INTRODUÇÃO
O impacto gerado pelas ações humanas no planeta está bem estabelecido e muitas discussões são feitas relacionadas a ele(1,2,3). Em contrapartida, menos atenção tem sido dada ao impacto dos serviços de saúde no planeta(4). Reconhece-se que atualmente os serviços de saúde vivenciam um ciclo vicioso, no qual estes geram grandes emissões e impactos ao planeta, que afetam a saúde dos humanos, que por consequência, precisam usar mais os serviços de saúde, o que gera mais impacto ao planeta(5).
Acredita-se hoje que se os serviços de saúde fossem um país, estariam na quinta colocação dentre os maiores emissores de gases de efeito estufa(6). Dentre os setores hospitalares, o Bloco Operatório, composto por Centro Cirúrgico (CC), Recuperação Pós-Anestésica (RPA) e Centro de Material e Esterilização (CME), se destaca como grande gerador de pegada de carbono(7). Considerando-se apenas a pegada de carbono dos CC, estima-se valores entre 28 kg a 505 kg de dióxido de carbono equivalente (CO2e) (8). Embora as quantidades de emissões variem muito dependendo de uma série de fatores, considera-se que um único procedimento cirúrgico emita de 4 a 814 kgCO2e(9,10).
Esta importante pegada de carbono é advinda principalmente dos gases anestésicos e do consumo de energia(7,10), mas a grande quantidade de resíduos gerados, principalmente provenientes de materiais descartáveis(8), também tem grande impacto. Gera-se, apenas nos serviços de saúde dos Estados Unidos da América, cerca de 6 milhões de toneladas de resíduos por ano(11). Além disso, um agravante é o fato de grande parte dos resíduos gerados no CC ser segregada incorretamente(12).
O setor de saúde tem se tornado cada vez mais dependente de materiais de uso único, embora esses materiais reflitam um modelo de economia linear inerentemente insustentável, em que a gestão de resíduos cria um ônus significativo para a saúde pública em termos de poluentes ambientais(13). Neste modelo os itens são produzidos, usados uma única vez e depois descartados.
Dentre o total de resíduos gerados na assistência à saúde, 85% é considerado resíduo comum, comparável aos resíduos domésticos, enquanto apenas 15% seria composto por material infeccioso, tóxico, carcinogênico, inflamável, corrosivo, reativo, explosivo ou radioativo(14). Não fosse pelas falhas de segregação comumente observadas, grande parte dos resíduos gerados poderiam ser reciclados ou recuperados(15,16).
Vale destacar que tanto reciclagem como recuperação de dispositivos médicos têm uma série de desvantagens e dificuldades de implementação(17). Questões como reciclabilidade e interesse comercial impactam enormemente a viabilidade dessas possibilidades. Assim, o foco dos profissionais de saúde deve ser, primeiramente, reduzir o consumo.
Considerando-se que o volume de cirurgias no mundo todo vem aumentando e que há previsão de manutenção dessa tendência(18,19), é imperativo que ações sejam tomadas nos Blocos Operatórios, a fim de mitigar o impacto causado ao planeta. Para que seja possível romper o ciclo vicioso(5) do impacto ambiental negativo gerado pelos serviços de saúde, ações de mitigação precisam ser implementadas.
Estudos têm mostrado muitas possibilidades de ações sustentáveis possíveis de serem implementadas em Blocos Operatórios. Várias possibilidades podem ser implantadas na própria estrutura física e material e com os recursos humanos já existentes nestes setores. Já outras propostas requerem que ações na prevenção de doenças e revisões nas escolhas de tratamento sejam instituídas, para que estes sejam menos invasivos ou intervencionistas(5,20).
Várias são as possibilidades propostas, e até já implementadas, disponíveis na literatura científica, como eliminar o uso de gases anestésicos com grande impacto ambiental, como o óxido nitroso; o uso consciencioso de oxigênio na RPA e durante as cirurgias; instalar sensores de presença para iluminação e ar condicionado; o reuso de dispositivos médicos; o uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual e de saneantes; a revisão de kits e caixas cirúrgicas; a substituição de materiais descartáveis por reutilizáveis; inventários bem administrados e prazos limites para uso coerentes no CME; a segregação adequada dos resíduos; atenção ao gasto energéticos de equipamentos na função stand by; etc.
Ressalta-se que para que essas ações tenham impacto, as instituições devem investir em treinamentos e capacitações(21). Bem como identificar possíveis lideranças transformacionais ambientalmente específicas, que visem influenciar trabalhadores a se envolverem em um comportamento voluntário pró-ambiental(22), pois o envolvimento das comunidades locais nos processos de tomada de decisão é um importante aspecto do desenvolvimento sustentável.
O Desenvolvimento Sustentável é aquele que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades(23). Enfermeiros dos Blocos Operatórios podem estar à frente das iniciativas que integram de forma sinérgica governo, empresas, universidades, sociedade civil e o ambiente ecológico natural das comunidades, considerando necessidades ecológicas na produção de conhecimento, inovação e implementação de protocolos, no que é conhecido como modelo de hélice quíntupla(24).
Tomar medidas inteligentes e informadas para promover a equidade em vários ambientes, garantindo a Saúde Planetária, é também função dos profissionais do Bloco Operatório. Assim, contextualizar, desenvolver soluções e possibilitar a implementação de ações que dialoguem com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e suas metas correspondentes, permitirá mitigar os impactos negativos da assistência prestada no Bloco Operatório à saúde do planeta.
Medidas ecologicamente corretas, embasadas em evidências, que visem conservar os recursos naturais e o habitat do planeta, sem ameaçar a segurança do paciente ou profissionais envolvidos na assistência prestada, devem ser tomadas. Para tanto, é necessário sensibilização, conscientização e disposição para mudar, a fim de possibilitar um ciclo virtuoso na assistência à saúde perioperatória e nos Blocos Operatórios como um todo. Acreditar que as mudanças devem vir apenas do Estado ou organizações comerciais terceiriza a responsabilidade relacionada à Saúde Planetária, que também é do indivíduo, do profissional. É de todos nós.
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