Resumo
Em seu “retorno a Freud”, Lacan propõe uma reformulação epistemológica da psicanálise. Embora haja uma ampla bibliografia sobre as influências da filosofia, da antropologia, da linguística e da epistemologia da ciência nessa releitura, o papel da cibernética nesse processo ainda é relativamente pouco explorado. Nosso objetivo é demonstrar que o interesse de Lacan pela cibernética não apenas é inseparável de seu retorno a Freud, como também foi determinante para a reformulação do conceito de compulsão à repetição. Argumentamos que esse conceito passa a ser concebido como uma máquina formada por uma ordem simbólica, regida por leis de regulação do sistema. Recuperar esse diálogo de meados do século passado pode nos dar condições para repensar a relação da psicanálise com as novas tecnologias em curso no século XXI.
Palavras-chave:
Cibernética; compulsão à; repetição; máquina; psicanálise
Abstract
In his “return to Freud,” Lacan proposes an epistemological reformulation of psychoanalysis. Although there is extensive literature on the influence of philosophy, anthropology, linguistics, and the epistemology of science in this rereading, the role of cybernetics in this process remains relatively underexplored. Our aim is to demonstrate that Lacan’s interest in cybernetics is not only inseparable from his return to Freud, but was also decisive in the reformulation of the concept of repetition compulsion. We argue that this concept is conceived as a machine composed of a symbolic order governed by laws of system regulation. Recovering this mid-twentieth-century dialogue may offer valuable insights for rethinking the relationship between psychoanalysis and emerging technologies in the twenty-first century.
Keywords:
Cybernetics; repetition compulsion; machine; psychoanalysis
Abstract
Dans son “retour à Freud”, Lacan propose une reformulation épistémologique de la psychanalyse. Bien qu’une vaste bibliographie traite des influences de la philosophie, de l’anthropologie, de la linguistique et de l’épistémologie des sciences dans cette relecture, le rôle de la cybernétique dans ce processus reste relativement peu exploré. Notre objectif est de montrer que l’intérêt de Lacan pour la cybernétique est non seulement indissociable de son retour à Freud, mais aussi déterminant dans la reformulation du concept de compulsion de répétition. Nous soutenons que ce concept est reconceptualisé comme une machine composée d’un ordre symbolique régi par des lois de régulation du système. Revenir sur ce dialogue établi au milieu du XXe siècle permet de repenser la relation entre la psychanalyse et les nouvelles technologies du XXIe siècle.
Mots-clés:
Cybernétique; compulsion de répéticion; machine; psychanalyse
Resumen
En su “retorno a Freud”, Lacan propone una reformulación epistemológica del psicoanálisis. Aunque existe una amplia bibliografía sobre las influencias de la filosofía, la antropología, la lingüística y la epistemología de la ciencia en esta relectura, el papel de la cibernética en dicho proceso sigue siendo relativamente poco explorado. Nuestro objetivo es demostrar que el interés de Lacan por la cibernética no solo es inseparable de su retorno a Freud, sino que también fue decisivo en la reformulación del concepto de compulsión a la repetición. Sostenemos que este concepto pasa a ser concebido como una máquina formada por un orden simbólico regido por leyes de regulación del sistema. Recuperar este diálogo de mediados del siglo XX puede ofrecernos herramientas para repensar la relación entre el psicoanálisis y las nuevas tecnologías del siglo XXI.
Palabras clave:
Cibernética; compulsión de repetición; máquina; psicoanálisis
Introdução
Em seu “retorno a Freud”, Lacan empreende um projeto de reformulação epistemológica da psicanálise. Essa empreitada não acontece sem o estabelecimento de diálogos com disciplinas que poderiam servir para revitalizar a psicanálise. O objetivo era resgatar o sentido da experiência freudiana que supostamente teria sido perdida, em decorrência dos fantasmas do humanismo, psicologismo e naturalismo que, à época, assombravam a psicanálise. Em resposta a essa situação, Lacan enfatizava principalmente (i) a vocação científica da psicanálise, (ii) a definição da cientificidade pela literalização do real e (iii) a experiência da fala e da linguagem pelo sujeito (Lacan, 1953/1998a).
É verdade que muito já se falou sobre essa reformulação epistemológica, principalmente a propósito dos diálogos feitos com as filosofias de Heidegger e Hegel (via Kojève), a antropologia de Lévi-Strauss, a linguística de Saussure e Jakobson, a epistemologia de Koyré, determinantes na releitura lacaniana de Freud. Entretanto, comparativamente à extensa bibliografia sobre Lacan e tais diálogos, relativamente poucos trabalhos foram publicados em território nacional sobre o papel das influências da cibernética, da teoria da informação e da teoria dos jogos nesse empreendimento. Apesar de um interesse notavelmente crescente, ainda são poucos os estudos voltados às implicações dos diálogos com essas disciplinas para pensar uma psicanálise que se vê, mais do que nunca, confrontada com as novas tecnologias de comunicação e informação, que proporcionam uma interação sem precedentes entre humano e máquina -como é o caso da Inteligência Artificial (IA)1.
Entre as contribuições mais recentes, destacam-se os seguintes trabalhos. Ismerim e Dunker (2023) demonstram como a cibernética exerceu um papel decisivo na constituição da teoria lacaniana do significante, ao fornecer modelos formais (como o feedback, os autômatos e as cadeias simbólicas binárias) que permitiram a Lacan pensar a autonomia estrutural do significante em relação ao significado. Essa abordagem aprofunda aspectos já apontados por Nancy e Lacoue-Labarthe (1991), ao mapear as fontes teóricas (como Shannon, Turing e Wiener) e os mediadores franceses (Guilbaud e Riguet) envolvidos nesse diálogo. Fonseca (2023), por sua vez, propõe uma articulação entre a cibernética lacaniana e a teoria da mídia, valendo-se de autores como Vilém Flusser e Friedrich Kittler. Já Andrade (2023) traça um percurso histórico que parte dos autômatos mecânicos do século XVIII, passa pelos sistemas morfostáticos da Revolução Industrial e chega aos sistemas morfogenéticos do período cibernético (como mísseis teleguiados e computadores), capazes de se adaptar ao ruído e à contingência. Nesse trajeto, o autor evidencia os diferentes modelos de máquina que interessaram, respectivamente, a Freud e a Lacan: enquanto Freud recorreu a modelos energéticos para pensar o aparelho psíquico, Lacan se valeu de modelos informacionais para conceber o sujeito como efeito de linguagem. Além disso, outros estudos recentes têm se dedicado a abordar as noções de máquinas utilizadas por Lacan em seus seminários (Gogoi, 2024), bem como a investigar o papel pioneiro de Lawrence Kubie, o primeiro psicanalista a mobilizar referências cibernéticas, cuja influência sobre o pensamento lacaniano é uma hipótese relevante (Godoi, 2025).
Inspirado nesse movimento de retorno a Lacan e às suas referências cibernéticas, nosso objetivo é demonstrar que o interesse de Lacan pela cibernética não é apenas inseparável de seu retorno a Freud, como também que a formalização lacaniana do conceito de compulsão à repetição é altamente tributário do diálogo com a cibernética, sobretudo no período entre os anos de 1954 e 1956. Alinhado ao projeto lacaniano de resgatar a experiência da fala e da linguagem em psicanálise, esse conceito passa a estar subordinado a uma teoria específica do símbolo, que nesse momento é chamada de “ordem simbólica”. Como isso ocorre? Em linhas gerais, Lacan identifica em “Além do princípio de prazer” (Freud, 1920/2020) a tentativa freudiana de resgatar o valor da autonomia do símbolo para o campo psicanalítico - algo que, segundo ele, havia se perdido com os pós-freudianos. Assim, o autor procura convergir a compulsão à repetição com uma autonomia do símbolo (ou, mais especificamente, do significante); e a cibernética fornece ferramentas para repensar a compulsão à repetição como uma automação do símbolo.
Encontramos a formalização final da máquina da compulsão à repetição em “O seminário sobre ‘A carta roubada’” (Lacan, 1956/1998b). Como se sabe, esse ensaio ocupa um lugar nada trivial na organização dos Escritos. A coletânea que poderia, em um primeiro momento, sugerir uma apresentação cronológica dos principais trabalhos do autor, possui alguns textos remanejados de forma a não cumprir esse aparente ordenamento. Entre eles, o mais notório é o ensaio sobre o conto de Edgar Poe que “estreia” o conjunto de textos reunidos, após a “Abertura desta coletânea”. No mínimo, o deslocamento desse texto, em relação à cronologia, sinaliza a importância atribuída a seu conteúdo na orientação do que significa o ensino lacaniano em 1966.
Lembremos que esse ensaio fora construído principalmente a partir de algumas lições do Seminário 2, um seminário repleto de referências cibernéticas. No que se refere ao conto de Poe (2017), podemos identificar uma dupla leitura “maquínica” efetuada por Lacan: (i) a dinâmica das relações entre os personagens da narrativa em torno da carta é interpretada como uma espécie de repetição mecanicista; (ii) e o jogo de par ou ímpar (presente no conto) o leva a construir uma espécie de máquina teórica capaz de capturar ocorrências ao acaso por meio da determinação da ordem simbólica. O centro gravitacional dessa dupla leitura é o conceito de compulsão à repetição, que é compreendido como um agente autônomo e automatizado em relação ao sujeito, como uma máquina que possui suas próprias regras de funcionamento.
Esses aspectos já são notáveis no primeiro parágrafo de “O seminário sobre ‘A carta roubada’”. A Wiederholungszwang, traduzida normalmente por “compulsão à repetição” aqui no Brasil, e por “automatismo de repetição” na França, é transmutada para “insistência da cadeia significante” (Lacan 1956/1998b, p. 13; grifo no texto). Nancy e Lacoue-Labarthe (1973/1991) reparam que há uma íntima proximidade entre “insistência” e “instância”. Ao examinarem a significação da palavra “instância”, presente no título do ensaio “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, os autores identificam “que instance designa, na sua origem, de acordo com Littré, uma solicitação que pressiona (pede-se insistentemente…), um argumento, ou mesmo um processo (na medida em que um processo supõe acusação e defesa a que, por conseguinte, opõem-se ali argumentos)” (Nancy & Lacoue-Labarthe, 1973/1991, p. 32; grifos no texto). Ela está também relacionada a “autoridade judiciária”, “autoridade tendo o poder de decisão”, sendo “a instância da letra” “a autoridade da letra” (Nancy & Lacoue-Labarthe, 1973/1991, p. 32; grifos no texto). Em suma, instância é algo que rege e legisla. Daí decorre o seguinte: “É preciso também, no entanto, contar com a possibilidade de um Witz, de uma palavra: instância é, de fato, quase insistência e, aliás, em seu primeiro sentido, insistir é fazer instância, perseverar em pedir” (Nancy & Lacoue-Labarthe, 1973/1991, p. 32; grifos no texto). Os elos entre automatismo de repetição e lei, enquanto instância que insiste em se fazer valer, revelam-se, assim, conectados.
Especificando mais precisamente nosso objetivo, trata-se de examinar de que modo a compulsão à repetição é reformulada como uma ordem simbólica (ou como uma insistência do significante), capaz de induzir uma lei subjetiva, enfatizando, nesse processo, a participação decisiva de concepções cibernéticas. Essa interlocução parece ter contribuído para que Lacan concebesse o simbólico como um sistema composto por unidades discretas esvaziadas de semântica, regido por uma regularidade sintática e combinatória, e dotado de uma causalidade circular (características que o aproximam das estruturas descritas pelos desenvolvimentos da cibernética da época).
Sustentamos que a formalização lacaniana do simbólico guarda afinidades estruturais com princípios cibernéticos, o que permitiu a Lacan deslocar o problema da compulsão à repetição do âmbito energético-pulsional para o registro da insistência significante. A hipótese que orienta este artigo é que, ao incorporar elementos da cibernética em sua concepção do simbólico, Lacan redefiniu a compulsão à repetição como um efeito de causalidade circular, afastando-se de uma leitura centrada na economia pulsional freudiana. Essa releitura permitiu tratar a repetição como uma estrutura lógica, análoga à operação das máquinas simbólicas propostas pela cibernética. Essa estratégia parece ter sido bastante bem-sucedida à época, no sentido de fornecer um modelo de formalização não psicologicista e não naturalista para problemas relativos ao sujeito do inconsciente. Não obstante, o sucesso do programa não demorará muito a mostrar seus limites, especialmente no que tange à reincorporação da pulsão em um período médio-tardio de seu ensino. O que não implica abandono daquele programa, mas a busca contínua de outros modelos de formalização, que vão desde a topologia e o matema, até a teoria de grafos e nós. Nos limites deste artigo, nosso interesse se restringe a mapear os usos da cibernética como modelo de formalização da compulsão à repetição no início da década de 1950.
Por “cibernética”, entendemos aqui o movimento científico-intelectual que, entre 1946 e 1953, reuniu um grupo heterogêneo de pesquisadores (desde matemáticos e engenheiros até neurofisiologistas, psicológicos, filósofos e cientistas sociais) em torno do escopo de construir um paradigma comum para explicar o funcionamento de máquinas e de organismos biológicos.
Com base em novas conquistas sobre o funcionamento de dispositivos mecânicos, especialmente a máquina universal de Turing (1936) e os sistemas de retroalimentação, como os servomecanismos aplicados na artilharia antiaérea, capazes de localizar e prever o movimento do alvo (Wiener, 1948/2017), a cibernética propôs explicações mecanicistas para fenômenos fisiológicos e neurofisiológicos. Seu objetivo era construir um modelo da mente baseado em máquinas capazes de manipular símbolos discretos por meio de programas internos de processamento e de controlar seu próprio comportamento em interação com o ambiente. Em essência, a mente era concebida como uma forma de computação.
Entre as noções centrais, trabalhadas pelo movimento, estão as de feedback (retroalimentação) e de causalidade circular. O feedback é um tipo de sistema que algumas máquinas possuem que as capacitam a ajustarem-se de acordo com a programação interna e a informação que lhe chega do ambiente (input), com a meta de gerar uma resposta de saída específica (output). Divergindo-se de uma teoria causal simples, que compreende um evento particular anterior como gerador de um evento particular posterior, dentro de uma linha temporal estritamente diacrônica, a causalidade circular orienta as causas a partir das metas e dos efeitos que retroagem constantemente no organismo (biológico ou maquínico), possibilitando, assim, o ajuste e reajuste do comportamento de acordo com seu circuito próprio de feedback2.
Entre os participantes das Conferências Macy (como eram conhecidas as reuniões cibernéticas), apenas um psicanalista participou ativamente. Lawrence Kubie tentou articular conceitos da psicanálise com os da cibernética, especialmente no uso do conceito de feedback para explicar processos psíquicos. Sua principal contribuição foi associar a repetição neurótica aos circuitos reverberantes. A ideia central é que a repetição neurótica opera como um circuito fechado de feedback positivo, ou seja, como um loop vicioso em que a informação de saída retorna ao sistema de entrada, sem ajuste em relação à realidade (Godoi, 2025).
