Resumo
O presente trabalho traz a reflexão psicanalítica acerca da relação entre sofrimento psíquico e as transformações nas estruturas temporais na modernidade. Através dos constructos teóricos da psicanálise quanto à temporalidade do sujeito, tensiona-se um diálogo com a teoria da aceleração social do tempo desenvolvida pelo sociólogo Hartmut Rosa ao problematizar as transformações nas estruturas temporais no campo da cultura. Assim, reflexiona sobre a relação etiológica da aceleração social do tempo com o campo da psicopatologia, sugerindo a importância de a psicanálise debruçar-se sobre o tema.
Palavras-chave
Psicanálise; psicopatologia; aceleração social; temporalidade
Abstract
This paper reflects psychoanalytically on the relationship between psychological suffering and the transformations in the temporal structures of modernity. Through the theoretical constructs of psychoanalysis in relation to the temporality of the subject, a dialogue is tensioned with the theory of the social acceleration of time developed by the sociologist Hartmut Rosa when problematizing the transformations in temporal structures in the field of culture. Thus, it reflects on the etiological relationship between the social acceleration of time and the field of psychopathology, suggesting the importance of psychoanalysis looking into the subject.
Keywords
Psychopathology; psychoanalysis; social acceleration; temporality
Abstract
Cet article présente une réflexion psychanalytique sur la relation entre la souffrance psychique et les transformations des structures temporelles de la modernité. A travers les constructions théoriques de la psychanalyse en relation avec la temporalité du sujet, un dialogue est mis en tension avec la théorie de l’accélération sociale du temps développée par le sociologue Hartmut Rosa lorsqu’il problématise les transformations des structures temporelles dans le domaine de la culture. Ce faisant, il réfléchit à la relation étiologique entre l’accélération sociale du temps et le champ de la psychopathologie, suggérant l’importance d’un regard psychanalytique sur le sujet.
Mots-clés
Psychanalyse; psychopathologie; accélération sociale; temporalité
Resumen
Este artículo presenta una reflexión psicoanalítica sobre la relación entre el sufrimiento psíquico y las transformaciones en las estructuras temporales de la modernidad. A través de las construcciones teóricas del psicoanálisis en relación a la temporalidad del sujeto, se acentúa un diálogo con la teoría de la aceleración social del tiempo desarrollada por el sociólogo Hartmut Rosa para problematizar las transformaciones en las estructuras temporales en el campo de la cultura. Al hacerlo, se reflexiona sobre la relación etiológica entre la aceleración social del tiempo y el campo de la psicopatología, sugiriendo la importancia de que el psicoanálisis se ocupe del tema.
Palabras clave
Psicoanálisis; psicopatología; aceleración social; temporalidad
Este trabalho enfatiza a necessidade de a psicanálise voltar sua atenção para os atravessamentos que afetam o sujeito psíquico decorrentes das transformações nas estruturas temporais da modernidade. Partimos do pressuposto de que, desde o final do século XIX, a psicopatologia investiga os impactos dessas mudanças como fatores etiológicos de determinados tipos de sofrimento. Propomos, assim, um diálogo entre a psicanálise e seus constructos teóricos sobre a temporalidade psíquica, articulando-os à Teoria da Aceleração Social, desenvolvida pelo sociólogo alemão Hartmut Rosa.
Inicialmente, observamos que a teoria de Rosa, ao conceber as transformações das estruturas temporais como um processo de aceleração, destaca a importância de analisar a cultura capitalista contemporânea, com especial atenção ao modelo neoliberal. Este modelo representa uma sofisticação do capitalismo moderno, capaz de produzir novas formas de assujeitamento, nas quais as prescrições neoliberais para a existência humana moldam o tempo de acordo com metas de objetivação, produtividade e eficiência. No entanto, essa gestão temporal não se alinha à temporalidade psíquica, que emerge da experiência singular de constituição do sujeito, marcada pelo intervalo, pela falta e pela elaboração simbólica.
Essa dissonância entre as estruturas temporais sociais e a psíquica tem implicações profundas, inclusive para a concepção lacaniana do tempo lógico. Este último opera sob uma lógica distinta, não de velocidade, mas de uma pressa subjetiva que impulsiona o sujeito do instante de ver ao momento de concluir. Diante desse cenário, exploraremos como os processos de modernização, transversais ao cotidiano, podem levar à compressão da experiência temporal, gerando impactos profundos na vida psíquica, e como essa aceleração social se distingue, sem se desvincular, da pressa interna do tempo lógico.
Ao examinar essas questões, buscamos contribuir para uma compreensão mais ampla dos desafios enfrentados pelo sujeito psíquico em um mundo marcado pela aceleração e pela pressão constante por resultados. Este trabalho se propõe, portanto, a investigar como a psicanálise pode responder a essas transformações, oferecendo ferramentas teóricas e clínicas para pensar o mal-estar contemporâneo e suas implicações para a subjetividade.
Um sujeito temporalizado
Para adentrarmos na temática da aceleração social e seus impactos sobre o sujeito, é fundamental destacar a importância central da experiência temporal na constituição psíquica. Freud (1900/2019) chama nossa atenção para o exemplo do bebê que grita de fome: sua satisfação depende da intervenção externa, no caso, da mãe. Essa experiência inaugura o trabalho de representação psíquica, pois a percepção do alimento gera uma imagem mnêmica, associada ao traço memorial da excitação da necessidade. Quando a fome reaparece, o bebê mobiliza esses traços mnêmicos, impulsionado por uma Regung (impulsão psíquica), na tentativa de reconstituir a primeira satisfação.
