Open-access Incursões no Fundo Milton Santos no acervo do IEB: a fotografia de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos

Incursions on the Milton Santos Fund in the IEB collection: the photography of Adalgisa Umbelina de Almeida Santos

RESUMO

Identificar uma fotografia de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos, mãe do geógrafo e intelectual negro Milton Santos, em meio ao complexo e volumoso Fundo Milton Santos, parte do acervo arquivístico do IEB, pode suscitar muitas questões. Partindo da busca por entender qual seria o lugar dessa imagem em um conjunto documental marcado principalmente pelos grandes temas que compõem o projeto intelectual do geógrafo, podemos trazer à tona desde elementos não tão visíveis das trajetórias de intelectuais negros até indagações sobre onde estão os negros no pensamento brasileiro e sua representação em instituições como o próprio IEB.

PALAVRAS-CHAVE:
Milton Santos; documentos originais; intelectuais negros.

ABSTRACT

Finding a photograph of Adalgisa Umbelina de Almeida Santos, mother of the geographer and black intellectual Milton Santos, amid the complex and voluminous Milton Santos Fund, part of the IEB’s archival collection, can raise many questions. Starting from the search to understand what would be the place of this image in a documental set marked mainly by the major themes that make up the geographer’s intellectual project, we can bring to light not so visible elements of the trajectories of black intellectuals and questions about where black people are in Brazilian thought or the history that is told in institutions such as the IEB itself.

KEYWORDS:
Milton Santos; original documents; black intellectuals.

Neste texto apresento e analiso a fotografia de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos (Figura 1), que integra o Fundo Milton Santos, sob guarda do Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Buscarei aqui suscitar questões relacionadas, por exemplo, à preservação da memória negra e à importância das relações familiares na história do renomado geógrafo e de outros intelectuais negros.

Figura 1
Adalgisa Umbelina de Almeida Santos, s. d., autoria desconhecida. Fundo Milton Santos, Arquivo IEB/USP (em catalogação)

Milton Almeida dos Santos foi um destacado intelectual cujo legado é composto de uma vasta obra acadêmica que abrange 40 livros, cerca de 380 artigos em periódicos científicos, artigos e trabalhos de editoria jornalística, entrevistas, prefácios, apresentações, entre outras publicações. Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), Santos foi, ainda, professor do ensino básico, correspondente e editor do jornal A Tarde, de Salvador, onde publicou mais de uma centena de artigos. Também contribuiu como articulista e colunista para outros veículos da grande imprensa como Folha de S. Paulo e Correio Brasiliense. Ocupou cargos públicos e administrativos de grande relevância. Foi diretor da Imprensa Oficial da Bahia (1959-1961), chefe da Casa Civil da Presidência da República no Estado da Bahia (1961), presidente da Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia (1962-1964) e membro da Comissão Especial eleita pela Assembleia Constituinte do Estado da Bahia, encarregada de redigir um anteprojeto de Constituição Estadual (1989). Como professor e pesquisador, lecionou em universidades da França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela e Tanzânia, além de brasileiras. Nesses países também exerceu outras atividades políticas e acadêmicas, tendo sido, entre elas, consultor das Nações Unidas, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Organização dos Estados Americanos (OEA) e das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e dos governos da Argélia e Guiné-Bissau. Falecido em 2001, teve papel destacado na história do pensamento brasileiro, promovendo um intenso diálogo entre seu campo disciplinar, a geografia, outras ciências sociais e também com a física e a filosofia, discutindo e incorporando elementos das principais correntes intelectuais do século XX.

Considerando que no referido acervo há poucos itens relacionados a temas e objetos da vida privada do titular, tratar do lugar da fotografia de Adalgisa nesse contexto documental permite-nos abrir questões relacionadas à salvaguarda da memória negra e à importância das relações familiares na história de Milton e dos intelectuais negros; às estratégias de consagração (ABREU, 1996) no Brasil; ao contexto pós-escravidão; aos estratagemas racistas de poder, entre tantos outros temas.

Sabe-se que Adalgisa Santos nasceu em Salvador em 21 de agosto de 1901, filha de Nicolau Tolentino de Sant’Anna e Luiza da França Almeida Sant’Anna, ambos professores do Centro Operário de Salvador, associação de trabalhadores que, criada em 1893 por pessoas negras dedicadas às artes e ofícios manuais, chegou a ter cerca de 5 mil membros e tinha o objetivo de influenciar na política local a favor de seus associados, que podiam ser pretos, mestiços ou brancos (CONCEIÇÃO, 2016, p. 58). Além de professor, o pai de Adalgisa era sócio benemérito e honorário do Centro, posição ocupada comumente por trabalhadores qualificados, com direitos sociais e políticos plenos (CONCEIÇÃO, 2016, p. 58).

