Open-access Periódicos brasileiros de turismo (2020-2024): descrição e caracterização de seu impacto e construção de rankings

Brazilian tourism journals (2020-2024): description and characterization of their impact and construction of rankings

Revistas brasileñas de turismo (2020-2024): descripción y caracterización de su impacto y construcción de rankings

Resumo

Trabalha-se com um estudo bibliométrico do tipo avaliativo. Seu corpus consiste em 24 periódicos brasileiros de turismo; o objeto de estudo são os artigos neles publicados, em 2020-2024, e suas citações. Há dois objetivos principais, a saber: i) avaliar a trajetória das citações; ii) avaliar e ordenar esses periódicos, segundo seu impacto (citações). Os materiais e métodos consistem na coleta, revisão e desambiguação manuais dos artigos e citações, estatística descritiva e cálculo dos índices H e G. Os resultados são comparados aos de 1990-2018, por meio de literatura. A Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo ocupa a primeira posição para todas as métricas e rankings, via de regra com resultados muito acima do periódico seguinte. A Revista Rosa dos Ventos destaca-se nas métricas e rankings baseados no conjunto de artigos mais citados para cada periódico, aproximando-se, neles, dos resultados da Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo. Complementam o primeiro quartil dos periódicos mais citados a Anais Brasileiros de Estudos Turísticos, PODIUM Sport, Leisure and Tourism Review, Turismo: Visão e Ação e Revista Acadêmica Observatório de Inovação do Turismo. Houve profundas mudanças nos rankings de impacto e nos índices H e G, em comparação com os resultados do período 1990-2018.

Palavras-chave
Turismo e ciência da informação; Produção científica; Periódicos; Impacto; Bibliometria

Abstract

This study presents an evaluative bibliometric analysis. Its corpus comprises 24 Brazilian tourism journals; the object of analysis consists of the articles published in these journals (2020-2024), and their citations. The study has two main objectives: (i) to assess citation trajectories and (ii) to evaluate and rank these journals according to their impact. Materials and methods include the manual collection, review, and disambiguation of articles and citations, descriptive statistics, and the calculation of the H and G indexes. The results are compared with those from the 1990–2018 period through a review of literature. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo ranks first across all metrics and rankings, generally with results far exceeding those of the second-ranked journal. Revista Rosa dos Ventos stands out in metrics and rankings based on the set of most-cited articles for each journal, approaching the results of Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo. Completing the first quartile of the most-cited journals are: Anais Brasileiros de Estudos Turísticos, PODIUM, Turismo: Visão e Ação, and Revista Acadêmica Observatório de Inovação do Turismo. Substantial changes are observed in impact rankings and in the H and G indexes when compared to the results from the 1990–2018 period.

Keywords
Tourism and information science; Scientific production; Journals; Impact; Bibliometrics

Resumen

Se presenta un estudio bibliométrico evaluativo. Su corpus está compuesto por 24 revistas brasileñas de turismo; el objeto de análisis son los artículos publicados (2020-2024), así como sus citas. El estudio tiene dos objetivos principales: (i) evaluar la trayectoria de las citas y (ii) evaluar y ordenar estas revistas según su impacto. Los materiales y métodos incluyen la recopilación, revisión y desambiguación manual de los artículos y las citas, estadística descriptiva y el cálculo de los índices H y G. Los resultados se comparan con los correspondientes al período 1990-2018. La Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo (RBTUR) ocupa la primera posición en todas las métricas y rankings, por lo general con resultados muy superiores a los de las otras revistas. La Revista Rosa dos Ventos se destaca en las métricas y rankings basados en el conjunto de los artículos más citados de cada revista, aproximándose a los resultados de la RBTUR. Completan el primer cuartil de las revistas más citadas Anais Brasileiros de Estudos Turísticos, PODIUM, Turismo: Visão e Ação y Revista Acadêmica Observatório de Inovação do Turismo. Se observan cambios profundos en los rankings de impacto y en los índices H y G en comparación con 1990-2018.

Palabras clave
Turismo y ciencias de la información; Producción científica; Revistas científicas; Impacto; Bibliometría

1 INTRODUÇÃO

O termo “bibliometria” foi criado por Alan Pritchard, em 1969, com o intuito de descrever o processo de registrar e contabilizar, quantitativamente, unidades de documentos publicados, como, por exemplo, livros, artigos, revistas científicas, citações (impacto) e referências bibliográficas (Pritchard, 1969; Berger & Baker, 2014).

A bibliometria reúne instrumental capaz de extrair e analisar um conjunto de dados, por meio de técnicas estatísticas, o qual compreende uma série de documentos bibliográficos e sua utilização. Ela permite calcular e medir propriedades de um conjunto de documentos bibliográficos, inclusive de artigos de periódico. Por meio da bibliometria, é possível analisar, quantitativamente, a produção científica de determinada ciência, disciplina ou campo de conhecimento, em pontos como, por exemplo, o impacto (citações) (Agarwal et al., 2016; Gössling et al., 2021; Ülker et al., 2023; Zupic & Cater, 2015).

Como bem resume Broadus (1987, p. 376, tradução nossa), a bibliometria é: “… o estudo quantitativo de unidades físicas publicadas, ou de unidades bibliográficas, ou de seus substitutos”.

Os estudos bibliométricos costumam ser divididos em dois tipos. Primeiro, há os estudos bibliométricos avaliativos, os quais se baseiam, eminentemente, na frequência e distribuição de determinado tipo de dado; por exemplo, o impacto de um conjunto de periódicos brasileiros de turismo, e como essas citações distribuem-se entre eles. Segundo, há os estudos bibliométricos relacionais, os quais estudam os relacionamentos existentes dentro de um conjunto de documentos. A pesquisa sobre a coautoria entre autores e instituições é muito presente nesse segundo tipo (Rickly, 2022; Ülker et al., 2023).

Segundo Bornmann e Daniel (2008), os estudos bibliométricos avaliativos baseiam-se no pressuposto de que os autores citam documentos, os quais foram importantes para sua pesquisa. Trata-se, destarte, do reconhecimento prestado a outros autores, cujas publicações foram importantes para a pesquisa em questão. Em resumo:

A ciência é uma economia da dádiva; o valor é definido como o grau em que as ideias de alguém contribuíram, livremente, para o conhecimento, e impactaram o pensamento dos outros. Dado que os autores usam citações para indicar quais publicações influenciaram sua pesquisa, o impacto científico pode ser medido em função das citações que uma publicação recebe. Buscando métricas quantitativas de impacto científico, administradores e formuladores de políticas têm, portanto, recorrido frequentemente a dados de citação. [itálico dos autores]

(Bollen et al., 2009, p. 1, tradução nossa)

Como apontam Roldan-Valadez et al. (2019), o impacto tem sido, crescentemente, utilizado por autores (escolha de periódico para submissão de artigo), instituições de ensino superior (contratação de docentes e pesquisadores) e agências de fomento (decisão de qual projeto apoiar). Se a citação reflete a avaliação recebida por um documento, por parte de um autor, uma instituição de ensino superior ou uma agência de fomento, quanto mais alto for seu impacto, mais alta é sua capacidade de despertar interesse e de ter algum tipo de utilidade, ceteris paribus.

As citações constituem-se em um conjunto de dados relevante para a medição do desempenho científico; dado que não necessitam da cooperação dos atores envolvidos – quem cita e quem é citado –, podem ser trabalhadas, objetivamente. Além disso, há já expressiva literatura que aponta, para o caso de autores, que o número de citações correlaciona-se, positivamente, com outras medidas de desempenho científico e acadêmico – prêmios, homenagens, evolução na carreira etc. (Bornmann & Daniel, 2008).

Segundo Brembs et al. (2013), a maior parte dos docentes e pesquisadores reconhece que há uma hierarquia de revistas científicas, a qual está relacionada com o impacto (citações). As estratégias de submissão de artigos científicos ligam-se à avaliação do peso dessa hierarquia. Concluem os autores que essa hierarquia – e os autores que conseguem publicar nos periódicos de mais alto impacto – formam não apenas a comunidade científica, mas também a posição da área de conhecimento na sociedade, de modo geral.