Freud (1930/2010) ressalta que o “bebê lactente ainda não separa o seu Eu de um mundo exterior, como fonte de sensações que lhe sobrevêm. Aprende a fazê-lo aos poucos, em resposta a estímulos diversos” (p. 18). A repetição dessa experiência é crucial para a distinção entre interior e exterior. Nesse processo, a temporalidade não está apenas submetida às demandas orgânicas do bebê, mas também ao tempo de resposta do outro que cuida dele. Essa interseção entre temporalidades distintas instaura um ritmo, que Lacan (1954-55/2010) explora detalhadamente. Para o psicanalista, a vida, em sua essência alienada, parece ser uma espera inerte pela morte. No entanto, é precisamente por meio dos elementos do mundo externo que um ritmo é incorporado através do contato com o Outro, que essa vida é impulsionada para fora dessa estagnação, permitindo que o sujeito se organize em um tempo que lhe é próprio. É preciso, portanto, ser tirado de um estado de passividade radical para alcançar o ritmo que o coloca em concordância com o mundo.
Desde o princípio da existência, a concordância com a temporalidade externa exige um trabalho psíquico. Nesse processo, o ritmo atua como o princípio organizador da metaforização, permitindo que os objetos se inscrevam e ganhem sentido para o sujeito. Este processo é, em si, alienante, pois submete o sujeito ao tempo do Outro. O ritmo, por sua vez, implica uma descontinuidade, uma dimensão temporal marcada pelo intervalo. É nesse intervalo que Lacan (1953/1998) situa o desejo do sujeito. Como ele afirma:
O desejo é aquilo que se manifesta no intervalo cavado pela demanda aquém dela mesma, na medida em que o sujeito, articulando a cadeia significante, traz à luz a falta-a-ser com o apelo de receber seu complemento do Outro, se o Outro, lugar da fala, é também o lugar dessa falta. (p. 633)
Assim, sustentamos a afirmação de Lacan (1945/1998b) de que o sujeito da psicanálise emerge de um intervalo, de uma lógica temporal, que dinamiza a relação com o espaço. O sujeito do desejo surge como efeito da distinção entre si e o exterior, ao mesmo tempo que é afetado e constituído pela experiência de encontro com esse exterior.
Le Poulichet (1996), atenta para a dinâmica da experiência temporal em relação ao espaço e como se fundam seus alicerces simbólicos.
O que se esgota periodicamente é o protótipo do objeto e do fora. O esgotamento, a interrupção e a ação do grito que traz de volta o que desaparecera dão lugar a um fora e a um objeto. Eles abrem lacuna onde se alojará o objeto. Põe em jogo a ausência que fundamenta o fora. E é realmente esse fora que, como tal, faz surgir a perspectiva de um dentro. Esse processo, que estaria na base da temporalidade psíquica, faz advir a presença sobre um fundo de ausência, e, ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre fora e dentro. (p. 20)
A repetição dessa experiência, que permite a distinção entre interno e externo, gera uma matriz de alteridade por meio da composição de objetos, criando um espaço para montagens pulsionais que simbolizam o real. Como Dunker (2013) aponta, todo o processo de metaforização do tempo — ou seja, a duração implícita na relação entre interior e exterior, presença e ausência — permite que o tempo físico se transforme em tempo de linguagem. Dessa forma, à medida que os objetos se organizam, a temporalidade psíquica se instaura, caracterizada pela dimensão temporal da duração e do intervalo.
Diante disso, podemos afirmar que a temporalidade psíquica, embora atravessada pelas formas temporais sociais, não corresponde às medidas de tempo convencionais, como as dos relógios e calendários. A temporalidade psíquica emerge da experiência radicalmente singular da constituição do sujeito, mas os processos temporais internos e externos impactam-se mutuamente. É precisamente essa interseção que nos leva a investigar como as incidências dessa relação podem estar associadas às formas de sofrimento contemporâneas.
Considerando que, nesse processo constitutivo, o tempo físico se altera em tempo de linguagem, a aceleração, ao impor seu regime de regras temporais, compõe uma gramática temporal que redefine as dinâmicas psíquicas e sociais, exigindo da psicanálise um esforço teórico para extrair um entendimento mais profundo de seus impactos sobre a subjetividade. Para tanto, é necessário adentrar na complexa temática da aceleração social, ainda estrangeira à psicanálise no plano teórico-conceitual.
A aceleração social
Desenvolvida pelo sociólogo alemão Hartmut Rosa, a Teoria da Aceleração Social analisa as transformações das estruturas temporais na modernidade. Um dos principais desafios que Rosa (2019) identifica no desenvolvimento dessa teoria é propor uma definição conceitual de aceleração que seja, ao mesmo tempo, analiticamente satisfatória e empiricamente instrutiva. Isso porque o conceito precisa abarcar “diferentes áreas da sociedade, fenômenos de aceleração muito heterogêneos que dificilmente poderão ser categorizados sob um conceito comum e cuja relação mútua não fica evidente à primeira vista” (p. 126). Rosa critica os diagnósticos temporais anteriores, apontando que muitos deles padecem de conclusões excessivamente abrangentes e carecem de fundamentação. Para ele, é essencial superar essas limitações para que a teoria possa oferecer uma análise mais precisa e útil das dinâmicas temporais na sociedade contemporânea. Rosa (2019) critica a falta de discriminação analítica nos diagnósticos anteriores, que usavam o conceito de aceleração de forma indiscriminada, aplicando-o a fenômenos heterogêneos. Em vez disso, o autor busca, no contexto das práticas cotidianas, identificar as estratégias de gestão temporal (como variar o ritmo, produzir ou acelerar) que possibilitam um exame socio-histórico das formas de administrar o tempo. Segundo ele, a sofisticação do progresso tecnológico e sua permeabilidade na vida cotidiana reconfiguram as expectativas temporais, gerando novas referências de tempo ao mesmo tempo que destina outras à obsolescência. Compreendendo toda experiência de modernização como, simultaneamente, uma experiência de aceleração, Rosa (2019, p. 11) propõe que uma sociedade é moderna quando se estabiliza dinamicamente, sendo sistematicamente disposta ao crescimento, ao adensamento de inovações e à aceleração como meio de reproduzir sua estrutura.
