Resumo
A partir da análise de espaços centrais que concentram consumo de drogas ilícitas nas cidades de São Paulo (Brasil) e de Bogotá (Colômbia), este artigo tem o objetivo de propor novas perspectivas sobre a relação centro-periferia, levando em conta o impacto do dispositivo das drogas e da moral a ele associada. Como procedimentos metodológicos, utilizaram-se observações de campo, pesquisa documental e revisão bibliográfica na interface entre o conceito de periferia e os espaços estudados. A identificação de códigos compartilhados e conteúdos semelhantes entre a periferia e o centro problematiza a tradicional oposição centro-periferia, evidenciando a complexidade da atual realidade urbana latino-americana e a necessidade de atualizar os conceitos disponíveis para compreendê-la. Aproximar as realidades de São Paulo e Bogotá permitiu lançar a hipótese de que a moral associada à ilegalidade pode intensificar processos de fragmentação socioespacial, resultando em “hiperperiferias centrais”, enclaves com conteúdo “periférico” em pleno centro.
Palavras-chave:
Espaço Urbano; Fragmentação Socioespacial; Conflitos espaciais do capitalismo; Desigualdade e segregação socioespacial; Drogas; Moral; América Latina
Abstract
Based on the analysis of central areas that concentrate illicit drug use in the cities of São Paulo (Brazil) and Bogotá (Colombia), this article aims to propose new perspectives on the center-periphery relation, taking into account the impact of the presence of drugs and the associated morality. Field observations, documentary research and literature review were used as methodological procedures in the interface between the concept of periphery and the spaces studied. The identification of shared codes and similar features in both the periphery and the center problematizes the traditional center-periphery opposition, highlighting the complexity of the current Latin American urban reality and the need to update the concepts to understand it. Bringing together the realities of São Paulo and Bogotá allowed us to formulate the hypothesis that the morality associated with illegality can intensify social and spatial fragmentation processes, resulting in “central hyperperipheries”, enclaves with “peripheral” features in the city center.
Keywords:
Urban Space; Sociospatial Fragmentation; Spatial Conflicts of Capitalism; Inequality and Sociospatial Segregation; Drugs; Morality; Latin America
Introdução
Na rua, em frente à Casa do Hip Hop Leste, no extremo leste da cidade de São Paulo, vimos um pequeno grupo de pessoas em situação de rua que fumavam crack e se abrigavam do sol. Ao olhar para o alto, vimos diversos tênis, em pares ou avulsos, presos nos fios de eletricidade dos postes. Era semana de inauguração da exposição “Vozes negras da periferia”, do artista visual Hiago Bezerra,1 que, para nossa surpresa, expunha uma aquarela representando os tênis emaranhados aos cabos elétricos. Na conversa com o artista, surge o significado dessa prática: código corriqueiro da periferia que expressa a presença de “biqueiras”, ponto de venda de drogas. (Diário de campo, 7 mar. 2024)
Simultaneamente ao surgimento do termo “fluxo” para referir-se à Cracolândia, começaram a aparecer diversas caixas de som pequenas que funcionam com baterias e pilhas. Em muitas delas ouve-se funk de todos os lados [...]. Sugiro que o termo “fluxo” na Cracolândia dialoga com o fluxo dos bailes funks nas regiões periféricas. São traços de manifestações populares das margens trazidas para o centro e ressignificadas no contexto de uso de crack. (Calil, 2015, p. 70)
Os fatos acima suscitam reflexões sobre a relação centro-periferia. O primeiro ocorreu no distrito de Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade de São Paulo. Já o segundo se refere à região conhecida por “Cracolândia”, no centro do município, na qual pessoas em situação de rua também fumam crack debaixo de tênis pendurados (Figura 1). Códigos compartilhados compõem a gama de elementos que caracterizam dinâmicas reconhecidas por periferias urbanas (D’Andrea, 2020), e o fato de tanto a periferia quanto o centro apresentarem esses códigos gera questionamentos sobre a complexidade da atual realidade urbana e os conceitos disponíveis para compreendê-la (Haesbaert, 2014). A partir da análise das áreas centrais das cidades de São Paulo (Brasil) e de Bogotá (Colômbia), este artigo tem o objetivo de, por meio de uma nova perspectiva analítica, investigar as relações centro-periferia e suas reverberações na produção do espaço urbano (Ren, 2021), propondo o conceito de “hiperperiferia central” como inovação teórica para auxiliar na compreensão de dinâmicas contemporâneas no sul global, especificamente na América do Sul. Para isso, neste texto, leva-se em conta o impacto do dispositivo das drogas e da moral na produção do espaço urbano latino-americano.
Na segunda metade do século XX, com reflexões sobre separações de classe, configurações espaciais e a economia política da urbanização (Feltran, 2011; Canettieri, 2019), o conceito de periferia ganhou relevância teórica. No caso das metrópoles brasileiras, ele surgiu na década de 1960, para se referir às bordas da cidade, onde foram alocadas as pessoas oriundas do êxodo rural e de intervenções estatais de remoção de favelas, portanto comumente remete a pobreza, precariedade e violência (D’Andrea, 2020). Pesquisadores como Kowarick (1980), Caldeira (1984) e Maricato (1996), entre outros, propuseram compreensões variadas, evidenciando a complexidade e a ausência de consensos sobre o tema (Cerqueira, 2020). A partir dos anos 1990, a expansão da violência, da criminalidade e da estruturação de dinâmicas relacionadas ao tráfico de drogas ilícitas gerou uma crise conceitual que impactou a ideia tradicional de periferia (Feltran, 2011). Nas últimas décadas, o termo se incorpora ao debate popular, aparecendo com frequência em conversas cotidianas, nos meios de comunicação e como locus de diversas formas de expressão artística. Pensar as periferias implica pensar contextos de desigualdades políticas e econômicas, insuficiência de infraestrutura urbana e criminalidade, além do estigma territorial que carimba o espaço e as pessoas com traços de marginalidade e perigo (Cruz; Legroux, 2022).
