Open-access Pornográficos modos de viver: clínica psicanalítica possível no Brasil em pandemia

Pornographic ways of living: clinical psychoanalytical practice as made possible during Covid-19 pandemic quarantine

Les modes de vie pornographiques: les cliniques psychanalytiques dans le Brésil pandémique

Maneras pornográficas de vivir: clínicas psicoanalíticas posibles en Brasil durante la pandemia

Resumo

O artigo discute os desafios da clínica em psicanálise construída e manejada com a mediação de computadores no contexto da COVID-19. Trata-se de um relato de experiência que circunscreve uma construção teórico-prática sobre a clínica psicanalítica discutida em suas interfaces com as vivências neoliberais necropolíticas do Brasil em pandemia.

Palavras-chave:
Clinica; psicanálise; Covid-19


Resumos

This study discusses the challenges of psychoanalytic clinics mediated by computers during the COVID-19 pandemic. This experience report describes a theoretical-practical narrative about the clinic as articulated in its interfaces with the neoliberal and necropolitical experiences of Brazil during the pandemic.

Key words:
Clinical; psychoanalysis; Covid-19

Abstract

L ‘article traite des défis des cliniques psychanalytiques médiatisées par l’utilisation d’ordinateurs dans le contexte de la Covide-19. Il s’agit d’un rapport d’expérience qui décrit un récit théorico-pratique sur la clinique articulant les interfaces avec les expériences néolibérales et nécropolitiques du Brésil pandémique.

Mots clés:
Clinique; psychanalyse; Covid-19


Resumen

El artículo discute los desafios de las clínicas psicoanalíticas construidas y gestionadas con la mediación de computadoras en el contexto de la COVID-19. Se trata de un relato de experiencia que circunscribe una construcción teórico-práctica sobre la clínica psicoanalítica articulada en sus interfaces con las experiencias neoliberales y necropolíticas de Brasil durante la pandemia.

Palabras clave:
Clínica; psicoanálisis; Covid-19


Este artigo articula a experiência clínica de duas psicanalistas que propõem discutir os impasses vividos na clínica em contexto de pandemia de COVID-19. Em lugar de propor respostas, problematiza a prática clínica em seus novos formatos e possibilidade de existência. Parte da seguinte questão: considerando o contexto da pandemia e a necropolítica à qual estamos submetidos, que psicanálise é esta que estamos inventando – ou mesmo poetizando?

Um relato de experiência enquanto narrativa científica, em uma perspectiva epistemológica, enunciando singularidades, circunscreve uma construção teórico-prática que refina saberes sobre a experiência de um pesquisador, em determinado contexto cultural e histórico. Urdido em um só-depois, après coup, no só-depois, trama sínteses que não fecham saberes, mas anuncia paradoxos (Daltro & Farias, 2019). Assim, este texto tece experiências de pensar a clínica psicanalítica inventada num Brasil pandêmico, onde o histórico pacto civilizatório vacila.

Parece inimaginável que um sujeito adulto, com nível superior, profissional liberal e muito bem reconhecido na comunidade pelo trabalho que presta, chegue ao consultório de seu psicanalista apenas de cueca. No entanto, é assim que comparece às sessões com a sua analista, no ambiente virtual. Ela decidiu acolher esse seu modo de se apresentar, sem interrogá-lo a princípio, e procurou manter o dispositivo analítico funcionando. Nu, pelo menos, da cintura para cima, ele liga a camera e fala.

Isso nos abriria algumas possibilidades metafóricas — por exemplo, a de pensarmos a experiência analítica como uma experiência de despir-se para um Outro. Ou, ainda, a de considerar que esse ocorrido está mesmo a nos mostrar a existência que se desnuda.

Entretanto, o curioso dessa situação é que o cliente sem camisa não atribui nenhum sentido a isso. Apenas parece se sentir livre para estar ali como quiser. Vem e produz narrativas sobre si, conta e reconta suas histórias, de menino pobre de periferia que alcançou ascensão social pelo direito às cotas para negros na universidade pública.