O valor absoluto de uma métrica não traz, per ipsum, uma informação relevante, no que concerne ao impacto de uma revista; é preciso comparar o resultado com o verificado para outros periódicos da mesma área de conhecimento (Bradshaw & Brook, 2016). Tomando o caso do turismo, Gössling et al. (2021) apontam que a quase totalidade de seus pesquisadores almeja submeter artigos para periódicos de alto impacto, de modo que seu trabalho receba mais citações.

O presente artigo resulta de um estudo bibliométrico do tipo avaliativo, o qual emula, em grande medida, os materiais e métodos de Köhler e Digiampietri (2020). Enquanto este constrói rankings de periódicos brasileiros de turismo, com base no impacto dos artigos publicados no período 1990-2018, a presente pesquisa contempla os artigos de 24 revistas científicas brasileiras de turismo, 2020-2024. Assim como Köhler e Digiampietri (2020), foram utilizadas métricas de impacto e híbridas, a fim de construir os rankings.

O corpus da pesquisa é o conjunto de periódicos brasileiros de turismo, no que concerne aos artigos publicados. Trabalha-se com os artigos de 24 periódicos, período 2020-2024.

O objeto de estudo consiste nas citações feitas a esse conjunto de artigos; elas formam a base para a construção dos diversos rankings. A seguir Köhler e Digiampietri (2020), trabalha-se, apenas, com os artigos publicados, sem contemplar outros tipos de produção – editoriais, entrevistas, balanços anuais, resenhas de livro etc.

Para a escolha dos periódicos, seguiram-se três dos quatro requisitos de Köhler e Digiampietri (2020). Primeiro, o periódico precisa ser publicado por uma instituição brasileira, e aderir ao sistema de dupla avaliação cega (double blind review) por pares para a avaliação de artigos. Isso restringe o corpus da pesquisa a revistas científicas que adotam critérios de avaliação de artigos amplamente aceitos pela comunidade acadêmica.

Segundo, em 06 de janeiro de 2025, o periódico precisava constar no Qualis Periódico, e estar classificado com, pelo menos, B4 (CLASSIFICAÇÕES DE PERIÓDICOS QUADRIÊNIO 2017-2020) na área de avaliação “Administração Pública e de Empresas, Ciências Contábeis e Turismo”.

Terceiro, na data supracitada, o periódico precisava estar ativo. Considerou-se como ativa toda e qualquer revista científica que tinha publicado, pelo menos, um artigo datado de 2024.

Köhler e Digiampietri (2020) contemplam, apenas, periódicos de turismo, os quais não incluem nenhuma outra área de conhecimento. Avalia-se, na presente pesquisa, que esse requisito é, indevidamente, restritivo; serve, apenas, para excluir numerosa produção de artigos de turismo, os quais passam pelos outros três critérios.

Desse modo, contemplaram-se dois tipos de periódico, a saber:

  1. periódicos de turismo, os quais não contemplam nenhuma outra área de conhecimento;

  2. revistas científicas que contemplam, também, o turismo, seja em seu nome e/ou como uma das áreas indicadas do periódico.

Com base nesses quatro requisitos, a presente pesquisa tem um corpus de 24 periódicos – oito a mais do que Köhler e Digiampietri (2020) –, a saber: i) Anais Brasileiros de Estudos Turísticos (ABET); ii) Applied Tourism (AT); iii) Revista Ateliê do Turismo (RAT); iv) Cenário: Revista Interdisciplinar em Turismo e Território (CEN); v) CULTUR – Revista de Cultura e Turismo (CULTUR); vi) Caderno Virtual de Turismo (CVT); vii) Revista Acadêmica Observatório de Inovação do Turismo (RAOIT); viii) Revista Latino-Americana de Turismologia (RELAT); ix) Marketing & Tourism Review (MTR); x) PODIUM Sport, Leisure and Tourism Review (PODIUM); xi) Revista Destarte (DEST); xii) Revista Brasileira de Ecoturismo (RBE); xiii) Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo (RBTUR); xiv) Revista Eletrônica Ciências da Administração e Turismo (RECAT); xv) Revista Reuna (REUNA); xvi) Revista Iberoamericana de Turismo (RITUR); xvii) Revista Turismo em Análise (RTA); xviii) Revista de Turismo Contemporâneo (RTC); xix) Revista Turismo: Estudos e Práticas (RTEP); xx) Turismo: Visão e Ação (TVA); xxi) Revista Rosa dos Ventos (RRV); xxii) Revista Eletrônica de Administração e Turismo (ReAT); xxiii) Revista Turismo & Cidades (TC); e xxiv) Turismo e Sociedade (TS).

Do corpus de Köhler e Digiampietri (2020), apenas o Caderno de Estudos e Pesquisas do Turismo não faz parte da presente pesquisa, por ter encerrado a publicação de artigos, em 2017. Dos nove periódicos contemplados na presente pesquisa, os quais não fazem parte do corpus supracitado, há o seguinte:

  1. periódicos de turismo, sem outra área de conhecimento – CEN, TC e RAT;

  2. periódicos que combinam o turismo com outras áreas – PODIUM, REUNA1, MTR, ReAT, RECAT e DEST.

Para cada periódico, foram coletados todos os artigos publicados entre 2020 e 2024, inclusive, com exceção de PODIUM, REUNA, MTR, ReAT, RECAT e DEST, para as quais foram selecionados, apenas, os artigos relacionados ao turismo. Para essa seleção, houve a leitura do título, resumo e palavras-chave de cada artigo publicado, com atenção a presença de temas, assuntos e descritores ligados ao turismo. A haver dúvida, foi feita uma leitura transversal do artigo, a fim de o classificar como de turismo ou o excluir da seleção.

Ao contrário de Köhler e Digiampietri (2020), optou-se por trabalhar com um período relativamente curto de tempo – apenas cinco anos. Isso segue a recomendação de DuBois e Reeb (2000), no sentido de evitar que periódicos mais longevos (por exemplo, a RTA) levem vantagem, ceteris paribus, sobre revistas científicas mais novas, em virtude de apresentarem artigos publicados, há várias décadas.

A Tabela 1 traz dados e informações básicos sobre os 24 periódicos supracitados – a periodicidade refere-se ao número de edições anuais lançadas pela revista científica:

Tabela 1
Periódicos brasileiros de turismo, dados e informações básicos

Os dados da Tabela 1 foram coletados nos sítios eletrônicos das revistas científicas. Das seis que combinam o turismo com outra área de conhecimento, predomina, em seu foco e escopo, a grande área “Ciências Sociais Aplicadas”, notadamente administração e marketing.

Assim como Köhler e Digiampietri (2020), a coleta das citações foi feita, por meio do Google Acadêmico (Google Scholar). A seção “3 MATERIAIS E MÉTODOS” descreve esse processo.

A pesquisa tem dois objetivos principais. Primeiro, busca-se traçar um panorama do impacto dos periódicos brasileiros de turismo, no período 2020-2024, mostrando sua trajetória, ano-a-ano, seus tipos de citação (artigo de periódico, livro, monografia [dissertação de mestrado ou tese de doutorado] etc.) e sua distribuição pelas revistas científicas selecionadas.

Segundo, cumpre medir e avaliar o impacto desses 24 periódicos, por meio de índices e métricas de impacto e híbridas. Isso é feito pela construção e análise de uma série de rankings, os quais apontam, isoladamente e em conjunto, quais são os periódicos com mais alto impacto – em outras palavras, permite saber qual é sua hierarquia, por meio das citações. Além disso, é possível verificar, periódico a periódico, qual é a composição (por tipo) das citações recebidas.

O artigo beneficia-se de ter emulado, em grande medida, os materiais e métodos de Köhler e Digiampietri (2020), logo podendo comparar os resultados dos dois períodos (1990-2018 e 2020-2024), além de atualizar a hierarquia de periódicos.