As transformações urbanas do final do século XX complexificaram a relação centro-periferia (Melara, 2018), com o surgimento de diversos subcentros, e a sedimentação de multi(poli)centralidades (Silva; Teixeira; Sposito, 2021) e de bolsões de pobreza extrema, tanto no centro quanto nas margens, passou a caracterizar o processo de fragmentação socioespacial (Sposito; Góes, 2013; Britto, 2016; Legroux, 2021). São rearranjos que acompanham novas forças produtivas e que consequentemente provocam reestruturação das cidades e o transbordamento da tradicional dicotomia centro-periferia. Se a lógica centro-periférica se altera, ainda que não desapareça, quais seriam as mudanças empiricamente observadas sob a lógica fragmentária na atualidade?
Pretendendo contribuir com a resposta a tal questão, este artigo tem duas metrópoles latino-americanas como campo de análise - São Paulo, no Brasil, e Bogotá, na Colômbia -, com atenção direcionada ao papel do dispositivo das drogas na produção de espacialidades em suas áreas centrais: em São Paulo, a região da Luz/Campos Elíseos, conhecida popularmente por “Cracolândia”, e em Bogotá, os bairros de Santa Inés e Los Mártires, conhecidos por “Cartucho” e “Bronx”, respectivamente. São realidades em que o comércio e uso de drogas ilícitas compõem os processos de produção do espaço e de práticas sociais e que, para além de suas singularidades, apresentam características similares comumente associadas às periferias, porém materializadas no centro dessas duas metrópoles.
A urbanização latino-americana, inspirada em modelos europeus incompatíveis com a realidade social escravocrata (Almandoz, 2002), resulta em precarização com vestígios de colonialidade, “numa espécie de limbo civilizacional” (Arantes, 2023, p. 58) que perdura na produção do espaço. A disparidade entre a cidade idealizada e a vida real cotidiana ecoa nas enormes desigualdades políticas e econômicas que pautam o desenvolvimento urbano e social (Gorelik, 2005), introduzindo (inicialmente) e acirrando (posteriormente) o processo de segregação. Como veremos, tal processo, historicamente marcado pelo antagonismo entre centro e periferia na configuração socioespacial (Cerqueira, 2020), buscou invisibilizar e criminalizar dinâmicas populares e clandestinas (Figueiras, 2008); um contínuo de marginalização, que desde o período colonial persiste nas supostas democracias do presente, marcando diferenciações sociais que, ao longo do tempo, associaram pessoas pretas e pobres a categorias morais como vadios, marginais e traficantes (Ávila, 2006).
Segundo Arantes (2023), as periferias, ou a periferização dos espaços, é a chave de interpretação do mundo atual, e o estudo de duas metrópoles latino-americanas (São Paulo e Bogotá) possibilita a identificação de relações que transpassam do centro para a periferia e vice-versa, complexificando as análises sobre a produção do urbano latino-americano. Nesse sentido, propomos a hipótese de que o caráter dinâmico/processual da relação entre centro e periferia precisa predominar sobre as referências locacionais, tendo como foco o papel da condição periférica, isto é, a “intensificação das formas mais precarizadas de vida” como tendência na composição do urbano contemporâneo (Canettieri, 2019, p. 27). O artigo visa contribuir com o esforço coletivo de ampliar as análises sobre o conteúdo das periferias em metrópoles latino-americanas, nas quais o processo de segregação socioespacial desempenhou papel de destaque (Caldeira, 2000). Dialogamos com a compreensão de D’Andrea (2020, p. 35), para quem a noção de conteúdo periférico “expressa fundamentalmente uma desigualdade na distribuição da riqueza no espaço”, além da correlacionada afirmação política, subjetiva e identitária pelas sujeitas e sujeitos periféricos. Sendo assim, aproximar as realidades de São Paulo e Bogotá nos permitiu demonstrar como processos de intensa fragmentação socioespacial podem resultar na dinamização de enclaves com características “periféricas” em pleno centro.
Em diálogo com o conceito de hiperperiferia trabalhado por Torres e Marques (2001), buscamos destacar conteúdos sociais e diferenciais nas condições de vida que intensificam aspectos da segregação socioespacial no século XXI. A partir da noção de periferia como recorte analítico, apresentamos a sobreposição de elementos que se acumulam e reforçam a fragilidade social e urbana como elemento adicional de exclusão. Destacamos formas de segregação socioespacial que se tornam mais complexas por estar no centro, em contextos específicos e em relação às populações em situação de rua, que, desprovidas de moradia e acesso à infraestrutura urbana, além da ausência de cidadania e/ou civilidade, apresentam exacerbada precariedade, péssimas condições de vida e poucas alternativas de mobilidade social, como apresentado por Torres e Marques (2001) em relação às “periferias das periferias”, chamadas de “hiperperiferias”. Dessa forma, a aplicação dessa ideia ao centro colabora na construção de um novo quadro conceitual sem perder seu significado original e, assim, auxilia na compreensão das novas realidades socioespaciais de metrópoles do sul global.
2. Abordagem metodológica
A metodologia utilizada foi qualitativa, com a intenção de aprofundar as análises sobre as dimensões sociais, políticas e socioculturais do processo de fragmentação socioespacial. Inicialmente, realizou-se uma pesquisa documental sobre os aspectos históricos e urbanísticos das áreas estudadas para a caracterização de cada contexto. Em seguida, como principal estratégia, o levantamento bibliográfico sobre as duas cidades investigadas foi colocado em diálogo com a bibliografia nacional e internacional sobre o conceito de periferia. Também realizamos trabalhos de campo sob a abordagem etnográfica, que propicia uma aproximação atenta ao campo que permite auxiliar no reconhecimento dos vínculos e dinâmicas territoriais associados aos processos macrossociais, políticos e econômicos que se fazem presentes no cotidiano de setores populares (Adorno et al., 2013). A escolha dessa abordagem visou ampliar o contato com a realidade de ambos os espaços por meio de imersões no cotidiano com o objetivo de identificar especificidades locais aparentemente invisíveis (Magnani, 1996; Uriarte, 2012), além de perceber lógicas “que fazem com que certas vidas ganhem forma e outras sejam impossibilitadas” (Biehl, 2008, p. 416) por meio da configuração de determinadas dinâmicas relacionais e espaciais no urbano.