Assim, a tríade crescimento, aceleração e adensamento de inova- ções compõe uma dimensão temporal, material-factual e social em um único processo de dinamização, definindo a aceleração social como um aumento quantitativo por unidade de tempo.
Nesse ponto, o autor demonstra o quão inadequado seria compreender tais fenômenos apenas por meio das definições tradicionais da Física, nas quais a aceleração se resume à distância percorrida (a = v/t ou a = 2s/t²). Esses métodos não explicam como a rapidez é capitalizada ou como o encurtamento de distâncias se torna uma norma social.
Para esboçar a complexidade e a dinamização da aceleração social, Rosa (2019) propõe o conceito de círculo aceleratório: um processo de interação dinâmica entre três dimensões distintas de aceleração, descritas a seguir.
A primeira dimensão apresentada por Rosa (2019) é a aceleração técnica, que se refere à intencionalidade nos processos direcionados a um objetivo. Ela diz respeito ao desenvolvimento tecnológico que revoluciona o regime espaço-tempo. Inovações nas formas de comunicação e mobilidade impactam a percepção do tempo e do espaço devido ao seu alto impacto nas estruturas sociais. A duração de uma comunicação via correio contrasta radicalmente com a instantaneidade das mensagens digitais. Da mesma forma, uma viagem de carro, embora mais rápida do que uma viagem a pé ou de tração animal, é inquestionavelmente mais lenta do que uma viagem de avião. À medida que o progresso tecnológico conquista espaço em menos tempo, ele também estabelece novas metas de duração temporal cada vez mais reduzidas.
A segunda dimensão é a aceleração das mudanças sociais, que se refere à “velocidade na qual, de um lado, práticas e orientações de ação, e, de outro, estruturas associativas e modelos de relação, se modificam” (Rosa, 2019, p. 147). Esses paradigmas de transformação se aceleram na mesma medida que se modificam. Nessa dimensão, observa-se o surgimento e o declínio de hábitos e valores, o que compromete o sentimento de validade futura — ou seja, a convicção de que os princípios, costumes e práticas que organizam a sociedade perdurarão. Isso inclui novas regras nas formas de estar com os outros, mudanças na linguagem, nos meios de inserção social e nos ofícios que surgem e desaparecem diante das inovações no mercado de trabalho.
Por fim, Rosa (2019) destaca a aceleração do ritmo de vida, que se caracteriza por componentes tanto objetivos quanto subjetivos. Ela implica o encurtamento ou adensamento de episódios de ação. Podemos exemplificar isso pela redução da duração total de atividades cotidianas, como refeições, sono, tempo com os outros ou convenções sociais. Em suma, trata-se de encurtar o intervalo entre o fim de um evento e o início de outro. Reduzir a duração implica aumentar a velocidade de determinada ação, como mastigar, se comunicar ou se banhar. Já o adensamento consiste na sobreposição de várias atividades, com o objetivo de encurtar o tempo dedicado a cada uma delas. Nessa dimensão, Rosa (2019) situa a sensação de compressão do presente e o sentimento de escassez de tempo diante das demandas em ritmo acelerado.
O processo motor do círculo aceleratório não seria propriamente a aceleração técnica, embora esta atue como um fator potencializador do fenômeno. A propulsão da aceleração social dependeria também de condições econômicas e culturais, ressaltando-se que a experimentação do ritmo de aceleração varia em diferentes contextos históricos e sociais (Rosa, 2019).
Para o autor, o capitalismo contemporâneo incide de tal forma nas estruturas temporais da sociedade que produz modos de centralizar, coordenar e integrar os objetivos dos indivíduos sob requisitos sistemáticos, submetendo-os à aceleração social do tempo. É nessa direção que nos interrogamos sobre como a psicanálise observa a relação entre os processos de modernização e o assujeitamento do tempo psíquico
Modernização, aceleração e assujeitamento
Em “Mal-estar na cultura”, Freud (1930/2010), ao refletir sobre o domínio da natureza alcançado pelo ser humano por meio do progresso científico, questiona os ganhos obtidos em relação ao espaço e ao tempo — conquistas que seriam impensáveis no passado. Ele explora como o avanço tecnológico e científico permitiu ao homem superar barreiras que antes pareciam intransponíveis, ampliando sua capacidade de controlar e transformar o mundo ao seu redor. No entanto, Freud também levanta questões críticas sobre os custos psíquicos e sociais dessas conquistas, sugerindo que o progresso não necessariamente se traduz em bem-estar.