A analista permanece se interrogando sobre seguir deixando-o falar sem abordar a estranheza que a situação apresenta. Continua oferecendo a sua escuta. A camisa ou a falta dela parece existir apenas para ela, a analista, que localiza ali alguma obscenidade ou falta de compostura. Conjectura: pode uma escuta analítica “encaretar”? Ou ambicionar que só ocorra dentro de certa compostura ritual? Sempre consideramos o ritual psicanalítico fundamental ao trabalho analítico, um ritual que não raro se mostra delicado, gentil, apesar de forte, e por vezes violenta experiência que se produz no âmbito de uma análise.

A prática analítica sempre foi cercada, no arcabouço de seus procedimentos, de rituais europeus-coloniais: horários pré-definidos, posição de móveis, número de sessões semanais, formas de pagamento, modos de operar o encontro, certos jeitos de vestir, maneirismos no receber um cliente ou encerrar uma sessão. Tudo cuidadosamente desenhado para confeccionar um ambiente propício à palavra, na intenção de que ela possa chegar — pelo menos, como aprendemos a intencionar. Entretanto, precisamos reconhecer que não é um ambiente desenhado para todos... sempre foi apenas para alguns.

Enquanto vivíamos nossas vidas, construindo possibilidades, a natureza, em retorno àquilo que com ela fizemos, nos impôs a pandemia da COVID-19, mortal e duradoura. Além da morte, do luto, podemos observar como é socialmente difícil estar privado das satisfações pessoais, como é difícil sustentar nossos históricos modelos de civilização, especialmente quando somos convocados a fazer algo simples, como ficar em casa, usar máscara, tomar vacina, pelo outro, para que outros possam viver.

Descobrimos, atônitos, que nossa sociedade estava esvaziada do coletivo; o coletivo, em sua sonhada forma comunitária, havia sido desinvestido. Os estilhaços do modelo neoliberal na produção de sofrimento psíquico claramente deixam ver as suas marcas (Dunker, Safatle & Silva Jr., 2021). Para temperar esse cenário, aqui no Brasil seguimos atravessando a pandemia em um contexto político imoral, devasso, pornográfico, com mais de 600 mil mortos.

Contudo, a medicalização da vida (Viegas & Andrade Filha, 2019) não deu conta do corpo em angústia e as pessoas começam então a precisar falar, falar sobre isso, mas também um falar que exige urgente elaboração, não há tempo a perder.

Na clínica, observamos algo curioso: o isolamento causa dor, mas as redes sociais parecem fazer certa suplência. Conviver, entretanto, faz sofrer, como Freud indica, magistralmente, em “O mal-estar na civilização” (Freud, 1930[1929]/1996).

Nós, psicanalistas, possivelmente por sermos majoritariamente mulheres, tivemos que reinventar quase tudo para garantir a escuta, para sustentar transferências, para seguir dando lugar à circulação da palavra, para sobreviver.

Inventamos novas formas de trabalhar. Novos rituais vieram a compor o manejo da técnica. Outros elementos passaram a receber nossa atenção, o timing da interpretação precisou ser ajustado, o tom da voz, a qualidade da internet, o cenário da ligação, o olhar. Para alguns, o divã foi substituído — ou invadido — por uma ligação telefônica. Sem imagem, sem olhares, uma análise segue. Para outros, a “oportunidade” de apresentar à analista o marido, trabalhando no computador ao lado. E até uma rápida andada pela casa, com a câmera aberta, para atender ao filho, que gritava dizendo que tinha feito o número 2. E o silêncio, elemento essencial à estratégia clínica, esse foi atravessado por perguntas como: “Você caiu? Você travou?”, sem falar das vezes que o nosso próprio telefone cai. A realidade do entorno invade a cena.

No meio de todo esse processo e de aprendizagem — vamos nos permitir excluir daqui as referências sobre as demandas domésticas, para que este artigo não assuma uma tonalidade dramática — não podemos deixar de falar sobre o nosso corpo. Desafiado a trabalhar fora de uma poltrona escolhida para ele, o corpo-analista teve suas possibilidades de movimento restritas e se ressente por isso. A escuta analítica passou a ser, em muitos casos, monitorada pelo olhar, um olhar mediado por tela, uma tela vigilante. Se uma caneta cai, você se abaixa para pegar, a fala se interrompe; se você vira o rosto, a fala se interrompe. O corpo precisou aderir a certa fixidez.

Os rituais que antes compunham o árduo exercício da ambicionada neutralidade foram devassados e numa dimensão macro: #estamosjuntos. A pessoa do analista, tal qual a pessoa do analisando, está ameaçada pela morte, pelo luto, pelo cansaço, pelas telas. Neste sentido, não há hierarquia possível — ainda que a dissimetria das posições analista e analisando precisem ser mantidas.

Slavoj Zizek (2020), afirma que as vivências pandémicas produziram um tipo de cansaço depressivo, decorrente da nossa autoexposição permanente durante o isolamento social. Afinal, todos os esforços precisaram ser feitos para que a produção, a economia não se estagnasse.

É fato que nunca trabalhamos tanto. Escutamos isso cotidianamente, escutamos a materialidade de uma exaustão. Esse cansaço tem impactado a nossa escuta, muita gente querendo morrer, muita violência no viver... Temos medo de banalizar nossa escuta, nos apavora pensar que ela possa ser neutra, sem odor, sem sabor, sem indignação, sem fé na vida.

Os espaços reservados para a socialização, para o repouso, que antes garantiam uma saída para o corpo e para poesia, vêm sendo submetidos ao imperativo da exibição, seja para o trabalho, o encontro virtual com os pais ou os netos ou o vinho com as “migas”. O home office traz para dentro de casa uma continuidade, que invade tudo, nos impõe uma contínua encenação de nós mesmas, que se amplia conforme dura o confinamento (Zizek, 2020). Nosso consultório mudou, nossa casa mudou, nossa clínica mudou, apesar do nosso esforço de normalização, de naturalização do estranho, do desconforto.

Byung-Chul Han vaticina, no jornal espanhol El País, em março de 2020: “o vírus SARS-COV-2 é um espelho que reflete a crise de nossa sociedade. Faz com que acentuem ainda com mais força os sintomas das doenças que nossa sociedade sofria antes da pandemia”.

Entretanto, faz-se urgente reconhecer que, há muito, estamos imersos numa espécie de sociedade adoecida. A clínica nos mostra isso: temos um número enorme de clientes que se dizem “tarja-preta”, e mesmo muitos de nós estão submetidos ao uso das drogas lícitas ou ilícitas. A palavra parece não dar conta, não oferecer os contornos ao real invasivo de produção do gozo no arranjo do capitalismo neoliberal.

O neoliberalismo ultrapassou as fronteiras de modelo econômico e se fez um modo de existir e sofrer. Promove a existência de novas matrizes psicológicas com uma episteme neoliberal que, segundo Safatle, recodifica os processos sociais e subjetivos e ancora-as na maximização de lucros. Um paradigma que passa a reger a esfera política, econômica e também os modos psíquicos de sofrer (Safatle, Silva Jr. & Dunker, 2021, pp. 127-128).

A sociedade neoliberal é transparente, planificada, recusa as negatividades e dores, afirmava Han, há exatos dez anos. Ao analisar a sociedade contemporânea como positiva, o filósofo a pensa ratificada, investida no volume de informações imediatas, sem mistérios, sem poética; sem compromisso com a verdade, uma sociedade que anseia pelas possibilidades de produção, consumo, lucro, alta performance. Existir amalgama-se à possibilidade de produzir e isso é atestado pelo DSM-5 nas anotações sobre o luto. Produzir se torna uma compulsão (Han, 2021), que se estende além dos limites da atividade laboral, transborda em uma pressão interna que nos exaure.

Em A sociedade do cansaço (Han, 2017), o filósofo confronta o que nomeia por paradigma imunológico1 com o que veio se delineando depois como o paradigma do desempenho. Se naquele impera o medo do outro, a ameaça vinda do estrangeiro, neste último vigoram a superprodução, o super-desempenho, a valorização da eficiência e da satisfação imediata. O sujeito do desempenho se torna senhor e soberano, efetuando a coação de si mesmo.

Se pensarmos as formulações de Han desde a perspectiva atual, tendo como cenário a pandemia da COVID-19, algo se problematiza e complexifica. Já na primeira página, soando preditivo, ele vaticina: “Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral” (Han, 2017, p. 7). Arriscamos pensar, portanto, que com a pandemia da COVID-19, pagando o alto preço da sociedade de desempenho, estando exaustos, cansados, deprimidos, voltamos também a encontrar os elementos que caracterizaram a época disciplinar, foucaultiana, do paradigma imunológico: volta o medo do estrangeiro, o fechamento das fronteiras, a ameaça trazida pela alteridade.

