Open-access A escolarização do mundo pelas lentes da câmera missionária protestante: Flagrantes da Unevangelized Fields Mission (1931-1944)

La escolarización del mundo a través de las lentes de la cámara misionera protestante: Flagrantes de la Unevangelized Fields Mission (1931-1944)

Resumo

O estudo debruça-se sobre as contribuições da câmera missionária protestante na constituição de uma visualidade transnacional da difusão escolar. Para tanto, articula um conjunto de fotografias produzidas no âmbito do projeto educacional da Unevangelized Fields Mission (UFM), entre 1932 e 1944, cuja circulação se deu através do periódico Light and Life. A construção historiográfica inspira-se nas proposições conceituais que tratam a fotografia como um documento histórico dinâmico e atualizável, dotado de estatutos próprios de leitura. A título de conclusão, apresenta-se um ensaio analítico sobre traços da visualidade do projeto educacional da UFM, com o intuito de contribuir para uma história visual transnacional da educação.

Palavras-chave:
fotografia missionária; escolas indígenas; educação protestante; história visual transnacional

Abstract

The study focuses on the contributions of the Protestant missionary camera in the formation of a transnational visual narrative of the school experience. To do so, it articulates a set of photographs produced as part of the educational project of the Unevangelized Fields Mission (UFM), between 1932 and 1944, which circulated through the journal Light and Life. The historiographical construction is inspired by conceptual propositions that deal with photography as a dynamic historical document that can be updated and has its own reading statutes. In conclusion, an analytical essay is presented on the visual traces of the UFM educational project, with the aim of contributing to a transnational visual history of education.

Keywords:
missionary photography; indigenous schools; protestant education; transnational visual history

Resumen

El estudio se centra en las contribuciones de la cámara misionera protestante en la construcción de una visión transnacional de la difusión escolar. Para ello, articula un conjunto de fotografías producidas en el ámbito del proyecto educativo de la Unevangelized Fields Mission (UFM) entre los años 1932 y 1944, cuya circulación se dio por médio de la revista Light and Life. La construcción historiográfica se desarrolla inspirándose en propuestas conceptuales que consideran la fotografía como un documento histórico dinámico, actualizable y con estatutos propios de lectura. A modo de conclusión, se presenta un ensayo analítico sobre los rasgos de la visión del proyecto educativo de la UFM, con el objetivo de contribuir a una historia visual transnacional de la educación.

Palabras clave:
fotografía misionera; escuelas indígenas; educación protestante; historia visual transnacional

Introdução

A câmera missionária protestante guarda testemunho singular do espraiamento da escola moderna desde meados do século XIX. Como fenômeno histórico, a difusão protestante naquele século está inserida no processo de conformação dos Estados-nação, na constituição de relações de interdependência universais e, igualmente, na produção de novos modos de ver e de conhecer, estes potencializados pelo intercâmbio de imagens. Nesse sentido, a fotografia, artefato que passou a circular de modo pujante desde 1888 com a popularização da câmera Kodak, constituir-se-ia dispositivo fundamental na conexão e, ao mesmo tempo, na produção e atualização de mundos.

O movimento protestante missionário do século XIX é considerado o mais expansivo desde a cisão que ocorreu no interior do cristianismo do século XVI. Na esteira dessa afirmação, está o fato de que, enquanto a Igreja Católica acompanhou desde cedo a empresa colonizadora, nos protestantismos esse deslocamento só ocorreria de forma crescente com a forja paulatina da responsabilidade humana mediante o apelo à salvação pessoal. Assim, o sujeito alcançado pela revelação de Deus passaria a sentir e a compreender, de modo cada vez mais veemente, o fardo da responsabilidade pela salvação do outro além-mar. Fundamental nesse processo foi a conformação do princípio da revelação de Deus a cada um por meio de um livro, a Bíblia. A leitura tornar-se-ia, então, estratégia central nesse projeto de universalização da mensagem do Evangelho e, consequentemente, na conformação de escolas e de experiências de alfabetização por onde quer que os protestantismos missionários se estabelecessem. Ensinar a cada um a ler a Bíblia em sua própria língua constituiria o principal impulso tanto para a tradução das Escrituras em línguas vernáculas quanto para a conformação de espaços educacionais e de dispositivos de leitura nesses projetos de fronteiras plurais (Mendes, 2023).

Foi na direção de traços como esses que os protestantismos construíram seus extensos arquivos de imagens, cujos testemunhos demonstram traços da multiplicidade de objetivos, intenções, circulação de culturas e modos de recepção que subjazem à rica história visual da escolarização do mundo.

Tomando como ponto de partida a perspectiva de que a fotografia constitui importante fonte documental para a história da educação, este estudo apresenta vestígios do testemunho fotográfico do projeto evangelístico-educacional da Unevangelized Fields Mission (UFM), uma sociedade missionária de origem inglesa, organizada em 1931 e que, durante o recorte estabelecido, atuou em 5 continentes: América do Sul, América Central, Ásia, África e Oceania, respectivamente, no Brasil, no Haiti, no Baltistão, na Indonésia, no Congo Belga e na Papua-Nova Guiné. O objetivo é mapear indícios transnacionais do espraiamento da escola moderna nessas imagens, destacando igualmente o que pode ser caracterizado como traços próprios do projeto educacional da referida Missão.

A inserção da UFM no período recortado deu-se principalmente entre povos que ainda não conheciam a mensagem evangélica, especialmente povos originários entre os quais não existia trabalho missionário protestante, daí a sua designação Missão aos campos não evangelizados, compreensão que ignorava a cristianização já operada nesses lugares através da empresa missionária católica. No campo educacional e das práticas de leitura, a agência atuou na tradução da Bíblia em línguas indígenas, na organização de escolas e de espaços de alfabetização, na formação teológica de líderes religiosos nacionais, além da produção de dispositivos de leitura e do trabalho de colportagem e organização de livrarias.

O arquivo acessado para esta pesquisa é constituído de 110 revistas do periódico Light and Life (L&L), principal veículo de notícias da UFM, cuja circulação se dava principalmente em países anglófonos, de acordo com o seguinte excerto: “Não nos esquecemos do fato de que Light and Life é lida extensivamente no Canadá, nos Estados Unidos, na Austrália e na Nova Zelândia, e nosso esforço é sempre manter este fato diante de nós” (Our headquarter..., 1939, n. p., tradução nossa). O corpo documental chegou até nós via correio físico e nos foi cedido pelo escritório central da UFM na Inglaterra. Apesar de o arquivo recebido ultrapassar em muito os anos e o número de revistas que serão trabalhados, optou-se pelo recorte de 1931 a 1944, dados os limites do presente estudo.

O fluxo do periódico acontecia mediante assinatura anual, e suas edições possuíam uma estrutura mais ou menos permanente, composta por um editorial do escritório central na Inglaterra, seguido de notícias dos trabalhos nos campos, dispostas em seções organizadas por continentes, e de informações sobre os movimentos das equipes diretoras da Missão. O corpo de imagens da revista relacionadas à educação escolar, no recorte estabelecido, é formado por dez fotografias, das quais cinco foram selecionadas para compor a análise apresentada na terceira seção, por representarem os temas centrais que atravessam a série como um todo.

Como já aludido, a empiria foi operada sobre um conjunto de imagens que ultrapassa o pertencimento local, reclamando, assim, uma análise que leve em consideração as ideias de troca, circulação, consumo e transnacionalidade. Desde os anos de 1980, segundo Jacques Revel (2015), a questão “como se pode pensar, como se pode escrever hoje uma história à escala mundo?” tem sido insistentemente colocada sob um fundo de mundialização. A pergunta parece absolutamente pertinente diante da difusão de uma instituição de pretensões universais como a escola e, contextualizada para esta pesquisa, pode ser posta nos seguintes termos: há possibilidades de se pensar uma história da educação que ultrapasse as histórias nacionais a partir da imagem fotográfica?

