Este documento está relacionado com:
Este documento está relacionado com:

Open-access Perfil clínico-epidemiológico e laboratorial de pessoas com tuberculose em centro de referência: estudo de coorte, Belo Horizonte, 2013-2021

Resumo

Objetivo  Investigar o perfil clínico-epidemiológico e laboratorial de pessoas com tuberculose.

Métodos  Estudo clínico epidemiológico com delineamento observacional. Trata-se de uma coorte de pessoas com tuberculose atendidas no Ambulatório de Referência Secundária do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, de janeiro de 2013 a agosto de 2021. Os casos foram avaliados a partir do diagnóstico e acompanhados após a entrada no ambulatório até o segundo mês de tratamento, assim como no encerramento. Os dados foram coletados por meio de entrevista e/ou consulta de prontuários, do Sistema de Informação de Agravos de Notificação e do Sistema de Informação de Tratamento Especiais da Tuberculose.

Resultados  Foram identificados 227 casos: 40,1% com tuberculose pulmonar; 50,7% com tuberculose extrapulmonar; e 9,2% com ambas as formas. Na primeira consulta, a principal sintomatologia das pessoas com tuberculose pulmonar foi tosse, em 76,9% dos casos; na tuberculose extrapulmonar, foi associada ao órgão acometido; na tuberculose pulmonar e extrapulmonar, foi anorexia, em 47,6% dos casos. A comorbidade mais frequente foi diabetes, em 20,7% dos casos. Ao final do segundo mês, houve melhora clínica, laboratorial e radiológica. O desfecho foi cura em 92,5% dos casos, e o tratamento diretamente observado foi realizado em 7,6% dos casos.

Conclusão  A tuberculose extrapulmonar foi a mais frequente, a frequência de realização do tratamento diretamente observado foi baixa e a taxa de cura elevada. A determinação de perfis populacionais nas Referências Secundárias identifica desfechos que podem evidenciar a qualidade do cuidado ofertado.

Palavras-chave
Tuberculose; Comorbidade; Atenção Secundária à Saúde; Sistemas de Saúde; Estudos de Coortes

Abstract

Objective  To investigate the clinical, epidemiological, and laboratory profile of people with tuberculosis.

Methods  This was an observational clinical-epidemiological cohort study of people with tuberculosis treated at the Secondary Referral Outpatient Clinic of the Hospital das Clínicas of the Federal University of Minas Gerais, from January 2013 to August 2021. The cases were evaluated from the diagnosis onward and followed after entry into the outpatient clinic until the second month of treatment, as well as at the end of treatment. Data were collected through interviews and/or review of medical records, the Notifiable Health Conditions Information System, and the Special Tuberculosis Treatment Information System.

Results  A total of 227 cases were identified: 40.1% with pulmonary tuberculosis, 50.7% with extrapulmonary tuberculosis, and 9.2% with both forms. At the first visit, the main symptom among those with pulmonary tuberculosis was cough (76.9%); in extrapulmonary tuberculosis, symptoms were associated with the affected organ; and in pulmonary and extrapulmonary tuberculosis, anorexia was reported in 47.6% of cases. The most frequent comorbidity was diabetes (20.7%). By the end of the second month, clinical, laboratory, and radiological improvement was observed. Treatment outcome was cure in 92.5% of cases, and directly observed treatment was performed in 7.6%.

Conclusion  Extrapulmonary tuberculosis was the most frequent form, directly observed treatment was rarely implemented, and the cure rate was high. Determining population profiles in Secondary Referral Centers identifies outcomes that may indicate the quality of care provided.

Keywords
Tuberculosis; Comorbidity; Secondary Care; Health Systems; Cohort Studies

Resumen

Objetivo  Investigar el perfil clínico-epidemiológico y de laboratorio de personas con tuberculosis.

Métodos  Estudio clínico-epidemiológico con diseño observacional. Se trata de una cohorte de personas con tuberculosis atendidas en el Ambulatorio de Referencia Secundaria del Hospital de Clínicas de la Universidad Federal de Minas Gerais, de enero de 2013 a agosto de 2021. Los casos fueron evaluados a partir del diagnóstico y acompañados tras la entrada en el ambulatorio hasta el segundo mes de tratamiento, así como en el cierre. Los datos fueron recolectados mediante entrevista y/o consulta de historias clínicas, del Sistema de Información de Agravamientos de Notificación y del Sistema de Información de Tratamiento Especial de la Tuberculosis.

Resultados  Se identificaron 227 casos: 40,1% con tuberculosis pulmonar; 50,7% con tuberculosis extrapulmonar; y 9,2% con ambas formas. En la primera consulta, la principal sintomatología de las personas con tuberculosis pulmonar fue tos, en el 76,9% de los casos; en la tuberculosis extrapulmonar, estuvo asociada al órgano afectado; en la tuberculosis pulmonar y extrapulmonar, fue anorexia, en el 47,6% de los casos. La comorbilidad más frecuente fue la diabetes, en el 20,7% de los casos. Al final del segundo mes, hubo mejoría clínica, de laboratorio y radiológica. El desenlace fue curación en el 92,5% de los casos, y el tratamiento directamente observado se realizó en el 7,6% de los casos.

Conclusión  La tuberculosis extrapulmonar fue la más frecuente, la frecuencia de realización del tratamiento directamente observado fue baja y la tasa de curación elevada. La determinación de perfiles poblacionales en las Referencias Secundarias identifica desenlaces que pueden evidenciar la calidad de la atención ofrecida.

Palabras clave
Tuberculosis; Comorbilidad; Atención Secundaria de Salud; Sistemas de Salud; Estudios de Cohortes

Aspectos éticos

Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:

Comitê de ética em pesquisa: Universidade Federal de Minas Gerais

Número do parecer: 5.000.382

Data de aprovação: 27/9/2021

Certificado de apresentação de apreciação ética: 95206318.3.0000.5149

Registro do consentimento livre e esclarecido: Obtido de todos os participantes antes da coleta.

Introdução

Milenar, endêmica e universal, a tuberculose é uma das doenças mais antigas que ainda desafia a humanidade (1). Ela voltou a ser a principal causa de óbito por um único agente infeccioso no mundo após a pandemia de covid-19 (2). Globalmente, estima-se que 10,8 milhões de pessoas adoeceram, e que 1,09 milhão morreram em 2023 (3).

No Brasil, foram notificados 84.308 casos novos em 2024. Houve elevação de 21% no número de casos novos de 2020 a 2024 (4). Em Minas Gerais, foram notificados 4.503 casos novos em 2023. A região metropolitana de Belo Horizonte se destaca por concentrar cerca de um terço das notificações do estado (5). Nessa capital, o Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais atende casos complexos de tuberculose da capital, da região metropolitana e de cidades do interior.

Diante do contexto epidemiológico e das consequências da desestruturação do sistema de saúde pós-pandemia, o enfrentamento da tuberculose exige abordagens em diversos níveis, global, nacional, regional, local e específico (1). A identificação do perfil clínico-epidemiológico e laboratorial dos casos de tuberculose revela as peculiaridades clínicas e sociais de um determinado grupo, o que pode ser comparado a outras realidades. Assim, é possível detectar e tratar os indivíduos de maneira diferenciada em cada região, além de avançar na oferta do cuidado universal (6).

Estudos que avaliem as características demográficas e clínicas dos indivíduos com tuberculose são fundamentais, pois permitem planejamento de estratégias efetivas com as especificidades de cada população (2),6). Diante disso, o objetivo deste estudo foi investigar o perfil clínico-epidemiológico e laboratorial de pessoas com tuberculose.

Métodos

Delineamento

Estudo clínico epidemiológico com delineamento observacional. Foi conduzida uma coorte de pessoas com tuberculose, que consiste no acompanhamento de casos com uma característica em comum, expostas e não expostas a determinado fator até a ocorrência de um evento futuro (7). O seguimento ocorreu até o final do tratamento da doença, que poderia durar seis, nove ou 12 meses após definição pela equipe médica. A ferramenta Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology foi utilizada como guia para o relato do estudo.

Contexto

Foram avaliados todos os casos do Ambulatório de Referência Secundária (1) do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais que receberam diagnóstico de tuberculose no período de janeiro de 2013 a agosto de 2021 (linha de base). Após o diagnóstico e a entrada no ambulatório, as pessoas foram acompanhadas ao final do segundo mês de tratamento (primeiro momento de reavaliação) e ao final do tratamento (segundo momento de reavaliação) (Figura 1).

Figura 1
Estratificação temporal da coorte de pessoas com tuberculose atendidas no Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2013-2021

Participantes

Foram incluídos casos novos de tuberculose, com idade igual ou maior a 18 anos, que iniciaram e/ou acompanharam o tratamento no ambulatório. Foram excluídos casos de retratamento, de mudança de diagnóstico e de pessoas vivendo com o HIV (vírus da imunodeficiência humana), pois o ambulatório não é referência para o atendimento delas.

Variáveis

As variáveis avaliadas na linha de base foram:

  • Características sociodemográficas: forma de coleta de dados; procedência; sexo; raça/cor da pele; estado civil; faixa etária; escolaridade; e avaliação de moradores (avaliação do coabitante do participante por algum profissional da saúde. Se o participante tinha acometimento pulmonar, seu coabitante era contato intradomiciliar; se tinha tuberculose extrapulmonar, seu coabitante poderia ser caso fonte (1)).

  • Características clínico-epidemiológicas: forma clínica da tuberculose (pulmonar, extrapulmonar, ou pulmonar e extrapulmonar); sintomatologia geral, pulmonar e extrapulmonar (anorexia, adinamia, febre, sudorese noturna, tosse, tempo de tosse em semanas, expectoração, dor torácica, dispneia, outra sintomatologia); contato com tuberculose pulmonar nos últimos dois anos; comorbidades (tratadas com imunossupressor, diabetes, doença renal crônica, doenças hepáticas, doença pulmonar obstrutiva crônica, neoplasia, transtornos mentais, presença de comorbidades); e hábitos de vida (tabagismo, considerando-se ex-tabagista quem cessou o hábito a pelo menos um ano; etilismo, considerando-se ex-etilista quem cessou a qualquer momento).

  • Dados laboratoriais e radiológicos (8): baciloscopia; cultura para micobactérias; testes de identificação e de sensibilidade aos fármacos; teste rápido molecular para tuberculose; e radiografia de tórax (padrões: sugestivo, atípico/outra doença ou normal) (1). Na ausência da radiografia, foi considerada a tomografia computadorizada de tórax (padrões: típico, de outras doenças ou normal) (9-11).

Nos casos com diagnóstico sem confirmação fenotípica e/ou genotípica, foram realizados prova tuberculínica ou Interferon Gamma Release Assay. Quando positivos, isoladamente, esses testes indicam infecção latente. Associados a dados epidemiológicos, clínicos, laboratoriais, de imagem, histopatológicos e à exclusão de outros diagnósticos, podem sugerir doença ativa, principalmente nas formas clínicas não confirmadas (1,12).

As variáveis avaliadas no seguimento (ao final do segundo mês e do tratamento) foram:

  • Adesão ao tratamento; reações adversas a medicamentos (náuseas/vômitos, neurite periférica, prurido, urina vermelha, dor abdominal, diarreia, azia, vertigem, anorexia, dor articular, exantema, insônia/sonolência, cefaleia, hepatotoxicidade, não apresentou); sintomas (anorexia, febre, sudorese noturna, tosse, expectoração, dor torácica, dispneia); baciloscopia; cultura para micobactérias; radiografia de tórax; e realização do tratamento diretamente observado.

  • Ao final do tratamento, foram avaliados os desfechos: cura; interrupção do tratamento; óbito por tuberculose; óbito por outras causas; transferência; e falência (8).

Fontes de Dados e Mensuração

Após confirmação dos critérios de inclusão e de atendimento médico, as pessoas eram convidadas a participar da entrevista, realizada no próprio ambulatório e guiada pelo preenchimento de um questionário. Em seguida, ou na ausência do participante para a entrevista, o prontuário médico era avaliado e igualmente guiado pelo preenchimento do questionário. Também foram consultados o Sistema de Informação de Agravos de Notificação e o Sistema de Informação de Tratamento Especiais da Tuberculose.

Os questionários foram digitados na plataforma REDCap do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (13). O REDCap é um sistema operacional que permite coleta e gerenciamento de dados de pesquisas e foi disponibilizado gratuitamente para a criação do banco de dados online deste estudo (14), o qual foi depositado no repositório SciELO Data (15).

Viés

Viés de seleção: para minimizá-lo, os membros da pesquisa consultavam pessoalmente o parecer da médica, coordenadora principal, antes de convidarem as pessoas para entrevista ou de consultarem o prontuário. Os casos que preenchiam os critérios de inclusão após a avaliação dela no atendimento médico foram incluídos no estudo sem perda na captação e com redução desse viés imediatamente na entrada.

Viés de informação: para minimizá-lo, ocorreu capacitação dos integrantes pela coordenadora. O questionário utilizado foi elaborado por pesquisadores da Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose. Foi realizado treinamento para aplicação dos questionários e preenchimento do REDCap. Cada caso incluído na pesquisa foi desidentificado e recebeu uma codificação numérica no questionário e no REDCap. As informações preenchidas foram conferidas e validadas nessa plataforma pelo pesquisador principal.

Tamanho do estudo

Estudo censitário, constituído por todos que receberam diagnóstico de tuberculose. Para identificar elegibilidade, foram avaliadas todas as agendas manuais com as consultas médicas agendadas pela coordenadora principal. Para aumentar a acurácia desse procedimento, ao final dos dias de atendimento no ambulatório, os membros da pesquisa reavaliavam com a coordenadora a inclusão dos casos.

Métodos estatísticos

Foram realizadas análises descritivas simples com a distribuição de frequências absolutas (n) e relativas (%) para as variáveis categóricas. Para as variáveis contínuas, utilizaram-se medidas de tendência central e de dispersão. Os participantes do estudo foram caracterizados com relação às variáveis selecionadas e estratificados de acordo com a forma clínica de tuberculose. Inicialmente, o teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para verificar a distribuição normal dos dados e fundamentar o emprego de testes paramétricos nas análises de comparações múltiplas. Utilizou-se o teste do qui-quadrado com correção de Bonferroni para comparar as três formas clínicas em relação às variáveis sociodemográficas (variáveis categóricas), considerando o nível de significância estatística de p-valor 0,05. As análises foram realizadas por meio do software SAS (16). Os dados faltantes foram excluídos.

Resultados

Foram recrutadas 279 pessoas. Dessas, foram excluídas 52: 39 pessoas estavam em retratamento, 11 tiveram mudança de diagnóstico e duas viviam com o HIV. Após as exclusões, seguiu-se com 227 pessoas.

Em 2013, foram incluídas 25 pessoas no estudo; em 2014, 37 pessoas; em 2015 e em 2016, 16 pessoas em cada ano; em 2017, 28; em 2018, 25; em 2019, 30; em 2020, 19; em 2021, até o mês de agosto, 31 pessoas. A coleta de dados foi realizada por entrevista e análise de prontuários em 78,0% dos casos, e por análise de prontuários isolada em 22,0% dos casos.

Foram diagnosticadas 40,1% pessoas com tuberculose pulmonar, 50,7% com tuberculose extrapulmonar e 9,2% com ambas as formas. Ao final do segundo mês de tratamento, foram avaliadas 204 pessoas, pois 23 foram consideradas perdas, das quais: dez entraram no ambulatório após o seguimento; nove iniciaram o tratamento, mas foram transferidas antes do seguimento; duas foram a óbito; uma estava em internação hospitalar; e uma teve perda de registro do prontuário e não foi entrevistada. Ao final do tratamento, foram analisadas 197 pessoas, pois ocorreram 30 perdas a partir da entrada, das quais: 17 foram transferidas; seis evoluíram para óbito; três interromperam o tratamento; três faltaram à consulta médica; e uma estava em internação hospitalar.

As características sociodemográficas dos 227 casos que iniciaram o estudo estão descritas na Tabela 1. Observa-se maior frequência de pessoas residentes em Belo Horizonte/região metropolitana (84,1%), do sexo masculino (50,7%), da raça/cor da pele preta/parda (77,1%), casadas/união estável (52,0%). Nas amostras de pessoas com tuberculose extrapulmonar e tuberculose pulmonar e extrapulmonar, o sexo feminino prevaleceu em 53% dos casos e em 61,9%, respectivamente. Houve diferença estatística em relação à raça/cor da pele (preta/parda versus branca) entre pessoas com tuberculose extrapulmonar comparadas às com tuberculose pulmonar (p-valor 0,035), e entre pessoas com tuberculose extrapulmonar comparadas às com tuberculose pulmonar e extrapulmonar (p-valor 0,023). A mediana de idade foi 52 anos, sendo mais frequente a faixa etária de 30 a 69 anos (76,6%). Quanto ao tempo de escolaridade, 93,9% pessoas estudaram quatro anos ou mais. Em relação à avaliação dos moradores que coabitam com as pessoas com tuberculose extrapulmonar, em 43,4% dos casos não houve investigação de doença ativa.

Tabela 1
Características sociodemográficas das pessoas com tuberculose atendidas no Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2013-2021 (n=227)

Os dados clínico-epidemiológicos na primeira consulta estão descritos na Tabela 2. Os principais sintomas das pessoas com tuberculose pulmonar foram tosse por mais de duas semanas e expectoração. A comorbidade mais frequente foi diabetes, presente em 25,3% dos casos. Dentre os participantes, 61,2% eram ex-tabagistas ou tabagistas, enquanto 56,2% deles eram etilistas ou ex-etilistas.

Tabela 2
Dados clínico-epidemiológicos das pessoas com tuberculose na primeira consulta realizada no Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2013-2021 (n=227)

Na tuberculose extrapulmonar, outras sintomatologias foram as mais frequentes: 85,2% pessoas apresentaram outras queixas relacionadas ao órgão acometido (Tabela 2). Os sítios extrapulmonares acometidos foram: ocular, em 51,3% dos casos; pleural, em 10,4%; geniturinário, em 8,7%; ganglionar, em 7,0%; doença disseminada, em 6,1%; osteoarticular, em 6,1%; meningoencefálico, em 5,2%; cutâneo, em 4,3%; e peritoneal, em 0,9% dos casos. A comorbidade mais frequente foi diabetes, em 13,0% dos casos. O tabagismo estava presente em 39,6% dos casos, e 48,6% pessoas eram etilistas ou ex-etilistas.

Na tuberculose pulmonar e extrapulmonar, os principais sintomas foram anorexia, tosse por mais de duas semanas e febre (Tabela 2). Comorbidades, cujo tratamento envolvia o uso de imunossupressor, foram as mais frequentes (47,6%). O tabagismo estava presente em 25,0% dos casos, e 42,1% pessoas eram etilistas ou ex-etilistas. Os sítios de acometimento extrapulmonar foram: doença disseminada, em 33,3% dos casos; pleural, em 33,3%; ganglionar, em 23,8%; meningoencefálico, em 4,8%; e peritoneal, em 4,8% dos casos.

Quantos aos dados laboratoriais no diagnóstico da tuberculose pulmonar: as baciloscopias foram positivas em 40/74 (54,0%) pessoas; as culturas para micobactérias foram positivas em 53/59 (89,8%); os testes de sensibilidade aos fármacos de primeira linha foram resistentes em 8/45 (17,8% - cinco à isoniazida, sendo um desses associado à resistência à estreptomicina, e três à estreptomicina). O teste rápido molecular para tuberculose foi detectado em 29/42 (69,0%) pessoas.

Em relação aos dados laboratoriais no diagnóstico da tuberculose extrapulmonar: as baciloscopias foram positivas em 5/37 (13,5%) pessoas; as culturas para micobactérias foram positivas em 13/32 (40,6%); os testes de sensibilidade aos fármacos de primeira linha foram sensíveis em 7/7 (100%). O teste rápido molecular para tuberculose foi detectado em 13/16 (81,3%) pessoas.

Os dados laboratoriais no diagnóstico da tuberculose pulmonar e extrapulmonar foram: baciloscopias positivas em 4/17 (23,5%) pessoas; culturas positivas em 8/9 (88,9%); no teste de sensibilidade, 1/5 (20%) pessoa era resistente (à estreptomicina). O teste rápido molecular para tuberculose foi detectado em 4/5 (80%) pessoas.

Os exames de imagem do tórax foram realizados em 87 pessoas com tuberculose pulmonar, 101 com tuberculose extrapulmonar e 21 com tuberculose pulmonar e extrapulmonar. A imagem não foi avaliada em 7,9% dos casos. Nos casos com acometimento pulmonar, as imagens eram sugestivas de tuberculose ativa (67/80, 83,75% das radiografias; e 27/27, 100% das tomografias).

Os dados clínicos, radiológicos e laboratoriais ao final do segundo mês de tratamento estão descritos na Tabela 3. Compareceram à consulta 89,9% das pessoas incluídas no estudo. Dessas, 95,6% aderiram ao tratamento, e 9,3% receberam o tratamento diretamente observado. A reação adversa a medicamentos mais frequente foi náusea/vômitos (42,6%), em todas as formas clínicas.

Tabela 3
Dados clínicos, radiológicos e laboratoriais das pessoas com tuberculose ao final do segundo mês de tratamento atendidas no Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2013-2021 (n=204)

Os dados clínicos, radiológicos e laboratoriais ao final do tratamento estão descritos na Tabela 4. Dos casos incluídos na linha de base, 86,8% compareceram à consulta. Desses, 94,4% aderiram ao tratamento. O tratamento diretamente observado foi realizado em 7,6% dos casos. A reação adversa a medicamentos mais frequente foi urina vermelha (17,3%), independente da forma clínica. Houve melhora clínica, laboratorial e radiológica. O principal desfecho foi cura, em 92,5% pessoas, e 1,3% interromperam o tratamento.

Tabela 4
Dados clínicos, radiológicos e laboratoriais das pessoas com tuberculose atendidas no Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais ao final do tratamento. Belo Horizonte, 2013-2021 (n=197)

Discussão

Este estudo revelou que o número de atendimentos no ambulatório apresentou flutuações seguidas por recuperação, mesmo nos anos iniciais da pandemia de covid-19. Isso pode ser justificado pela manutenção de funcionamento do setor e pela busca ativa pelos seus serviços por meio de ligações telefônicas. Foi observado que o perfil de atendimento é formado por moradores de Belo Horizonte/região metropolitana, da raça/cor preta/parda, em meia-idade, com alfabetização avançada, portadores de tuberculose extrapulmonar associada a diabetes e que fazem uso de cigarro e álcool. O seguimento foi marcado pela presença de reações adversas a medicamentos menores (1), pelo tratamento bem-sucedido e pela ausência do tratamento diretamente observado.

Uma das limitações do estudo foi a utilização de dados secundários, que poderiam interferir na qualidade dos resultados (17) quando os prontuários estavam incompletos ou não foram encontrados. Porém, foram poucos casos em que a análise de dados ocorreu apenas nos prontuários e, mesmo nessas situações, a perda foi pequena. Os resultados deste trabalho não podem ser extrapolados para outras referências que estejam em outro nível de complexidade. Os trabalhos que descrevem os perfis atendidos nas Referências Secundárias no Sistema Único de Saúde permitem que se conheçam as realidades desse nível de atenção, o que denota a relevância deste estudo.

A forma clínica da tuberculose mais frequente encontrada foi a extrapulmonar, por se tratar de uma competência de atendimento das Referências Secundárias (1,18). Compete a uma Referência Secundária de tuberculose atender: casos com acometimento extrapulmonar; casos associados a comorbidades graves ou a complicações clínicas; intolerâncias medicamentosas e/ou reações adversas maiores ao tratamento que não necessitem de internação (1,18).

As pessoas eram provenientes, em sua maioria, da capital e da região metropolitana, região que se destaca por concentrar aproximadamente um terço dos casos de tuberculose do estado (5) e onde o local do estudo está situado. Devido a essa realidade, a maior demanda com necessidade de atendimento pertence a essa unidade de referência. Acredita-se que a população residente nessa região urbana tenha facilidade em acessar o ambulatório, o que favorece a adesão ao tratamento.

A tuberculose acomete principalmente indivíduos do sexo masculino (19). Há correlação com os dados epidemiológicos nacionais (4) e estaduais (5). Em 2025, 68,2% dos brasileiros com tuberculose eram do sexo masculino. Neste trabalho, quando houve acometimento extrapulmonar, a predominância foi no sexo feminino. Fatores que podem comprometer a imunidade ao longo do tempo, como a flutuação dos níveis de estrógeno, possivelmente, aumentam a chance de infecção pela micobactéria, que pode desencadear doença ativa após anos de latência nesse sexo (20). A forma extrapulmonar é mais prevalente em mulheres e mais difícil de ser descoberta (21).

Este estudo revelou predominância da raça/cor de pele preta/parda em todos os tipos de tuberculose. Isso corrobora os dados epidemiológicos nacionais (4) e estaduais (5). Em 2025, 65,8% dos brasileiros com tuberculose eram pessoas pretas/pardas. Neste estudo, a significância foi maior no grupo da tuberculose extrapulmonar, pois a predominância nessa forma foi ainda mais relevante. A prevalência da doença em pretos e pardos pode ser explicada por vulnerabilidades históricas nesse grupo, relacionadas a menores rendas, acesso limitado ao sistema de saúde e menores níveis de educação, em comparação com outras raças/cores de pele (22).

O acometimento da tuberculose foi maior na idade produtiva, em casados/união estável e com escolaridade avançada. Em relação à faixa etária e ao estado civil, os dados foram semelhantes aos nacionais (4) e aos encontrados em uma pesquisa realizada em Belo Horizonte, Minas Gerais (23). Quanto aos dados da escolaridade, esses foram semelhantes aos descritos em estudos de Rondônia (24) e do Espírito Santo (7), porém, divergentes de estudos de Belo Horizonte (23) e de Pernambuco (25). Provavelmente, essas divergências existem devido às características próprias dos estudos realizados em diferentes serviços de Atenção Primária, Secundária ou Terciária (1).

A avaliação dos contatos domiciliares foi efetiva dentre os casos com acometimento pulmonar, tendo-se em vista a importância de identificar os infectados pelo Mycobacterium tuberculosis e os doentes para controle da doença (1). A baixa proporção da avaliação dos coabitantes das pessoas com tuberculose extrapulmonar pode impactar na descoberta dos casos fonte. Isso dificulta a prevenção de casos novos de tuberculose (1).

O sintoma mais frequente na tuberculose com acometimento pulmonar foi tosse por período igual ou superior a duas semanas. Essa investigação está de acordo com o Protocolo Clínico e Operacional para o Controle da Tuberculose em Minas Gerais (18), que recomenda a suspeição de tuberculose com esse tempo de sintoma. Dessa maneira, é possível excluir causas mais agudas de tosse, como as causadas por doenças virais, além de identificar mais precocemente casos transmissíveis de tuberculose.

Observa-se que poucas pessoas relataram contato com casos de tuberculose pulmonar, provavelmente devido ao estigma associado à doença (1). Quanto à forma extrapulmonar, a tuberculose ocular foi predominante, possivelmente porque, no mesmo serviço, funciona um ambulatório de oftalmologia especializado em tuberculose ocular. As pessoas atendidas nesse setor são avaliadas em conjunto com os profissionais da Referência Secundária.

A comorbidade mais frequente foi diabetes, o que corrobora o estudo da World Diabetes Foundation, que descreve aumento dessa comorbidade associada à tuberculose, principalmente em países de baixa renda, incluindo o Brasil (26). Essa constatação pode estar relacionada ao aumento de casos de diabetes nos brasileiros associado à manutenção de incidências elevadas de tuberculose, o que a literatura chama de sindemia de tuberculose-diabetes (27-28). Viver em domicílios com densidade superior a duas pessoas por cômodo, desemprego e renda per capita são determinantes que se relacionam a essa sindemia no país (22).

O consumo de cigarro ou de álcool foi prevalente. Esses hábitos de vida são considerados fatores de risco para o desenvolvimento da tuberculose (29). Estratégias direcionadas a essa população são prioritárias para a cessação de tais hábitos desfavoráveis (29).

Em relação aos testes laboratoriais, nem todos realizaram teste rápido molecular, baciloscopia ou cultura para micobactérias, pois a maioria dos casos não tinha amostras biológicas disponíveis para a realização dos testes, ou já estava em tratamento. Das culturas para micobactérias positivas para Mycobacterium tuberculosis, a maioria era sensível aos fármacos.

Os exames de imagem do tórax devem fazer parte da investigação da tuberculose, independentemente da forma clínica, sendo a radiografia de tórax o principal método de escolha, pela disponibilidade. Porém, a tomografia computadorizada tem recebido destaque, por ser mais sensível (1,18). Neste estudo, a radiografia foi o método mais realizado, e o padrão mais frequente foi sugestivo de doença ativa, bem como na tomografia. Algumas pessoas não tiveram suas radiografias avaliadas, pois o diagnóstico havia sido realizado em outros serviços e elas não levaram as imagens.

No final do segundo mês e do tratamento, houve melhora clínica, laboratorial e radiológica. A ocorrência das reações adversas a medicamentos foi mais frequente ao final do segundo mês, conforme outro estudo realizado em Belo Horizonte (23).

A maioria não realizou o tratamento diretamente observado. O modelo hospitalocêntrico em um nível de Atenção Secundária pode dificultar a implementação e a avaliação dessa estratégia. Ainda assim, o desfecho mais frequente foi cura (92,5%), cuja proporção está acima da preconizada pela Organização Mundial de Saúde (acima de 85%) (2,29). O índice de interrupção do tratamento (1,32%) foi concordante com o parâmetro estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (até 5%) (2,29). No Brasil, em 2023, 66% pessoas curaram e 15,2% interromperam o tratamento (4).

Uma medida adotada pelo serviço ao longo da última década foi a busca ativa, por meio de ligações telefônicas, das pessoas que não compareciam ao final dos atendimentos. No insucesso da ação, ocorria a comunicação com as Secretarias Municipal ou Estadual de Saúde, para que elas fossem encontradas e reagendadas. Acredita-se que essa busca ativa tenha impactado na adesão ao tratamento e, por conseguinte, na taxa de cura elevada.

Neste estudo, a tuberculose extrapulmonar foi a mais frequente, a frequência de realização do tratamento diretamente observado foi baixa e a taxa de cura foi elevada. A determinação de perfis populacionais nas Referências Secundárias deve ser endossada, pois identifica particularidades de pessoas com maior risco de adoecimento e desfechos que podem evidenciar a qualidade do cuidado ofertado.

Referências bibliográficas

Editado por

Disponibilidade de dados

O banco de dados e os códigos de análise utilizados estão disponíveis no repositório SciELO Data (15) por meio do link: https://doi.org/10.48331/scielodata.PIBCBT.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2025
  • Aceito
    20 Ago 2025
location_on
Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente - Ministério da Saúde do Brasil SRTVN Quadra 701, Via W5 Norte, Lote D, Edifício P0700, CEP: 70719-040, +55 (61) 3315-3464 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: ress.svs@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro