RESUMO
Objetivo: verificar os parâmetros de amplitude dos movimentos mandibulares - abertura, protrusão e lateralidade bucal - em crianças,comointuitodedeterminarospadrõesdenormalidadeeincorporá-losemnossarotinaclínica.Métodos:avaliaçãode 142criançasde6a12anosdeidade,sendo78dosexomasculinoe64dosexofeminino.Foramexcluídasascriançasqueapresentaram sinais e sintomas de desordem temporomandibular (DTM). Para verificação da amplitude, utilizou-se um paquímetro demetal.Resultados:asmédiasdeamplitudedosmovimentosmandibularesencontradasforam:abertura48,33mm,lateralidade 7,85 mm e protrusão 8,41 mm. E o mínimo encontrado na abertura bucal foi 36 mm, lateralidade 4 mm e protrusão 5 mm.
Conclusão: os valores de amplitude dos movimentos mandibulares em crianças aumentam de acordo com a idade.
Descritores:
articulação temporomandibular/crescimento e desenvolvimento; amplitude de movimento articular/fisiologia; criança.
ABSTRACT
Purpose: to verify the parameters of amplitude of the mandibular movements: opening, laterotrusion and protrusion in children, with intention to determine the normality standards and to incorporate them in our clinical routine.
Methods: evaluation of 142 children of 6 to the 12 years of age, being 78 male and 64 of the female. The children had been excluded who had presented signs and symptoms of clutter to temporomandibular (DTM). For verification of the amplitude it was used as tool of metal.
Results: the amplitude average of mandibular movements found were: opening 48,33 mm, laterotrusion 7,85 mm and protrusion 8,41 mm. The minimum opening mouth found was 36 mm, the laterotrusion 4 mm and protrusion 5 mm.
Conclusion: the range of motion analyses in children, magnify in accordance with the age.
Keywords:
temporomandibular joint/growth; development; range of motion; articular/physiology; child.
INTRODUÇÃO
A articulação temporomandibular (ATM) é a articulação responsável pelos movimentos mandibulares, associada à ação dos músculos mastigatórios. Esses movimentos possibilitam a realização das funções estomatognáticas, tais como: respiração, sucção, mastigação, deglutição, fala e fonação.(1,2)
Pelanaturezadotrabalhofonoaudiológico,visandoaoaprimoramentoe/oureabilitaçãodafala,nossamaiorexperiência refere-se ao atendimento na faixa etária de 6 a 12 anos, associando-se a exigência da alfabetização ou da adequação da fala. Assim sendo, buscamos parâmetros de amplitudes dos movimentos mandibulares nessa faixa etária.
Essasfunçõestêmcomocaracterísticasaparticipaçãodoúnicoossomóveldoesqueletocraniofacial,queéamandíbula.PortantoédefundamentalimportânciaapreservaçãodaATM,poispossibilitaamovimentaçãodamandíbulaapartirda atuação neuromuscular.(3)
Osmovimentoseasposiçõesdamandíbulasãodeterminadosportrêselementos:asarticulaçõestemporomandibulares, o mecanismo neuromuscular e as unidades dentais, que são dirigidos pelo sistema nervoso central.(4)
Vários sinais e sintomas podem ser encontrados em pacientes com disfunção temporomandibular (DTM), entre eles: dor de cabeça e pescoço, movimentos mandibulares limitados e/ou ruídos na ATM. Muitos casos também apresentam sintomas na cavidade oral, ouvidos, nariz e sintomas psicológicos ou mais extensivamente físicos.(5)
Alguns dos sinais importantes de DTM se referem a limitações na amplitude dos movimentos mandibulares, especialmente com relação à abertura bucal. Portanto, é fundamental encontrarmos dados numéricos relativos à normalidadeeàslimitaçõesdaamplitudedetaismovimentos.(1,2)
Os dados de normalidade de amplitude de abertura, lateralidade e protrusão dos movimentos mandibulares em crianças são escassos, uma vez que a faixa de maior incidênciadosproblemasdeATMselocalizaentre20e35 anos. Em uma pesquisa, com 35 crianças, os valores médios obtidos para abertura bucal máxima foram: 46,34 mm para crianças de 6 a 8 anos e 48,41 mm para 9 a 12 anos de idade.(6)
Em um grupo de 75 meninas e 75 meninos com 6 anos deidade,amédiadeaberturabucalmáximafoide44,8mm e, para lateralidade e protrusão máximas, de 8 mm.(7)
Em pesquisa realizada em 2 grupos, sendo que o primeiro grupo foi composto de 21 indivíduos, de 6 a 10 anosdeidade,eosegundocompostopor13indivíduos,de 11a15anosdeidade,médiasdosvaloresdeaberturabucal máximaforamde46,2mme51,2mm,respectivamente.(8)
Em um estudo com crianças de 6 a 12 anos e 11 meses de idade, pôde-se verificar que não há diferença significativa entre sexo e movimentos mandibulares máximos.(7,8)
Como as pesquisas sobre valores máximos de movimentos mandibulares para lateralidade e protrusão em criançassãorestritas,utilizaremoscomoreferênciavalores de normalidade em adultos. A abertura bucal varia de 40 a 45 mm, sendo que, se o valor for inferior a 30 mm, suspeita-sededisfunçãomuscularoudaATM.Amedidadelateralidade normal varia entre 10 e 12 mm.(9)
Outro estudo determinou os índices de normalidade para abertura bucal máxima variando entre 45 mm e 60 mm. Os valores abaixo de 40 mm nos adultos e 35 mm em crianças, podem ser considerados um importante sinal de alerta para possíveis problemas musculares ou articulares.(3) Quanto à protrusão, o valor mínimo utilizado é de 7 mm.(2)
Em estudo realizado com 80 estudantes, sendo 40 do sexofemininoe40dosexomasculino,nafaixaetáriade18 a 32 anos, os valores médios apresentados foram: para abertura bucal 58,1 mm, lateralidade 9,5 mm e protrusão 9 mm, no sexo masculino. Quanto ao sexo feminino, os valoresforam:53mmdeabertura,9,3mmdelateralidadee8,5 de protrusão.(10)
Quando há alteração muscular e das funções estomatognáticas, cabe ao fonoaudiólogo atuar como membro da equipe que cuida do indivíduo que apresenta a DTM. O objetivodotrabalhofonoaudiológicoéadequaratonicidadeeamobilidademuscular,adaptandoasfunçõesestomatognáticas para que não haja dor muscular tanto em repouso como no movimento, de forma que este ocorra de formacoordenadaeprecisa,semdesviosdalinhamédiano fechamento e/ou abertura de boca.(1)
O objetivo desta pesquisa é verificar parâmetros da amplitude de abertura, protrusão e lateralidade bucal em criançasde6a12anosdeidade,comintuitodedeterminar os limites de normalidade e incorporá-los em nossa rotina clínica.
MÉTODOS
Foramavaliadas142criançasde6a11anose11meses de idade, sendo 79 do sexo masculino e 63 do sexo feminino, da Escola Estadual Érico de Abreu Sodré, na cidade de São Paulo, no primeiro semestre de 2001.
Os movimentos mandibulares máximos foram medidoscomoauxíliodeumpaquímetrodemetalgraduadoem milímetros. A distância interincisiva máxima foi medida tendo-se como referência a borda incisal dos incisivos superior e inferior direito.
O cálculo da abertura bucal máxima foi realizado somando-se a sobremordida ou subtraindo-se a mordida aberta, conforme descrito na literatura.(2,9)
Para medição da lateralidade máxima, pediu-se à pessoa, dando-lhe o modelo, que levasse os dentes anteriores aumaposiçãotopoatopoe,posteriormente,paraquedeslizasseparaumdoslados,medindo-seassimadistânciahorizontal entre linha mediana inferior e superior.(9) Caso a linha média dentária estivesse desviada, prolongaríamos com um lápis preto, seguindo técnica descrita em literatura.(2)
Naprotrusãopediu-seàcriançaqueiniciassepelaposição de máxima intercuspidação habitual, medindo o trespasse horizontal (overjet), verificando a distância da face vestibular dos incisivos centrais inferiores até a face incisal dos centrais superiores. Em seguida, foi solicitado que levasse os dentes anteriores à posição topo a topo e deslizasse a mandíbula para frente, medindo a distância da face vestibular dos incisivos centrais superiores à face incisal dos centrais inferiores. Somando-se as medidas, obtém-se a distância percorrida pela mandíbula na protrusão.(2)
Foram excluídas crianças que apresentaram dor muscular facial ou na região pré-auricular (à palpação), ruídos articulares, antecedentes de trauma na região, estalos, assimetrias faciais evidentes e desvios da linha média esquelética e desvio mandibular na abertura e no fechamento de boca.
A referência à dor em alguns músculos, como masseter,temporal,esternocleidomastóideo,músculoscervicais posteriores,temrelaçãocomdisfunçãodeATM,sendoque apalpaçãonosfornecedadosquantoaovolume,àposição, à simetria muscular e principalmente quanto aos pontos dolorosos na musculatura.(3)
RESULTADOS
Quanto à distribuição dos indivíduos em relação ao sexo, foram encontrados 55,6% do sexo masculino e 44,4% do sexo feminino, sendo que o grupo com maior número de indivíduos comprendeu a faixa etária de 10 a 10 anos e 11 meses de idade (25,3%) (Tabela 1).
Valores (em milímetros) distribuídos por idade e sexo em relação ao mínimo dos movimentos mandibulares máximos
Com relação aos valores referentes ao sexo feminino, distribuídosporidade,omínimoparaaberturabucalfoina faixaetáriade7anosa7anose11mesesdeidade(36mm); quanto à lateralidade, foi nas faixas etárias de 7 anos a 7 anos e 11 meses e 11 anos a 11 anos e 11 meses (4 mm); e protrusãonasfaixasetáriasde7anosa7anose11mesese 9 anos a 9 anos e 11 meses (5 mm) (Tabela 1).
Com relação ao sexo masculino, distribuídos por idade, o mínimo para abertura bucal foi nas faixas etárias de 6 anos a 6 anos e 11 meses e 7 anos a 7 anos e 11 meses (37 mm); quanto à lateralidade, nas faixas etárias de 7 anos a 7 anos e 11 meses, 10 anos a 10 anos e 11 meses e 11 anos a 11anose11meses(5mm);eprotrusão,nafaixaetáriade7 anos a 7 anos e 11 meses (5 mm) (Tabela 1).
Quantoaosvaloresobtidos,distribuídosporidade,em relação ao mínimo dos valores para abertura bucal, independente da variável sexo, foi na faixa etária de 7 anos a 7 anos e 11 meses (36 mm); lateralidade, de 7 anos a 7 anos e 11meses,10anosa10anose11mesese11anosa11anos e11meses(4mm);eprotrusão,nasfaixasetáriasde7anos a 7 anos e 11 meses e 9 anos a 9 anos e 11 meses (5 mm) (Tabela 1).
Com relação aos valores do sexo feminino, distribuídos por idade, a média dos movimentos mandibulares máximos de abertura bucal foi na faixa etária de 11 anos a 11anose11mesesdeidade(52,6mm);quantoalateralidade e protrusão, o grupo que apresentou maior média foi a faixa etária de 8 anos a 8 anos e 11 meses (8,1 mm e 9 mm, respectivamente).Amédiageraldeaberturamáximafoide 48,4 mm; de lateralidade máxima, de 7,2 mm; e protrusão de 7,8 mm (Tabela 2).
Valores (em milímetros) distribuídos por idade e sexo em relação à média dos movimentos mandibulares máximos
Os valores referentes ao sexo masculino, distribuídos por idade em relação à média dos movimentos mandibulares máximos, quanto a abertura bucal foi na faixa etária de 10 anos a 10 anos e 11 meses (50,6 mm); quanto a lateralidade,foiafaixaetáriade9anosa9anose11meses(9mm); e quanto a protrusão, de 9 anos a 9 anos e 11 meses e 10 anosa10anose11mesesdeidade(8,8mm).Amédiageral de abertura no sexo masculino foi de 47,9 mm; de lateralidade, 8,4 mm; e de protrusão, 8,1 mm (Tabela 2).