Nesse sentido, há que se demarcar alguns apontamentos teórico-metodológicos que foram úteis à operação do pensamento nessa composição. Primeiramente, a escolha do termo transnacional foi mobilizada em referência a uma perspectiva do olhar que situa as fotografias encontradas para além das fronteiras de uma história da educação nacional, sem, no entanto, considerá-las meras reproduções de imagens e intenções estrangeiras missionárias. Em segundo lugar, e na esteira dessa proposição, considerou-se que, ainda que o projeto educacional da UFM se encontre situado numa torrente maior de escolarização mundial, ele articula intenções, subprojetos, atores, instituições e conceitos que lhe são próprios. Assim, se por um lado foi possível pensar em vestígios transnacionais comuns a uma imagem da escolarização mundial contida nos flagrantes analisados, por outro, procurou-se atentar para características e inventividades próprias dos sujeitos e projetos que os compõem.

Do campo historiográfico da educação, Rebeca Rogers (2019, p. 69), em vez de limitar a história transnacional a uma geografia política, antes a apresenta como uma postura, uma perspectiva, “cujos contornos e métodos ainda se encontram em construção”. Tal compreensão assume particular importância para a reflexão que se propõe, uma vez que, se por um lado as imagens apresentadas têm como pano de fundo encontros de diferentes nações, por outro, as experiências escolares fotografadas ocorrem entre povos originários alheios à concepção de nacionalidade.

No estudo O transnacional na história da educação, Vera e Fuchs (2021) apresentam um quadro amplo de abordagens teórico-metodológicas, áreas de pesquisa e tendências que permeiam a história da educação sob a concepção transnacional, ainda que, segundo os autores, essas não carreguem explicitamente tal selo. Interessa-nos principalmente a premissa de que o conceito é composto por várias camadas históricas e sociais, garantindo-lhe uma polissemia para a qual o historiador deve atentar.

Tal proposta mobiliza a reflexão sob uma perspectiva de transnacionalidade própria à empresa missionária protestante sob a qual subjaz, entre outras características, a ideia de humanidade universal, ainda que situada em diferentes estados civilizacionais, e a imagem de um outro que é carente de salvação. Transnacionalidade que se dá pela constituição de espaços interseccionados pela religião cristã, pelos saberes médicos e pelas práticas de leitura ocidentais, cujos vestígios políticos permitem a observação singular de trocas, negociações e apropriações culturais que atravessam todos os seus participantes.

Metodologicamente, a pesquisa foi empreendida por meio dos seguintes passos: 1) levantamento das fotografias escolares que foram apresentadas na Light and Life no período de 1931 a 1944. Nesta etapa, foram identificadas todas as imagens cujas legendas faziam referência aos termos escola e alfabetização, ou que apresentassem salas de aula, objetos da cultura material escolar, formação de professores, bem como aquelas que podiam ser inseridas, ainda que ausentes desses descritores, na sequência de outras relacionadas aos temas escolhidos; 2) catalogação das imagens utilizando-se os seguintes descritores: ano, local da imagem, tema, pessoas fotografadas, fotógrafo/a, e legenda original; 3) Disposição de todas as imagens inventariadas, procurando-se nelas encontrar traços gerais da fabricação, pela UFM, de uma visualidade do seu projeto educacional por meio da Light and Life; 4) por fim, a constituição de um ensaio analítico sobre as fotografias encontradas no entrecruzamento com a narrativa geral do periódico, o qual é apresentado na terceira seção do artigo.

Na sequência, a próxima seção será dedicada ao diálogo com algumas proposições teórico-metodológicas já sistematizadas sobre o uso de imagens na construção historiográfica e que serviram de utensilagem conceitual à análise empírica. Apresentam-se também percepções extraídas de estudos que se dedicam às imagens produzidas em contextos missionários, às quais se seguem traços do contexto geral do projeto educacional da UFM. Por fim, como já mencionado, articula-se uma análise das fotografias selecionadas.

A fotografia missionária entre modos de fabricar e de consumir imagens

No campo historiográfico, desde a década de 1980, utiliza-se o termo virada visual para se referir ao amplo status constituído em torno do testemunho das imagens, que as retira do lugar de mera ilustração do narrado. Na esteira da ampliação de fontes e métodos e na interlocução com outros campos do pensamento, de modo crescente, as imagens são entendidas como artefatos que possuem estatutos próprios de leitura e que reclamam uma articulação transdisciplinar em seu uso como fonte histórica. Sabe-se que elas são resultado de um trabalho social no qual está em jogo a produção de sentidos e, portanto, subjacentes a códigos convencionalizados culturalmente (Franco, 1993). Reconhece-se ainda que, além de testemunho da história, a imagem é a própria história1 (Burke, 2004). No bojo desses entendimentos, Nóvoa (2001) sublinha que, se por um lado, o ver imagens e o ler textos são práticas com características próprias, por outro, o ver textos e o ler imagens são processos interdependentes.

A proficuidade desses modos de ver e de trabalhar com os documentos visuais encontra-se inserida no compasso de outras viradas, a exemplo das proposições da semiologia no campo da linguística. Assim, no rastro de assertivas que enunciavam que a linguagem está para além das palavras, articulando todo um sistema de signos, a imagem fotográfica, por exemplo, também foi deslocada da ideia de instantâneo da realidade para a condição de índice do que um dia estivera diante da câmera, cuja interpretação se dá na relação com um sujeito que a vê e que é atravessado por condicionantes políticos, culturais e históricos (Meneses, 2003). Nesse sentido, Dubois (2006, p. 26) propunha que a fotografia, longe da condição de espelho neutro do real, é “instrumento de transposição, de análise, de interpretação e até de transformação do real, como a língua, por exemplo, e assim, também, culturalmente codificada”.

Carregada de elementos culturais, a visualidade fotográfica constitui, desde o século XIX, diferentes modos de ver e de “fabricar” mundos, daí o seu crescente reconhecimento como singular fonte histórica. Pensar a fotografia sob a perspectiva da virada historiográfica cultural desafia-nos a percebê-la como dispositivo que possui uma historicidade que vai desde a sua composição técnica, o que inclui a própria história da câmera fotográfica e dos processos de reprodução da imagem, até aspectos mais profundos, que dizem respeito à sua circulação e consumo.

André Rouillé (2009, p. 16), ao situar a emergência e difusão da fotografia no contexto da sociedade industrial e as atualizações que a fazem emergir e a acompanham, ou seja, as mudanças na concepção do espaço-tempo, o crescimento das metrópoles, as atualizações no campo das comunicações e a conformação da democracia, demarca que tal contexto constitui para a fotografia sua “condição de possibilidade, seu principal objeto e seu paradigma”. Extrapolando as fronteiras da sociedade industrial, a fotografia missionária diria de outros mundos e de outras racionalidades, fabricando sobre estes, percepções visuais e narrativas, igualmente atravessadas por difusas relações de poder/saber.

Historicamente, a imagem fotográfica tem sido utilizada pelas missões cristãs sob diversas perspectivas: dispositivo de denúncia social2, propaganda do trabalho realizado, testemunha ocular das necessidades para as quais se pede ajuda material, estratégia de esclarecimento do que se quer mostrar. Sobre a difusão da escola pelo mundo, o testemunho visual missionário tem sido disponibilizado de modo crescente em ambientes virtuais, que incluem desde sites de bibliotecas e de sociedades missionárias até álbuns digitalizados que circulam entre sujeitos particulares, bem como páginas de vendas que negociam tanto o envio físico da imagem quanto sua licença para usos editoriais. Essas exposições não deixam de oferecer ao pesquisador afeito à constituição de um olhar atento e profícuo um amplo catálogo visual sobre tais experiências educacionais.

