Resumo
O artigo analisa a fotografia como fonte histórica para compreender a cultura escolar do Instituto Lauro Sodré, em Belém do Pará, entre 1900 e 1904. Mais do que registros visuais, as imagens foram produzidas em um contexto político e institucional específico e representam práticas de disciplina, trabalho e formação profissional. A partir da análise de fotografias e da Monografia do Instituto (1904), o estudo mobiliza referenciais sobre visualidade e cultura material escolar (Dussel, 2006; Kossoy, 2014) para problematizar como a fotografia constrói narrativas institucionais alinhadas ao projeto republicano no Pará. Ao propor a leitura das imagens como documentos históricos, a pesquisa contribui para o debate historiográfico sobre o uso de fontes visuais na História da Educação.
Palavras-chave:
fotografia; educação profissional; Instituto Lauro Sodré; História da Educação
Abstract
This article analyzes photography as a historical source for understanding the school culture of Lauro Sodré’ Institute in Belém do Pará between 1900 and 1904. More than just visual records, the images were produced in a specific political and institutional context and represents practices of discipline, work, and professional training. Based on the analysis of photographs and the Institute's Monograph (1904), the study draws on visuality and school material culture references (Dussel, 2006; Kossoy, 2014) to problematize how photography constructs institutional narratives aligned with the republican project in Pará. By proposing the reading of images as historical documents, the research contributes to the historiographical debate on the use of visual sources in the History of Education.
Keywords:
photography; professional education; Lauro Sodré Institute; History of Education
Resumen
Este artículo analiza la fotografía como fuente histórica para comprender la cultura escolar del Instituto Lauro Sodré, en Belém, Pará, entre 1900 y 1904. Más que simples registros visuales, las imágenes fueron producidas en un contexto político e institucional específico y representan prácticas de disciplina, trabajo y formación profesional. A partir del análisis de fotografías y de la Monografía del Instituto (1904), el estudio moviliza referencias sobre visualidad y cultura material escolar (Dussel, 2006; Kossoy, 2014) para problematizar cómo la fotografía construye narrativas institucionales alineadas con el proyecto republicano en Pará. Al proponer la lectura de las imágenes como documentos históricos, la investigación contribuye al debate historiográfico sobre el uso de fuentes visuales en la Historia de la Educación.
Palabras clave:
fotografía; educación profesional; Instituto Lauro Sodré; Historia de la Educación
Introdução
A fotografia é um fenômeno da modernidade, período de grandes descobertas científicas, políticas, econômicas e sociais no mundo civilizatório, sobretudo do desenvolvimento do processo de industrialização em países na Europa com a Revolução Industrial e, consequentemente, a mudança no ritmo de vida da população (Bobbio, 1992). A fotografia teve seu surgimento no início do século XIX.
De acordo com Walter Benjamin (1987), a possibilidade de reprodução das coisas através da fotografia revela a imagem de uma realidade registrada pela sensibilidade do fotógrafo. Para Philippe Dubois (1994), o ato fotográfico se dá em três vertentes: a primeira em ver a fotografia como uma reprodução do real, ou seja, a fotografia como espelho do real; a segunda vertente vê a fotografia como uma produção não neutra, já que existe um ato intencional, ideológico, por isso não representa o real, mas é uma “impressão” da realidade; a terceira vê a fotografia como representação semiótica, entendida como um signo representando algo distinto de si mesma.
Registrada como uma invenção de Daguerre, em 1839, a fotografia, segundo Andrade (2008), representa o advento do primeiro meio de produção automática da imagem, que assume gradativamente o papel de instrumento de mediação, registro e arquivamento. De acordo com Monteiro (2006), a fotografia é um recorte do real. Isto é, um corte no fluxo do tempo real, o congelamento de um instante separado da sucessão dos acontecimentos. Ademais, ela é um fragmento escolhido pelo fotógrafo pela seleção do tema, dos sujeitos, da ambientação, do sentido etc. Por fim, transforma o tridimensional em bidimensional, reduz a gama das cores e simula a profundidade do campo de visão.
A febre da fotografia tomava conta do mercado industrial. Em meados de outubro de 1839, os daguerreótipos eram vendidos em sete países da Europa e nos Estados Unidos, e, no final de 1840, o manual de autoria de Daguerre era comercializado em oito línguas (Nascimento, 2012). A daguerreotipia foi uma das grandes descobertas da modernidade que, por volta de 1840, chega logo ao Brasil pelas mãos do abade francês Louis Compte, capelão da fragata L’Orientale e membro de uma comitiva que estava dando a volta ao mundo. Ele desembarcou no Rio de Janeiro com a intenção de pesquisar e registrar a natureza exuberante local levantando informações e imagens para estudos posteriores. O referido abade francês produziu os primeiros registros fotográficos entre nós, portanto, um ano após ter sido inventado por Daguerre. O imperador D. Pedro II era grande admirador do invento, adquirindo o equipamento no mesmo ano, aos 14 anos de idade (Lopes, 1996; Vazquez, 2002).
Durante o Império, muitos fotógrafos estrangeiros acompanharam expedições científicas que pesquisavam, além da flora, da fauna e das riquezas minerais, a vida social, especialmente nas vilas, nas cidades, nos sertões e nas selvas (Borges, 2011). Segundo Vazquez (2000, pp. 23-24), “os fotógrafos viajantes eram obrigados a transportar um laboratório completo. E além do próprio laboratório com todos os seus acessórios”.
De acordo com Leite (1993, p. 19), a imagem fotográfica é capaz de revelar, de um lado, aspectos de “comportamentos, representações e ideologias” e, de outro lado, características físicas da imagem fotográfica, como “tamanho, formato, suporte, enquadramento, nitidez, planos, horizontalidade e verticalidade”. Por fim, revela elementos como indumentária, objetos, área, expressões, poses.