Embora breve, a cibernética teve impacto significativo em vários campos ao longo do século XX: introduziu formalismos e conceitos fundamentais às ciências do cérebro; desenvolveu o design das máquinas de processamento de informação e os fundamentos da IA; produziu uma metaciência de teoria de sistemas; inspirou inovações conceituais nas ciências humanas e sociais; e promoveu reformulações científicas, como a interpretação lacaniana de Freud. Apesar de extinta como movimento, a ambição de construir uma ciência da mente foi continuada pelas ciências cognitivas, que perpetuam o legado da cibernética (Dupuy, 1996).
A cibernética chegou à França principalmente após a publicação do livro de Norbert Wiener em 1948. Um grupo de pesquisadores fundou o Círculo de Estudos Cibernéticos, incluindo Georges-Théodule Guilbaud e Jacques Riguet, matemáticos que auxiliaram Lacan em temas como topologia, teoria dos grafos, teoria dos jogos e a própria cibernética. Riguet, em particular, participou do Seminário 2 e colaborou na construção do grafo do jogo de par ou ímpar, trabalhado por Lacan (Le Roux, 2007).
As referências cibernéticas de Lacan foram diversas e aplicadas em diferentes contextos. Ele menciona a máquina de Turing, robôs do Círculo de Estudos Cibernéticos, aborda o estádio do espelho e o complexo de Édipo a partir de noções maquínicas. Explorava temas como a autocontagem, a relação entre homeostase e princípio de prazer, a definição de mensagem, comunicação e informação, além de questões relacionadas ao acaso, determinismo, autorregulação (feedback) e entropia. Sua concepção de linguagem também foi influenciada pela cibernética (Godoi, 2024). Todavia, o conceito de compulsão à repetição foi o mais impactado, sofrendo reformulações significativas. Não à toa, Dupuy (1996) sugere que Lacan tinha interesse genuíno nas elaborações cibernéticas de Kubie sobre a repetição.
Assim, nosso foco é explorar como Lacan aborda o problema clínico da compulsão à repetição, não para fornecer um modelo teórico, mas para mostrar como ela própria é uma máquina de encadeamento lógico-combinatório. Enquanto um modelo, por seu caráter eminentemente analógico, permanece restrito ao domínio imaginário (Lacan, 1960/1998c), pensar em termos maquínicos permite considerar a própria compulsão à repetição como a replicação de uma ordem simbólica.
Organizamos o texto em quatro seções: (i) discutimos como a trama de “A carta roubada” pode ser estruturada como uma máquina e como a noção de lettre permite a Lacan falar de uma espécie de signo autorregulador; (ii) analisamos o uso do jogo de par ou ímpar por Lacan como proposta de formalização de conjunto de sequências de elementos randômicos; (iii) examinamos como encadeamentos de sequências aleatórias são apreendidos por uma ordem simbólica que insistentemente absorve elementos contingentes em uma rede de associações estruturalmente necessárias, oferecendo uma releitura do conceito de compulsão à repetição; e, por fim (iv), exploramos as implicações desse diálogo entre cibernética e psicanálise, bem como seus limites e possíveis questões ainda a serem exploradas.
O conto, a repetição e a autonomia da lettre
Revisitemos, rapidamente, “A carta roubada” (Poe, 2017). A Rainha recebe uma carta que é roubada pelo ministro, que a troca por uma falsa. A Rainha vê a ação do ministro, mas não pode fazer nada, para não chamar a atenção do Rei, que nada sabe sobre essa carta. Tudo indica que a carta comprometeria, de algum modo, a Rainha. A história se passa sem que o leitor tenha qualquer noção acerca do conteúdo da carta. A polícia real é então acionada e mobiliza uma força-tarefa para encontrar a carta no recinto do ministro. Ela procura nos mais recônditos lugares, esperando que um objeto como esse possa ter sido meticulosamente escondido pelo seu portador. A carta, todavia, está no local mais óbvio onde poderia estar, mas, por conta de a polícia pressupor o contrário, ela não é encontrada. É nesse momento que o nosso herói, o detetive Dupin, entra em cena para recuperar a carta. Ele entende o raciocínio do seu adversário: normalmente, intui-se que um objeto de elevado valor deva permanecer ocultado no mais impenetrável esconderijo; mas o que o ministro faz, de maneira astuta, é exatamente o contrário; como a Rainha havia feito na primeira cena, o ministro esconde a carta debaixo do nariz de todos. Se a Rainha havia, displicentemente, deixado a carta sobre a mesa, o ministro a coloca em um porta-cartões de filigrana, como um objeto qualquer - com apenas algumas adulterações em relação à descrição original da carta. Dupin surrupia a carta roubada e a substitui por uma falsa, sem o conhecimento do ministro. Logo em seguida, entrega a carta ao encarregado da polícia. A segunda cena repete, em sua estrutura, a primeira.
A narrativa do conto tem, para Lacan (1956/1998b), dois pontos fundamentais: o caráter repetitivo dos acontecimentos e as posições estruturais dos personagens, ambos decorrentes dos movimentos da carta. Nesse sentido, o autor identifica duas cenas centrais nesse sentido. A primeira cena é a do primeiro roubo; e a segunda é sua repetição. As duas cenas são compostas pelas mesmas organizações subjetivas, mas com pessoas diferentes em cada momento: (i) o Rei e, depois, a polícia posicionam-se como um olhar que nada vê; (ii) a Rainha e, posteriormente, o ministro, notam que os primeiros nada veem, mas se enganam por considerarem encoberto o que ocultam; (iii) o ministro e, logo após, Dupin, percebem os dois olhares anteriores e deixam descoberto o que se deve esconder para que se aposse dele quem quiser.
Essas duas cenas ilustram o próprio funcionamento da compulsão à repetição. A questão toda é a seguinte: a repetição está longe de acontecer pelo exercício pleno de uma autonomia irrestrita e consciente, ela acontece pelos sujeitos estarem submetidos a uma organização ditada pelo movimento da carta.
O que nos interessa hoje é a maneira como os sujeitos se revezam em seu deslocamento no decorrer da repetição intersubjetiva.
Veremos que seu deslocamento é determinado pelo lugar que vem a ocupar em seu trio esse significante puro que é a carta roubada. E é isso que para nós o confirmará como automatismo de repetição. (Lacan, 1956/1998b, p. 18)
A carta encena o símbolo que rege a ordem simbólica, de cujos efeitos os sujeitos são suportes. Assim, as pessoas não são as personagens condutoras das cenas. Mas sim a carta. Isso leva o autor a entender a carta como a personagem responsável por ocupar a posição de “sujeito inicial, radical” (Lacan, 1954-55/2010, p. 266). Em outras palavras, ela é tomada como o símbolo que exerce a função de ultrapassar e desalojar os demais personagens de suas “particularidades individuais”, fazendo-os ocuparem posições a depender de quem a possui.
Esse efeito, que está para além da individualidade e que determina o lugar a ser ocupado diante do sistema de relações, é o que Lacan, ao menos nesse período, denomina de inconsciente. Os pactos implicitamente estabelecidos, os compromissos que ligam os sujeitos entre si e os símbolos que veiculam as relações, tudo isso se refere à organização inconsciente. O uso de personagens régios, por exemplo, não é despretensioso. Eles representam o pacto simbólico que um povo inevitavelmente possui com os efeitos de uma interrelação hierarquizada (Lacan, 1954-55/2010).
O fato de a carta não ter seu conteúdo revelado é também essencial para o sentido que Lacan dá à ideia de “significante puro”. O que estaria escrito como conteúdo da carta é secundário, tendo em vista que a definição de seu sentido não está intrinsecamente nela, mas na combinação relativa de quem a lê com a posição que ocupa no todo do sistema intersubjetivo em relação aos outros. O seu sentido, por exemplo, na posse exclusiva da Rainha poderia ser uma carta de amor; mas essa mesma carta de amor, na posse do ministro, representa uma prova e, ao mesmo tempo, uma ameaça para ela (Lacan, 1954-55/2010). O que se pode depreender acerca da carta enquanto significante puro é que o sentido não lhe é inerente. Ele depende de quem estabelece contato com ela e como ela exerce efeito sobre o sujeito a depender de sua disposição no sistema de relação.