Se, por um lado, observa-se que as imagens conformadas em contextos missionários atestavam a ideia de compressão espaço-tempo provocada pela técnica, por outro, sabe-se que também fabricavam distâncias que somente seriam sanadas, segundo a discursividade que lhes acompanhava, por práticas da modernidade ocidental como a leitura e a escrita, entre outras. No entanto, sob novas perspectivas teórico-metodológicas que emergem do trabalho com as imagens, a visualidade produzida em contextos missionários pode ser ressignificada sob diversos ângulos.

Nesse sentido, o convite feito por Walter Benjamin e reiterado por Didi-Huberman (2016, 2017) para um exercício do pensamento que faz as coisas saírem de seus lugares habituais mostra-se pertinente à incursão proposta. Montado e remontado, restaurado e, ao mesmo tempo, aberto e inacabado, o conhecimento histórico por meio das imagens tem, sob essa perspectiva, o intento de lançar a outros níveis a complexidade que resulta da desarticulação do habitual. Esse processo não somente faz emergir novas legibilidades e espaços para o pensamento, mas também instiga o observador “a uma constante tomada de posição face ao material específico e, em consequência, às imagens da história em geral” (Didi-Huberman, 2018, p. 166).

No campo dos estudos internacionais, o trabalho de T. Jack Thompson (2004), ao debruçar-se sobre a constituição da visualidade missionária protestante sobre a África, nos parece apoiar tal perspectiva de análise, especialmente ao articular o conceito de manipulação fotográfica sob o princípio de que a imagem fotográfica não é simplesmente uma representação da realidade, mas também transferência de uma visão particular de mundo mantida pelo fotógrafo. Nesse sentido, o autor destaca que o modo como a Europa pensava a África no final do século XIX e início do século XX foi, até certo ponto, constituído pelas imagens reproduzidas em inúmeros periódicos, slides de lanterna mágica e livros missionários.

A pesquisa de Márcia Cristina Almeida (2023), ao explorar os processos que subjazem à visualidade constituída entre missionários britânicos da Church Missionary Society e populações que habitavam o território de Uganda entre 1870 e 1920, destaca a multidimensionalidade que constitui os artefatos visuais missionários, estes atravessados por ambivalências, diversas esferas político-culturais e uma cadeia de relações tecidas entre agentes sociais. Das possibilidades conceituais apresentadas na pesquisa, a discussão proposta lançará mão, em particular, da concepção de biografia social da imagem que a autora articula no diálogo com outros estudos. Sob essa compreensão, Almeida (2023, p. 54) reitera que as imagens, em suas diversas materialidades, passam a ser observadas “[...] à luz de suas múltiplas ‘biografias’, ou seja, a partir de seus deslocamentos e apropriações sociais”, proposição que nos parece salutar para a compreensão do itinerário social das imagens apresentadas adiante.

Paul Jenkins (1993), ao investigar o acervo da Missão de Basileia, agência missionária suíça criada em 1815 e com significativa atuação no continente africano, discorre sobre as relações desiguais, que não raramente atravessam arquivos institucionais, entre fontes visuais e escritas. Ao operar metodologicamente com imagens em série, o autor chama a atenção para mudanças de técnicas, de interesses e de temas que podem ser identificados nas práticas fotográficas missionárias quando se acompanha cronologicamente a produção fotográfica de sujeitos específicos. Pelo entrecruzamento de fontes, o estudioso problematiza as percepções missionárias de ambientes sociais e culturais, bem como as tensões e negociações constituídas em torno da produção visual de povos indígenas. Seria possível uma reconstituição de aspectos semelhantes na série aqui analisada?

Como componentes de um impresso, as imagens apresentadas na próxima seção inserem-se no processo da fotomecânica, este aperfeiçoado desde o final do século XIX e destinado à reprodução massificada das imagens fotográficas, principalmente em jornais e periódicos. No que se refere à localização geográfica, as dez imagens catalogadas na primeira e segunda fases da pesquisa são exclusivamente de experiências escolares da UFM entre povos originários do Congo Belga e do Brasil. Apesar de registros de escolas da agência no Haiti e na Papua-Nova Guiné, estas não são apresentadas em imagens no periódico durante o recorte temporal estabelecido. Entre as dez imagens, cinco foram selecionadas para este estudo, por representarem os traços gerais que atravessam o conjunto maior.

À época do recorte, o Congo encontrava-se sob o domínio da Bélgica que, desde 1908, havia assumido o controle do território das mãos de Leopoldo II. Sob os acordos do Ato de Berlim (1885), o monarca havia transformado o Congo em território particular, nele implantando um regime colonial que é destacado pela historiografia como um dos mais violentos. Tal realidade, segundo Munanga (2008), pouco mudaria sob o regime belga. A região era ocupada pela Igreja Católica, esta representante do Estado e, portanto, protegida e subsidiada pela metrópole, o que posicionava a UFM em situação de desvantagem perante o empreendimento católico.

Os flagrantes das experiências escolares da agência no Brasil coincidem com a emergência da Era Vargas e toda a confluência discursiva que passou a orbitar em torno do índio brasileiro, à época. O período foi marcado pela constituição de uma retórica de nacionalidade que, por meio de uma concepção genérica dos povos indígenas, apresentava o índio como exemplo de bravura, tenacidade e resistência ao estrangeiro desde os tempos coloniais, tornando-o ideal de uma identidade legitimamente nacional (Garfield, 2000). Pela narrativa mais ampla da Light and Life, é possível dizer que também existia uma espessa circulação discursiva no contexto transnacional da UFM sobre os povos indígenas do Brasil. Perdidos nas escuras florestas da Amazônia, era urgente que a esses povos o Evangelho fosse apresentado, segundo a retórica missionária da agência. O alcance dos povos indígenas constitui, na história da Missão, a razão primeira para o seu empreendimento no Brasil, e seria somente pela proibição da permanência estrangeira em aldeias indígenas, no início da década de 1940, que a UFM estenderia, de modo mais consistente, sua ação a contextos urbanos.

Os flagrantes do projeto educacional da UFM: entre recortes, montagens e legendas

A atividade fotográfica emerge pela primeira vez na documentação analisada em meio a um texto que relata a viagem de um casal de missionários enviados pela UFM à Shigar, no Baltistão. A narrativa é repleta de informações sobre os desafios e sofrimentos enfrentados em uma jornada realizada em 16 etapas, na qual, segundo H. Bavington, foram atravessados pântanos, florestas, trechos cobertos de neve e um deserto. Descreve-se que, no transporte de bagagens, e ainda de dois bebês gêmeos de 15 meses, foram necessários 1.376 coolies3, 560 pôneis e 324 men que conduziam os pôneis. A certa altura do relatório, o missionário diz ter tirado “várias fotos muito boas da viagem” e que espera enviá-las no próximo serviço postal, referência que indica tanto a existência de uma câmera portátil durante a travessia quanto a possível realização de um trabalho próprio de revelação das imagens (Bavington, 1931, pp. 30-31, tradução nossa).

