RESUMO
Objetivo: Compreender os sentidos vividos pelos profissionais e estudantes participantes das oficinas de massagem com bebês: uma das ações do programa de extensão Massagem e Estimulação com Bebês (MEB).
Método: Trajetória fenomenológica hermenêutica com a indagação: como foi sua experiência na oficina de massagem com bebês? Por solicitação do Programa de Promoção da Saúde, ministraram-se oficinas de massagem Shantala na cidade de São José dos Campos, SP, visando à implantação da ação educativa do programa MEB, caracterizada pelos Grupos Terapêuticos de Massagem e Estimulação com Bebês na rotina de cuidados materno-infantil das Unidades Básicas de Saúde.
Resultados: Os sentidos dados às experiências vividas pelos participantes das oficinas apontam perspectivas que os auxiliam na capacidade de estabelecer relações humanas nos espaços profissionais. Os participantes constroem a si mesmos, situam-se e fazem cultura, percebendo que o vínculo é também moral, contextual, ético e político.
Considerações finais: Nos cenários de formação do programa MEB, propõem-se diálogos entre teoria, técnica e prática, ao organizar e integrar novos conhecimentos aos já existentes, visando transformações.
DESCRITORES
Shantala; Desenvolvimento Humano; Enfermagem Pediátrica; Pesquisa Qualitativa; Educação
ABSTRACT
Objective: To understand the experiences lived by professionals and students participating in baby massage workshops: one of the activities of the Baby Massage and Stimulation (BMS) extension program.
Method: A phenomenological hermeneutic trajectory was undertaken with the question: what was your experience like in the baby massage workshop? At the request of the Health Promotion Program, Shantala massage workshops were conducted in the city of São José dos Campos, SP, aiming to implement the BMS program’s educational action, characterized by Baby Massage and Stimulation Therapeutic Groups in the routine of maternal and child care in Basic Health Units.
Results: The meanings given to the experiences lived by workshop participants point to perspectives that help them in their ability to establish human relationships in professional spaces. Participants construct themselves, situate themselves, and create culture, realizing that the bond is also moral, contextual, ethical, and political.
Final considerations: Dialogues between theory, technique, and practice are proposed in BMS program training settings, organizing and integrating new knowledge with existing knowledge, aiming at transformations.
DESCRIPTORS
Shantala; Human Development; Pediatric Nursing; Qualitative Research; Education
RESUMEN
Objetivo: Comprender las experiencias vividas por profesionales y estudiantes que participan en talleres de masaje infantil: una de las actividades del programa de extensión de Masaje y Estimulación con Bebés (MEB).
Método: Enfoque fenomenológico hermenéutico basado en la pregunta: ¿Cómo fue tu experiencia en el taller de masaje infantil? A solicitud del Programa de Promoción de la Salud, se realizaron talleres de masaje Shantala en la ciudad de São José dos Campos, SP, con el objetivo de implementar la acción educativa del programa MEB, caracterizada por el Masaje Terapéutico y Grupos de Estimulación con Bebés en la rutina de atención maternoinfantil en Unidades Básicas de Salud.
Resultados: Los significados otorgados a las experiencias vividas por los participantes de los talleres apuntan a perspectivas que les ayudan a desarrollar su capacidad para establecer relaciones humanas en espacios profesionales. Los participantes se construyen, se sitúan y crean cultura, reconociendo que el vínculo también es moral, contextual, ético y político.
Consideraciones finales: En los escenarios de formación del programa MEB, se proponen diálogos entre teoría, técnica y práctica, organizando e integrando nuevos conocimientos con los existentes, con el objetivo de generar transformaciones.
DESCRIPTORES
Shantala; Desarrollo Humano; Enfermería Pediátrica; Investigación Cualitativa; Educación
INTRODUÇÃO
Como um saber culturalmente expressivo, que veio sendo ressignificado historicamente, a massagem com bebês oriunda da Índia, denominada massagem Shantala (MS)(1), propiciou a construção de um trabalho com abordagem corporal, realizado de maneira sistematizada, pelo programa de extensão universitária Massagem e Estimulação com Bebês (MEB)(2). Ancorado nos conhecimentos do desenvolvimento neuropsicomotor afetivo infantil, o programa MEB constitui-se por meio de duas ações educativas: o Grupo Terapêutico de Massagem e Estimulação com Bebês (GTMEB), que acolhe mães/pais com seus bebês lactentes; e as oficinas de MS, com vivências que introduzem profissionais e graduandos das áreas da saúde e educação infantil na temática da MS.