(...) o poder sobre a natureza não é a condição única da felicidade humana, assim como não é o único objetivo dos esforços culturais, e não que os progressos da técnica não tenham valor nenhum para a economia de nossa felicidade. Podemos objetar: não é um positivo ganho de prazer, um inequívoco aumento na sensação de felicidade, se sou capaz de ouvir a qualquer momento a voz do filho que mora a centenas de quilômetros de distância, se logo após o desembarque do amigo posso saber que ele suportou bem a longa e penosa viagem? (p. 84)
No entanto, incerto sobre as aparentes vantagens recém-adquiridas pelo avanço tecnológico, Freud considera que se essa não tivesse sido a direção do progresso, não haveria ferrovias que superassem as distâncias, logo, o filho não teria deixado a cidade natal e, consequentemente, o telégrafo não seria necessário. Da mesma forma, se não houvesse navios a vapor empreendendo viagens transoceânicas, o amigo não teria embarcado na jornada marítima e o telégrafo não seria necessário para aplacar sua preocupação (Freud 1930/2010). É nesse sentido que a crítica do autor aponta que na mesma medida que a tecnologia criou uma inovação, também gerou uma nova inquietação.
Parece relevante quanto à proposta deste trabalho observar que, nessas considerações de Freud, para além do autor e do psicanalista, há o testemunho de um homem habituado com a comunicação por cartas, com a velocidade dos transportes ferroviário e de tração animal. Alguém que percebe o desenvolvimento técnico repaginar o cenário que antes lhe era familiar, convocando-o a responder e a se adaptar frente à ascensão de novas temporalidades que reformataram o mundo como era conhecido. Poder examinar, sob o status de testemunho, o apontamento do autor sobre as transformações de sua época, nos permite observar um processo aceleratório em progressão e transformando as relações temporais nas experiências subjetivas.
Precisamos considerar que as transformações na experiência subjetiva observada por Freud em sua época, vão ao encontro com a tese de Rosa (2019) sobre todo processo de modernização ser também um processo de aceleração. Na observação de Freud, vemos como ele destaca a inclusão de uma nova inquietação, adquirida por meio da satisfação que o progresso tecnológico dos meios de transporte e comunicação, proporcionaram. E isto permite considerarmos, em certa medida, que tal aceleração técnica incidiu em transformações sociais que aceleraram o ritmo de vida. Assim, trata-se do próprio círculo aceleratório observado pelo psicanalista.
Precisamos ter em mente — ainda que isso pareça óbvio — que cada observação feita pelos autores citados sobre os fenômenos da aceleração está diretamente relacionada ao período histórico em que foram formuladas e, portanto, reflete o arsenal tecnológico de sua época. Nesse sentido, o leitor pode perceber, a partir do momento em que este trabalho é lido, que, por mais pertinentes que sejam algumas considerações sobre a aceleração técnica, é provável que elas já estejam ultrapassadas. No caso de Freud, por exemplo, o telégrafo e o navio a vapor, que eram símbolos de velocidade em sua época, foram há muito superados pela evolução tecnológica. No entanto, parece relevante destacar que o que permanece atual é a mudança nas estruturas temporais sociais, que favoreceram a inquietação descrita pelo autor.
Cabe, então, questionar o que as dimensões contemporâneas da aceleração revelam sobre o tempo presente. É fundamental considerar que a aceleração atualiza sua própria gramática à medida que avança em seus objetivos, reconfigurando-se constantemente.
Assim, em tempos atuais, Birman (2014) afirma que viveríamos um ponto avançado da modernidade, no qual está em jogo a “dissolução da categoria tempo ante a do espaço” (p. 112). Ademais, denota-se um excesso produzido pela cultura capitalista que assujeita as subjetividades de modo irruptivo e se impõe sobre o psiquismo como um corpo estranho, escapando ao controle e à regulação da vontade, evidenciando, assim, que o mal-estar na contemporaneidade estaria focado em registros de ação e corpo, destacando o somático, como consequência da rarefação da temporalidade nos processos psíquicos (Birman, 2014).
De acordo com Kehl (2009), o encurtamento da temporalidade produz efeitos perceptíveis de vazio subjetivo, que disponibilizam ao sujeito a excessiva oferta de objetos e imagens de compensação pelos quais o capitalismo moderno convoca. Este soube transformar em força de trabalho a dimensão subjetiva dos prazeres, dos afetos, expropriando a invenção singular de destinos das pulsões, alimentando-se do mais-de-gozar e produzindo o sujeito de que necessita: esvaziado do que lhe é próprio e mais íntimo. Logo, disponível para as convocações dos objetos e imagens ofertados. Trata-se de um sujeito ligado ao puro presente do “aqui-e-agora”, tornando-se inapto para imaginar um devir que não o da reprodução da temporalidade encurtada, marca da sociedade contemporânea.
Nesse sentido, Safatle (2016) argumenta que na necessidade de modernização do capitalismo, surge um novo éthos que se solidifica pela expropriação objetiva da economia libidinal dos sujeitos. Tal processo seria um dos fatores elementares que marca o capitalismo moderno e o configura no atual modelo neoliberal. Este que não se resume a um “conjunto de condições para a internalização de dinâmicas repressivas capazes de determinar sujeitos em individualidades rígidas e funcionalizadas” (p. 136). Mas configura uma anatomia política em que o poder é indissociável da regulação dos corpos e de regimes de desejo, “não há poder que não crie uma ‘vida psíquica’ através das marcas que deixa nos corpos” (p. 136).
Safatle (2008) afirma, que toda socialização é normativa e impõe seus ideais culturais responsáveis pelos processos de regulação social, tendendo a produzir estruturas de economia libidinal e, nessa medida, determinam exigências de satisfação pulsional. Dessa forma, precisamos considerar que atualmente o neoliberalismo é um dos principais gestores dos processos de normatização da vida contemporânea.
Para Dardot e Laval (2016), a sociedade neoliberal desenvolve novas tecnologias de poder em que os propósitos da gestão moderna dos indivíduos acompanham a implantação de técnicas com o propósito de produzir formas mais efetivas de sujeição. Ainda que inovadoras, estas se caracterizam por uma das mais marcantes violências do capitalismo: a inclinação a converter o trabalhador em mercadoria.
Conforme os autores, as formas de subjetivação neoliberal instituem de modo cada vez mais explícito uma relação de gozo imposto com qualquer outro indivíduo, configurando uma relação de objetalização.
Nesse caso, não se trata simplesmente de transformar o outro em coisa — segundo um mecanismo de “reificação” ou “coisificação”, para retomarmos um tema recorrente da Escola de Frankfurt —, mas de não poder mais conceder ao outro, nem a si mesmo enquanto outro, nada além de seu valor de gozo, isto é, sua capacidade de “render” um plus. (p. 371)
É nessa direção que Dardot e Laval (2016), apontam para a racionalidade neoliberal na qual impera a governamentabilidade de si, que induz a um autogerenciamento nos moldes de uma empresa, tornando o próprio capital humano que precisa ser investido e precisa crescer indefinidamente. E produzindo, assim, a emergência de um sujeito individualizado e competitivo, focado na potencialização de resultados e na assunção de riscos, sendo totalmente responsável por seus possíveis fracassos.
Dunker (2020) concorda ao dizer que ao falar em neoliberalismo, não se trata somente de uma teoria econômica que oportunizou o surgimento do capitalismo imaterial e da financeirização de empresas, em que a importância da produção é superada pelo valor da marca. Também não se trata apenas de uma valorização do consumo, como modo comum de formatação de identidades, mas sim que representou uma nova modalidade prescritora de modos de sofrimento, dando maior evidência aos quadros depressivos.Conforme o autor, no neoliberalismo o sofrimento deixa de ser obstáculo. Ao contrário, pode ser metodicamente produzido e gerenciado na intenção de aumentar o desempenho, como no contexto industrial. É o que faz com que o neoliberalismo, enquanto política de sofrimento, seja caracterizado como produtor de individualização, instrumentalização e intensificação. Nesse sentido, compreendemos que as modalidades de assujeitamento características do contexto neoliberal constituem uma fonte de violência para o sujeito.
Violência que sintetiza unidades através da destruição de tudo o que não se deixa configurar em fluxo codificado pela forma-mercadoria. Por isso, violência que desconhece o tempo, não como unidade de medida, mas como qualidade; que desconhece a morte, não como culto da finitude, mas como experiência da impredicação. (Safatle, 2016, p. 135)
Compreendemos que há uma radicalidade em desconhecer o tempo enquanto qualidade, pois, consequentemente, trata-se de desconhecer o que é da ordem da singularidade. Dessa forma, toda experiência temporal não encontra vias de reconhecimento que não estejam devidamente codificadas nas prescrições neoliberais. Sem um tempo que não esteja objetivado, o sujeito do inconsciente do qual a psicanálise se ocupa, encontra-se empobrecido dos recursos que demandam uma temporalidade singular. A esse respeito, a tese de Martins (2019, p. 11) é elucidativa: ele diferencia a situação analítica, que visa ao tempo do sujeito e à escrita de sua singularidade, da tendência do discurso social de uniformizar as temporalidades e submetê-las à demanda do Outro. É precisamente nesse confronto que a clínica psicanalítica encontra sua relevância como refúgio e espaço de invenção para o sujeito.
Para Safatle (2020) existe uma particularidade da abordagem psicanalítica, pois ela opera, indagando quanto aos processos de socialização serem produtores de modalidades de sofrimento.
(...) o sofrimento psíquico se transforma em uma categoria política central por indicar sistemas de expectativas não realizadas no interior da vida social. Ele não aparecerá como desvio em relação a estruturas tipificadas de normalidade, mas como modo de denúncia da articulação, necessária para nós, entre socialização e violência, entre instauração da vida psíquica e sujeição social. (p. 160)
Logo, precisamos considerar que a temporalidade psíquica fica assujeitada não somente pelas normativas sociais, mas pela sistematização e instrumentalização do tempo proporcionadas pela aceleração social. Nesse ponto, é crucial considerarmos o impacto da aceleração social sobre o tempo lógico. Embora aprofundar essa investigação exceda o escopo deste artigo, é fundamental atentar para as considerações dos autores que se seguem.
Para Debieux-Rosa (2016), a aceleração experimentada na atualidade é um efeito direto da sociedade capitalista. Essa dinâmica produz uma sensação de urgência que compromete o tempo de compreender, precipitando o momento de concluir. De forma similar, Kehl (2009), Malcher e Freire (2016) concordam que o excesso de estímulos característico do capitalismo moderno tem como objetivo central ocupar o máximo de tempo dos sujeitos, fixando sua atenção em um fluxo constante de ofertas, inovações e maquinarias. O resultado desse processo é a compressão da experiência temporal, que afeta diretamente o tempo psíquico.
J. Jerusalinsky (2017) pontua que na temporalidade da criança, a instauração da urgência de resposta por vias tecnológicas de comunicação também incidiria no tempo para compreender, de modo a comprimi-lo, o que acarretaria uma temporalidade psíquica assujeitada ao tempo instantâneo da tecnologia.
Para extrairmos consequências precisas dessas colocações, é necessário reconhecer que o próprio uso dos termos pode levar a resultados distintos e, consequentemente, menos exatos. Um problema terminológico importante deve ser destacado: ao afirmar que o “tempo para compreender”, no contexto da aceleração, é comprimido ou encurtado, pode-se criar a impressão de que o “momento de concluir” ainda seja alcançável. No entanto, essa ideia sugere, equivocadamente, que um “tempo para compreender” acelerado poderia produzir o mesmo resultado, o que é impossível, já que ele depende de uma duração própria.
A aceleração, entendida como uma gramática do tempo — ou seja, como uma linguagem que estrutura a experiência temporal —, implica, por definição, um adensamento e um incremento de ações por unidade de tempo. Dessa forma, ela não permite a inscrição de qualquer outro registro temporal que não esteja alinhado com sua lógica de otimização. Portanto, o “tempo para compreender”, inerente à temporalidade subjetiva, estaria expressivamente prejudicado na sua função, dentro dessa gramática da aceleração.
Nesse sentido, o termo “precarizado” nos parece preciso, pois evidencia que o trabalho da operação própria ao “tempo para compreender” está gravemente prejudicado. Como consequência, o “instante de ver” não apenas antecede o “momento de concluir”, mas também mantém o sujeito preso a esse primeiro momento. Dessa forma, a aceleração parece precarizar tudo o que depende essencialmente de uma duração indeterminada e de uma temporalidade singular.
Kehl (2009) afirma que a urgência que a vida social inscreve na experiência de tempo e reduz à vivência de uma temporalidade “tecida de sequências de instantes que comandam sucessivos impulsos à ação” (p. 116). Nessa direção, precisamos reconhecer que o tempo para compreender não convém aos propósitos e prescrições neoliberais, que alienam o sujeito de sua própria temporalidade.
No olhar de Medeiros et al. (2015), o sujeito contemporâneo responde às normatividades de uma existência de funcionalidade e desempenho, relacionadas a propostas de consumo e comportamento automatizado. Este sujeito autômato estaria debilitado na sua experiência e temporalidade, uma vez que dele se esperaria um compromisso com a produtividade, a eficácia e a rapidez. Os autores afirmam sobre como as exigências sociais produzem adoecimento, ao se manifestar em duas posições opostas: a do comprometimento com a satisfação de demandas ou a da inadaptabilidade que leva ao apagamento subjetivo.
Conforme Dunker (2017a), a vida contemporânea, cada vez mais acelerada, contribuiria para a nossa experiência corporal ser objeto de funcionalização das dinâmicas normativas de subjetivação na modernidade. Estas, por sua vez, convocam ao assujeitamento a regras de conformidade, adaptação e obediência. Na compreensão do autor a aceleração evidencia um fenômeno da cultura da performance generalizada, oriunda do universo de produção e soberania do resultado.
Tanto a aceleração social como o neoliberalismo caracterizam o cenário atual. Embora sejam teoricamente abordadas como coisas distintas, compreendemos que seus efeitos nos sujeitos são conjuntos, dinâmicos, interseccionados e induzem a compressão da experiência temporal e a fragilização do que dela depende.
Compreendemos que os efeitos das prescrições contemporâneas que regulamentam a temporalidade subjetiva, comprimem a experiência temporal e podem ter efeitos diversos. Contudo, como apontado pelos autores citados, todos denunciam o assujeitamento, adoecimento e apagamento do sujeito. Nesse sentido, as formas de sofrimento que se desenvolvem conjuntamente com o progresso tecnológico, apontam a pertinência da indagação sobre a relação da aceleração social com o psicopatológico.
Aceleração e Psicopatologia
Não foi em “Mal-estar na civilização” que Freud se debruçou pela primeira vez sobre os impactos produzidos pelas reconfigurações temporais no campo social. Anteriormente, em seu texto “Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada neurose de angústia” (1895/1996), ele já havia examinado o trabalho do psiquiatra americano George Beard (/2002). Em “A nervosidade americana”, Beard atribuiu a causa da neurastenia à aceleração dos processos de modernização pelos quais os Estados Unidos passavam no final do século XIX. Na época, o país vivia um intenso ritmo de desenvolvimento técnico, impulsionado pela Revolução Industrial, que transformou profundamente o modo de vida norte-americano.
Beard (2002) discorre amplamente sobre o conjunto de fatores que, em sua visão, ocasionavam a neurastenia. Entre eles, destacam-se as mudanças na relação dos indivíduos com a religião, impulsionadas pelo avanço da ciência, bem como as inovações no mercado financeiro. Pereira (2002) sintetiza as descrições do psiquiatra da seguinte forma:
(...) o grande aumento da população, acompanhado por extensos processos de exclusão, a especialização excessiva e opressora das atividades profissionais, o aumento das exigências em relação à pontualidade e as questões temporais, o incrível aumento na velocidade de circulação de informações, os efeitos maléficos do barulho excessivo, o progresso rápido e o surgimento e disseminação veloz de novas ideias, modificando constantemente nosso modo de compreender o mundo, além do avanço desenfreado da competição e da ânsia por lucros capitalistas, contribuíram para a criação de um ambiente cultural tenso e insuportável. (p. 173)
Podemos ver como não se trata somente da aceleração causada pelo avanço da tecnologia, mas de como esta impulsiona outros processos de transformação temporal que se intersecionam, acelerando as diferentes temporalidades em jogo e criando uma atmosfera de excesso. Também Dunker (2015) destaca que a neurastenia foi “atribuída à aceleração da vida moderna, com seu nervosismo, sua irritabilidade e seu cansaço” (p. 322). Em certa medida, o sujeito afetado apresentava respostas sintomáticas às demandas de automatismo e adaptação da vida e do corpo, comuns àquele período. Na medida em que a modernização demandava adequação dos indivíduos, a aceleração se impunha conjuntamente ao inscrever a velocidade de tais demandas.
Conforme Pereira (2002), o conceito de neurastenia designa um estado crônico de exaustão física e mental, seguido de sintomas de desconforto e disfunções corporais. No quadro clínico da doença, Beard (2002) observa irritabilidade decorrente do excesso de estímulos, problemas gástricos, hipocondria, insônia, fadiga, hiperestesia auditiva, angústia moral, perda da libido, tremores e dúvidas excessivas.
Freud (1895/1996) procurou separar da neurastenia a neurose de angústia, visto que, embora na semiologia sejam quadros similares, especialmente pelo excesso de excitação, diferem nas respostas à satisfação. Na primeira, o aparelho psíquico está reduzido em sua capacidade de lidar com o excesso de libido a ponto de não poder contê-lo, daí as tentativas de descarga por vias masturbatórias:
Isso se refletiria de uma forma diluída de angústia, caracterizada mais pela impaciência e irritação do que por grandes ataques de angústia. O neurastênico padeceria, assim, de uma redução da satisfação, de uma “satisfação insatisfatória” posto que gerada por um pequeno incremento de libido. (Dunker, 2002, p. 194)
Já na segunda, trata-se de ausência da satisfação. O excesso de libido no aparelho psíquico, impossibilitado de realizar a descarga, desencadearia a angústia que se destinaria por vias somáticas. Dessa forma, Freud (1895/1996) aponta que na neurose de angústia encontraríamos sintomas como falta de ar, suor, desmaios, vertigens, sensação de sufocamento, além de agorafobia e despersonalização. Assim, podemos afirmar que nos dois quadros se apresentam problemáticas de economia libidinal com respostas distintas à descarga do excesso de excitação.
Freud (1908/2015) contestará a etiologia da neurastenia em “Moral sexual ‘cultural’ e o nervosismo moderno” ao discorrer sobre os efeitos repressores da moral social frente à sexualidade. O autor não se viu suficientemente convencido de que os processos de modernização e seus efeitos de aceleração estariam na origem do dito “nervosismo”, discordando de outros autores como Binswanger e Von Kraftt-Ebing, que coincidem com a diagnóstica de Beard. Na objeção de Freud (1908/2015), os autores não consideravam o mais significativo dos fatores etiológicos, isto é, a repressão nociva que a civilização exerce sobre a sexualidade. Para o autor, as renúncias à satisfação sexual demandadas pela cultura seriam tão causadoras de “adoecimento nervoso” quanto as demais transformações sociais atribuídas por Beard, Binswanger e Von Krafft-Ebing.
(...) não existe essa correspondência invariável entre a forma do adoecimento nervoso e as outras influências culturais danosas da civilização, que os autores acusam de patogênicas. É lícito, portanto, proclamar o fator sexual como o essencial na causação das neuroses propriamente ditas. (Freud 1908/2015, p. 256)
É importante ressaltar que, nesse momento de construção teórica, Freud estava questionando a abrangência da causalidade da neurastenia, buscando maior precisão para sua própria diagnóstica das neuroses, atribuindo ao dano à vida sexual o seu agente etiológico. Ele argumenta que, diante das demandas culturais impostas aos neuróticos, a repressão pulsional é insuficiente e exige grandes dispêndios de energia para sustentar as engrenagens da cultura, resultando em empobrecimento interno e, muitas vezes, no adoecimento que afasta o neurótico das colaborações sociais.
O que não podemos deixar de considerar é que a aceleração descrita por Beard na etiologia da neurastenia, quando analisada sob a perspectiva da economia psíquica de Freud, aponta não apenas para o modo como a aceleração passa a reger a temporalidade singular, exigindo a adaptação a novos ritmos de operação, mas também para seu caráter transversal, que incide diretamente na economia libidinal.
Portanto, podemos afirmar que a gramática da aceleração se transforma à medida que se atualiza, tensionando o tempo enquanto linguagem e exigindo uma reconfiguração das respostas às demandas temporais. Isso, por sua vez, impacta profundamente as relações do sujeito com os objetos, convocando-o a um rearranjo dessas relações.
Nesse sentido, Kehl (2009) destaca os riscos da aceleração na experiência constitutiva do sujeito. O encurtamento do intervalo entre a tensão vivida pelo bebê — causada, por exemplo, pela fome — e a satisfação dessa necessidade, implica a importunação do tempo fundamental para a constituição do sujeito. Em outras palavras, a temporalidade encurtada priva o sujeito da experiência de simbolização, empobrecendo seu investimento nas relações de objeto. Para a autora, isso está diretamente relacionado à insuficiência fantasmática observada nas depressões.
Kehl (2009) também ilustra como as transformações temporais no campo cultural podem favorecer a aceleração na constituição psíquica. Ela cita o exemplo de uma mãe que, ao cuidar de um bebê, também precisa trabalhar e está submetida aos ideais sociais contemporâneos de desempenho, eficácia e produtividade. Essa circunstância apressaria os cuidados com as necessidades do bebê, incidindo diretamente no processo fundante do sujeito. Esse exemplo ilustra claramente a sobreposição de ações que caracteriza a aceleração do ritmo de vida.
Dunker (2017b) aponta para o uso de recursos tecnológicos e da linguagem digital nos cuidados com os bebês na atualidade. O imperativo da oferta amorosa em presença sutura o intervalo em que a demanda evolui para o desejo, criando condições que favorecem o desenvolvimento da síndrome depressiva.
Conforme Safatle (2008), tanto a depressão quanto a ansiedade são quadros sintomáticos recorrentes na atualidade, evidenciando formas distintas de economia libidinal na relação com o objeto. Enquanto a depressão se caracteriza pela incapacidade de sustentar as escolhas objetais, a ansiedade reflete a tentativa de atravessar essas escolhas de forma cada vez mais rápida. Ambos os quadros, assim, desvelam o contexto neoliberal, que, sob o imperativo de gozo e eficácia, converte o mal-estar contemporâneo em sintomas que expõem a fratura entre a temporalidade psíquica — marcada pelo intervalo, pela falta e pela elaboração simbólica — e as demandas aceleradas de um mundo que exige homogeneização das respostas às demandas temporais, revelando a crise do sujeito diante da impossibilidade de sustentar uma economia libidinal singular.
Dessa forma, a aceleração, enquanto gramática temporal, não apenas reconfigura as relações do sujeito com o tempo, mas também redefine as dinâmicas pulsionais que sustentam a economia libidinal, tensionando os processos de simbolização e a constituição do desejo. Essa gramática, caracterizada pela compressão do tempo e pela sobreposição de demandas, impõe ao sujeito uma adaptação constante a ritmos acelerados, nos quais a espera — operação fundamental para a elaboração do intervalo e do corte que fundam a temporalidade psíquica — é comprometida em favor da instantaneidade e da urgência. Para Edler (2017), essa dinâmica trata-se de uma forma de coerção temporal, na qual o sujeito, na busca por satisfação, encontra-se condicionado a vivê-las sob o modo da compulsão. Nesse cenário, a psicanálise é convocada a revisitar suas categorias clínicas e teóricas, interrogando como essa gramática temporal redefine não apenas as formações sintomáticas — como a depressão e a ansiedade —, mas também as próprias condições de subjetivação, marcadas pela intersecção entre o tempo lógico e o tempo do Outro. Isso ocorre porque a aceleração social precariza todo o trabalho da temporalidade psíquica, tornando o sujeito refém de uma gramática acelerada que visa a determinar seus modos e tempos de satisfação. Esse processo mina os recursos psíquicos necessários para a escrita de uma singularidade, colocando em questão a própria capacidade de o sujeito se posicionar em relação ao seu desejo. A questão que se impõe, então, é: como preservar essa singularidade e sua capacidade de metaforização em um mundo que parece negar os elementos estruturantes da experiência desejante e da constituição do sujeito do inconsciente?
Conclusão
Este trabalho evidenciou a aceleração social como uma gramática temporal que redefine não apenas as estruturas sociais, mas também as dinâmicas psíquicas, tensionando a temporalidade do sujeito. Ao suprimir o tempo para compreender e rarefazer a capacidade de metaforização, a aceleração compromete a elaboração simbólica e a condição desejante do sujeito, impondo uma lógica de sincronização imediata a tal gramática que viola a singularidade do sujeito.
Podemos dizer que as consequências psicopatológicas dessa dinâmica são historicamente visíveis em quadros como a neurastenia, a depressão e a ansiedade, que revelam a fratura entre a temporalidade psíquica e as demandas aceleradas dos processos de modernização. Esses sintomas, convertidos em expressões de uma economia libidinal exaurida, denunciam o mal-estar gerado pela imposição de ritmos alheios à subjetividade.
Diante disso, a psicanálise sustenta uma outra temporalidade — aquela que reconhece o intervalo, a falta e a singularidade do sujeito —, resistindo à gramática da aceleração que ameaça dissolver os fundamentos da experiência desejante. Para enfrentar os desafios impostos pela aceleração, a psicanálise é convocada a revisar e ampliar suas construções teóricas sobre a temporalidade, tensionando conceitos como o tempo lógico e a temporalidade psíquica à luz das transformações contemporâneas. Ao dialogar com teorias externas e tensionar seus próprios constructos, a psicanálise pode oferecer uma leitura precisa do mal-estar gerado pela aceleração, sustentando um espaço clínico e teórico que preserve a singularidade do sujeito e sua capacidade de metaforização em um mundo cada vez mais regido pela urgência da gramática da aceleração.
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Este artigo é baseado na dissertação de mestrado intitulada A clínica psicanalítica diante da aceleração social do tempo, realizada no Programa de Pós-graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O grupo de pesquisa em questão é chamado A Psicanálise e a Clínica na Universidade.
Agradecimentos:
Agradecemos ao Programa de Pós-graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura, e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRS.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa:
Não se aplica.
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Financiamento/Funding:
Os autores declaram não terem sido financiados ou apoiados / The authors have no support or funding to report.
Referências
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Editores do artigo/Editors:
Maria Livia Tourinho Moretto