Herdeira daquela família que tinha na educação um eixo de afirmação de seu lugar na sociedade baiana, Adalgisa formou-se professora primária na Escola Normal da Bahia, em Salvador, onde também havia se formado seu futuro marido e pai de seus três filhos, Francisco Irineu dos Santos. Como parte de um itinerário comum na carreira de professores baianos da época, Adalgisa e Francisco foram dar aulas no interior, na cidade de Brotas de Macaúbas, na região da Chapada Diamantina, onde nasceu Milton, o primogênito do casal, em 1926, um ano após terem se mudado para aquela cidade por influência do irmão de Adalgisa, o advogado Agenor Sant’Anna. Mudaram-se posteriormente para Ubaitaba (antiga Itapira, na chamada Zona do Cacau) em 1927 e para Alcobaça, no litoral sul do estado, onde ficaram entre 1930 e 1936 e onde nasceram os outros dois filhos de Adalgisa e Francisco: Nailton e Yeda. Em 1937 Milton Santos, com 10 anos, vai estudar em um internato no Instituto Baiano de Ensino, em Salvador, deixando assim a casa dos pais, que continuariam vivendo em Alcobaça até 1940, quando se mudam daquela cidade, passando ainda pelos municípios de Alagoinhas e Catu até retornarem para a capital, em 1946. Adalgisa Santos faleceu em 1962, aos 61 anos de idade.

A doação de materiais que ajudam a contar essa história e vieram a compor o Fundo Milton Santos no IEB foi feita em três etapas, nos anos de 2010, 2012 e 2014. A imagem de Adalgisa à qual nos referimos neste texto compõe o conjunto de documentos, objetos pessoais e uma biblioteca que se encontravam em sua residência familiar na Estrada da Rainha, em Salvador, doado no ano de 2014, fazendo parte de uma quantidade importante de componentes que estão em fase de processamento documental no IEB. O volume total do acervo, formado principalmente pela biblioteca pessoal do geógrafo, documentos e materiais tridimensionais, é estimado em 60 mil itens (GRIMM; OLIVA, 2022) e está entre os maiores conjuntos sob a guarda do Instituto atualmente. Além do volume notável, trata-se de um acervo bastante complexo também por sua diversidade, abrangendo documentos e materiais de pesquisa que remetem desde à juventude a até o final de sua vida. Além dos itens transferidos da Bahia, constam, como dito, materiais de outras duas entradas anteriores. Da primeira, a mais volumosa, realizada em 2010, foram transferidos de seu apartamento em São Paulo sua biblioteca pessoal, na qual constavam todas as publicações de autoria de Santos - livros, artigos, revistas, entrevistas e publicações em jornais -, bem como diversos outros materiais de estudo. Na segunda entrada, realizada em 2012, transferiram-se documentos e objetos que estavam em seu apartamento e outros que se encontravam em suas salas de trabalho na Universidade de São Paulo - estes últimos também estão em processamento documental (GRIMM; OLIVA, 2022). Sistematizado por grandes temas de pesquisa, categorias, conceitos internos e externos à geografia, teoria e método, os materiais em geral refletem um arquivo de trabalho, representando fundamentalmente a trajetória da formulação das ideias do autor em suas etapas de pesquisa, evidenciando o preparo minucioso envolvido na apresentação de suas elaborações e dialogando diretamente com a sua obra, seu projeto intelectual. Os temas particulares, objetos e documentos privados são minoritários no conjunto de seu acervo.

Diante do volume e da importância desse “mar de documentos” - muitos dos quais inclusive “documentos-monumentos” (LE GOFF, 1990) -, surge uma primeira questão: qual o lugar da fotografia de Adalgisa Santos e sua relação com o conjunto desse acervo? Talvez descrever brevemente o processo por meio do qual tive contato com essa foto dê pistas sobre isso.

Tenho trabalhado com o Fundo Milton Santos no Arquivo do IEB em função de uma pesquisa de doutoramento que desenvolvo sobre o pensamento político do geógrafo, focada no período em que esteve exilado, entre 1964 e 1977, sobre o qual há um número menor de documentos no acervo. Em um dos dias de trabalho tive acesso a um material de um período diferente do estipulado em minha pesquisa, dessa vez em uma caixa com documentos ainda em fase de processamento, referentes à retirada realizada na residência da Estrada da Rainha, em Salvador.