Segundo Nascimento (2012), a fotografia é como um instrumento de análise história, de leitura e interpretação de uma cena ou acontecimento. A imagem fotográfica é um recorte da realidade, pois traz em si frações da vida, traz apenas o que é visível ao olhar, porque nem toda a informação é revelada aos olhos pela fotografia. Para Kossoy e Entler (1996), apesar de a imagem fotográfica ser a própria memória cristalizada, sua objetividade reside apenas nas aparências. E diz ainda:
A reconstituição por meio da fotografia não se esgota na competente análise iconográfica. Essa é a tarefa primeira do historiador que se utiliza das fontes plásticas. A reconstituição de um tema determinado do passado, por meio da fotografia ou de um conjunto de fotografias, requer uma sucessão de construções imaginárias. O contexto particular que resultou na materialização da fotografia, a história do momento daqueles personagens que vemos representados, enfim, a vida do modelo referente - sua realidade interior - é, todavia, invisível ao sistema óptico da câmera. Não deixa marcas na chapa fotossensível, não pode ser revelada pela química fotográfica, tampouco digitalizada pelo scanner. Apenas imaginada (Kossoy & Entler, 1996, pp. 78-81).
De acordo com Santaella (1997), a imagem fotográfica é a evidência de sua existência, ou seja, é um vestígio de um testemunho. Segundo Nascimento (2012, p. 30), a fotografia é portadora de um discurso na medida em que se presta a traduzir um instante repleto de intencionalidades. Possui, portanto, finalidade documental, visto que é considerada meio de expressão, informação e mesmo de representações. Para Armando Silva (2008, pp. 98- 99),
A foto é passado. Além das capacidades literárias e narrativa da fotografia, a foto afirma algo que, ao ser passado, constitui uma prova verdadeira da realidade. (...) a fotografia está do outro lado. Não há movimentos. A foto é “silêncio e mobilidade”. O tempo da foto é passado. Registro do que já não é. A relação da fotografia com o objeto representado passa por essa circunstância, e se o registro fotográfico muda para um meio dinâmico, produz-se um vídeo. Se a foto for mantida, privilegia-se a representação do tempo que não mais voltará. Desse modo, a foto é tempo que já existiu.
Nas primeiras décadas do século XX, presentear com retratos se tornou uma moda e enriqueceu muitos fotógrafos. A “carte de visite”, por exemplo, foi interessante, pois mudou a maneira do homem se ver, ou melhor, de como gostaria de ser visto. Leite (1993) assinala que o “carte-de-visite” é exatamente o espelho de como nós queremos ser vistos, de como nós queremos ser aceitos, não pelo que somos, mas pelo que aparentaremos ser, após uma fotografia. Ademais, o retrato fotográfico tornou-se popular, principalmente pela invenção da “carte-de-visite”, que consistia em uma foto colada sobre um suporte e que era oferecida a amigos e parentes como forma de carinho e afeto. Essa forma de fazer fotografia era geralmente utilizada para presentear pessoas da família e amigos que ocuparam muitos álbuns de famílias. Andre Adolphe Eugene Disderi patenteou o processo em 1854 na França.
Segundo Borges (2011), muitos fotógrafos do século XIX passaram a reproduzir imagens fotográficas a partir de critérios que nortearam o universo da pintura. Com o tempo, os estudos fotográficos se tornaram um local de produção da fotografia onde o cenário fazia parte da construção da imagem. Havia toda uma estética na produção da fotografia. Contudo, apenas um pequeno segmento da sociedade na Europa podia se dar ao luxo de ser fotografada pelos melhores estúdios e fotógrafos da França, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos da América.
O álbum de fotografias se tornou uma prática doméstica de arquivos no qual há imagens de pessoas geralmente produzidas em estúdios retratando rostos, corpos e gestos. As fotografias não narram, mas semioticamente captam aparências momentâneas, as fisionomias, os objetos e a indumentária. Não chegam a lhes fornecer informações suficientes para se transformarem em traços do que aconteceu, no entanto é possível se ter uma representação do contexto histórico pela imagem fotográfica (Leite, 1993).
No Brasil do século XIX, a fotografia em estúdios foi utilizada por grandes fotógrafos estrangeiros nas cidades de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Na Amazônia, especialmente no Pará, com o período da Belle Époque, essa tecnologia inovadora de captar imagens pela fotografia atraía muitos fotógrafos para a região por duas razões: a primeira, por ser um lugar de mistérios e aspectos de fauna e flora exóticos; a segunda, pela modernidade amazônica motivada pelo ciclo da economia da borracha que se constituía por uma elite dos barões da borracha. É evidente que os fotógrafos que trabalhavam em Belém, no início do século XX, baseavam seu repertório de imagem em modelos de estúdio europeu. Nas últimas décadas do século XIX, Felipe Fidanza, português, natural de Lisboa, abriu um estúdio em Belém chamado “Photo Fidanza”, que se manteve até o século XX. As fotografias de Fidanza tornaram-se uma marca da fotografia no Pará, mesmo depois da sua morte.
Um dos mais importantes acervos de fotografias produzidas no Pará é o famoso “Álbum do Pará em 1899”, que foi encomendado pelo então governador Paes de Carvalho (1897-1901). O referido álbum com 160 páginas e 148 fotografias de imagens do Pará foi editado em Berlim em três línguas: português, francês e alemão. São fotografias de fachadas e dos espaços internos de prédios, repartições públicas, igrejas, porto fluvial da cidade, bosques, praças, jardins, vias públicas, bem como de grupos escolares e instituições educativas. Paes de Carvalho queria, com o referido álbum, divulgar na Europa as belezas e o progresso da cidade de Belém, na tentativa de mostrar um lugar moderno e civilizado. Para Benedito Nunes (1998, p. 30), “os Findazas viajaram fotografando dentro e fora de Belém, mas foram, sobretudo, como demonstram os Álbuns do Estado e de sua capital, cuja tradição iniciaram grandes flânuer da cidade, colecionando seus espécimes imagéticos naturais e artísticos”. De acordo com o referido autor, as fotografias de Fidanza registraram, além de paisagens, ruas, praças, monumentos, prédios etc. Além disso, registraram cenas do cotidiano com crianças, caboclos, indígenas, carroceiros, ambulantes, vendedores e demais grupos sociais.
Ao longo da história da fotografia no Pará, destacamos fotografias de várias instituições educativas que tiveram um papel importante; dentre elas, está o Instituto Lauro Sodré, fundado em 1899 durante o governo de Paes de Carvalho, com o objetivo de acolher, abrigar, instruir e educar menores desvalidos através da formação profissional. O artigo está divido em duas partes. Na primeira destacamos uma discussão sobre o uso da fotografia como fonte na História da Educação no Brasil. Na segunda abordamos a partir de um acervo fotográfico a história do Instituto Lauro Sodré em Belém do Pará na formação profissional de menores desvalidos, bem como a arquitetura do prédio, os espaços das oficinas, a cultura material como mobília e objetos de ensino e o cotidiano das oficinas na educação profissional.
Diante do exposto, esta pesquisa busca analisar, a partir dos registros fotográficos da época, como acontecia o ensino profissional de menores desvalidos que adentravam o Instituto Lauro Sodré em meados do século XX. Para tal feito, nos utilizaremos de uma pesquisa qualitativa de cunho documental, visto que, segundo Pimentel (2001, p. 180): “Estudos baseados em documentos como material primordial, sejam revisões bibliográficas, sejam pesquisas historiográficas, extraem deles toda a análise, organizando-os e interpretando-os segundo os objetivos da investigação proposta”. Sabendo disso, a pesquisa estruturou-se através da busca, descrição e análise principalmente dos registros fotográficos e da Monografia do Instituto Lauro Sodré, produzida em 1904, no Governo de Augusto Montenegro, as quais auxiliam no desenvolvimento desta pesquisa, a qual insere-se no campo da História das Instituições.
Assim, este artigo tem como objetivo analisar a fotografia como fonte histórica para compreender a cultura escolar do Instituto Lauro Sodré entre 1900 e 1904. Partimos da premissa de que as imagens não constituem registros neutros, mas construções visuais carregadas de intenções pedagógicas e políticas (Dussel, 2006; Kossoy, 2014). O problema que orienta a pesquisa é: como a fotografia, produzida no contexto institucional da Primeira República no Pará, representa e legitima práticas educativas, disciplinares e laborais no Instituto Lauro Sodré? Dessa forma, busca-se contribuir para o debate historiográfico sobre o uso da fotografia como fonte na História da Educação, evidenciando a potência interpretativa das imagens na reconstituição de experiências escolares.
As fotografias foram tratadas como fontes primárias, consideradas não apenas como ilustrações, mas também como documentos visuais que projetam narrativas institucionais. A análise foi guiada por três dimensões principais: (a) os aspectos técnicos e estéticos da produção; (b) os contextos históricos e institucionais em que foram encomendadas; e (c) as representações de práticas educativas, disciplina e trabalho presentes nas imagens. Seguindo a perspectiva de Dussel (2006), entendemos que “olhamos para imagens, mas nem sempre as vemos”; por isso, adotamos categorias de leitura que permitiram observar tanto o visível (espaços, gestos, materiais, sujeitos) quanto os silêncios e ocultamentos que as imagens carregam.
Este estudo busca problematizar a fotografia como documento histórico na História da Educação. Ao utilizar imagens do Instituto Lauro Sodré como fontes centrais, procura-se reforçar a importância da cultura visual para ampliar as possibilidades de leitura das práticas educativas, indo além dos registros escritos tradicionais.
A fotografia como fonte na História da Educação
Na história da educação, a fotografia ganhou estatuto de fonte histórica por retratar ao pesquisador elementos de uma realidade guardada no tempo. Nessa perspectiva, a fotografia como fonte histórica pode ser entendida como um documento/monumento, que preserva a memória da educação. Para Ciavatta (1998, p. 19), como “a fotografia possui um caráter informativo, ela sempre é, simultaneamente, uma recriação da realidade conforme a visão particular do grupo que a produz”. Sem dúvida, a fotografia é uma fonte primordial e adquire cada vez maior força em nossas pesquisas sobre instituições educativas no Pará. A foto não é apenas uma imagem por si só, mas uma representação sígnica da realidade registrada de um período histórico.
No contexto da história de instituições educativas, a fotografia é uma fonte riquíssima que podemos utilizar para compreender aspectos de ordem pessoal, política, educativa e social. Além disso, permite ao pesquisador entender a história da instituição e sua cultura material e patrimonial, os trajes, posturas, expressão, cenários, material didático e ambientes registrados. Indubitavelmente, a fotografia é um fragmento do passado que concede diferentes interpretações ao se combinar com outros documentos oficiais e não oficiais.
As imagens fotográficas de instituições educativas exigem do pesquisador interpretações cotejadas com outras fontes, tais como: jornais, revistas, leis, decretos, ofícios, relatórios e outros documentos escritos. Geralmente, as fotografias encontradas nos arquivos públicos oficiais e nos arquivos das escolas pesquisadas estão em grande parte em precárias condições de preservação, perdendo-se no tempo. O pesquisador, com os dados colhidos na imagem fotográfica, estabelece a “leitura imagética”, procurando ler o dito e o não dito.
Sobre o uso da fotografia como fonte na área da educação, concordamos com Ciavatta (1998) quando diz que ainda está em construção uma metodologia. No campo da História da Educação, a fotografia é um modo de compreensão de uma realidade educativa, de práticas culturais e da cultura material escolar. A fotografia de ambientes escolares propicia um conjunto de narrativas de caráter histórico, e não é encarada como um mero fragmento imagético, mas é um registro concreto de um ambiente carregado de representações da cultura material escolar. A referida autora destaca que as referências mais usuais a esse tipo de estudo concentram-se mais em áreas como a comunicação e a história. Somente durante a década de 1990-2000, segundo Fischmann (2008, p. 109), é que “o campo de pesquisa educacional norte-americano viu a emergência de vários trabalhos que indagavam criticamente sobre temas relacionados à cultura visual e à educação”.
Trabalhar com fotografia em história de instituições educativas não é algo tão simples quanto parece, pois há que se responder a um desafio que envolve comprometimento da parte do pesquisador com as imagens fotográficas para reconstrução de uma história institucional em que não há mais testemunhas. Como então chegar àquilo que não foi revelado pelo olhar fotográfico? Certamente, para o pesquisador de história da educação, essa tarefa é um grande desafio de interpretação. O desafio impõe-lhe a tarefa de desvendar uma intrincada rede de significações, cujos elementos - homens e signos - interagem dialeticamente na composição da realidade.
A história do instituto Lauro Sodré e a educação profissional no Pará pela fotografia
A análise das imagens do Instituto Lauro Sodré permite mobilizar a noção de “visualidade” proposta por Dussel (2006), segundo a qual as fotografias não apenas mostram, mas também produzem modos de ver. Quando observamos, por exemplo, a organização dos dormitórios ou as oficinas em funcionamento, não estamos diante de um reflexo do real, mas de uma construção que busca evidenciar disciplina, higiene e produtividade, valores centrais da pedagogia republicana do período. Assim, as imagens não devem ser lidas como simples ilustrações, mas como fontes que revelam projetos políticos e culturais do Estado.
A partir disso, temos que a história da educação profissional no Pará está intimamente ligada à atuação de Lauro Sodré, o qual foi o primeiro governador do estado do Pará pelo Congresso Constituinte da República, além de ser eleito três vezes como senador pelo Pará (1897, 1912, 1922), em virtude disso, sendo considerado figura de destaque na política e na educação do estado no final do século XIX e início do século XX. Como senador e governador, Sodré implementou uma série de reformas voltadas à modernização da instrução pública, enfatizando a necessidade de formação profissional para a população jovem, especialmente os menores desvalidos. Sua visão de progresso e desenvolvimento estava alinhada com as demandas de uma sociedade em transformação, impulsionada pelo crescimento econômico decorrente do ciclo da borracha, período no qual a Amazônia se insere no mercado capitalista mundial mediante o desenvolvimento da economia gomífera, a partir de 1840; por conseguinte, Belém se insere na era da modernidade e depara-se com componentes básicos do processo de industrialização, como, por exemplo, a urbanização, a divisão técnica de trabalho, a formação de uma elite e os indicadores de progresso.
Antes da criação do Instituto Lauro Sodré, havia no Pará uma iniciativa de educação profissional voltada para menores em situação de vulnerabilidade, o Instituto Paraense de Educando Artífices. Fundado em 1872, essa instituição tinha como objetivo principal abrigar e instruir menores desvalidos, órfãos e em situação de abandono, proporcionando-lhes uma formação em ofícios que lhes permitisse ingressar no mercado de trabalho. A instituição criada sob os ideais iluministas produzidos na Europa e sob a égide de um projeto civilizatório na Amazônia transformou indígenas e meninos mestiços em cidadãos distintos e morigerados, visto que oferecia ensino básico e treinamento em diversas atividades produtivas, garantindo uma forma de inclusão social e econômica para esses menores que, de outra forma, estariam marginalizados.
Com a ascensão de Lauro Sodré a governador e seu comprometimento com a modernização da educação em Belém, o Instituto Paraense de Educando Artífices foi reformulado e ampliado, culminando na fundação do Instituto Lauro Sodré no início do século XX. Essa nova instituição consolidou-se como referência na educação profissional, sendo reconhecida pelo Estado e pela sociedade como um centro de excelência na formação de jovens trabalhadores.
O Instituto Lauro Sodré incorporou as bases pedagógicas do Instituto de Educandos Artífices, mas com melhorias significativas na estrutura física e na proposta curricular. O ensino era organizado para oferecer tanto formação teórica quanto prática, com ênfase em oficinas especializadas em marcenaria, tipografia, alfaiataria, serralheria, funilaria e outras áreas voltadas para atender às demandas do mercado de trabalho da época. Dessa forma, os alunos recebiam uma educação integral, que buscava não apenas capacitá-los tecnicamente, mas também discipliná-los dentro de uma ótica produtivista e civilizatória.
Outro aspecto relevante da gestão de Lauro Sodré foi a valorização da infraestrutura educacional. O prédio do Instituto Lauro Sodré foi projetado para atender a uma grande quantidade de alunos, oferecendo condições adequadas para o aprendizado. A instituição contava com uma infraestrutura adequadamente planejada com alojamentos espaçosos, salas de aula bem equipadas e oficinas modernas para a época. A qualidade da infraestrutura era um reflexo direto da política educacional adotada por Sodré, que buscava elevar os padrões de ensino e aproximá-los dos modelos europeus, especialmente dos institutos franceses de formação profissional.
A educação profissional oferecida no Instituto Lauro Sodré também possuía um forte componente disciplinar. Os alunos eram submetidos a uma rotina rigorosa, que incluía atividades educacionais, treinamento físico e normas de comportamento estritas. Essa abordagem refletia a concepção dominante de que a educação dos menores desvalidos deveria ir além da simples transmissão de conhecimentos, incorporando também um processo de moralização e controle social.
A partir disso, no início do século XX, o Instituto Lauro Sodré se torna uma instituição reconhecida por dar formação profissional a menores desvalidos. Os meninos ingressavam na instituição de acordo com os dispositivos utilizados por outras instituições no Brasil que tinham como ideário: acolher, instruir e educar. Os menores desvalidos eram encaminhados por autoridades judiciais como, por exemplo, o juízo de órfão, que, não conseguindo tutela para o menor órfão, recorria à instituição para dar uma educação profissionalizante. Havia também o encaminhamento do menor envolvido com a criminalidade e que precisava de uma educação disciplinar e laboral como forma de correção.
Compreendendo os passos iniciais de Lauro Sodré, percebe-se que seu objetivo foi, conforme visto, utilizar a instrução pública voltada aos menores desvalidos do Pará como meio de promover a construção de uma integridade social alinhada aos ideais republicanos e patrióticos, inserindo essas crianças e adolescentes em uma sociedade moldada por tais valores, de modo que pudessem “compartilhar os benefícios da instituição e (...) interessar-se pelo progresso da pátria” (Sodré, 1891, p. 2).
O impulso em direção ao desenvolvimento do ensino técnico não estagna em seu governo, pelo contrário, Lauro Sodré instiga a criação da Escola Agrícola e das estações agronômicas como representantes fundamentais do ensino técnico e do desenvolvimento da agricultura no Pará. Desse modo,
O ensino técnico é fundamental, não por ser restrito às questões pedagógicas, e sim em razão de ser “uma questão vital para todos os povos modernos, empenhados n’essa luta travada no terreno da produção e das permutas. Os torneios, de que hoje se entretece o drama da vida das nações policiadas, a Victoria ha de caber ao mais aparelhado, isto é, ao mais instruído” (Sodré, 1892, p. 29).
A partir dos relatos de Lauro Sodré em suas mensagens, vemos seu incessante trabalho em disseminar o ensino profissional no Pará, de modo que esta educação sana os problemas relacionados à educação da classe operária e incorpora estes na sociedade, dando-lhes um futuro e para isso a educação profissional deveria continuar a ser incentivada, visto que se deveria “fazer do capital intellectual e moral da Humanidade uma propriedade de todos, não um privilégio de alguns. Armado de um tal ensino terá o operário entre mãos o instrumento útil e fecundo da sua própria melhoria, do seu aperfeiçoamento” (Sodré, 1893, pp. 17-18).
Sendo assim, Sodré atribui importância ao ensino profissional realizado no Instituto Paraense de Educandos Artífices, visto que esta foi uma instituição pública de ensino técnico que se constituiu em uma grande oficina, “formando artistas e trabalhadores de acordo com os conhecimentos mais avançados acerca dos mecanismos industriais que engendram a grandeza das nações, desenvolvendo assim “aptidões intellectuais que fazem o homem, e das aptidões práticas que fazem o operário” (Abreu Junior, 2011, p. 64).
Com o fim do governo de Lauro Sodré, a instrução pública passou por reformas que mantiveram vivos os ideais republicanos de civilidade por meio da educação. Esse legado, marcado pelo prestígio conquistado através do empenho em desenvolver os institutos formativos e expandir o ensino profissional, foi sucedido por José de Paes de Carvalho, novo governador e senador mais votado pelo Pará em 1890, que deu continuidade às políticas educacionais com base nesses mesmos princípios.
Após nove anos como senador, Paes de Carvalho volta a Belém em um momento muito delicado em razão de grandes epidemias na região Amazônica, como: varíola, febre amarela, cólera, sarampo e peste negra, se tornando governador do estado do Pará em 1896. Governou junto com o intendente municipal de Belém Antônio Lemos, que estabelece uma política de investimento para modernizar Belém em decorrência do ciclo da economia da borracha no Pará - estipulou-se oficialmente através do decreto nº 414, de 01 de fevereiro de 1897, a mudança nominal de Instituto Paraense de Educandos Artífices para Instituto Lauro Sodré, buscando através deste homenagear o homem que tanto fez pela instrução pública no Pará.
Arquitetura do prédio
Em 1899, com a construção do edifício do Instituto Lauro Sodré no Marco da Légua, durante os governos de Paes de Carvalho e, posteriormente, Augusto Montenegro, a instituição começou a ganhar notoriedade, equiparando-se às renomadas escolas da Europa. Essa edificação simbolizava a relevância da educação na formação de crianças em situação de vulnerabilidade. Projetado com base nos princípios higienistas, o prédio principal do Instituto Lauro Sodré possuía dimensões de 93 metros de largura por 88 metros de profundidade.
Os dormitórios ofereciam um espaço de 35,5 metros de comprimento e 13,7 metros de largura, conforme ilustrado. A Figura 1 revela, através de uma imagem fotográfica, a imponência da arquitetura do Instituto Lauro Sodré. Durante o período da borracha, esse majestoso edifício conferiu ao Instituto um papel significativo no campo educacional. Seu esplendor ia além de sua aparência externa, abrangendo principalmente os diversos ambientes, como a sala de estudos, a área de ginástica, os refeitórios, os observatórios meteorológicos e, especialmente, as oficinas onde eram oferecidos cursos de formação profissional.
O salão de refeições media 36 metros de comprimento por 18,1 metros de largura, enquanto o salão de estudos media 35,5 metros de comprimento por 13,7 metros de largura. Observamos que o edifício da instituição possuía uma infraestrutura extensa, organizada em níveis militares, devido à ideologia higienista que ditava os padrões nos quais os institutos deveriam ser estabelecidos.
Esperava-se que, com janelas e corredores amplos, a circulação de ar entre os ambientes pudesse reduzir a incidência de doenças que afetavam a sociedade naquele período, especialmente aquelas ligadas a problemas respiratórios, como a pneumonia. Da mesma forma que o dormitório (Figura 2), o refeitório foi projetado para acomodar a maior parte dos alunos, transmitindo uma ordem organizacional entre eles.
Cabe ressaltar que as fotografias do Instituto Lauro Sodré foram encomendadas e registradas em um contexto de afirmação política do governo republicano no Pará. Nesse sentido, não são meros registros técnicos: são representações cuidadosamente construídas para projetar uma imagem de ordem, disciplina e progresso. O enquadramento dos alunos uniformizados, a ênfase nos espaços amplos e higienizados e a exibição das oficinas bem equipadas revelam intenções de legitimação da instituição como símbolo da modernidade amazônica.
O ensino teórico
O Instituto Lauro Sodré assumiu uma posição fundamental na educação profissional no Pará, integrando a formação prática e teórica para menores em condições de vulnerabilidade. Enquanto as oficinas especializadas capacitavam os educandos para uma variedade de práticas laborais, o ensino teórico proporcionava uma fundamentação essencial para o aprimoramento intelectual e técnico dos educandos. Essa abordagem visava assegurar que os educandos não apenas dominassem uma habilidade prática, mas também assimilassem conhecimentos fundamentais para a compreensão e aplicação de conceitos teóricos em suas atividades profissionais.
O currículo do Instituto Lauro Sodré compreendia um conjunto de disciplinas focadas na formação elementar e técnica, possibilitando aos educandos a aquisição de competências em leitura, escrita e matemática. Essas habilidades eram vistas como fundamentais para qualquer profissional que necessitasse interpretar manuais técnicos, elaborar registros administrativos ou efetuar medições precisas em suas atividades. Dessa maneira, a referida instituição educacional proporcionava uma formação mais holística, capacitando seus educandos para enfrentar os desafios tanto do mercado de trabalho quanto da vida cotidiana.