Curiosamente, intercaladas à narrativa intitulada Jornada extenuante ao Baltistão (Strenuous journey to Baltistan), são apresentadas duas imagens de missionários da agência que trabalhavam na Amazônia no mesmo período. Na primeira, vê-se um deles deitado em uma rede, lendo tranquilamente uma revista ao lado de um grande cacho de bananas, sob a legenda luxos da Amazonia (Amazonian luxuries). Na segunda, em cuja inscrição se lê outro luxo na Amazônia (Another luxury in Amazonia), cinco missionários, todos homens, sorriem para a câmera em um banho de cachoeira. Composição paradoxal que interrompe a sequência de temas e coisas pela montagem que suspende o clichê, tomando-se emprestada a expressão de Georges Didi-Huberman (2016).

A apresentação de contrastes que embaralha textos, imagens e geografias, conformando modos de ver e de ler, constitui importante marca editorial da Light and Life - intencional ou não - e será igualmente articulada na disposição das fotografias escolares apresentadas no periódico, ainda que não necessariamente para suspender as coisas dos lugares comuns, mas, ao contrário, para reafirmar suas posições em um portifólio visual que há muito era conformado pelo olhar europeu.

Se, por um lado, essas disposições constituem, por si só, um quadro singular, repleto de ausências, rico em contrastes e heterocronias que instigam o pensamento e a análise, por outro, fazem sobrar dificuldades e, às vezes, impossibilidades de identificação das circunstâncias de produção das imagens, bem como dos fotógrafos e dos sujeitos retratados, como veremos no decorrer do estudo. Esse fato acrescenta novas perspectivas às observações de Jenkins (1993) sobre a relação desigual de conservação entre arquivos visuais e textuais, pois, mesmo preservadas por estarem inseridas em um dispositivo de leitura, as fotografias podem permanecer silenciadas em muitos aspectos.

No recorte a seguir, Figura 1, observa-se uma composição na qual a visualidade entrega, de largada, elementos paradoxais, por meio dos quais se afirma o lugar da Missão como mediadora e conformadora de novas realidades no Congo Belga. No entanto, sob outras possibilidades de leitura, observa-se na mesma montagem significativos elementos que também apontam para outros modos de subjetivação constituintes das culturas locais e dos corpos fotografados.

Figura 1
Africa.

A disposição das duas imagens encontra-se em meio a um texto que narra a volta de um casal de missionários da Inglaterra ao Congo, sua passagem por várias vilas da região durante o retorno à estação missionária na qual trabalhavam, bem como o estado no qual se encontrava a própria residência, infestada de vespas e ratos. Apenas indiretamente o texto menciona as escolas de Boyulu, região que dera o nome à estação missionária da UFM e na qual habitavam várias comunidades organizados em aldeias. Sobre o percussionista à direita ou mesmo sobre a escola da estação missionária à qual pertenciam os estudantes à esquerda, não existem referências diretas na narrativa.

Como se pode perceber, a montagem apresenta o confronto de mundos em que os corpos assumem diferentes posições e gestos, complementada pela exposição de elementos culturais que igualmente dizem da política que a atravessa. Ao olhar estrangeiro, o pareamento das figuras remontava à já conhecida tática do antes e depois comum à visualidade missionária que circulava à época. Nessa estratégia visual, apresentavam-se os contrastes entre um mundo pagão não civilizado e o sucesso das missões cristãs por meio de referências que poderiam ser comparadas a partir de imagens postas lado a lado.

A referência ao uniforme escolar enfatiza a conformação de novos processos de subjetivação e de novas relações com o corpo. Como parte de um regime de aparências (Dussel, 2005), os corpos uniformizados dos meninos escolares de Boyulu expressavam também os limites entre a escola missionária e o seu entorno imediato, reforçando a ideia de um projeto que interseccionava disciplina, higiene, pureza moral e ideal civilizatório.

Quando posta no entrecruzamento de fontes, a imagem diz também de uma visualidade a serviço da anuência da inspeção belga que supervisionava a atuação da Missão naquele contexto. Em um relatório de 1932, por exemplo, destaca-se a importância do uniforme escolar aos olhos daquela inspeção no processo de concessão da Personnalité Civile à agência, pedindo-se, então, ajuda financeira para a compra de fardamento dos meninos que chegavam à estação vestidos com trapos velhos, segundo a mesma narrativa (Evening, 1932, p. 5).

O corpo uniformizado, ordenado em longa fila e que se enrijece em pose diante do dispositivo fotográfico, é apresentado ao lado de outro que mantém a sua plasticidade e movimento e que não se apresenta como um antes, mas como aquele que habita um mesmo presente, este ao que parece repleto de negociação de sentidos. Aos regimes visuais europeus, adereços e gestos do percussionista não deixavam de ser uma reconstituição da fantasia sobre esse outro, cujo estado civilizacional precisava ser superado, justificando-se, assim, o trabalho da Missão.

Interseccionam-se no recorte a bandeira belga, símbolo de ordenação e de domínio, e o tambor, significativo artefato cultural e de subjetivação dos povos do Congo. Se a primeira referência aponta para a cumplicidade da UFM com o projeto colonizador da Bélgica e tudo o que este significou na organização de suas escolas, sobre o tambor, a narrativa mais ampla do periódico guarda consideráveis referências culturais que falam de outras racionalidades educacionais.

Desse contexto, é possível ouvir não apenas da centralidade desse artefato nas comunidades que circundavam a estação de Boyulu, mas também da sua sofisticação como instrumento de comunicação. O tambor é apresentado na Light and Life como o telégrafo do Congo, dispositivo através do qual era possível contar uma história inteira e fazer circular recados de uma aldeia a outra, cuja fabricação se dava por meio de um complexo e intrincado ritual.

A legenda inscrita na imagem do percussionista, informando sobre a convocação, pelo tambor, para o culto cristão, pode ser lida sob os signos das negociações a que estavam submetidos os novos processos culturais e de aprendizagem. Essas referências demonstram o quão permeáveis e atualizáveis são as narrativas visuais e textuais as quais, embora elaboradas sob determinados intentos, quando retomadas sob novos olhares, podem, inclusive, servir à reconstituição de saberes e artefatos culturais indígenas, reafirmando, assim, o lugar da fotografia como documento aberto a sucessivas e novas articulações, bem como a novos projetos políticos.

Por meio do entrecruzamento de fontes, novas nuanças foram sendo acrescentadas à visualidade produzida na montagem, revelando traços da complexidade que subjaz à sua forja. Da narrativa mais ampla se sabe, por exemplo, que, se por um lado é inegável o fascínio que o tambor provocava no missionário estrangeiro, por outro, se sabe igualmente da sua repugnância a um instrumento que incitava o corpo. Assim, no excerto a seguir, observa-se a evocação do sino como substituto do tambor até mesmo na chamada para o culto cristão, propondo-se o esquecimento e substituição da história do negro pela supressão de seu instrumento musical na estação missionária:

E, para os congoleses, o que há de mais antigo que seus tambores de madeira? Usados para transmitir mensagens, eles parecem ser tão antigos quanto a história do homem negro. Adotados pelos missionários, convocam o povo para a oração, dia após dia, domingo após domingo. Mas o que haveria de mais novo que um sino para fazer esse chamado à oração? É algo novo para combinar com a Nova Mensagem, ou as Boas Novas, que viemos anunciar. O tambor anunciava sobretudo o chamado para a dança, com toda a imoralidade que a acompanha; o sino, por sua vez, emite uma única mensagem: venham para as orações, venham para o ensino, venham para a estação e ouçam as coisas de Deus (Kerrigan, 1941, n. p, tradução nossa).

Como no recorte, o excerto apresenta confrontos que parecem irreconciliáveis entre mundos e histórias. As boas novas cristãs são apresentadas como antítese à história do negro; o sino como instrumento que substituiria o tambor; o corpo que faz preces e que se dedica a ouvir a mensagem de Deus em franca oposição ao corpo que dança e consequentemente se entrega à imoralidade. Como ponto de reconciliação, está o corpo ordenado e disciplinado do menino escolar performado na montagem, esta repleta de nuances singulares que emergem dos diversos entrecruzamentos entre sujeitos, projetos e contextos que compõem a escola da UFM no Congo Belga.

Lado a lado, fotografias, montagem e textos chamam a atenção para um projeto evangelístico-educacional atravessado por singularidades e violências. No entanto, sob novas percepções, acrescentam-se às intencionalidades primeiras de tal visualidade outras perspectivas que podem liberar o instante presente “do ciclo destruidor da repetição”, afirmando-se, assim, a possibilidade “(...) de tirar da descontinuidade dos tempos as chances de uma reversão” (Didi-Huberman, 2016, p. 4).

Como no recorte anterior, a imagem a seguir, Figura 2, apresenta traços das relações de gênero que atravessavam o projeto educacional da agência no Congo, assim como vestígios das condições econômico-materiais sob as quais este se constituía, além de reforçar uma visualidade que o conecta ao regime colonial belga e ao domínio protestante anglófono.

Figura 2
“More than conquerors”.

A frase que intersecciona imagem e legenda nos idiomas francês e inglês - plus que vainqueurs; more than conquerors - tem, na referência a uma passagem bíblica4, a afirmação de um projeto de cristianização que, segundo a discursividade da Missão, se sobrepunha a qualquer outro. Em outras palavras, a articulação dos dois idiomas encontra-se em função de uma mensagem que se pretende superior, universal e asséptica a qualquer construto cultural. Também as bandeirolas belgas, ainda que expressivas em número, aparecem visualmente secundárias a esta mensagem. Sob outro ângulo, no entanto, é possível dizer de uma montagem que entrega elementos simbólicos do domínio europeu pela confluência do político com o religioso.

A fotografia foi posada por 17 meninas escolares da estação de Boyulu, cujo fardamento possui um tipo de bolso/emblema à altura do lado esquerdo do peito. Todas uniformizadas, as alunas, como os estudantes do primeiro recorte, também estão descalças, ausência que dialoga com um tipo de imagem transnacional das condições econômicas desiguais nas quais se operou/opera a escolarização do mundo.

A imagem encontra-se em meio a um texto de dois parágrafos da canadense Verna Schade, o qual informa que, desde a volta do feriado natalino, desfrutava-se na estação missionária de um balanço para as crianças, de um novo dormitório e de uma nova escola para as meninas e, ainda, de uma casa para um casal nativo que desempenharia o papel de guardião das alunas. Comunica-se também que, das 22 meninas que faziam parte da família, apenas 17 haviam retornado do recesso e que, de modo repentino, seis haviam ido embora, desfalque que começava a ser sanado pela chegada de duas novas estudantes ao internato (Schade, 1938).

O texto traz elementos significativos que redimensionam a leitura da fotografia em questão. Como exposto, sabe-se, por exemplo, que, das meninas presentes na imagem, seis já não mais se encontravam no internato da estação, pois haviam ido embora. Em outras passagens do periódico, registra-se igualmente o quão volátil era a frequência ou permanência das crianças nos espaços escolares da UFM no Congo. Fugas, inauguração de temporadas como as de pesca, caça a lagartas, ou simplesmente a vontade das próprias crianças ou a de seus pais poderiam interromper a estadia de meninos e meninas no programa educacional da Missão, o que acabava por imprimir-lhe um caráter de profunda descontinuidade, como exposto no excerto a seguir, segundo o qual, entre outras informações, das nove meninas internas naquele momento, apenas duas estavam sob o consentimento dos pais:

Sobre o trabalho com as meninas - o número de matriculadas variou ao longo do ano entre 7 e 14. Apenas duas delas permaneceram o tempo todo. No total, 26 receberam instrução por períodos variados. A frequência tem sido muito irregular, pois as meninas são frequentemente levadas pelos adultos para a lavoura na floresta ou para buscar água. Elas deveriam pedir permissão, mas nem sempre o fazem. Este ano, as perspectivas parecem melhores, pois, embora haja apenas nove alunas, todas estão morando na estação, e duas delas vieram com o consentimento dos pais para serem nossas primeiras internas. (The Jenkinson..., 1936, n. p., tradução nossa).

Outro pano de fundo da fotografia, apresentado no contexto geral da revista, diz respeito à condição das meninas nas culturas locais. Os registros missionários falam sobre negociações, por suas famílias, logo após seu nascimento, o que significava, segundo a narrativa, a venda de meninas a homens mais velhos e polígamos. Da organização econômica que subjaz à prática, destaca-se a centralidade da função das mulheres no cultivo agrícola, pois eram elas as responsáveis pela agricultura local.

Assim, segundo a documentação, tão logo essas meninas chegavam a uma certa idade, a empresa colonizadora providenciava para que fossem mandadas embora da estação para se casarem, ordenança que, segundo o trecho a seguir, era tardia em relação à urgência das famílias em retirar as meninas desses espaços, sinalizando para uma multiplicidade de disputas sobre as quais se configurava a fotografia apresentada:

Quando o oficial do governo as considera prontas para o casamento, elas devem ser mandadas embora da estação missionária, apesar de que os aldeões as mandariam bem antes, se não fossem nossos protestos. Nossas meninas cujas aldeias são distantes têm permissão para visitar os pais num fim de semana por mês. Durante vários meses, duas delas se recusaram a fazer esta visita. Quando perguntamos a razão, elas responderam: ‘não queremos ir porque nossos pais querem que façamos um teste com nossos futuros maridos, ou que fiquemos na floresta, e nós não os queremos.’ Esses homens já são bastante velhos e têm várias outras esposas, e alguns são católicos (A strange burial..., 1937, n. p., tradução nossa).

O recorte apresenta vestígios das tensões vivenciadas entre empresa missionária, cultura local e empresa colonizadora, quadro que poderia ser alçado a novas configurações pela rejeição das próprias meninas ao projeto da Missão. Nesse sentido, se no excerto anterior as alunas são apresentadas como que respondendo positivamente aos intentos da agência, no próximo, observa-se a decepção missionária mediante outras reações:

Após a Conferência, quando muitas crianças vieram das aldeias, eu me alegrei ao assumir o trabalho, pois o número de meninas na escola era o dobro do que a Senhorita Schade tinha quando encerrou as atividades antes das férias. Mas minha alegria durou pouco, porque, apenas no sábado passado, cinco das minhas meninas fugiram.

É claro que elas podem voltar, e estou orando de todo o coração para que isso aconteça. Você pode perguntar por que elas fugiram, já que, tenho certeza, estavam felizes na estação. O antigo apelo pela vida na aldeia era forte demais para elas, e não puderam resistir. Anteriormente elas nunca foram acostumadas a qualquer tipo de disciplina em suas vidas. Para elas, a vida consistia simplesmente em providenciar comida e cozinhá-la, e depois não fazer nada. Parece ser muito mais difícil para as meninas o ato de sentar-se e tentar aprender a ler do que para os meninos (First impressions, 1939, n.p., tradução nossa).

Uma nova olhada na fotografia, a partir desse pano de fundo, a retira de qualquer possibilidade de calmaria, redimensionando, inclusive, a positividade da mensagem textual nela centralizada, bem como a imagem de imperturbável cumplicidade entre os interesses da UFM e os da empresa colonizadora. Informações que potencializam a ideia de fabricação intencional de uma visualidade que jamais poderia ser considerada espelho fidedigno de um real. No palco da sua forja, significativas disputas culturais, políticas, religiosas e econômicas estavam sendo travadas. Na imagem, as seis meninas fotografadas que já não estavam mais na estação, ao lado das outras que ficaram - não se sabe até quando - seus corpos, gestos, olhares e autoagenciamentos, permanecem, no entanto, como testemunhas de um contexto complexo, no qual, inclusive elas, também exerciam inegável parcela de protagonismo.