Essas oficinas, além de realizar assessorias a profissionais e serviços institucionais, têm um caráter itinerante. No âmbito acadêmico, como forma de preparo dos estudantes para atuarem junto às famílias, o programa MEB está organizado em dois projetos: “Grupo de Estudo Massagem e Estimulação com Bebês”, de ação contínua; e “MS: intervenção multimodal e a somatosensorialidade”, temática elencada pelas monitoras anualmente para sua trajetória(3).
As experiências vividas desde sua origem, em 1996, ainda como projeto de extensão(4), tiveram continuidade como “programa MEB”, a partir de 2012, com ações educativas em ambulatórios voltados à Atenção Primária em unidades hospitalares pediátricas e neonatais, assim como creches, além de outras atividades acadêmicas desenvolvidas com os cursos de graduação nos anfiteatros da Escola de Enfermagem.
A literatura sobre a MS(5) demonstra que a procura por esse tipo de intervenção está ganhando adeptos, e cada vez mais se difunde seu uso terapêutico, inclusive nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal(6,7). Porém, essas unidades, com frequência, ainda carecem de abordagens humanizadas que considerem a saúde como o fim último dos cuidados e que sejam voltadas ao protagonismo das famílias. Nessa perspectiva, destaca-se também como os profissionais procuram expor suas insatisfações com o que geralmente ocorre nas instituições – de saúde e educação infantil –, onde as expressões dos bebês, assim como as atitudes das crianças, não são utilizadas como estratégias para cuidá-los.
Assim, à medida que profissionais das áreas da saúde e da educação infantil, estudantes e famílias se tornarem conscientes da qualidade do toque nos cuidados, da importância da intervenção mediada pela MS e de seus efeitos sobre o desenvolvimento infantil (DI), consequentemente o vínculo afetivo será fortalecido(8,9). Contudo, com a ampliação e diversificação de pesquisas voltadas a essas temáticas, almeja-se que haja reconhecimento da ação educativa, bem como valorização da mesma como tecnologia leve pelos seus benefícios, essenciais ao rol de cuidados que integram a parentalidade(10).
Em resposta a esses anseios, tem-se buscado, com as oficinas de MS, tornar acessíveis os conhecimentos voltados ao DI e, assim, por meio da MS(11), evidenciar aos profissionais e estudantes a necessidade de revisão das rotinas de cuidados e demais procedimentos utilizando os conhecimentos das faixas etárias infantis por meio de diálogos e reflexões.
O Ministério da Saúde, com a publicação da Portaria nº 971, aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, com abordagem de cuidado no Sistema Único de Saúde, que traça as diretrizes e responsabilidades para a implantação das suas ações e serviços em território nacional(12). Destaca-se, no Brasil, a existência, há tempos, de uma crescente busca da população pela legitimação da abordagem terapêutica holística, incluindo uma demanda pelas Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS)(13). Com a publicação da Portaria nº 849, em 2017, o Ministério da Saúde ampliou as PICS e incorporou a MS, contemplando a população materno infantil(14). O marco legal representou um meio de concretizar uma estratégia de promoção do acesso, evidenciando uma grande conquista para a saúde pública.
Considerando a responsabilidade social da academia na formação dos profissionais de saúde e de educação infantil para o cuidar humanizado(15), buscou-se contribuir para a melhoria dos serviços como partícipes de políticas públicas orientadas à primeira infância, unindo esforços para que a lei, que especifica a relevância da atenção ao DI, possa ser expressa em ações(16).
A difusão dos conhecimentos produzidos por meio das ações desenvolvidas pelo programa MEB vem sendo sistematicamente apresentada à comunidade científica, constituindo como um de seus resultados o trabalho “Os sentidos das experiências vividas no programa de extensão massagem e estimulação com bebês”(17), do qual foi retirado o recorte ora apresentado, tematizado como “Apoio à formação profissional humanizada: diálogos entre teoria, técnica e prática”.