É importante destacar que este texto não tem o propósito de comparar São Paulo e Bogotá em suas semelhanças e diferenças, pois, como as análises não são realizadas paralelamente sobre os mesmos aspectos, poderíamos gerar generalizações superficiais. Portanto, apresentamos uma reflexão crítica sobre as conexões que aproximam essas cidades no que se refere ao tema das drogas e à produção do espaço urbano. A escolha delas se deu justamente pelas similaridades dos processos, possibilitando análises que podem colaborar com a compreensão das transformações urbanas latino-americanas.
3. Ilegalidade, imaginário e mercado: condições para outros modos de periferização
Nos anos 1970, a automatização dos sistemas de produção excluiu pessoas do mercado de trabalho formal, e a força de trabalho de países periféricos do capitalismo passou a sofrer superexploração como forma de compensar a disparidade das transferências de valor em relação às cidades centrais do capitalismo globalizado (Marini, 2005 apudCanettieri, 2019). Tal compensação, que atende ao mercado global, teve como consequência barbáries capitalistas na escala local (Arantes, 2023), com a proliferação de modos de trabalho considerados “informais” em contextos de alta precariedade, que exigem flexibilidade, pragmatismo e negociações pela sobrevivência (Bayat, 2007 apud Roy, 2011). O aumento do número de pessoas em situação de rua evidencia essa realidade em que “a precariedade e a informalidade não são, para o capital, algo para se combater. Pelo contrário, são uma forma de agenciar o exercício do poder” (Canettieri, 2019, p. 217). A superexploração do cotidiano em condições de vulnerabilidade social caracteriza a dominação social contemporânea, que extrapola o trabalho e perpassa as demais esferas da vida.
Apesar do crescimento econômico e da melhora nos indicadores de pobreza e desigualdade das últimas décadas, os países da América Latina compartilham da tendência de aumento da criminalidade, da violência e do medo (Bergman, 2023). Segundo Feltran (2011), apesar de “o mundo do crime” ser bastante inclusivo e oferecer possibilidade de renda e status social, seu crescimento não é somente uma reação às mudanças no “mundo do trabalho”, mas também sujeito ativo nas disputas pelo espaço e pela legitimidade social na vida pública. As variáveis que se correlacionam com a sedimentação de dinâmicas ilícitas são contextuais e perpassam a urbanização, a economia, a pobreza e a lei, e o ponto de inflexão para seu crescimento, a partir dos anos 1990, deriva da expansão de mercado ilícitos, inclusive das drogas, e da ineficácia (ou conivência) do poder público (Bergman, 2023). O aumento da criminalidade está intrinsecamente articulado com a política e a violência, e especificamente as periferias, portanto, tornaram-se alvo de violência política (Feltran, 2011).
O estudo Mercados de cocaína fumable en América Latina y el Caribe aponta dinâmicas em torno da cocaína fumada (crack) em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Bogotá, Buenos Aires, Medellín, San José, Castries, Kingston, Montevidéu, Tijuana e Santo Domingo, entre outras (Cortés; Metaal, 2019). Convém analisar o papel que essas espacialidades assumem para a gestão pública e, consequentemente, na produção do espaço. É importante compreender historicamente como determinadas decisões políticas, econômicas e administrativas contribuíram para a sedimentação dessas dinâmicas no centro das cidades como rearranjo espacial da engrenagem capitalista (Rolnik, 2019).
A associação entre ilegalidade, criminalização da pobreza, violência e especulação imobiliária tem produzido espaços urbanos de “reputação duvidosa”, delimitados por contornos imaginários que refletem nas relações sociais concretas da vida cotidiana. Esse processo resulta em enclaves considerados “territórios de exceção”, passíveis tanto de práticas clandestinas e ilegais por parte da população como também de “intervenções excepcionais” e violentas por parte do Estado (Rolnik, 2019), em que as distinções ambíguas entre o legal e o ilegal tornam a legislação urbanística maleável. Atualmente, as cidades evidenciam sua característica essencialmente especulativa, atrelada ao valor do solo na região central. Tal aspecto, combinado com a moralidade, retroalimenta a lógica de desvalorização-valorização no reajuste espacial do capital, e o dispositivo das drogas, associado à degradação urbana e social, torna-se elemento-chave no agenciamento das políticas urbanas.
A seguir, apresentaremos as realidades de São Paulo e Bogotá, metrópoles que expressam transformações urbanas similares, nas quais a consolidação de espaços permeados pela dinâmica das drogas provocou afastamento social demarcado por fronteiras subjetivas, em que as distâncias/segmentações sociais estabelecidas nem sempre são físicas, mas sim simbólicas (Sposito; Góes, 2013). Nessas metrópoles, os espaços que historicamente concentraram a dinâmica das drogas estão no centro, e o fato de ela ser praticada na rua, com alta visibilidade, configurou cenário favorável para a construção de um imaginário do medo e da insegurança como modo de gestão da vida coletiva, intensificando o processo de fragmentação socioespacial e “colocando em risco as representações e práticas socioespaciais de civilidade” (Melara, 2018, p. 73).
3.1 “Cracolândia” - São Paulo, Brasil
Em 1579, a chegada da imagem da Nossa Senhora da Luz marcou a primeira ocupação colonial europeia na área. A imagem da santa atraiu fiéis por quase dois séculos, até que em 1774 foi inaugurado o Mosteiro da Luz, que transformou a dinâmica local e atraiu novos moradores, com casarões da elite e demais aspectos da urbanização da cidade sustentada no modelo escravocrata de intensa diferenciação (Rolnik, 2007). Em 1879, foi criado o loteamento Campos Elíseos, destinado à elite cafeeira paulistana, próximo às estações ferroviárias da Luz e Sorocabana (Guimarães, 1977), perpetuando modelos europeus que seguiram separando e segmentando classes e introduzindo o processo de segregação socioespacial.
Nos anos 1920 e 1930, com a passagem de uma economia fundiária para uma economia urbano-fabril, a importância e o status político da região diminuíram, ocasionando a migração da elite para outras áreas (Branquinho, 2007). A linha férrea trouxe muitos migrantes, e os casarões dos barões do café se tornaram cortiços e oportunidades para que outras classes sociais ocupassem cada vez mais o centro. Nas décadas seguintes, de 1930 e 1940, a implantação do Plano de Avenidas na gestão de Prestes Maia, além de isolar urbanisticamente a região entre avenidas e a linha férrea, resultou em mais desapropriações e remoções (Bonduki, 2004), ao mesmo tempo que as periferias tiveram sua ocupação viabilizada pelas conexões com o centro por meio da insuficiente e precária rede de ônibus que passaram a circular por essas avenidas (Caldeira, 2000).