A caixa continha um envelope de papel kraft onde se lia “Documentos pessoais” escrito com caneta esferográfica. Dentro do envelope estavam alguns materiais de arquivos da família. Entre eles figuravam documentos de Yeda de Almeida Santos (cadastro de pessoa física e cartão de saúde), um pedaço de papel com o número da carteira de identidade de Nailton e outro com o número de seu certificado de alistamento militar. De Francisco Irineu dos Santos havia uma foto 3 x 4, uma foto de documento maior, seu cartão de identidade de servidor público, um recibo do empenho de uma joia no valor de 12 mil réis para sua entrada como sócio na Sociedade Protectora dos Desvalidos (Figura 2)2 e seu título eleitoral (Figura 3). Neste último, com data de 23 de janeiro de 1918, vale notar que, além de constar sua instrução secundária e sua profissão de alfaiate à época, também há um alto nível de detalhamento de características físicas: “1m 64 cent.”, “cútis parda”, “cabelos e bigodes pretos”, “barba rapada”, “olhos castanhos” e uma descrição de cicatriz na mão esquerda.

Os demais documentos da caixa em sua maioria eram de Adalgisa. Um título eleitoral de 17 de março de 1933, onde se observam: a) seus registros de votação em pleitos de 1933, 1934 e provavelmente 1935 (o número não está totalmente legível); b) sua filiação a Nicolau Tolentino de Sant’anna (não aparece o nome da mãe); c) data de nascimento (21 de agosto de 1901) e idade (32 anos); d) profissão de professora primária; e foto 3 x 4. Havia também outros documentos referentes a Adalgisa como outro título eleitoral, de 1958, uma caderneta de contribuinte Montepio dos Funcionários Públicos da Bahia (onde, entre outras informações se vê o nome do esposo, data de casamento em 19 de agosto de 1925, idade e nome de “filha e filhos legítimos”) e, inclusive, um pedaço de papel com um convite pela alma de Adalgiza [sic] Umbelina de Almeida Santos em cuja assinatura parece estar escrito Nilton (?) Santos (Figura 4).

Figura 2
Recibo de pagamento da joia de entrada de Francisco Irineu dos Santos, pai do geógrafo, na Sociedade Protectora dos Desvalidos. Fundo Milton Santos, Arquivo IEB/USP (em catalogação)

Figura 3
Título eleitoral de Francisco Irineu dos Santos. Fundo Milton Santos, Arquivo IEB/USP (em catalogação)

Figura 4
Nota sobre a missa pela alma de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos. Fundo Milton Santos, Arquivo IEB/USP (em catalogação)

Junto a esses documentos - nos quais as informações e as fotos pareciam ter um sentido de organização da vida familiar -, está a imagem de Adalgisa Santos (Figura 1) que escolhemos destacar aqui, que parece destoar do conjunto contido naquela caixa e, talvez por isso, foi impactante assim que a vi.

Experimentando pensar na morfologia do objeto (MENESES, 2003), verifica-se que se trata de uma fotografia tirada possivelmente em um tamanho 9 x 15 cm em um material já bastante envelhecido. A imagem está manchada pelo tempo e com as bordas desgastadas. O formato da foto permanece preservado, embora ela já esteja um tanto amassada. Em corte vertical, Adalgisa aparece em pé, posando, apoiada com uma mão em um arranjo floral e tendo uma bolsa pequena escura na outra. Aparentando ter entre 20 e 30 anos, com cabelos penteados, está vestindo uma roupa clara com botões, saia abaixo dos joelhos, sapato fechado, usando colar, brincos e relógio. Ao fundo há uma parede denotando uma locação interior, uma janela e uma cortina grande no lado esquerdo da imagem.

Como primeira impressão, dadas as disparidades de perfil entre documentos pessoais e as características da imagem de Adalgisa, é possível pensar que essa foto está fora de lugar. Sem descartar a hipótese de que a imagem posada com aqueles atributos fosse também uma exigência ou padrão para algum documento oficial, não me parecia algo que estivesse dentro dos mesmos critérios dos documentos outros que ali estão guardados, parecendo um registro mais típico de álbuns de família. É possível que, de fato, a imagem estivesse apenas fora do que poderia ser de fato o “seu lugar”, tendo em vista que há álbuns e diversas fotografias de família dentro do acervo oriundo da Estrada da Rainha na Bahia?

