RESUMO
Introdução: Pesquisas apontam a existência de um abismo entre a formação médica e as necessidades das populações e dos sistemas de saúde, ao não considerarem as iniquidades em saúde no processo formativo dos estudantes, cujo resultado é uma força de trabalho mal preparada para os desafios do século XXI. Assim, são imprescindíveis estudos de monitoramento e avaliação de ações e estratégias formativas que possam subsidiar formuladores de políticas, gestores e controle social em uma reorientação do modelo formativo médico que contribua para uma atenção à saúde equitativa epidemiologicamente eficiente e socialmente justa.
Objetivo: Este estudo teve como objetivo mapear a produção científica internacional sobre a abordagem das iniquidades em saúde na formação médica, considerando temas, estratégias e percepções acerca da sua importância para o cuidado no processo saúde-doença.
Método: Trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo revisão de escopo, realizada nas bases de dados ou bibliotecas virtuais PubMed, Lilacs, SciELO, Web of Science, além de consulta a especialistas. Foram considerados artigos em inglês, espanhol e português, os quais, após os critérios de inclusão e exclusão, conformaram um corpus de 27 artigos.
Resultado: Os artigos incluídos representam 12 países de três continentes que abordam iniquidades em saúde segundo diversos marcadores, como raça, etnia, gênero e sexo. As estratégias de abordagem das iniquidades durante a formação médica são distribuídas em disciplinas obrigatórias, eletivas, por meio de simulações clínicas, de maneira transversal ao curso, em palestras, workshops, tutorias ou ações extracurriculares. Todavia, a maioria dos estudos demonstram a pouca contextualização sócio-histórica dessas abordagens, reafirmando estereótipos, percepções negativas dos estudantes em relação aos marcadores sociais ou pouca compreensão de sua relação com o processo saúde-doença. Contudo, quando as iniquidades em saúde são abordadas de uma forma efetiva e crítica, parece haver ganhos importantes na aquisição de habilidades clínicas, responsabilização social, empatia e sensibilidade à história social dos pacientes.
Conclusão: Há uma urgência em se avançar na reorientação de cursos médicos para um cuidado capaz de reconhecer as necessidades gerais e específicas dos indivíduos e grupos sociais nas suas diferentes trajetórias de vida, amparados nos suportes teóricos e políticos das iniquidades em saúde.
Palavras-chave:
Educação Médica; Iniquidades em Saúde; Política de Saúde; Recursos humanos em Saúde; Sistema Único de Saúde
ABSTRACT
Introduction: Research points to the existence of a gap between medical training and the needs of populations and health systems, by not considering health inequalities in the training process of students, which results in a workforce that is ill-prepared for the challenges of the XXI century. Thus, studies are needed to monitor and evaluate training actions and strategies that can support policy makers, managers and social control in a reorientation of the medical training model that contributes to equitable, epidemiologically efficient and socially fair health care.
Objective: To map the international scientific production on addressing health inequalities in medical training, considering themes, strategies and perceptions about their importance for care in the health-disease process.
Method: This is qualitative research of the scope review type, carried out in the databases or virtual libraries PubMed, Lilacs, SciELO, Web of Science, in addition to consultation with specialists. Articles in English, Spanish and Portuguese were considered, in which, after the inclusion and exclusion criteria, a corpus of 27 articles was formed.
Results: The articles included represent twelve countries from three continents, which address health inequities according to different markers such as race, ethnicity, gender and sex. Strategies for approaching inequalities during medical training are distributed in mandatory and elective disciplines, through clinical simulations, transversally to the course, in lectures, workshops, tutorials or extracurricular activities. However, most studies show little socio-historical contextualization of these approaches, reaffirming stereotypes, negative perceptions of students in relation to social markers or little understanding of their relationship with the health-disease process. On the other hand, when health inequalities are addressed in an effective and critical way, there seem to be important gains in the acquisition of clinical skills, social responsibility, empathy and sensitivity to the social history of patients.
Final considerations: There is an urgent need to move forward in reorienting medical courses towards care capable of recognizing the general and specific needs of individuals and social groups in their different life trajectories, supported by theoretical and political supports of health inequities.
