Open-access ANÁLISE QUALITATIVA INTER-OBSERVADORES E AVALIAÇÃO MORFOMÉTRICA DO PALATO DURO

Inter-observers’ qualitative analysis and evaluation of hard palate morphometry

RESUMO

Objetivo:  analisar a avaliação qualitativa do palato duro inter-observadores e comparar as avaliações com uma proposta de avaliação quantitativa baseada na morfometria.

Métodos:  foram utilizados 16 modelos de gesso da arcada dentária superior de 16 estudantes, do gênero feminino, do curso de graduação em Fonoaudiologia da Universidade Federal de Pernambuco. Com a utilização de um paquímetro de marca Vernier Caliper e acurácia 0,02mm, foram mensuradas as distâncias transversais, ântero-posterior e a profundidade do palato duro. Na sequência foram registradas as classificações clínicas do palato duro dos 16 voluntários realizadas em momentos diferentes por duas fonoaudiólogas especialistas em Motricidade Orofacial.

Resultados:  houve discordância entre as fonoaudiólogas na avaliação clínica dos palatos em 31%. Em relação aos modelos onde houve concordância, as medidas obtidas na morfometria da distância de profundidade para palato normal variaram de 12,5mm a 17,5mm e para palato ogival de 15,8mm a 19,7mm.

Conclusão:  houve parcial discordância inter-observadores na avaliação qualitativa do palato duro. Nos casos de concordância, as medidas em relação à profundidade encontradas para palato normal tiveram média de 14,4 mm e para palato em ogiva, de 17,3mm. O presente estudo piloto aponta para a necessidade de parâmetros quantitativos de normalidade para palato duro e a padronização de terminologia para avaliação clínica desta estrutura.

DESCRITORES:
Avaliação; Fonoaudiologia; Morfologia; Palato Duro

ABSTRACT

Purpose:  to analyze the inter-observers’ hard palate’s qualitative evaluation and compare the evaluations with a proposed quantitative evaluation based on the morphology of this structure.

Methods:  16 plaster models of the upper dental arches of female undergraduate students had been used. The transversal and antero-posterior distances and the depth of the hard palate were measured with a 0.02-mm accuracy Vernier Caliper. The clinical classifications of the hard palate in 16 volunteers carried through at different moments by two speech therapists, both of them specialists in Orofacial Motricity were then recorded.

Results:  the speech pathologists have disagreed on the qualitative evaluation of the hard palate in 31%. As for the models with accordance, the measures related to the depth found for normal palate were in average from 12.5mm to 17.5mm and from 15.8mm a 19.7mm for ogival palate, .

Conclusion:  There has been a partial inter-observers’ discordance in the quantitative evaluation of hard palate. In concordance cases, the measures in relation to the depth found in the normal palate were in average 14.4-mm and 17.3-mm for the ogival palate. This pilot study points out to the need for defining normality quantitative parameters for hard palate and standardization of terminology for clinical evaluation of this structure.

KEYWORDS:
Evaluation; Speech; Language and Hearing Sciences; Morphology; Palate; Hard

INTRODUÇÃO

O palato duro desempenha um papel importante em relação às funções do sistema estomatognático. Alterações na sua morfologia podem acarretar adaptações na deglutição, mastigação, fonoarticulação e respiração 1 .

A deglutição é a primeira função a manifestar-se no feto. Logo em seguida, surge o reflexo de sucção, iniciado a partir do quinto mês de vida intra-uterina e, por ser um ato reflexo, permanece até o quarto mês de vida. Essa função envolve e colabora no desenvolvimento de vários grupos musculares e parte óssea da região oral, favorecendo o equilíbrio entre estas estruturas. Após o nascimento, o padrão infantil de deglutição caracteriza-se pelo posicionamento da língua entre as gengivas 2. Em todas as etapas do desenvolvimento há a participação funcional e anatômica do palato duro.

Para extrair o leite do seio materno, no momento da sucção, a criança eleva a língua pressionando o mamilo contra o palato duro enquanto a mandíbula se movimenta para frente e para trás 3.

Posteriormente, com o amadurecimento e a presença dos dentes, após o preparo do bolo alimentar (no momento exato da deglutição) acontece a elevação rítmica da língua com movimentos ondulatórios ântero-posteriores, apoiados no palato duro, enquanto a base da língua se deprime 2.

Com a erupção dos dentes, a criança passa a sentir necessidade de mastigar. No momento da mastigação, o palato duro auxilia a língua no esmagamento do alimento, contribui com seus receptores para a sens ação de textura, temperatura e, juntamente com a sensação de gustação, completa as informações que extraímos dos alimentos 4 .

A fala (fonoarticulação) é executada pelos órgãos pertencentes aos sistemas respiratório e digestivo. Dentre os órgãos que permitem a articulação dos sons está o palato duro, além da laringe, faringe, palato mole, língua, dentes, bochechas, lábios e fossas nasais 2 .

Em relação à respiração, se a mesma estiver alterada, a pressão negativa do ar entrando pela cavidade bucal ao invés de entrar pelo nariz, faz com que o palato cresça para cima provocando, além de desarmonias oclusais, apinhamento devido a atresia do arco 5. No desenvolvimento normal, sem alteração (como aumento das vegetações faríngeas ou palatinas, obstruções nasais, dentre outras), o crescimento facial referente ao aumento na distância entre a base craniana e o palato duro, é suficiente para preservar uma passagem de ar adequada 6.

Os aspectos morfológicos são os mais importantes na avaliação fonoaudiológica do sistema estomatognático, pois só a partir de um exame anatômico cuidadoso será possível traçar um plano de trabalho objetivo, com um prognóstico provavelmente mais acertado. Pode-se perceber, por exemplo, que um palato estreitado irá prejudicar o posicionamento da língua nesta região; já um palato alto pode levar a um desvio de septo, o que vai interferir na respiração nasal. Nos dois casos, a atuação da Fonoaudiologia será restrita se a alteração na morfologia do palato duro não for detectada e restabelecida 7-8.

Numa condição normal, o palato duro oferece um contato sólido para a língua, como também suporte para os movimentos rápidos e complexos, que ajudam a mesma a assumir várias funções no sistema estomatognático 4.

O objetivo de qualquer avaliação miofuncional deve ser de avaliar os órgãos fonoarticulatórios (lábios, língua, dentes, bochechas, palato duro e mole) e as funções estomatognáticas (respiração, mastigação, deglutição e fala). Ao término da avaliação, o terapeuta deve ter condições de definir a necessidade ou não de terapia, se têm condições anatômicas, naquele momento, para iniciar o tratamento, se necessita de encaminhamento, quais seriam os limites do seu tratamento, entre outros aspectos 9. No caso da avaliação do palato duro, se sua morfologia se encontra alterada, as funções que necessitam desta estrutura provavelmente também estarão alteradas ou no mínimo adaptadas 3.

Apesar da sua importância dentro da Fonoaudiologia, a morfologia e a morfometria do palato duro têm sido pouco estudadas pelos profissionais desta área.

A avaliação subjetiva do palato duro na prática fonoaudiológica se reflete na falta de consenso na literatura em relação a sua nomenclatura, onde se encontram vários termos utilizados no diagnóstico desta estrutura, como palato duro normal, ogival, alto, profundo ou atrésico, estreito 4,7,9-10, palato duro ogival, inclinado 6; palato duro de formato ovóide, trapezóide, triangular 11; palato duro normal, atrésico, largo, estreito, baixo, alto 12, entre outros.

Desta forma, constata-se que o palato duro é de difícil avaliação clínica e parte desta dificuldade pode se dar pela falta de medidas objetivas 7. No entanto, na clínica fonoaudiológica esta estrutura é avaliada, classificada e o seu diagnóstico tem fundamental importância, tanto na definição e condução do processo terapêutico, como na alta fonoaudiológica.

O objetivo desta pesquisa foi analisar a avaliação qualitativa inter-observadores do palato duro e comparar as avaliações com uma proposta de avaliação quantitativa baseada na morfometria.

MÉTODOS

Participaram desta pesquisa 16 sujeitos do gênero feminino estudantes do Departamento de Ciências da Saúde do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da Universidade Federal de Pernambuco. A coleta foi obtida no período de dois meses e foram obedecidas as seguintes etapas:

1. Seleção dos sujeitos:

Foram distribuídos 60 questionários entre os alunos. Após o preenchimento e devolução, os mesmos foram analisados com base nos critérios de inclusão e exclusão.

Como critérios de inclusão foram considerados ambos os gêneros, idade acima de 20 anos (adulto jovem) e dentição permanente completa, exceto terceiros molares. Em relação à idade, o critério para a definição foi devido ao fato da altura facial só atingir seu crescimento máximo por volta da segunda década de vida 7.

Como critérios de exclusão foram considerados o uso de prótese total ou parcial e o uso de qualquer tipo de aparelho ortodôntico (fixo ou móvel) ou ortopédico funcional dos maxilares, no momento da aplicação do questionário. No momento da seleção, após a análise dos questionários, apenas 16 sujeitos do gênero feminino foram considerados aptos para participarem como voluntários.

2. Moldagem do arco dentário superior:

Realizada com a ajuda de uma aluna do último período do Curso de Graduação em Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco, em sala cedida por este Departamento apropriada para moldagem por apresentar cadeira ortodôntica, lavabo, boa iluminação e ar condicionado.

3. Avaliação clínica do palato duro:

Em seguida, os voluntários foram submetidos à avaliação clínica do palato duro, realizada na clínicaescola do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da Universidade Federal de Pernambuco, por duas Fonoaudiólogas especialistas em Motricidade Oral, em momentos distintos. Esta avaliação foi realizada com relação ao julgamento baseado na classificação : palato duro normal ou ogival. Estas classificações foram escolhidas por serem encontradas com mais freqüência na literatura 4, 6-7,9-10.

4. Mensuração do palato duro:

Após a secagem dos modelos de gesso e marcação com lápis grafite n° 5 dos pontos préestabelecidos (Figura 1), com o auxílio de um paquímetro de aço de marca Vernier Caliper com acurácia de 0,02mm (Figura 2) a pesquisadora responsável realizou a mensuração das seguintes distâncias:

Distâncias Transversais

C-C’ = Distância Inter-caninos ou largura anterior do arco

M1-M1 ’ = Distância Inter-molares (1º) ou largura média do arco

M2 -M2 ’ = Distância inter-molares (2º) ou largura posterior do arco (Figura 3)

As distâncias transversais foram mensuradas com a haste do paquímetro para mensuração de estruturas internas 13. Os pontos para mensuração foram demarcados nas bordas gengivais palatina dos respectivos dentes.

Distância Ântero-Posterior (Figura 4)

I-I’ = Distância entre o ponto I (meio dos incisivos centrais) perpendicularmente a uma linha entre a distância inter-molares (M2-M2’).

A distância ântero-posterior foi mensurada com a haste do paquímetro para mensuração de profundidade. O ponto I para mensuração foi demarcado entre os incisivos centrais (na papila palatina). O ponto I’ foi delimitado a partir da divisão por 2 do resultado M2-M2’. Para apoio da haste do paquímetro foi utilizado Fio Standard Nacional Aço Inox Ni Cr 0.032 em vareta, utilizado na clínica ortodôntica. O fio foi previamente fixado com cera nas bordas gengivais palatinas dos segundos molares ao nível da sua face distal.

Profundidade do Palato duro (Figura 5)

P-P’ = Medição da distância vertical, partindo de um ponto localizado na porção central da distância ântero-posterior do palato duro, e da porção central da distância entre os segundos pré-molares (ponto para referência anatômica).

A profundidade do palato duro foi mensurada com a haste do paquímetro para mensuração de profundidade 13. O ponto P foi delimitado a partir da divisão por 2 do resultado I-I’. Nesta pesquisa, em todos os casos, o resultado ficou ao nível dos segundos pré-molares, porém este ponto vai variar de acordo com a distância ântero-posterior do palato duro, podendo ser encontrado na porção gengival palatina de outros dentes. Para apoio da demarcação do ponto P’ (coincidindo sempre com a sutura palatina), assim como para apoio da haste do paquímetro no momento da mensuração, foi utilizado Fio Standard Nacional Aço Inox Ni Cr 0.032 em vareta, utilizado na clínica ortodôntica. O fio foi previamente fixado com cera nas bordas gengivais palatinas dos segundos pré-molares.

Figura 1
Marcação das distâncias pré-estabelecidas

Figura 2
Fotografia ilustrativa do paquímetro marca VERNIER CALIPER e do grau de acurácia utilizado na mensuração do palato duro

Figura 3
Mensuração da distância M2 -M2 ’ ou largura posterior do palato duro

Figura 4
Mensuração da distância ântero-posterior do palato duro I-I’

Figura 5
Mensuração da profundidade do palato duro P-P’

Atualmente, na clínica fonoaudiológica, são utilizados os paquímetros de plástico com acurácia (grau de precisão) de 0,05mm. Em trabalhos científicos o tipo de acurácia ideal seria o de 0,01mm ou 0,02mm 13. Neste estudo, a acurácia utilizada foi a de 0,02mm.

O paquímetro, grau de acurácia, pontos de demarcação e todo o processo do método utilizado nesta pesquisa, foram fotografados com uma Câmera Digital Mavica MVC-FD73 com zoom 10x da marca Sony. Para arquivar as imagens foram utilizados 10 disquetes da marca Sony HD.

5. Análise estatística:

Para o estudo estatístico foram utilizados os seguintes procedimentos:

1. Distribuição de frequência

Em uma primeira análise foi verificado se havia concordância entre as avaliações da Fonoaudióloga 1 e 2.

2. Teste t de Student

Indicado para amostras pareadas, neste trabalho, foi utilizado com o objetivo de comparar apenas duas amostras: os palatos duros normais e ogivais. O teste t de Student foi aplicado nos resultados de cada avaliadora separadamente. A distância transversal M1-M1’, foi desconsiderada por não apresentar homogeneidade, ou seja, não apresentar uma distribuição normal. Assim, foi observado se havia diferença significante entre:

a) Os valores da média das distâncias transversais(com exceção de M1-M1’), ântero-posterior e da profundidade entre os palatos duros avaliados como normais e ogivais da fonoaudióloga 1.

b) Os valores da média das distânciastransversais (com exceção de M1-M1’), ânteroposterior e da profundidade entre os palatos duros avaliados como normais e ogivais da fonoaudióloga 2.

Vale ressaltar que não foi realizada uma classificação dos palatos a partir dos valores numéricos obtidos, já que para isso seria necessário um número maior em relação a amostra e um método comprovado.

Na análise dos resultados, os valores numéricos foram utilizados como base para comparação entre os palatos considerados normais e ogivais na avaliação clínica, realizada pelas fonoaudiólogas especialistas, na cavidade oral de cada voluntário. Como o palato ogival tem a característica de ser profundo e alto, a hipótese é que apresentem valor numérico maior na mensuração4,7, 9-12.

Foi considerado como valor de significância p ≤ 0.05.

A presente pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco CEP/CCS/UFPE (n° 360/2003).

RESULTADOS

Após a secagem dos modelos, foi realizada a mensuração das distâncias transversais, ânteroposterior e de profundidade. Os valores da mensuração estão distribuídos na Figura 6.

No resultado da avaliação das fonoaudiólogas, houve concordância em 69% dos casos e discordância em 31% (Figura 7).

A fonoaudióloga 1 considerou que 62,5% dos palatos avaliados eram normais e 37,5% ogivais. Já a fonoaudióloga 2 considerou 56% normais e 44% ogivais (Figura 8).

Na estatística descritiva dos modelos considerados normais e ogivais, a média e o desvio padrão, estão distribuídos em duas tabelas separadamente: valores com a avaliação da fonoaudióloga 1 e valores com a avaliação da fonoaudióloga 2 (Tabelas 1 e 2).

Na avaliação da fonoaudióloga 1, após a aplicação Teste t de Student, em relação aos palatos considerados normais e ogivais e os valores numéricos obtidos da mensuração dos diâmetros transversais (exceto M1 -M1 ’), ântero-posterior e de profundidade, observou-se que houve diferença significante (p < 0, 05) em relação a profundidade dos palatos (Tabela 1).

Já na avaliação da fonoaudióloga 2, após a aplicação Teste t de Student, em relação aos palatos considerados normais e ogivais e os valores numéricos obtidos da mensuração dos diâmetros transversais (exceto M1 - M1 ’), ântero-posterior e de profundidade, observou-se que não houve diferença significante (p > 0,05) em relação à profundidade dos palatos. Entretanto houve diferença significante (p < 0,05) em relação à distância C1-C1” (Tabela 2).

DISCUSSÃO

A dificuldade na avaliação clínica do palato duro é evidente dentro da Fonoaudiologia, tendo em vista os diversos tipos de classificação e a ausência de uma avaliação mais objetiva 7. Nesta pesquisa, apesar das duas fonoaudiólogas terem avaliado o palato duro dos mesmos sujeitos houve uma discordância de 31% (Figura 7).

Os aspectos morfológicos nos quais o palato duro é incluído, são os mais importantes na avaliação do sistema estomatognático 7-8. Uma avaliação correta determina o planejamento, o encaminhamento e o bom prognóstico do tratamento. Portanto, visando na prática clínica a necessidade primária e fundamental de um adequado diagnóstico, ao contrário do que se esperava a concordância não foi de 100% dos casos entre as fonoaudiólogas 3 ,7-9.

Considerando isoladamente os modelos em que houve concordância entre as fonoaudiólogas, em relação às duas categorias (normais e ogivais), observa-se que o valor máximo da profundidade são respectivamente 17,50 mm (modelo 3) e 19,72 mm (modelo 13), conforme apontado a Figura 6. Os valores máximos dos palatos normais e ogivais estão muito próximos, o que não é compatível com a literatura, pois apesar de não existirem referências em relação a parâmetros numéricos para a profundidade do palato duro dentro da Fonoaudiologia, todos os autores são contundentes ao afirmarem que o palato ogival tem a característica marcante de ogiva, é profundo e alto, características que o difere do normal 4,7, 9-12 .

Ao serem considerados os valores mínimo e máximo apenas da profundidade dos modelos nos quais não houve concordância na avaliação das duas fonoaudiólogas, pode ser encontrado no modelo de número 8 o valor de 14,40 mm e no modelo de número 2 o valor de 17, 62 mm. Esses valores numéricos indicariam em princípio que o modelo 8 seria normal e o modelo 2 ogival. Entretanto, a fonoaudióloga 2 considerou o palato do voluntário 8 como ogival e do voluntário 2 como normal (Figura 6).

Na análise dos resultados para profundidade do palato, utilizou-se os valores numéricos como base para comparação entre os palatos considerados normais e ogivais na avaliação clínica, realizada pelas fonoaudiólogas na cavidade oral de cada voluntário. Como o palato ogival tem a característica de ser profundo e alto 4,7,9-12, a hipótese é que apresente valor numérico maior na mensuração.

Nos resultados obtidos da fonoaudióloga 1 em relação a profundidade, considerando-se (p = 0, 05), percebe-se que houve diferença significativa em relação aos palatos considerados normais e ogivais, o que é o esperado entre estas duas classificações (Tabela 1). Entretanto, nos resultados da fonoaudióloga 2, constatou-se que não houve diferença significativa (p = 0,05) em relação à profundidade dos palatos considerados normais e ogivais (Tabela 2) o que não corresponde ao que é encontrado na literatura 4,7,9-12. É importante ressaltar, que na avaliação da fonoaudióloga 2 a diferença significativa (p = 0, 05), aparece na mensuração da distância C-C’. Entretanto, na literatura essa característica é relatada em relação ao palato considerado atrésico e não ao ogival 4,7,9-10,12.