A imagem a seguir, Figura 3, circulou na Light and Life nos meses de junho e julho de 1932 e, segundo a sua legenda, apresenta um grupo de crianças escolares na Amazônia.

Figura 3
School Children in Amazonia.

A fotografia encontra-se inserida em um texto cujo conteúdo não lhe faz referência; nem sequer a menciona. Sob o título Dia de Natal entre os peles-vermelhas, a narrativa descreve, principalmente pela utilização de notas do diário do missionário Robert Story, os preparativos para uma celebração natalina em uma estação missionária que tem o rio Gurupi, situado nos estados do Pará e do Maranhão, como referência geográfica e a Amazônia como recorte geomissionário. Ao final, a narrativa faz a seguinte menção: “Várias famílias Tembé estão construindo na estação missionária” (Story, 1932, L&L, p. 12, tradução nossa) - referência que não pode ser tomada como certeza do pertencimento étnico do grupo retratado, pois, como já aludido, o texto não cita a imagem e, além disso, de acordo com a narrativa mais ampla do periódico, a Missão mantinha, no mesmo período, outras escolas entre diferentes etnias.

Há que se destacar, no entanto, a riqueza que outros dados da imagem, como a sua legenda - Crianças escolares na Amazônia -, seu registro temporal - 1932 -, sua agência - uma empresa missionária protestante -, bem como os traços étnico-culturais que apresenta, ainda que opacos dada a qualidade da reprodução, são potentes o suficiente para uma tentativa de reconstituição de vestígios daquela experiência escolar.

Apesar de a legenda fotográfica fazer referência apenas a crianças, observa-se a presença de jovens e adultos, ainda que em menor número, na imagem. Essa homogeneização geracional pode ser remetida à clássica compreensão europeia dos povos não civilizados como que reduzidos à condição de infância, tal como expresso no poema O fardo do homem branco (1899), de Rudyard Kipling.

A imagem repete um formato já consagrado em fotografias escolares transnacionais da época, no qual os alunos, dos menores para os maiores, são dispostos em planos e diferentes posições e superfícies. Assim, pela conexão entre legenda e pose, é possível pensar na forja de um discurso por meio da utilização de modelos visuais prévios que compunham o olhar europeu. Tal composição, também chamada de fotografia de classe, emergiu na Europa em meados do século XIX (Wagnon, 2019) e, como artefato que acompanhou o espraiamento da escola moderna, constitui rica fonte documental para uma história política, cultural e material da educação escolar.

Em imagens escolares semelhantes à apresentada, o professor ou a professora geralmente aparecem no centro da composição ou nas extremidades de uma das fileiras de alunos, o que, legitimamente, pode levantar a questão sobre a mulher adulta que segura uma criança no colo na lateral esquerda da segunda fileira. Seria ela uma professora ou auxiliar, ou, simplesmente, à semelhança de outras experiências escolares do Brasil da época, apenas uma adulta que participava de uma classe de alfabetização multisseriada? (Fagundes & Martini, 2012).

Os traços e adereços que a imagem permite ver dos participantes, na intersecção com sua legenda, possibilitam dizer que se tratava de uma classe de alunos e alunas indígenas. Nesse sentido, observa-se que, ao lado da mulher com a criança ao colo, na terceira fileira à esquerda, duas meninas adolescentes usam cocares indígenas. Adicionam-se a esse detalhe os seios à mostra das mesmas meninas, junto a uma terceira mulher, essa mais velha, cujos seios igualmente apresentam-se nus, complementando a importante mensagem do exótico e do primitivo, potentes para a satisfação da curiosidade europeia e para a justificativa do seu patrocínio a um projeto que interseccionava salvação e civilização.

A riqueza da fotografia não se esgota aí, quando se observam os encontros e contrastes que a compõem. Assim, se existe a presença de cocares e corpos descobertos, há também a presença do dispositivo de leitura nas mãos das crianças. Ao centro, algumas meninas, dispostas exatamente à direita das alunas já mencionadas, encontram-se como que absortas na leitura, ao passo que o terceiro menino da direita para a esquerda da segunda fileira, ao que parece, a única criança que sorri na foto, eleva um livro com as mãos. Livro que é dispositivo central da escola moderna, mas também dos protestantismos missionários.

Diferentemente das práticas escolares no Congo, as experiências educacionais da UFM entre os povos indígenas do Brasil são registradas sem qualquer referência a inspeções governamentais. São experiências marcadas pelo nomadismo indígena, o que punha em xeque, de modo exponencial, qualquer ideia de continuidade, de seriação, de registros a longo prazo. Ao caráter efêmero dessas escolas, acrescenta-se o fato de que o interesse missionário era principalmente a alfabetização para a leitura da Bíblia, o que, observado de modo aligeirado, pode parecer algo simples e de pouca monta. Não era.

O trabalho de alfabetização desenvolvido pela agência entre esses povos acontecia de modo concomitante à tradução do texto bíblico, principal dispositivo de leitura utilizado nessas classes. Além disso, há referências à composição de cânticos nas línguas locais, a gramáticas, bem como a livrinhos de alfabetização a serem utilizados em classes de alfabetização (The story..., 1944). Processos cuja complexidade, entre outras práticas, significava um revirar dos canteiros linguísticos desses povos pela inserção de novos modos de ver e de se relacionar com o mundo e com a própria cultura.

A próxima imagem traz vestígios da experiência escolar da Missão entre meninos kayapó. Trata-se de uma fotografia que circulou na Light and Life dos meses de janeiro e fevereiro de 1944, inserida no corpo da seção Amazonia, na qual se apresenta a sequência das ações da Missão até 1944, tomando como ponto de partida o trabalho de missionários que, desde 1923, atuavam entre indígenas do Brasil.

As referências imediatas que circundam a imagem informam que, em 1941, a agência abriu uma escola entre indígenas kayapó que habitavam a região do Xingu. Narra-se também que o ano de 1943 tem como marco a continuidade do trabalho escolar de Horace Banner com meninos desse povo, entre os quais encontravam-se “[...] os filhos de alguns dos assassinos do três Freds” (The story..., 1944, n.p., tradução nossa), informação importante que subjaz à conformação daquela experiência escolar, e sobre a qual falaremos adiante.

Figura 4
Mr. H. Banner and Kayapo school boys.

Observa-se que esta é uma fotografia de interior (Figura 4), provável razão do comprometimento de sua qualidade, na qual 13 meninos, em sua maioria sem camisa, encontram-se em volta de uma mesa sobre a qual se veem dispositivos de leitura. Enquanto vários meninos miram o/a fotógrafo/a, os primeiros observam os livros sobre a mesa. O provável lugar do professor encontra-se vazio, apesar da legenda lhe fazer referência.

A fotografia borrada intriga o olhar ao não permitir a identificação de um quadro na parede ao fundo, além de outros adereços presentes na imagem, aparentemente desprovida de elementos que possam conectá-la à cultura material indígena. Novamente, o entrecruzamento de fontes permitiu a reconstituição de significativas informações sobre a existência dessa experiência escolar que, à semelhança de tantas outras da história da educação indígena no Brasil, permanece desconhecida.

