Open-access Matar para permanecer vivo. Perspectivas de compreensão da dinâmica psíquica do canibal Jeffrey Dahmer

Killing to stay alive. Perspectives on understanding the psychic dynamics of cannibal Jeffrey Dahmer

Tuer pour rester en vie. Perspectives de compréhension de la dynamique psychique du cannibale Jeffrey Dahmer

Matar para seguir vivo. Perspectivas de compreensión de la dinámica psíquica del caníbal Jeffrey Dahmer

Resumo

Este artigo interroga o papel dos conflitos psíquicos arcaicos no agir de um criminoso canibal, visando compreender como fantasias primárias podem chegar a adquirir uma lógica compulsiva a partir de experiências precoces de precariedade nos cuidados recebidos. Para tal, abordaremos o caso de Jeffrey Dahmer, conhecido como “o canibal de Milwaukee”. Após traçarmos elementos de sua anamnese, procuraremos delinear aspectos dos conflitos inconscientes e dos mecanismos que regiam seu modo operatório. Dialogando com autores psicanalíticos que nos permitem fundamentar teoricamente nosso raciocínio, procuraremos evidenciar que a concretização compulsiva de suas fantasias de devoração, assim como suas práticas necrofílicas, visavam a reparação das bases fundamentais de sua falida estruturação psíquica.

Palavras-chave:
Fantasias arcaicas; objeto primordial; compulsão; canibalismo; necrofilia


Resumos

This study questions the role of archaic psychic conflicts in the behavior of a cannibal criminal, to understand how primary fantasies can acquire a compulsive logic based on early experiences of precarious care. To this end, we will look at the case of Jeffrey Dahmer, known as “the Milwaukee cannibal”. After outlining elements of his anamnesis, we will try to understand aspects of his unconscious conflicts and the mechanisms that governed his mode of operation. Dialoguing with psychoanalytic authors who enable us to theoretically base our reasoning, we will try to show that the compulsive materialization of his fantasies of devouring and his necrophiliac practices, aimed at repairing the fundamental bases of his failed psychic structure.

Key words:
Archaic fantasies; primordial object; compulsion; cannibalism; necrophilia

Abstract

Cet article interroge le rôle des conflits psychiques archaïques dans les agissements d’un criminel cannibale dans le but de comprendre comment les fantasmes primaires peuvent acquérir une logique compulsive à partir d’expériences précoces de soins défaillants. Pour ce faire, nous analyserons le cas de Jeffrey Dahmer, dit “le cannibale de Milwaukee”. Après avoir retracé son anamnèse, nous tenterons d’esquisser les conflits inconscients et les mécanismes qui régissent son mode opératoire. En dialoguant avec des auteurs psychanalystes qui nous permettent de fonder théoriquement notre raisonnement, nous tenterons de montrer que la matérialisation compulsive de ses fantasmes de dévoration, ainsi que ses pratiques nécrophiles, visaient à réparer les bases fondamentales de sa structure psychique défaillante.

Mots clés:
Fantasmes archaïques; objet primordial; compulsion; cannibalisme; nécrophilie


Resumen

Este artículo cuestiona el papel de los conflictos psíquicos arcaicos en el comportamiento de un criminal caníbal, con el objetivo de comprender cómo las fantasías primarias pueden adquirir una lógica compulsiva a partir de experiencias tempranas de cuidados precarios. Para ello, analizaremos el caso de Jeffrey Dahmer, conocido como “el caníbal de Milwaukee”. Tras esbozar elementos de su anamnesis, trataremos de comprender aspectos de sus conflictos inconscientes y los mecanismos que regían su modus operandi. Dialogando con autores psicoanalíticos que nos permitan fundamentar teóricamente nuestro razonamiento, trataremos de demostrar que la materialización compulsiva de sus fantasías devoradoras, así como sus prácticas necrofílicas, tenían como objetivo reparar las bases fundamentales de su estructura psíquica fallida.

Palabras clave:
Fantasías arcaicas; objeto primordial; compulsión; canibalismo; necrofilia


Introdução

Este artigo tem por propósito refletir sobre o papel dos conflitos psíquicos arcaicos no agir de um criminoso canibal, visando compreender como fantasias primárias podem chegar a adquirir uma lógica compulsiva a partir de experiências precoces de precariedade nos cuidados recebidos. Interessa-nos examinar de que modo funções e fantasias que fazem parte do desenvolvimento psíquico infantil, pelo fracasso do ambiente a lhes proporcionar um espaço suficientemente bom para se desenvolverem, continuam, de forma compulsiva e ineficiente — já que o ato tende a repetir-se —, a tentar ajudar o Eu a elaborar o trauma e a extrair do vazio um bom objeto introjetado ao qual identificar-se. Para tal, nos interessaremos pelo caso de Jeffrey Dahmer (1960-1994), conhecido como canibal de Milwaukee (EUA), que, após cometer seu primeiro assassinato aos 18 anos, foi responsável pela morte, desmembramento e devoração de ao todo 17 rapazes, tendo os restos não incorporados servido de suporte para atos necrofílicos e/ou colecionistas.

Não é nosso propósito realizar aqui um estudo psicopatológico com pretensão diagnóstica, senão um exercício de reflexão metapsicológica que se apoia em um caso concreto. Assim, visamos identificar os conflitos inconscientes do criminoso elaborados na concretização em ato de suas fantasias canibálicas, e compreender se a qualidade de suas primeiras relações objetais e suas interações com o ambiente no qual nasceu e cresceu podem, em parte, explicar a barbárie de seus atos.

Considerando que as fantasias em pauta são extremamente arcaicas e ligadas às funções fisiológicas, que o papel do ambiente para o desenvolvimento psíquico da criança é determinante, e que a questão do trauma e da repetição se mostra de antemão premente, os autores convocados para nossa reflexão serão prioritariamente Freud, Klein, Winnicott e Ferenczi. Autores contemporâneos como Green, Roussillon e outros nos ajudarão a embasar ou a esclarecer nosso raciocínio.

Tendo em vista que o leitor talvez não conheça os principais marcos da história de Jeffrey Dahmer, iniciaremos traçando brevemente sua anamnese para podermos, em uma segunda parte, discutir o caso fundamentando teoricamente nossa argumentação.

O caso Jeffrey Dahmer

Escolhemos delinear elementos da anamnese de Jeffrey Dahmer baseando-nos em cinco fontes distintas, coletando, em primeiro lugar, informações nas falas do próprio Jeffrey durante as entrevistas que concedeu a Nancy Glass (1993) e a Stone Phillips (1994). Uma segunda fonte de dados se encontra no livro A Father’s Story (2021), que o pai de Jeffrey, Lionel, escreveu sobre sua vida familiar e o comportamento de seu filho. Nossa terceira fonte reside no livro Meu amigo Dahmer (Backderf, 2017), escrito por um ex-camarada de Jeffrey. Uma quarta fonte consiste no documentário Conversations with a Killer: The Jeffrey Dahmer Tapes (Berlinger, 2022), que revela elementos da investigação e do processo, em falas do próprio Jeffrey assim como de peritos, advogado, policiais etc. Por fim, uma quinta fonte é formada pelas matérias jornalísticas publicadas durante seu processo. O cruzamento dessas fontes nos permite reconstruir o percurso de Jeffrey Dahmer desde sua infância de uma forma que consideramos suficientemente confiável para embasar nossa reflexão clínico-teórica.

O primeiro elemento que sobressai da leitura do livro de Lionel Dahmer (2021), é a qualidade deficitária do holding materno, antes mesmo de Jeffrey nascer. Lionel explica que sua esposa, Joyce, quando grávida, passou por graves crises que, apesar de evocarem sintomas epilépticos (rigidez, boca espumando), não mostraram ter nenhuma causa somática, tendo os médicos consultados sugerido um distúrbio mental. À raiz disso, Joyce passou a tomar fenobarbital, o que, somado às suas demais medicações — até 26 comprimidos por dia, dentre os quais morfina (Dahmer, 2021) — colaborou para empiorar o seu estado emocional, desencadeando momentos de fúria contra os demais e contra sua própria gravidez. Após o parto, ela se recusou a amamentar seu filho e a tocá-lo, exceto para trocar fraldas ou para posar para uma fotografia (The Lineup Staff, 2017). Obcecada pela contaminação bacteriana, ela não permitia a ninguém segurar o bebê (The Lineup Staff, 2017).

Assim, a infância de Jeffrey foi ritmada pelos episódios que qualificaríamos de maníaco-depressivos de sua mãe — ela chegou a sair de casa em camisola e aparecer deitada na grama, desacordada, a poucos quarteirões —, pelas convulsões que a exauriam e a deixavam acamada por vários dias, assim como pelas violentas discussões entre seus pais, por vezes físicas — como na vez em que sua mãe tentou esfaquear seu pai —, que culminaram em um divórcio litigioso no qual prevaleceram contra ela alegações de “crueldade extrema e de negligência do dever conjugal” (Dvorchak, 1991; tradução nossa). Lionel relata que Joyce provinha de uma família conflituosa e que havia tido um pai alcoolista e sexualmente abusivo (Dahmer, 2021). Ela foi hospitalizada para receber cuidados psiquiátricos, por duas vezes, no decorrer de 1970.

Parece paradoxal verificar que, nas palavras de Jeffrey em suas entrevistas ou mesmo em seu processo, ele diz ter tido uma infância feliz e normal, como aparentam atestar as fotos e os vídeos familiares. No entanto, as fontes concordam em afirmar que se tratava simplesmente de uma fachada: sua mãe unicamente desempenhava seu papel quando estava sendo filmada ou fotografada.

Vítima de frequentes infecções quando criança, Jeffrey foi operado aos quatro anos de uma dupla hérnia escrotal. Em seu livro (Dahmer, 2021), Lionel conta que seu filho associava a dor pós-operatória ao medo de que seu pênis houvesse sido seccionado.

Ainda criança, Jeffrey mostrava fascinação pelas carcaças de animais que seu pai extraía de debaixo da casa familiar, onde armazenava a madeira para o inverno e onde pequenos predadores se escondiam para devorar suas presas. O pequeno Jeffrey empunhava os ossos de mãos cheias e gostava de ouvir seu barulho ao deixá-los cair (Dahmer, 2021). Em torno dos 10-12 anos, passaria a organizar um pequeno cemitério para animais, com crânios espetados em pequenas cruzes.

Cientista químico, o pai Lionel, que confessara ter desenvolvido uma obsessão pelo fogo e pelo controle desde criança e, mais tarde, um perigoso fascínio por bombas e pela fabricação de explosivos, ensinou seu primogênito a desossar animais e a dissolver sua carne em componentes químicos.

Lionel Dahmer testemunhou, durante a investigação judiciária, que o filho havia sido abusado sexualmente aos oito anos por um vizinho. Não obstante, em suas participações em dois programas de televisão, um rapaz que havia tido, quando adolescente, um caso com Jeffrey, declarou que o mesmo havia sido abusado sexualmente por seu pai, continuamente, de seus 8 anos aos seus 16 anos (Dahmer, 2021, n.p.). Apesar de Jeffrey negar essas alegações e de seu pai, em seu livro, se horrorizar de tal acusação, indícios existem no mesmo livro que mostram uma identificação ou confusão pai-filho que ultrapassam os limites de uma simples relação edipiana mal elaborada:

Mas agora, quando vejo a foto de Jeff em um livro ou na televisão, me pergunto o quão perto cheguei daquele estado de morte e vazio emocional ao qual meu filho finalmente desceu. (...) Vejo e ouço meu filho e penso: “Eu sou assim?”. (Dahmer, 2021, n.p.; tradução nossa)

Jeffrey descobriu sua homossexualidade no início de sua puberdade. Durante sua adolescência, ele havia conseguido integrar um grupo formado por camaradas de classe, utilizando como recurso para atrair a atenção e fazê-los rir, simular ataques epilépticos e imitar o discurso inarticulado de uma pessoa com paralisia cerebral (Backderf, 2017). A partir de seus 15 anos, seu alcoolismo foi alcançando tais proporções que seu bafo constante e forte de álcool o fazia passar por alguém ainda mais bizarro, sem que, no entanto, nenhum adulto fizesse menção de se preocupar por isso (Backderf, 2017). Jeffrey narra que esse período corresponde com a aparição das fantasias obsessivas de dominação, morte, canibalismo e necrofilia que o assombrariam toda a sua vida.

Através do texto de Lionel Dahmer, desenha-se a figura paradoxal de um pai que se diz zeloso por sua família, mas que, face ao comportamento da esposa, prefere ausentar-se de casa por longos períodos. Em 1977, Lionel muda-se de casa, deixando o adolescente com sua mãe, Joyce, e seu irmão menor David. Após a formalização do divórcio parental, em 1978, apenas uns dias após obter seu diploma de ensino secundário, Jeffrey ao chegar em casa a encontra vazia: sua mãe o havia definitivamente abandonado, levando David com ela. Sozinho, “sem dinheiro, sem comida e com a geladeira quebrada” (Dahmer, 2021, n.p.; tradução nossa), o jovem passa a beber de forma ainda mais descontrolada. Ocorre então seu primeiro crime, sendo a vítima um jovem ao qual havia oferecido carona e que havia aceitado vir à sua casa para beber umas cervejas e assistir um filme. O assassinato foi desencadeado quando o rapaz fez menção de ir embora. “Ele queria ir embora e eu não queria que ele fosse”, declarou Jeffrey à polícia 13 anos depois (Dvorchak, 1991; tradução nossa).

Há um elemento interessante no relato que o pai faz do momento, várias semanas após o abandono materno, em que encontra Jeffrey sozinho em casa: havia signos de que o jovem, além de embebedar-se, havia promovido sessões satânicas em casa com jovens tão perdidos quanto ele, o que foi confirmado em seu processo.

Dispensado do exército por alcoolismo em 1981, e sob suspeita de dois estupros, Jeffrey, que vivia com sua avó, foi preso e condenado a pagar uma multa em 1982 por exibicionismo face a mulheres e crianças. Em um último esforço de reprimir sua homossexualidade, ele chegou a roubar em uma loja o torso de um manequim masculino para manter relações sexuais com ele, vestindo-o e desvestindo-o, masturbando-se ao seu lado. Após perceber a desconfiança de sua avó, ele desfez-se de seu objeto fetiche.

Abandonando toda resistência, em 1985, ele passou a frequentar bares e saunas gays, e a drogar suas vítimas para estuprá-las ou simplesmente masturbar-se junto a seus corpos inertes. Em 1986, Jeffrey é outra vez preso e condenado a um ano e meio de liberdade condicional após se masturbar face a um garoto de 12 anos.

Em 1987, ocorre seu segundo homicídio, que sucedeu, conforme narra em entrevista a Stone Phillips (1994), sem ter ele consciência do que estava fazendo. Ao acordar no dia seguinte de haver drogado sua vítima para manter relações com ela, Jeffrey, que afirma não recordar nada, descobriu que ela estava morta, com o corpo esmagado a socos, e que seus próprios punhos estavam machucados. A partir de então, ele mataria de forma sistemática e planejada outros 15 jovens, todos escolhidos, segundo ele, por critérios de beleza e perfeição, sem que fossem esses critérios raciais. A técnica consistia em propor-lhes uma sessão de fotos, oferecer bebidas e/ou uma relação sexual tarifada em seu domicílio, drogá-los, estrangulá-los ou apunhalá-los, por vezes esfolá-los, seccionar seus atributos sexuais para conservá-los e/ou ingeri-los assim como seus órgãos internos, que ele primeiro se deleitava em cheirar. Após isso, ele os esquartejava, prelevava uma parte de suas carnes para se alimentar e dissolvia o resto em ácido, conservando os crânios no intuito de erigir com eles um altar face ao qual ele poderia se recolher, rememorar suas vítimas e os distintos momentos vivenciados com elas, inclusive seus atos necrófilos, e, assim, “organizar [seus] pensamentos e alimentar [sua] obsessão” (Glass, 1993; tradução nossa). Ele tentou por duas vezes manter sua vítima viva ao tempo que totalmente submissa, injetando-lhe ácido ou água quente no cérebro. Também chegou ao ponto de ir trabalhar com um crânio dentro de uma maleta, que ele guardava no seu armário do local de trabalho.

Tendo sua última vítima conseguido fugir antes de ser fatalmente apunhalada, Jeffrey Dahmer foi preso, julgado e condenado em 1991. O jovem criminoso, que lamentava não ter sido condenado à morte, tendo esta pena sido abolida no Wisconsin, morreu aos 34 anos, na prisão de Columbia, espancado por um codetento, sem lhe opor nenhuma resistência.

Fundamentação teórica e discussão

Crueldade, domínio e anobjetalização

Jeffrey Dahmer mostrou sinais de crueldade e de curiosidade mórbida pelo interior dos corpos de seres vivos desde muito cedo. Na entrevista que concedeu a Stone Phillips (1994), ele confessa que o fascínio pelo interior dos animais se declarou na nona série após fazerem, na aula de biologia, a dissecação de fetos de porco.

JD: Eu peguei os restos e levei para casa, onde eu guardei. Aí eu comecei a dissecar cães, gatos. Achei que poderia se tornar um hobby como taxidermia, mas isso não aconteceu. Isso me levou a [cometer crimes]. O porquê, eu não sei. Tudo que eu sei é que eu queria ver como o interior desses animais era. (…) Isso se tornou uma compulsão. Transferida de animais para humanos. Eu não sei por quê.

(…)

SP: Havia algum prazer em cortar ou abrir os animais?

JD: Sim, havia. Não prazer sexual, mas apenas… é difícil de descrever. Uma sensação de controle.

SP: Uma sensação de poder, de controle?

JD: Sim, acho que é uma boa maneira de descrever.

(…)

Levava as carcaças de volta para floresta, às vezes a pele deles, e os cortava. Abria eles completamente para olhar os órgãos, para senti-los. Havia uma espécie de excitação geral para mim. Eu não sei por quê. Era emocionante ver (Phillips, 1994; tradução nossa).

Nessa fala de Jeffrey evidenciam-se, na sua relação com o objeto que serve de suporte para a satisfação de sua compulsão, o papel preponderante de três pulsões: domínio, crueldade e escópica. Vemos que se trata de pulsões parciais pelo fato de Jeffrey não conseguir encontrar um qualificativo único para sua experiência: ao rechaçar o termo de “prazer sexual”, ele procura claramente descrever um prazer não genital, e engloba dentro do termo “excitação geral” as vivências próprias às pulsões de domínio (controle), escópica (olhar) e de crueldade (dissecar/cortar).

Justamente, essa estreita relação é apontada por Freud em sua primeira teoria pulsional (1905-1914/15), onde indica que a crueldade parece estar ligada ao destino das pulsões parciais escópica e de domínio. Ambas trabalham para que a crueldade ignore o estatuto e a natureza do objeto (Donard, 2009). Assim, a pulsão de crueldade não seria “nem o desejo de infligir sofrimento nem o desejo de o gozar, mas o desconhecimento da alteridade sensível do outro” (Mijolla-Mellor, 2005b, p. 1; tradução nossa).

Para Mijolla-Mellor (2005a) a crueldade não aparece como uma pulsão em que meta e objeto estão intimamente ligados, mas como um impulso dirigido à alteridade do objeto e não ao próprio objeto.

Na crueldade, o objeto é igualmente ignorado como pessoa, o que explica a ausência de compaixão. Os seus contornos e a sua individualidade parecem constituir um obstáculo à descoberta do que está no seu interior e, para isso, é preciso estripá-lo, destruí-lo, reduzi-lo ao informe. (p. 31; tradução nossa)

Assim, em sua entrevista a Nancy Glass (1993), Jeffrey explica que esse processo de desobjetalização foi se desenvolvendo gradualmente, partindo de uma simples excitação até, posteriormente, proporcionar-lhe uma real satisfação sexual: “Trata-se de um processo, não acontece da noite para o dia, quando você despersonaliza uma pessoa e a vê como um simples objeto, um objeto de prazer em vez de um ser humano vivo que respira” (Glass, 1993; tradução nossa).

