Resumo
Este ensaio teórico, sustentado pela Psicologia Social Crítica Feminista, busca desvelar como a desfiguração ontológica do trabalho, inerente à dinâmica capitalista, se amalgama às opressões de gênero, raça e classe. O percurso analítico expõe como esse entrelaçamento produz sofrimentos e o adoecimento psíquico, com foco na experiência das mulheres. A análise debruça-se sobre as configurações do neoliberalismo contemporâneo, especificamente as lógicas de gestão em startups. Denunciamos o discurso ideológico que tenta camuflar as opressões sob as vestes da “flexibilização” e de um “pertencimento” ilusório. Sob uma lente interseccional, demonstramos que tais mecanismos resultam na superexploração e no desgaste da vida das trabalhadoras. A reflexão convoca uma transformação social radical, refutando saídas individuais ou paliativos organizacionais. Defendemos o desmantelamento do patriarcado, do racismo e do capitalismo, em busca da retomada do sentido teleológico do fazer humano, da coletivização do cuidado e de uma ruptura ética na valoração do trabalho.
Palavras-chave:
Capitalismo; Violência de Gênero; Interseccionalidade; Trabalho; Feminismo; Saúde do Trabalhador
Abstract
This theoretical essay, grounded in Feminist Critical Social Psychology, seeks to unveil how the ontological disfigurement of work, inherent to capitalist dynamics, becomes intertwined with gender, race, and class oppressions. The analytical trajectory demonstrates how this entanglement produces suffering and psychological distress, with a particular focus on women’s experiences. The analysis examines configurations of contemporary neoliberalism, specifically managerial logics within startups. We denounce the ideological discourse that attempts to conceal oppressions under the guise of so-called “labor market flexibilization” and an illusory sense of “belonging.” Through an intersectional lens, we show that such mechanisms result in the superexploitation of labor and the erosion of workers’ lives. This reflection calls for a radical social transformation, rejecting individual solutions or organizational palliatives. We advocate for the dismantling of patriarchy, racism, and capitalism, in pursuit of reclaiming the teleological meaning of human activity, the collectivization of care, and an ethical rupture in the valuation of work.
Keywords:
Capitalism; Gender-Based Violence; Intersectionality; Labor; Feminism; Occupational Health
Introdução
Este ensaio teórico, forjado sob a perspectiva da Psicologia Social Crítica Feminista, convida à imersão em uma análise crítica e situada sobre as formas de organização do capitalismo contemporâneo, explicitando as sombras da violência de gênero no trabalho. Nosso objetivo é desvelar como a desfiguração ontológica do trabalho, intrínseca à lógica capitalista, se entrelaça com as opressões de gênero, raça e classe, culminando em sofrimentos e adoecimentos psíquicos, sobretudo entre as mulheres. Percorremos um caminho que tensiona a invisibilidade do gênero nas abordagens tradicionais do trabalho1, aprofundando o olhar sobre a dimensão simbólica e estrutural da violência, incluindo as microagressões cotidianas. Embora neste ensaio busquemos analisar e refletir sobre as mulheres e as violências que assombram subjetiva e objetivamente o cotidiano no trabalho, aqui, tomamos uma inspiração etnográfica.
Olhamos para as mulheres nas engrenagens das startups, que, em sua maioria, ocupam a linha de frente de uma geração convocada pela promessa de autonomia, flexibilidade e horizontalidade, e para as formas como a exploração ganha contornos de modernidade sob o discurso da inovação. Essas trabalhadoras, atravessadas por marcadores de classe, raça e idade, encontram-se em ambientes que exigem disponibilidade subjetiva integral, onde o assédio muitas vezes aparece camuflado em dinâmicas de “cultura de grupo” e a sobrecarga é vendida como engajamento. Essa ideologia do empreendedorismo de si projeta a ilusão de que o sucesso depende exclusivamente da performance individual, mascarando a precarização dos laços laborais e a manutenção de hierarquias de gênero que, no cotidiano dessas empresas, seguem operando para exaurir corpos e mentes em nome de uma agilidade que desconsidera as condições concretas da vida e do cuidado.
Ao fim, lançamos luz sobre as possibilidades de uma atuação crítica e o fundamento para a construção de um horizonte de organização social feminista interseccional, visando a construção de um trabalho sem violência de gênero e, em última instância, o fenecimento do capitalismo em prol da libertação de toda a humanidade.
Ensaiar para mudar: Método
Este estudo adota uma abordagem metodológica de leitura crítica, fundamentada em uma perspectiva feminista interseccional, para analisar a violência de gênero no trabalho e suas repercussões no sofrimento psíquico. O ensaio teórico oferece a potência necessária para uma escrita que transcende o formalismo tradicional, permitindo uma problematização aprofundada e a construção de novas perspectivas. Inspiramo-nos na proposta de Nascimento2, que sugere a utilização do ensaio como forma e da narrativa como método, pois, por serem profundamente enraizados na experiência, esses formatos refletem de modo mais complexo as intersecções entre o objeto de estudo e as transformações subjetivas e históricas. Essa postura crítica é essencial para desvelar as camadas de opressão que a violência de gênero impõe e que, frequentemente, são obscurecidas por análises que desconsideram as especificidades de raça, classe e outros marcadores sociais.
Nosso percurso metodológico implica, assim, uma leitura atenta e questionadora da literatura existente, que, em vez de buscar respostas definitivas, se orienta por indagações que instigam reflexões profundas sobre as contradições do capitalismo e a forma como a “questão social” se manifesta nas vidas das mulheres3. Essa abordagem visa a identificar os tensionamentos e as possibilidades de construção de rumos que emergem da experiência concreta das mulheres no trabalho. Ao considerar a dimensão subjetiva do sofrimento psíquico, reconhecemos que este não é meramente um problema individual, mas uma manifestação das relações de poder desiguais e das violências vivenciadas no cotidiano. A partir de uma perspectiva interseccional, o objetivo é não apenas descrever a problemática, mas também contribuir para a elaboração de estratégias que promovam a equidade e a justiça social para todas as mulheres.
Trabalho e gênero
O trabalho, em sua dimensão ontológica, é atividade humana essencial, conectando-nos à natureza, aos outros e a nós mesmos. É potência criadora e emancipatória. Contudo, essa potência desvia-se sob a lógica da alienação, mercantilização e exploração. O debate, enraizado na crítica marxiana e lukacsiana, entende o trabalho como processo teleológico, direcionado pelo ser humano para apropriar-se da natureza de forma útil à vida.
O trabalho é um processo entre o homem e a natureza, no qual o homem põe em movimento suas próprias forças com o objetivo de apropriar-se da natureza de uma maneira útil à sua vida. O trabalho é, pois, por sua essência, um processo teleológico, isto é, determinado por um fim que o homem estabelece conscientemente (Lukács, 2015, p. 27)4.
Essa teleologia é afetada pela propriedade privada, que rompe a possibilidade da autorrealização humana. Instala-se, então, uma dissociação entre viver e produzir, gerando empobrecimento subjetivo e controle social.
É imperativo reconhecer que, à desfiguração do trabalho, soma-se uma história de divisão social, racial e sexual que reproduz desigualdades profundas5. A organização do trabalho jamais foi neutra, mas intrinsecamente atravessada por relações históricas de dominação, como o racismo, o colonialismo e o patriarcado.
No campo dos estudos críticos sobre o trabalho, é preciso tensionar a invisibilidade da categoria gênero. Embora a tradição marxiana seja incontornável para a compreensão ontológica do trabalho4,6,7, grande parte de suas formulações se construiu sobre um sujeito universalizado e abstrato. Essa universalização da classe trabalhadora, como alertam autoras feministas e decoloniais8,9, apaga as especificidades de gênero, raça, etnia e colonialidade que estruturam a divisão internacional e sexual do trabalho.
Assim, a crítica feminista interseccional, especialmente aquela que emerge de mulheres negras e do Sul Global, revela como a inserção das mulheres, e, em particular, das mulheres racializadas, no trabalho sempre esteve atrelada à sobreposição de funções produtivas e reprodutivas, à desvalorização de sua força de trabalho e à naturalização de sua exploração. Lélia Gonzalez9expõe como a categoria “doméstica” dissimula a herança colonial e racista da subalternização das mulheres negras. Angela Davis8 evidencia como o capitalismo incorporou o trabalho reprodutivo das mulheres negras sem o reconhecimento na economia formal. Essa perspectiva demonstra, portanto, que a crítica ao trabalho alienado precisa integrar a crítica ao racismo e ao patriarcado como tecnologias específicas de dominação e de produção da própria classe trabalhadora.
