menor intervalo entre os indivíduos que necessitaram de deslocamento para tratamento, caracterizando esse fator como protetor. Além disso, mulheres apresentaram intervalo maior em comparação aos homens, e o aumento da idade esteve associado ao aumento do intervalo do serviço de saúde.
Assim, os resultados deste estudo devem contribuir para uma melhor compreensão dos desafios no percurso do cuidado ao paciente com câncer de cavidade oral, destacando a importância do planejamento integrado da atenção oncológica no Estado da Bahia.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os conjuntos de dados gerados e analisados durante o estudo atual estão disponíveis na URL https://irhc.inca.gov.br/RHCNet/visualizaTabNetExterno.action
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Editado por
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Editora associada:
Adriana Tavares de Moraes Atty. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-2271-746X
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Editora-científica:
Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777