No pensamento de Freud, a crueldade e a visão chegam a formar uma única pulsão, referida em 1915, em uma nota acrescentada aos “Três ensaios...”, como a “pulsão escópica e de crueldade” (Schau und Grausamkeit-strieb), pulsão que atua “por anastomose” com a pulsão sexual (Freud, 1905/2016, p. 101). Da mesma forma, Melanie Klein apontou, no seu artigo “The early stages of the Oedipus conflict” (1928), uma ligação estreita entre epistemofilia e sadismo, sendo o interior do corpo da mãe identificado pelo bebê como o palco privilegiado dos processos sexuais, destinatário de suas fantasias e de sua curiosidade intelectual. Com base nessas asserções, Mijolla-Mellor (2005a) sustenta que a componente cruel é o que resta de “um movimento irrepreensível que nos impele a dilacerar para penetrar o que está no interior do enigmático invólucro corporal”, e argumenta que a vinculação da crueldade com a pulsão escópica “diz respeito a uma visão específica, a do interior do corpo. (...) A pele é o objeto visado pela crueldade, que deve rasgá-la ou perfurá-la para revelar o que ela contém e esconde: o cru, o sangrento, o sangue do ‘cruor’ da crueldade” (p. 30; tradução nossa).

Do ponto de vista da segunda teoria freudiana das pulsões (1920-1939), vemos que o que liga a crueldade ao exterior sem lhe impor um objeto preciso é o fato de que a pulsão de morte, na sua deflexão do Eu para o exterior, assume três modalidades que, embora necessitem de um objeto para atingir sua meta, o negam e o despojam da sua qualidade de objeto (Donard, 2009). A crueldade seria, então, o traço comum que une “o domínio, a destruição e a vontade de poder” (Freud, 1924/1997, p. 291; tradução nossa).

Neste sentido, Philippe Bessoles (2000) argumenta que

(...) a pulsão de crueldade pertence (...) à destrutividade originária, sendo anobjetal. Trata-se de uma dinâmica primitiva sem amor, nem ódio, porém hostil, que não manifesta nenhuma piedade. A pulsão de crueldade não tem meta sádica, ela é ataque, efração, dos primeiros contentores e conteúdos maternos por medida de autoconservação. (pp. 69-70; tradução nossa)

Compulsão à repetição

Crueldade e pulsão de morte encontram-se, por conseguinte, intimamente ligadas. Ora, diz Freud (1920/2010c), a ação da pulsão de morte pode ser identificada em uma compulsão ao ato, que, apesar de sua tentativa de ligação da efração traumática, repete ao infinito, por ser estéril, a dinâmica violenta do trauma, sem conseguir exorcizar o sujeito da força mortífera de seus conflitos psíquicos.

Tal imperativo compulsivo aparece claramente nas falas de Jeffrey Dahmer, que afirma em todas suas entrevistas que ele se sentia impelido por uma força irrepreensível a cometer seus crimes, sem que ele possa compreender por quê.

Para entendermos como uma compulsão à repetição, que revela um conflito inconsciente, vem a se fixar em um agir onde o sujeito é consciente e ator de seus crimes, o psiquiatra forense e psicanalista Daniel Zagury, especializado na psicologia do assassino em série, explica que é possível considerar a recidiva criminosa de um ponto de vista económico-dinâmico, onde a primeira experiência homicida, mais ou menos improvisada, pela excitação e satisfação narcísica e pela experiência de onipotência que oferece ao criminoso, se torna matriz do agir e abre caminho à reincidência. É precisamente essa dinâmica que percebemos na sequência dos atos de Jeffrey Dahmer: o primeiro assassinato, em 1978, não foi planejado, mas beneficiou-se de uma ocasião propícia e de um encontro casual; ele se masturba junto ao corpo e esconde o cadáver no mesmo lugar onde brincava com os ossos de animais mortos quando criança. No dia seguinte, por primeira vez, ele desmembra uma vítima humana, porém com o fim de dar sumiço ao corpo. Seu segundo crime ocorre nove anos depois, em 1987, estando Jeffrey em um estado segundo, sem recordar haver matado sua vítima. Após conservar o cadáver por uma semana, ele inicia meticulosamente o processo de desmembramento, de cortes das carnes e de trituração dos ossos, para logo jogar tudo, exceto a cabeça, no lixo. Ele conserva esta última por mais duas semanas, utilizando-a como suporte para masturbação, e, após limpá-la e tentar tratar o crânio para conservá-lo, o destrói. Esse assassinato delimita o momento em que Jeffrey deixa de lutar contra seus impulsos e passa a buscar ativamente suas vítimas,

SP: Havia algo de sexual no desmembramento do cadáver para você?

JD: Com o passar do tempo, sim, eu percebi que essa era a parte sexual. Comecei a guardar os esqueletos e a preservar outras partes, e uma coisa levou a outra. Isso me levou a cada vez mais depravações para satisfazer meus impulsos. Saiu do controle (Phillips, 1994; tradução nossa).

Essa compulsão à repetição, apesar de Freud situá-la no registro das neuroses, reveste, para o pai da psicanálise, um caráter “demoníaco”. Assim, em “O Infamiliar” (1919/2019), ele especifica:

No inconsciente anímico, é possível, de fato, reconhecer-se o domínio de uma incessante compulsão à repetição das moções pulsionais, a qual, provavelmente, depende da mais íntima natureza das pulsões, e que é suficientemente forte para se impor ao princípio de prazer, conferindo um caráter demoníaco a certos aspectos da vida anímica. (p. 69)

Se mencionamos aqui esta “demonização” da compulsão à repetição, é porque nos chama a atenção o fato de Jeffrey ter promovido sessões satânicas quando vivia sozinho após o abandono de sua mãe. Mais ainda, após seu segundo crime, Jeffrey adquiriu o hábito de usar lentes de contato amarelas, em uma identificação ao maléfico Emperador do filme O retorno do Jedi (Star Wars: Episódio VI) quando saía à noite para frequentar bares gays, e sabemos por sua última vítima, que conseguiu escapar, que ele a havia imobilizado para assistir o filme O Exorcista III, murmurando encantações, após haver-lhe revelado sua intenção de comer-lhe o coração.

Assim, vemos que Jeffrey percebia em si algo tão estranho e se sentia de tal forma refém de uma força misteriosa que o impulsava ao ato, que chegou a identificar-se com um ser das trevas. É o que explica Gerard Boyle, advogado da defesa, quando narra que seu cliente havia então começado a pensar: “Talvez seja o meu destino de atuar como o demônio” (Berlinger, 2022). Jeffrey, que descreve uma “compulsão tão forte”, e um desejo “tão estranho” de querer “manter algo da pessoa [consigo]...” (Glass, 1993), passa então a ser o ator consciente de seus atos aceitando obedecer, conforme suas próprias palavras, a “uma força motora determinada”, reconhecendo que seus “desejos eram bestiais” (Berlinger, 2022).

Poderíamos considerar tal bizarrice um caso isolado, se não encontrássemos numerosos exemplos desse tipo de experiência nas artes literárias, plásticas e musicais, o que nos mostra o quanto é profundamente humana, apesar de revelar-se patológica em suas consequências. Assim, na novela de Robert Louis Stevenson, “O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” (2008):

Meu demônio, estando por muito tempo aprisionado, libertou-se com um rugido. Estava consciente, mesmo quando tomei a mistura, de uma propensão mais desordenada e furiosa para o mal. (...) voluntariamente, eu tinha me libertado de todos os instintos equilibrados, pelos quais o pior de nós continua a caminhar, com certo grau de firmeza, diante das tentações; e, no meu caso, ser tentado, ainda que sutilmente, era o mesmo que cair. (...) Instantaneamente, o espírito do inferno despertou dentro de mim, enraivecido. (p. 61)

Prossigamos nossa reflexão teórica, sempre apoiando-nos no caso de Dahmer, para tentar compreender como semelhante compulsão pode chegar a ser conscientemente assumida pelo sujeito, passando a lhe tomar as rédeas do agir.