Para além das percepções, é possível tratar o “fora do lugar” como um tema de pesquisa também de forma mais ampla, buscando investigar como a ausência ou o mínimo de informações disponíveis pode ser um sinal do papel secundário com que a vida familiar de Milton Santos foi tratada durante todo o percurso de sua vida a partir da história contada pela reunião de seus arquivos post mortem. É importante considerar que a ausência desses aspectos pode estar associada com o fato de se tratar de um intelectual negro. O “pensamento brasileiro” está associado a gerações de intelectuais brancos cultuados como parte da “elite nacional” ou como “intérpretes do Brasil” (OLIVA, 2021), destacando objetivamente um corte estético e histórico geral que, não raro, reflete conhecimentos acumulados por suas heranças (inclusive intelectuais) familiares. É mais comum encontrar registros diversos, históricos e fotográficos de suas famílias e de sua participação em espaços públicos e de poder. Tendo em vista que as fotografias são, ao mesmo tempo, fatos sociais e produtos ideológicos que constroem identidades muitas vezes por meio da linhagem familiar, esses registros de um momento histórico evidenciam também as linguagens, comportamentos e códigos como elementos fundamentais do habitus (BOURDIEU, 2012).

Cabe indagar qual o lugar das famílias de intelectuais negros nessa história. Quando falamos da linhagem familiar de Milton Santos é possível perceber, principalmente do lado materno, relações sociais baseadas em camadas médias ilustradas da sociedade baiana na época. Segundo o próprio geógrafo:

Eu me recordo, neste tempo, de minha mãe contando as festas que meus avós costumavam dar - os saraus, as reuniões musicais, literárias, que eram muito comuns em uma classe média que não era abastada, era uma classe média com algumas posses, algumas propriedades, um cotidiano seguro, mas sobretudo com uma base cultural importante. (SANTOS, 1989, p. 172).

É possível notar que a formação educacional-cultural foi um elemento de distinção social da família de Adalgisa. Sua formação na Escola Normal, em regime de externato, nos primeiros anos da década de 1920, permitiu que tivesse contato com um currículo excepcional para mulheres negras da época3. Para as estudantes mulheres havia ainda aulas de prendas domésticas e costura. Tal formação, além de permitir a Adalgisa a ocupação de um cargo como professora do ensino primário, também possibilitou que ela agregasse à renda da família proventos advindos de trabalho de comerciante, professora particular e costureira (CONCEIÇÃO, 2016, p. 69). Por seu turno, Francisco Irineu, formado igualmente na Escola Normal e tendo trabalhado também como alfaiate, profissão distintiva à época, representou uma ascensão social ainda maior, tendo em vista que seus pais gozavam de situação mais humilde, trabalhando pós-abolição da escravatura como agricultores e vendedores ambulantes de verduras e frutas. Segundo recordações de Milton, em entrevista publicada em 1996, “até hoje o cheiro de salsa me faz lembrar de minha avó, que me visitava no internato, pé no chão, com o balaio, depois que acabava de vender” (CONCEIÇÃO, 2016, p. 59).

De acordo com Silva (2010, p. 49), havia um cuidado dos pais e avós de Milton Santos para que o passado de vítimas da escravidão não fosse determinante para sua formação, buscando na educação e no grau de formação escolar - e, poderíamos acrescentar, no associativismo social, político, cultural e negro, principalmente dos avós maternos - “a qualificação [que] o afastaria da possibilidade de ser um negro sem lugar na sociedade”.

[...] as famílias eram muito cuidadosas com esse não olhar para trás, o que era uma forma de facilitar a promoção. Um dos resultados é que a gente ignora muito do passado, embora no meu caso a origem, pelo menos pelo lado materno, era um signo distintivo porque eram pessoas que tinham peso na vida política e mesmo social da cidade. (SANTOS apud LEITE, 2007, p. 27).

O silenciamento e a falta do “olhar para trás” em relação às suas origens são questões eloquentes quando tratamos da memória negra. O “sem lugar” dessa história, mesmo quando se trata da imagem que se relaciona a uma figura que rompeu diversos obstáculos para alcançar uma posição social relevante em seu local, como é o caso de Adalgisa, é elemento de grande evidência. Pode, inclusive, possibilitar estudos comparativos com trajetórias canônicas brancas do pensamento brasileiro. Nesse sentido, ao tratar da descolonização do conhecimento, Grada Kilomba (2019, p. 56) assevera:

A rainha é uma metáfora interessante. É uma metáfora do poder e também da ideia de que certos corpos pertencem a determinados lugares: uma rainha pertence naturalmente ao palácio “do conhecimento”, ao contrário da plebe, que não pode jamais alcançar uma posição de realeza. A plebe está encerrada em seus corpos subordinados. Tal hierarquia introduz uma dinâmica na qual a negritude significa não somente “inferioridade”, mas também “estar fora do lugar” enquanto a branquitude significa “estar no lugar” e, portanto, “superioridade”. Dizem-me que estou fora do lugar, porque em sua fantasia eu não posso ser a rainha, mas apenas a plebeia [...]. No racismo, corpos negros são construídos como corpos impróprios, como corpos que estão “fora do lugar” e, por essa razão, corpos que não podem pertencer. Corpos brancos, ao contrário, são construídos como próprios, são corpos que estão “no lugar”, “em casa”, corpos que sempre pertencem.