Dentre as disciplinas teóricas disponíveis, sobressaiam-se a Língua Portuguesa, a Matemática e as Ciências Naturais. A primeira visava ao desenvolvimento das habilidades de comunicação oral e escrita dos estudantes, enquanto a Matemática se mostrava essencial para o raciocínio lógico e a solução de questões práticas. As Ciências Naturais, por sua vez, apresentavam fundamentos elementares de química, física e biologia, integrados ao contexto das oficinas e das atividades profissionais realizadas pelos educandos.
A interconexão entre teoria e prática tornava o aprendizado mais dinâmico e sintonizado com as demandas do período. Além dos conhecimentos mencionados, a estrutura pedagógica do Instituto Lauro Sodré englobava princípios de desenho técnico e geometria, áreas de estudo fundamentais para práticas profissionais como marcenaria, serralheria e tipografia. A proficiência nessas competências capacitou os educandos a decifrar plantas e projetos, otimizando a realização de suas atividades com maior exatidão e eficácia. Assim, a instrução teórica se configurava não meramente como uma formalidade na estrutura educacional do Instituto, mas como uma estratégia crucial para enriquecer e amplificar a formação profissional dos educandos.
As salas de aula do Instituto Lauro Sodré foram projetadas para proporcionar um ambiente favorável ao aprendizado teórico, que complementa a formação prática dos alunos. Esses ambientes eram espaçosos e bem iluminados, dotados de amplas janelas que asseguravam uma ventilação adequada, sobretudo da proliferação de doenças. As carteiras foram dispostas de forma a promover a interação entre os educandos e a facilitar a observação docente, como evidenciado nas fotografias das imagens das Figuras 3 e 4. As fotografias tiradas das salas de aulas de físico-química e desenho retratam todas as mobílias, objetos e materiais didáticos que eram utilizados pelos educandos.
Um elemento significativo da formação teórica no Instituto Lauro Sodré residia em sua função disciplinadora. A estrutura curricular apresentava uma configuração rigorosa, caracterizada por horários claramente estabelecidos e métodos pedagógicos que priorizavam a disciplina, a pontualidade e o comprometimento com o aprendizado. Este modelo espelhava a concepção educacional do período, reconhecendo a educação profissional não apenas como um instrumento de aperfeiçoamento técnico, mas também como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento moral e social dos indivíduos.
Assim, a instrução teórica proporcionada pelo Instituto Lauro Sodré desempenhou um papel crucial na formação dos educandos paraenses, assegurando que estes obtivessem uma educação harmoniosa entre os aspectos teóricos e práticos. Essa metodologia oferecia aos educandos não só a capacitação profissional, mas também um vasto acervo de conhecimentos que lhes facultava desempenhar suas funções com autonomia e uma compreensão mais aprofundada. Dessa maneira, o Instituto estabeleceu- se como uma referência notável na educação profissional, desempenhando um papel fundamental no avanço educacional e econômico da região.
As oficinas de educação profissional
Além das grandiosas salas de aulas do instituto, ao sair pelos fundos do prédio, era possível observar uma extensa avenida ladeada por várias edificações. Dentre estas, estava um amplo edifício em madeira onde funcionam as oficinas profissionalizantes, conforme se vê na imagem da Figura 5.
De acordo com a Monografia do Instituto Lauro Sodré (1904) - a qual traz consigo relatos acerca do funcionamento do Instituto Lauro Sodré, abordado em detalhes da sua constituição e infraestrutura, aulas de ensino primário e profissional, corpo de professores da época, dentre outros -, a edificação das oficinas teve seu início em 20 de fevereiro de 1900 e foi concluída por volta de setembro daquele mesmo ano. A infraestrutura era composta por estruturas de madeira organizadas em quatro volumes retangulares, medindo 56 metros de comprimento, 3 metros de largura e 6 metros de altura. Os telhados eram revestidos com telhas de Marselha e dotados de lanternins, que promoviam uma ventilação adequada ao ambiente. Adicionalmente, a edificação contava com envidraçamento quase completo de seu perímetro, visando proteger contra intempéries e fornecer a luminosidade necessária para a realização das atividades, conforme evidenciado pelo registro fotográfico na Figura 6.
No Instituto Lauro Sodré, as oficinas eram projetadas para aprimorar as habilidades manuais dos aprendizes, com a finalidade de proporcionar uma formação profissional que possibilitasse a aplicação desse conhecimento após a sua saída da instituição. Dentre as oficinas oferecidas no Instituto Lauro Sodré, destacava-se a de alfaiataria, que proporcionava aos educandos um treinamento especializado em cortes, costura e operação de máquinas de costura. O labor executado por aproximadamente 29 educandos que integravam a oficina de alfaiataria foi direcionado ao aprimoramento e à produção de técnicas de costura manual, bem como à elaboração de medidas e moldes.
Além disso, incluiu a costura à máquina, cortes realizados tanto manualmente quanto mecanicamente, além da confecção de vestuário em geral, englobando a habilidade de pregar botões, tanto à mão quanto em máquinas, juntamente com obras de sirgueiro, exemplificadas pela confecção de gorros, bonés, divisas, entre outros. Na Figura 06, podemos vislumbrar uma representação de como eram conduzidas as aulas na oficina de Alfaiate.
No galpão, os educandos eram organizados de acordo com suas atribuições: um grupo se encarregava da aplicação dos moldes; outro realizava o corte do tecido; um terceiro operava as máquinas de costura, enquanto um último grupo finalizava à mão as peças confeccionadas. Os costureiros, habilidosamente treinados, acomodavam-se em pequenos bancos para executar sua função.
A oficina de carpintaria dispunha de um total de 80 aprendizes que se dedicavam à fabricação de uma variedade de produtos, com ênfase na produção para o Estado, tais como carteiras para a escola de farmácia, quadros-negros para instituições educacionais e mesas para professores. Além disso, as suas produções eram direcionadas ao Instituto, abrangendo itens como puxadores, carteiras, bancos e estantes.
Ademais, executavam serviços para clientes externos à instituição, abrangendo, entre outros, a fabricação de maçanetas, caixilhos, armários, pequenas estantes, balaústres e pranchetas de reduzidas dimensões. Os ambientes destinados às oficinas eram considerados amplos e visavam reunir todo o material indispensável para o completo desenvolvimento do educando na profissão selecionada, conforme ilustrado a seguir.
Na Figura 7 constatamos a utilização de máquinas para corte de madeira. Nesta oficina geralmente os educandos mais velhos eram os que manuseavam as máquinas sob a coordenação do mestre. Os demais educandos ficavam a selecionar as peças de madeira e a confeccionar as mobílias. Eram raros os casos de educandos que se acidentavam nesta oficina.
Para os educandos que não se identificavam com as oficinas de alfaiataria e marcenaria, havia a alternativa de participar da oficina de tipografia (Figura 8). Esta oficina era dedicada à produção de impressões em preto e branco, abrangendo uma variedade de trabalhos, como obras, mapas, prospectos, tiragens com prazos específicos e a composição e impressão de livros. Durante esse período de 1904, a oficina contava com 15 educandos que realizaram diversos projetos para instituições, incluindo o Regimento Militar do Estado, a Secretaria da Justiça, a Câmara dos Deputados, a Secretaria de Obras Públicas, o gabinete do governador, o serviço de águas e o Museu Goeldi, além de atender aos pedidos particulares.
Outro ofício ensinado na instituição era o de encadernador. Os educandos eram responsáveis por desenvolver e produzir encadernações e brochuras. Em 1903, por exemplo, a oficina contava com 39 aprendizes, que produziram, nesse mesmo ano, cerca de 766 encadernações e 5. 568 brochuras. Essas produções, assim como as anteriores, eram voltadas tanto para instituições públicas quanto para particulares do Estado. Na Figura 9, podemos observar nas aulas da oficina de encadernação diversas máquinas que cortavam papel, realizavam a brochura e executavam a encadernação. Essa imagem evidencia que a oficina era bastante frequentada pelos educandos, refletindo a importância desse aprendizado na formação profissional deles.
A variedade de ofícios oferecidos pelo Instituto Lauro Sodré proporcionava grandes vantagens aos educandos, permitindo que eles explorassem suas habilidades em atividades como costura, marcenaria e trabalhos manuais com metais.
Em 1904, a oficina de funilaria contava com a presença de 19 alunos que aprendiam as técnicas de corte e soldagem. Eles manuseavam folhas de zinco e cobre, fabricando calhas, canos para depósitos, utensílios para a cozinha, baús de folha e telas de arame, além de adquirir um bom entendimento sobre o funcionamento das máquinas utilizadas nesses processos. Nesse mesmo ano, a oficina produziu aproximadamente 703 peças para instituições estaduais e realizou diversos consertos tanto para clientes externos quanto para o próprio Instituto Lauro Sodré.
As atividades nas oficinas do instituto eram bastante intensas. No ofício de ferreiro e serralheiro mecânico, os educandos se dedicavam à forja e ao limado, aprendendo sobre metais e ligas (Figura 10). Eles estavam envolvidos na produção de grades, fundição de ornamentos, serralheria aplicada e mecânica, além de realizarem gravações e soldaduras em ferro. Os educandos também ajustavam encanamentos e ampliavam seus conhecimentos sobre máquinas de cortar, furar, dobrar e malhar, bem como sobre motores a vapor e a petróleo.
Nota. Fonte: Monografia do Instituto Lauro Sodré (Escola Profissional do Estado) de 1904 (Instituto Lauro Sodré, 1904, [s.p.]). Recuperado de http://obrasraras.fcp.pa.gov.br/
Em 1904, nesta oficina trabalhavam 38 aprendizes que confeccionavam diversos produtos. Os educandos produziram, para o Hospício de Alienados, cerca de 26 grades, 24 colunas, 150 parafusos, 2 portões e uma bandeira. Já para as oficinas, produziram 5 tenazes, 2 grifos, uma travadeira, 2 luvas, dentre outros. Para o próprio estabelecimento, os educandos produziram balaústres para o encanamento dos banheiros, arroelhas para assentamento de máquinas e para carroça da instituição.
O cotidiano dos educandos dentro da oficina desenvolvendo seus trabalhos de Ferreiros e serralheiros era acompanhado por mestres que orientavam manuseio das máquinas. Cabia aos mestres observar as habilidades manuais dos educandos durante a atividade de produção. Na Figura 11, podemos identificar a dinâmica das aulas na oficina de ferreiro e serralheiro.
Outro ofício proporcionado pelo instituto Lauro Sodré era o de sapateiro-corrieiro. Nesta oficina, os aprendizes trabalhavam com a costura manual, aprendiam a pregar e juntar calçados, cortavam e costuravam, fabricavam calçados e arreios, além de aprender sobre o funcionamento das máquinas para os fins desejados nestas produções. No ano de 1903, essa oficina constava com o quantitativo de 22 aprendizes responsáveis pela produção de sapatos para os educandos da própria instituição e para os integrantes do regimento militar, sendo que para estes era produzido botas e coturnos. Realizam, também, uma produção de produtos de pedidos particulares.
Na fotografia seguinte (Figura 12), é possível observar que o galpão onde funcionava a oficina de sapateiro era divido por tarefas para produção das peças. Havia o grupo que cortava o couro e outros grupos de aprendizes que trabalhavam no manuseio de máquinas para costurar as peças. Por fim, havia o grupo de aprendizes que faziam a costura à mão.
O Instituto Lauro Sodré buscava educar os menores desvalidos através do ensino teórico e do ensino profissional, sendo este último dividido em agrícola e industrial, conforme visto. Ao final de sua educação, o educando saía da instituição com uma formação profissional para o trabalho, ou seja, durante sua permanência no Instituto, os conhecimentos manuais desenvolvidos dentro das oficinas os preparavam para o mundo externo, mais propriamente dito, para suprir as necessidades de mão de obra especializada para atender às demandas da elite local que precisava, principalmente, dos serviços de sapateiro, alfaiates, marceneiros e tipógrafos.
A partir do que foi exposto, compreendemos que a formação apresentada no Instituto Lauro Sodré baseava-se no ensino primário, desenho, geometria, música e, especialmente, nas oficinas profissionalizantes que qualificava os menores desvalidos em um ofício. A intenção era formar meninos que tivessem uma educação escolar, mas, sobretudo, uma formação profissional, ou seja, que desse aos aprendizes a possibilidade de descoberta das suas aptidões vocacionais. É bem verdade que nem sempre os meninos descobriam suas habilidades e aptidões ou, em muitos casos, não tinham nenhuma habilidade para atender às tarefas das oficinas. Cabia, então, aos mestres das oficinas esse papel de identificar as aptidões dos aprendizes e incentivá-los a se especializar em uma oficina.
As oficinas de tipografia, encanador, funilaria, marcenaria, sapataria e serralheiro eram frequentadas cotidianamente pelos aprendizes do Instituto Lauro Sodré sob a orientação de mestres das oficinas que ocupavam uma função dupla: de um lado, desenvolver manual e cognitivamente as habilidades dos meninos, ou seja, de identificar, entre os grupos de aprendizes, aqueles que tivessem talentos e aptidões manuais; de outro, através das peças produzidas nas aulas práticas, fazer com que os meninos atendessem às demandas do governo do estado do Pará. Ademais, os educandos paraenses encontravam, no Instituto Lauro Sodré, o melhor estímulo para estudar e habilitar-se ao desempenho de múltiplas especialidades de aprendizado.
Considerações finais
A educação profissional voltada para menores desvalidos no Instituto Lauro Sodré constituiu uma experiência educacional relevante nas primeiras décadas do século XX, refletindo concepções de formação que combinavam ensino teórico e prático. Criado com a finalidade de oferecer instrução e qualificação profissional a menores em situação de vulnerabilidade, o instituto tornou-se um espaço de ensino técnico que buscava prepará-los para o mercado de trabalho, fornecendo-lhes habilidades em diversas áreas, como marcenaria, alfaiataria, tipografia e outras atividades produtivas.
O modelo de educação adotado pela instituição estava alinhado às diretrizes educacionais e sociais da época, que viam no ensino profissionalizante uma estratégia eficaz para conter a marginalização e integrar esses meninos desvalidos à sociedade por meio do trabalho. No entanto, essa formação não se limitava a um projeto pedagógico emancipatório, mas também cumpria uma função disciplinadora, buscando moldar os educandos para desempenharem papéis específicos na estrutura econômica local. O ensino oferecido foi, assim, diretamente vinculado às demandas do estado e das elites oriundas do período próspero da comercialização da borracha na Amazônia, que viam na formação de mão de obra envolvida um meio de fortalecimento dos setores produtivos estratégicos.
A importância do Instituto Lauro Sodré pode ser vista não apenas em registros documentais, mas também em um acervo iconográfico que permite uma análise visual da instituição e de suas práticas educacionais. Fotografias da época retratam os espaços do instituto e a rotina dos educandos, oferecendo compromissos concretos sobre essas informações. Essas imagens são fontes históricas da educação no início do século XX no Pará republicano, pois possibilitam compreender a materialidade do ensino profissional, revelando detalhes que os documentos escritos nem sempre se expressam.
Os registros fotográficos evidenciam a organização das oficinas, a distribuição das aulas nas atividades práticas e a interação entre os mestres e os educandos. Além disso, permitem observar aspectos como vestimentas, objetos escolares, mobília, posturas e expressões de educandos e mestres, que ajudam a contextualizar a experiência dos menores dentro da instituição. A análise dessas imagens contribui para um entendimento mais amplo sobre a dinâmica da formação profissional e os valores que orientaram o ensino técnico naquela época.
A relação entre educação e trabalho, conforme praticada no Instituto Lauro Sodré, reflete um modelo de ensino profissionalizante para a inserção dos educandos em funções produtivas específicas. Se, por um lado, uma instituição oferecia oportunidades de aprendizagem e qualificação, por outro, limitava as perspectivas desses menores a uma formação técnica estreita vinculada às necessidades do mercado. Isso levanta questões sobre o caráter funcionalista da educação profissional, que, muitas vezes, restringe o potencial do ensino ao direcioná-lo para fins essencialmente econômicos.
Dessa forma, a trajetória do Instituto Lauro Sodré oferece reflexões importantes sobre a história da educação profissional no Brasil e sobre as políticas educacionais voltadas para os menores desvalidos da época. O estudo dessa instituição permite compreender como a educação foi utilizada como ferramenta de controle social e de formação da força de trabalho, evidenciando resistência entre os ideais de inclusão e as demandas do mercado.
Por fim, ao resgatar a memória do Instituto Lauro Sodré e sua experiência com a educação profissional de menores desvalidos através de registros fotográficos, torna-se possível compreender partes da história desta instituição de ensino que alcançou prestígio ao disseminar o ensino profissional para os menores desvalidos no Pará.
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Nota:
Este artigo integra o dossiê “Fotografia como fonte de pesquisa para a História da Educação”. O grupo de textos em questão foi avaliado de forma conjunta pela editora associada responsável, no âmbito da Comissão Editorial da RBHE, bem como pelas proponentes do dossiê.
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Rodadas de avaliação:
R1: dois convites; dois pareceres recebidos.
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Como citar este artigo:
Sena, M. T., & Alves, L. M. S. A. A fotografia como fonte para a história da educação: o Instituto Lauro Sodré (1900-1904). Revista Brasileira de História da Educação, 25, e394. DOI: https://doi.org/10.4025/rbhe.v25.2025.e394
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A RBHE conta com apoio da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) e do Programa Editorial (Chamada Nº 30/2023) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Nota. Fonte: Monografia do Instituto Lauro Sodré (Escola Profissional do Estado) de 1904 (Instituto Lauro Sodré, 1904, [s.p.]). Recuperado de http://obrasraras.fcp.pa.gov.br/
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