Processos arcaicos e relação de objeto

Sabemos que, desprovido de palavras e entregue às forças das vivências somáticas, o recém-nascido, que ainda não distingue os estímulos internos dos externos, delineia seus objetos sexuais e amorosos a partir de suas experiências de satisfação (Freud, 1914/2004). Para Klein, os primeiros mecanismos psíquicos do bebê, a introjeção e a projeção, apoiam-se em seu funcionamento fisiológico (Klein, 1937/1996a). Durante esta fase, o infans aprende, ingerindo o alimento que lhe permite subsistir e expelindo o que o corpo rejeita, a introjetar as principais características do objeto primordial, assim como a atacá-lo com suas dejeções. Nesse momento, é fundamental o trabalho das fantasias inconscientes como processo de transformação das necessidades instintivas em fatos psíquicos, para constituir a base da memória, na forma de afetos associados às sensações (Cintra & Figueiredo, 2010).

Graças a esses mecanismos próprios da fase esquizoparanoide (Klein, 1946/1985), serão introjetados os objetos de satisfação das pulsões parciais, e tais objetos parciais poderão ser igualmente projetados em uma dinâmica identificatória, persecutória e destrutiva. Esses objetos produzem uma grande teia de representações com fantasias em que se entrelaçam afetos, permitindo o aflorar da relação de objeto e do sentimento amoroso, e a desviação do ódio e da destruição na direção do objeto externalizado.

No entanto, explica Roussillon (2020), os desejos sádico-orais, potencializados pela voracidade do bebê (Klein, 1952/1991), ao dirigir-se do mesmo modo ao bom seio introjetado, atacando-o e fragmentando-o, vão alimentar a angústia persecutória do bebê que representa o seio mau como podendo devorá-lo “com uma voracidade igual à de seus desejos” (Roussillon, 2020, p. 185; tradução nossa). Karl Abraham, mentor e analista de Melanie Klein, insiste, retomando a teoria freudiana sobre as fases do desenvolvimento infantil (Freud, 1905/2016), na premência do desejo de dentada e de incorporação do objeto na fase “oral-canibálica” (Abraham, 1970).

Os atos criminosos de Dahmer revelam essa destrutividade oral-canibálica e sádico-anal (Freud, 1905/2016), onde se exerce o controle sobre o objeto até sua devoração. Na entrevista que concedeu a Nancy Glass, Jeffrey diz sobre sua prática do canibalismo: “Isso me fez sentir como se eles fossem uma parte permanente de mim. Além da mera curiosidade de como seria, isso me fez sentir que eles faziam parte de mim, e fazer isso me deu satisfação sexual” (Glass, 1993; tradução nossa). A Stone Phillips, ele declara: “Fazer o que fiz foi a maneira que eu encontrei para ter o controle completo” (Phillips, 1994; tradução nossa).

Apesar de que havia satisfação sexual em possuir, dominar e incorporar suas vítimas, compreendemos que os mecanismos e as fantasias que regem seu psiquismo, por corresponderem a uma posição arcaica do Eu com ênfase nas fantasias pré-genitais, circunscrevem o investimento libidinal a objetos parciais, incapacitando o sujeito para cuidar ou preocupar-se com o destino do outro, nem a reconhecer-lhe direitos, necessidades e desejos.

Ao que tudo indica, Jeffrey, quando bebê, não pôde introjetar um bom objeto ao qual identificar-se. Não parece ter havido senão um espaço psíquico para o seio que permaneceu vazio. Jeffrey, conforme seu próprio testemunho, nunca matou por ódio, nem mesmo na tentativa de destruir o objeto. Tendo em vista o que explicitamos sobre a deficiência de seu ambiente familiar e a quase total ausência de holding materno, formulamos a hipótese de que Jeffrey Dahmer matava para tentar construir seu objeto interno, ingerindo-o fisicamente para introjetá-lo psiquicamente, na modalidade mais primária de uma dinâmica na qual os primeiros mecanismos psíquicos do bebê se constroem apoiados em um funcionamento fisiológico de processamento do alimento: ingerir o bom e expelir o mau (Klein, 1937/1996a). Jeffrey, quando lactante, parece nunca ter saído desse impasse: o alimento não lhe trazia nada de simbólico que ele pudesse conservar em si para desenvolver-se psiquicamente de forma saudável.

A cena canibalística originária

Sabemos que, para Freud, existe uma analogia entre a forma de pensar do Urmensch (homem primevo) e o funcionamento de nosso inconsciente (Freud, 1915/2010a). Na alegoria da Horda primeva1 de “Totem e tabu” (Freud, 1913/1996), o Pai onipotente e incestuoso, ogro que devorava sexual mente suas filhas, foi o primeiro humano em ser ingerido pelos próprios filhos, em um banquete que selou a constituição de uma sociedade totêmica regulada por regras, proibições e tabus que, para Freud, perduram em nosso inconsciente (Freud, 1913/1996). Por conseguinte, do ponto de vista das fantasias primárias, a devoração do objeto não somente se apresenta vinculada à sexualidade de forma geral, mas igualmente à relação ao objeto primordial e/ou edipiano e à castração.

Tendo em vista que a fantasia consiste em uma representação dinâmica em que os papéis são intercambiáveis, nesse cenário transformado pela premência sexual em uma violenta versão da cena primitiva — onde se elaboram psiquicamente o mistério da relação sexual dos pais ligada à questão da origem do Eu —, a fantasia de devoração permite a identificação ao devorador, ao devorado ou ao espectador.

Roussillon (2020) explica que a violência das relações entre as figuras parentais pode conduzir a criança a fantasiar a cena originária como uma ceia canibalística.

(...) a criança “teoriza” as relações entre as pessoas com quem convive e com quem se constrói de acordo com sua organização pulsional dominante naquele momento, a partir dos dados fornecidos pela organização de seu prazer ou de seu desprazer. Quando a organização “oral” da pulsão domina, ela come, devora, incorpora ou excorpora o que ocorre, sendo ela mesma potencialmente devorada ou reincorporada. Quando a organização “anal” domina, é com base em suas características — domínio, atividade, passividade, idealização, dejeção etc. — que o mundo é reinterpretado. (...) O trabalho de dar sentido a eventos e relações por meio de “teorias infantis” está na origem das “fantasias” infantis. (...) Uma cena de discussão entre os pais, durante a refeição, poderá então, por exemplo, ser “teorizada” pela criança como uma cena de devoração. (pp. 14 e 103; tradução nossa)

Em nossa discussão sobre o caso de Jeffrey Dahmer, e tomando apoio nos detalhes expostos em nossa primeira parte, parece-nos plausível imputarmos tal delineamento de uma cena originária de devoração à violência que reinou em sua casa até o divórcio de seus pais, lembrando que este se justificou, entre outros motivos, pela “crueldade extrema” exercida por parte de sua mãe sobre seu pai.

A mãe morta

Um conceito elaborado por André Green nos traz, ao considerarmos as circunstâncias da gestação e dos primeiros anos da infância de Jeffrey Dahmer, uma nova luz para nosso estudo. Trata-se do “complexo da mãe morta” (Green, 1988), em que a mãe, fisicamente viva, é vítima de depressão tão importante que ela parece, de certa forma, estar psiquicamente morta, situação tanto mais torturante para a criança que sua mãe segue viva, apesar de morta. “O paciente tem a sensação de que pesa sobre ele uma maldição, a da mãe morta que não acaba de morrer e que o mantém prisioneiro” (p. 252). “O traço essencial desta depressão”, diz Green, “é que ela se dá na presença de um objeto, ele mesmo absorto no luto” (p. 247). Algo assim, diríamos, parafraseando Winnicott, como fazer a experiência do vazio em presença de um objeto vazio. O Eu coloca então em ação uma série de defesas, sendo “a primeira e mais importante (...) um movimento único com duas vertentes: o desinvestimento do objeto materno e a identificação inconsciente com a mãe morta” (p. 249).

Além de nos dar indícios que poderiam explicar a necrofilia de Jeffrey Dahmer, o que nos interessa particularmente nesse texto de Green com respeito à sua psicologia é a forma como o autor denomina de “clínica do vazio” ou “clínica do negativo” (Green, 1988, p. 244) parece descrever os mecanismos inconscientes que subjazem ao olhar vazio do canibal, testemunhado por quantos assistiram ao seu processo. Essa mesma ausência de expressão que assustou Lionel quando olhou para seu filho de 18 anos, sem saber que ele já havia matado uma pessoa: “Seu rosto era uma parede. Seus olhos estavam vazios” (Dahmer, 2021, n.p.; tradução nossa).

(...) um desinvestimento massivo, radical e temporário que deixa marcas no inconsciente sobre a forma de “buracos psíquicos” que serão preenchidos por reinvestimentos, expressões da destrutividade assim liberada por este enfraquecimento do investimento libidinal erótico. As manifestações do ódio e os processos de reparação que a ela se seguem, são manifestações secundárias a este desinvestimento central do objeto primário, materno. (Green, 1988, p. 244)

Lembremos que, do ponto de vista winnicottiano, um objeto morto é um objeto que, simbolicamente, não sobreviveu à destruição da criança. Esta última fase do processo transicional, de destruição e sobrevivência do objeto (Winnicott, 1969/1975), que segue a primeira e igualmente indispensável fase de ilusão/criação do objeto, é precisamente a que permite que o desenvolvimento psíquico saudável da criança possa se apoiar na estabilidade e resistência de seu ambiente: “(...) a base do desenvolvimento saudável dos seres humanos é a sobrevivência do objeto que foi atacado” (Winnicott, 1986/1996, p. 27).

Interessante notar que destruição, para Winnicott, se conjuga com devoração. Segundo o psicanalista inglês (1954-1955/2000), a devoração do outro faz parte integrante do processo a partir do qual todas as relações objetais se constituem e se mantêm. A fantasia de ser devorado/devorar é, para o psicanalista inglês, uma das bases sobre as quais se edifica o viver em sociedade.

Ser comida é o desejo e até mesmo a necessidade de uma mãe nos primeiros estágios da criação de um bebê. Isto significa que os que não são canibalisticamente atacados tendem a sentir-se fora do alcance dos atos reparadores e restituidores dos demais, ou seja, fora da sociedade. (p. 373)

Assim, para Winnicott, a destrutividade inata do bebê, que ele teoriza como sendo uma das manifestações da “pulsão de amor primitiva” (Winnicott, 1960/1988) vem a ser, simplesmente, sinônimo de “comer”: “Poderíamos chamar isso [essa pulsão] ‘comer’, comer impiedosamente o objeto de amor primitivo” (pp. 89 e 92; tradução nossa). Compreendemos então que um objeto que não sobrevive à destruição é precisamente um objeto que não sobrevive à devoração.

Agonia psíquica, ambiente impiedoso e edificação de si

Progredindo em nossa reflexão metapsicológica sobre o papel da precariedade dos cuidados precoces e da compulsão à repetição no agir de um criminoso canibal, podemos, com base na noção de “sobrevivência” do objeto (Winnicott, 1969/1975), interrogar as teorias de René Roussillon e de outros psicanalistas criminólogos franceses. Para o eminente teórico francês, a falta de maleabilidade do ambiente, quando incapaz de apoiar o processo de simbolização da criança, o torna impiedoso ao exigir que a própria criança sacrifique a sua elaboração representacional. O ambiente impiedoso é, portanto, aquele que, não podendo servir de suporte à atividade fantasmática destrutiva do sujeito porque não consegue sobreviver, inverte a situação obrigando o sujeito a sacrificar o seu próprio processo de representação (Edrosa, 2005, p. 219).

O confronto do bebê com um ambiente impiedoso é, por conseguinte, traumático e trava o processo nascente de simbolização. Ocorre então uma experiência agonística primitiva, fonte de “morte psíquica” (Edrosa, 2005, p. 220; tradução nossa). Martine Edrosa aponta para uma confusão psíquica no sujeito entre as dimensões da vida e da morte, um emaranhamento patogênico que induz uma clivagem que René Roussillon designa por “clivagem no Eu” (“clivage au moi”, Roussillon, 1999). Essa clivagem lhe permite afastar-se de sua experiência de sofrimento, mas também o obriga a afastar-se de si próprio através de um “autodesinvestimento e automutilação da sua psique” (Edrosa, 2005, p. 224; tradução nossa). O resultado desse processo é o fracasso ou curto-circuito das fases transicionais caracterizadas pelo achado/criado e pelo processo de desilusão e destruição/sobrevivência do objeto. Toda a vida fantasmática se encontra travada, o trauma invade o espaço e solicita toda a economia psíquica.

Estabelecendo um paralelo entre o processo de clivagem descrito por Roussillon e a teoria ferencziana sobre a repercussão do trauma na organização psíquica da criança (ver, entre outros textos, Ferenczi, 1932/2011), podemos interrogar os escritos do psicanalista e psiquiatra forense Daniel Zagury. Segundo Ferenczi, o trauma provoca uma sideração psíquica que, induzindo mecanismos de clivagem e de identificação projetiva, perturba a capacidade de simbolização e a autonomia do Eu (Bokanoswski, 2002). Zagury (2002) explica então que, “para sobreviver, o sujeito retira-se da experiência traumática primária e assegura sua sobrevivência psíquica pagando o preço de um corte de sua própria subjetividade” (p. 1208).

O autor defende a tese de que o ato homicida tem uma função revitalizante para o criminoso em série, que “mata para se manter em vida”.

A função do crime (...) é a transformação da ameaça em triunfo, da passividade em atividade, do desamparo em onipotência, do trauma sofrido em trauma infligido. A sua lógica é penetrar para não ser penetrado e destruído; matar para permanecer em vida. Sua finalidade é utilizar a vítima para fortalecer a cisão. A sua dinâmica é a de encenar e de transformar em atos criminosos na atualidade o que não deixou representações psíquicas no passado. (pp. 12111212; tradução nossa)

Zagury (1996) avança a hipótese de que “através do assassínio, esses criminosos repelem e atuam sobre os outros a desvitalização que sentem obrando em si próprios. São movidos por uma ‘busca de revitalização’, que se dá através da ‘posse vampirizante da vítima’, cuja morte se impõe como ‘condição para o renascimento de si próprio’” (p. 107; tradução nossa).

Em outras palavras, se considerarmos o que foi argumentado até aqui, morto psiquicamente, Dahmer matava e devorava suas vítimas para alimentar-se de seus impulsos vitais, como se a incorporação de suas vidas lhe permitisse, momentaneamente, emergir da derrelição e da agonia psíquica às quais sua psique estava entregue.

Considerações finais

Chegados ao término deste artigo, esperamos que nossa reflexão teórica, apoiada em elementos da história de Jeffrey Dahmer, tenha permitido explicitar como as experiências precoces de um ambiente impiedoso chegam a pesar nas dinâmicas e conflitos psíquicos que impulsam o criminoso canibal compulsiva e irreprimivelmente ao ato.

Partindo do entrelaçamento das pulsões parciais escópica, de crueldade e de domínio, iniciamos nosso estudo abordando o caráter anobjetal da crueldade assim como a especificidade epistemofílica da pulsão escópica. Argumentamos que ambas obravam no dilaceramento dos corpos e no fascínio pelo interior dos mesmos que provocavam em Dahmer, em suas próprias palavras, uma “excitação geral” e uma “emoção” que ele mal conseguia descrever (Phillips, 1994).

Prosseguimos com o estudo da noção de compulsão à repetição, ressaltando a força e violência de sua bizarrice que lhe imprime, em palavras de Freud (1919/2019), um caráter “demoníaco”, e mostrando o quanto essa compulsão e seus imperativos subjaziam às fantasias e ao agir do canibal. Estando essa compulsão ligada a experiências traumáticas precoces, procuramos identificar o quê, da relação de Jeffrey ao seu ambiente e ao objeto primordial, mostrou-se disfuncional ao ponto de impactar de semelhante forma sua elaboração fantasmática e seu agir.

Tentamos então compreender o quê, do ponto de vista da relação ao seio, havia se travado ao ponto de o lactante ter se fixado na posição esquizoparanoide (Klein, 1946/1985) de tal modo que continuou, quando adulto, a tentar introjetar o objeto sob a forma mais arcaica, apoiada nas funções fisiológicas. Pensamos que os atos de Dahmer mostram sua fixação à destrutividade oral-canibálica (Abraham, 1970) e sádico-anal (Freud, 1905/2016), onde o controle sobre o objeto se confunde com sua devoração, e sugerimos a hipótese de que seu modus operandi revela uma tentativa, fadada ao fracasso, de introjetar um objeto ao qual identificar-se.

Dentro desta lógica de uma construção de si, buscamos mostrar que a fantasia de devoração que assombrava Jeffrey Dahmer podia ser compreendida como o equivalente de uma cena originária canibálica que se construiu a partir da violência das relações parentais. Abordamos a questão apoiados em Freud e Roussillon, porém abrimos aqui a perspectiva de poder estudá-la a partir da teoria aulagniana de “telescopagem” entre a cena originária e a violência efetiva das relações parentais (Aulagnier, 1984).

Avançando na direção da derrelição que parece caracterizar o solo sobre o qual tenta se construir o funcionamento psíquico de Jeffrey Dahmer, e tentando compreender a premência de sua necrofilia, abordamos o conceito greeniano da “mãe morta” (1988). Propusemos então que o que Green (1988) nomeia de “clínica do negativo” (p. 244) abre uma perspectiva de interpretação do vazio que caracterizava o olhar do canibal.

Por fim, expusemos que o efeito de um ambiente impiedoso sobre a psique do bebê consiste em travar o seu processo nascente de simbolização, precipitando-o em uma experiência agonística primitiva que tem por consequência uma clivagem mutiladora de sua psique. Zagury (2002) defende então a tese de que tal clivagem permite ao criminoso em série sobreviver psiquicamente, “porém com a necessidade de ‘matar para permanecer vivo’”, selando a morte de sua vítima como a condição para seu renascer (Zagury, 1996).

Uma perspectiva não explorada neste artigo foi a temática da castração e a fixação ao corpo masculino. Apesar de que o colecionismo ou a ingestão dos órgãos sexuais de suas vítimas possa estar ligado à operação que sofreu quando criança e à forte probabilidade de ele ter sido abusado sexualmente por seu pai durante longos anos, não dispúnhamos de suficientes elementos para sustentar uma reflexão teórica ao respeito.

Para concluir, gostaríamos de apontar, como sugestão para estudos baseados na problemática psíquica de Jeffrey Dahmer, a perspectiva intergeracional, tendo em vista que quanto mais adentramos nas circunstâncias ambientais e familiares do jovem canibal, mais percebemos a circulação intergeracional de suas fantasias. Quando pensamos sua relação a uma mãe que sofreu quando criança graves abusos por parte de seu pai alcoolista e mostrava, além de seu desequilíbrio psíquico, signos claros de propensão à crueldade, e sua identificação às fantasias de um pai, que, não satisfeito com ensinar ao seu primogênito como dissolver corpos e conservar esqueletos, também era obcecado pela possibilidade de “zumbificar” uma pessoa (Dahmer, 2021), vislumbramos prismas identificatórios fragmentados e caleidoscópicos que revelam o quanto o vazio identitário e narcísico de Jeffrey se via perpassado, como um teatro de sombras, pelos conflitos psíquicos de seus pais.

De alguma forma, as passagens ao ato de Jeffrey Dahmer e seu canibalismo conseguiram colocar um ponto final neste acúmulo de distorções e de repetições, alçando essas fantasias a um nível de realidade em que tal funcionamento não podia senão ser interrompido de forma radical.

  • 1
    Não se trata de um mito, senão, como o explica Freud, de uma hipótese de pesquisa que se expõe pelo viés de uma construção alegórica (Freud, 1913/1996, p. 101).