Quanto aos valores distribuídos por idade, independente da variável sexo, com relação à média dos movimentosmandibularesdeaberturabucal,foiencontradanafaixa etária de 11 anos a 11 anos e 11 meses (51,7 mm); quanto à lateralidade, foi na faixa etária de 10 a 10 anos e 11 meses deidade(8,4mm);equantoàprotrusão,nafaixaetáriade8 a 8 anos e 11 meses (8,9 mm). A média geral de abertura foi de 48,2 mm, lateralidade de 7,5 mm e protrusão de 8 mm, observando-seaumentodamédiadeaberturamáximacom aumento de idade (Tabela 2).
DISCUSSÃO
Com relação ao sexo, não foram encontradas diferenças na amplitude dos movimentos mandibulares, concordando com os achados de literatura.(8,9) O valor mínimo obtidoparaaberturabucalfoide36mm,valormuitopróximo aos 35 mm citados na literatura.(7,8)
Para lateralidade o valor mínimo encontrado foi de 4 mm,diferentedocitadonaliteraturacomosendopadrão de normalidade em adultos, variação de 10 a 12 mm.(9) O valor mínimo de protrusão foi de 5 mm, notando-se diferença nas pesquisas, as quais referem 7 mm para normalidade em adultos.(3)
Amédiaencontradaparaaberturabucalfoide48,33mm, concordando com os achados de literatura.(3,6,8)
Quanto a lateralidade e protrusão, foram encontrados 7,85 mm e 8,41 mm, respectivamente, concordando com os estudos encontrados na literatura.(7)
CONCLUSÃO
-
1. A amplitude mínima dos movimentos mandibulares em crianças, na abertura, foi de 36 mm, lateralidade de 4 mm e protrusão 5 mm.
-
2. Os valores encontrados para os movimentos mandibulares foram: abertura bucal máxima (48,33 mm), lateralidade máxima (7,85 mm) e protrusão máxima (8,41 mm).
-
3. Os valores da amplitude de abertura bucal parecem aumentar com a idade e não diferem com relação aos valores encontrados em adultos.
REFERÊNCIAS
- 1 Anelli W. Atuação fonoaudiológica na desordem temporomandibular. In: Lopes Filho OC editor. Tratado de fonoaudiologia. São Paulo: Roca; 1997. p. 821-8.
- 2 Bianchini EMG. Articulação temporomandibular: implicações, limitações e possibilidades fonoaudiológicas. São Paulo: Pró-fono; 2000. 402p.
- 3 Bianchini EMG. Mastigação e ATM: avaliação e terapia. In: Marchesan, IQ. Fundamentos em fonoaudiologia: aspectos clínicos da motricidade oral. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998. p. 37-49.
- 4 Molina OF. Fisiopatologia craniomandibular: oclusão e ATM. 2 ed. São Paulo: Pancast; 1995. 677p.
- 5 Ai M. Disfunção temporomandibular- ATM : diagnóstico e tratamento. São Paulo: Santos; 1995. 46p. [tradução de Leni Marilda Buch].
- 6 Martins EA, Araújo FB, Nunes R, Michel M, Nör JE. Capacidade máxima de abertura bucal em crianças de 3 a 12 anos de idade. Rev Fac Odontol 1990;30/31:23-5.
- 7 Agerberg G. Maximal mandibular moviments in children. Acta Odont Scan 1974;32:147-59.
- 8 Sheppard IM, Sheppard SM. Maximal incisal opening a diagnostic index. J Dent Med 1965;30:13-5.
- 9 Felício CM. Princípios aplicados ao diagnóstico e tratamento miofuncional. In: Felício CM. Fonoaudiologia na desordens: uma ação educativa-terapêutica.. São Paulo: Pancast; 1994. p. 67-95.