Keywords:
Medical Education; Health Inequities; Health Policy; Health Human Resource Training; Unified Health System
INTRODUÇÃO
As iniquidades em saúde vêm sendo estudadas no campo da saúde coletiva, em que há uma preocupação histórica por compreender as relações entre saúde, doença e cuidado, partindo da análise das desigualdades injustas e evitáveis nas quais as diversas populações nascem, vivem, adoecem e morrem1),(2. Nas suas trajetórias de vida, as pessoas precisam de cuidados em saúde, sendo as práticas realizadas pela profissão médica dominantes e hegemônicas, o que acaba influenciando e até definindo os rumos das práticas dos demais profissionais da saúde e, por conseguinte, os fluxos dos processos terapêuticos vivenciados pelos usuários dos serviços de saúde3.
Desde 1970, a educação médica e a profissão médica no contexto latino-americano têm sido objeto de diversos estudos pioneiros que propunham uma reflexão sociológico-crítica baseada no referencial marxista, considerando um modo de produção de profissionais da saúde nas sociedades capitalistas modernas. Como exemplo, citamos o célebre estudo La educación médica en la América Latina, em que Juan César García4 tece importantes considerações sobre a necessidade de uma educação médica capaz de romper com os ideais positivistas que reduzem os sujeitos a uma mera estrutura biológica com capacidade produtiva5.
Nessa mesma década, Cecília Donnangelo6),(7, Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves8, Madel Luz9 e Sérgio Arouca10 analisaram o profissional médico e a prática da medicina no Brasil a partir de diversas perspectivas teórico-conceituais que convergem na dialética sociedade-saúde-trabalho-capital, em que papel do médico é interpretado, de algum modo, como instrumento de perpetuação ou redução das iniquidades em saúde.
Cinquenta anos após esses estudos, consensos internacionais ainda indicam a existência de um abismo entre a formação médica e as necessidades das populações e dos sistemas de saúde, cujo resultado é uma força de trabalho mal preparada para os desafios do século XXI, com forte orientação hospitalocêntrica e que não considera a saúde no seu conceito mais ampliado ou nas suas práticas mais equitativas11),(12.
Numa conjuntura política favorável, o Brasil tentou avançar na superação desse desafio. Em 2014, novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de Medicina foram formuladas com o propósito de aprimorar competências, valores e perspectivas para a concretização do perfil do egresso em Medicina nos âmbitos da educação e da saúde, com a inclusão no currículo médico de abordagens e discussões considerando os conceitos de raça, etnia, gênero, sexo e classe, entre outros, como temas transversais. Essas mudanças pretenderam valorizar a responsabilidade social como elemento central no exercício da medicina visando à redução das iniquidades e desigualdades em saúde13, dialogando, assim, com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no reconhecimento do impacto dos Determinantes Sociais da Saúde (DSS) na saúde populacional14.
Nesse sentido, vale destacar tanto a interação currículo-aprendizagem dos estudantes quanto a reprodução de desigualdades e iniquidades que tendem a se perpetuar desde o interior dos cursos até o exercício profissional. Saberes e práticas são constituídos a partir de intencionalidades, explícitas ou não, que manifestam concepções de saúde no seu conceito mais ampliado, a pluralidade da condição humana, suas interseccionalidades e a presença de reflexão crítica4.
No Brasil, principalmente a partir dos anos 2000, foram implementadas políticas de ampliação do acesso ao ensino superior, como a Lei de Cotas, o Programa Universidade para Todos e o Fundo de Financiamento Estudantil, com consequente aumento na oferta de profissionais médicos no país15. Porém, esse processo soma-se a uma tendência global da privatização do ensino médico, sobretudo nos países de renda média e baixa16, onde essa expansão associada à financeirização do setor confere um caráter de mercadoria não apenas ao profissional, mas também ao produto final do seu cuidado, a saúde17.
Em razão das antigas e recentes disputas envolvidas na formação e atuação médica, da expansão de escolas médicas no Brasil e da necessidade de subsidiar formuladores de política, gestores e controle social para a elaboração de alternativas que rompam com um padrão profissional de escasso alcance social e efetividade na saúde18, este artigo tem como objetivo mapear a produção científica internacional sobre a abordagem das iniquidades em saúde na formação médica, considerando temas, estratégias e percepções acerca da sua importância para o cuidado no processo saúde-doença.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo revisão de escopo, realizada de acordo com os pressupostos estruturados do Joanna Briggs Institute (JBI) (19, que apresenta como características a capacidade de mapear conceitos e teorias, sintetizar evidências e apontar lacunas de uma área do conhecimento20),(21.
A fim de subsidiar a condução desta revisão, formulou-se uma pergunta de investigação a partir da estratégia Population, Concept e Context (PCC) (19 - P = estudantes de Medicina, C = iniquidades em saúde e C = formação - que convergiu para o seguinte questionamento:
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Como os estudantes de Medicina se relacionam com as iniquidades em saúde no processo saúde-doença durante sua formação?
Realizou-se uma consulta eletrônica entre os dias 10 de março e 13 de maio de 2023, nas seguintes bases de dados e/ou bibliotecas virtuais: PubMed, para acesso aos estudos publicados na Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs); Scientific Electronic Library Online (SciELO); Web of Science. Houve ainda a consulta a especialistas sobre o tema para que indicassem estudos que também pudessem ser inseridos na análise.
Na estratégia de busca, utilizaram-se como descritores principais as expressões “iniquidades em saúde” e “educação médica” referenciadas nos Descritores em Ciências da Saúde/Medical Subject Headings (DeCS/MeSH), adaptando-as segundo a necessidade para o inglês e/ou espanhol, conjugando-as, também, com os operadores booleanos AND e OR20. Dessa forma, obteve-se a seguinte chave, por exemplo, utilizada na PubMed: ((((((((health inequities[Title/Abstract]) OR (health inequity[Title/Abstract])) OR (inequities, health[Title/Abstract])) OR (inequity, health[Title/Abstract])) OR (health inequalities[Title/Abstract])) OR (health inequality[Title/Abstract])) OR (inequalities, health[Title/Abstract])) OR (inequality, health[Title/Abstract])) AND ((Medical students[Title/Abstract]) OR (medical education[Title/Abstract])).
Foram filtrados artigos em língua portuguesa, espanhola ou inglesa, sem a delimitação de uma data inicial de publicação, para capturarmos o primeiro estudo publicado sobre o tema dentro da conjuntura histórica, mas com data-limite para 31 de dezembro de 2022.
As buscas foram efetuadas por dois pesquisadores independentes (R. C. e J. L.) norteados pelos seguintes critérios de elegibilidade:
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Inclusão: Estudos que mencionassem como as iniquidades em saúde são abordadas, trabalhadas ou percebidas durante a formação médica.
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Exclusão: Estudos duplicados; documentos emitidos pela administração pública; teses; dissertações; revisões; ensaios ou anais de congressos; estudos que, embora tratassem de formação médica e iniquidades em saúde, não abordam a iniquidade no processo de cuidado ou saúde-doença, mas outras questões que não trazem qualquer informação para o tema pesquisado.
Os dissensos foram resolvidos por um terceiro pesquisador (L. S.).
Conforme referenciado nas revisões de Santos et al.21),(22, Méllo et al.20 e nas diretrizes do JBI19, o processo de busca seguiu os preceitos operacionais do checklistadaptado do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses - Prisma (Figura 1).
Após a formação do corpus da revisão, com os estudos incluídos pelos dois pesquisadores independentes, ambos, de forma colaborativa, sistematizaram as informações dos artigos em um formulário padronizado no Excel®, para dirimir as dúvidas, e um terceiro pesquisador foi acionado. Coletaram-se os seguintes dados: autor/ano, país de realização do estudo, revista em que o artigo foi publicado, tema abordado, método, unidade de análise, estratégia de abordagem da iniquidade na formação médica e percepção da iniquidade em saúde na formação médica ou na abordagem ensinada. Posteriormente, também seguindo os preceitos da técnica de revisão19, o processo de elaboração dos resultados e das discussões também foi colaborativo, obedecendo às etapas de síntese dos dados e organização temática, a partir das categorias analíticas descritas a seguir.
A categorização dos estudos foi construída a partir de diversos conceitos oriundos das ciências sociais e humanas na saúde que abordam diferentes marcadores sociais como indicadores das posições e das oportunidades diferenciais dos sujeitos e grupos na sociedade14. Esses conceitos, aplicados pela saúde coletiva, permitem analisar o diferente acesso e tratamento de determinados sujeitos e grupos em relação à produção social do processo saúde-doença-cuidado23.
Os estudos categorizados como referidos à raça são aqueles que mencionam características ou comportamentos diferenciados entre grupos com base em ou relacionados com traços supostamente biológicos, isto é, fisionômicos, de fenótipo ou de genótipo. Cabe esclarecer que na atualidade esse argumento não é considerado procedente em termos científicos, já que o conceito de raça remete sociologicamente a uma construção discursiva e historicamente datada sobre a origem e as identidades sociais dos grupos24),(25. Porém, a utilização do conceito permite evidenciar iniquidades que não são produto de diferenças biológicas, mas de desigualdades sócio-históricas passíveis de ser transformadas/combatidas.
Considerando a advertência de Santos et al.26 sobre a tendência de as pesquisas em saúde utilizarem os termos raça e etnia como sinônimos, reservamos esse último para os estudos que se debruçam sobre especificidades culturais, linguísticas e tradições de determinados grupos em detrimento dos aspectos fenotípicos ou genotípicos, como no caso das populações indígenas.
Na categoria gênero, foram agrupados aqueles artigos que mencionam papéis e valores (estereotipados ou não) atribuídos ao feminino e ao masculino27, enquanto a categoria sexo e sexualidade abrange estudos que abordam as especificidades orgânicas de indivíduos masculinos ou femininos e suas consequências na saúde/doença, bem como a diversidade de práticas e identidades sexuais de indivíduos e grupos28. Os artigos que abordam iniquidades em geral tratam das desigualdades no processo saúde-doença sem referenciar nenhum marcador, tanto na população geral quanto em grupos específicos. Para além das abordagens mais tradicionais acerca das iniquidades, tidas como categorias prévias, o estudo também buscou identificar novas categorias e abordagens emergentes, como a questão das pessoas com deficiência (PcD), em situação de rua etc.
RESULTADOS
Características bibliométricas dos artigos
Foram incluídos neste estudo 27 artigos distribuídos em 12 países e três continentes, conforme observado na Figura 2.
Conforme observado no Quadro 1, o primeiro artigo mapeado do corpus é do ano de 2014, e a maior concentração de produções se encontra em 2018 e 2022 (com seis publicações a cada ano). Sobre o tipo de estudo, 19 são qualitativos; sete, quantitativos; e um, quantiqualitativo. A produção dos dados apresentou diversas abordagens, como: a análise documental de projetos pedagógicos, matrizes curriculares e slides de aulas das escolas médicas; bem como a análise de entrevistas/questionários com diretores de escolas médicas ou estudantes do primeiro ao último ano do curso médico. Salienta-se que o primeiro e o último ano do curso médico concentraram o maior número de estudos, sendo nove e seis, respectivamente. O tamanho amostral desses estudos variou de 25 a 302 estudantes.
A organização temática apresentada no Quadro 1 demonstra que as discussões sobre as iniquidades em saúde na formação médica no mundo, em número decrescentes, apresentam o seguinte recorte: raça (sete); etnia (cinco); iniquidades em geral em populações específicas, como PcD (cinco) ou populações em situação de rua (um); iniquidades em geral sem apontar um público específico (quatro); gênero (três) e sexo/sexualidade (dois). É interessante apontar que apenas um grupo de pesquisa, liderado por Trollor et al.29)-(31, concentra três produções referidas às iniquidades em PcD na formação de médicos na Austrália.
Três revistas concentraram aproximadamente 45% das publicações, sendo por ordem descrente: BMC Medical Education (seis) do Reino Unido29)-(34, PLoS One (três) dos Estados Unidos35)-(37 e Revista Brasileira de Educação Médica (três) do Brasil38)-(40) (Quadro 1).
De que forma as iniquidades em saúde são trabalhadas na formação médica?
As iniquidades em saúde durante a formação médica têm sido elencadas em disciplinas obrigatórias29),(34),(39),(40),(45),(46),(50),(53, ou eletivas29),(31),(34),(39),(40),(45),(50, por meio de simulações clínicas41, de maneira transversal ao curso40),(44, em palestras, workshops, tutorias30 ou ações extracurriculares como fórum de discussão42, clube do livro43, estágio de verão51, atuação territorial38 ou programas de extensão acadêmica40 (Quadro 2).
Alguns estudos aqui revisados detalham ainda quais os elementos das iniquidades em saúde são debatidos durante a formação médica nas suas diversas abordagens. Por exemplo, no quesito raça os cursos médicos parecem discutir sobre discriminação e preconceito; estereótipos; racismo42),(44, desigualdades sociais43, saúde da população negra e epidemiologia dos seus agravos44. Acerca de sexo e sexualidade, emergiu um recorte específico para a população denominada LGBTQ+. Os temas tratados em sala de aula são saúde mental, identidade de gênero, orientação sexual, consciência das desigualdades e discriminação34. Em iniquidades em geral, sem referência a uma população específica, um estudo apontou o desenvolvimento de treinamento clínico para o aprimoramento da escuta dos pacientes e de sua história social durante a anamnese53. Em iniquidades com foco em PcD, os conteúdos ministrados são abordados em diversos departamentos das escolas australianas, como pediatria, psiquiatria e clínica geral31. Por fim, um estudo demonstra a operacionalização de atividades clínicas territoriais para atendimento integral às populações em situação de rua38 (Quadro 2).
Percepções das estratégias de abordagem ou das iniquidades em saúde na formação médica: o que dizem os estudos?
Embora os estudos apontem diversas abordagens das iniquidades em saúde ao longo da formação médica, a literatura tem mencionado contradições na sua operacionalização com escassa contextualização crítica das suas relações com o processo saúde-doença dos indivíduos. A exemplo, temos as questões de raça no estudo de Tsai et al.45, gênero no estudo de Bert et al.37, sexualidade no estudo de Barber et al.50 e iniquidades em geral das PcD no estudo de Trollor et al.29.
Ressalta-se que, em simulações clínicas com pacientes brancos e negros, no estudo de Soler-González et al.41 houve uma evidente predileção dos pacientes brancos em detrimento dos negros, o que influenciou inclusive na tomada de decisão terapêutica e clínica dos estudantes. Chamam a atenção, também, os estereótipos envolvidos no conceito de raça entre os estudantes de Medicina, pela associação entre negros africanos a traços sociais de promiscuidade, menor inteligência, irresponsabilidade, ignorância, descuido e preguiça36.
As considerações anteriores também parecem emergir para o marcador étnico das populações indígenas, que são tratadas pelos estudantes de Medicina com menos cordialidade e caracterizadas como menos maleáveis aos processos terapêuticos, em comparação com pacientes europeus32),(35. Por sua vez, o estudo de Ly et al.47) traz um alerta acerca do papel da universidade na reprodução das iniquidades, uma vez que os estudantes entrevistados mencionam que é na faculdade de Medicina que são comumente expostos a visões negativas da população indígena.
Segundo Soledad48, quando se abordam as questões de gênero na formação médica, as disciplinas reproduzem estereótipos, como papéis femininos referentes ao cuidado familiar e aos afazeres domésticos, e masculinos como provedores da família ou resistência à dor. As limitações na identificação desse marcador social como importante causa de problemas de saúde pública se reproduzem na escassa consciência crítica dos alunos de Medicina49 ou na negligência deles na organização da prática médica37.
Em relação às iniquidades relacionadas às PcD, foi localizado um conjunto de estudos realizados nas faculdades médicas australianas29)-(31. O primeiro estudo levanta a hipótese de que a não obrigatoriedade do ensino sobre PcD possa contribuir para os péssimos indicadores de saúde dessa população, sendo resultado, em último caso, do que os autores chamam de ensino inconsistente na formação de médicos29. No que diz respeito às abordagens das iniquidades em saúde desse grupo, os autores mencionam, em estudo posterior, o escasso avanço em relação aos conteúdos ministrados acerca da temática da deficiência no período entre 1995 e 201431.
Outros estudos localizados nesta revisão apontam lacunas na formação profissional, a exemplo da preparação para o trabalho em comunidades indígenas33, com pessoas LGBTQ+50, com pessoas em vulnerabilidade social54 e com PcD55, o que se traduz em sentimentos de ansiedade quando os estudantes entram em contato com essas realidades.
Em compensação, alguns artigos mostram ganhos importantes para a formação de médicos quando as iniquidades, nos seus diversos marcadores, são operacionalizadas de forma eficiente ao longo do curso, por exemplo na aquisição de habilidades clínicas46),(53),(55, desenvolvimento de práticas equitativas em saúde que contextualizam o paciente nos seus modos de vida43, reflexão crítica43),(44, responsabilização social46 e empatia e sensibilidade à história social dos pacientes37),(38),(53.
DISCUSSÃO
Em todo o mundo, as iniquidades em saúde são abordadas de alguma forma e por meio de diversas estratégias na educação médica. Todavia, foram sinalizadas críticas e limitações sobre a maneira como são abordadas29),(33),(37),(45),(50),(54),(55. Em princípio, cabe chamar a atenção para o fato de que, embora muitas das estratégias relatadas contemplem elementos de raça, etnia, gênero e sexualidade, não contextualizam esses marcadores na realidade social e histórica dos indivíduos, assim correndo o risco de reforçar uma visão essencialista, reducionista ou acrítica acerca deles. Ou seja, parece não haver uma problematização acerca da forma como nossas sociedades compreendem, explicam e tratam as diferenças sociais, traduzindo-as em hierarquias e assimetrias de poder e oportunidades entre determinados sujeitos e grupos1),(2.
Considerando as categorias analíticas clássicas aplicadas à análise das iniquidades sociais em saúde, cabe destacar a falta de estudos que abordem o ensino sobre iniquidades em saúde nos cursos médicos a partir do conceito de classe social. Esse conceito é reconhecido pela OMS como elemento estruturante dos processos de determinação social da saúde14, além de ser um constructo analítico especialmente relevante para a saúde já discutido por estudos pioneiros alicerçados no materialismo histórico4, bem como nas teses de Georges Canguilhem56, que, embora não tenha utilizado de maneira sistemática o conceito de classe social, afirmou que as normas humanas não são simples funções de um organismo vinculado a um meio físico, mas expressões dos modos de viver em situações sociais, incluindo a nutrição, as condições de trabalho, a situação econômica e a educação das diferentes classes.
Chama a atenção, também, a ausência de estudos que abordem as iniquidades em saúde em uma perspectiva interseccional. A teoria da interseccionalidade postula que categorias analíticas gerais, como as de gênero, raça ou classe social, aplicadas de forma isolada, são limitadas para dar conta de identidades sociais específicas e de diferenças internas nas sociedades57. Para superar esse entrave, essa perspectiva, ausente nos estudos aqui revisados, aborda a articulação ou intersecção de identidades sociais e sistemas de opressão em diversas realidades58),(59.
Assim, nossos resultados convergem para um nó crítico da formação em saúde já apontado por Figueiredo et al.60. Esses autores comentam que os marcos teóricos da formação em saúde no ensino superior têm se pautado em domínios cognitivos acríticos amparados em pressupostos do modelo médico hegemônico que dissociam e fragmentam os indivíduos em especialidades e subespecialidades, desconsiderando a sua historicidade. Nesse sentido, o processo formativo acaba “sem capacidade de aprofundamento para questionar e refletir acerca da condição humana, que perpassa por conhecimentos científicos e humanísticos necessários para a compreensão do homem, que é um ser biológico, mas também social e cultural” (p. 287)61.
Dadas as percepções negativas que os estudantes projetam nos pacientes, exemplificadas em alguns estudos aqui discutidos32),(35),(36),(41, faz-se necessário que o processo de ensino-aprendizagem do curso médico se desarticule de noções retrógradas que constroem a figura de um profissional de saúde totalmente verticalizado com saberes e fazeres pouco afetivos e práticas autoritárias. Destarte, atribuindo ao paciente apenas um papel de passividade e adesão inquestionável num percurso terapêutico desprovido de vínculo e autonomia62 dentro de uma estrutura de poder que se constrói, sobretudo, dentro da sala de aula63.
Se as salas de aula refletem estruturas de poder63, as características do quadro docente se tornam importantes para influenciar nos rumos dos projetos profissionais dos estudantes. Conforme ressaltam Rios et al.64, no modelo educacional da Medicina os professores se constituem como referências no imaginário dos estudantes. Todavia, se esse modelo não se articula ao desenvolvimento humanístico com alteridade, os estudantes reproduzem comportamentos “frios, distantes, desinteressados pelo paciente, ainda que tecnicamente interessados na sua doença” (p. 40)64, questões postas como históricas no campo e no trabalho médicos6)-(10.
As experiências positivas de abordagem das iniquidades em saúde no processo de formação médica são sinalizadoras de uma capacidade de transformação social médica que precisa ser estimulada e potencializada, pois, na perspectiva dos participantes dos estudos revisados, essas atividades e vivências proporcionam uma prática médica mais voltada para um tipo de cuidado eficaz, integral e humanizado37),(38),(43),(44),(46),(53),(55.
Como alternativa ao cenário negativo das abordagens e percepções, aponta-se a necessidade de que as escolas médicas estimulem uma prática e um perfil docente revestidos de também de humanidade, para além do produtivismo acadêmico expresso nas titulações e nos números de artigos publicados, e da hiperespecialização do cuidado. Esperam-se para o século XXI, além das competências pedagógicas, cognitivas e sociais ressaltadas por Ribeiro et al.62, competências políticas, sobretudo quando se pensa na saúde como um direito humano.
A fim de que os estereótipos não sejam reforçados, os currículos devem promover a exposição à diversidade e reflexão sobre atitudes e crenças, bem como a consciência da participação das instituições de ensino médico e da medicina em estruturas de poder e privilégio65. Dessa forma, as escolas médicas possibilitarão a produção de profissionais socialmente responsáveis, sensíveis e competentes para lidar com a diversidade, de modo a romper com uma educação médica conservadora e alienada das lutas políticas e sociais, e com práticas de saúde distantes dos valores da promoção da saúde, solidariedade e empatia60),(66. Um dos resultados diretos seria dar ênfase e legitimidade às lutas sociais dos indivíduos na garantia de sua saúde e dos seus direitos, evitando a limitada compreensão política da saúde, como evidenciado no estudo de Yeung et al.33 sobre as questões indígenas na Austrália.
Salienta-se que, apesar de a abordagem das iniquidades na formação em saúde ser recomendada por organismos internacionais como a OMS67, não apresenta um caráter de obrigatoriedade, variando de acordo com as leis, diretrizes e recomendações dos órgãos e das instituições regulatórias de cada país. Assim, a depender do país, tais discussões podem variar no seu grau de implementação nos cursos médicos, e dentro dos currículos, que geralmente são fechados, sem um contato inter, trans ou multidisciplinar durante a formação dos estudantes, com fortes características de precoce especialização66.
Reconhece-se que um currículo de graduação também é um território político que pode ser hegemônico e regressivo ou um lugar de resistência e subversão. Ele pode ser identificado objetivamente, de forma explícita, nos projetos pedagógicos39),(40, nas grades curriculares ou ementas28)-(30),(44, nos slides das disciplinas45, nos guias de aprendizagem48 ou nos documentos de orientação para formação médica de associações oficiais52; ou indiretamente por meio de elementos mais ocultos referentes a normas, crenças e valores, que são reproduzidos por alunos e professores dentro da sala de aula60, como demonstrado em outros estudos desta revisão32)-(37),(41)-(43),(46),(47),(49),(50),(51),(53),(54.
Nossos achados apontam também que, na conjuntura aqui revisada, há um despreparo ou um pouco desejo dos estudantes de Medicina de trabalhar com populações vulneráveis ou com condições especiais33),(50),(54),(55, evidenciando um projeto de medicina que não se orienta para a produção de práticas de saúde equitativas visando ampliar e efetivar o direito à saúde das populações. Nesse sentido, parafraseando Almeida-Filho68, qual seria o papel das escolas médicas e dos futuros profissionais: servir às elites ou servir ao povo? É preciso repensar globalmente um projeto de educação médica que rompa com o ideal histórico de lucro e privilégio social, cujo objetivo maior é o retorno financeiro e não o cuidado humano69.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Marcadores específicos das iniquidades em saúde como raça, etnia, sexualidade e gênero são abordados na formação médica, contudo a grande maioria dos estudos apontam certa fragilidade e superficialidade na sua condução, o que acaba pouco contribuindo para uma percepção crítica do processo saúde-doença dos indivíduos.
Entretanto, estudos apontaram importantes ganhos de habilidades clínicas, comportamentais e afetivos para os futuros médicos durante seu percurso formativo quando expostos a práticas educativas que possibilitaram discussão dialógica, contextualizada e referenciada social e historicamente.
Há uma urgência em avançar na reorientação de cursos médicos para um cuidado capaz de reconhecer as necessidades gerais e específicas dos indivíduos e grupos sociais nas suas diferentes trajetórias de vida, amparados nos suportes teóricos e políticos das iniquidades em saúde. Aqui, destacamos a importância da inclusão de disciplinas de ciências humanas no ensino médico. As chamadas “humanidades médicas” não estão ausentes dos currículos das escolas de saúde, mas sua pertinência é frequentemente contestada e o conteúdo dessas matérias é muitas vezes diluído em expressões mais próximas da racionalidade tecnicista. A defesa da história, da filosofia e da sociologia da medicina não como disciplinas optativas, mas como parte essencial da formação médica, não é recente, e nas últimas décadas tais humanidades médicas foram reconhecidas como um método para a tomada de decisões clínicas70.
Longe de termos esgotado as discussões em torno do tema, como pretensão de instigar outras pesquisas, fazemos as seguintes sugestões:
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Na distribuição global dos artigos aqui mapeados, foi perceptível uma predominância de estudos em países de média e alta rendas, com pouca prevalência de estudos no Sul Global. Com base nisso, questiona-se: “Qual é a perspectiva das iniquidades em saúde nos cursos médicos de países de baixa renda ou do Sul Global?”. Como a América Latina tem tradição importante no campo da medicina social com discussões sobre iniquidades em saúde, chama a atenção a rarefação de estudos nessa localização geográfica.
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Qual é a influência do processo de colonização? Que intersecções a colonialidade tem influenciado nas próprias concepções de saúde e no modelo de formação médica?
As limitações deste artigo se expressam na não contextualização dos sistemas de proteção social e de saúde dos países abordados com seu sistema educacional, pois eles refletem a própria concepção de saúde e cuidado exercido pelos profissionais médicos que, sem dúvidas, convergem para um projeto de sociedade em disputa.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao professor Naomar de Almeida Filho a inspiração, o apoio e a cuidadosa revisão final do manuscrito, e à professora Carmen Teixeira a presença constante durante a execução do projeto e o apoio na definição dos descritores para esta revisão.
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FINANCIAMENTO
A pesquisa recebeu financiamento por meio da chamada MS-SCTIE-Decit/CNPq nº 12/2018 - Pesquisas de Inovação em Saúde e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por meio de bolsa de mestrado (código de financiamento 001) concedida a Romário Correia dos Santos e subsídio de recursos pela CA SCON2024-00149.



Fonte: Elaborada pelos autores.
Fonte: Elaborada pelos autores.