Por mais que não saibamos a mensagem carreada pela carta, o fato de ela (a carta) não poder se tornar pública indica o quanto é ilegítima diante da cadeia simbólica que rege fidelidade ao Rei. Dessa forma, a responsabilidade quanto à carta está mais para quem a detém do que para seu possível autor (Lacan, 1956/1998b). O ministro também estaria imiscuído por portar a carta: afinal, a revelação do seu conteúdo poderia comprometer não somente a Rainha, mas a ele também. Tal circunstância faz com que seja necessário deixar a carta displicentemente sobre algum lugar, mais ou menos exposta como um objeto qualquer, para que ela seja passada adiante. Assim, o seu portador pode sair ileso da situação ameaçadora.
Essa exposição não estaria, porém, completa se não acrescentássemos os recursos linguísticos que “abrem” as acepções possíveis para o significante “lettre”. A homofonia e a ambiguidade naturais à expressão “lettre volée”, da qual Lacan lança mão, são recursos indissociáveis da análise do conto e do serviço que ela presta para pensar a noção de sujeito. Uma “carta roubada” é também, e ao mesmo tempo, uma “letra voada”, que não pertence a ninguém nem possui um destino nem um destinatário predeterminado. Se ela não pertence a ninguém nem existe um local reservado para a carta/letra, isso significa que não há um lugar onde deva (originalmente) estar. Dessa forma, a letra somente pode ser símbolo de ausência (Lacan, 1956/1998b).
O que Lacan se esforça para explicitar é, antes de tudo, a estrutura que antecede o próprio jogo de significações possíveis. O importante é que a letra (que, nesse período, também é chamada de “significante”, como sua expressão mais “purificada”)3 é a carta em uma revoada, que nunca toca o chão: o seu sentido imaginário pode ser vasto e contingente, mas seu efeito de deslocamento é inevitável. Aí está a análise que ele busca ao “pé da letra”.
Isso ainda leva o autor a inverter o provérbio “a palavra falada voa, o escrito permanece” (“verba volant, scripta manent”) (Lacan, 1956/1998b). A exemplo da carta da Rainha, a lettre não permanece, por não ter uma significação que a fixe em um lugar, passando de mão em mão sem destino, mas encontrando em cada sujeito um destino que pertença a ele. Seriam, então, as falas que permanecem, por sua intrincada relação com a dimensão imaginária e sua potencialidade para fixar sentido. Mas contra o jogo dos símbolos que encadeia posições específicas, como no conto, nada se pode fazer. A letra, ela própria, “passeia sozinha” (Lacan, 1954-55/2010, p. 268).
A homofonia de “lettre” com “l’être” sugere outra possibilidade semântica: a carta/letra do conto de Poe representa, para Lacan, a busca de uma ciência da letra que mobiliza uma ontologia específica, a impossibilidade de dissociar ser de letra (que, novamente, também é entendida aqui como “significante”). Dessa forma, levar as coisas “ao pé da letra” não sugere a acepção “concreta” (ou “original”) a que um vocábulo estaria supostamente se referindo, mas a precedência de uma materialidade discursiva (significante) em relação ao sentido.
Além disso, Lacan utiliza o recurso etimológico para questionar a tradução francesa “La lettre volée” em relação ao título original, “The Purloined Letter”: “To purloin”, diz-nos o dicionário de Oxford, “é uma palavra anglo-francesa, isto é, composta do prefixo pur-, que vamos reencontrar em purpose, propósito, purchase, provimento, purport, importância, e do vocábulo do francês antigo loing, loingner, longé” (Lacan, 1956/1998b, p. 32; grifos no texto). Isso o leva a propor outra tradução para o título, que combina com a análise que empreende: “a carta desviada”, “a carta alongada” ou, ainda, “a carta não retirada” [lettre en souffrance] (p. 33). A carta, antes roubada, atribuía, inevitavelmente, pertencimento a alguém. A nova tradução, por sua vez, expurga essa conotação, atribuindo à carta, ao mesmo tempo, o caráter errante e de “coisa pública” (res publica) - se não pertence a ninguém, então é de todos, como a própria língua.
Ainda assim, cada um é afetado pela carta/letra de determinado modo: com efeito, ela é o próprio inconsciente (Lacan, 1954-55/2010). Digamos de outra maneira. Se “uma carta sempre chega a seu destino” (Lacan, 1956/1998b, p. 45), não é porque sua letra esteja predeterminada para tal destinatário, mas porque, assim que chega, seu destinatário é criado, e ele toma a carta como parte do seu próprio destino.
Esse caminho interpretativo nos aproxima do principal tópico que temos à frente para investigar: a maneira como ocorrências fortuitas, isto é, contingentes, são capturadas em um circuito de associações com regras próprias a um sujeito, a partir do que este concebe como sendo seu destino. Nesse aspecto, reencontramos a compulsão à repetição, tendo em vista que Freud (1920/2020) identifica em seu interior a ideia de destino: a compulsão à repetição fagocita qualquer contingência e a torna parte de uma cadeia associativa aparentemente necessária ao sujeito.
Tomar a carta/letra enquanto sujeito radical do conto expressa a propriedade antinatural com que Lacan concebe o componente “subjetivo” no humano: paradoxalmente, a objetividade da letra. Não à toa, ele identifica nas máquinas cibernéticas o próprio funcionamento simbólico humano:
Eis aí, portanto, simple and odd, como nos é anunciado desde a primeira página4, reduzida à sua expressão mais simples, a singularidade da carta/letra, que, como indica o título, é o verdadeiro sujeito do conto: é por poder sofrer um desvio que ela tem um trajeto que lhe é próprio. Traço onde se afirma, aqui, sua incidência de significante. Pois aprendemos a conceber que o significante só se sustenta num deslocamento comparável ao de nossas faixas de letreiros luminosos ou das memórias giratórias de nossas máquinas-de-pensar-como-os-homens, e isso, em razão de seu funcionamento alternante por princípio, que exige que ele deixe seu lugar, nem que seja para retornar a este circularmente. (Lacan, 1956/1998b, p. 33; grifos no texto)
Considerar a carta como o “verdadeiro sujeito” do conto é atribuir à letra a ordenação simbólica da qual o humano é efeito. No caso da compulsão à repetição, vemos a “insistência da cadeia significante” ou a “instância da letra/carta” que ordena as posições intersubjetivas. Reencontramos aqui a causalidade circular. Afinal, Lacan fala das “máquinas-de-pensar-como-homens”, fazendo referência direta às máquinas cibernéticas. Tudo indica que o próprio conto é lido como o circuito de uma máquina cujo princípio autorregulador é a carta/letra. Ela determina uma compulsão à repetição pela insistência da carta, operando um deslocamento dos personagens em posições específicas de maneira circular.
Dito isso, sigamos para a análise do jogo de par ou ímpar, presente no conto, que lançará outras luzes sobre a “mecânica” da compulsão à repetição. Essa análise nos permitirá compreender mais detidamente a maneira como Lacan pensa a repetição coercitiva como uma máquina, somente possível pelo diálogo que estabeleceu com a cibernética nesse período.
“Par ou ímpar?”: o jogo e a máquina
Quando Dupin descreve a impressionante habilidade policial de esquadrinhar toda a extensão do recinto do ministro com o objetivo de recuperar a carta roubada, o detetive faz alusão ao jogo de par ou ímpar. O fracasso da polícia, que rigorosamente procura, mas está cega para a localização mais óbvia da carta, inspira nosso herói a contar a história de um garoto que conheceu, perspicaz no jogo.