Justifica-se a presente pesquisa, por meio de dois pontos. Primeiro, os rankings de impacto têm utilização crescente na comunidade científica. A construção e análise de rankings de impacto dos periódicos brasileiros de turismo têm grande utilidade para autores (decisão de para qual revista científica submeter seu artigo), editores (avaliação do próprio periódico) e instituições (desempenho e decisão de quais veículos priorizar), dentre outros atores-chave. Os rankings geram métricas objetivas e quantificáveis, as quais fornecem subsídios para entender a hierarquia dos periódicos brasileiros de turismo.

Segundo, a pesquisa permite compreender a trajetória do impacto dos periódicos brasileiros de turismo, notadamente o lugar de cada um deles na hierarquia do campo de conhecimento e as mudanças ocorridas, tendo em vista os resultados do período 1990-2018.

A próxima seção traz a revisão de literatura. Ela é seguida pela seção de materiais e métodos. Segue-se a apresentação e discussão dos resultados da pesquisa. A seção de considerações finais faz um balanço e uma discussão final dos resultados da pesquisa. As referências bibliográficas encerram o presente trabalho.

2 REVISÃO DE LITERATURA

Segundo Tribe e Liburd (2016), os artigos de periódico – em conjunto com outros tipos de publicação, como, por exemplo, livros e trabalhos completos publicados em eventos técnico-científicos – formam o cânone acadêmico do campo de conhecimento de turismo.

Os periódicos formam parte relevante desse cânone, sendo considerados, por muitos pesquisadores, como os veículos mais importantes para a publicação dos resultados de uma pesquisa e disseminação do conhecimento gerado (Agarwal et al., 2016; McKercher, 2005; Hall, 2011; Gössling et al., 2021).

Tribe e Liburd (2016) colocam que o artigo de periódico permaneceu com sua estrutura inalterada, durante os últimos três séculos; segundo eles, trata-se de um caso de “poder das coisas” (power of things), dado que essa estrutura favorece um tipo de pesquisa, a qual é apropriada para a confecção de artigos científicos. Por mais que o turismo seja uma área aplicada, e que o resultado da pesquisa desse campo encontre outras formas de divulgação – há claro paralelismo com outras áreas aplicadas, a exemplo de Administração –, a revista científica ocupa lugar central na produção, distribuição e consumo do conhecimento (Tribe & Liburd, 2016; Tribe, 2010).

Agarwal et al. (2016, p. 296, tradução nossa) bem sintetizam o papel e utilidade dos periódicos:

O artigo científico revisado por pares serve como uma plataforma para disseminar os resultados de uma pesquisa científica, criando uma oportunidade para expor, publicamente, o trabalho, assim como para outros pesquisadores assimilarem o conhecimento publicado. A utilizar os resultados do estudo, outros pesquisadores podem validar, refutar ou modificar as hipóteses, dentro do desenvolvimento de sua própria pesquisa ou prática clínica.

Collini (20122, citado por Tribe & Liburd, 2016) aponta que os governos têm adotado a assim chamada “Santíssima Trindade do impacto, avaliação e financiamento” (Holy Trinity of impact, assessment and funding), a qual tem privilegiado pesquisas com aplicações práticas e competitividade entre as instituições que recebem financiamento e subsídios públicos. Desse modo, o impacto precisa ser medido, de modo que unidades de análise – instituições, periódicos, autores etc. – possam ser avaliadas e comparadas entre si.

Há duas teorias consolidadas do comportamento de citação; ambas fazem parte de teorias sociais mais amplas da ciência. A primeira delas é conhecida como a visão sócio construtivista do comportamento de citação (social constructivist view of citing behavior). Segundo ela, o conteúdo cognitivo e analítico de um documento bibliográfico tem pouca influência sobre como ele será recebido (inclusive citado) pela comunidade científica. O conhecimento científico é, socialmente, construído, por meio de recursos políticos e econômico-financeiros; em muitos casos, pesquisadores citam documentos, os quais são vistos como “autorizados” pela comunidade científica, sem considerar sua real contribuição para a pesquisa em questão (Bornmann & Daniel, 2008; Gilbert, 1977).

Segundo essa visão, o pesquisador prefere, ceteris paribus, citar documentos bibliográficos, cujos resultados apoiem a pesquisa feita, de preferência de autoria de indivíduos com amplo reconhecimento em sua área de conhecimento.

A segunda é a teoria normativa (normative theory) da citação. Seu pressuposto básico é o seguinte: “… [as] citações representam influência intelectual ou cognitiva sobre um trabalho científico” (Bornmann & Daniel, 2008, p. 48, tradução nossa). Desse modo, a citação representa o reconhecimento do documento em questão, no que concerne a sua importância para o tema, objeto de estudo e/ou materiais e métodos de pesquisa; ela reconhece o “débito intelectual” existente entre quem cita e quem é citado (Bornmann & Daniel, 2008; Merton, 1988).

Essa teoria reconhece que estudos bibliométricos avaliativos – como no que se constitui a presente pesquisa – são capazes e apropriados para medir a pesquisa científica (nesse caso, o impacto dos periódicos brasileiros de turismo, 2020-2024).

A avaliação de periódicos – e a consequente construção e análise de rankings – podem ser feitas, por meio de uma série de modos; há seis principais.

Primeiro, há a contagem de acessos virtuais e/ou descarregamento de arquivos; Köhler e Digiampietri (2020) utilizam o termo “hits” para descrever esse método. Segundo ele, quanto mais acessos e/ou descarregamentos, ceteris paribus, mais impacto terá o artigo em questão e, por consequência, a revista científica. Sua principal vantagem é prover resultados mais rápidos, dado que esse método independe do ciclo de citação do artigo. Sua principal desvantagem é que o hit não garante que o artigo foi útil para a pesquisa; na verdade, ele não chega nem sequer a garantir que o documento foi lido. Além disso, com a disponibilidade de repositórios institucionais e sistemas de arquivo e compartilhamento, essa contagem pode não retratar o real número de acessos e descarregamentos.

Segundo, há a utilização de um painel de especialistas, o qual é responsável pela avaliação da qualidade de um conjunto de documentos ou de revistas. Essa avaliação pode ser, inteiramente, própria, ou incluir, total ou parcialmente, a combinação de métricas e rankings externos. Os painéis de especialistas são utilizados por alguns governos nacionais, a fim de medir a qualidade dos periódicos de uma área e a necessidade e desejabilidade de publicação neles, por parte de pesquisadores.

Terceiro, há a avaliação por pares. Aqui, avalia-se um conjunto de revistas científicas, por meio da opinião de pesquisadores que atuam nessa área de conhecimento. Dado que eles são especialistas na área em que atuam, o método considera que são, portanto, capazes de avaliar a qualidade dos periódicos. Todavia, há várias críticas a esse método, no que concerne à influência de aspectos subjetivos e existência de manipulação de resultados, derivada do interesse e agenda de pesquisadores.

Quarto, há a contagem de citações. Trata-se de um método amplamente utilizado e aceito pela literatura, o qual tem base quantitativa – sendo, por isso, isento de aspectos qualitativos em seu cálculo –, e não depende da boa vontade e disponibilidade de participantes respondentes. O método pode contemplar, única e tão somente, o impacto, ou o combinar com outras métricas de produção e/ou centralidade.

Quinto, há a montagem de classificações derivadas de rankings já existentes, com a utilização de ponderação para se chegar a um resultado próprio.

Por fim, há a utilização de Altmetrics, método que combina a contagem de citações com métricas sociais e de reação no mundo virtual, como, por exemplo, curtidas em publicações feitas em redes sociais e menção em jornais e revistas (DuBois & Reeb, 2000; Bornmann & Daniel, 2008; Bollen et al., 2009; Hudson, 2013; Berger & Baker, 2014; Agarwal et al., 2016; Gössling et al., 2021).