Nos anos 1950, intervenções contra a prostituição e jogatinas clandestinas no Bom Retiro, bairro vizinho, resultaram no seu deslocamento para a região, e elas, assim como uma gama de outras atividades ilícitas, passaram a compor a realidade local, estabelecendo um marco moral na trajetória do espaço, que passa a ser reconhecido como a “Boca do Lixo” (Joanides, 1977). Na década de 1960, a implantação do terminal rodoviário na Praça Júlio Prestes reforçou as características populares, mas sua transferência para um local afastado do centro, em 1982, deixou uma estrutura ociosa que deu continuidade ao processo de degradação urbana e social. Já no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a dinâmica do comércio e uso de crack se fixa na região, trazendo consigo um imaginário do medo atrelado à clandestinidade/ilegalidade.
Precariedade, cortiços, prostituição, trabalho clandestino e venda e consumo de drogas ilícitas imprimiram outras funções e sentidos nesse espaço urbano; assim, a região passou a receber pessoas em situação de rua que por diversos motivos tiveram os laços com seus locais de origem rompidos. Essa mescla de trajetórias produz o anonimato conveniente para a reconstrução de alguma identidade. A região da “Cracolândia”, inclusive, tornou-se referência fantasiosa de usuários de crack em outros contextos urbanos brasileiros, que expressam o “sonho de conhecer a Cracolândia”.2 A noção de pertencimento, de “estar entre iguais”, foi identificada no desfile do Blocolândia, bloco de Carnaval composto por pessoas em situação de rua, que em coro cantaram “Sou Cracolândia com muito orgulho, com muito amor” (Diário de campo, 3 fev. 2024), como afirmação de uma identidade cultural que marca o conteúdo periférico (D’Andrea, 2020).
Essa mistura de pessoas de diferentes origens costuma ser reduzida à categoria de “noia”, o que, além de desumanizá-las, nega-lhes cidadania e garantia de direitos, pois, mesmo estando no centro, a relação direta com as políticas públicas ocorre principalmente por meio dos confrontos com as forças policiais ou das ilegalidades na execução da legislação urbana. Segundo Frúgoli e Cavalcanti (2013), a generalização de termos como “Cracolândia” (sobre o espaço) e “noias” (sobre as pessoas) consiste em críticas morais que atualizam antigas representações estigmatizantes direcionadas a determinadas populações no centro da cidade, um movimento que produz e reproduz uma série de tensões sociais. Nas últimas décadas, ocorreram inúmeras intervenções de “requalificação” urbana que intensificaram a homogeneização socioespacial com a construção de diversas torres da PPP (parceria público-privada) Habitacional firmada entre a Canopus Holding S/A e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo.3 Tais intervenções urbanísticas associadas a grandes ações policiais (em 2005, 2009, 2012, 2017 e 2022) resultaram na demolição de inúmeros quarteirões, além de remoções, violência estatal e outras formas de violação de direitos (Calil, 2022).
Em 2018, cerca de 200 famílias foram removidas para a construção de um hospital em parceria com a iniciativa privada em uma quadra que, pelo zoneamento urbano, seria destinada à moradia popular. Na ocasião, o então prefeito João Dória discursou valorizando o acesso ao trabalho e à saúde como principais demandas da população. Entretanto, o que se observa é o provimento de emprego e o acesso à saúde para uns, às custas do despejo e desabrigamento de outros. A ilegalidade do projeto e a distorção do discurso reforçam características de zonas de exceção, onde a lei é arbitrária (Yiftachel, 2009 apud Roy, 2011). Vale ressaltar que a região da “Cracolândia” fica a 1,5 km da sede da Prefeitura de São Paulo.
3.2 “Cartucho” e “Bronx” - Bogotá, Colômbia
A região do “Cartucho”, e posteriormente o “Bronx”, são desdobramentos dos bairros de Santa Inés, San Victorino e Los Mártires. A ocupação urbana colonial nesta área teve início por volta de 1645, com a igreja de Santa Inês. Já a região de San Victorino se desenvolveu como rota de passagem e local em que se realizavam muitas trocas comerciais; foi, inclusive, onde se instalou o primeiro mercado público, açougue e porto seco de Bogotá, no século XIX (Bernal, 2006). Em 1894, a estrada de ferro e a estação La Sabana afirmaram o local como ponto de chegada de migrantes de outras regiões do país. Nos anos 1920, ocorreram muitas reformas urbanas que modernizaram o espaço e atraíram a elite bogotana. Contudo, desde o período colonial já existia a Calle del Cartucho, espaço historicamente caraterizado por dinâmicas de migrantes marginalizados, pessoas que viviam da reciclagem e do contrabando, entre outras atividades, conectando o interior do país com o império espanhol e com o mundo (Bronx, 2016).
Como outras cidades latino-americanas, Bogotá viveu transformações significativas no início do século XX, que resultaram também na passagem de uma economia colonial agrária para uma economia capitalista industrial. Nos anos 1940 e 1950, a construção de grandes avenidas que irradiavam do centro asfixiou urbanisticamente a região. Bogotá recebeu a maior parte de migrantes que fugiam da violência nas zonas rurais, e a região do “Cartucho” foi polo receptor dessas pessoas, dando origem a um enclave de informalidade no centro de Bogotá. A área passou a ser vista como perigosa, fazendo que famílias ricas migrassem para bairros ao norte (Morris; Garzón, 2010) e resultando em políticas urbanas marcadas pelo racismo, pelo classismo e pela divisão social. Nos anos 1970, por exemplo, quem estivesse dormindo nas calçadas era recolhido pela prefeitura e levado para a Calle del Cartucho (Tovar et al., 2017), e o local se tornou paulatinamente sinônimo de perigo, refúgio de pobres e ponto de convergência de negociantes da ilegalidade (Morris; Garzón, 2010).
Nos anos 1960, inaugurou-se ali o terminal de ônibus de Bogotá, transformando drasticamente a área e o uso do espaço. As casas se tornaram pensões, e outros tipos de comércios surgiram para satisfazer as necessidades da nova funcionalidade urbana. Com a inauguração do Terminal Salitre, em 1984, a 10 km do centro, os estabelecimentos comerciais passaram a ser pontos de venda de objetos roubados e a aglutinar outras práticas clandestinas. A economia das drogas se consolidou nos anos 1980, quando a venda e o consumo de crack (basuco)4 passaram a compor as dinâmicas de sociabilidade (Morris; Garzón, 2010). Em 1998, a região foi apontada pela Organização Mundial da Saúde como um dos lugares mais perigosos da América Latina (Tovar et al., 2017), e o imaginário do medo fomentou os primeiros movimentos em favor de projetos de requalificação urbana. Em 1999, foram demolidas 16 quadras que abrigavam cerca de 12 mil pessoas para a construção do Parque Tercer Milenio (PTM). Inaugurado em 2005, o projeto visava acabar com dinâmicas produtoras de medo e promover a reocupação do espaço público. Entretanto, sua criação não cumpriu o objetivo de resgatar o vínculo do espaço público com a sociedade, além de implicar violações de direitos. Com projeto estético duro, sem organicidade e com amplas áreas de concreto, o parque proporciona o “domínio visual sobre as ações e, portanto, um mais eficiente policiamento dos comportamentos” (Suárez, 2012, p. 165). Pouco depois, o poder público localizou novas concentrações de pessoas que faziam uso de drogas nas imediações, como o local conhecido como “Bronx”, que se consolidou no início do século XXI apenas 200 m a noroeste do antigo “Cartucho” e do novo PTM.
Em 2007, novos trâmites burocráticos foram empregados para viabilizar a renovação urbana, dessa vez justificada pela falácia de “vazios urbanos”, pois reportagens da época estimavam que havia aproximadamente 3 mil pessoas em situação de rua no Bronx. Os meios de comunicação passaram a se referir ao local como “el infierno” ou “calle maldita”, determinando limites objetivos e subjetivos em um processo de guetização tanto no ambiente físico quanto no imaginário (Arias et al., 2019). Em 2016, a prefeitura de Bogotá deflagrou mais uma ação policial que espalhou cerca de 3 mil pessoas pela cidade. Muitas passaram a viver em canalizações de água de chuva e esgoto, e algumas mortes ficaram sob suspeita de ação criminosa do Estado no controle da vazão da água (Tovar et al., 2017). O projeto previa o desenvolvimento econômico, social e cultural da região,5 com a implantação do Bronx Distrito Creativo, por meio de parceria público-privada.
Em trabalho de campo de agosto de 2024, verificou-se que uma nova dinâmica muito semelhante ao “Bronx” pode ser encontrada 200 m ao sul do PTM, no bairro de San Bernardo. Conhecida popularmente como “Sanber”, a zona, que circunda os espaços de intervenção estatal, já apresenta muitos quarteirões demolidos e estande de vendas de unidades em futuros conjuntos habitacionais.
Alfonso Roa (2023) argumenta que a consolidação histórica de uma estrutura residencial extremamente segmentada e classista, antipática a qualquer convívio com a diferença, resulta em espaços de confinamento que se expressam como formas concretas de divisão social do espaço (Roa, 2023). Nesse sentido, a qualificação de Bogotá como uma das cidades mais fragmentadas e excludentes do mundo proposta por Roa deve ser levada em conta. O autor informa que 60,4% do solo urbano é ocupado pelas camadas populares, nas quais o crescimento populacional é continuamente mais acelerado que nas demais áreas. Vale ressaltar, como evidência da contradição socioespacial bogotana, que a conhecida região do “Cartucho”/“Bronx”/“Sanber” está a cerca de 1 km da sede da Presidência da República da Colômbia.
4. Conteúdos periféricos no centro de cidades latino-americanas
São Paulo e Bogotá são metrópoles latino-americanas que absorvem e reproduzem as consequências locais de um capitalismo agressivo articulado com o mercado global. As realidades apresentadas mostram como espaços urbanos centrais marcados por conflitos ancorados em uma moralidade sanitária associada às drogas ilícitas agudizam a especulação imobiliária e o consequente ajuste espacial do capital (Harvey, 2015). O rearranjo espacial acontece em diferentes escalas e contextos, produzindo condições periféricas tanto nas suas margens e limites como em suas regiões centrais, problematizando o papel da periferia na atualidade dessas metrópoles. Espaços com conteúdos periféricos são formações sociais que alcançam os centros, incluindo aqueles que, em função de variados motivos, viveram rupturas com suas periferias de origem. Nos centros, a noção de pertencimento passa a se dar pelo anonimato compartilhado, e, apesar dos banimentos e violências, nesses espaços se produzem também identidades e se expressa a diversidade cultural.
Como vimos, a condição periférica não é exclusiva de zonas urbanas distantes, mas pode também estar cravada no próprio centro. São mudanças atreladas aos movimentos de reestruturação global das cidades que desafiam interpretações estabelecidas pela teoria urbana (Hamel; Keil, 2016). Em contraponto à tradicional expansão do tecido urbano que desloca camadas da população em direção às bordas, pautamos aqui um movimento de retroalimentação da pobreza extrema em direção ao centro, evidenciando o caráter multifatorial das transformações urbanas que, por questões econômicas, políticas, étnicas, raciais, culturais, morais e sociais, entre outras, confluem para a negação da cidadania.
Tradicionalmente, os conceitos de periferia e marginalidade foram associados a processos de expansão distantes da infraestrutura urbana. Hoje, podem assumir caráter de ferramenta de manejo e controle social de determinadas dinâmicas e populações em zonas centrais, atuando no nível subjetivo, ao delimitar fronteiras simbólicas pautadas por imaginários sociais ligados a práticas ilícitas. As noções de marginalidade e periferia estão em processo de reconfiguração, compondo condições-limite de existência precária, independentemente da localização. Espaços centrais caracterizados por dinâmicas marginais, evidenciam uma contradição social que integra pela exclusão (Canettieri, 2019) e que submete as populações locais a um limbo social controlado, em que a vida se torna repleta de banimentos e carências atreladas à violência estatal e subjetiva da estigmatização (Arantes, 2023).
A representação social negativa pautada pela ilegalidade influencia o valor da terra, e a desvalorização do solo e a precarização da vida favorecem a ocupação do espaço pelos mais pobres, como a população em situação de rua que sobrevive de dinâmicas informais e ilícitas. Tal realidade é eficientemente capturada por discursos eleitoreiros e promessas de soluções imediatas por meio de projetos de “requalificação” e “renovação” (Rui, 2014). O urbano contemporâneo, ao redirecionar a periferia e ampliar sua presença no centro, justifica intervenções de “revitalização” que angariam apoio popular para grandes investimentos voltados à produção de cidades neoliberais. A pobreza se torna momentaneamente útil em contextos que preveem revalorização e, assim, é “cooptada, usada em cada momento e depois abandonada” (Oliveira, 2006, p. 73). Vale lembrar que cada contexto apresenta suas singularidades, mas as trajetórias dos espaços estudados em São Paulo e em Bogotá trazem pistas sobre as relações entre o utilitarismo da moralidade, a funcionalidade da pobreza e a utilidade econômica da delinquência na produção do espaço urbano e nas culturas políticas de metrópoles latino-americanas (Hamel; Keil, 2016).
Os centros, antes valorizados em função da presença de estruturas e recursos, passam a expor suas fragilidades, e sua periferização coloca em contato modos de produção do espaço que pareciam não ter relação (Roy, 2011). Desafia-se a oposição tradicional entre centro e periferia, pois os contornos de ambos não são apenas objetivos e estanques. Em tempos de mudanças, em vez da compreensão clássica de uma periferia que surge em oposição ao centro, é a condição periférica que explicita a radicalidade das diferenciações, separações e segmentações que ocorrem no âmbito do processo de fragmentação socioespacial (Morcuende, 2021). Santos (1990), ao discutir as relações entre fragmentação e constituição de metrópoles corporativas, já identificava rearranjos no tradicional modelo de estruturação centro-periferia. As realidades socioespaciais de São Paulo e Bogotá são emblemáticas das transformações e problemáticas urbanas da atualidade que se tornam tendências possíveis em muitas outras metrópoles da América Latina (Arantes, 2023), onde a acentuação de desigualdades provoca uma urbanização fragmentada em que a condição periférica “se expande sobre o centro” (Canettieri, 2019, p. 111).
5. Drogas, moral e as hiperperiferias centrais como enclaves nos centros
Historicamente, o consumo de substâncias psicoativas acompanha o desenvolvimento de diversas culturas com sentidos variados atribuídos a esse consumo em diferentes contextos (Samorini, 2016). Entretanto, no século XX, interesses econômicos e políticos deflagraram políticas restritivas em relação à produção, ao comércio e ao consumo de diferentes substâncias por meio de ações repressivas que são, em sua essência, colonialistas, classistas e racialmente seletivas (Venturi, 2017). Paralelamente à proibição, intensificaram-se os problemas sociais e de saúde pública associados ao consumo dessas substâncias. Se a questão das drogas é tão antiga quanto complexa, sua recente ilegalidade a vinculou - de forma simplista - à noção de problema social, acirrando dilemas pautados em critérios morais a partir de expectativas culturalmente compartilhadas (Venturi, 2017). No Brasil, por exemplo, em pesquisa sobre “aversão ou intolerância a grupos de pessoas”, 41% afirmaram sentir repulsa, ódio ou antipatia por pessoas que usam drogas (Venturi; Bokany, 2011).
A “Cracolândia”, em São Paulo, e “Cartucho”/“Bronx”, em Bogotá, são espaços ocupados por camadas populares no centro de metrópoles que, para além da visão simplista e reducionista de “antro de drogas”, não são espaços isolados, mas sim produzidos por relações entre múltiplos fatores, que vão desde as políticas públicas - repressivas ou assistenciais - até a atuação da sociedade civil organizada, das universidades, da população local e das pessoas que usam crack, entre outros (Frúgoli; Cavalcanti, 2013). Segundo Torres e Marques (2001), esses locais se caracterizam por grande heterogeneidade social e padrões mais complexos de segregação. O constante deslocamento dessas dinâmicas pelos centros de São Paulo e de Bogotá produz territorialidades específicas marcadas pela itinerância. Esse caráter móvel e intersticial produz disputas e conflitos entre espaços, seus usos e seus habitantes. A itinerância não significa deslocalização ou desespacialização, mas sim a formação de uma territorialidade itinerante (Frúgoli; Cavalcanti, 2013). Tal circulação por espaços físicos e sociais é uma forma de colocar o próprio corpo como subjetividade na ocupação e produção do espaço (Fromm; Blokland, 2024).
O imbricamento entre drogas, raça e classe, por critérios morais, delimita fronteiras simbólicas que separam espaços e relações sociais. Para compreender essas práticas socioespaciais moralmente reprováveis, como o consumo de drogas, é preciso reconhecer o caráter ideológico da construção dos espaços, a partir de sua “localização nas geografias simbólicas e materiais da vida pública” (Dixon; Levine; McAuley, 2006, p. 189, tradução nossa). As dinâmicas sociais da vida cotidiana estão permeadas pelo significado social e pela identidade dos espaços, assim como pela definição do que é ou não aceitável como prática espacial (Dixon; Levine; McAuley, 2006).
O crack, por carregar forte estigma moral associado à ilegalidade e por seu uso ser visível nas ruas, produz novos significados sobre os espaços. O medo e a criminalidade passam a organizar “a paisagem urbana e o espaço público, moldando o cenário para as interações sociais que adquirem novo sentido” (Caldeira, 2000, p. 27). A sensação de insegurança chancela intervenções urbanísticas associadas a práticas violentas pelo Estado, e essa diferenciação marca fronteiras entre quem é ou não cidadão, ou seja, quem é ou não passível de violência e descarte (Arantes, 2023). Esses interstícios urbanos de precariedade e ilegalidade são realidades toleradas e manejadas com base em representações que envolvem “contaminação”, “contágio” e “perigo” e se configuram como zonas de exceção, pois a “flexibilidade” no cumprimento da lei varia de acordo com determinados interesses (Roy, 2011). Contraditoriamente, apesar de estarem no centro, os direitos e o exercício da cidadania são negados a esses sujeitos. A moralidade instaura fronteiras subjetivas que desumanizam e separam, levando-nos a questionar jargões sobre a disponibilidade de infraestrutura e acessibilidade que usualmente caracterizam a região central, onde há enclaves delimitados por contornos que nem sempre são concretos, mas sim fronteiras que estabelecem separações simbólicas.