A fotografia de Adalgisa Santos, que deve ter por volta de um século de existência, possibilita pensar sobre o contexto de produção e guarda do documento, que ainda está por se investigar. Tirada em um contexto onde os ecos da escravidão negra no Brasil eram muito recentes e imagens com as características da que aqui tratamos como eixo de análise eram raras entre pessoas negras e, especialmente entre as mulheres negras, o silêncio é ainda mais gritante.

Neste presente cenário ainda bastante comum em que os lugares, eventos e instituições de memória seguem marcados por “silenciamentos, hierarquização, domesticação e invisibilização da história afrodiaspórica” (MAGALHÃES, 2022, p. 21), podemos nos perguntar: quantas serão as pessoas negras presentes no acervo do IEB e em outras instituições de memória? Em quais condições essa memória é salvaguardada? Se partirmos da consideração feita por Meneses (2003, p. 150) de que as fotos - ou elas como parte de séries iconográficas - não devem constituir elas mesmas o objeto de pesquisa em si - visto que o objeto de pesquisa é a sociedade -, entendemos que imagens como a que encontramos (por uma escolha de caixa contendo materiais diferentes dos pesquisados anteriormente na sala de consulta do Arquivo) podem contribuir para apontar problemas dos nossos modos de salvaguardar as memórias, da nossa produção acadêmica, da nossa formação socioespacial marcadamente escravista e colonial e, enfim, das nossas histórias.

  • 2
    Segundo Conceição (2016, p. 61), a Sociedade Protetora dos Desvalidos, entre outras iniciativas, colhia fundos para a compra de cartas de alforrias de pessoas escravizadas.
  • 3
    Tal currículo abrangia, segundo Fernando Conceição (2016, p. 61) “física, química, desenho, geometria, álgebra, trigonometria, língua francesa, gramática portuguesa - compreendendo o conhecimento teórico da prosódia, etimologia, sintaxe e ortografia; análise etimológica, exercício de escrita ditada, leitura de prosa e verso e recitação; pedagogia e metodologia”.

Referências

  • ABREU, Regina. A fabricação do imortal: memória, história e estratégias de consagração no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
  • BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
  • CONCEIÇÃO, Fernando. Milton Santos, uma biografia (percurso em construção) Salvador: Edição do Autor, 2016.
  • GRIMM, Flavia; OLIVA, Jaime Tadeu. Milton Santos: um arquivo vivo para os estudos brasileiros. In: ARROYO, Mónica; SILVA, Adriana M. Bernardes (Org.). Instabilidade dos territórios: por uma leitura crítica da conjuntura a partir de Milton Santos. São Paulo: FFLCH/USP, 2022, p. 31-46.
  • KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
  • LE GOFF, Jacques. Documento/monumento. In: LE GOFF, Jacques. História e memória São Paulo: Campinas. Editora da Unicamp, 1990, p. 535-549.
  • LEITE, Maria Ângela Faggin Pereira (Org.). Milton Santos Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007. (Coleção Encontros).
  • MAGALHÃES, Aline Monteiro. Da diáspora africana no Museu Histórico Nacional: um estudo sobre as exposições entre 1980 e 2020. Anais do Museu Paulista , v. 30, 2022, p. 1-29.
  • MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. A fotografia como documento - Robert Capa e o miliciano abatido na Espanha: sugestões para um estudo histórico. Tempo, n. 14, jan.-jun. 2003, p. 131-151.
  • OLIVA, Jaime Tadeu. É possível o objeto Brasil?. In: PAIXÃO, Fernando; TONI, Flávia Camargo (Org.). Estudos brasileiros em 3 tempos: 1822-1922-2022: Pensar o Brasil: desafios e reflexões. Belo Horizonte: Fino Traço, 2021, p. 11-86.
  • SANTOS, Milton. (1989). Trajetória revista. In: LEITE, Maria Ângela (Org.). Milton Santos Rio de Janeiro: Beco da Azougue, 2007. (Coleção Encontros).
  • SILVA, Maria Auxiliadora da. Milton Santos: a trajetória de um mestre. Scripta Nova: Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Universidad de Barcelona, v. VI, n. 124, 30 de sept. 2002. Disponível em: http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm Acesso em: 28 jul. 2023.
    » http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    30 Ago 2024
  • Aceito
    23 Set 2024
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