Nas últimas décadas, o aumento da pesquisa e produção em turismo levou ao desenvolvimento e discussão de novas teorias, epistemologias, quadros conceituais e metodologias – alguns deles conflitantes entre si –, provenientes de várias áreas de conhecimento. Nos anos 1960, 1970 e 1980, parte relevante da teoria e base conceitual do turismo vieram de produções de fora desse campo, algumas das quais tinham pouco interesse sobre o turismo em si, caso de Boorstin (1992). Não por acaso, textos importantes para a discussão sobre o turismo foram publicados em periódicos de outras áreas, como, por exemplo, Forster (1964) (Rickly, 2022; Bispo, 2016).

Esse aumento da pesquisa e produção contribuiu para a consolidação de um campo de conhecimento, o qual é marcado pela fragmentação e polissemia, inclusive na maneira de definir o turismo e delimitar o campo. Para utilizar o termo criado por Tribe (2010), o campo de turismo é marcado por vários “tribos e territórios”, o que resulta na discussão e confronto entre diversas teorias e maneiras de o conceber (Tribe & Liburd, 2016; Bispo, 2016; Cohen & Cohen, 2012).

Os periódicos que publicam estudos de turismo podem ser divididos nos seguintes grupos:

  1. revistas científicas fora do campo de turismo, mas que publicam artigos sobre algum aspecto do turismo. Por exemplo, um periódico de marketing que publica artigos sobre marketing turístico. Segundo Tribe e Liburd (2016), há áreas que não costumam publicar em periódicos de turismo, mesmo quando trabalham com algum aspecto dele;

  2. revistas científicas que combinam o turismo com outras áreas de conhecimento, como, por exemplo, a ReAT;

  3. periódicos de turismo, nos quais todos os artigos versam sobre esse fenômeno.

Agarwal et al. (2016, p. 298, tradução nossa) sintetizam a base e utilidade do método de contagem de citações para a medição do impacto de uma unidade de análise:

A métrica de contagem de citações representa o número de citações recebido por um documento, e as mede para publicações individuais ou conjuntos de publicações. As contagens de citações são consideradas como um indicador do impacto e influência globais da pesquisa do autor; ou seja, o grau em que ela foi útil para outros pesquisadores. O número de citações recebido por um artigo científico pode depender de seu tema e qualidade da pesquisa. Com base nessa premissa, as citações têm sido usadas para medir e avaliar vários aspectos do trabalho acadêmico e produtos da pesquisa.

No caso de periódicos, a contagem de citações traz um problema na comparação do impacto, a saber: periódicos que publicam um número mais alto de artigos têm, ceteris paribus, certa vantagem sobre revistas científicas com baixa produção. Uma solução para esse problema é o cálculo da média de citações por artigo (DuBois & Reeb, 2000).

Alguns autores costumam empregar um ou mais “filtros”, a fim de refinar a média de citações por artigo. Köhler e Digiampietri (2020) distinguem entre as assim chamadas “citações nominais” e “citações reais”, sendo essas iguais a aquelas subtraídas de autocitações e erros e redundâncias presentes no Google Acadêmico. Köhler e Digiampietri (2020) tomam, como autocitação, a situação na qual há, pelo menos, um autor em comum entre o documento que cita e aquele que é citado.

No caso de DuBois e Reeb (2000), a classificação de uma citação como “autocitação” não guarda relação com a autoria dos documentos. A autocitação refere-se a: “… artigos que são citados em números subsequentes do mesmo periódico” (DuBois & Reeb, 2000, p. 690, tradução nossa). Isso tem respondido à crescente pressão para citar publicações do próprio periódico, muitas vezes presente, formalmente, durante o processo de submissão do artigo.

Há duas métricas híbridas, as quais combinam produção e impacto, que são muito utilizadas na literatura para a construção de rankings. A primeira é o Índice H (h-index). Para uma determinada unidade de análise (por exemplo, periódicos), o resultado do Índice H mede a quantidade de artigos que têm, cada um, um número igual ou mais alto de citações. Ou seja, o conjunto de artigos restantes têm, individualmente, um número de citações mais baixo do que o valor do Índice H (Hirsch, 2005). Trata-se de uma métrica bem aceita na literatura.

O Índice G (g-index) é uma variação do Índice H. O número do Índice G mostra que o conjunto de artigos mais citados de determinada unidade de análise (por exemplo, revistas científicas) têm um total de citações igual a esse número elevado ao quadrado (g²) (Egghe, 2006). O Índice G foi desenvolvido para solucionar o que é visto como uma deficiência do Índice H, a saber: a partir do momento em que determinado documento passa a fazer parte do cálculo do Índice H, é indiferente – para fins de cálculo – se ele continua ou não a receber citações (Roldan-Valadez et al., 2019).

O Índice G considera o desempenho particular dos documentos mais citados, mesmo quando eles foram já contemplados pelo índice. Como colocam Roldan-Valadez et al. (2019, p. 944, tradução nossa): “O Índice G elimina as desvantagens do Índice H, ao mesmo tempo em que mantém suas vantagens; ele considera tanto o número de documentos bem citados quanto seu desempenho geral de citações, ao longo de toda a existência do periódico”.

Contudo, é preciso ter em mente que as métricas de impacto e híbridas não podem ser utilizadas, indiscriminadamente, para avaliar a qualidade da pesquisa. É preciso considerar o contexto local, as diferenças existentes entre distintas áreas de conhecimento, as assimetrias linguísticas, as eventuais aplicações práticas e a relevância social (Hicks et al., 2015; Vessuri et al., 2014). As citações e métricas híbridas são úteis para verificar o impacto de unidades de análise – no caso da presente pesquisa, periódicos brasileiros de turismo (2020-2024), mas não podem ser interpretadas como a única forma de avaliação dessas revistas científicas.

3 MATERIAIS E MÉTODOS

Procurou-se emular, em grande medida, os materiais e métodos de Köhler e Digiampietri (2020), inclusive para conseguir comparar os resultados das duas pesquisas (1990-2018 e 2020-2024).

Reconhece-se a assimetria existente entre os dois períodos – 1990-2018 e 2020-2024 –, notadamente a diferença no tempo de maturação das citações. A comparação busca oferecer uma perspectiva evolutiva das citações dos periódicos brasileiros de turismo e da hierarquia (impacto) existente entre eles, frente à escassez de outros estudos prévios, os quais poderiam servir – caso existentes – como perspectiva comparada. Cumpre frisar que o tempo de maturação das citações é menor na presente pesquisa, frente ao período 1990-2018 trabalhado por Köhler e Digiampietri (2020).

A coleta, revisão e desambiguação dos dados coletados foram feitas, manualmente, para minimizar a incidência de erros e omissões.

A escolha de processos manuais de coleta, revisão e desambiguação foi feita para garantir a revisão dos erros e redundâncias presentes no Google Acadêmico, assim como para assegurar que a desambiguação evitasse problemas encontrados no uso dessa ferramenta. Por mais que tenha havido, nos últimos anos, o avanço de ferramentas automatizadas – casos do VOSviewer e do Bibliometrix – e do uso de inteligência artificial generativa, os processos manuais são mais indicados para a presente pesquisa, dado que muitos periódicos brasileiros de turismo não fazem parte de bases de dados importantes, além de apresentarem inconsistências de metadados.

Para 18 dos 24 periódicos do corpus da pesquisa, foram coletados todos os artigos publicados no período 2020-2024, por meio do descarregamento manual de arquivos .PDF em seu sítio eletrônico. Para a PODIUM, REUNA, MTR, ReAT, RECAT e DEST, essa etapa foi precedida pela leitura, para cada artigo, de seu título, resumo e palavras-chave. Foram selecionados, apenas, os artigos avaliados como de turismo.

De posse desse conjunto de artigos, colocaram-se o título e nome do periódico no Google Acadêmico. A entrada no link “Citado por ___” traz o número de citações, assim como a lista dos documentos que citam. Essa lista constitui-se na base para a coleta de citações.

A escolha pelo Google Acadêmico liga-se a três pontos principais, a saber:

  1. trata-se da base utilizada por Köhler e Digiampietri (2020);

  2. muitos dos periódicos constantes do corpus da pesquisa não são contemplados por bases consolidadas, como, por exemplo, Scopus e Web of Science;

  3. o Google Acadêmico contempla uma ampla variedade de tipos de citação, não apenas aquelas derivadas de artigos de periódico.

Há vários autores que defendem o uso do Google Acadêmico para a medição do impacto (Agarwal et al., 2016; Jamal et al., 2008; McKercher, 2008; Hall, 2011). Isso não impede que haja críticas ao Google Acadêmico, como, por exemplo, a duplicação de entradas – a mesma citação é contabilizada mais de uma vez – e a presença de erros e inconsistências (Garrigos-Simon et al., 2019).

Em virtude disso, foram aplicados os filtros previstos por Köhler e Digiampietri (2020) no cômputo das citações, a saber:

  1. autocitação (autoria): quando há, pelo menos, um autor em comum entre o trabalho que cita e o que é citado;

  2. erro: não existe a citação apontada pelo Google Acadêmico. O documento bibliográfico não faz tal citação ou inexiste;

  3. redundância: a citação existe, mas ela tinha sido já contabilizada pelo Google Acadêmico, em entrada anterior.

Foi feito, também, um filtro adicional. Foram consideradas as citações de artigos provenientes da mesma revista científica como autocitações (mesmo periódico), a seguir DuBois e Reeb (2000) para a criação de um fator de impacto ajustado.

Isso permite o trabalho com três conjuntos de citações, a saber: i) citações nominais: número indicado pelo Google Acadêmico; ii) citações reais: citações nominais subtraídas das autocitações (autoria) e dos erros e redundâncias; e iii) citações reais ajustadas: citações reais subtraídas das autocitações (mesmo periódico). Köhler e Digiampietri (2020) não calculam as citações reais ajustadas; trata-se de um passo além de o que foi feito nesse artigo.

Assim como Köhler e Digiampietri (2020), as citações foram organizadas considerando as seguintes informações:

  1. tipo de documento que cita: artigo de periódico (turismo), artigo de periódico (outros), livro, capítulo de livro, monografia de conclusão de curso (dissertação de mestrado ou tese de doutorado), comunicação (trabalho completo publicado em anais de evento técnico-científico) e outros;

  2. título do documento;

  3. nome do periódico (se aplicável);

  4. nome do livro (se aplicável);

  5. nome dos autores;

  6. ano de publicação do documento.

O presente artigo deriva de uma pesquisa abrangente sobre os periódicos brasileiros de turismo. A coleta das citações foi feita nos meses de abril, maio e junho de 2025. Na primeira quinzena de junho de 2025, houve a revisão dos dados coletados no Google Acadêmico, de modo a evitar que um periódico específico beneficiasse-se, em relação aos demais, por ter sido o último a ser coletado. A coleta foi finalizada em 16 de junho de 2025. Após essa data, nenhum novo dado foi coletado.

Além da contagem de citações, foram calculadas duas métricas híbridas, a saber: a) Índice H; e b) Índice G.

4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

No período 2020-2024, os 24 periódicos publicaram 2.397 artigos, os quais tiveram 6.933 citações nominais (média de 2,89 por artigo). A revisão das citações coletadas revelou que, desse total, há 1.051 erros e redundâncias e 613 autocitações (autoria). Isso faz com que esse conjunto de artigos tenha 5.269 citações reais (média de 2,2 por artigo).

Por fim, verifica-se que, após a contagem das citações reais, há 389 autocitações (mesmo periódico). Isso faz com que o conjunto de artigos tenha 4.880 citações reais ajustadas (média de 2,04 por artigo).

A Tabela 2 apresenta, para cada periódico e para o total, o número de artigos, citações nominais, citações reais e citações reais ajustadas, assim como os erros e redundâncias (na coluna, “erros”), autocitações (autoria) e autocitações (mesmo periódico). Para as citações nominais e reais ajustadas, há o cálculo da média por artigo; para as citações reais, estão calculadas a mediana e média por artigo. As revistas científicas estão ordenadas, em ordem decrescente, segundo essa última métrica. Segue, abaixo, a Tabela 2:

Tabela 2
Citações nominais, reais e reais ajustadas, autocitações (autoria e mesmo periódico) e erros, em número absoluto, média e mediana

A Tabela 3 serve como complemento à Tabela 2, ao colocar os artigos (número absoluto e porcentagem) sem nenhuma citação (real e real ajustada). Segue, abaixo, a Tabela 3:

Tabela 3
Artigos sem nenhuma citação (real e real ajustada), em número absoluto e porcentagem

Para 1990-2018, Köhler e Digiampietri (2020) dividem os 16 periódicos em quatro grupos. Primeiro, há o assim chamado “pelotão de frente”, composto pela RTA, TVA, CVT e RBTUR, cujas métricas destacavam-se do conjunto. A RTA possuía os mais altos resultados, ocupando a primeira posição em quase todas as métricas, ao passo que a RBTUR era a com mais fraco desempenho desse grupo.

Segundo, havia a CULTUR, a qual formava, isoladamente, um patamar intermediário, tendo métricas acima do restante das revistas científicas, mas abaixo do “pelotão de frente”. Sua trajetória não apontava a tendência de se juntar ao “pelotão de frente”, indicando que continuaria nesse patamar intermediário.

Terceiro, Köhler e Digiampietri (2020) apontam, verificando sua trajetória, que a RBE e a RRV podiam entrar, em momento futuro, nesse patamar intermediário.

Por fim, havia os outros nove periódicos, cujas métricas indicavam um impacto avaliado como muito baixo.

Os resultados da presente pesquisa mostram que houve grandes mudanças na hierarquia dos periódicos brasileiros de turismo, no que concerne ao impacto dos artigos publicados no período 2020-2024. Há, apenas, um periódico que se destaca, no que concerne aos resultados, dos demais, nos diversos rankings e métricas calculadas na presente pesquisa – trata-se da RBTUR. As únicas exceções a esse quadro é o número de artigos no primeiro centil dentre os mais citados e o Índice G (citações reais e citações reais ajustadas); nessas métricas, os resultados da RBTUR estão próximos dos verificados para a RRV.

Para expor o destaque da RBTUR, tome-se três métricas importantes, a saber: i) média de citações reais por artigo; ii) mediana de citações reais por artigo; e iii) média de citações reais ajustadas por artigo. Para a primeira, o resultado da RBTUR (7,05) é 97,5% mais alto do que o da segunda colocada, a ABET (3,57). Na mediana de citações reais por artigo, trata-se do único periódico com resultado igual a três; 21 das 24 revistas científicas têm resultado igual ou abaixo de um. Por fim, acerca da média de citações reais ajustadas por artigo, a RBTUR (6,62) tem resultado 114,24% mais alto do que o da PODIUM (3,09), a qual ocupa a segunda colocação nesse ranking.

Ao tomar os rankings de média de citações reais por artigo e de citações reais ajustadas por artigo, não se pode falar, à moda de Köhler e Digiampietri (2020), da existência de um “pelotão de frente” nem sequer de um patamar intermediário. Após o primeiro lugar da RBTUR, em ambos os rankings, é, sempre, pequena a diferença que separa os periódicos, posição a posição. Na média de citações reais por artigo, a mais alta diferença ocorre entre a ABET e PODIUM, no valor de 0,45. Já na média de citações reais ajustadas, a mais alta diferença existe entre a CULTUR e RECAT, com valor igual a 0,34.

Desse modo, trabalha-se com a divisão dos periódicos em quartis; no ranking de média de citações reais por artigo, há o seguinte:

  1. primeiro: RBTUR, ABET, PODIUM, TVA, RRV e RAOIT;

  2. segundo: RTA, REUNA, CVT, RBE, RELAT e MTR;

  3. terceiro: CEN, RTC, RITUR, ReAT, RAT e TS;

  4. quarto: RTEP, TC, CULTUR, RECAT, AT e DEST.

Tomando Köhler e Digiampietri (2020) como perspectiva comparada, há análises que permitem verificar a trajetória recente do impacto dos periódicos brasileiros de turismo. Primeiro, do antigo “pelotão de frente”, dois periódicos encontram-se no primeiro quartil, ao passo que a RTA e CVT estão no segundo. Chama a atenção a RTA encontrar-se na sétima posição, dado seu destaque no período 1990-2018; há nítida perda de impacto e relevância dentro do campo. É, também, inesperado o nono lugar do CVT.

No primeiro quartil, chamam a atenção as posições da ABET e RAOIT, as quais apresentaram muito baixo impacto para 1990-2018. O segundo periódico tem publicado alguns números com certo atraso, o que leva ao questionamento de como teria sido seu desempenho, se, e somente se, sua publicação contasse com mais regularidade.

Para fechar a análise do primeiro quartil, a RRV tem resultados singulares. Na média de citações reais por artigo, ela está na quinta posição, com 2,65. Contudo, sua mediana de citações reais por artigo é zero, resultado comum para os periódicos do terceiro e quarto quartis. A RRV é a única revista científica que combina dois pontos, a saber: i) um conjunto de artigos muito citados, o que explica seu bom desempenho no Índice H e no Índice G, como será visto, adiante; e ii) mais da metade dos artigos sem ter nenhuma citação real.

Acerca dos outros quartis, há dois pontos. Primeiro, a CULTUR saiu do patamar intermediário para o quarto quartil; ela está acima, apenas, da AT, a qual publica artigos de natureza aplicada, e de revistas científicas que combinam o turismo com outras áreas de conhecimento (RECAT e DEST).

Segundo, as revistas científicas que combinam o turismo com outras áreas de conhecimento distribuem-se pelos quatro quartis – primeiro (PODIUM), segundo (REUNA e MTR), terceiro (ReAT) e quarto (RECAT e DEST). Por esse quadro, não é possível afirmar que elas levam desvantagem sobre os periódicos exclusivos de turismo, ceteris paribus, no que concerne ao impacto. A PODIUM ocupa a terceira posição (média de citações reais por artigo) e o segundo lugar (média de citações reais ajustadas por artigo).

Para os rankings, a mudança de média de citações reais por artigo para média de citações reais ajustadas por artigo pouco muda os resultados. No primeiro quartil, a PODIUM troca de posição com a ABET, fruto da mais alta dependência, por parte da última, de citações provenientes de artigos publicados na mesma revista, principalmente entre aqueles mais citados (com reflexo em seu Índice G, como será visto). A outra mudança de destaque ocorre com a CEN, ao sair do terceiro para o segundo quartil, e com a RBE (do segundo para o terceiro).

Ou seja, as citações reais e as citações reais ajustadas produzem rankings muito parecidos entre si. As citações provenientes de artigos da mesma revista não conseguem melhorar muito a posição dos periódicos sob análise, com duas exceções. A RBE tem queda expressiva no ranking; de suas 336 citações reais, 88 são autocitações (mesmo periódico) – 26,19% do total. Já a ABET tem o mais alto número de autocitações (mesmo periódico), com 96 (21,15%). Mesmo assim, isso faz com que que ela perca, apenas, uma posição, mantendo-se no primeiro quartil do ranking baseado na média de citações reais ajustadas por artigo.

Para 15 dos 24 periódicos, mais da metade dos artigos não têm nenhuma citação real, resultado que ultrapassa os dois terços para quatro deles – RECAT (71,43%), TC (71,43%), AT (79,07%) e DEST (87,5%). A comparação com os resultados de Köhler e Digiampietri (2020) é pouco auspiciosa, dado que muitos artigos da presente pesquisa tiveram pouco tempo para serem citados – aqueles publicados em 2023 e 2024.

Há três revistas científicas que chamam a atenção. A RBTUR e TVA têm baixas porcentagens, comparadas às verificadas para os outros periódicos. Isso condiz com sua posição nos rankings baseados na média de citações (reais e reais ajustadas). Já a RRV tem 51,49% (reais) e 51,82% (reais ajustadas) de seus artigos sem nenhuma citação. Ou seja, sua alta posição nos rankings criados, anteriormente, depende de um reduzido conjunto de artigos, os quais são muito citados. Isso será visto, adiante.

Para esse tipo de métrica, não há muita diferença (nos resultados) em utilizar citações reais ou citações reais ajustadas. O periódico com mudança mais expressiva é a RBE, cuja porcentagem de artigos sem nenhuma citação passa de 43,37% (citações reais) para 50% (citações reais ajustadas). Dado que o periódico é centrado no ecoturismo, pode ser que isso explique esse aumento.

Para os próximos rankings, utiliza-se, apenas, a média de citações reais por artigo. Isso permite análises que mostram a hierarquia dos periódicos brasileiros de turismo, no que concerne ao impacto, a respeitar o limite de palavras da RBTUR. Nesses rankings, a utilização da média de citações reais ajustadas por artigo não traz contribuições significativas à análise, em relação às citações reais. A Tabela 4 traz os rankings para artigos de periódico, artigos de periódico (turismo), artigos de periódico (outros) e monografias de conclusão de curso (dissertação de mestrado ou tese de doutorado). As revistas científicas estão ordenadas, de modo decrescente, com base nos artigos de periódico. Segue, abaixo, a Tabela 4:

Tabela 4
Citações reais, em número absoluto e média, por tipo

Os resultados mostram que, de modo geral, os rankings por tipo (média de citações reais por artigo) acompanham aqueles baseados no conjunto total de citações reais. O que mais chama a atenção são as baixas médias registradas para o tipo “Monografia de conclusão de curso (dissertação de mestrado ou tese de doutorado)” para a REUNA, ABET e RELAT. As duas últimas são editadas pela Universidade Federal de Juiz de Fora, a qual não conta com programa de pós-graduação stricto sensu em turismo. Em todo caso, os materiais e métodos não fornecem elementos que permitam a devida compreensão desses casos específicos.

As 3.412 citações feitas por artigos provêm de 1.094 revistas científicas, das quais 743 têm uma citação (cada). A Tabela 5 traz a lista dos periódicos cujas citações respondem, conjuntamente, por metade (com arredondamento) dessas 3.412 citações:

Tabela 5
Periódicos que mais citam o conjunto de artigos da presente pesquisa, em número absoluto de citações, porcentagem sobre o total e porcentagem acumulada

A comparação com os resultados de Köhler e Digiampietri (2020) permite verificar as mudanças ocorridas nos últimos anos. Para 1990-2018, eram necessários 19 periódicos para se alcançar 50,21% do total de citações. Para 2020-2024, são necessários 40 periódicos – mais do que o dobro – para se ter 50,35% desse total, o que mostra uma desconcentração da citação, pelo menos entre as revistas científicas que mais citam.

Desses 40 periódicos (2020-2024), 18 fazem parte do corpus da pesquisa; sete são de turismo (fora do corpus) e 15 de outras áreas de conhecimento. Trata-se de um resultado positivo, pois, para 1990-2018, 18 dos 19 periódicos eram de turismo – a exceção era a Revista Espacios. Isso indica que há revistas científicas de outras áreas de conhecimento, os quais têm citado, nos últimos anos, artigos publicados em periódicos brasileiros de turismo.

Contudo, a principal fonte de citações continua a ser os próprios periódicos do corpus. Nas 10 primeiras posições, há, apenas, um periódico de fora desse corpus, a PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, na décima posição. O periódico de outra área de conhecimento responsável por mais citações é a Research, Society and Development, na décima-quarta posição (39 citações).

Ou seja, por mais que tenha havido uma desconcentração da citação e mais alta presença de periódicos de outras áreas de conhecimento, em relação ao período 1990-2018, as citações provenientes de revistas científicas dependem, sobremaneira, dos próprios periódicos brasileiros de turismo constantes do corpus da pesquisa.

Dos 40 periódicos, 34 são brasileiros e seis publicados no exterior, mais precisamente na Espanha (dois), Suíça (um), México (um) e Turquia (um), além da Current Issues in Tourism, publicada pela Taylor & Francis.

Assim como foi verificado por Köhler e Digiampietri (2020), percebe-se, para 2020-2024, que a maior parte dos periódicos cumpre dois pontos. Primeiro, eles são de turismo; a literatura aponta que, mesmo para os principais periódicos internacionais, as revistas de turismo dependem do próprio campo, no que concerne ao impacto, sendo pouco citadas por outras áreas de conhecimento (Law et al., 2009). Segundo, aceitam submissões de artigos escritos em português – mesmo no caso de alguns periódicos estrangeiros –, o que facilita esses artigos serem de autoria de pesquisadores brasileiros.

A Tabela 6 traz a matriz de citações entre os 24 periódicos sob análise. Nas linhas, estão listados os periódicos que foram citados; nas colunas, encontram-se aqueles que citam. As células hachuradas de cinza indicam as autocitações (mesmo periódico). Segue, abaixo, a Tabela 6:

Tabela 6
Matriz de citações, periódicos brasileiros de turismo, números absolutos

Mais uma vez, a RBTUR destaca-se, no que concerne às citações recebidas – notadamente da CEN, MTR, RTA, TVA e RRV – e citações de outras revistas do corpus – os números mais expressivos ficam com a RRV e TVA, ambas do primeiro quartil (rankings de média de citações por artigo, reais e reais ajustadas).

Após a RBTUR, a revista científica mais citada na matriz – número de citações, para o periódico, igual ou mais alto do que sete – é a ABET, com quatro periódicos (RELAT [24 citações], TVA [11], RBTUR [sete] e RRV [nove]). Tem-se como destaque, mais uma vez, um periódico do primeiro quartil, nos rankings supracitados.

Do outro lado, há várias revistas científicas que pouco citam e são, raramente, citadas. O caso mais emblemático disso é a DEST, a qual não cita nem sequer é citada por nenhum outro periódico da matriz. Outro caso é a RECAT, a qual não chega a ser citada; ela cita, apenas, a MTR (uma citação).

As tabelas 7 e 8 trabalham com as citações reais recebidas pelos artigos. A Tabela 7 traz a média de citações reais por artigo, de acordo com o ano de publicação do artigo citado. A Tabela 8 traz o número absoluto de citações para cada periódico, segundo o ano de publicação do documento bibliográfico citante. Seguem, abaixo, as tabelas 7 e 8:

Tabela 7
Média de citações reais por artigo, segundo o ano de publicação do artigo citado, 2020-2024
Tabela 8
Citações reais, número absoluto, segundo o ano de publicação do documento citante, 2020-2025

Dado o mais curto horizonte temporal, as tabelas 7 e 8 não permitem uma análise tão aprofundada quanto a similar feita por Köhler e Digiampietri (2020), os quais trabalham com um período de 39 anos. A Tabela 7 mostra que, para 2020, 2021, 2022 e 2023, a RBTUR tem as mais altas médias de citações reais; para 2024, a liderança fica com a RTA.

No caso do total de citações recebidas, a RBTUR fica em primeiro lugar, para 2021, 2022, 2023, 2024 e 2025, tomando-se como base o documento citante; em 2020, o primeiro lugar fica com a RRV.

A Tabela 7 mostra uma clara tendência de queda da média de citações reais por artigo, para todos os periódicos, até se chegar a números muito baixos em 2024. Isso era esperado; quanto mais recente for o artigo, menos tempo houve para ele ser citado. Na Tabela 8, inverte-se a tendência, havendo crescimento do número de citações reais, de 2020 a 2024. Os documentos publicados em anos mais recentes têm um mais alto número de artigos para citar, inclusive os do período 2020-2024. Há queda em 2025; isso se deve, provavelmente, ao fato de a coleta de citações ter sido encerrada em 16 de junho de 2025.

Cumpre, agora, ordenar os periódicos, por meio de métricas híbridas. A Tabela 9 traz os rankings dos 24 periódicos, por meio do cálculo do Índice H (citações reais e citações reais ajustadas). Já a Tabela 10 traz, de modo similar, os rankings para o Índice G. Seguem, abaixo, as tabelas 9 e 10:

Tabela 9
Índice H, citações reais e citações reais ajustadas
Tabela 10
Índice G, citações reais e citações reais ajustadas

No Índice H (citações reais), destaca-se, novamente, a RBTUR, com resultados muito mais altos do que a segunda colocada, a ABET (citações reais) e RRV (citações reais ajustadas). Elas são seguidas, nos dois casos, pela TVA e CVT; os quatro periódicos pertencem ao primeiro quartil dos rankings baseados na média de citações por artigo (reais e reais ajustadas). O ranking do Índice H (citações reais ajustadas) não muda muito o quadro, tanto nos valores quanto na posição dos periódicos. A mudança mais significativa é a troca de posições entre a ABET e RRV.

No Índice G, chama a atenção o aumento do resultado para alguns periódicos, em relação ao Índice H. O periódico com mais alto aumento é a RRV – seu Índice G é o dobro do Índice H, tanto para citações reais quanto para citações reais ajustadas –, o que indica que, no topo, seus artigos com mais impacto são muito citados. Os dois índices G (citações reais e citações reais ajustadas) são as duas primeiras métricas nas quais a RBTUR não aparece com resultados muito acima dos verificados para o segundo colocado, no caso a RRV.

Isso nos leva à última métrica da pesquisa, a qual explica a singularidade da RRV, assim como parte do excelente desempenho da RBTUR.

Ao calcular o conjunto de artigos que forma o primeiro centil dentre os mais citados, Köhler e Digiampietri (2020) apresentam os resultados para citações reais totais e por tipo de citação (real). Dado que se trata de identificar em quais periódicos estão os artigos de mais alto impacto, avalia-se que as métricas por tipo pouco agregam aos objetivos da presente pesquisa. Logo, calcula-se o primeiro centil para as citações reais; indo além de Köhler e Digiampietri (2020), calculou-se, também, o resultado para as citações reais ajustadas.

Para as citações reais, o primeiro centil é formado por 25 artigos, dados arredondamento e empate na última posição. A RBTUR tem oito artigos, seguida pela RRV, com sete; 60% do primeiro centil são formados por esses dois periódicos. Seguem-se a ABET (três) e CVT (dois). A RAT, CEN, RAOIT, PODIUM e TVA têm, cada uma, um artigo no primeiro centil. Ou seja, 15 dos 24 periódicos não têm nenhum artigo, dentre os mais citados.

Ao verificar o primeiro centil, as sete primeiras posições são de artigos da RBTUR (quatro) e RRV (três). O artigo mais citado foi publicado na RRV, tem 93 citações reais, e trata sobre a COVID-19 (Beni, 2020). É de autoria de um pesquisador firmemente estabelecido no campo de turismo no Brasil, Mario Carlos Beni.

A segunda colocação fica com um artigo da RBTUR, o qual conta com 84 citações reais. Faz um abrangente balanço da situação atual e das perspectivas do turismo no Brasil (Rabahy, 2020). É, também, de autoria de um docente com larga experiência no campo, Wilson Abrahão Rabahy.

A construção do primeiro centil com base nas citações reais ajustadas traz um quadro quase igual – artigos e posições – ao verificado para o caso das citações reais, com uma única exceção, a saber: dado que não há empate na última posição, o primeiro centil tem, apenas, 24 artigos, a excluir a única publicação da TVA desse conjunto.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa descreve e analisa o impacto de um conjunto de 24 periódicos brasileiros de turismo, por meio das citações feitas aos 2.397 artigos publicados, no período 2020-2024, assim como constrói rankings para ordenar essas revistas científicas, com base em seu impacto.

Por meio de coleta, revisão e desambiguação manuais, chegaram-se a 6.933 citações nominais, 5.269 citações reais e 4.880 citações reais ajustadas. Percebe-se, dessa forma, a importância de processos manuais nos materiais e métodos da pesquisa, a fim de detectar e compreender o verdadeiro impacto (citações) dos periódicos supracitados. Conseguiu-se “filtrar”1.051 erros e redundâncias, além de classificar 613 citações como autocitações (autoria) e, adicionalmente, 389 como autocitações (mesma revista científica).

Em comparação com os resultados de Köhler e Digiampietri (2020), houve mudanças relevantes na hierarquia (impacto) dos periódicos. Não é mais possível falar de um “pelotão de frente” nem sequer de um patamar intermediário, tampouco apontar revistas científicas como aspirantes a esse patamar. Para todas as métricas e rankings criados, a RBTUR ocupa a primeira posição; via de regra, com resultados muito acima do periódico na segunda colocação.

Após a RBTUR, da segunda à vigésima-quarta posição, a diferença de resultado é baixa, periódico a periódico, com exceção do Índice G e do primeiro centil de artigos mais citados (nos dois casos, tanto para citações reais quanto para citações reais ajustadas). Logo, a divisão em “pelotão de frente”, patamar intermediário, periódicos aspirantes e restante das revistas científicas, feita por Köhler e Digiampietri (2020), torna-se inapropriada. Ao invés disso, é mais produtivo trabalhar com os quartis (primeiro, segundo, terceiro e quarto), ressaltando-se o desempenho destacado da RBTUR.

No primeiro quartil, para a maior parte das métricas e rankings criados, há, além da RBTUR, a ABET, PODIUM, TVA, RRV e RAOIT. Trata-se de uma seleção interessante, pelo que está e não está nela. Do antigo “pelotão de frente” – quatro periódicos de destaque, segundo Köhler e Digiampietri (2020), tendo à frente à RTA –, ficaram, apenas, a RBTUR e TVA. Houve nítida perda de impacto da CVT e, principalmente, da RTA, a qual era líder em todas as métricas e rankings gerados por Köhler e Digiampietri (2020) para 1990-2018.

A RRV fazia parte dos periódicos aspirantes ao patamar intermediário (1990-2018). Para 2020-2024, trata-se de um caso particular, por combinar ter mais da metade de seus artigos sem nenhuma citação real – situação comum no terceiro e quarto quartis – com vários de seus artigos dentre os mais citados dos 24 periódicos. No primeiro centil dos artigos mais citados, a RRV tem sete dos 25 (citações reais) e sete dos 24 (citações reais ajustadas), além de um Índice G alto; nessas métricas, seus resultados estão muito próximos daqueles encontrados para a RBTUR. O artigo mais citado, com 93 citações, é da RRV – Beni (2020).

O primeiro quartil é fechado com a ABET e RAOIT, as quais apresentavam muito baixo impacto para 1990-2018, e com a PODIUM, a qual não faz parte de Köhler e Digiampietri (2020). É interessante notar como os dois primeiros saíram de um quadro de muito baixo impacto (1990-2018) para o primeiro quartil, notadamente a ABET, a qual ocupa, para a maioria das métricas e rankings, a segunda ou terceira posição, marcando sua trajetória ascendente. No caso da RAOIT, estar no primeiro quartil é um resultado inesperado, dada certa irregularidade recente na publicação de números e, consequentemente, de artigos.

Acerca dos periódicos que combinam o turismo com outras áreas de conhecimento, em seu foco e escopo, nota-se que eles distribuem-se pelos quatro quartis. Alguns publicaram poucos artigos, no período 2020-2024, como a REUNA (10) e DEST (oito). A primeira tem posição intermediária em várias métricas e rankings; ela retirou, recentemente, o turismo de seu foco e escopo.

Acerca da CULTUR (patamar intermediário) e RBE (aspirante), houve queda em sua relevância, vis-à-vis as demais revistas.

Köhler e Digiampietri (2020) trabalham, apenas, com citações nominais e citações reais. A presente pesquisa calcula, adicionalmente, as autocitações (mesmo periódico), trabalhando, também, com citações reais ajustadas. Como “filtro” adicional, as autocitações (mesmo periódico) mudam pouco os rankings criados, em relação aos similares baseados em citações reais. Ou seja, para fins de ordenamento de posições, as autocitações (mesmo periódico) têm pouco efeito sobre os periódicos brasileiros de turismo. Em números absolutos, as revistas científicas cujos resultados mais caem, de citações reais para citações reais ajustadas, são a ABET e RBE, mas isso não altera muito, para a maioria dos rankings, sua posição.

Acerca das revistas científicas que mais citam os 2.397 artigos sob análise, houve certa desconcentração da citação, na comparação com Köhler e Digiampietri (2020), assim como mais presença de periódicos de fora do campo de turismo. Todavia, de modo geral, mantém-se o quadro geral visto para 1990-2018. Das citações feitas por artigos, as revistas científicas que mais citam são do próprio corpus da pesquisa; da lista dos quarenta periódicos que mais citam, a maior parte é editada no Brasil. De fora do campo de turismo, a que mais cita ocupa a décima-quarta posição, com 39 citações reais – a Research, Society and Development.

A pesquisa apresenta duas limitações principais. Primeiro, ela depende de processos manuais de coleta, revisão e desambiguação, os quais demandam tempo e mão-de-obra. A atualização da pesquisa, seja para os artigos publicados na década inteira (2020-2029) ou para aqueles publicados em sua segunda metade (2025-2029), demanda a mobilização de estagiários e auxiliares de pesquisa dispostos a realizar esse tipo de trabalho manual, o que não é garantido existir, no futuro. Segundo, para fins de verificação do impacto dos periódicos brasileiros de turismo, há falta de uma perspectiva comparada, seja em relação aos principais periódicos internacionais ou às revistas científicas de turismo de outros países da América Latina. Tendo um corpus formado exclusivamente pelos periódicos brasileiros de turismo, não é possível realizar comparações entre seu impacto e o de revistas científicas de turismo publicadas em outros países.

Para a continuidade da pesquisa, indica-se dois caminhos possíveis. Primeiro, como foi feito para o impacto, é proveitoso coletar as referências bibliográficas dos artigos publicados no período 2020-2024, a fim de verificar sua estrutura intelectual. Desse modo, será possível verificar não apenas quem cita os artigos publicados nos periódicos brasileiros de turismo, mas também quem é citado nesses artigos – a comparação permite verificar quem consome e quem é consumido por essas revistas científicas, no que concerne às citações e referências bibliográficas.

Segundo, é interessante comparar os resultados da presente pesquisa com a avaliação feita por docentes e pesquisadores do campo de turismo no Brasil, acerca dos periódicos do corpus. Esse grupo pode ser acessado em um dos eventos técnico-científicos de turismo, caso do Seminário ANPTUR. Caso realizada, será possível comparar o impacto dos periódicos brasileiros de turismo (2020-2024), por meio do seguinte: i) os resultados da presente pesquisa; ii) a classificação no Qualis Periódicos; e iii) a avaliação do impacto, importância e relevância dos periódicos brasileiros de turismo, feita por docentes e pesquisadores do campo de turismo no Brasil. Por mais que a métrica única (percentis) adotada pelo Qualis Periódicos possa obscurecer a avaliação das revistas científica do campo de turismo, em relação a áreas de conhecimento com mais alto volume de citações, é importante comparar como cada periódico é avaliado, em relação a métricas de impacto e híbridas e a avaliação feita por docentes e pesquisadores atuantes no campo.

  • Como Citar:
    Köhler, A. F., Segatto, C. A., & Digiampietri, L. A. (2026). Periódicos brasileiros de turismo (2020-2024): descrição e caracterização de seu impacto e construção de rankings. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, São Paulo, 20, e-3439, 2026. https://doi.org/10.7784/rbtur.v20.3439
  • Revisado em pares.
  • 1
    A REUNA retirou, recentemente, o turismo de seus foco e escopo. Dado que, em 06 de janeiro de 2025, o turismo fazia parte das áreas dessa revista científica, ela foi mantida no corpus da presente pesquisa.
  • 2
    Collini, S. (2012). What are universities for? London: Penguin.

Declaração de Disponibilidade de Dados

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Editado por

  • Editora
    Verônica Feder Mayer.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Jan 2026
  • Aceito
    09 Abr 2026
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