Enquanto isso, no Brasil, a Amazônia segue sendo queimada, os índios exterminados, Marielles são cotidianamente assassinadas, vacinas não são compradas e, frente a milhares de mortes, um presidente diz, “E daí?!”. Seguimos despolitizando a dor.

O egoísmo se fortalece, a violência cresce, a desigualdade se expande. A vida atomizada dá protagonismo ao narcisismo, num movimento cuidadosamente modelado por processos educacionais que há anos ampliam seu investimento na criação de competidores, vencedores, empreendedores. Tal perspectiva é, entretanto, impossível de ser sustentada por todos, aumenta assim o exército de fracassados, deprimidos, ansiosos, como nos ensina Han (2017). O eu-indivíduo da autoestima assume o protagonismo frente ao outro, ao coletivo, que gradativamente vai perdendo seu sentido de comunidade, de rede de diferenças.

O que se passa, portanto, no campo da subjetividade, uma vez que estamos submetidos ao imperativo da produção, da exibição, da autoestima, uma vez que nos vemos às voltas com a convocação para que nos tornemos aquilo que Han (2021) chamou de “empreendedores de nós mesmos”? Na clínica, os efeitos disso aparecem na produção de sintomas somáticos e psicossomáticos enodados à cultura do narcisismo (Lasch, 1983) com o seu empuxo à fama e à superficialidade, à transitoriedade, à busca por reconhecimento e aprovação. Esse contexto, associado ao exercício permanente de exposição, exaure. E a busca constante pela felicidade full time, pelo imediato, pelo sucesso, se coloca não como falta, mas como impotência. O discurso meritocrático, contudo, não avisou sobre isso, e frente ao fracasso o corpo cede ao desânimo, a depressão se coloca.

A depressão populariza-se, assim como o uso da medicação psicotrópica. Tendo ganhado grande destaque na atualidade com a proliferação dos diagnósticos, os estados depressivos aparecem, não raro, como formas que o sujeito encontra de responder às demandas apresentadas pelos ideais sociais, voltados à felicidade, à produção, ao consumo, em um cenário de espetacularização da vida (Kehl, 2009), afirmam um modo neoliberal de viver, de sobreviver.

Han (2021), analisando as vivências da COVID-19, afirma que a forma como uma sociedade lida com a dor diz sobre os modos de viver dessa sociedade. Essa sociedade contemporânea em que estamos inseridos esforça-se por desviar-se da dor, do conflito, do enfrentamento, dos confrontos. Esforça-se por promover políticas de consenso. Esse é o fundamento da ideologia liberal, uma ideologia da resiliência, que se produz de forma a sustentar uma analgesia das negatividades. Detona, assim, a corrida pela felicidade, a busca pelo positivo, metaforizado nos likes.

Embora o negacionismo nos surpreenda, se olharmos com alguma autocrítica, veremos que, no seio da nossa sociedade, muitos segmentos da população vêm se fazendo negacionistas, e fazem-no de maneira pornográfica, sem compromisso com o outro, com verdades ou mesmo com poéticas.

A poética é uma das perdas decorrente da evitação da dor, nos ensina Han (2021) e também Vinícius de Moraes e Baden Powell no samba Consolação:

E se não tivesse o amor
E se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa do amor
Ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei
É que ninguém nunca teve mais, mais do que eu.

Na poética da Consolação, há sofrimento e espaço para emergência de singularidades, na afirmação da existência de uma dor possível de ser transformada.

Uma sociedade que nega suas contradições, despolitiza a dor. Temos negado muitas dores: a dor do racismo, do machismo, da violência contra a mulher, da desigualdade social. Para Han, despolitizamos a dor e demos a ela o estatuto de assunto médico. E aqui problematizamos as negações sustentadas pela psicanálise.

Escutamos isso no percurso histórico da clínica. Há 30 anos, as pessoas buscavam um analista, se responsabilizavam minimamente por seus sintomas. Procurar um analista indicava um desejo de deslocamento. Hoje nos chegam feridas abertas, constituídas por certa bala perdida. Não sabem de onde veio aquilo, não reconhecem a dor como sua e precisam se livrar dela a qualquer custo e com urgência. A dor, sem espaço coletivo, escapa no e pelo corpo violentamente, travestida de exaustão, ansiedade, depressão, pânico, de uma urgência em mudar de corpo. O “eu” precisa de respostas, precisa de autoestima, precisa de certo e específico modo de reconhecimento.

Temos militado sobre a importância de garantirmos socialmente uma tristeza empática como possibilidade civilizatória, nos perguntando: Como alguém pode não se sentir triste com mais de 600 mil mortos no nosso país? Como não se indignar, se permitir ansiedade, com isso que estamos vivendo? Como ficar feliz com tanta infelicidade, miséria e violência?

Para Han, esse imperativo de ser feliz é uma prática eficiente de dominação, pois a felicidade traz uma grande capacidade produtiva, possibilita também a percepção de um modo de liberdade e liberdade não se reprime, se vive no ato, Yes, I Can – I do.

Contudo, o filósofo Comte-Sponville (2007, p. 26), parafraseando Simone de Beauvoir, afirma que ninguém nasce livre: torna-se livre. E a vida não é destino: é aventura. Na impossibilidade da aventura, o imperativo de ser feliz termina gerando uma pressão mais devastadora que o imperativo de dever, e faz-se em ato. Diferente do que vivemos na sociedade disciplinar, consolidada pelos ditames iluministas da modernidade, território histórico da poesia de Vinícius de Moraes e da poética científica freudiana, para quem o ser humano, ocidentalmente civilizado, não estava destinado à felicidade, a sociedade transparente produz as suas evidências (Freud, 1930[1929]/ 1996, p. 119).

O modo de existir neoliberal se afasta da lógica civilizatória freudiana. Seu imperativo é consumir, seu poder assume sofisticados e elegantes modos de funcionar, não perde mais tempo com a disciplina, a punição ou o recalque. Sua estratégia de controle está em fazer as pessoas pensarem que são livres, que podem escolher. A submissão se realiza por autorrealização, que simula liberdades — dessa maneira, o poder se faz invisível, com uma grande possibilidade de vigilância. Cada um deve estar atento a si e não ao coletivo, ao social. Submetidos organizam-se como um exército de iguais (Han, 2021), negacionistas.

Um excelente exemplo dessa questão pode ser visto no filme dinamarquês Druk, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021. O filme causa um desconforto reflexivo. Seus personagens estarão, ao longo do filme, colocados frente à escolha por viver num mundo sem dor ou num mundo onde a dor é uma possibilidade mortal. Entre a possibilidade de se entregar ao universo de iguais ou se arriscar numa aventura. Sem moralismo, o filme mostra como a ausência da dor é entorpecente, despolitizada, dessexualizada. A opção oferecida pela narrativa fílmica é o entusiasmo, o desejo, acompanhado pelo risco da morte, mediado pelo uso de álcool.

Eis o nosso Outro pandêmico-contemporâneo.

Os modos de viver neoliberais vêm promover muitas mudanças sociais e tecnológicas e discursivas — destaco o processo de negação da negatividade que vem tecendo nosso cotidiano brasileiro. No Brasil negamos que sabemos que os presídios funcionam como campos de concentração, que os ônibus lotados na pandemia fundamentam a ideia de que alguns podem morrer. Negamos o horror da ditadura e da morte cotidiana de jovens negros, dos travestis. Negamos “que o real resiste”, como lindamente afirma o poeta Arnaldo Antunes.

O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o país com maior número de pessoas com diagnóstico de ansiedade do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população). A prevalência de diagnósticos de depressão coloca o Brasil com o maior índice na América Latina (Agência Estado, 2025). São mais de onze milhões de brasileiros, segundo os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), sendo a prevalência maior entre as mulheres (10,9%).

Não por acaso, aproximadamente 12 mil pessoas tiram a própria vida no Brasil por ano. No mundo, são cerca de 800 mil suicídios anuais e segundo a OMS a maior incidência é entre jovens e cerca de 96,8% dos casos estavam relacionados a transtornos mentais previamente diagnosticados, a saber: depressão, transtorno bipolar e usuários de substâncias psicoativas. Contudo, são também considerados fatores de risco para o suicídio situações como desemprego, sensações de vergonha, desonra, desilusões amorosas, além de antecedentes de doenças mentais. Tem sido insuportável viver..., mas “e daí?!” São modos pornográficos de morrer e de viver.

A psicanálise se construiu da escuta sobre os diferentes feitios do sofrer, como uma teoria sobre o psiquismo e um método de tratamento. Seu caráter audacioso, avant-garde, veio eivado do desejo do seu criador de fazer uma revolução e mover-se. O sofrimento do neoliberalismo, por sua vez, comparece não raro com sua face de fracasso, um fracasso que retorna no real do corpo e, em lugar de revoluções, há a depressão, a ansiedade, o pânico ou sujeitos afogados na lógica do consumo, como vemos especialmente presente nas pessoas com diagnóstico de transtorno borderline.

A excessiva individualização do sofrimento oculta àquele que sofre a percepção do caráter muitas vezes social do seu sofrer, do que há de coletivo nas origens do seu mal-estar. Contudo, a necessária implicação, condição para que um trabalho analítico se instaure, tem vindo precedida, não raro, do relato daquilo que se manifesta no corpo: “Eu vivi isso na pele”. Desse lugar, parece não haver saída, não haver palavra possível. Estão aqui os enlutados das Ágathas e Marielles, dos Migueis e Moïses, dos Joões, Brunos, Yans e tantos outros que se vão cotidianamente pelas armas...

O sofrimento decorrente do que é construído socialmente — racismo, homofobia, machismo — tem sido afirmado como um problema privativo, interno, portanto, um problema psicológico. Não por acaso assistimos ao crescimento da psicologia positiva e das linhas comportamentais, que pressupõem o controle conservador dos impulsos.

A autoestima, que assume um sentido fundamental para a existência, e a busca correlata pela felicidade, como meta comportamental a ser testemunhada nas redes sociais, dão contorno aos modos de viver e sofrer. Prolifera o discurso pornográfico neoliberal. Um Outro-robô desenha nossos desejos. Oferece necessidades, sem implicar nenhuma possibilidade de poéticas ou indagar sobre a submissão aos imperativos. Cria-se a urgência de satisfação imediata de desejos, um gozar até matar, até morrer..., mas nem assim é suficiente. O pornográfico, obsceno, governa, exclui, mata corpos que considera inúteis.

O neoliberalismo, ao longo do tempo, vem modelando subjetividades e nossos modos de sofrer. Elitizou o nosso olhar, e a nossa escuta também se desenhou conservadora, colonizada. Banalizou o mal, como advertiu Joel Birman, em 2009.

O mal cresceu, saiu do armário, foi eleito e com mais de 50% de aprovação da população brasileira, que embora historicamente moralista, assistiu, depois do segundo mês de governo, em silêncio, o vídeo da prática de Golden Shower, uma fantasia sexual, conhecida como banho dourado, que consiste no prazer ao ser urinado ou urinar no outro. Não havia nada infantil nem irônico, como no filme Druk. Não havia nenhuma poética no vídeo, apenas anunciava que novas formas de subjetivação estavam no jogo, agora sem véu, transparentes, reafirmadas na frase: “no Brasil o problema não é nem a saúde, o SUS, é o próprio direito à vida” (Paulo Guedes) ou “vamos passar a boiada” (Ricardo Sales).

Nós temos inventado, procurado criar poéticas, escrever textos que falam de nossa prática. Reaviva-se o desejo de uma psicanálise transgressora, condizente com o espírito que o seu criador desde sempre lhe dera, uma psicanálise que oferece uma escuta e uma leitura atentas ao seu tempo, que localiza o trabalho com o sofrimento e a tristeza como ato político possível, como potência promotora de indignação, do desvelar de desejos, de palavras e de fazeres para um mundo melhor.

  • 1
    Vigente no século passado e tendo se estendido até meados do fim da Guerra Fria, o paradigma imunológico se caracteriza pela lógica ataque x defesa, com divisão nítida entre dentro e fora, entre próprio e estranho.
  • Financiamento/Funding:
    Os autores declaram não terem sido financiados ou apoiados / The authors have no support or funding to report.

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica

Referências

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  • Editores do artigo/Editors:
    Nelson da Silva Jr., Rafael Alves Lima

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    24 Maio 2023
  • Revisado
    15 Nov 2023
  • Aceito
    03 Out 2024
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