Figura 6
Valores (em milímetros) da mensuração das distâncias transversais, ântero-posterior e de profundidade do palato duro e avaliação clínica das fonoaudiólogas 1 e 2

Figura 7
Distribuição em porcentagem quanto ao índice de concordância e discordância entre as avaliações clínicas das duas fonoaudiólogas em relação ao palato duro

Figura 8
Distribuição em porcentagem dos palatos avaliados pelas duas Fonoaudiólogas como normal e ogival

Os resultados das avaliações das duas fonoaudiólogas, no presente estudo, refletem a necessidade de se criar protocolos com parâmetros mais objetivos de procedimentos para que se tenha registros mais confiáveis 12

O estudo sobre a morfologia e a morfometria dos arcos dentários e do palato duro é de fundamental importância e amplamente pesquisado na ortodontia. Desde os primórdios do desenvolvimento deste tipo de estudo, os modelos de gesso são utilizados como auxiliares e, ainda hoje, continuam sendo os melhores meios de informação para o diagnóstico e o planejamento do tratamento desta estrutura 14 .

Como exemplo pode ser citada a mensuração em cópia xerográfica ou cópia por meio de scanner de mesa do modelo de gesso 15-16. Alguns profissionais, na sua prática clínica, preferem realizar a mensuração na própria boca do paciente 17.

Entretanto, há uma prevalência da utilização de modelos de gesso com pontos pré - estabelecidos 15,18-20 e uma tendência de alguns autores a considerarem a mensuração direta nos modelos de gesso como o método mais seguro em relação aos resultados 20-21.

Não foi objetivo do presente trabalho questionar a validade destes ou qualquer outro tipo de método de mensuração, no entanto, acredita-se que a mensuração em cópias, xerográficas ou de scanner seja desnecessária, visto que os modelos de gesso já são cópias fiéis. Em relação à mensuração no próprio indivíduo alerta-se para a possibilidade de acidentes, principalmente no momento de utilização da haste de profundidade.

Há na literatura uma ausência de padronização dos pontos escolhidos para marcação nos modelos de gesso, variando muito de estudo para estudo 15-16, 20-21.

As distâncias em relação aos dentes estabelecidos dos modelos de gesso para o estudo da presente pesquisa foram adaptados de estudos anteriores: distância inter-canino, distância inter 1o molares, distância ântero-posterior 15, distância inter 2o molares e a profundidade do palato duro 20.

Entretanto, o método de mensuração, ou seja, a forma de utilização das hastes do paquímetro, das distâncias antero-posterior e de profundidade, foi criada especificamente para o estudo presente.

Tabela 1
Distribuição dos valores de mensuração associados à avaliação da fonoaudióloga 1 (média, desvio padrão e valor de p)
Tabela 2
Distribuição dos valores de mensuração associados à avaliação da fonoaudióloga 2 (média, desvio padrão e valor de p)

É importante salientar que os pontos estabelecidos nas faces dos dentes nesta pesquisa foram marcados nos rebordos gengivais da face palatina de cada dente, o que difere das pesquisas encontradas na literatura, onde os pontos encontram-se na face oclusal dos dentes ou em outros pontos 15-16,18-19. Não foram encontrados na literatura estudos que apresentassem os mesmos parâmetros em relação à marcação na face dos dentes e dos pontos escolhidos para mensuração da presente pesquisa, o que impossibilitou uma maior discussão sobre o assunto.

O instrumento de mensuração utilizado, paquímetro de aço com rosca de fixação, possibilitou o valor exato da mensuração 13. Esse instrumento tem sido escolhido e utilizado com sucesso em pesquisas semelhantes 20 .

Entretanto, na maioria dos trabalhos observados na literatura, não há referências ao tipo de haste utilizada na mensuração das distâncias estabelecidas para o palato 11,14-16.

A escolha das hastes para mensuração do palato duro no trabalho exposto, seguiu a prática clínica e as pesquisas encontradas em publicações dentro da Fonoaudiologia 13,17,20.

O protocolo HD de indicação da haste do paquímetro para mensuração de estruturas do sistema estomatognático com paquímetro, sugere que a haste do paquímetro para mensuração de estruturas internas seja utilizada na largura do palato e a haste do paquímetro para mensurar a profundidade seja utilizada na mensuração da profundidade do palato 13.

No trabalho aqui exposto, por não existir nenhum ponto anatômico para apoio da haste de profundidade, no momento da mensuração das distâncias ântero-posterior e da profundidade, foram adaptados nos modelos fios de aço onde a haste escolhida pôde ser apoiada (Figuras 4 e 5). A escolha da haste de profundidade, na mensuração da distância ântero-posterior realizada por meio do apoio no fio de aço, justifica-se por não ter sido encontrado na literatura referências a respeito da indicação da haste utilizada em estudos para esta distância (Figura 4).

Em relação aos parâmetros numéricos de referência às medidas consideradas normais na literatura para a mensuração do palato duro são: 1o pré-molar (35 mm), 2o pré-molar (41 mm) e 1o molar (47 mm) 11. A distância entre os 2 o pré-molares também pode ser considerada normal com valor de 30 mm 17. Não foram encontradas referências, no entanto, em relação à diferença numérica entre o gênero feminino e masculino. Não foi encontrada, também na literatura, indicação de valores de referências das distâncias ântero-posterior e de profundidade. Contudo, os pontos escolhidos e marcados nos modelos de gesso do presente estudo, só foram iguais em relação ao 1o molar, e nessa pesquisa essa distância acabou sendo desconsiderada na análise por não apresentar homogeneidade. Como os demais pontos diferem dos citados acima, não foi possível comparação entre os resultados.

A ausência de trabalhos semelhantes impossibilitou maiores comparações com os dados desta pesquisa. Infelizmente devido à amostra estudada ser restrita, também não foi possível, estatisticamente a realização de comparações entre os resultados das avaliações clínica do palato duro e os dados numéricos obtidos na mensuração desta estrutura.

Apesar da importância do palato duro para a homeostase das funções do sistema estomatognático, ou seja, sucção, deglutição, mastigação, fala e respiração 1-10,22, na Fonoaudiologia, são raras as pesquisas encontradas sobre a morfologia e/ou morfometria do palato duro 11,13,17,20.

Neste estudo piloto observa-se que é necessário e possível se utilizar, dentro da Fonoaudiologia, um método objetivo que garanta a confiabilidade da avaliação clínica do palato duro, por meio da morfometria. Justifica-se esta necessidade frente à carência de estudos em relação à morfologia e morfometria do palato duro que norteiem os profissionais com parâmetros numéricos objetivos e que a partir deles a terminologia seja adaptada nos moldes já propostos em relação à abertura bucal, terços da face 10 e frênulo de lingua 23 .

O desenvolvimento de pesquisas que utilizem o auxílio da morfometria, para que, no futuro, índices morfométricos sobre a normalidade do palato duro sejam sistematizados e utilizados na clínica da Fonoaudiologia é um passo fundamental para que o patológico possa ser diagnosticado fidedignamente.

Ressalta-se que a proposta apresentada neste estudo piloto deverá ter continuidade com novos estudos contemplando amostras maiores tanto de avaliadores quanto de avaliados de ambos os gêneros para que o método proposto seja aperfeiçoado.

CONCLUSÃO

Houve parcial discordância inter-observadores na avaliação qualitativa do palato duro. Nos casos de concordância, as medidas em relação à profundidade encontradas para palato normal tiveram média de 14,4 mm e para palato em ogiva, de 17,3mm. O presente estudo piloto aponta para a necessidade de parâmetros quantitativos de normalidade para palato duro e a padronização de terminologia para avaliação clínica desta estrutura.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2005

Histórico

  • Recebido
    20 Maio 2005
  • Aceito
    01 Set 2005
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