A motivação em realizar este estudo, ao visar consolidar os fazeres do programa MEB, possibilitou compreender os sentidos das experiências vividas na oficina de MS por aqueles que dela participaram.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Destaca-se, para esta investigação, a orientação fenomenológica, uma vez que os estudos acadêmicos não devem se restringir apenas e prioritariamente aos seus aspectos técnico-científicos, pois considera-se que a enfermagem, assim como a educação, possa se beneficiar com a amplitude do cuidado voltado à dimensão humana enquanto ser situado existencialmente no mundo. Neste estudo, optou-se, em particular, pela fenomenologia existencial e hermenêutica, por tal epistemologia permitir um olhar qualificado sobre uma das ações educativas desenvolvidas pelo programa MEB. A fenomenologia procura compreender os seres humanos em sua complexidade “[...] como seres situados no mundo com os outros ao admitir abordá-los em suas variadas perspectivas”(18).
Essa trajetória se encontra amparada em autores clássicos(19), assim como em pensadores contemporâneos(18,20,21), cada um com o seu fazer fenomenológico, com um rigor metodológico próprio, característico dessa maneira de investigar. Nessa perspectiva, ressalta-se como o conhecimento se dá a partir de um certo lugar, isto é, no mundo como aqui enfocado, em situação(22).
Observa-se, com a introdução da fenomenologia na hermenêutica, o ser na existência, na chamada ontologia, isto é, o ser concebido como tendo uma característica comum, inerente a todos e a cada um dos seres(19). Desse modo, ao tornar visível a estrutura do ser no mundo, ela repousa na compreensão e interpretação de como as coisas se manifestam(18), permitindo compreender os sentidos das experiências vividas nas oficinas de massagem com bebês.
Ao se iluminar compreensivamente, este estudo tornou visível o trabalho desenvolvido no programa MEB, permitindo apreender os sentidos de sua construção para aqueles que dele participam. Sistematizada nos espaços das oficinas, a ação educativa trouxe a possibilidade de construção de uma trajetória metodológica própria(17) ao enfatizar a práxis, isto é, a experiência consciente do sujeito em seu mundo-vida, percorrida com estudantes e profissionais.
Local, População e Critérios de Inclusão
Essa trajetória metodológica se refere aos elementos responsáveis pela pertinência e relevância do texto quanto ao contexto em que ocorre, ou seja, à sua adequação à situação sociocomunicativa. Abarca como foram acessadas as descrições dos participantes, incluindo, como região de inquérito, a oficina V. Esse termo se refere à área temática, ou seja, ao conjunto de experiências delimitadas que estão sendo investigadas por meio da metodologia fenomenológica(23).
Por solicitação da coordenação do Programa de Promoção da Saúde/Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares/Departamento de Políticas de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, ministraram-se cinco oficinas de MS na cidade de São José dos Campos, SP. Essas oficinas, destinadas a profissionais de saúde e graduandos de enfermagem, objetivaram formar multiplicadores para operarem com a MS integrada aos trabalhos por eles já desenvolvidos com as gestantes e no segmento com a puericultura. Dessa forma, vislumbrou-se a implantação do GTMEB na rotina de cuidados em saúde materno-infantil pela rede de atenção básica e secundária, nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e na Unidade Casulo do Centro de Lactação, onde já atuavam.
Coleta de Dados
As descrições fenomenológicas foram coletadas pela pesquisadora, ao final de cada evento, das oficinas I, II, III, IV e V, momento no qual os participantes respondiam à seguinte indagação: como foi sua experiência na oficina de MS?
Como a oficina V foi a última a ser ofertada, de forma aleatória, iniciamos a leitura das descrições de seus participantes, elegendo-a como a região de inquérito da pesquisa.
