Open-access Raizeiras do Cerrado na universidade e a formação para o Sistema Único de Saúde

RESUMO

No Cerrado, segundo maior bioma brasileiro, as/os raizeiras/os são guardiãs/ões de saberes ancestrais e desempenham papel essencial na interseção entre conhecimentos populares e científicos. Objetivou-se, neste relato de experiência, descrever a atividade realizada na Universidade de Brasília (UnB), conduzida por duas raizeiras e um raizeiro do Cerrado, com rodas de conversa e oficinas que abordaram, entre outros assuntos, os conhecimentos tradicionais sobre plantas nativas do Cerrado, a produção de garrafadas, banhos e xaropes, bem como a seleção e o plantio de mudas do Cerrado na UnB. A atividade contou com a participação de preceptoras e estudantes de grupo de aprendizagem tutorial do PET-Saúde: Equidade da UnB, o qual, de modo inovador, envolve estudantes vinculados à área de ciências humanas e/ou ciências sociais aplicadas, além da saúde. Criou-se, com isso, um espaço formativo que, por meio de diálogos interepistêmicos, contribuiu para a formação e educação permanente de trabalhadoras e futuras trabalhadoras do Sistema Único de Saúde. Nos três dias de atividade, os participantes aprenderam não apenas sobre o uso de plantas típicas do Cerrado no cuidado em saúde, mas também sobre a importância da conservação da biodiversidade do Cerrado.

PALAVRAS-CHAVE
Ecossistema; Profissionais de medicina tradicional; Sistemas médicos complexos tradicionais; Capacitação de recursos humanos em saúde.

ABSTRACT

In Brazil’s second largest biome, the Cerrado, traditional herbalists are guardians of ancestral knowledge and play a vital role at the intersection between popular and scientific knowledge. This report of an experience sets out to describe work carried out at the University of Brasilia (UnB) led by one male and two female traditional herbalists from the Cerrado, with discussion groups and workshops which addressed, among other topics, traditional knowledge about native Cerrado plants, the production of bottled phytomedicines, shower gels and syrups, and the selection and planting of Cerrado seedlings at UnB. The activity involved tutors and students from the PET-Saúde: Equity tutorial learning group at UnB, which innovatively includes students from the human sciences and/or applied social sciences, as well as health. Thus, a training space was created, which through inter-epistemic dialogues, contributed to the formation and ongoing education of present and future workers of the Unified Health System. Over the three days, participants learned not only about using typical Cerrado plants in health care, but also about the importance of conserving the biodiversity of the Cerrado.

KEYWORDS
Ecosystem; Traditional medicine practitioners; Medicine; traditional; Health human resource training.

Introdução

O Cerrado ocupa cerca de um quarto do território brasileiro e concentra 5% de toda a biodiversidade do mundo. Está presente em 12 Unidades Federativas das 5 macrorregiões (Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Tocantins, Rondônia, Bahia, Maranhão, Piauí, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal). Em suas terras, residem aproximadamente 25 milhões de pessoas, distribuídas em mais de mil municípios1. Por abrigar 8 das 12 regiões hidrográficas brasileiras e abastecer 6 das 8 grandes bacias hidrográficas do Brasil, o Cerrado é conhecido como ‘berço das águas’2. De acordo com a Rede Cerrado1, existem aproximadamente 10 mil espécies de plantas no Cerrado, das quais 44% são exclusivas do bioma, além de uma fauna abundante, com centenas de espécies de mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios. O segundo maior bioma brasileiro vem sendo substituído por extensas áreas de monocultura, pecuária e áreas urbanas e apresenta mais da metade de sua cobertura vegetal devastada, com invariável comprometimento de nascentes, rios, riachos, plantas e animais. Além disso, essa devastação tem impactado os sistemas de conhecimento de povos e comunidades tradicionais que criam epistemologias e formas de viver em interação respeitosa com o bioma.

Raizeiras e raizeiros são guardiãs/ões de conhecimentos tradicionais envolvendo plantas medicinais, preparando remédios caseiros e transmitindo saberes ancestrais sobre o uso terapêutico das ervas. No Cerrado, as raizeiras são reconhecidas como parte das comunidades tradicionais e desempenham um papel essencial na interseção entre conhecimentos populares e científicos. Além de atuarem na produção de medicamentos naturais, exercem liderança comunitária, promovendo práticas de saúde, educação e sustentabilidade nas regiões onde vivem3-5.

As raizeiras e os raizeiros promovem a preservação do Cerrado por meio de uma relação pautada no respeito e na corresponsabilidade com o bioma. Suas práticas sustentáveis incluem a coleta consciente de plantas medicinais, baseada em princípios como a solicitação de permissão para a extração - pedido feito às plantas e ao Cerrado - e a limitação da retirada das raízes, assegurando a regeneração das espécies. Essa abordagem reflete uma ética do cuidado, na qual a proteção do Cerrado está intrinsecamente ligada ao bem-estar das comunidades que dele dependem e a um vínculo espiritual com o bioma. Ao manejar os recursos naturais com conhecimento e prudência, as raizeiras e os raizeiros contribuem para a manutenção do equilíbrio ecológico e para a continuidade do bioma, evidenciando um compromisso essencial com sua conservação3.

Instituído em 2010, o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) é uma ação promovida pelos Ministérios da Saúde e da Educação que fomenta a integração ensino-serviço-comunidade. O tema da 11ª edição do PET-Saúde é a equidade (PET-Saúde: Equidade), o qual conta, de modo inovador, com a participação de estudantes vinculados à área de ciências humanas e/ou ciências sociais aplicadas, além da saúde. Um dos eixos temáticos do PET-Saúde: Equidade aborda “[...] gênero, identidade de gênero, sexualidade, raça, etnia, pessoas com deficiências e as interseccionalidades no trabalho na saúde”6(189).

O objetivo deste relato de experiência foi descrever a atividade realizada na Universidade de Brasília (UnB), conduzida por duas raizeiras e um raizeiro do Cerrado, com rodas de conversa e oficinas que abordaram, entre outros assuntos, os conhecimentos tradicionais sobre plantas nativas do Cerrado, a produção de garrafadas, banhos e xaropes, bem como a seleção e o plantio de mudas do Cerrado na UnB. A atividade contou com a participação de duas preceptoras, uma tutora e dez estudantes do grupo de aprendizagem tutorial do PET-Saúde: Equidade da UnB, constituído para discutir os marcadores sociais da diferença, com ênfase na diversidade étnica e no combate ao racismo. Contou também com a participação de 50 estudantes de graduação e de pós-graduação da UnB de diversas áreas (ciências sociais, antropologia, sociologia, biologia, jornalismo, matemática, pedagogia, engenharia florestal, fisioterapia, enfermagem, saúde coletiva, relações internacionais, ciências ambientais e letras).

Por meio do estabelecimento de diálogos interepistêmicos entre guardiões e guardiãs dos saberes ancestrais relativos ao Cerrado e membros da comunidade universitária, especialmente ao que se refere à formação crítica e humanizada de profissionais da saúde, buscou-se criar espaço formativo que possibilitasse aos participantes da atividade se somarem à luta pela defesa da vida do Cerrado. A perspectiva de diálogos interepistêmicos vem da discussão realizada por Carvalho7 ao realizar o movimento político-acadêmico que reúne as cotas étnico-raciais e o encontro de saberes. Esse último é marcado pela presença de mestras e mestres de saberes ancestrais que ministram aulas e realizam um movimento transformador, possibilitando uma universidade aberta a novos saberes, sujeitos e epistemologias. Nesse sentido, as atividades foram totalmente conduzidas pelas raizeiras e pelo raizeiro com a colaboração de uma professora do Departamento de Antropologia da UnB.

Material e métodos

Trata-se de relato de experiência que, segundo Mussi et al.8(65), é uma modalidade de produção de conhecimento cuja principal característica é a descrição de “uma vivência acadêmica e/ou profissional em um dos pilares da formação universitária (ensino, pesquisa e extensão)”. Nesse sentido, relata-se a atividade composta por rodas de conversa e oficinas conduzidas por duas raizeiras e um raizeiro, quilombolas das comunidades São Domingos e Vão do Moleque, respectivamente, localizadas no município de Cavalcante, em Goiás, que ocorreu no Campus Darcy Ribeiro da UnB, nas imediações do Instituto de Ciências Sociais e do Centro de Referência em Conservação da Natureza e Recuperação de Áreas Degradadas (Crad). Nas rodas, foram discutidos os seguintes eixos temáticos: 1) restauração de áreas urbanas com plantas do Cerrado; 2) importância das raizeiras e dos raizeiros para a conservação do Cerrado; e 3) conhecimentos tradicionais sobre plantas nativas do Cerrado. Por sua vez, conforme mencionado, as oficinas abordaram, entre outras atividades, a coleta de sementes no Cerrado.

Optou-se pela realização de rodas de conversa por permitirem não apenas abordar o tema sob discussão, mas também identificar pontos de convergência e divergência, permitindo a construção de um lugar no qual temporalidades se somam e narrativas fluem. De acordo com Moura e Lima9, é preciso que a roda de conversa ocorra em um ambiente agradável de modo que o diálogo seja um momento de partilha. Além disso, acrescentam as autoras, as rodas “consistem em um método de participação coletiva de debate”, no qual os envolvidos “se expressam e escutam seus pares e a si mesmos por meio do exercício reflexivo”9(28).

Complementarmente, foram realizadas oficinas, dado que nelas a narrativa emerge conjuntamente com um saber/fazer e dinamiza a relação entre grupos de pessoas. Em uma oficina, permite-se que uma ação pedagógica crie tanto espaços de diálogo quanto momentos de experiências e vivências. Para Candau10, a oficina se constitui em um espaço de construção coletiva do conhecimento, de análise da realidade e de troca de experiências. Também permite, segundo Omiste et al.11, viver situações concretas, no caso, a expressão tradicional do saber-fazer das raizeiras. Salienta-se que as autoras participaram das atividades e observaram as reações e os comentários das/os participantes, além de professores/as e técnicos/as da UnB, os quais foram marcados por sensações e aprendizados transformadores, dinâmicos, sensíveis e com uma dimensão prática, quando as raizeiras e o raizeiro movimentaram a relação das pessoas com as plantas, buscando mexer com os sentidos, o tato, o olfato, a visão e demais sensações.

O projeto de pesquisa ao qual a atividade relatada está vinculada foi aprovado sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 34150214.9.0000.5540 e Parecer nº 783.155.

Descrição da experiência

Nós somos aquele povo que temos o maior ciúme do nosso Cerrado, não queremos que cortem nada em nossa comunidade, lá está conservado. Chega um lá e cortar o pau do jeito que ele quer, eu não aceito. Quero incentivar a vocês a quererem saber mais e mais do Cerrado, ajudar a conservar o Cerrado, falar com a família, cada um de vocês deve ter uma família, e falar e ajudar a conservar nosso bioma, o Cerrado. Porque o Cerrado tem tudo, tem tudo. E para vocês verem que quando a gente valoriza algo, olha, daqui, dessa faculdade vocês tiram tudo para seu futuro do amanhã, né? E também o Cerrado nos dá tudo, através dessas plantinhas que estão aqui, nem todos os frutos que nós temos está aqui, né? Mas aqui essas plantas têm suas propriedades do lado das medicinais. Pra você ter ideia do que o Cerrado produz sem ter que colocar química nenhuma, não precisa de adubo, não precisa de limpar de inchada, não precisa fazer nada, só o senhor Deus cuida de tudo lá para nós. O Cerrado dá tudo pra gente, dá a cura, cuida da gente, dá nosso sustento (Raizeira, abrindo as rodas de conversa).

As raizeiras e o raizeiro que conduziram a atividade possuem saberes ancestrais profundamente enraizados na cultura quilombola e no Cerrado. Provenientes de comunidades tradicionais, eles carregam consigo tanto o conhecimento sobre plantas medicinais quanto a prática de cuidado e respeito à terra, transmitidos por gerações. Eles trouxeram diversas plantas medicinais e produtos para uso nas atividades práticas com o intuito de aproximar os participantes do Cerrado. As plantas do Cerrado foram cuidadosamente selecionadas e extraídas. Em suas comunidades, elas coletaram sementes de árvores medicinais e de plantas diversas, prepararam a terra, fizeram mudas e trouxeram sementes. Uma das raizeiras relatou que chega a caminhar entre 54 km e 60 km em busca de determinadas espécies.

A atividade durou três dias e teve início com uma roda de conversa, na qual as raizeiras e o raizeiro se apresentaram e falaram sobre a importância da manutenção do conhecimento tradicional dos povos do Cerrado. Em seguida, apresentaram as mudas de plantas típicas do Cerrado que produziram, compartilhando seus nomes populares e os usos medicinais tradicionais. Os participantes aprenderam sobre espécies voltadas ao cuidado com a saúde da mulher, como: 1) negramina, utilizada para o alívio de dores e preparação para o parto; 2) mata-passo, indicado para o tratamento de resguardo quebrado; e 3) casca do baru, aplicada em casos de inflamações uterinas. Falou-se, ainda, sobre plantas indicadas para doenças específicas, como o algodãozinho-do-cerrado, indicado para infecções sexualmente transmissíveis, o mesocarpo do coco, utilizado no tratamento de problemas intestinais, e o urucum, empregado contra problemas na pele.

Em seguida, realizou-se uma oficina de preparo do solo e produção de mudas de plantas do Cerrado. Nessa etapa, as raizeiras e os raizeiros não só ensinaram os cuidados necessários com as plantas, mas também abordaram aspectos de conservação ambiental, enfatizando a necessidade de respeito ao bioma. Os participantes aprenderam sobre como fazer uma muda, a importância de ter uma terra preparada e a selecionar a semente. Todos fizeram suas mudas com sementes do Cerrado. Ademais, aprenderam sobre o poder curativo das sementes com as quais estavam lidando - ‘jatobá, caju-do-cerrado, coco babaçu, buriti, tingui, gueroba, gonçalo, angelim-da-mata, taboril, fedegosão, favela, pequi, imburuçu e sucupira-preta’.

No mesmo dia, foi realizada, ainda, uma oficina sobre preparação de remédios tradicionais, como garrafadas, banhos e xaropes. Nela, as raizeiras e o raizeiro ressaltaram que, além de saber preparar os remédios, é fundamental ter conhecimento e cuidado no manuseio e na retirada das raízes, com o intuito de não lesionar a planta durante a coleta, como no caso do barbatimão. Ao final, os participantes puderam levar os produtos produzidos durante a oficina.

No segundo dia, os participantes realizaram plantio de mudas de árvores de plantas medicinais na área externa do Instituto de Ciências Sociais da UnB (figura 1). Aprenderam também sobre o cuidado no plantio e na manutenção das plantas. Nesse momento, as raizeiras e o raizeiro aprofundaram o ensinamento sobre as técnicas de coleta e plantio, discorrendo melhor sobre as mudas, sementes e a muvuca, que é uma técnica de restauração ecológica que consiste em misturar sementes de diversas espécies nativas para plantio diretamente no solo. Essa prática é amplamente utilizada para recuperar áreas degradadas.

Figura 1
Plantio de muda de árvores de plantas medicinais durante a oficina

Em seguida, os participantes fizeram uma visita ao centro de produção de mudas da UnB, local onde há áreas com jardins e onde estão as mudas plantadas nos diversos campi da UnB. Essa visita viabilizou a observação da flora do Cerrado em um ambiente controlado. Para as raizeiras e o raizeiro, a referida visita oportunizou compartilhar mais conhecimentos sobre espécies, reforçando a troca de saberes entre os participantes.

No terceiro e último dia, realizou-se a saída de campo para explorar as trilhas das proximidades do Crad da UnB. Os participantes foram divididos em três grupos que adentraram a mata com as raizeiras e os raizeiros, que, ao longo da trilha, explicavam algumas espécies de plantas medicinais presentes naquela pequena mata, exemplificando suas finalidades. No final, houve uma discussão a respeito da experiência, e os participantes se mostraram surpresos com a riqueza de plantas que o Cerrado oferece e seus diversos usos.

Reflexões sobre a experiência

Os povos e as comunidades tradicionais do Cerrado foram denominados povos cerratenses pelo historiador Paulo Bertrand, como explica Mejia12, com o objetivo de enfatizar a experiência histórica dos povos que vivem no Cerrado, marcada por sentimentos de pertencimento em relação ao bioma. Assim, raizeiras e raizeiros do Cerrado vivem nesse bioma há mais de 12 mil anos, optando sempre pela convivência sustentável e pela promoção de transformações vivas do bioma12. Atualmente, os povos cerratenses contam com mais de 80 etnias indígenas, além de quilombolas, trabalhadoras e trabalhadores extrativistas, geraizeiras/os, vazanteiras/os, quebradeiras de coco, ribeirinhas/os, pescadoras/es artesanais, barranqueiras/os, fundo e fecho de pasto, sertanejas/os, ciganas/os, entre tantos outros1. Em sua totalidade, são guardiãs e guardiões de conhecimentos ancestrais sobre o bioma, promovendo um manejo sustentável.

Na contemporaneidade, o Cerrado tem perdido cada vez mais espaço para as cidades e atividades produtivas do agronegócio. O modelo de desenvolvimento que prevalece no bioma condena não apenas suas plantas, seus animais e suas águas, mas também promove o epistemicídio e a descontinuidade da vida de povos e comunidades tradicionais. A destruição de um bioma significa a morte dos modos de conhecimento que emergem a partir da interação com ele. De acordo com Carneiro13, o epistemicídio acontece quando, para além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados, ocorre um processo persistente de produção da indigência cultural, que fere de morte a racionalidade do subjugado ou a sequestra, mutila a capacidade de aprender. É uma forma de sequestro da razão em duplo sentido: pela negação da racionalidade do outro ou pela assimilação cultural que, em outros casos, lhe é imposta. Amplia-se aqui a discussão com a inclusão da dimensão dos territórios tradicionais, como o Cerrado, que, quando destruídos, levam consigo múltiplas dimensões de conhecimento. Os modos de vida dos povos cerratenses, marcados principalmente pelo extrativismo, pela produção de artesanato e de remédios caseiros, bem como pela agricultura familiar, são imprescindíveis para a conservação do bioma. Durante a atividade, as raizeiras e o raizeiro do Cerrado ensinaram que o contato com o bioma deve ser realizado de modo a assegurar a manutenção de sua biodiversidade.

As raizeiras e os raizeiros do Cerrado vivem em interação com o território, evitando transformações substantivas no meio ambiente, pois possuem um estreito vínculo de subsistência, construído ao longo de centenas de anos. De acordo com Guimarães et al.14(148), as raizeiras e os raizeiros do Cerrado:

[...] são figuras centrais no cuidado com a vida plena das pessoas e ao mesmo tempo cuidam do bioma Cerrado, de onde retiram remédios e alimentos para o cuidado com a vida. São herdeiras de conhecimentos ancestrais [...], dinamizando uma ‘tradição viva’, que se corporifica na terapeuta por onde fluem saberes ancestrais. Fazem parte da classe popular, trabalhadora, de áreas rurais ou peri-urbanas da região [do Cerrado].

A atividade realizada na UnB foi bastante relevante para a formação da comunidade universitária envolvida, pois, enquanto moradores do Cerrado, essa experiência promoveu, para muitos, a descoberta do próprio território. A construção de Brasília, na segunda metade da década de 1950, foi marcada pela migração de populações de outras regiões e pela acelerada construção de ambientes urbanos. O desmatamento inerente a esse processo contribuiu para a falta de vínculos de muitos habitantes do Distrito Federal e entorno com o bioma. Após mais de seis décadas, essa história ainda dificulta a luta pela conservação socioambiental, por vezes marcada por discursos que retratam o bioma como inimigo do desenvolvimento econômico, legitimando a exploração do território pelo agronegócio.

A atividade proposta, além de contribuir para a criação de vínculos entre os participantes e o Cerrado, ajudou a ampliar a compreensão do impacto socioeconômico e na saúde decorrente da conservação desse bioma. Vários raizeiros utilizam os produtos da medicina tradicional como fonte de renda primária. Considerando seus modos de vida, a ameaça ao bioma é, igualmente, uma ameaça à saúde, não só pelo impacto na produção de garrafadas, banhos, chás e demais remédios naturais, mas também na soberania alimentar. Ao destruir o Cerrado e seus frutos para fins de ampliação do agronegócio, a alimentação se torna cada vez menos variada, por vezes cedendo lugar a produtos industrializados e embutidos, inclusive por questões socioeconômicas.

As raizeiras e o raizeiro presentes na atividade relataram perceber os impactos negativos causados pelas mudanças alimentares, com crescente contato com substâncias químicas e industrializados, os quais relacionam, em sua percepção, a diversos problemas de saúde. O diálogo com raizeiras e raizeiros permite compreender como a conservação ambiental está diretamente ligada à manutenção da saúde, o que torna esses conhecimentos essenciais para políticas e práticas de saúde mais inclusivas.

As raizeiras e o raizeiro relataram que não são apenas os povos e comunidades tradicionais e originárias que sofrerão as consequências da devastação do Cerrado em suas vidas e saúde. A morte do Cerrado significa amplificar a crise climática, dado que esse bioma é o berço das águas, nascentes de grandes bacias hidrográficas. O fim do Cerrado é o fim de onde se iniciam os grandes rios do Brasil. As consequências dessa destruição se refletirão em todo o sistema ambiental, alcançando outros biomas. Os problemas ambientais são, simultaneamente, problemas de saúde, uma vez que os seres humanos e as sociedades são afetados em várias dimensões15.

A atividade contribuiu para que os participantes refletissem não apenas sobre a importância do bioma Cerrado, mas também sobre como áreas verdes urbanas se conectam ao bioma, devendo-se priorizar uma interação sustentável. Ao visitar a Esplanada dos Ministérios em Brasília, Tantinha, raizeira da área metropolitana de Belo Horizonte16, relatou estranhamento ao ter visto somente gramado e nenhuma árvore do Cerrado. Para ela, é importante ter árvores e gramíneas do bioma para mostrar a importância do Cerrado. Nesse sentido, há um movimento de raizeiras e raizeiros do Cerrado, conjuntamente com demais povos e comunidades tradicionais do Cerrado, de incluir o bioma no § 4º do art. 225 da Constituição Federal, o qual prevê proteção especial a algumas regiões e alguns biomas do País, como o Pantanal mato-grossense, a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Serra do Mar e a Zona Costeira17. Esses são definidos como patrimônio nacional, e sua utilização depende de condições especiais de exploração. A luta dos povos cerratenses é por ter o bioma Cerrado incluído nesse dispositivo constitucional.

A atividade abordou não apenas a conservação ambiental, mas também pensou em um projeto de valorização da flora cerratense. Entende-se que as guardiãs e os guardiões desse ofício tradicional são também guardiãs/ões de suas sementes, os quais se envolvem em áreas de reflorestamento e criam viveiros onde produzem mudas. Conforme mencionado, durante a oficina, as raizeiras quilombolas ensinaram sobre as técnicas de coleta e plantio, sementes e uma técnica denominada muvuca.

A medicina tradicional apresentada na oficina desempenha um papel fundamental na área da saúde, ainda que, muitas vezes, não receba o devido reconhecimento. Com a colonização, a medicina tradicional, assim como outras práticas culturais, foi marginalizada e, em muitos contextos, acabou se perdendo ao longo do tempo. A chegada dos colonizadores trouxe consigo um projeto de epistemicídio, no qual apenas a cultura ocidental era considerada um modelo de ‘civilização’. Esse processo afetou tanto a forma de viver, produzir e criar tecnologias quanto seus sistemas de cura. A medicina ocidental foi imposta como a única válida pela sua suposta cientificidade, enquanto os saberes tradicionais foram perseguidos, associados à bruxaria e ao feitiço. Muitas/os anciãs/ãos, guardiãs/ões desses conhecimentos, foram silenciadas/os, interrompendo a transmissão oral de práticas ancestrais essenciais à restauração do corpo.

Apesar disso, a medicina tradicional permanece fundamental para diversas comunidades. Para além do cuidado com a saúde, ela também representa uma forma de sustento, por meio da produção e comercialização de garrafadas, chás, óleos e comprimidos naturais. Em regiões marcadas pela pobreza e pela falta de acesso aos serviços de saúde, esses saberes se mantêm vivos como alternativa acessível e eficaz de cuidado e sobrevivência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a medicina tradicional como prática de saúde desde 197018. Entretanto, o reconhecimento formal não impede a persistência do apagamento desses saberes por parte da indústria farmacêutica, guiada por interesses políticos e econômicos. Em decorrência disso, muitas pessoas acabam sem acesso aos benefícios que poderiam ser proporcionados pela integração entre a medicina tradicional e a ocidental. A invisibilização desses saberes reforça a percepção de que são inferiores, quando, na realidade, possuem um vasto potencial terapêutico. Embora ervas como o boldo, a arruda e o barbatimão sejam, por vezes, conhecidas de forma superficial, a maior parte da população desconhece a diversidade e a eficácia de outras plantas medicinais. Durante a oficina com as raizeiras e o raizeiro, as/os participantes puderam ter um conhecimento mais amplo e aprofundado das plantas em sua totalidade, entendendo os benefícios e, inclusive, os riscos de uso indiscriminado e sem orientação de uma raizeira sobre algumas delas.

Pensadoras/es decoloniais vêm discutindo, de forma contundente, a necessidade de descolonizar o pensamento hegemônico e criticando fortemente a colonialidade do saber, que segue se perpetuando. Para Quijano19, o termo ‘colonialismo’ evoca a ideia de um processo contínuo, algo que não terminou e que não tem previsão de término, manifestando-se como uma colonialidade que ainda persiste. Nesse sentido, Guimarães et al.20(4) afirmam:

O saber colonial se assenta na hegemonia de um conhecimento específico - o saber científico eurocêntrico - que estabelece como critério central a distinção universal entre o verdadeiro e o falso.

Todos os saberes que envolvem o uso das ervas são pensados para o cuidado de pessoas, mas, para além disso, também se voltam para a resistência e o fortalecimento desses corpos que sofrem cotidianamente com o sistema de opressão. Segundo Santos et al.21(19111), “a medicina tradicional quilombola [...] é muito mais que técnica: é gesto, é presença, é espiritualidade enraizada no território”.

Para as raizeiras e os raizeiros do Cerrado, como foi relatado nas oficinas, é necessário entender os limites das plantas medicinais, extraindo-as de forma consciente, ‘para que se deixe apenas pegadas pela mata’ e se conserve o meio ambiente, permitindo, assim, que o Cerrado renove suas propriedades medicinais, estabelecendo-se uma relação de troca. O contato com a terra e as plantas medicinais fortalece também o interior de quem pratica esse cuidado, que vai desde cuidado com a mata e a terra até o cuidado com pessoas que estão necessitando da propriedade de alguma erva medicinal21. Esse fortalecimento interior estabelece uma conexão com o meio ambiente, que também molda a identidade dessas pessoas, porque, para elas, cuidar da terra e das plantas é essencial, uma vez que o território é de extrema importância para sua essência e construção como seres humanos.

Quando esse território, carregado de história e ancestralidade, é afetado de alguma forma, essas/es e guardiãs também são afetadas/os. As raizeiras e os raizeiros desse bioma têm o território tradicional do Cerrado como elemento central para a construção da identidade desses coletivos, pois a referência ao lugar de origem ou de pertencimento tem grande importância; está na raiz da formulação coletiva de grande parte das identidades22.

Por meio das oficinas, as/os participantes tomaram conhecimento de que a espiritualidade está conectada diretamente às práticas de cura. Para as raizeiras e os raizeiros, é necessário ter fé de que a planta medicinal utilizada no tratamento de cada pessoa, levando em consideração as necessidades de cada um, irá curá-la. Além disso, é importante também citar as práticas de benzimento com ervas medicinais, como a arruda, utilizando ervas, água benta e a fé na cura. Essa prática cria uma conexão entre o espiritual, o mental e o físico, assim como os banhos de descarrego com folhas e raízes, que também são utilizados para curar e purificar o interior. Ao trazer essa limpeza espiritual, o corpo também é revitalizado. Vale ressaltar que a fé nessas práticas não está ligada a uma religião específica, uma vez que é utilizada por religiosos de diferentes tradições, como católicos, umbandistas, candomblecistas e kardecistas. A prática de benzimento é vista como uma espécie de dom, que é passado de geração em geração, mantendo também esse vínculo com a ancestralidade e a espiritualidade.

No PET-Saúde Equidade, estudantes e profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) interagem de forma horizontal, o que propicia um rico aprendizado em suas formações. Não obstante, para uma formação crítica humanizada desses profissionais e futuros profissionais da saúde, também se faz necessário romper a bolha dos saberes acadêmicos e olhar para os saberes populares e tradicionais de forma integral, que inevitavelmente influenciam as práticas de cuidado à saúde dessas populações.

Na atividade realizada, estabeleceu-se o contato entre três esferas: universidade, saberes tradicionais e APS. As troca de saberes propiciam um amplo conhecimento para a totalidade das partes, principalmente para os profissionais, preceptores do PET-Saúde que estiveram presentes na atividade, bem como para os futuros profissionais da saúde que, a partir desses conhecimentos, poderão fornecer atendimentos mais inclusivos, humanizados e adaptados às realidades socioculturais das populações atendidas, principalmente as comunidades que utilizam a medicina tradicional, reconhecendo e valorizando esses saberes e a importância da conservação da biodiversidade do Cerrado para esses povos.

Considerações finais

Ao incluir práticas como as deste relato no contexto universitário, fortalece-se a necessidade de considerar o meio em que o indivíduo está inserido - no caso, o Cerrado - na compreensão das práticas de saúde. Nesse contexto, para além de pensar em como as/os profissionais podem ajudar comunidades tradicionais na garantia de uma saúde de qualidade, a atividade também levanta o potencial de contribuição da medicina tradicional para as atividades dos profissionais da saúde e de outras áreas de conhecimento. Nesse sentido, criar um projeto de restauração e recuperação de áreas verdes no campus da UnB é um elemento importante, tanto na criação dessa rede de cuidado com o bioma quanto como prática pedagógica para a comunidade universitária. O ponto central foi, portanto, fomentar o debate sobre a potencialidade do bioma, que é usado pelos povos e comunidades tradicionais como fonte de cura e alimento.

Como público-alvo que foi tocado por essa ação, há em especial a comunidade universitária que foi envolvida com epistemologias preciosas que visam à conservação do Cerrado, assim como as raizeiras e o raizeiro que tiveram espaço de diálogo e divulgação da importância do seu ofício. As raizeiras e o raizeiro, ao ministrarem as oficinas e rodas de conversa, enfatizavam a todo momento a atenção cuidadosa das pessoas que ali estavam, que não se distraíam com o celular, mantinham silêncio, dialogavam sobre o tema e participavam ativamente das atividades. Fez-se, assim, uma atividade com abordagem de comunicação dialógica entre as partes, rompendo com a ideia de assistencialismo muitas vezes aplicada a projetos que se deparam com comunidades tradicionais.

A atividade demonstrou um enorme potencial pedagógico imersivo, com ações que estimularam todos os sentidos. O processo de aprendizagem se fez presente na escuta das histórias e receitas, no cheiro da arnica e da amesca, no contato das mãos com a terra ao plantar mudas de cajuzinho-do-cerrado, no sabor da semente de baru e no olhar atento dos participantes.

Práticas como essas se fazem cada vez mais necessárias nas instituições educacionais, garantindo uma experiência de aprendizagem baseada na multidimensionalidade e inteireza, como essa pedagogia das raizeiras e do raizeiro, pouco comum nos processos pedagógicos institucionais. Cabe destacar que, apesar do sucesso da atividade, iniciativas como essa ainda são pouco implementadas na universidade, o que levanta questões sobre a importância de ampliá-las ou institucionalizá-las.

Pensar na saúde para além do olhar colonizado é um desafio a ser enfrentado pela área da saúde, exigindo uma reflexão sobre a própria construção do saber científico da área. A sociedade consolidou a ideia de que os saberes tradicionais são apenas práticas ‘alternativas’ e constantemente situadas no âmbito periférico ou sendo excluídas. No entanto, esses conhecimentos ancestrais foram refinados ao longo de gerações com base em experiências concretas e transmissão cuidadosa do conhecimento, sendo que boa parte possui respaldo científico, tornando essencial a valorização, a divulgação de sua eficiência e a integração à medicina moderna de forma respeitosa.

  • Suporte financeiro:
    Secretaria de Meio Ambiente (SeMA) e Decanato de Pesquisa e Inovação (DPI) da Universidade de Brasília (UnB) (Edital SeMA/DPI nº 01/2024); Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) - Edital 009/2023; Ministério da Saúde - Edital SGTES/MS nº 11/2023

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

Referências

  • 1 Rede Cerrado. Dia Mundial do Meio Ambiente: a importância do Cerrado para a biodiversidade [Internet]. Brasília, DF: Rede Cerrado; 2020 [acesso em 2025 jan 27]. Disponível em: https://redecerrado.org.br/dia-mundial-do-meio-ambiente-a-importancia-do-cerrado-para-a-biodiversidade/
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Maio 2025
  • Aceito
    22 Jan 2026
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