O jogo consiste no seguinte: coloca-se uma quantidade qualquer de bolinhas na mão e solicita-se ao adversário que adivinhe se há um número par ou ímpar de bolinhas. O garoto elaborou uma estratégia bem-sucedida, baseada no que supunha sobre a astúcia do oponente: se ele fosse “bobão”, bastava supor, na segunda vez, o contrário do que ocorreu na primeira (se foi par, então ímpar); agora, caso ele fosse mais esperto, raciocina que a variação de par para ímpar (ou vice-versa) seria muito simples para ele. Então, ao se colocar, imaginariamente, no lugar do oponente, o garoto depreende que, na segunda partida, o adversário deve atribuir a mesma jogada que no primeiro lance.
Para identificar o intelecto do outro, o garoto imitava a expressão do rival com exatidão, assegurando que, dessa forma, seus sentimentos e pensamentos fossem semelhantes aos do outro. Para Dupin, a falha dos policiais estava em não se identificarem com o intelecto do ministro, pressupondo que seria correspondente à sua própria imagem diante de um espelho.
Os matemáticos franceses Georges-Théodule Guilbaud (1912-2008) e Jacques Riguet (1921-2013), que faziam parte do Círculo de Estudos Cibernéticos e foram grandes responsáveis pela divulgação da cibernética e da teoria dos jogos na França, estão por trás do interesse de Lacan por esse jogo. Segundo Liu (2010), Guilbaud teve como objetivo investigar a astúcia dos sujeitos envolvidos em uma situação de jogo. A astúcia tem duas funções: adivinhar as intenções do oponente e arranjar as situações de forma que este não adivinhe suas próprias intenções. Guilbaud considera que a suposição de Poe acerca de um maior grau de inteligência de um personagem em relação a outro é uma solução muito banal, segundo a perspectiva da teoria dos jogos. O matemático parte então da ideia de que os jogadores estão jogando há tanto tempo a ponto de seus respectivos níveis de inteligência se equivalerem. Ele diz que
A única solução, obviamente, é que cada um escolha aleatoriamente, cuidando, é claro, de lucrar com o menor erro de seu oponente. A escolha aleatória desempenha, assim, o papel de uma posição defensiva, de uma base para um ataque que se desenvolverá quando o adversário cometer erros. (Guilbaud, citado em Liu, 2010, p. 174; tradução nossa)
Com isso, afasta-se do argumento psicológico-imaginário utilizado por Poe, para se deter no argumento lógico-probabilístico da decisão. A preferência pela ordem imaginária (identificação com seu oponente) impede uma leitura dos processos estocásticos no nível da ordem simbólica (relativos à probabilidade do jogo) (Liu, 2010).
Seguindo um caminho similar a Guilbaud, Lacan analisa a questão para além da relação intersubjetiva da identificação com o outro. Ao buscar dissolver a intersubjetividade, o psicanalista intenciona encontrar uma estrutura capaz de ser apreendida simbolicamente: em outras palavras, uma captura simbólica do real. Não é sem razão que ele indicava a possibilidade da apreensão do real somente por meio do símbolo (Lacan, 1954-55/2010). Lembremos que, nesse período, a definição de real consiste naquilo que retorna sempre ao mesmo lugar - como no caso das estrelas e dos planetas que retornam ao mesmo lugar, com determinada periodicidade, quando se toma a Terra como perspectiva de observação. Vemos o quanto, dessa maneira, há uma conexão entre compulsão à repetição e real, a partir da qual é induzida uma lei simbólica.
Lacan extrai uma profícua análise do simbólico e do que insiste em repetir, a partir de referências cibernéticas. É nesse momento que Riguet surge como figura central que auxilia Lacan na formalização de uma máquina teórica que joga par ou ímpar (Burgoyne, 2018), com o objetivo de mostrar como uma pequena determinação simbólica pode ser criada a partir do acaso.
Jogar com uma máquina o jogo de par ou ímpar restringiria a identificação imaginária, restando apenas uma sequência “fria” de lances. Mas ela jogaria ao acaso? Estando a máquina ajustada para funcionar de modo que cada valor tenha 50% de chances de sair, sim. Mas quando os resultados estão postos, seria possível extrair do seu conjunto específico (de elementos finitos) algumas regras, que coloquem em questão a própria noção de acaso? É esse o ponto que interessa a Lacan. Dada uma sequência aleatória de lances par ou ímpar, para os quais o autor atribui os sinais “+” e “-”, ele mostra como é plausível determinar algumas regras simbólicas que indicam os fundamentos do fenômeno, que “apreendem” simbolicamente o acaso no conjunto dos lances e excluem possibilidades de surgimento de sequências específicas de + e -.
Bruce Fink (1996) possui uma leitura elucidativa dessa “recreação matemática”, apesar de não fazer menção alguma à importância da cibernética nessa empreitada. Cuidaremos de resolver isso. De acordo com Fink, o objetivo desse exercício é mostrar a autonomia da lettre. Há uma premissa fundamental para o desenvolvimento desse exercício: os processos de pensamentos inconscientes são de natureza lógico-matemática e envolvem graus de ciframento.
Já que a proposta de Lacan não é lidar com cada lance de + e -, par ou ímpar, isoladamente, não se trata de pensar em termos de probabilidade de 50% para cada lance. O que interessa é lidar com os resultados em modo de encadeamento (i.e., depois que os lances já aconteceram). O agrupamento dos elementos é uma operação fulcral. Exclusivamente após uma sequência qualquer de lances é que se torna possível extrair sua sintaxe específica e, ainda, determinar algumas impossibilidades simbólicas.
Podemos representar as possibilidades de lances no jogo de par ou ímpar com um grafo de estados finitos (Figura 1). Em outros termos, um circuito de dois estados dos quais é impossível sair.
O resultado que sucede um + somente pode ser um outro + ou um -, e vice-versa. Se considerarmos três jogadas seguidas, temos oito combinações de resultados possíveis. Lacan agrupa as combinações de três lances (trigramas) em três grupos (Tabela 1)5.
Combinações possíveis para uma sucessão de três lances no jogo de par ou ímpar e sna codificação em ama linguagem numérica ternária
Na primeira e terceira colunas, temos sequências simétricas (i.e., os lances das extremidades são os mesmos); e, na segunda coluna, temos as sequências assimétricas. Podemos, ainda, chamá-las, em ordem, de simétrica idêntica (1), assimétrica (2) e simétrica alternada (3). A cada vez que aparece um desses trigramas em um conjunto de lances, atribuímos o número correspondente a seu grupo (1, 2, 3).
Cada trigrama constitui uma unidade simbólica que se articula com a estrutura total das séries de lances. Essa forma como Lacan organiza os trigramas é muito semelhante à que Guilbaud fez para ilustrar as probabilidades estocásticas, também usando oito trigramas em código binário (Liu, 2010)6. Ambos trabalharam com agrupamentos estocásticos de símbolos: ou seja, com a formalização da sequência de séries randômicas, tais como os trigramas de um código binário, por meio da probabilidade, com o objetivo de construir sua estrutura subjacente. Dessa forma, o objetivo de Lacan com o jogo de par ou ímpar é salientar que o puro acaso não existe do ponto de vista da probabilidade, ao mostrar a estrutura de impossibilidades de um conjunto de lances (Liu, 2010). Esse é o nosso ponto de chegada.
Consideremos a seguinte sequência aleatória de lances:
Temos 21 caracteres que poderiam se estender para uma quantidade finita qualquer. Em todo caso, essa quantidade já é suficiente para apresentar o argumento de Lacan. Ao usarmos a linguagem numérica ternária acima para codificar cada trigrama da linguagem binária, encontramos o seguinte resultado:
Independentemente do número de lances que uma cadeia possui, é possível notar algumas regras simbólicas com essa codificação simples: a) não se pode mudar diretamente de 1 para 3 nem de 3 para 1, sem um 2; b) se 1 preceder 2, não é possível que um 1 se apresente depois de um número ímpar de 2; c) após um número par de 2, é possível que saia um 1; d) um número indefinido de 2 sempre é possível entre 1 e 3 (Lacan, 1954-55/2010). Como resultado, temos uma linguagem ternária (1, 2, 3) sobre uma linguagem binária (+, -), formada de lances aleatórios, que adquirem, apenas enquanto conjunto, um estatuto de sistema. Ao adquirir esse estatuto, o acaso é colocado em xeque (ou, pelo menos, é restringido) pelas regras de codificação dos resultados. Lacan desenvolve um circuito (Figura 2) para ilustrar isso.
A elaboração que Lacan (1956/1998b) realiza sobre esse circuito, derivado da aleatoriedade dos lances, é a seguinte: a cadeia, codificada na linguagem numérica, possui uma lei que, por estar em execução, associa-se à memória sobre o que não deve suceder de acordo com cada símbolo. É dessa maneira que ele inscreve a existência de uma ordem simbólica mínima que “captura” o acaso. Em outras palavras, ele, paradoxalmente, inventa uma determinação simbólica, a partir da qual torna possível “apreender” a aleatoriedade ou, ainda, depreender uma racionalidade probabilística (só depois que os lances de + e - aconteceram).
Lacan desenvolve ainda outra matriz (Tabela 2) para uma codificação um pouco mais elaborada, mas que segue o mesmo princípio teórico da anterior, o de uma linguagem ternária para uma linguagem quaternária.
Considerando ainda grupos formados por três caracteres, a partir da codificação da linguagem numérica ternária, o autor cria outra codificação: a passagem do primeiro para o terceiro lance, que compreende, respectivamente, 1 e 1, 1 e 3, 3 e 1 ou 3 e 3, codifica-se como α; da mesma forma, a passagem do primeiro para o terceiro lance que compreende, respectivamente, 1 e 2 ou 3 e 2 codifica-se como β; a passagem que compreende de 2 para 2 codifica-se como γ; e a passagem que compreende de 2 para 1 ou de 2 para 3 codifica-se como δ.
O espaço em branco, designado pelo símbolo “_”, pode ser ocupado por outro número, mas não qualquer um (como se pode deduzir das regras descritas anteriormente). Por exemplo, tomemos o primeiro caso de α. Qual seria o número do meio nesse primeiro caso? Como vimos, a) não pode ser um 3, por ser impossível passar diretamente do 1 ao 3 e vice-versa; mas, também, b) não pode ser um 2, tendo em vista que são necessários um número par de 2 para que possamos retornar a um 1. Portanto, deve ser um 1. Seguindo todas as regras, deduzem-se as possibilidades da Tabela 3.
Combinações possíveis para a codificação da linguagem numérica ternária por uma linguagem grega quaternária
Novamente, podemos realizar outra codificação dos nossos lances aleatórios; agora, da linguagem numérica ternária para a linguagem grega quaternária:
Com a introdução da matriz de letras gregas, surge uma nova sintaxe que define outras impossibilidades. Por exemplo, qualquer símbolo pode suceder-se imediatamente a qualquer outro, mas isso já não é possível no terceiro tempo. Se surge um α ou um δ no 1º tempo, por mais que, no 2º, qualquer símbolo seja viável, no 3º tempo somente é possível aparecer um α ou um β; agora, se surge um γ e um β no 1º tempo, apenas é possível que surja, no 3º tempo, um γ ou um δ (Lacan, 1956/1998b). Essa regra é escrita da seguinte maneira:
Isso é facilmente explicado se nos lembrarmos da codificação numérica ternária. Por exemplo, consideremos o δ inicial da nossa cadeia. O último caractere da linguagem ternária que ele codifica é uma simétrica alternada (3), ou seja, o primeiro caractere do trio codificado pela linguagem grega quaternária, no 3º tempo, é necessariamente essa própria simétrica alternada (o próprio 3). Apenas um α ou um β inicia-se com uma simétrica alternada. Logo, seria impossível encontrar um γ ou um δ nesse tempo.
Essas são somente as impossibilidades mais evidentes. Lacan (1956/1998b) continua a explorar outras. De qualquer forma, todas as impossibilidades identificadas convergem para as mesmas consequências que extrai desse jogo. Examinemos algumas delas.
A repetitiva captura simbólica do acaso
Preliminarmente, consideremos que, com essa máquina, Lacan está interessado em exibir como a ordem simbólica é uma sintaxe não intrínseca a uma realidade preexistente (Fink, 1996). Com isso, a importância do sentido ou da semântica se torna secundária. Desse modo, as formações do inconsciente são compreendidas a partir da noção de cadeia simbólica, em vez de produções dotadas de sentido ou de representação da realidade exterior. O método de cifragem é, realmente, simples; mas, com ele, o autor exibe a cifragem que ocorre com a própria linguagem natural que habita um sujeito dotado de inconsciente. Haveria, assim, uma “linguagem formal” que antecederia a semântica.
Agora, pensemos sobre algumas implicações envolvidas no procedimento de cifragem. Quando tomamos a cadeia numérica, por exemplo, percebemos que ela “conduz” determinadas possibilidades de números, não permitindo qualquer combinação. A aleatoriedade dos lances independentes é sobreposta pela combinação dos símbolos e pela proibição de determinados aparecimentos. A ideia é que essa “condução” (da ordem simbólica) consiste na própria noção de memória em psicanálise; uma memória intrínseca à cadeia simbólica, independente de um organismo vivo, mas dependente de um raciocínio lógico-combinatório. Dessa forma, a rememoração, mais do que lembranças que surgem de forma ativa, com a participação subjetiva consciente, designa um encadeamento simbólico composto por combinações e cifragens (Fink, 1996).
Esse raciocínio é aprimorado quando ocorre a codificação pela linguagem quaternária dos símbolos gregos. O fato de haver algumas impossibilidades na sucessão do 1º para o 3º tempo não deixa de chamar a atenção de Lacan. Isso vai indicar que a terceira posição já está de alguma forma determinada pela primeira, como se esta guardasse em si o núcleo daquela (Fink, 1996). Esse fato lógico rapidamente vira, para Lacan, evidência para os seguintes aspectos interdependentes: a determinação simbólica na constituição da sobredeterminação freudiana; a presença de um determinismo (que deixa de ser psíquico para ser simbólico) na associação livre, guiado pela autonomia combinatória do símbolo (Lacan, 1956/1998b).
Dessa maneira, aquela máquina simbólico-matemática é uma tentativa de exibir a própria ordem simbólica em ação, na medida em que esta abole o acaso. O que parece estar em jogo é que o inconsciente realiza procedimentos de agrupamento e codificação de símbolos. Ou seja, há uma estrutura que se desdobra automática e autonomamente apesar de qualquer consciência (Fink, 1996). O sujeito é possuído pela infamiliaridade de não ter noção precisa da cadeia simbólica que o inclui na contagem. A consequência imediata disso está na neutralização, de um lado, da ideia de liberdade de escolha e, de outro, da ideia de que as coisas aconteçam “por acaso”, uma vez que se trata de mostrar como há uma mecânica da compulsão à repetição, baseada em regras combinatórias específicas, que agem sobre a liberdade e sobre o acaso.
A leitura crítica de Lacan acerca do enredo do conto de Poe combina com a de Guilbaud, na medida em que a ideia de uma “astúcia” própria a Dupin se contrapõe à análise lógico-matemática do jogo de par ou ímpar. Os processos estocásticos do jogo se sobrepõem à inteligência de Dupin, que pensa poder superar a esperteza do ministro, colocando-se como exceção na história. Contudo, mesmo não percebendo, o detetive acaba no mesmo lugar que todo mundo: ele é mais uma engrenagem da máquina da lettre. O que está em questão é a importância da compulsão à repetição como ordem simbólica na “captura” do acaso, da randomização e dos processos estocásticos em geral (Liu, 2010). Assim, o jogo do símbolo representa e organiza o que chamamos de sujeito, independentemente de suas peculiaridades. O sujeito não promove o jogo, apenas toma seu lugar nele e cumpre um papel de pequenos + e -. Ele é um elemento nessa corrente e organiza a si mesmo de acordo com as leis (Liu, 2010). Tudo parece ocorrer de maneira que a ordem simbólica (ou o inconsciente) funcione como uma máquina de combinações de elementos contingentes que resultam em posições e repetições necessárias.
“Ora, qualquer máquina pode reduzir-se a uma série de retransmissores que são simplesmente de mais e de menos. Tudo na ordem simbólica pode ser representado com o auxílio de semelhante sucessão” (Lacan, 1954-55/ 2010, p. 250; grifos no texto). Em suma, a ordem simbólica é o mesmo que a máquina. Lacan afirma que
Foi isso que nos permitiu dizer que, se o inconsciente existe no sentido de Freud, ou seja, se entendermos as implicações da lição que ele retira das experiências da psicopatologia da vida cotidiana, por exemplo, não é impensável que uma moderna máquina de calcular, isolando a frase que, a longo prazo e sem que ele o saiba, modula as escolhas de um sujeito, venha a ganhar acima de qualquer proporção costumeira no jogo do par ou ímpar.
Puro paradoxo, sem dúvida, mas onde se exprime que não é por falta de uma virtude, que seria a da consciência humana, que nos recusamos a qualificar de máquina-de-pensar aquela a que atribuiríamos tão miríficos desempenhos, mas simplesmente porque ela não pensaria mais do que o homem pensa em seu status comum sem por isso deixar de estar exposto aos apelos do significante. (Lacan, 1956/1998b, p. 64)
Lembremos: qual é a lição que Freud extrai da “psicopatologia da vida cotidiana”, senão que há um determinismo nas experiências mais fortuitas? As tais “máquinas-de-pensar” cibernéticas servem para mostrar o próprio determinismo psíquico freudiano (que é mais tarde repensado pela introdução do conceito de “compulsão à repetição”) a partir de um aparato lógico-combinatório, que o reformula como um determinismo simbólico.
Na citação acima, Lacan recusa à consciência o estatuto de “máquina-de-pensar”, mas o atribui ao inconsciente. Aliás, podemos entender a própria noção de “Outro” da sentença “o inconsciente como discurso do Outro” (Lacan, 1956/1998b, p. 18; grifos no texto) como uma máquina. Isso tudo nos permite sentenciar que, no ensaio sobre “A carta roubada”, “Lacan deixa claro que o Outro é a máquina cibernética, em vez do que chamamos de linguagem” (Liu, 2010, p. 161; tradução nossa).
Isso é coerente com o que o autor já havia falado sobre as máquinas de pensar: elas impressionam porque são uma forma de a “nossa linguagem” funcionar quase sozinha (Lacan, 1954-55/2010, p. 164). Ele diz ainda que: “a máquina é a estrutura como desvinculada da atividade do sujeito. O mundo simbólico é o mundo da máquina” (p. 70). E o inconsciente seria um “sujeito acéfalo” (p. 228) que transmite mensagens cujos sentidos não são primordiais, mas que se proliferam em repetição. O símbolo se organiza de acordo com algumas leis, de maneira independente do sujeito, como na cifragem do jogo de par ou ímpar.
O próprio jogo do Fort-Da é submetido a essa óptica. A manifestação da compulsão à repetição no jogo com o carretel torna-se a própria captura, pela emissão de duas sílabas distintas, dos movimentos de presença e ausência da mãe. O Fort-Da é interpretado como a “entrada do indivíduo numa ordem cuja massa o sustenta e o acolhe sob a forma da linguagem” (Lacan, 1956/1998b, p. 51). Esse jogo cumpre a mesma função simbólica da linguagem binária da série de + e -, presença e ausência, que serve para capturar simbolicamente o acaso (e.g., da partida e do retorno da mãe).
Com essas pontuações, percebemos que a narrativa do conto serve para extrair a forma como os personagens não são personagens autônomos, com seus dramas individuais, mas como a história funciona como uma máquina cibernética: a lettre roubada/voada/desviada passa a ser o elemento de feedback do circuito, posicionando e reposicionando cada série de personagens. Afinal, a carta determina a posição do sujeito, no sentido de que ninguém que entra em contato com ela pode escapar de ser “capturado” em seu jogo. O automatismo de repetição no drama humano de Poe encontra seu verdadeiro sentido na máquina de acaso e probabilidade (Liu, 2010).
Considerando esses aspectos, a cibernética parece ter permitido a Lacan pensar em uma espécie de desantropologização da linguagem humana. Afinal, se a cibernética materializa a “nossa linguagem”, funcionando quase sozinha, a partir de uma depuração formal de símbolos discretos, podemos nos perguntar se ela não teria infligido uma quarta ferida narcísica na humanidade ao exibir o fato de a capacidade da linguagem simbólica não ser exclusiva nossa: “Humanos criam, máquinas ganham voz,/Em um dueto, ciência e emoção se entrevozam,/Na dança do tempo, juntos, seguem a sós” (OpenAI, 2022).7.
Considerações finais
Embora o diálogo com a cibernética no ensino de Lacan tenha durado relativamente pouco, podemos destacar pelo menos quatro implicações importantes e, até mesmo, duradouras. Em primeiro lugar, a cibernética ofereceu um apoio materialista e mecanicista (ou, talvez, “maquínico”) condizentes com os termos de sua época, servindo como base para a reelaboração de conceitos freudianos. A associação livre, a compulsão à repetição, o inconsciente e a sobredeterminação foram submetidos ao jogo combinatório de uma ordem simbólica fundamentada em linguagem binária e causalidade circular, notadamente por meio do conceito de feedback.
Em segundo lugar, o trabalho interdisciplinar da cibernética em buscar um paradigma explicativo comum acerca do funcionamento de organismos biológicos e máquinas resultou em uma dissolução das fronteiras ontológicas entre natureza e cultura, descoberta e invenção, necessário e contingente, antecipando muitos insights do movimento estruturalista francês. Um efeito imediato dessa perspectiva no ensino inicial de Lacan foi a eliminação do fundamento biológico sobre o qual Freud (1920/2020) ancorava o conceito de compulsão à repetição e de pulsão de morte (Simanke, 2020). Essas duas implicações se articulam na constatação de que a interlocução com a cibernética foi fundamental para a inflexão lógica operada por Lacan, pela qual o caráter eminentemente pulsional da compulsão à repetição tornou-se passível de formalização simbólica. Quando, anos mais tarde, Lacan devolve à pulsão e ao real papéis determinantes na lógica da repetição, isso não anula a formalização anterior, mas desloca seu centro de gravidade.
Em terceiro lugar, a cibernética forneceu a Lacan um arsenal crítico contra fundamentos psicologicistas, essencialistas, humanistas ou vitalistas para o eu, a consciência e a liberdade (que parecia assombrar, na perspectiva do autor, a psicanálise em suas vertentes estadunidenses). Em quarto lugar, considerando que a cibernética está nas origens das ciências cognitivas (Dupuy, 1996; Liu, 2010), o resgate das apropriações lacanianas dessa disciplina revela o potencial ainda pouco explorado de um diálogo mais profundo entre a psicanálise e as ciências cognitivas contemporâneas, a despeito da resistência mútua que persiste entre esses campos.