No Brasil contemporâneo, a configuração do mundo do trabalho reflete e aprofunda as desigualdades históricas de gênero e raça, herdeiras diretas da colonização, da escravidão e do patriarcado. Observamos que há uma subnotificação e subanálise dos dados em relação à empregabilidade e às condições de trabalho, especialmente pelas barreiras de monitoramento das informações em relação ao trabalho não formal, que correspondem à maioria dos postos de trabalho, atualmente. Para tanto, apresentamos um pequeno recorte, como recurso ilustrativo, dessa realidade: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, apenas 53,3% das pessoas do sexo feminino ocupavam cargos no mercado de trabalho, enquanto, para aquelas do sexo masculino, a proporção era 73,2%. Apenas um terço das pessoas do sexo feminino ocupavam cargos de liderança, e seus rendimentos eram inferiores. Sua remuneração média em cargos de liderança era de R$ 5.870,00 26,1% abaixo dos salários das pessoas do sexo masculino que ocupavam a mesma função (R$ 7.948,00)10.
Contudo, são as experiências concretas, como jornadas exaustivas e adoecimentos, que revelam a permanência de um projeto de sociedade que se alimenta da desigualdade. Nesse contexto, a precarização, que desestrutura direitos e garantias históricas, é paradoxalmente obscurecida por um discurso hegemônico que exalta inovação, diversidade e inclusão. Essas pautas, embora válidas, são instrumentalizadas para mascarar a ausência de mecanismos de proteção social e a exacerbação da exploração. A flexibilização do trabalho é muitas vezes apresentada como sinônimo de “liberdade” e “empreendedorismo”, um “novo arranjo” que, em vez de questionar a lógica da acumulação, a fortalece.
Para as mulheres, o cenário empresarial é ainda desigual. Conforme apresentado por Kergoat11, além da dupla ou tripla jornada, menores salários, maior participação em trabalhos precarizados e menos oportunidades de crescimento, elas são constantemente expostas a assédios e violências cotidianas. A violência de gênero ocorre “motivada pelas expressões de desigualdades baseadas na condição de sexo” (p. 294)12. No entanto, as ações violentas podem se entrelaçar com outras dimensões (raça, idade, classe) e
são produzidas em contextos e espaços relacionais e, portanto, interpessoais, com cenários sociais históricos não uniformes. A centralidade das ações violentas incide sobre a mulher, quer sejam estas violências físicas, sexuais, psicológicas, patrimoniais ou morais, tanto no âmbito privado-familiar como nos espaços de trabalho e públicos (p. 295)12.
Considerando os desafios estruturais vivenciados pelas mulheres no trabalho formal, este artigo aborda especificamente as violências simbólicas sofridas por mulheres nos espaços laborais, que se manifestam em falas, ações e tratamentos, formais e informais, desde a entrevista de emprego até a vivência diária. Frequentemente minimizadas como microagressões verbais, sutis e veladas, são de difícil identificação e combate, mas impactam negativamente a saúde mental das mulheres, gerando sofrimento.
Violência de gênero no trabalho: A dimensão simbólica e estrutural
Aqui, trabalhamos com uma análise da violência de gênero no trabalho que transcende a esfera individual, revelando-se como uma manifestação perversa das estruturas de poder que historicamente organizam o mundo social e produtivo. Longe de ser um evento isolado, a violência de gênero no trabalho é um sintoma eloquente de desigualdades incrustadas, que se perpetuam e se renovam em um cenário de precarização crescente e de discursos que, por vezes, a camuflam. Trata-se de uma violência que atravessa as dimensões material e simbólica do trabalho, impactando a subjetividade e a saúde de quem a vivencia13.
É no reconhecimento da precarização seletiva das condições de trabalho das mulheres, sobretudo das mulheres negras e pobres, que são historicamente destinadas a tarefas desvalorizadas, mal remuneradas e invisibilizadas, que compreendemos a violência de gênero no trabalho. Essa divisão sexual e racial do trabalho é estrutural ao modo de produção capitalista, que depende da naturalização da exploração de corpos femininos para garantir tanto a reprodução da força de trabalho (por meio do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado) quanto a extração de mais-valia em espaços formais e informais14.
Além disso, os processos de trabalho carregam dinâmicas simbólicas e disciplinares que reforçam o controle sobre os corpos das mulheres: assédio sexual, moral, imposição de padrões estéticos, hierarquização de funções segundo estereótipos de gênero, e silenciamento das denúncias. Essa violência atua simultaneamente como instrumento de controle da subjetividade e como obstáculo à emancipação feminina, constituindo uma forma de dominação que opera na materialidade e na interioridade15.
A perspectiva marxista feminista, como a desenvolvida por Tithi Bhattacharya e Laura Veríssimo16, reforça que a violência de gênero deve ser compreendida como elemento funcional à acumulação capitalista, especialmente no neoliberalismo, que intensifica a privatização da vida, a individualização da responsabilidade e a precarização do cuidado.
A violência de gênero no mundo do trabalho não se limita a agressões físicas ou sexuais. Ela assume formas múltiplas e sutis, operando nas estruturas e nas dinâmicas cotidianas do trabalho, com marcas profundas nas relações sociais de produção e reprodução. Desde a década de 1990, Heleieth Saffioti17 já denunciava que a violência de gênero deve ser entendida como uma relação social historicamente constituída, atravessada pela divisão sexual do trabalho e pelas hierarquias de gênero que produzem e reproduzem desigualdades.
Essa dinâmica evidencia a necessidade de uma análise interseccional. Vicente e Zimmermann18 demonstram como o pensamento marxista, articulado ao feminismo, pode oferecer instrumentos potentes para compreender as múltiplas opressões vividas por diferentes mulheres trabalhadoras, em condições singulares de trabalho. Essa lente analítica busca romper com o universalismo e afirmar a possibilidade de compreensão de dimensões objetivas e subjetivas, ao mesmo tempo. Segundo as autoras18, é fundamental observar como gênero e classe se imbricam nas formas de controle, exclusão e violência presentes nas relações laborais, desde a divisão sexual do trabalho até a institucionalização de desigualdades salariais e a invisibilização do sofrimento psíquico das mulheres.
Assim, compreender a violência de gênero no trabalho exige romper com visões reducionistas ou meramente jurídicas, incorporando uma perspectiva crítica, histórica e interseccional, capaz de reconhecer os efeitos materiais e subjetivos dessa violência nas trajetórias das mulheres e nas formas de organização do mundo do trabalho.
Assédio moral e as microagressões: A face velada da violência de gênero
Na estrutura desigual no mundo do trabalho, o assédio moral se configura como um dispositivo estruturante das relações de poder, especialmente quando cruzado com gênero e raça. Mulheres, particularmente mulheres negras, são alvos preferenciais de violências simbólicas e interpessoais, funcionando como mecanismos de disciplinamento, silenciamento e exclusão. O assédio moral é uma forma de violência em contextos assimétricos de poder, que reforça estruturas sociais historicamente opressoras13.
A análise das autoras Cristiane Andrade e Simone de Assis13, a partir de uma revisão crítica da literatura brasileira, revela que o assédio moral está profundamente imbricado em relações de gênero e raça, funcionando como modo de “colocar cada um no seu lugar” dentro da hierarquia social e organizacional. Elas enfatizam a dupla vulnerabilidade das mulheres negras, constantemente expostas a práticas que deslegitimam sua competência, questionam sua autoridade e anulam sua subjetividade.
Tais dinâmicas operam de forma velada, naturalizada e contínua, muitas vezes minimizadas como “piadas” ou “desentendimentos”, mas com efeitos devastadores na saúde mental, autoestima e permanência dessas mulheres no trabalho. O assédio moral é, portanto, instrumento de reprodução das desigualdades estruturais, sendo crucial reconhecê-lo como parte de um sistema que organiza o trabalho de forma racializada e generificada13.
A discussão sobre a violência de gênero no trabalho tem se concentrado em uma concepção de feminilidade alinhada a padrões hegemônicos, com ênfase no assédio e na importunação sexual, especialmente após a criminalização do assédio sexual pela Lei nº 10.224/2001. No entanto, Lima et al.19 ressaltam que a legislação atual não abarca plenamente as complexas relações de poder e de gênero vivenciadas pelas trabalhadoras, especialmente as “incivilidades”, comportamentos rudes de baixa intensidade que, embora não configurados como crime isoladamente, contribuem para um ambiente hostil e assedioso.
A pesquisa evidencia a necessidade de ampliar o debate, analisando as incivilidades dentro das violências de gênero no trabalho para uma compreensão mais precisa das dinâmicas do assédio19. Higa20 aponta que abordagens restritas ao assédio e à importunação sexual são limitadas, minimizando a complexidade das violências sofridas. Esse enquadramento, embora reconheça a importância de combater o assédio sexual21, pode ofuscar outras manifestações de violência estrutural e simbólica nas relações de poder laborais.
A partir de 2023 e 2024, a Controladoria Geral da União (CGU) e o governo federal vêm avançando em políticas e legislações que abordam o assédio de forma sistêmica. Com destaque para a Lei no 14.540/2023, que instituiu o “Programa de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Sexual e demais Crimes contra a Dignidade Sexual e à Violência Sexual” no âmbito da administração pública e o Decreto no 12.122/2024, que cria o Programa Federal de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação (PFPEAD)22.
Além disso, o Guia Lilás lançado pela CGU tem o objetivo de estabelecer diretrizes, princípios e responsabilidades, bem como definir os eixos de atuação e procedimentos, visando orientar, divulgar e implementar mecanismos de prevenção, acolhimento, tratamento e análise de relatos e denúncias referentes a casos de assédio moral, assédio sexual e a todas as formas de discriminação. É possível notar um avanço na forma como o assédio é abordado no guia, pois ele compreende todos os tipos de discriminação:
Reconhecemos que o assédio moral, o assédio sexual e todas as formas de discriminação, baseadas em raça, etnia, cor, sexo, identidade e expressão de gênero, orientação sexual, aparência física, idade, religião, deficiência, opinião política e origem econômica e social são inaceitáveis em qualquer circunstância (p. 6)23.
No entanto, ainda estamos longe de uma igualdade. Siqueira e Samparo24, ao observarem a trajetória das mulheres no mundo do trabalho, numa perspectiva do direito do trabalho, narram a incansável luta, em especial, ao considerarem a divisão do trabalho e a superexploração diante das tarefas domésticas subvalorizadas, configurando-se como formas de violência simbólica.
A discussão apontada oculta as determinações de raça na constituição da história, aportando ao debate das relações de gênero e ao trabalho numa perspectiva liberal, do feminismo branco que frequentemente falha em reconhecer a história e as especificidades da opressão das mulheres negras, apagando sua contínua luta e seu papel como trabalhadoras. O feminismo liberal universal, ao propor a luta por direitos e igualdade perante uma sociedade segregacionista, não se preocupou em agregar todas as mulheres, omitindo de suas reivindicações as opressões de raça e classe8.
É sob esse campo que Kimberlé Crenshaw25 afronta as estruturas institucionais e cristalizadas diante das análises sobre processos discriminatórios. A autora apresenta o conceito de interseccionalidade, problematizando a insuficiência das abordagens tradicionais que analisam a discriminação de raça e de gênero de forma isolada.
Crenshaw25 argumenta que as experiências de mulheres negras não podem ser enquadradas separadamente nas categorias de discriminação racial ou de gênero. Ela utiliza a metáfora da encruzilhada (“interseção”) para explicar que as “ruas” da discriminação racial e de gênero se cruzam, formando “sulcos profundos” de poder. As pessoas que estão no centro dessas interseções, frequentemente mulheres de pele mais escura, pobres e socialmente marginalizadas, são as que sofrem o impacto combinado e mais severo dessas discriminações.
A autora identifica três tipos de discriminação interseccional: a discriminação contra grupos específicos (que impacta diretamente mulheres na intersecção de raça e gênero); a mista ou composta (resultado da combinação de diferentes formas de discriminação); e a subordinação estrutural (onde o peso combinado das estruturas de raça, gênero, classe e globalização marginaliza mulheres na base socioeconômica).
Gonçalves e Brambilla3 problematizam o perigo de se conceber a igualdade como um caminho linear e dado, sem considerar suas contradições inerentes e a dimensão subjetiva que as perpassa. Argumenta-se que, embora a noção de igualdade seja fundamental para a afirmação dos direitos sociais, existem concepções distintas dela: a igualdade de saída (abstrata e liberal), que ignora as desigualdades estruturais, e a igualdade de chegada (concreta e social), que reconhece a necessidade de superação das assimetrias históricas. A desconsideração dessa complexidade pode levar à naturalização de violências, como as raciais e de gênero, e a um olhar superficial sobre a cidadania.
É sob esse prisma que pautamos a possibilidade de reivindicação da igualdade. Apesar dos progressos legislativos e das conquistas, os autores24 concluem que a discriminação, a distinção e o preconceito ainda persistem, com mulheres recebendo salários menores (em 2015, 77% do salário masculino globalmente, com previsão de igualdade salarial apenas para 2086 pela Organização Internacional do Trabalho – OIT26) e enfrentando mais desemprego. A divisão de gênero do trabalho ainda se manifesta na desproporção de mulheres em cargos de decisão e na expectativa de que as mulheres sejam as únicas responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados com a família.
A partir do tensionamento de Gonçalves e Brambilla3 e Davis8, coloca-se em xeque a leitura normativo-jurídica em relação à luta por direitos das mulheres por igualdade. Embora Siqueira e Samparo24apontem que o caminho para o enfrentamento às violências no trabalho seja a igualdade de gênero, os autores afirmam que essa luta não é apenas uma questão feminina, mas um problema social e um entrave à plena efetivação dos direitos humanos e trabalhistas.
Aqui partimos da análise da violência no trabalho no contexto das grandes organizações, em que a experiência das mulheres no campo do trabalho configura-se de forma complexa, permeada por desafios que vão além da mera ausência de legislação. Apesar dos avanços normativos e da presença feminina crescente nesses espaços, a vivência diária é frequentemente marcada por barreiras sutis e estruturais. A cultura organizacional, compreendida como uma trama de fragmentações e ambiguidades que, sob o manto de discursos de harmonia e pertencimento, opera como um dispositivo de poder para silenciar a pluralidade e a resistência dos sujeitos, nos leva à compreensão da força para reproduzir estereótipos de gênero e a divisão sexual do trabalho, direcionando mulheres para funções consideradas “femininas” ou subvalorizando suas contribuições. A essa realidade soma-se a constante necessidade de conciliar a vida profissional com as expectativas sociais de responsabilidade doméstica e familiar, gerando uma sobrecarga que, muitas vezes, leva ao silêncio frente a situações de discriminação, por medo de retaliações ou da invisibilidade19.
Essa articulação de leituras críticas sobre o campo do trabalho e as violências de gênero nos levam a Proni e Proni27, que realizaram uma crítica detalhada à eficácia dos instrumentos normativos trabalhistas e às iniciativas de promoção da equidade de gênero em grandes corporações brasileiras, sublinhando a ausência de uma leitura interseccional que permeie a aplicação e os resultados dessas políticas. As autoras argumentam que, apesar da significativa evolução legislativa, exemplificada pela universalização de direitos na Constituição Federal de 1988 e pela incorporação de importantes convenções da OIT que proíbem a discriminação e buscam a igualdade de remuneração e tratamento, tais avanços normativos revelam-se insuficientes para desmantelar as desigualdades estruturais.
Proni e Proni27 demonstram, por meio de dados empíricos, que existem barreiras substanciais para ascensão das mulheres a cargos de liderança. Elas apontam para a continuidade de um “hiato salarial” expressivo entre homens e mulheres que desempenham funções equivalentes ou possuem o mesmo nível de escolaridade, inclusive em posições de alto escalão. Essa disparidade salarial é, muitas vezes, “maquiada” pela subdivisão de cargos de liderança em níveis hierárquicos com remunerações distintas, em que as mulheres frequentemente ocupam os níveis de menor salário.
A crítica central das autoras reside na percepção de que, embora as grandes empresas busquem a conformidade legal e adotem um discurso enfático sobre diversidade em seus relatórios de sustentabilidade, essa adesão formal não se traduz em uma mudança cultural organizacional profunda.
Assim, busca-se uma leitura que apreenda a dimensão subjetiva da violência de gênero no trabalho, levando a um debate sobre as “microagressões”. O termo surgiu nos anos 1970, em estudos sobre o racismo, definido por Pierce (in apud Fernandes28) como “trocas sutis, atordoantes, muitas vezes automáticas e não verbais que se constituem em humilhações”. Os estudos evoluíram, abrangendo outros tipos de discriminação e novas classificações. As microagressões podem ser classificadas de três formas: microassaltos, microinsultos e microinvalidações29.
Os microassaltos são atitudes, crenças ou comportamentos conscientes, deliberados, sutis e explícitos a gênero, raça e sexo, geralmente verbalizados. Têm por foco o ataque intencional à identidade grupal de uma pessoa29.