Como a pesquisa qualitativa não requer um número determinado de participantes, o estudo pôde ser encerrado quando os significados já encontrados expressaram conteúdos satisfatórios para a compreensão das suas estruturas essenciais(24). Procedeu-se ainda às leituras iniciais das descrições dos participantes das demais oficinas, não tendo sido encontrados significados relevantes, isto é, que acrescentassem elementos à compreensão do fenômeno. Pode-se, assim, considerar que uma amostra qualitativa ideal é a que reflete, em quantidade e intensidade, as múltiplas dimensões de determinado fenômeno, buscando a qualidade das ações e das interações em todo o decorrer do processo(25).
O critério de inclusão das descrições dos 12 profissionais e de uma estudante – participantes da oficina – contemplava suas participações nos dois módulos da oficina V. Desse modo, trilhou-se a trajetória atenta às suas descrições, com os olhos pautados em seus olhares. Para isso, procurou-se, sem julgamentos, manter em suspensão as opiniões, pressupostos e interpretações, com foco nas experiências por eles vividas, isto é, nos significados relevantes que assinalavam o fenômeno “[...] em resposta à indagação da pesquisa”(17).
Análise e Tratamento dos Dados
Nessa perspectiva, a compreensão se deu por meio do sentido que emergiu como resultado da redução fenomenológica, sendo admitida como um conjunto de asserções significativas que se denominam unidades de significado (USs), as quais apontam para a consciência que o pesquisador tem do fenômeno(23). Seguiu-se, assim, com o apoio do léxico(26), com o cuidado que as USs refletissem certas dimensões do contexto. Após inúmeras leituras das diferentes descrições dos 13 participantes da oficina V – identificadas como D (descrição) I a XIII (com algarismos romanos referindo-se aos participantes da oficina) –, chegou-se à primeira redução fenomenológica. Desta, decorreram de 1 a 59 USs, (apresentadas por números cardinais) em resposta à pergunta da pesquisa. Organizadas, elas geraram sínteses, que estão abertas à interpretação.
Procedendo a uma segunda redução, visualizaram-se 15 temáticas a partir dos elementos essenciais do fenômeno, assim expressas: teoria, técnica e prática; aprendizagem; didática; estratégia metodológica; perspectiva interdisciplinar; propósito; expectativa; descoberta; despertar; falta; congratulação; satisfação; cuidado; avaliação; e agradecimento. Em virtude de seus imbricamentos, ao explicitar as convergências, simultaneamente, procurou-se perfazer uma textura a partir dessas temáticas, o que redundou na reorganização de grandes categorias que, na sequência, com a realização de uma terceira redução, apontam para os temas, assim expressos: (1) Apoio à formação profissional humanizada: diálogos entre teoria, técnica e prática; (2) Contribuição à construção do vínculo mãe/pai-filho e profissionais cuidadores; e (3) Tempo vivido na experiência da oficina do MEB: desvelando sentidos. Porém, para este trabalho, apresenta-se o primeiro tema expresso na sequência.
Aspectos Éticos
O projeto deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, sob o Parecer n° 1.424.084, e obedeceu aos preceitos éticos da Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde(27).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Contemplando a oficina de MS como um espaço em busca de sentido, emergiu aquilo que fora vivido expresso na temática “Apoio à formação profissional humanizada: diálogos entre teoria, técnica e prática”, a partir dos temas “teoria-técnica-prática”, “aprendizagem”, “didática”, “estratégia metodológica” e “perspectiva interdisciplinar”.
Nessa trajetória metodológica, ao enfrentar o desafio da escrita, que se orienta pedagogicamente à experiência vivida, compartilhou-se a seguinte ideia: o ato de escrever reflexivamente sobre a prática de viver possibilita que nos tornemos engajados em uma práxis mais reflexiva(20). Considera-se, portanto, que é por meio da escrita e da leitura que se pode sustentar uma relação conversacional; logo, isso encontra-se relacionado à qualidade da linguagem e da escrita. Dito de outra forma: encontra-se vinculado à capacidade da pesquisadora de dar sentido ao tema em estudo (em tese). Desse modo, a linguagem é o único meio pelo qual podemos converter a experiência pedagógica em uma forma simbólica que, através de sua natureza discursiva, possamos criar uma relação conversacional(20).