Em uma carta apresentada quase na íntegra, de 1943, Horace Banner fala dessa escola que, à época, era composta de 25 meninos kayapó - quase o dobro dos meninos que aparecem na fotografia acima -, além de apresentar referências sobre a construção da estação missionária e traços do cotidiano daquela escola-internato indígena de características próprias:

Os meninos kayapó fizeram de tudo; literalmente, reconstruíram sua própria estação missionária. Juntos, erguemos paredes, colocamos telhados de palha, fizemos cercas, limpamos um terreno para o plantio, cultivamos arroz, feijão, milho e mandioca; temos nossos patos e galinhas; pescamos e caçamos; somos nossos próprios cozinheiros, barbeiros, alfaiates, médicos, agricultores, etc. Todos vivemos em uma mesma casa grande, embora o missionário tenha uma ala para si. O salão principal serve de refeitório, escola e capela à noite, nele dorme metade dos meninos, que armam suas redes de uma parede à outra (Banner, 1943 n.p., tradução nossa).

A centralidade de elementos das práticas escolares exposta na fotografia é complementada no texto por informações sobre a configuração espacial da estação missionária e traços de um cotidiano no qual os estudantes kayapó articulavam saberes da própria cultura e adquiriam outros no contato com o missionário estrangeiro. É igualmente plausível pensar na conformação de novos aprendizados por parte de Horace Banner na convivência com aqueles meninos.

Apenas dois meses após a exposição da fotografia acima, outra imagem dos meninos kayapó é apresentada na Light and Life. De modo diferente da imagem anterior, nesta os estudantes compõem, ao lado de Banner, uma foto posada e visivelmente planejada, como se pode ver a seguir na Figura 5:

Figura 5
Mr. H. Banner and a group of Kayapo boys.

De imediato, observa-se que o flagrante é composto por 13 meninos e um homem adulto em frente a uma casa com cobertura de palha, em cuja legenda, talvez elaborada pelo editor da revista, se lê: “Senhor H. Banner e um grupo de meninos kayapó”. Na imagem, os corpos estão vestidos e assumem novas posições e gestos, e, à semelhança da Figura 3, parece repetir a pose de fotos escolares da época.

Observa-se que a fotografia, se não fosse pela inscrição e por características fenotípicas das crianças - estas identificadas apenas por um olhar familiarizado -, não apresenta qualquer referência à cultura indígena dos retratados, e é apenas quando posta na sequência da fotografia anterior que se sabe que seus componentes eram os meninos indígenas estudantes da estação missionária apresentada acima.

A conexão entre as duas fotografias foi enriquecida ainda mais por um terceiro encontro. Foi em meio a buscas por referências visuais da UFM na internet que nos deparamos com uma amostra da mesma imagem no site do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia do Departamento de Antropologia (LISA) da Universidade de São Paulo (Figura 6).

Figura 6
Ko-Kayapó Gorotire-0001.

As informações que acompanham a imagem nesse repositório são uma amostra significativa das possibilidades de atualizações que podem ser operadas sobre o documento fotográfico pelos textos que lhes vão sendo acrescentados em meio às suas andanças e atualizações (Edwards, 2023). Assim, se na Light and Life a fotografia encontra-se sob referências elementares, na página do LISA novas informações emergem sobre sua constituição pela exposição de referências contidas na inscrição do verso daquela cópia, além do acréscimo, pelo site, de outros textos. Esse entrecruzamento de fontes certamente enriquece a biografia social da referida imagem e a história que a atravessa pela ampliação de informações sobre sua circulação, experiências, agenciamentos e sujeitos que a compõem:

KO-KAYAPÓ GOROTIRE-0001. Foto posada de indígenas vestidos com roupas ocidentais. Na foto está o líder Kayapó Kanyonk e outros que vieram a se tornar líderes. Ao seu lado está Horace Banner missionário branco. Código KO-0001.

Fotógrafo/autor: Eva Banner. Suporte: Papel. Dimensões: 08 X 11. País: BRASIL. Orientação: Horizontal. Conservação: Regular. Coleção ---. Cópias no acervo:1. Cor: P/B. Ano de produção:194- Localidade: AI Kayapó. Aldeia Gorotire. Observações: Escrito no verso: "Horace Banner. Early 1940's. Gorotires. Chief Kanyonk is on the pictures and others became Kayapo leaders. - Eva Banner (Mrs)." Estado (UF) de produção: PA. Procedência/Doação: Lux Vidal. (Ko-kayapó... LISA).

De largada, sabe-se pelos registros do LISA que a autoria da fotografia é de Eva Banner, esposa de Horace Banner, cuja atuação é silenciada na Light and Life, à semelhança da omissão do trabalho de outras mulheres que também se encontravam na condição de esposas de missionários nesse mesmo período. É Horace, por exemplo, quem assina todos os relatórios e textos expostos no periódico sobre o trabalho realizado. No acervo digital do LISA, no entanto, é possível encontrar mais fotografias sob a assinatura de Eva, instigando uma pesquisa futura sobre sua prática fotográfica.

Uma das informações que acompanha o flagrante, doado pela professora do Departamento de Antropologia da USP, Lux Vidal, chama a atenção pelo acréscimo efetuado às informações do texto escrito em seu verso, conforme a apresentação da imagem no site. Assim, replicamos mais uma vez o texto inscrito no verso da fotografia, cuja composição, pela inscrição em inglês, pode ser de um agente da Missão, possivelmente Horace ou Eva Banner e, em seguida, os acréscimos operados pelo LISA:

Inscrição no verso da imagem: Horace Banner. Início dos anos de 1940. Gorotires. Chefe Kanyonk está na fotografia ao lado de outros que vieram a se tornar líderes Kayapo. - Eva Banner (Mrs). (Ko-kayapó... LISA, tradução nossa).

Texto de apresentação do LISA: Foto posada de indígenas vestidos com roupas ocidentais. Na foto está o líder Kayapó Kanyonk e outros que vieram a se tornar líderes. Ao seu lado está Horace Banner missionário branco. (Ko-kayapó gorotire... n.p., grifos nossos).

Como se pode observar, na apresentação do site foi aproveitada parte da inscrição do verso da fotografia na construção de uma nova descrição. Essa dinâmica constitutiva chama a atenção para a conformação das legendas e descritores que vão sendo colados às imagens fotográficas, por vezes acrescentando-lhes perspectivas político-culturais não antevistas em sua produção, e que não deixam de ser uma tentativa de conformação prévia do olhar. Na referência em questão, observa-se o destaque de elementos da imagem de modo a torná-la, antes de qualquer outra possibilidade de leitura, expressão visual da dominação cultural branca e ocidental sobre indígenas. Texto que, por outro lado, generaliza o pertencimento dos meninos a uma suposta homogeneidade étnica indígena, exceto pela referência a Kanyonk.

A inscrição em inglês no verso da cópia apresentada pelo LISA possibilita o levantamento de hipóteses sobre diferentes temporalidades entre a constituição desse texto e a produção da imagem. Observa-se, por exemplo, que se fala de Kanyonk e de outros meninos já na condição de líderes: “chefe Kanyonk está na fotografia ao lado de outros que se tornaram líderes kayapó”. Referência importante que remete a visualidade à estratégia da agência em trabalhar com meninos, no sentido de prepará-los para uma atuação evangélica entre o próprio povo, conforme se verifica no excerto abaixo:

Talvez não seja considerado um trabalho muito importante nestes dias, quando a mão de obra é tão escassa e outras oportunidades são tão numerosas. No entanto, esses meninos têm um valor especial. Além de representarem a maior parte dos frutos do testemunho iniciado pelos Três Freds, mantido sob tantas dificuldades até agora, eles também constituem nossas maiores esperanças para o futuro da tribo Kayapó.

Quinze meses já separam este pequeno rebanho da pura selvageria, e a graça de Deus está penetrando em seus corações, assim como deve ser se quiserem resistir ao ataque pagão quando este finalmente acontecer. (Banner, 1943, n.p.).