Trata-se de complexidades urbanas que implicam uma renovação conceitual capaz de explicar uma nova fase caracterizada pela atualização da lógica de periferização (Cerqueira, 2020). Esse fenômeno se alastra globalmente de forma diversificada (Keil, 2018), e termos como “periurbanização” (Rosa, 2011), “cidade difusa” (Durán, 2003), “suburbanização inversa” (Vale, 2005), “edgeless city” (Lang; Knox, 2009) e “suburbanização dualizada” (Roitman; Phelps, 2011) são alternativas empregadas para explicar as novas configurações socioespaciais do urbano. Contudo, é importante considerar as observações de Prévôt-Schapira (2001, p. 33, tradução nossa) sobre as particularidades da expansão urbana latino-americana, que se opõe ao modelo de cidade norte-americana, pois “sua extensão não resulta do rechaço à cidade compacta nem de uma postura antiurbana, mas sim de um esforço constante para manter a unidade”.
Além de demarcar a distinção em relação às cidades norte-americanas, Prévôt-Schapira (2001) revela a importância do papel do Estado na América Latina e as mudanças enfrentadas por este último desde os anos 1990, sobretudo porque os impactos globais, como o encolhimento e a desregulamentação do mercado de trabalho - simultâneos ao crescimento das expectativas de consumo -, foram muito mais significativos. As observações de Feltran, feitas a partir de pesquisa na periferia da capital paulista, são reveladoras dessas mudanças:
Para os mais jovens, o projeto de ascensão do grupo familiar, especialmente centrada no modelo operário do trabalho estável, não é sequer pensável. O projeto de ascensão torna-se menos realizável e, sobretudo, se individualiza. [...] Sobretudo para aqueles com possibilidades de trabalhar mais distantes, e que a sorte não tem ajudado, figura a alternativa de obter renda com atividades criminais. (Feltran, 2011, p. 33-4)
Sugerimos, então, a noção de “hiperperiferias centrais” para designar contextos de vulnerabilidade em que a condição periférica, manifestada por meio de precarização, marginalidade, violência, pobreza e estigma/opressão territorial, atua como expressão diversa de periferização, inclusive no centro de metrópoles latino-americanas. Segundo Hamel e Keil (2016), tais contextos apresentam ônus duplo, pois, além de expressarem as principais transformações das cidades neoliberais, sofrem também drásticas consequências socioespaciais. Vale destacar que o enfoque deste texto são espaços que concentram pessoas em situação de rua, e assim,
na medida em que [essa parcela da população] se inseria na paisagem urbana do centro da cidade expressando as contradições das desigualdades urbanas, sofria repressões das políticas higienistas para que não ocupassem os espaços públicos de maior visibilidade. (Kohara; Comarú, 2023, p. 38)
Em 1982, profissionais da Organização do Auxílio Fraterno, entidade que trabalha com essa população em São Paulo, já refletiam sobre as vulnerabilidades e condições de vida dessas pessoas que se aglomeravam nas ruas do centro:
uma periferia urbana que se organiza de forma ainda mais primitiva que a própria favela e adquire uma personalidade própria, um modo de ser diferente. Lutam pela sobrevivência a partir do nada e, apesar de todas as “operações” realizadas para “manter a cidade limpa”, eles conquistam um lugar no centro, o que é muito importante porque é aí onde existem recursos para sobreviver. (Castelvecchi, 1982, p. 19 apud Kohara; Comarú, 2023)
Assim, a condições de vida, a vulnerabilidade social, a violência e o leque de violações de direitos se contrapõem à gama de vantagens que comumente se espera do centro, pois a intensidade da negação da cidade a essa população nos possibilita aplicar a noção de “hiperperiferia central”, visando contribuir com a teorização das complexidades dos processos urbanos.
Em São Paulo e em Bogotá, historicamente ocorrem táticas de dispersão ou contenção da população em situação de rua por parte do poder público, práticas que se articulam e se alternam na gestão do espaço a partir dos interesses em jogo em cada situação (Nasser, 2017). Contudo, tanto a dispersão como a contenção operam dentro de uma espacialidade, e, por mais que a territorialidade que se estabeleça seja itinerante, esta circula em torno de um campo gravitacional (Nasser, 2017) que concentra pessoas em situação de rua, pontos de reciclagem e oferta de políticas públicas coercitivas ou de proteção. A territorialização de determinadas práticas espaciais e a decorrente especialização de territorialidades ao longo de décadas são “a prova mais cabal e dramática da força das práticas espaciais, bem como das disputas pelos usos de uma cidade” (Rui, 2014, p. 103).
Ocorre então a periferização de espaços próximos às sedes do poder político porém distantes das prioridades desse mesmo poder na garantia de direitos. A proximidade física ajuda a compreender as intervenções urbanísticas e as violações de direitos, ao mesmo tempo que a distância social impede o reconhecimento de singularidades e a possibilidade de um senso de comunidade. Nos casos estudados, a centralidade catalisa e absorve a multiplicidade de violências resultantes de políticas de controle e lucro por meio de tecnologias coercitivas de poder e pela monopolização da violência por parte do Estado (Tilly, 1985). Este, ao facilitar negociações em prol do mercado (Harvey, 2015), reforça o processo de fragmentação socioespacial, caracterizando uma periferização radical que limita o acesso à cidade mesmo para quem vive no centro.
Os processos em curso nesses espaços urbanos resultam em extrema divisão, diferenciação e segregação, que prejudicam o “grau de interação espacial e a qualidade dos contatos/interações sociais que se realizam no plano dessas segmentações” (Pozzo, 2017, p. 285), potencializando o processo de fragmentação socioespacial ao provocarem fraturas sociais que, segundo Arantes, correspondem ao
estilhaçamento do território e das economias nele ancoradas, lógicas de separação social, cultural e territorial, que vão apagando a imagem republicana tradicional da nação integradora, que vão enfim naturalizando o princípio regulador da desigualdade. (Arantes, 2023, p. 53)
Desse modo, pautamos a noção de “hiperperiferias centrais” como forma de condensar e expressar fenômenos da realidade contemporânea que delimitam zonas passíveis de descarte, aplicação arbitrária da lei e violações de direitos. Segundo Arantes (2023, p. 31), o mundo atual é aplacado por um processo “de verdadeira periferização do centro”, e a modulação do conceito de periferia aqui proposta, deslocando-o para o centro e agregando o prefixo “hiper”, denota condições ainda mais adversas e intensificadas da desumanização (Torres; Marques, 2001). Condizente com essa proposta, Roy considera que
[a] promessa do conceito de periferia reside na sua capacidade de transcender a localização territorial, de demonstrar vários desfechos que complicam a agência política e que questionam as condições para a produção do conhecimento. (Roy, 2011, p. 232, tradução nossa)
Sem perder de vista as especificidades da urbanização contemporânea, a periferização implica uma profusão de possibilidades de centralizações e descentralizações que ultrapassam os limites da oposição centro-periferia (Keil, 2018; Cerqueira, 2020). Assim, proposições mais amplas sobre a potência analítica do conceito de periferia, que englobem o conteúdo desses espaços para além da localização, evidenciam seu caráter flexível, complexo e qualitativamente heterogêneo (Ávila, 2006).
Considerações finais
No livro Cidade de muros, Caldeira (2000) já analisava a complexidade das transformações na cidade de São Paulo desencadeadas pelo entrelaçamento entre criminalidade, insegurança e segregação socioespacial. A autora ressaltava que “a não ser que a oposição centro-periferia seja revista, e a maneira pela qual se concebe a incorporação da desigualdade social no espaço urbano seja modificada, não será possível entender os presentes desafios da cidade” (Caldeira, 2000, p. 211).
Nas cidades latino-americanas, a complexidade se agrava, pois esses municípios têm em comum a característica histórica de ausência de bem-estar social, já que esta foi sobreposta por interesses de mercado e da iniciativa privada na produção do urbano (Hamel; Keil, 2016). Nesse sentido, procuramos demonstrar que está em curso um processo de periferização dos centros de São Paulo e de Bogotá, intimamente relacionado à presença de consumo de drogas, principalmente o crack, nos espaços públicos, onde o controle social e a negação da cidadania se agudizam.
Como vimos, as metrópoles capitalistas contemporâneas dependem de conteúdos periféricos associados aos ajustes desiguais do espaço, nos quais os impactos são expressos em escala global e local, nas margens e no centro. É pela presença da pobreza e precariedade da vida que a cidade neoliberal desempenha papel relevante na simbiose das negociações em curso entre o Estado e o mercado. Uma precariedade historicamente experimentada nas margens também está presente nos centros, consolidando “hiperperiferias centrais” como uma característica de metrópoles latino-americanas. É importante reconhecermos que territorialidades como a da “Cracolândia”, em São Paulo, e da região do “Cartucho” e do “Bronx”, em Bogotá, não são dinâmicas locais fixadas e isoladas espacialmente, mas sim “constelações de mobilidades” conectadas a diversos circuitos que expressam globalmente as marginalidades urbanas (Fromm; Blokland, 2024).
Do mesmo modo que a formação dessas territorialidades é característica e tendência de metrópoles latino-americanas, as intervenções do poder público e as manifestações da sociedade parecem ser legitimadas por um movimento moral que se espalha pela América Latina e que afeta as intervenções urbanísticas de “requalificação” nos centros das cidades. Segundo Gabriel Feltran (2020), no Brasil esse movimento está ancorado nas transformações por que passaram as periferias urbanas, que nos últimos 40 anos sofrem as consequências do aumento da criminalidade e da intensificação da violência no conflito social. Para o autor, “das margens compreende-se melhor esse novo centro” (Feltran, 2020). Feltran resgata as fantasias almejadas após o fim do regime militar (nos anos 1980) como uma força centrífuga que se espalharia pelo país e consolidaria o processo de democratização. Contudo, o que enfrentamos são as consequências de uma força centrípeta, que vai das margens para o centro por meio de uma população organizada como uma grande massa acrítica, que, na busca pela restauração dos valores e costumes e por meio de uma aliança entre igrejas e polícias, difunde um “anti-intelectualismo evangélico, que há muito é majoritário nas periferias e mobiliza moralmente as massas em direção contrária à da racionalidade moderna, dos argumentos, e a orienta na direção do totalitarismo” (Feltran, 2020).
Assim, seria ingênuo identificar o crack (e seus consumidores) como principal fator da periferização do centro, mas é possível que a moral associada à ilegalidade atue como ativo urbano que proporciona visibilidade para o capital global e oportunidade “urgente” para investimentos na transformação do espaço, havendo, nesse sentido, evidentes semelhanças entre as transformações da “Cracolândia”, do “Cartucho” e do “Bronx”. Os contrastes da produção neoliberal do urbano latino-americano nos desafiam a reformular as compreensões sobre os processos que estão em curso, com atenção especial para a sua dimensão política, como ocorre com o processo de fragmentação socioespacial.
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Para conhecer mais sobre o trabalho do artista visual Hiago Bezerra, acesse o seu perfil no Instagram em @purosimpless.
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Segundo relatório de campo, ao escutar profissionais que atuam na área do cuidado e garantia de direitos.
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Disponível em: http://www.habitacao.sp.gov.br/icone/detalhe.aspx?Id=9. Acesso em: 8 mar. 2025.
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Basuco é o termo utilizado na Colômbia para se referir à cocaína fumada. Diferentemente do que ocorre no Brasil, onde a cocaína fumada é em forma de “pedras” de crack, a cocaína é fumada em pó na Colômbia.
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Disponível em: https://bronxdistritocreativo.gov.co/. Acesso em: 8 mar. 2025.


Fonte: foto dos autores.