Tal resistência parece derivar do modo como as terapias cognitivo-comportamentais surgiram como crítica à psicanálise nos EUA. Contudo, o “cognitivo” não é domínio exclusivo dessa abordagem. Trata-se de um conceito polissêmico, que permeia o interesse de disciplinas voltadas ao estudo das representações mentais. Além disso, essa resistência se torna ainda mais intrigante quando confrontada com perspectivas que identificam traços “cognitivistas” no ensino de Lacan nas décadas de 1950 e 1960. Le Roux (2007), ao atribuir essa predicação ao psicanalista francês, em razão do uso de conceitos vinculados à lógica das máquinas, dirige também uma crítica contundente ao campo psicanalítico, questionando a sua relutância em explorar as potencialidades da interlocução com as ciências cognitivas.
O estudo histórico-conceitual, além de oferecer um exame epistemológico contextualizado dos usos que autores fazem de outras disciplinas, tem um papel fundamental na correção de equívocos sobre diálogos, cujo desenvolvimento é restringido pelo próprio curso histórico de um pensamento. Em particular, o estudo da relação entre Lacan e a cibernética revela não apenas os modos de importação e adaptação dos conceitos, mas também aponta para o potencial das ciências cognitivas (incluindo neurociências, linguística cognitiva e IA) como um campo fértil para interlocuções com a psicanálise, em mão dupla.
Evidentemente, algumas questões ficam em aberto a partir do que foi apresentado neste texto. Ao examinar aspectos “maquínicos” da compulsão à repetição, reparemos que ela funciona como um “autômato”, com suas regras próprias de ciframento e deciframento. Com isso, a máquina proposta por Lacan parece funcionar como um sistema fechado que se retroalimenta. Mesmo se inseríssemos mais camadas de ciframento (o que é bastante possível de ser feito), aumentando o número de possibilidades e de sobredeterminações, ainda assim a máquina teórica de Lacan está encerrada em um sistema fechado, que deixa pouca abertura para que um contingente permaneça como contingente, sendo então absorvido por uma ordem simbólica necessária.
Nesse sentido, teríamos ainda que examinar de forma mais pormenorizada alguns aspectos que somente tateamos neste texto: de que maneira essa ordem simbólica maquínica reflete o determinismo psíquico em psicanálise? De que determinismo se trata? E como a compulsão à repetição participa desse determinismo? Se estamos falando de um determinismo, facilmente poderíamos pensar em uma lei subjetiva que prescreve as interpretações inconscientes das ocorrências contingentes dos sujeitos. A questão toda é que, da maneira como a máquina teórica é construída, ela nos deixa a impressão de que é impossível sair do determinismo simbólico que lhe é intrínseco, ou seja, uma lei subjetiva é necessária. Talvez encontremos aí um limite para apreensão cibernética por Lacan, que não deixa muito espaço para algo permanecer, enfim, não codificado, uma vez que há certa lei de ciframento repetidamente atuante. É claro que, com isso, Lacan lança luz sobre o funcionamento coercitivo da compulsão à repetição, que age como uma lei determinística sobre o sujeito. Mas restaria ainda saber se seria mesmo impossível pensar o sujeito para além dessa determinação, mesmo continuando os termos maquínicos em jogo. Talvez o resgate da ideia de “máquina original que nela põe em cena o sujeito” (Lacan, 1960/1998c, p. 655) seja particularmente útil, por possibilitar a introdução do sujeito por uma inclusão externa na estrutura. Assim, talvez o que falta naquela máquina de par ou ímpar, para pensar especificamente a inclusão externa do sujeito, seja uma teoria da incompletude.
Além disso, as máquinas disponíveis no tempo de Lacan diferem muito das amplamente utilizadas hoje, como as Redes Neurais Artificiais empregadas em tarefas complexas, incluindo a geração de linguagem natural, exemplificada pelos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), como o ChatGPT, da OpenAI e tantos outros. Até a década de 1950, predominavam máquinas do paradigma simbólico, baseadas na manipulação de símbolos segundo regras predefinidas pelos programadores para executar tarefas específicas. Já as máquinas de IA atuais funcionam segundo o paradigma subsimbólico, estruturado por equações matemáticas que guiam processos de aprendizado baseados em dados. Nesse modelo, o conhecimento não é programado, mas emerge da interação com grandes volumes de dados (Mitchell, 2019). Poderíamos indagar se esse movimento não encontraria um paralelo com a passagem do inconsciente estruturado como uma linguagem, predominante nas décadas de 1950-60, para a concepção de lalangue, que ganha força a partir dos anos 1970.
Considerando esse panorama, um “novo retorno a Freud” (Iannini, 2024) ou, mais especificamente, um novo retorno às bases epistemológicas da psicanálise, é necessário para atualizar o diálogo com as novas conquistas técnico-científicas nos campos da informação e da comunicação, que envolvem especialmente a grande área conhecida hoje como ciências cognitivas. Por exemplo, seria possível reler a compulsão à repetição a partir das novas conquistas da IA, bem como das teorias dos sistemas auto-organizados e complexos? São questões que estão ainda para serem desenvolvidas por uma psicanálise no século XXI.
Agradecimentos
Agradecemos aos participantes do Laboratório Psicanálise no Século XXI (Lab21), pelas enriquecedoras discussões a propósito do tema deste texto.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa:
Não se aplica
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1
Este texto foi baseado na tese de doutorado de Bernardo Sollar Godoi, intitulada Contingência e repetição: ensaio sobre a pulsão de morte a partir de uma articulação entre psicanálise e materialismo especulativo, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (PPG-Psi/UFMG) em março de 2024. Essa pesquisa contou com o apoio financeiro da CAPES (Processo n. 88887.653965/2021-00).
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1
Podemos mencionar a conferência de Mario Eduardo Costa Pereira (CPMG, 2020) como exemplo de debate nesse sentido. Todavia, esse tipo de discussão ocorre de forma ainda muito tímida em nosso contexto.
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2
Para mais detalhes sobre os conceitos de feedback e de causalidade circular na cibernética, ver Dupuy (1996), Heims (1991) e Rosenblueth, Wiener e Bigelow (1943). Agora, para uma leitura mais contemporânea do termo feedback, relacionado principalmente ao campo da psicopatologia, ver Beer (2023).
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3
Embora, nesse período do ensino de Lacan, as definições de “letra” e “significante” se confundam, mais tarde em seu ensino, sua distinção se tornará um pouco mais clara.
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4
Logo no início do conto, Dupin e o delegado conversam sobre o caráter “simples e estranho” do caso da carta roubada.
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5
A respeito do motivo pelo qual Lacan usa agrupamentos de três caracteres, ver Liu (2010, pp. 181-184), que recupera a relação genealógica entre os trigramas da arcaica cifra chinesa dos Ba Gua e a linguagem binária.
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6
Para mais detalhes sobre o trabalho de Guilbaud, ver Liu (2010, pp. 176-179).
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7
Esse pequeno poema foi resultado do seguinte comando inserido ao ChatGPT-3.5: “Crie três versos de um poema sobre humanos e máquinas”. A interação aconteceu no dia 4 de janeiro de 2024.
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Financiamento/Funding:
Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES (Processo n. 88887.653965/2021-00) / The research was funded by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES (Process n. 88887.653965/2021-00).
Referências
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» https://hudsondeandrade.com.br/psicanalise-e-cibernetica/ - Beer, P. (2023). Verdade e sofrimento: psicanálise, ciência e a produção de sintomas. Perspectiva.
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-
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Editores do artigo/Editors:
Nelson da Silva Jr., Paulo Antonio Beer










Nota. Circuito das possibilidades e impossibilidades na codificação para uma linguagem ternária do resultado de lances no jogo de par ou ímpar. Adaptado de “O seminário sobre ‘A carta roubada’”, de Lacan, J., 