Contudo, os saberes da práxis referentes às ciências do espírito, nos quais a ética é o elemento impulsionador e guia de nosso fazer(28), ao se apoiarem em normas e regras — ou seja, na moral —, passam a orientar as diferentes formas de conduta, tanto de quem conduz quanto de quem realiza e recebe a ação prática. Desse modo:
O saber praxiológico da phronesis, enquanto pautado pela excelência das ações que conseguem encontrar os melhores “meios” para atingir um fim justo, ético, tem como objetivo o homem e suas vivências, sem se pautar pela exigência da objetividade e de comprovação daquilo que ele é, considerando-o como um ser de possibilidades, um ser situado no tempo e no espaço, contextualizado, histórico, vivendo em um mundo de incertezas(28).
Entretanto, encontra-se no saber ético da prática (phronesis) a percepção de como o conceito de cuidado no espaço da oficina é diferenciado. Ali a dinâmica é desenvolvida entre os profissionais e a docente, fazendo uso de bonecas para a aprendizagem prática da técnica da MS. Observa-se que as instruções oferecidas servem como guia, pois, não sendo determinantes, quando em sessão de MS com as famílias, podem sofrer adequações ou modificações, conforme o contexto e as circunstâncias manifestadas pelos participantes. Com isso, chama-se a atenção para que os participantes observem as reações e expressões da mãe/pai em relação aos toques, para que sejam respeitados seus sinais de prazer e desprazer. Da mesma forma, observam-se as dos bebês, considerando suas preferências, pois isso favorece o aperfeiçoamento da ação prática, assim como a do ser estudante/profissional do cuidado, auxiliando-o nas melhores escolhas.
Ademais, diante dos trabalhos desenvolvidos no programa MEB, destaca-se a importância de cada integrante da equipe se reconhecer no desenvolvimento das ações de cuidado como detentor e produtor de saberes significativos, estabelecendo trocas por meio de diálogos sistemáticos, em um processo no qual o intercâmbio de experiências é primordial(29).
Essa atmosfera favorecedora de trocas de experiências e conceitos permite ressignificações dos sentidos dados ao vivido, tornando viável o respeito pela espontaneidade dos participantes da oficina e realçando a comunicação entre ações cidadãs e profissionais.
Como os participantes pesquisados são profissionais e estudantes com bagagem de conhecimentos, diante de novas informações que apresentem sentido - aqui tomado na acepção de “consciência de”(22), realizam um esforço para assimilá-las. Assim, diante de um problema, eles indicam a necessidade de superá-lo, como exposto: “Falta ao ser humano moderno o toque” (DVII.US.5); “Principalmente com carinho” (DVII.US.5.1); “Isto promove a cultura de paz” (DVII.US.5.2).
Pela descrição anterior, compreende-se que o sujeito demonstra ter consciência de como hoje as pessoas carecem de contato com o outro, sobretudo com desvelo, e demonstra confiar na MS como estratégia para favorecer as interações humanas e como elemento propulsor ao desenvolvimento de uma cultura de paz.
Nessa direção, “[...] evidencia-se a educação como forma de conscientização, mobilização e prevenção em todos os níveis sociais, e as crianças como sujeitos que podem transportar a paz do patamar da imaginação para a realidade, ao serem cuidadas com amorosidade, o que pode favorecer desdobramentos posteriores”(30).
Contudo, há identificação do participante, conforme mencionado na descrição e consideração sobre como a temática da MS é veiculada pela oficina, indicando o reconhecimento de seus benefícios para a coletividade: “Achei extremamente interessante [...] e muito útil o tema proposto” (DV.US.1).
Considerando sua dimensão teórica, no léxico teoria(26) (do grego, theoría), substantivo feminino, diz respeito aos princípios básicos e elementares de uma arte ou ciência. Aqui, a MS, aliada a alguns princípios, qualifica o diálogo entre a teoria, a técnica e a prática das ações pedagógicas vivenciadas no programa MEB.
A teoria também pode ser compreendida como um sistema [...] que trata de princípios, considerando sistema(26) (do grego, sýstema) como método, modo, forma ou plano e princípio(26) (do latim, principium), aqui visto como fundamento, base da MS.
Esses princípios teóricos também se encontram imbricados com a técnica(26) (substantivo feminino), ou seja, com a maneira ou habilidade especial de executar ou mesmo de ensinar a MS. Isso pode ser visualizada na descrição de outro participante da oficina: “Gostei muito da técnica” (DVI.US.1).
São princípios teórico-técnicos que, aplicados à MS, caracterizam também a didática empregada, ou seja, a ação prática como utilizada pelo programa MEB, a qual possibilita gradativamente o alcance dos efeitos desejados. Para sua compreensão, sugere-se que o profissional se sinta no lugar da mãe/bebê – estratégia didática utilizada ao apresentar a técnica –, ou seja, considere a maneira de ensinar os passos da MS de forma que a mesma seja realizada em conjunto, colocando todos como sujeitos da ação educativa.
Na perspectiva do profissional participante, a experiência na oficina trouxe descobertas: “[...] uma técnica de terapia complementar que não conhecia a fundo” (DV.US.2). Os participantes desvelam a MS como uma estratégia metodológica capaz de aproximar mãe e filho, contribuindo para a otimização do cuidado: “Uma ferramenta para melhorar o vínculo mãe e filho e com isso melhorar as áreas de cuidado” (DIX.US.2); “Essa técnica simples que pode ajudar muito no contato com mãe e filho” (DX.US.2).
Vislumbrando sua dimensão prá.ti.ca (do grego, praktiké, substantivo feminino), localiza-se no léxico(26) a aplicação das regras ou dos princípios de uma arte ou ciência. Nessa mesma perspectiva, Leboyer, ao se reportar à MS, assim poetou:
A massagem dos bebês é uma arte
tão antiga quanto profunda.
Simples, mas difícil.
Difícil por ser simples.
Como tudo o que é profundo(1)
No léxico(26), encontra-se também prá.ti.ca como habilidade [...] adquirida por prolongado exercício – nesse caso, compartilhada com os sujeitos participantes da oficina. Assim, “O saber prático de maneira diferente do saber teórico, ao não poder ser generalizado, poderá ser utilizado como diretriz e orientação(22). Habilidade esta que se atinge de modo singular com o fazer, fazer, fazer...”
Em sua descrição, o participante da oficina sugere: “E a parte prática muito boa também” (DV.US.4). A utilização de bonecos para a aprendizagem foi considerada como adequada, o que encaminha o fenômeno educação a ser iluminado nesse espaçotempo da oficina.
Na sequência das descrições, nota-se que o participante destaca a prática da MS como “ação amorosa”, ocasião adequada para a troca de informações com o bebê por meio dos sentidos, bem como para observá-lo e percebê-lo: “A massagem é um ato de amor, um momento de compartilhar experiências com o bebê, entendê-lo e respeitá-lo. Esta interação só traz benefícios e precisa ser valorizada e propagada” (DVII.US.4). Desse modo, o participante da oficina demonstra estar ciente da reciprocidade e das vantagens que esta prática acarreta, ao enfatizar que a mesma deve ser estimulada, compartilhada e expandida.
Pode-se dizer, nesse contexto, que: “A prática, além de solicitar saberes prévios, que favoreçam o caráter teórico-técnico-prático, em dialogo, exige outros saberes que [...] servem como guia (ético)”(22). A importância desses saberes foi identificada nas descrições: “[...] muito rica as informações acerca do desenvolvimento sensorial, psicomotor que embasa os fundamentos da massagem” (DI. US.3); “E, mais ainda, mostra claramente os benefícios e fortalecimento do vínculo afetivo com o bebê” (DI.US.4).
O profissional indica, em outra descrição, que, embora estivesse na expectativa de aprender apenas os passos da MS, constatou que os saberes foram fartos, com base na teoria disponibilizada sobre o DI: “[...] me surpreendeu, esperava aprender somente a prática da massagem” (DI.US.2). Tais saberes, acrescidos da compreensão das vantagens e da eficácia da intervenção para a ligação afetuosa da mãe com seu bebê, favorecem que o conhecimento avance qualitativamente de forma processual e dinâmica. Embora a MS seja um toque sistematizado sobre a pele, não se isolando dos demais sentidos, ela pode ser considerada uma intervenção multimodal, por favorecer a integração entre os sentidos e a motricidade(17).
Em sintonia com as premissas da pedagogia sócio política freireana(29), observa-se como o trabalho vem sendo desenvolvido de maneira comprometida, por meio de uma relação dialógica que focaliza a educação de forma igualitária e horizontal, expondo como os conhecimentos de natureza teórico-técnica-prática; quando integrados, possuem relevâncias entre si de igual teor.
Assim, ao refletir sobre o que muitas vezes ocorre na música, recorrendo a uma dimensão metafórica ou mesmo a uma variação imaginativa, pode-se vislumbrar quando as vozes ou os instrumentos musicais se alternam ou mesmo estabelecem um diálogo entre si. Como no jazz, é possível remeter à relação imbricada entre a teoria, a técnica e a prática da MS, o que nos possibilita também desvelar um diálogo: onde a teoria carrega o conhecimento milenar da massagem oriental, conjugada aos princípios elencados pelo programa MEB para sua realização. Já a técnica se caracterizou pela transmissão oral sistemática dos passos da MS, desde o oriente, de geração a geração, permitindo que a mesma chegasse até o ocidente e ainda continue a ser realizada e também ensinada até nossos dias. A prática se expressa na ação pedagógica por meio da MS, caracterizada por sua eficácia e sustentada pela teoria do DI, a partir da aplicação continuada da técnica no programa MEB, adaptada e compartilhada com famílias, estudantes e profissionais.
Entretanto, a escolha metodológica e a seleção dos referenciais teóricos trazidos para a temática em foco, sejam esses de caráter observacional, de aprendizado ou de descoberta, junto a fatores motivacionais, indicam a valorização dos sujeitos envolvidos nas ações da MS oferecidas pelas oficinas.
Dessa forma, pensar a ação educativa da MS nesse caminho exige uma preocupação com a educação inserida no contexto mais amplo de valorização das relações humanas, como destacado em outra descrição: “[...] uma forma de valorizar a figura da mãe” (DIX.US.3); e “Melhorar vínculo com o profissional da saúde” (DIX.US.4).
Como um elemento complementar, observa-se ainda outro profissional fazer referência à MS, não só para disponibilizar aos pais/mães-bebês, mas também como recurso para olhá-los e acolhe-los com atenção: “Vai ser uma ferramenta a mais para [observar] e oferecer aos pacientes” (DVI.US.4).
Em outros termos, isso significa que a compreensão de que sempre se sabe alguma coisa remete à possibilidade de saber a partir da experiência vivida e, portanto, poder usar esse conhecimento como ponto de partida para continuar, no processo(29), aprendendo e, dessa maneira, manter a abertura de horizontes, o que possibilita identificar o que seria necessário para que o conhecimento avance(22).
Tal ponto de vista solicita que a docente estude, contextualize, reflita, escreva, dialogue e investigue, pois sua função no ambiente pedagógico da extensão exige a busca de conhecimentos de diversas naturezas, com objetivos definidos, através de estratégias que conduzam à construção de conhecimentos originais(11,17).
Todavia, observa-se a admiração do participante da oficina pelos fundamentos da MS, ao revelar como a experiência foi significativa em termos de ensinamentos e admitir que seria bom ter acesso a mais conhecimentos: “[...] a parte teórica [...] foi maravilhosa e gostaria muito de saber mais” (DV.US.3). Cabe, por fim, mencionar a descrição “Ótima didática da palestrante” (DVIII.US.1), que tece consideração acerca da atuação da professora com referência à estratégia pedagógica utilizada.
Nesse aspecto, o conhecimento é visto como produto da ação e reflexão diante de um problema (conflito cognitivo)(29). Isso pode ser endossado pela compreensão dos participantes da oficina em relação à complexidade dos saberes que dão sustentação a essa ação educativa por meio da MS: “O assunto abrange muitas coisas” (DIV.US.2); “Oficina rica em conhecimentos” (DXI.US.1).
Nesse contexto, a oficina de MS se revela como um meio de aprendizagem com diversos propósitos: fazer com que os profissionais e estudantes compreendam que o paradigma dominante das ciências médicas, centrado em patologias, não responde a alguns de seus anseios sobre cuidados, e sobretudo, quais são as necessidades de saúde das famílias. Ela também enfatiza a importância do conhecimento de outras áreas do saber para que os participantes despertem para a dimensão humana em uma perspectiva interdisciplinar, ética e existencial. A oficina apresenta como se tem pensado e planejado intervenções de cuidado, para além da terapêutica clínica, com ações pautadas pelos conhecimentos do DI mediadas pela MS e situadas na perspectiva das competências do bebê, de seu Ser, considerado protagonista da ação. Dessa forma, valorizam-se suas expressões e capacidades de se relacionar precocemente e de ser parceiro, a fim de motivar a busca pela descoberta da criança pequena.
A compreensão do que pode acontecer com as famílias a partir do estabelecimento de um ritual diário de MS contribui para reforçar as atitudes positivas dos profissionais, despertando o interesse em enfrentar o desafio de construir um trabalho nessa direção. Isso é demonstrado pelo depoimento a seguir, em que a profissional afirma que a oficina despertou sua atenção, assegurando que irá (ela e a equipe) montar o GTMEB na UBS onde trabalha: “Ótimo curso, muito interessante” (DXIII.US.1): “Vamos fazer com certeza na UBS” (DXIII.US.2).
Procura-se, assim, cumprir a função social da academia, por meio da sensibilização de estudantes e profissionais que atuam em creches, escolas de educação infantil, unidades hospitalares e ambulatórios de UBS. Tais locais solicitam que se desenvolvam propostas pautadas pelo compromisso com a interdisciplinaridade como meio dos profissionais se constituírem em equipes.
No contexto do programa MEB, acredita-se que, ao tornar possível a articulação da pesquisa como ação educativa, no âmbito do ensino e da extensão, aliando conhecimentos empíricos e científicos sobre a temática da MS, pautada pelo DI, encontra-se a possibilidade de contribuição para a formação de profissionais da primeira infância, isto é, uma formação dirigida ao desenvolvimento humano(22), com foco na otimização da parentalidade(10).
Considerando a afetividade como necessidade fundamental de todos os seres humanos, indispensável à construção equilibrada da personalidade, pode-se destacar a alfabetização em termos da afetividade e ternura como um objetivo prioritário e um aspecto-chave de todo processo educacional. Além de sua influência no processo vital e de amadurecimento das pessoas, ela tem uma relação inequívoca com a convivência(30).
Dessa maneira, ao considerar o vivido nas oficinas de massagem com bebês, evidencia-se como tal ação educativa pode se constituir um forte recurso auxiliar do profissional tanto no desenvolvimento da sua capacidade de estabelecer relações inteligentes entre os dados e informações obtidas na experiência quanto no âmbito dos conhecimentos construídos.
Reflexões da Experiência Desvelada
A trajetória metodológica de pesquisa fenomenológica hermenêutica possibilitou iluminar as temáticas em suas variadas perspectivas, à procura da construção de intersignificações, bem como permitiu compreender a abordagem proposta à luz das demais formas de conceber os estudos científicos. Foi evidenciado um todo em que os significados puderam circular de acordo com os sentidos atribuídos a cada uma, desvelando o fenômeno da formação profissional humanizada com oficinas de MS: diálogos entre teoria, técnica e prática.
CONCLUSÃO
Os sentidos dados às oficinas apontam perspectivas que auxiliam os profissionais de saúde, tanto no desenvolvimento da capacidade de estabelecer relações humanas nos espaços profissionais quanto na possibilidade de abertura ao compartilhamento das experiências vividas, acrescidas a outras que possam ser construídas em parcerias, situando o foco desta trajetória na dimensão sociopolítica dos vínculos afetivos, ainda hoje pouco compreendidos.
Nos cenários de formação do programa MEB, além de procurar despertar os graduandos e profissionais – participantes da oficina – para uma prática de cuidado mais humano, propõe-se desenvolver ações que organizem e integrem os novos conhecimentos aos já existentes, visando transformações. Daí emerge a possibilidade de que eles experienciem suas próprias ações como sujeitos, pois, ao se situarem e interagirem, constroem a si mesmos e fazem cultura. Eles percebem que o vínculo é também moral, contextual/ético e, inclusive, político.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
Referências bibliográficas
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