Referências

  • Abraham, K. (1970). Teoria psicanalítica da libido: sobre o caráter e o desenvolvimento da libido Imago.
  • Aulagnier, P. (1984). L’apprenti-historien et le maître-sorcier. Du discours identifiant au discours délirant PUF.
  • Backderf, D. (2017). Meu amigo Dahmer DarkSide Books.
  • Berlinger, J. (2022). Conversations with a Killer: The Jeffrey Dahmer Tapes U.S.A. Netflix.
  • Bessoles, P. (2000). Le meurtre du féminin. Clinique du viol Théétète éditions.
  • Bokanowski, T. (2002). Traumatisme, traumatique, trauma. Le conflit Freud/ Ferenczi http://www.spp.asso.fr/Main/ConferencesEnLigne/Items/14.htm.
    » http://www.spp.asso.fr/Main/ConferencesEnLigne/Items/14.htm.
  • Cintra, E. & Figueiredo, L. C. (2010). Melanie Klein: estilo e pensamento. Escuta.
  • Dahmer, L. (2021). A father’s story Echo Point Books & Media, LLC. Edição do Kindle.
  • Donard, V. (2009). Du meurtre au sacrifice. Psychanalyse et dynamique spirituelle. Cerf.
  • Dvorchak, R. (1991). Murder in Milwaukee: Experts Struggle to Explain Dahmer’s Compulsion Crime: His behavior was always on the edge, childhood acquaintances say. But no one intervened to help him, and his problems escalated. Los Angeles Times https://www.latimes.com/archives/la-xpm-1991-08-11-mn-635-story.html.
    » https://www.latimes.com/archives/la-xpm-1991-08-11-mn-635-story.html.
  • Edrosa, M. (2005), Aux confins de l’originaire, sur l’autel des sacrifices: genèse de l’“inhumanité psychique”. In Balier C. (Org.), La violence en abyme Essai de psychocriminologie (pp. 199-250). PUF.
  • Ferenczi, S. (2011). Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In Sándor Ferenczi, Psicanálise IV Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1932).
  • Freud, S. (1996). Totem e tabu. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 23, pp. 13-168). Imago. (Trabalho original publicado em 1913).
  • Freud, S. (1997). Le problème économique du masochisme. In Névrose, psychose et perversion (pp. 287-297). PUF. (Trabalho original publicado em 1924).
  • Freud, S. (2004). À guisa de introdução ao narcisismo. In Obras Psicológicas de Sigmund Freud (Vol. 1, pp. 95-131). Imago. (Trabalho original publicado em 1914).
  • Freud, S. (2010a). Considerações atuais sobre a guerra e a morte. In Obras Completas (Vol. 12, pp. 209-246). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1915).
  • Freud, S. (2010b). História de uma neurose infantil (“O Homem dos Lobos”). In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. 14, pp. 9-119). Imago. (Trabalho original publicado em 1918).
  • Freud, S. (2010c). Além do princípio do prazer. História de uma neurose infantil, O homem dos Lobos e outros textos (1917-1920). In Obras Completas (Vol. 14). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920).
  • Freud, S. (2016). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Obras completas (Vol. 6, pp. 13-172). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1905).
  • Freud, S. (2019). O infamiliar / Das Unheimliche, seguido de O Homem da Areia Edição bilíngue. Autêntica. (Trabalho original publicado em 1919).
  • Green, A. (1988). Narcisismo de vida, narcisismo de morte Escuta.
  • Klein, M. (1928). The early stages of the Oedipus conflict. The International Journal of Psychoanalysis, 9, 167-180.
  • Klein, M. (1985). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963, Vol. 3). Imago. (Trabalho original publicado em 1946).
  • Klein, M. (1991). Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Imago. (Trabalho original publicado em 1952).
  • Klein, M. (1996a). Amor, culpa e reparação. In Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (Vol. 1, pp. 346-364). Imago. (Trabalho original publicado em 1937).
  • Klein, M. (1996b). O desmame. In Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (Vol. 1, pp. 330-345). Imago. (Trabalho original publicado em 1936).
  • Mijolla-Mellor, S. de. (2005a). Femmes, fauves et grands criminels. In Mijolla-Mellor, S. de (Org.), La cruauté au féminin (pp. 23-54). PUF.
  • Mijolla-Mellor, S. de. (2005b). Préambule. La cruauté originaire. In Mijolla-Mellor, S. de (Org.), La cruauté au féminin (pp. 1-7). PUF.
  • Roussillon, R. (1999). Traumatisme primaire, clivage et liaison primaires non symboliques. In Agonie, clivage et symbolisation (pp. 9-34). PUF.
  • Roussillon, R. (2020). Manuel de psychologie et de psychopathologie clinique générale Elsevier Masson.
  • Stevenson, R.L. (2008). O estranho caso do doutor Jekyll e do senhor Hyde – the strange case of Doctor Jekyll and Mister Hyde. Edit. Landmark. https://www.epedagogia.com.br/materialbibliotecaonine/35680-Estranho-Caso-do-DoutorJekyll-e-do-Senhor-Hyde.pdf
    » https://www.epedagogia.com.br/materialbibliotecaonine/35680-Estranho-Caso-do-DoutorJekyll-e-do-Senhor-Hyde.pdf
  • The Lineup Staff (2017, Nov. 6). Dahmer on Dahmer Sneak Peek: Jeffrey Dahmer’s Mother Oxygen. https://the-line-up.com/jeffrey-dahmer-childhood.
    » https://the-line-up.com/jeffrey-dahmer-childhood.
  • Winnicott, D. W. (1975). O uso de um objeto e o relacionamento através de identificações. In O brincar e a realidade (pp. 139-151). Imago. (Trabalho original publicado em 1969).
  • Winnicott, D. W. (1988). Agressivité, culpabilité et réparation. In Conversations ordinaires. Gallimard. (Trabalho original publicado em 1960).
  • Winnicott, D. W. (1996). Os bebês e suas mães. Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1986).
  • Winnicott, D. W. (2000). A posição depressiva no desenvolvimento emocional normal. In Da pediatria à psicanálise: Obras escolhidas (pp. 355-373). Imago. (Trabalho original publicado em 1954-1955).
  • Zagury, D. (1996). Entre psychose et perversion narcissique. Une clinique de l’horreur: les tueurs en série. L’évolution psychiatrique, T. 61, fasc. 1, 87-112.
  • Zagury, D. (2002). Les serial killers sont-ils des tueurs sadiques? Revue française de psychanalyse, 66, 1195-1213.

Recursos audiovisuais

  • Berlinger, J. (2022). Conversations with a Killer: The Jeffrey Dahmer Tapes Buffalo 8 Productions. Visualizável na plataforma Netflix.
  • Glass, N. (1993). Jeffrey Dahmer – Complete Inside Edition interview with Nancy Glass https://www.youtube.com/watch?v=J3QNgHY9Bwk
    » https://www.youtube.com/watch?v=J3QNgHY9Bwk
  • Phillips, S. (1994). Jeffrey Dahmer. Confessions of a Serial Killer. https://www.youtube.com/watch?v=ZICLEfdFawk
    » https://www.youtube.com/watch?v=ZICLEfdFawk

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    31 Jan 2024
  • Revisado
    13 Maio 2024
  • Aceito
    15 Jun 2024
location_on
Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental Av. Onze de Junho, 1070, conj. 804, 04041-004 São Paulo, SP - Brasil - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: secretaria.auppf@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro