Open-access Produtos educacionais de um mestrado profissional à luz dos critérios da Capes: pesquisa documental

RESUMO

Introdução:  Os mestrados profissionais propõem a elaboração de produtos educacionais com aplicabilidade no campo de atuação profissional do discente. Para garantir a qualidade dos produtos desenvolvidos, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vem aperfeiçoando, ao longo do tempo, a forma de avaliação desses produtos, orientando-os a partir dos seguintes critérios: aderência, impacto, acesso, aplicabilidade, inovação e complexidade.

Objetivo:   Este estudo teve como objetivo analisar os produtos educacionais desenvolvidos em um mestrado profissional em Ensino na Saúde (MPES), segundo os critérios da Capes.

Método:  Trata-se de uma pesquisa qualiquantitativa, do tipo análise documental. Incluíram-se produtos educacionais derivados dos trabalhos acadêmicos de conclusão de curso produzidos no período de 2020 a 2023, disponíveis no repositório da instituição, e excluíram-se aqueles que não tinham vínculo com o projeto e a linha de pesquisa. Converteram-se os dados coletados em gráficos para a análise quantitativa, e os produtos selecionados foram submetidos à análise de conteúdo de Bardin.

Resultados:   Foram avaliados cem produtos educacionais, dos quais seis foram excluídos, restando 94; destes, 92,6% foram classificados como tecnológicos e 7,4% como técnicos. Todos são replicáveis. Dos produtos educacionais classificados, 68,1% possuem alta aplicabilidade e abrangência realizada, enquanto 31,9% têm abrangência potencial. Além disso, 75,5% têm médio teor inovativo; 18,1% baixo teor inovativo e 3,2% têm alto teor inovativo. A complexidade foi classificada como média em 68,1% dos produtos, baixa em 17% e alta em 14,9%.

Conclusão:  a análise dos produtos educacionais permite refletir sobre as possibilidades formativas e as tensões que atravessam a produção acadêmica no campo do ensino na saúde. A partir daí é possível direcionar a criação de novos produtos, aperfeiçoando o que já vem sendo proposto.

Palavras-chave:
Análise Documental; Tecnologia Educacional; Materiais de Ensino

ABSTRACT

Introduction:  Professional master’s programs propose to develop educational products with applicability in the student’s professional field. To guarantee the quality of the products developed, the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (CAPES) has over time been improving the way in which these products are evaluated, guiding them based on the following criteria: adherence, impact, access, applicability, innovation and complexity.

Objective:   To analyze the educational products developed by MPES according to the CAPES criteria.

Methods:   This is a quantitative-qualitative research study of the documentary analysis type. It includes educational products that are derived from TACCs produced between 2020 and 2023, available in the institutional repository, and those not linked to the research project and line of research are excluded. The collected data were converted into graphs for quantitative analysis, and the selected products were subjected to Bardin’s content analysis.

Results:   One hundred educational products were evaluated, of which six were excluded, leaving 94; of these, 92.6% were classified as technological and 7.4% as technical. All are replicable. They have high applicability (68.1%) and achieved scope, while 31.9% have potential scope. 75.5% have medium innovative content, 18.1% have low innovative content and 3.2% have high innovative content. Complexity was classified as medium in 68.1% of the products, low in 17% and high in 14.9%.

Final considerations:   The analysis of the educational products generated at MPES allows us to reflect on the training possibilities and tensions that permeate academic production in the field of health education. Based on this, the creation of new products can be directed, offering improvements to previous proposals.

Keywords:
documentary analysis; educational technology; teaching materials

INTRODUÇÃO

O mestrado profissional (MP) configura-se como uma modalidade de pós-graduação stricto sensu que articula saber acadêmico e prática profissional, com foco na qualificação de profissionais capazes de responder de forma inovadora e contextualizada às demandas concretas do mundo do trabalho.

Conforme definido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a estrutura curricular de um MP deve enfatizar a articulação entre conhecimento atualizado, domínio da metodologia pertinente e aplicação orientada para o campo específico de atuação profissional. O trabalho final deve ser sempre vinculado a problemas reais da área de atuação do profissional-aluno, de acordo com a natureza da área e a finalidade do curso1.

O mestrado profissional em Ensino na Saúde (MPES) se insere como uma resposta estratégica à necessidade de qualificar o ensino no campo da saúde, promovendo a articulação entre saber pedagógico e prática assistencial. A partir da identificação de uma situação-problema em seu cotidiano profissional, o mestrando é desafiado a investigá-la criticamente, o que resulta na elaboração de um produto educacional (PE) aplicável à sua realidade, bem como na produção de um artigo científico que sistematiza o processo e seus resultados2.

O PE pode ser definido como um objeto que facilita uma experiência de aprendizagem, ou seja, uma experiência de mudança e enriquecimento em algum sentido. É o resultado palpável de uma atividade docente ou discente3.

De acordo com as orientações da Capes, órgão que avalia periodicamente os programas de mestrado, os produtos devem atender a determinados critérios, sendo eles: aderência, impacto, aplicabilidade, inovação e complexidade4),(5. Esses critérios foram instituídos após a publicação de um documento produzido pelo Grupo de Trabalho de Produção Técnica em 2019. O documento trazia como proposta a aplicação desses parâmetros em todas as áreas de avaliação4.

Em tratando-se de avaliação na área de ensino, autores como Hentges et al.6 destacam a necessidade de reunir evidências que comprovem a relevância dos produtos, demonstrando sua contribuição efetiva tanto para os processos de ensino e aprendizagem quanto para a prática profissional. De acordo com Coelho7,

Para que esses PEs cumpram efetivamente seu papel, é essencial a realização de pesquisas que avaliem sua eficácia. A criação desses materiais não deve ser arbitrária, mas sim fundamentada em processos avaliativos bem estruturados. Isso é crucial para minimizar a variabilidade inerente às intervenções e aos diferentes contextos em que são aplicados, o que pode resultar em dados inconsistentes, enviesados ou insuficientemente detalhados, prejudicando a interpretação dos resultados e a generalização das conclusões.

Metodologias de desenvolvimento e avaliação de processos e produtos estão em ampla discussão nas pós-graduações brasileiras, reforçando a necessidade de expandir as discussões sobre eficácia, impacto e potencial de inovação relevantes para o ensino7. Embora exista o interesse, ainda há carência de estudos que abordem a avaliação e validação de PE. A maioria das pesquisas tem se concentrado em abordagens descritivas, com ênfase em disciplinas diversas, mas não especificamente na área de ensino na saúde8)-(10.

Considerando a existência de orientações oficiais da Capes sobre a elaboração de PE esta pesquisa propõe-se a analisar os PE desenvolvidos no MPES da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a fim de verificar sua conformidade com os critérios estabelecidos pela agência.

MÉTODO

Este estudo adota uma abordagem metodológica qualiquantitativa, com delineamento de análise documental. A investigação centra-se na análise dos PE desenvolvidos por mestrandos de um programa de MPES.

Aplicou-se a análise documental como estratégia metodológica, por permitir a investigação sistemática de registros escritos, com vistas à compreensão, categorização e interpretação das informações neles contidas. Tal abordagem não se limita à descrição dos dados explícitos, mas possibilita a identificação de padrões, a inferência de significados implícitos e a contextualização crítica do conteúdo analisado. É utilizada em diversas áreas do conhecimento para a análise de textos, relatórios, legislações, atas, arquivos digitais, entre outros, consistindo em um amplo e intenso exame de documentos que ainda não receberam tratamento11.

O processo metodológico consistiu, inicialmente, na leitura dos resumos dos PE, provenientes dos trabalhos acadêmicos de conclusão de curso (Tacc) produzidos pelos discentes do MPES, entre os anos de 2020 e 2023, após publicação do relatório técnico (RT) da Capes de 2019, arquivados no repositório do programa, cujo acesso se dá por meio de link eletrônico. Excluírem-se os produtos sem vínculo com a linha ou o projeto de pesquisa, ou nos casos que o acesso a eles não estava disponível - links expirados ou indisponíveis.

A classificação dos PE, conforme os critérios da Capes, foi conduzida por três pesquisadores com experiência em ensino na saúde e familiaridade com a avaliação de produtos dos MP. Os avaliadores realizaram, inicialmente, a leitura integral dos materiais de forma independente. Posteriormente, promoveram-se reuniões de consenso para discutir as divergências identificadas, solucionadas por análise conjunta e fundamentada nas diretrizes da Capes e na literatura especializada, até a obtenção de concordância entre os avaliadores.

Por se tratar de uma investigação de natureza qualitativa e com objetivo exploratório-descritivo, não se pretendeu utilizar análises inferenciais de concordância interavaliadores, como o coeficiente kappa. Ainda assim, o rigor metodológico foi assegurado mediante a leitura independente dos materiais, a definição prévia e explícita dos critérios de classificação, e a adoção de um processo sistemático de resolução consensual das divergências identificadas.

Elaborou-se um formulário para sistematizar o registro e a avaliação dos produtos, permitindo respostas objetivas e padronizadas. O avaliador assinalou as opções correspondentes (sim ou não) ou a classificação mais adequada a cada item. Inicialmente, registraram-se a identificação do produto e o título do Tacc ao qual está vinculado, considerando a possibilidade de um mesmo trabalho originar mais de um produto, desde que atendidos os critérios de inclusão. Em seguida, analisaram-se aspectos como natureza técnica ou tecnológica, aderência aos objetivos, impacto, aplicabilidade e possibilidade de replicação em outros contextos. Quando confirmada, a aplicabilidade foi indicada como de alta ou potencial abrangência. Também foram avaliados o grau de inovação alto, médio, baixo ou ausente e o nível de complexidade do produto, classificado em alto, médio ou baixo, conforme sua natureza e as exigências para implementação.

Conforme as diretrizes da Capes, um PE é considerado tecnológico quando sua criação decorre de conhecimento inédito; quando resulta da aplicação ou adaptação de conhecimentos preexistentes, é classificado como produto técnico4. A aderência refere-se ao grau de vinculação do produto ao projeto de pesquisa desenvolvido pelo mestrando e ao alinhamento com a linha de pesquisa do programa. O impacto, por sua vez, relaciona-se à inserção significativa do produto no contexto profissional do autor, ao propor soluções práticas e contextualizadas para problemas reais identificados em sua área de atuação. Essa articulação entre pertinência temática e aplicabilidade no campo profissional é fundamental para que o produto cumpra seu papel transformador no ensino na saúde2), (12.

No que se refere à aplicabilidade, as diretrizes de avaliação recomendam considerar a capacidade de alcance do recurso e sua adequação ao público-alvo, em termos de linguagem, formato e meios de disseminação. A complexidade diz respeito à diversidade de atores envolvidos, às relações estabelecidas e aos conhecimentos necessários para o desenvolvimento e a implementação do produto5.

Cabe destacar que, anteriormente à publicação do RT-Capes 2019, atividades como aulas, apresentações ou ações similares eram frequentemente aceitas como PE, mesmo não atendendo a objetivos pedagógicos claros ou não se vinculando adequadamente à linha de pesquisa correspondente. Essa prática revelava a ausência de critérios definidos que assegurassem a relevância formativa e a contribuição efetiva desses produtos para o desenvolvimento acadêmico ou profissional.

Como técnica de análise dos dados, foi utilizada a análise de conteúdo, conforme Bardin13, pela possibilidade de examinar significados subjacentes e padrões nos materiais analisados, envolvendo etapas como: 1. identificação e seleção dos documentos que atendam ao objetivo da pesquisa; 2. leitura analítica: foco nos conteúdos centrais, bem como em aspectos implícitos; 3. categorização e codificação; 4. organização das informações em categorias para facilitar a interpretação; 5. triangulação: integração dos dados documentais com outras fontes de pesquisa para validar conclusões13.

Alinhadas essas metodologias à avaliação dos PE, a análise documental possibilitou a interpretação destes à luz dos critérios da Capes, tendo em vista os objetivos da pesquisa, a natureza dos produtos analisados e os propósitos formativos do próprio programa de MP. Nesse contexto, o método auxiliou na identificação da existência de boas práticas e da prevalência de formatos inovadores (como podcasts ou aplicativos móveis), bem como na análise da aderência dos produtos às linhas de pesquisa dos mestrandos.

Por se tratar de análise de documentos de acesso público, a partir de navegação no repositório institucional, e por não contemplar a aplicação de instrumentos como entrevistas ou questionários, o estudo não precisou ser submetido à apreciação ética.

Converteram-se os dados quantitativos em tabelas e gráficos, nos quais foram apresentados os comportamentos de distribuição das variáveis em percentis.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A presente investigação resultou em cem trabalhos resgatados no período investigado, seis foram excluídos após a aplicação dos critérios de elegibilidade, resultando em uma amostra final de 94 PE. A análise contemplou os critérios de aderência, impacto, aplicabilidade, inovação e complexidade, à luz da análise de conteúdo. Entre os trabalhos excluídos, três não se caracterizavam como PE e três não puderam ser acessados em razão de links expirados. A partir dessa amostra, procedeu-se à descrição e à discussão dos produtos quanto à sua tipologia, ao grau de inovação e às potencialidades de aplicação nos diferentes contextos formativos.

Durante a etapa de leitura dos resumos, observou-se que a forma de escrita variou entre os trabalhos, revelando a ausência de um padrão de apresentação adotado pela instituição. Diversos resumos apresentavam informações limitadas, dificultando a compreensão do produto desenvolvido. Apenas uma minoria trazia uma descrição mais clara e estruturada do recurso educacional. Dessa forma, a avaliação plena dos produtos dependeu do acesso ao material completo, ou seja, aos TACCs desenvolvido pelos mestrandos. Ainda assim, foi possível verificar que a maioria dos produtos analisados atendia, em essência, aos critérios estabelecidos pela Capes3 para PE no âmbito dos programas de MP.

Segundo o Grupo Técnico da Capes4, um mesmo produto pode assumir diferentes classificações, a depender da maneira como esses cinco critérios são integrados ao desenvolvimento e à finalidade da produção. Essa distinção exige, portanto, uma análise crítica e fundamentada dos elementos constitutivos de cada produto, com base na intencionalidade do pesquisador, na originalidade da proposta e no potencial do MPES. Compreender essa nuance é essencial para orientar os mestrandos na construção de produtos coerentes com os objetivos do MP, valorizando a articulação entre a prática e a produção de conhecimento aplicável e inovador, conforme os parâmetros instituídos pela Capes.

Quanto ao tipo, 92,6% dos produtos originários do MPES são tecnológicos, frutos da aplicação de novos conhecimentos científicos, com maior grau de novidade. Por sua vez, os produtos técnicos representam em torno de 7,4% dos materiais; trata-se, nesse caso, de produções derivadas da utilização de conhecimentos já existentes (Gráfico 1).

Gráfico 1
Classificação dos produtos educacionais em técnicos e tecnológicos, conforme critérios da Capes.

Os produtos que têm forte inserção na prática profissional, propõem soluções inéditas para os desafios do cotidiano, articulam diferentes saberes e envolvem múltiplos atores tendem a ser classificados como tecnológicos. Em contrapartida, aqueles que utilizam abordagens já consolidadas, mesmo que relevantes e contextualizadas, aproximam-se do perfil de produtos técnicos4.

Entre os produtos com maior potencial tecnológico, destacam-se os que envolvem o uso de ferramentas digitais, jogos interativos, simuladores on-line ou plataformas para apoio ao ensino e à tomada de decisão clínica. Esses exemplos demonstram inovação tanto na forma quanto no conteúdo, bem como exigem maior complexidade técnica para sua implementação. Por sua vez, os produtos que geraram oficinas baseadas em metodologias tradicionais, manuais e cartilhas com conteúdo adaptado a públicos específicos - embora pertinentes e aplicáveis - tendem a se configurar como produtos técnicos, especialmente quando não incorporam elementos de inovação tecnológica.

Análise dos produtos educacionais

A análise dos 94 PE desenvolvidos por discentes do MPES, de 2020 a 2023, revelou que todos atendem, em algum grau, aos critérios de aderência, impacto, aplicabilidade e complexidade. Além disso, 95,7% apresentaram algum elemento de inovação, o que demonstra o compromisso dos autores com a proposição de soluções significativas para o ensino na saúde. Na Tabela 1 é possível verificar a estratificação dos produtos por critério de avaliação, em número e percentual.

Tabela 1
Estratificação dos produtos educacionais quanto aos critérios de avaliação da Capes.

Esses critérios foram essenciais para mensurar a qualidade e a relevância dos produtos do MPES nos contextos educacional e profissional, refletindo sua contribuição para o avanço da formação acadêmica e para a efetividade na resolução de questões práticas do campo da saúde.

A definição de aderência contempla o grau de alinhamento do PE com a linha de pesquisa e os objetivos institucionais do programa, garantindo que sua concepção responde às demandas acadêmicas e sociais previstas. Já o impacto diz respeito às transformações efetivas promovidas pela implementação do produto, mensurando sua capacidade de gerar benefícios concretos no processo de ensino-aprendizagem ou na prática profissional4.

Os PE apresentaram 100% de aderência e impacto, demonstrando que estão alinhados com as diretrizes institucionais e respondem adequadamente às necessidades dos contextos educacional e social. Esse resultado reflete uma alta pertinência dos projetos ao campo da saúde e sugere que os produtos têm cumprido seu papel ao gerar benefícios concretos para os públicos-alvo.

Um trecho do produto intitulado “Oficina de desenvolvimento docente através da arte”14 reflete essa premissa:

O desafio mais destacado refere-se às fragilidades docentes, tais como dificuldade de interação, união, relacionamento e comunicação, bem como a falta de abertura para mudança e utilização de novas metodologias de ensino. Uma das estratégias sugeridas para enfrentamento foi reativar a política de desenvolvimento docente e dinamizar a semana de planejamento (p.55). ( 14

O produto intitulado “Como você gostaria que lhe fosse comunicada uma notícia difícil?”15 também apresenta esse direcionamento:

O vídeo [...] auxilia e mobiliza os estudantes na resolução de problemas e desperta o desejo em aprofundar assuntos [...], com o intuito de explicar, auxiliar e elucidar os pontos mais relevantes dentro de uma comunicação de más notícias 16 ) (p.37)

Essa coerência entre proposta e aplicação está em consonância com as diretrizes da Capes, que valorizam o impacto social e institucional dos produtos dos MP4.

Segundo Pereira et al.16, a aderência institucional e o impacto social são aspectos fundamentais na avaliação de PE em programas profissionais, pois refletem a relevância prática e a contribuição para o sistema de saúde.

Por sua vez, o critério de aplicabilidade avalia o quanto um PE se encaixa nas necessidades do público-alvo e o quão capaz é de ser utilizado em diferentes contextos.

Quanto a esse critério, 68,1% dos trabalhos apresentaram alta aplicabilidade, demonstrando um atingimento eficaz do público-alvo, enquanto 31,9% dos produtos mostraram potencial de abrangência em outras áreas de atuação. Esses dados mostram que a maioria dos PE têm uso imediato, mas também existe um campo promissor para ampliação, indicando potencial de disseminação e adaptação para outras realidades (Gráfico 2).

Gráfico 2
Distribuição dos produtos educacionais quanto à aplicabilidade.

Caracterizam-se como PE de abrangência potencial os demonstrados nos trechos a seguir:

[...] que esse vídeo educacional seja uma ferramenta utilizada para a EPS e que possa auxiliar no entendimento das particularidades do “ser pai”. [...] sensibilizar o profissional a respeito da importância de contribuir e ensinar sobre o papel paterno na Unidade Neonatal 17 .

O incentivo ao uso de podcasts na disciplina de Fisioterapia Intensiva serve para facilitar uma comunicação entre os estudantes, por meio de mídia digital de alta difusão e também eficaz para promover autonomia em relação à busca de informações produzidas e distribuídas18

Botomé et al.19 destacam que a aplicabilidade prática de intervenções educacionais é central para a efetividade de programas de formação voltados para a atuação profissional. O produto “Manual de boas práticas para preceptores em estágios de Enfermagem”, por exemplo, foi utilizado em hospitais universitários, mas possui potencial para ser replicado em instituições privadas ou comunitárias, com adaptações mínimas. De acordo com Diniz et al.20, a aplicabilidade amplia o valor social e institucional dos produtos, sendo critério essencial na mensuração de sua eficácia e adaptabilidade.

Conquanto a maioria dos produtos esteja sendo efetivamente aplicada em contextos específicos, há um espaço significativo para expandir o alcance e potencializar o impacto. Isso sugere a necessidade de estratégias que promovam uma maior disseminação, como as colaborações institucionais e a publicação em canais amplamente acessíveis. O alcance de 100% de replicabilidade indica que os PE possuem características que permitem sua aplicação em diferentes contextos. Essa qualidade é fundamental para maximizar os resultados de intervenções educacionais e fortalecer práticas baseadas em evidências em outras instituições ou programas.

Segundo Morais et al.21, a replicabilidade é um dos pilares para a consolidação de boas práticas educacionais e deve ser incentivada como meio de escalabilidade do impacto social da formação profissional.

A avaliação quanto ao teor inovativo dos PE foi feita com base em seu grau de originalidade e criatividade. Conforme Freitas5, a inovação, nos produtos de MP, deve considerar o contexto aplicado e a transformação de práticas pedagógicas. Mesmo sem a exigência de ineditismo, esperam-se criatividade e originalidade na solução de problemas.

Os dados indicaram que 3,2% dos produtos apresentaram alto teor inovativo, sendo criados com base em conhecimento inédito. Por utilizarem uma combinação de conhecimentos existentes, 75,5% dos produtos foram classificados como de médio teor inovativo. Por fim, 18,1% dos produtos foram classificados como de baixo teor inovativo, baseando-se na adaptação de conhecimentos preexistentes (Gráfico 3).

Gráfico 3
Distribuição dos produtos educacionais quanto à inovação.

Apesar de representarem uma minoria no MPES, os produtos de alto teor inovativo provam que, mesmo sob as restrições temporais e a rotina profissional intensa do mestrando em Ensino na Saúde, é perfeitamente viável conceber soluções verdadeiramente originais. Essas iniciativas de excelência demonstram que o ambiente de um programa profissional, embora voltado para o cenário de práticas, pode e deve ser um terreno fértil para a criatividade, com a produção de ideias e soluções que superam os modelos tradicionais, gerando mudanças profundas na forma como se ensina e aprende.

Em MP, trata-se de ir além do domínio técnico para criar intervenções que transformem radicalmente o ensino e o cuidado - como um aplicativo de realidade aumentada que revolucione a aquisição de habilidades clínicas ou uma plataforma colaborativa que reinvente a tutoria entre preceptores e pacientes -, exigindo desafios para “o jeito tradicional” e visão para conceber “novas possibilidades”.

A teoria da aprendizagem social de Bandura22 destaca que a troca de saberes em comunidade, complementada por vídeos, artigos e estudos de caso, enriquece continuamente o repertório dos usuários, conforme demonstra este produto do MPES:

[...] Propor uma comunidade virtual voltada para o treinamento das habilidades de comunicação e empatia por meio de aplicativo digital 23 (p.5)

O aplicativo “Comunicação empática: aprendendo a falar e ouvir com o coração”23 exemplifica o alto teor inovativo ao criar uma comunidade virtual que articula treinamento de habilidades socioemocionais, gamificação e recursos multimídia num único ambiente digital. Essa proposta vai além de meras videoaulas. Corroborada por Riess24, que destaca o cenário pós-pandêmico, marcado pelo ensino remoto e pelo teleatendimento, essa ferramenta emerge como importante elemento para formar profissionais capazes de manter conexões empáticas a distância, aprimorando a qualidade da relação com o paciente.

A adoção de mecânicas lúdicas - desafios, recompensas e sistemas de progressão - alinha-se ao design instrucional em saúde proposto por Kapp25, garantindo engajamento no desenvolvimento do autoconhecimento e da inteligência emocional, como ocorre no produto “Software em flash: comunicação em saúde game show”, classificado como de alto teor inovativo:

A elaboração de um software no formato de jogo para ser aplicado em estudantes de saúde, com objetivo educacional de reforçar a importância do uso de termos populares, respeitando a identidade cultural e contexto social dos usuários do SUS 26 . (p.61)

Dessa forma, esse aplicativo se destaca por combinar inovação pedagógica e tecnológica em um produto que não apenas transfere conhecimento, mas também cultiva habilidades comportamentais fundamentais para as práticas clínica e educacional no século XXI.

A predominância de produtos com médio teor inovativo reflete o perfil formativo do MP, no qual se valoriza o aprofundamento aplicado em temas consolidados em vez do ineditismo característico do doutorado4. Assim, no quesito inovação prevaleceram iniciativas incrementais, reforçando a necessidade de fomentar soluções pedagógicas disruptivas, apoiadas por tecnologias emergentes e metodologias ativas avançadas.

Com uma incidência menor, 3,2%, alguns dos estudos apresentam baixo teor inovativo por utilizar conhecimentos preexistentes, sem abordagem criativa ou inovadora, como é o exemplo do manual instrucional “Cuidados na hora da paramentação: passo-a-passo”. O material traz uma série de informações que já haviam sido publicadas em várias formas de mídia pelo Ministério da Saúde e por grandes centros de referência dois anos antes de sua publicação27.

Essa “zona de conforto” metodológica limita a emergência de propostas verdadeiramente disruptivas, embora seja coerente com as finalidades do MPES, que privilegia a aplicabilidade imediata sobre a criação de conhecimento completamente novo. Ainda assim, a presença de protótipos que incorporam tecnologias de ponta sinaliza que há margem para elevar o patamar inovativo, mediante estímulos institucionais voltados ao desenvolvimento de soluções mais ousadas e interdisciplinares28.

O critério de complexidade avalia, nos produtos de um MP, o grau de articulação entre diferentes saberes, atores e processos envolvidos4. Todos os PE apresentaram alguma dimensão de complexidade, embora em intensidades distintas: apenas 14,9% alcançaram alta complexidade ao exigirem a sinergia de múltiplos atores - docentes, preceptores, discentes e, por vezes, equipes de serviço - e a negociação de conflitos conceituais e operacionais (Gráfico 4).

Gráfico 4
Distribuição dos produtos educacionais quanto à complexidade.

A maioria dos produtos (68,1%) enquadrou-se em média complexidade, combinando saberes e práticas consolidadas com novas configurações, porém de forma relativamente estável e sem demandas intensas de coordenação; por fim, 17% foram classificados como de baixa complexidade, tratando-se de adaptações de conteúdos já existentes, com participação restrita de atores e sem desafios relevantes de integração.

Essa distribuição reflete o perfil do programa: embora haja espaço para iniciativas interdisciplinares sofisticadas, o MPES gerou projetos de complexidade intermediária, que equilibram profundidade teórica e viabilidade prática, enquanto os casos de alta e baixa complexidade sinalizam oportunidades para ampliar colaborações estratégicas e consolidadas.

O protótipo “Prontuário eletrônico para aprendizagem”29 ilustra a dimensão de média complexidade. Ao integrar docentes, discentes e preceptores em uma plataforma digital, ele aproxima a universidade da realidade profissional, potencializando a aprendizagem situacional sem exigir estruturas institucionais complexas:

Disponibilizar para as universidades um protótipo de aplicativo eletrônico capaz de integrar docentes, discentes e preceptores dos cursos na área de saúde, de forma a aproximar a universidade do cenário de prática e da realidade profissional, visando potencializar a aprendizagem 29 . (p.47)

Essa estratégia de prototipagem digital demonstra como os PE de média complexidade podem oferecer soluções viáveis e contextualmente relevantes, conforme observado por Rizzatti et al.30, que destacam o papel dos protótipos na transformação de práticas pedagógicas em saúde. Produtos de média complexidade, em MP, combinam saberes consolidados com formatos adaptados para contextos específicos, articulando tecnologia e prática sem demandarem extensas negociações interdisciplinares12.

Por fim, a complexidade manteve-se em nível intermediário, apontando para a oportunidade de promover abordagens interdisciplinares e integração multiprofissional, como defendido por Haddad et al.31 para ampliar o impacto formativo. Ainda que esse nível médio reflita um perfil equilibrado de desenvolvimento acadêmico, sugere-se que o aumento da proporção de produtos com alta complexidade pode consolidar o papel do MPES como referência na formação e transformação do ensino na saúde.

Após a conclusão da pesquisa, no sentido de fornecer maior clareza para a análise dos resumos, propõe-se um modelo narrativo padronizado a ser utilizado pelos mestrandos, na elaboração do Tacc, para que possam descrever seus PE, em linha com os critérios de avaliação da Capes. O modelo orienta que sejam informados: autor(es); título e tipo de produto; área de concentração e linha de pesquisa; problema ou necessidade que motivou sua criação; objetivos e público-alvo; fundamentação teórica; descrição sintética do conteúdo e do formato; estratégia de implementação; resultados ou evidências de impacto; potencial de replicabilidade; aspectos de inovação; parcerias e colaborações; produção intelectual derivada; registro ou disponibilização em repositórios; e estratégias de sustentabilidade para atualização ou manutenção do uso.

Os resultados apresentados evidenciam as características dos PE gerados no MPES com base nos critérios da Capes. A análise dos dados oferece insights para compreender as potencialidades e os desafios associados à produção acadêmica nesse contexto.

Foi possível visualizar que os temas centrais dos produtos estão diretamente relacionados à formação dos mestrandos, com foco na aplicação do conhecimento em contextos clínicos, pedagógicos e interprofissionais. Todos são abrangentes e relacionados às linhas de pesquisa, com potencial aplicabilidade nos ambientes de prática profissional dos discentes. Os produtos também são replicáveis, um dos pré-requisitos para se disseminar o conhecimento em ensino na saúde.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os achados sugerem que os programas devem avançar para além do cumprimento formal dos critérios da Capes. É necessário adotar estratégias escalonadas: no curto prazo, consolidar aderência, aplicabilidade e replicabilidade; no médio prazo, desenvolver indicadores de impacto e mecanismos de avaliação contínua; e, no longo prazo, estimular inovação disruptiva e maior complexidade metodológica, garantindo sustentabilidade e relevância social dos PE.

Durante a leitura dos produtos, foi possível identificar a falta de informações e clareza nos resumos avaliados, o que gerou dificuldades na coleta de dados, tendo as pesquisadoras que voltar várias vezes ao Tacc. Observa-se a necessidade de padronizar a escrita dos resumos, da urgência de colocá-los como item de caráter obrigatório, pois alguns produtos não apresentavam resumo, nem abstract.

A limitação de tempo dos mestrandos da área da saúde, que conciliam formação e prática profissional, tende a restringir o desenvolvimento de PE mais inovadores. Superar esse desafio exige incorporar a inovação desde a concepção dos projetos, com acompanhamento contínuo pelos orientadores e pelas bancas de acompanhamento. A literatura recomenda ofertar oficinas de design educacional e metodologias ativas, além de estimular projetos interdisciplinares e criar espaços de divulgação e reconhecimento.

Destaca-se a necessidade de continuar investindo em estratégias que maximizem a abrangência, a inovação e a complexidade dos PE, garantindo não apenas relevância imediata, mas também impacto duradouro no campo da saúde.

Para melhorar a complexidade, pode-se investir em estratégias que aumentem o envolvimento cognitivo e a aplicabilidade prática do produto. A complexidade não deve ser só sobre a quantidade de atores e tecnologia envolvida, mas também sobre a profundidade e interação com o conhecimento.

Quanto à expansão de um horizonte inovador, observa-se a recomendação de parcerias interdisciplinares e de programas de capacitação docente em metodologias de vanguarda, bem como o estímulo ao uso de tecnologias emergentes, de modo a se explorar plenamente o potencial dessas produções.

A análise permitiu revisar a produção científica existente e direcionar a criação de novos produtos, aperfeiçoando o que já vem sendo proposto e possibilitando melhorias nos pontos fracos das produções, a fim de elevar o valor científico dos produtos do MPES.

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação de seus resultados. Primeiramente, a classificação dos PE baseou-se em análise documental e julgamento qualitativo, sem validação externa ou análise estatística de concordância interavaliadores, o que pode introduzir subjetividade, especialmente nos critérios de inovação e complexidade. Ademais, a análise concentrou-se predominantemente em características formais e descritivas dos produtos, não contemplando a avaliação de seu impacto real na prática educacional ou assistencial. Outro aspecto refere-se ao possível viés institucional, uma vez que os avaliadores possuem vínculo com o programa analisado, embora tenham sido adotadas estratégias de leitura independente e consenso.

Apesar dessas limitações, os resultados apresentados oferecem um panorama consistente do perfil dos PE analisados e contribuem para o aprimoramento dos processos formativos e avaliativos no âmbito de um mestrado em ensino na saúde.

Por fim, o processo metodológico deste estudo culminou na criação de um protótipo de uma ferramenta digital (aplicativo móvel) cujo objetivo é instrumentalizar gestores acadêmicos para a avaliação estruturada de PE, bem como auxiliar os discentes na elaboração dos Taccs, conforme critérios estabelecidos pela Capes. O protótipo encontra-se em fase de testes e será submetido a processo de registro de patente, configurando-se como um desdobramento aplicado e inovador da presente investigação.

REFERÊNCIAS

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  • 3
    Avaliado pelo processo de double blind review
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
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Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editor associado:
    Roberto Esteves

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Jul 2025
  • Aceito
    24 Jan 2026
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