O trecho apresenta parte de uma visualidade maior que compunha as bases daquela experiência educacional, cuja inspiração era o cuidado pastoral - característica que historicamente atravessa a docência ocidental e que, naquele contexto, adquiria contornos singulares (Mendes, 2023). Separados da “pura selvageria” do seu povo, os meninos eram preparados para o reencontro com o paganismo kayapó, ao qual deveriam resistir. Não apenas isso, mas superá-lo, pois, na condição de possíveis futuros líderes, representavam a esperança da Missão.

Segundo a narrativa, entre aqueles meninos encontravam-se filhos dos assassinos de três missionários da UFM, o que adiciona outras informações sobre o contexto no qual se dava aquela experiência educacional. Em 1935, o assassinato de Fred Roberts e Fred Dawson, ambos australianos, e do irlandês Fred Wright, pelos kayapó no Xingu, seria notícia de circulação densa5, cuja potência pode ser descrita sob vários ângulos: desde o aumento do fervor evangélico, que impulsionaria a chegada de mais missionários ao Brasil através da agência, até o aumento de contribuições financeiras para o trabalho missionário realizado. Apenas em 1938, a UFM conseguiu abrir uma estação entre os kayapó e, naquele mesmo ano, a primeira gramática em língua kayapó seria compilada por Horace Banner.

É sob esse contexto que a escola kayapó retratada na Figura 4, cujos alunos reaparecem na Figura 5, emerge na inscrição da Figura 6 como experiência da qual se aguardavam resultados, afinal, Kanyonk e outros meninos que dela fizeram parte vieram a se tornar líderes do seu povo.

Considerações finais

Ao longo deste estudo, a fotografia foi apresentada como importante documento para a constituição de uma história visual da educação escolar, com destaque para a perspectiva de uma visualidade transnacional que permeia o fenômeno da escolarização. Como campo empírico, destacou-se o registro fotográfico das missões protestantes, reconhecidas por sua pródiga atuação na difusão global de experiências e práticas escolares desde o século XIX.

O estudo evidenciou a fotografia como artefato cultural polissêmico, atualizável e dotado de estatutos próprios de leitura. No que se refere às fotografias das experiências escolares protestantes, destacou-se que, se inicialmente tais artefatos circularam com o intuito de fortalecer redes transnacionais de apoio, na atualidade, esses documentos, sob novas perspectivas de análise, oferecem relevantes vestígios de distintas racionalidades visuais e educacionais da escolarização do mundo. Reposicionados, esses mesmos indícios podem potencializar a emergência de novas configurações historiográficas.

A pesquisa, ao debruçar-se sobre um acervo que ultrapassa os limites nacionais de produção, circulação e consumo, requereu a construção do conceito aqui designado como visualidade transnacional da educação, para se referir a modos de ver e de produzir imagens de experiências e práticas escolares que se deslocam entre contextos culturais, políticos e históricos. Articulou-se, assim, a contribuição da câmera missionária protestante para essa visualidade, a partir da premissa de que os registros missionários guardam não apenas traços compartilhados da escolarização mundial, mas também vestígios e tensionamentos específicos dos projetos, sujeitos e contextos que os constituem, permanecendo, portanto, abertos a ressignificações.

Analisado em série, o repertório visual das experiencias escolares constituídas no âmbito dos contatos da UFM com povos originários do Congo Belga e do Brasil fez emergir alguns insights sobre os encontros, as experiências e as relações de poder subjacentes à sua produção e circulação.

Primeiramente, destaca-se que a hipótese inicial de que as imagens das experiências escolares da UFM estariam, em sua maioria, centradas em práticas e dispositivos de leitura não se confirmou. É o corpo de meninos e meninas que emerge de modo mais potente nessa visualidade, como alvo primeiro da disciplina e da civilidade cristã e escolar, ainda que a leitura não seja tema de pouca importância nessas imagens.

Em segundo lugar, sublinha-se que as imagens analisadas, embora atravessadas por relações de poder que definiram enquadramentos e poses visando, entre outros intentos, produzir um olhar específico sobre sujeitos e contextos fotografados, constituem fontes históricas que transcendem essa intencionalidade. Assim, ao registrar artefatos, condições materiais, relações de gênero, entre outros aspectos, essas fotografias compõem um circuito visual transnacional que documenta não apenas vestígios da escolarização moderna e propósitos missionários, mas também condições específicas de sua produção, bem como traços do agenciamento dos sujeitos retratados.

Em terceiro lugar, ressalta-se a potência das fotografias escolares para a visibilidade de narrativas silenciadas. Quando desmontadas, retiradas de lugares habituais e remontadas sob novas relações, imagens e discursos - inclusive pelos próprios sujeitos que as compõem -, elas podem fazer emergir novas possibilidades de presentes e futuros.

Por fim, constata-se que o entrecruzamento de fontes foi fundamental para articular a fotografia sob a perspectiva de documento aberto a sucessivas e novas atualizações, sem, no entanto, tratá-la como documento historiográfico de segunda importância quando posta em correlação com outras modalidades de fontes. Na esteira dessa proposição, sublinha-se a existência de vestígios da história da educação que somente podem ser acionados por meio da imagem fotográfica

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  • Nota:
    Este artigo integra o dossiê “Fotografia como fonte de pesquisa para a História da Educação”. O grupo de textos em questão foi avaliado de forma conjunta pela editora associada responsável, no âmbito da Comissão Editorial da RBHE, bem como pelas proponentes do dossiê.
  • Rodadas de avaliação:
    R1: dois convites; um parecer recebido.
    R2: um convite; um parecer recebido.
  • Como citar este artigo:
    Mendes, E. S. do N. A escolarização do mundo pelas lentes da câmera missionária protestante: Flagrantes da Unevangelized Fields Mission (1931-1944). Revista Brasileira de História da Educação, 25, e395. DOI: https://doi.org/10.4025/rbhe.v25.2025.e395
  • 1
    Perspectivando as imagens como parte integrante de uma realidade que é social e, portanto, dinâmica, Ulpiano Meneses (2003, p. 29) dirá que tal afirmação mascara a necessidade de “tomar as coisas visuais, antes de mais nada como coisas, que podem prestar-se a diversíssimos usos - entre os quais os documentais, conforme as situações e não por essência ou programa original”.
  • 2
    Lembramos aqui especificamente do trabalho do casal Alice Seeley e John Harris, missionários da Congo Balolo Mission, e da denúncia que fizeram circular através da imagem fotográfica em slides a violência do regime colonial de Leopoldo II no Congo, no início do século XX (Sliwinski, 2006; Thompson, 2002).
  • 3
    Expressão preconceituosa usada para se referir a trabalhadores braçais asiáticos. Observa-se no texto a diferença que o missionário faz ao se referir aos men (homens) e aos coolies, estabelecendo significativa distinção entre ambos.
  • 4
    Refere-se à passagem bíblica: “Mas em todas essas coisas somos mais que vencedores [...]”. (Bíblia Sagrada, Romanos 8:37, Nova Versão Internacional, 2007).
  • 5
    Afirmação operada a partir da narrativa geral da documentação analisada.
  • Financiamento:
    A RBHE conta com apoio da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) e do Programa Editorial (Chamada Nº 30/2023) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
  • Licenciamento:
    Este artigo é publicado na modalidade Acesso Aberto sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 (CC-BY 4).
  • Disponibilidade de dados:
    Os dados que sustentam os achados deste estudo estão disponíveis junto à autora, mediante solicitação.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Fev 2025
  • Aceito
    22 Out 2025
  • Publicado
    31 Dez 2025
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