Os microinsultos são formas de comunicação, interpessoais ou ambientais, que transmitem estereótipos, grosseria ou falta de sensibilidade em relação à identidade racial, de gênero ou sexual de alguém. Estão presentes em dinâmicas formais e informais, como em comentários de corredor, entrevistas, reuniões e avaliações de desempenho. Exemplos incluem falas como: “Mulheres são mais dramáticas”, “É bom ter mulheres no time, deixa o ambiente mais bonito”, “Mulheres são difíceis de se trabalhar”, “ela deve estar de TPM”. Em processos formais, interrupções ou o mansplaining (homem explicando algo condescendentemente para uma mulher) são frequentes. Outros exemplos: “Você tem filhos? Como pretende conciliar o trabalho?”, “Você é assertiva demais, precisa ser mais delicada”, “Você tem cara de nova, não passa credibilidade”, “Esse cargo é muito desafiador para uma mulher ocupar, você não teria espaço, ficaria frustrada”.
As microinvalidações são comunicações ou “pistas ambientais” que excluem, negam ou anulam pensamentos, sentimentos ou a realidade experienciada por certos grupos. Ocorrem de forma inconsciente e representam o tipo mais prejudicial das três microagressões por serem insidiosas e menos “claras”29. São identificáveis quando o assunto diversidade é pauta ou em situações de preconceito. É comum ouvir: “Aqui contratamos pela experiência e competência”, “É difícil achar mulheres com os requisitos necessários”, “Foi só uma piada, releva”, “Você está exagerando”.
A entrada de mulheres em setores como o de serviço ajuda a compreender as raízes dessas situações no cotidiano empresarial. Desde o início, a divisão do trabalho se deu pela segregação de cargos e funções, com atividades mais apropriadas para homens e outras para mulheres.
É preciso compreender que a inserção das mulheres foi estimulada pela erosão da base industrial e pela tendência às tecnologias da informação e dos serviços30. Seja nas relações cotidianas ou nas dinâmicas formais empresariais, há sempre sinais explícitos ou camuflados que deixam evidente qual é o “lugar delas”, insistindo em deixar claro que são espaços de e para homens e que sua participação tem condições e limites determinados. Além disso, destacamos a feminização de um conjunto de atividades e profissões, que são socialmente atribuídas ao trabalho de cuidado, como trabalho das mulheres31. O economista Marvin Harris, citado por Wolf, “descreveu as mulheres como mão de obra ‘dócil e instruída’, logo candidatas desejáveis aos empregos das áreas de informação e de atendimento a clientes, criadas pelas modernas indústrias de serviços”30(p. 47).
A autora acrescenta que as características valorizadas pelos empregadores e atribuídas às mulheres eram: amor-próprio reduzido, falta de ambição, alto nível de conformidade, maior respeito pelos homens (que são seus superiores). Atributos baseados em aspectos biológicos retiram as influências culturais e sociais e geram precarização e desqualificação dos cargos ocupados por mulheres.
Outro aspecto de diferenciação muito presente é a atribuição da beleza como um critério de seleção, principalmente em cargos de atendimento ao público. Tal atributo é considerado com mais ênfase para as profissionais femininas. Anúncios de vagas que exigiam beleza como requisito obrigatório, embora mais comuns no passado, ainda persistem. Ao longo dos tempos, é comum ouvirmos frases como “Contratam-se mulheres para atendimento ao público, jovens, de ‘boa aparência’ ou ‘com ótima apresentação’, e simpáticas”.
Constata-se que, embora as mulheres tenham conquistado mais direitos em relação a salários e cargos, a discriminação de gênero não foi eliminada. Pelo contrário, são submetidas diariamente às microagressões que invisibilizam suas trajetórias e identidades, as excluem do grupo principal e as colocam em lugares de opressão.
Considerações finais: Tecendo o comum em rumo à libertação do trabalho e da vida
A análise percorrida revelou que o trabalho, em sua essência ontológica, como potência teleológica e emancipatória, foi historicamente desfigurado sob o jugo da alienação, mercantilização e exploração capitalista. Essa desfiguração se aprofunda e se complexifica quando atravessada pelas categorias de gênero, raça e classe, evidenciando que a organização do trabalho nunca foi neutra, mas sim intrinsecamente tecida por relações de dominação herdadas do racismo, colonialismo e patriarcado. A invisibilidade da categoria gênero na crítica tradicional do trabalho é uma lacuna política e epistêmica que as epistemologias feministas antirracistas e decoloniais, como as de Lélia Gonzalez9, Angela Davis8 e Silvia Federici5, desvelam com urgência. Elas demonstram que o capitalismo se sustenta na expropriação de corpos racializados e feminizados, instrumentalizando o trabalho reprodutivo não pago e a superexploração em setores precarizados.
A violência de gênero no trabalho, longe de ser um fenômeno isolado ou pontual, emerge como uma manifestação estrutural das dinâmicas capitalistas neoliberais de poder e subordinação. O “dispositivo materno e amoroso”32é um farol teórico para compreender como a subjetividade feminina é instrumentalizada e distorcida, compelindo mulheres a uma “entrega total” de cuidado e afeto que não é remunerada nem reconhecida, gerando sofrimento e adoecimento psíquico em larga escala33,34. Essa violência se expressa não apenas em assédios explícitos, mas nas “microagressões” e “incivilidades” cotidianas19-29, que operam como mecanismos de disciplinamento, silenciamento e exclusão, especialmente para mulheres negras13.
Do ponto de vista teórico-metodológico, este ensaio crítico, fundamentado em uma perspectiva feminista interseccional, buscou desnaturalizar as desigualdades e as violências veladas que persistem no mundo do trabalho, mesmo sob discursos corporativos de “diversidade e inclusão”27. A leitura que se limita ao assédio sexual ou a uma concepção hegemônica de feminilidade é insuficiente para apreender a totalidade das violências estruturais e simbólicas19, que se articulam em camadas de opressão22. O problema não reside exclusivamente em chefias ou em homens que representam o poder, mas nas próprias engrenagens do sistema que perpetua a divisão sexual e racial do trabalho. São mecanismos de exclusão que perpassam toda a trajetória profissional das mulheres, os chamados “teto de cristal” ou “parede de cristal” que abarcam tais desigualdades estruturais, permanentes e de difícil reconhecimento35, além da desvalorização do trabalho de cuidado. Tais termos representam uma analogia, sendo o “teto de vidro” mais utilizado para falar das dificuldades de ascensão profissional no topo da hierarquia organizacional, pois “o vidro caracteriza-se como um sólido amorfo, solidifica-se rápido, e suas partículas perdem mobilidade antes de se ordenarem”30. Já os termos “teto de cristal” e “parede de cristal” representam as barreiras em todos os níveis da hierarquia, são mais sutis e diversas, estando relacionadas ao dia a dia, pois as partículas do cristal se combinam lentamente em formas regulares e estáveis35.
Diante desse cenário, a atuação crítica e o fundamento de uma organização social feminista interseccional apontam para um rumo de transformação radical. Para alcançar a libertação do trabalho, é fundamental desmantelar o capitalismo, o patriarcado e o racismo, indo além da simples denúncia para questionar as estruturas de dominação36. Isso significa reapropriar o trabalho como uma força criativa, e não como um fardo, por meio da coletivização e da valorização de todas as formas de trabalho que sustentam a vida37-39. A construção de novas formas de organização e processos de trabalho é essencial para superar a gestão neoliberal. É crucial adotar uma lente interseccional para entender as múltiplas opressões de gênero, raça e classe. Desracializar e desgenerificar o trabalho é imperativo para combater ativamente as segregações ocupacionais, promovendo a igualdade de oportunidades e de valorização para todas as pessoas.
Portanto, um trabalho sem violência de gênero não é uma questão de mudança individual ou de chefias, mas uma demanda intrínseca à construção de uma sociedade onde o cuidado e a vida são centralizados, e não o lucro e a dominação. Como afirma bell hooks40, a autossuficiência econômica é um passo, mas o verdadeiro caminho é discernir “qual trabalho é libertador”, e esse trabalho, seguramente, não violenta, mas emancipa.
Referências
- 1 Martineau H. Society in America. London: Routledge; 2017.
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para a elaboração do artigo.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.
Editado por
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Editoras responsáveis:
Andréia de Conto Garbin https://orcid.org/0000-0003-2787-7470 Universidade de São Paulo - USP Leila Posenato Garcia https://orcid.org/0000-0003-1146-2641 Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
