Open-access Fatores de risco psicossociais na categoria de enfermagem de um hospital privado

RESUMO

Os fatores psicossociais no trabalho se destacam entre os principais produtores de estresse e adoecimento psíquico de trabalhadores, em especial no ambiente hospitalar. Esta pesquisa teve por obje-tivo identificar e analisar os fatores psicossociais de trabalho da enfermagem em importante instituição hospitalar privada no município de Campinas (SP). Este estudo descritivo e analítico de corte transversal utilizou o instrumento Copenhagen Psychosocial Questionnaire III, na versão longa recém adaptada no Brasil, coletando em campo uma amostra de 416 (94,5%) profissionais da categoria de enfermagem. Entre as dimensões de maior risco se destacaram demandas quantitativas, cognitivas, emocionais, conflitos na função, insegurança no trabalho, falta de previsibilidade, baixa qualidade das lideranças e conflito entre vida profissional e privada. Essas dimensões psicossociais tiveram como desfecho problemas de sono, estresse e sintomas depressivos. Houve associação entre cargo e área e as demandas quantitativas, cog-nitivas e emocionais, com nível de significância de 0,05. As elevadas demandas quantitativas, cognitivas e emocionais, insegurança no trabalho e os conflitos na função tiveram impacto significativo na saúde da equipe de enfermagem hospitalar. Os resultados apontam ações prioritárias da instituição sobre os Fatores Psicossociais no Trabalho percebidos pela categoria de enfermagem e que desencadeiam estresse e vulnerabilidades laborais específicas.

PALAVRAS-CHAVE
Enfermagem; Inquéritos e questionários; Saúde do trabalhador; Fatores de risco; Saúde mental.

RESUMEN

Los factores psicosociales en el trabajo son importantes contribuyentes al estrés y enfermedad mental entre los trabajadores, particularmente en entornos hospitalarios. Este estudio tuvo como objetivo identificar y analizar los factores psicosociales laborales entre los profesionales de enfermería en un gran hospital privado en Campinas, São Paulo, Brasil. Se adoptó un diseño descriptivo, analítico y transversal, utilizando la versión larga del Cuestionario Psicosocial de Copenhague III, recientemente adaptado para su uso en Brasil. Se recopilaron datos de 416 profesionales de enfermería, que representan el 94,5% de la fuerza laboral elegible. Las dimensiones de mayor riesgo identificadas fueron demandas cuantitativas, cognitivas y emocionales; conflictos de roles; inseguridad laboral; falta de previsibilidad; mala calidad de liderazgo; y conflicto trabajo-vida. Estos factores psicosociales se asociaron con trastornos del sueño, estrés y síntomas depresivos. Se observaron asociaciones estadísticamente significativas (p ≤ 0,05) entre el trabajo y el sector laboral y los niveles de demandas cuantitativas, cognitivas y emocionales. Las altas demandas, la inseguridad laboral y los conflictos de roles tuvieron un impacto negativo sustancial en la salud del personal de enfermería del hospital. Los hallazgos resaltan la necesidad de acciones institu-cionales prioritarias que aborden los factores psicosociales laborales que generan estrés y aumentan la vulnerabilidad laboral entre los profesionales de enfermería.

PALABRAS CLAVE
Enfermería; Encuestas y cuestionarios; Salud laboral; Factores de riesgo; Salud mental.

ABSTRACT

Psychosocial factors at work are major contributors to stress and mental illness among workers, particularly in hospital settings. This study aimed to identify and analyze psychosocial work factors among nursing professionals at a large private hospital in Campinas, São Paulo, Brazil. A descriptive, analytical, cross-sectional design was adopted, using the long version of the Copenhagen Psychosocial Questionnaire III, recently adapted for use in Brazil. Data were collected from 416 nursing professionals, representing 94.5% of the eligible workforce. The highest-risk dimensions identified were quantitative, cognitive, and emotional demands; role conflicts; job insecurity; lack of predictability; poor leadership quality; and work-life conflict. These psychosocial factors were associated with sleep disorders, stress, and depressive symptoms. Statistically significant associations (p 0.05) were observed between job and work sector and the levels of quantitative, cognitive, and emotional demands. High demands, job insecurity, and role conflicts had a substantial negative impact on the health of hospital nursing staff. The findings highlight the need for institutional priority actions addressing psychosocial work factors that generate stress and increase occupational vulnerability among nursing professionals.

KEYWORDS
Nursing; Surveys and questionnaires; Occupational health; Risk factors; Mental health.

Introdução

O trabalho no contexto neoliberal se caracteriza pelo avanço da precarização, maximização de lucros e redução dos custos com a força de trabalho, causando prejuízos à saúde e à vida dos trabalhadores, bem como ao desempenho laboral e à empregabilidade1,2. Os Fatores de Risco Psicossociais do Trabalho (FRPT) foram apontados pelas agências internacionais como os principais desencadeantes de estresse e risco de adoecimento dessas pessoas3. Elevadas demandas, falta de autonomia e de controle sobre o trabalho, falta de apoio de colegas e chefia, comunicação deficiente, relacionamentos interpessoais ruins e comportamentos ofensivos são alguns dos FRPT4.

Embora amplamente utilizado por agências internacionais, o conceito de fatores de risco psicossociais não é consensual no campo da saúde do trabalhador. A crítica sobre ‘fator de risco’, quando aplicada aos processos psicossociais do trabalho, tende a fragmentar e simplificar fenômenos complexos, históricos e socialmente determinados, tratando-os de forma análoga a agentes físicos ou químicos mensuráveis como FRPT5. Nesta perspectiva, autores destacam que os fatores psicossociais devem ser compreendidos como expressões das formas de organização, gestão e relações de poder no trabalho, exigindo uma leitura contextualizada, histórica e não reducionista de sua aplicação na análise do adoecimento mental relacionado ao trabalho6,7.

Para identificar esses fatores, foram desenvolvidos diversos modelos teóricos no contexto organizacional, além de instrumentos na forma de questionários de autorrelato baseados na percepção dos trabalhadores, e que identificam diferentes dimensões psicossociais no trabalho com potencial de desencadear estresse e adoecimento, manifestados por sintomas psicossomáticos, transtornos mentais e comportamentais, e distúrbios osteomusculares8,9.

O setor de saúde, cuja natureza é a prestação de serviços de cuidado e assistência à população, contraditoriamente cuida pouco dos próprios profissionais de saúde, submetendo-os a ritmos de trabalho intensos, com elevadas demandas (cognitivas, emocionais e físicas)9-12. Os hospitais empregam um número elevadíssimo de profissionais de enfermagem, em condições de trabalho precárias e uma inadequada gestão dos FRPT, o que acaba por neles desencadear estresse, sofrimento físico e emocional, além de adoecimento. Ademais, um profissional de enfermagem adoecido também pode comprometer a qualidade da assistência prestada aos pacientes9-11.

A categoria de enfermagem nos ambientes hospitalares é predominantemente feminina e atua em turnos, com parte das profissionais exercendo dupla jornada devido aos baixos salários10,12. A elevada carga de trabalho, a assistência ininterrupta e a extensão das jornadas nos turnos desencadeiam fadiga física e mental, recorrentes no trabalho dessa categoria profissional13. Estudos de revisões sistemáticas apontam os fatores psicossociais e organizacionais como os principais causadores de transtornos de ansiedade, depressão, estresse, síndrome de burnout e sintomas psicossomáticos vivenciados pelos profissionais de enfermagem9-11.

Entre os diversos instrumentos disponíveis para a avaliação dos FRPT em organizações, o Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ) se destaca pela sua abrangência e robustez14. Sua capacidade de mensurar múltiplas dimensões do ambiente psicossocial laboral o torna um referencial essencial para a compreensão das complexas interações entre as condições de trabalho e a saúde dos trabalhadores. Neste contexto, este estudo10 assume um caráter inovador ao utilizar a versão longa do COPSOQ III, recém adaptada para o português brasileiro, e utilizada de maneira inédita para a avaliação dos fatores psicossociais no trabalho da enfermagem de uma instituição hospitalar privada.

Devido à crescente relevância dos riscos psicossociais no ambiente hospitalar e seus impactos na qualidade de vida e na segurança dos profissionais de saúde, a utilização do COPSOQ III se configura como uma estratégia essencial para o diagnóstico precoce e a formulação de políticas organizacionais voltadas à promoção da saúde mental e à prevenção de agravos relacionados ao trabalho9,10.

No Brasil, as versões curta e média do COPSOQ II e longa do COPSOQ III têm sido aplicadas em profissionais de saúde e contextos hospitalares para o diagnóstico coletivo de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Algumas referências recentes demonstram: (a) a consolidação do COPSOQ III como instrumento internacional para avaliação psicossocial; e (b) aplicações em trabalhadores da saúde em hospitais, incluindo estudo em hospital de ensino no Brasil9-12.

Assim, este estudo10 contribui para a avaliação desses fatores produtores de estresse e com potencial de adoecimento na categoria da enfermagem hospitalar, e cujos resultados possibilitam ações de prevenção, também fortalecendo a aplicabilidade do COPSOQ III na identificação e gestão de riscos psicossociais no Brasil.

Material e métodos

Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo e analítico, com delineamento transversal. A pesquisa10 foi realizada no município de Campinas (SP), com uma amostra de profissionais de saúde da categoria de enfermagem de um hospital geral de médio porte, que trabalhavam predominantemente em atividades assistenciais nas alas de internação, ambulatórios, bloco cirúrgico, materno-infantil, pronto-socorro e Unidades de Terapia Intensiva (UTI) adultas. Outra parte da amostra atuava em áreas administrativas10.

Trabalhavam na instituição pesquisada 440 profissionais, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. Os critérios de inclusão para participação no estudo foram: ser profissional de enfermagem ativo, estar contratado há pelo menos 12 meses e ter assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Todos os participantes elegíveis foram convidados a participar da pesquisa. Dentre eles, 24 foram excluídos da pesquisa devido ao preenchimento incompleto dos instrumentos, resultando em uma amostra final de conveniência com 416 participantes, totalizando 95% dos elegíveis.

O trabalho de campo foi realizado nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2019, no local e no horário de trabalho dos participantes10. Em cada local, a pesquisadora apresentava o escopo do estudo e o TCLE e, mediante a assinatura do documento, entregava o material da pesquisa em envelope opaco para cada participante, com instrução para devolução, após preenchimento, em uma urna colocada no devido setor.

Os instrumentos de pesquisa incluíam dois questionários10: 1) biopsicossocial e ocupacional, com questões fechadas (sexo, idade, categoria profissional, local de trabalho, jornada e turno de trabalho, cargo e área de atuação); e 2) instrumento denominado COPSOQ III, em sua última versão, recentemente validada para o português brasileiro, com boas propriedades psicométricas, contendo 8 domínios, 41 dimensões e 126 itens, e que obteve boas propriedades psicométricas10,13. Os dados coletados foram digitados pela pesquisadora em uma planilha do programa Excel do Microsoft Office® 2010, sendo tabulados e conferidos, com dupla checagem, a fim de corrigir possíveis erros de lançamento de informações. Este estudo foi reportado segundo o guideline Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (Strobe).

As dimensões do COPSOQ III foram avaliadas e escalonadas para o intervalo 0-100, ou seja, cada dimensão foi pontuada de acordo com o seu significado10,14. Quanto mais próxima do zero a dimensão avaliada, maior o risco de desencadear estresse e adoecimento. Após a padronização das dimensões, os escores respectivos foram divididos em tercis (0,33; 0,66; e 0,99), e as variáveis foram categorizadas como baixo (primeiro tercil), médio (segundo tercil) e alto (terceiro tercil), respectivamente. O resultado pode ser visualizado graficamente e, neste estudo, indicamos as cores branca para baixo risco, cinza para risco intermediário e preta para risco elevado para a saúde dos trabalhadores. Especificamente, as demandas quantitativas, cognitivas e emocionais foram analisadas em conjunto com as variáveis sociodemográficas e ocupacionais.

Para a investigação da associação entre variáveis sociodemográficas e ocupacionais e as dimensões no trabalho, como Demandas Quantitativas (DQ), Demandas Cognitivas (DC) e Demandas Emocionais (DE) do COPSOQ III14, a análise foi realizada por meio de modelo de regressão generalizada para resposta multinomial (baixo, médio e alto risco), considerando efeitos de sexo, idade, cargo e área10. Foram avaliadas interações entre os efeitos, porém nenhuma se mostrou significativa. O nível de significância estatística considerado foi de 0,05. Para o ajuste dos modelos, foi utilizado o software estatístico JMP Pro 17.

A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual de Campinas, com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 02237818.0.0000.5404 e Parecer nº 3.056.049, anexado à submissão do artigo, cumprindo os princípios éticos do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

A maioria dos participantes era composta por mulheres (77,6%), com idades entre 35 e 44 anos (45%), e que exerciam a função de técnicos de enfermagem (67%). Os profissionais atuavam predominantemente em atividades assistenciais (92%), com jornadas de trabalho de 36 horas semanais (78,7%), no regime 12x36, distribuídas principalmente entre os turnos noturno (31,6%) e matutino (30%). Os profissionais que desempenhavam atividades administrativas (7,7%) cumpriam jornadas de 44 horas semanais10.

O gráfico 1 descreve, em formato numérico e visual, o resultado obtido: a cor branca indica baixo risco, a cor cinza indica risco intermediário e a cor preta indica risco elevado para a saúde.

Gráfico 1
Representação gráfica dos fatores de risco e protetivos do COPSOQ III de um hospital de médio porte. Campinas (SP), 2021

Entre as dimensões de maior risco se destacaram as demandas quantitativas, cognitivas e emocionais; os conflitos na função; a insegurança no trabalho; a falta de previsibilidade; a baixa qualidade das lideranças; e o conflito entre vida profissional e privada, percebidos por mais de um terço dos participantes. Além dessas, a falta de reconhecimento, de apoio e de confiança nas lideranças, além da injustiça social, também pode ter contribuído para a insatisfação no trabalho10.

Como consequência, cerca de um terço dos participantes10 avaliaram negativamente a própria saúde e relataram problemas de sono, estresse (somático e cognitivo) e sintomas depressivos. Por outro lado, a maioria dos respondentes se sentia engajada no trabalho, acreditando que o trabalho tinha significado e proporcionava um senso de comunidade. Entretanto, como as demandas de trabalho eram elevadas, os profissionais não conseguiam apoiar uns aos outros para darem conta das tarefas dentro desse contexto organizacional.

Especificamente, como as demandas foram consideradas muito críticas, essas foram analisadas junto com as variáveis sociodemográficas e ocupacionais10. Os resultados da regressão logística estão descritos na tabela 1. Verificou-se que as DQ, DC e DE, em relação às variáveis sexo e idade, não apresentaram diferenças estatisticamente significativas na distribuição de risco. Contudo, as variáveis cargo e área de atuação apresentaram diferenças estatísticas em todas as demandas do COPSOQ III.

Tabela 1
Efeitos do modelo de regressão generalizada das variáveis sociodemográficas e ocupacionais

Por outro lado, as DC dos enfermeiros eram mais exigentes e se concentraram nos níveis médio e alto, quando comparadas com as dos técnicos de enfermagem. Em relação ao setor, observou-se menor exigência cognitiva nos ambulatórios e maior exigência no setor de bloco cirúrgico (tabela 2).

Tabela 2
Variáveis ocupacionais e a proporção da distribuição de riscos para Demandas Cognitivas

Por fim, as DE também eram mais elevadas (médio e alto) no cargo de enfermeiro, em comparação ao cargo de técnico de enfermagem. Já na área de atuação, mais de 50% dos profissionais do setor materno-infantil relataram exigências emocionais elevadas (tabela 3).

Tabela 3
Variáveis ocupacionais e a proporção da distribuição de riscos para Demandas Emocionais

Discussão

Além de ter que lidar cotidianamente com o sofrimento, a dor e a morte, os profissionais de enfermagem realizam suas atividades laborais em um ambiente complexo, com a presença simultânea de situações que envolvem ações diretas de cuidado com pessoas vulneráveis, em um contexto de falta de recursos humanos, intensificação das demandas de trabalho, extensão das jornadas, com trabalho em turnos e dupla jornada para complementar os baixos salários da categoria. Além disso, as atividades desses profissionais requerem elevado nível de responsabilidade, enfrentamento constante de eventos imprevisíveis e a possibilidade de ocorrência de erros, com consequências para a qualidade da assistência e do cuidado aos pacientes9-11.

No perfil dos participantes10, foi verificada a predominância do gênero feminino (77,6%), faixa etária entre 35 e 44 anos, e de técnicos de enfermagem (67%). Para reduzir custos, o setor privado absorve 72% de auxiliares e técnicos de enfermagem. O Conselho de Enfermagem (Cofen) recomenda, nas equipes, a proporção de 33% a 42% de enfermeiros, com os demais profissionais sendo auxiliares e/ou técnicos de enfermagem, de acordo com o nível de cuidado14.

A maioria dos fatores de risco psicossociais descritos no gráfico 1 foi apontada como crítica por cerca de um terço dos participantes, contribuindo para o aumento do estresse cognitivo e somático, assim como dos sintomas depressivos e problemas de sono relatados. A instituição hospitalar analisada não possui uma política de promoção da saúde mental e/ou prevenção do adoecimento psíquico para os seus profissionais de saúde. Tal lacuna revela não apenas uma fragilidade assistencial, mas sobretudo uma insuficiência na gestão dos riscos psicossociais e organizacionais do trabalho.

As diretrizes conjuntas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam que a prevenção do estresse, do sofrimento psíquico e do adoecimento mental deve ser tratada como responsabilidade organizacional, priorizando a qualidade das lideranças, além das ações primárias sobre os fatores psicossociais; secundárias sobre as pessoas que precisam de suporte; e terciárias, de reintegração daqueles que se afastaram devido a condições de saúde mental, e de forma integrada15, ou seja, a proteção da saúde mental no trabalho deve ser integrada às políticas institucionais de saúde e segurança, especialmente nos serviços de saúde, caracterizados por elevada complexidade e exposição a riscos psicossociais.

Embora o papel das lideranças e da área de recursos humanos seja relevante na prevenção do estresse e do adoecimento, uma abordagem centrada exclusivamente no treinamento individual pode reforçar uma visão individualizante dos problemas organizacionais. A literatura da saúde do trabalhador e as diretrizes da OIT enfatizam que a prevenção de forma coletiva dos riscos psicossociais exige intervenções estruturais na organização do trabalho, incluindo a gestão das cargas de trabalho, do ritmo, das jornadas, da autonomia e das relações hierárquicas, especialmente nos serviços de saúde9,10.

Conforme demonstrado por Vieira et al.16, os fatores psicossociais no ambiente de trabalho - como demandas excessivas, baixo controle, falta de apoio, conflitos interpessoais e medo da perda do emprego - podem desencadear formas graves de sofrimento psíquico, incluindo o risco de suicídio. Esses elementos são especialmente críticos em profissões que exigem elevadas cargas emocional e física, como a enfermagem hospitalar. A recorrência e a persistência desses fatores ao longo do tempo tornam ainda mais urgente a implementação de medidas preventivas e corretivas no campo da saúde ocupacional, com foco na identificação precoce e na transformação das condições organizacionais que expõem os trabalhadores a riscos extremos.

Embora haja engajamento dos profissionais, as dificuldades de conciliação do conteúdo de trabalho, a baixa influência neste, assim como o baixo controle sobre o tempo em atividade evidenciaram as dificuldades de comunicação e a impossibilidade de realizarem trabalhos bem feitos. O reconhecimento pelo trabalho realizado é um fator de proteção para que o sofrimento laboral não se transforme em adoecimento, assim como a necessidade de ações corretivas com diálogos mais participativos, sob a responsabilidade dos gestores, para promover um sentimento de pertencimento e reconhecimento profissional, além de melhorar a qualidade da assistência aos pacientes15,16.

Fragilidades na organização do trabalho e nas interações entre colegas e gestores podem levar ao surgimento de transtornos mentais, como estresse e depressão. Esses fatores estão relacionados tanto à sobrecarga de trabalho quanto à falta de suporte no ambiente laboral16.

Evidenciou-se insegurança psicológica em relação ao ambiente de trabalho, devido a conflitos oriundos de boatos ou mesmo calúnias e conflitos na função, que afetam as relações profissionais e pessoais. Esse tipo de comportamento ofensivo e repetitivo pode ser caracterizado como assédio moral e vulnerabilizar a saúde psíquica dos profissionais de saúde, manifestando-se como transtornos mentais e comportamentais17.

Além disso, as elevadas demandas de trabalho quantitativas, cognitivas e emocionais relatadas comprometem a saúde física e psíquica desses profissionais. No contexto da enfermagem hospitalar, as demandas de trabalho se referem às exigências impostas aos profissionais durante a execução de suas atividades assistenciais e gerenciais.

As DQ dizem respeito ao volume e ao ritmo de trabalho expressos, por exemplo, na elevada proporção paciente-profissional, no acúmulo de funções, na necessidade de realizar múltiplas tarefas simultaneamente, nas jornadas prolongadas e no trabalho em turnos, aspectos frequentemente relatados por profissionais de enfermagem em hospitais.

As DC envolvem o esforço mental requerido para manter atenção contínua, processar informações complexas, tomar decisões rápidas e gerenciar riscos clínicos, especialmente em ambientes de alta complexidade como as UTI, nas quais falhas podem resultar em eventos adversos graves.

Já as DE estão associadas à necessidade constante de lidar com o sofrimento, a dor, o agravamento clínico e a morte de pacientes, bem como com o sofrimento de familiares, conflitos interpessoais e relações hierárquicas assimétricas no ambiente hospitalar.

Fato é que a exposição persistente a elevadas demandas quantitativas, cognitivas e emocionais estão associadas a maior risco de estresse ocupacional, burnout, sintomas depressivos e comprometimento da saúde mental entre profissionais de enfermagem18-20.

As atividades da enfermagem exigirem um alto grau de atenção e responsabilidade, as condições, o conteúdo e o contexto de trabalho a que esses profissionais estão inseridos os submetem a variadas situações produtoras de danos à saúde. Ressalta-se, portanto que ambientes mais seguros aumentam não apenas a produtividade, mas o bem-estar necessário a esse trabalho21.

A falta de reconhecimento no trabalho, a não participação nas decisões, a imprevisibilidade e a falta de autonomia foram fatores relevantes de risco para a insatisfação e o adoecimento de cerca de um terço dos profissionais. Tais condições relatadas corroboram os achados sobre a percepção de altas demandas de trabalho e as inúmeras pressões ligadas aos ganhos financeiros. Ainda, tais resultados destacam que cuidar de quem cuida da organização traz inúmeros benefícios para todas as partes envolvidas22.

A exposição prolongada a demandas excessivas, baixa autonomia, intensificação do trabalho e as fragilidades na organização do cuidado estão associadas a maiores níveis de estresse, burnout e transtornos mentais comuns, sobretudo em contextos hospitalares. Tais achados reforçam que a persistência dos fatores psicossociais não é um fenômeno individual, mas resultado de condições organizacionais que demandam intervenções estruturais e contínuas23,24.

Considerando os fatores de proteção e dimensões aqui representados, que expressam a situação de risco para um terço dos respondentes dessa instituição de saúde, o problema é agravado pela baixa qualidade das lideranças quanto à subjetividade da equipe sob sua responsabilidade, conforme relatado, além da falta de reconhecimento e de retribuição simbólica do trabalho realizado pelos profissionais de enfermagem.

Os fatores psicossociais e organizacionais, identificados como injustiça, falta de confiança, falta de apoio dos pares e da chefia, além da baixa qualidade das lideranças, contribuem para a insatisfação no trabalho e os sinais de sofrimento dos profissionais de enfermagem da instituição de saúde, e deveriam ser motivo de atenção e preocupação. O impedimento de fazer um trabalho bem-feito, a ausência de participação ou influência nas decisões, bem como a falta de previsibilidade e autonomia, também apareceram como fatores relevantes de risco de adoecimento para cerca de um terço dos profissionais25,26.

O registro negativo acerca da saúde dos profissionais de enfermagem é a percepção de tratamento injusto e a falta de critérios transparentes com os profissionais da equipe por parte das lideranças, o que pode desencadear estresse e adoecimento e comprometer a qualidade da assistência ao paciente27. É importante destacar que o significado atribuído ao trabalho, bem como os elevados níveis de engajamento relatados, configuram-se como fatores protetivos nesta pesquisa, achado que também é corroborado por evidências de outros estudos9,20,22.

A diferença na distribuição de risco entre as áreas de atuação e as DQ evidenciou maior risco para os profissionais da área administrativa (60,6%), assim como para os trabalhadores da UTI adulta (54,7%). Isto denota que a intensificação do trabalho na instituição se estende tanto à parte assistencial quanto à administrativa, agravada pela elevada cobrança por parte da instituição, dos clientes e de outros participantes da equipe multiprofissional. Tais resultados são corroborados por outro estudo, que destaca como preocupante a situação da categoria dos enfermeiros, em relação aos aspectos gerenciais e assistenciais. Em geral, comprova-se uma carga de trabalho maior sobre esta categoria, com dupla jornada e complexidade de tarefas28.

As elevadas demandas de trabalho, associadas à área de atuação administrativa do profissional de enfermagem, além de afastar os profissionais do cuidado e da assistência, os sobrecarregam física e emocionalmente. O presente estudo constatou a existência de elevado desgaste, insegurança e alta desmotivação dos profissionais de enfermagem em atividades ou funções administrativas, e que são serviços com alto impacto no aspecto financeiro de instituições hospitalares29.

Ainda, as altas demandas de trabalho no setor de ambulatório, nesta pesquisa, têm como particularidade o fato de tal setor caracterizar-se como um local no qual, geralmente, se confere poder e autonomia aos profissionais médicos, que frequentemente se relacionam de maneira intimidatória e ostensiva com a equipe de enfermagem, sendo isentos de qualquer tipo de punição, confirmando a hierarquização na área da saúde30,31.

As condições de trabalho que implicam elevadas DC, associadas à pressão na tomada de decisões, afetaram os enfermeiros (46,6%) e os técnicos de enfermagem (17,7%). Esses registros expressam uma organização que impõe elevadas demandas de trabalho, desencadeando o cansaço físico dos profissionais, além do elevado ritmo de trabalho e as cobranças comprometerem os níveis de atenção e foco, agravando a insatisfação com o local de trabalho, onde muito se cobra e há pouco reconhecimento32.

É importante destacar que a categoria da enfermagem não é homogênea. Enfermeiras, em geral, ocupam posições de chefia e gestão, vivenciam condições de trabalho distintas daquelas enfrentadas por técnicas e auxiliares de enfermagem, cujas atividades são essencialmente prescritas e marcadas pela execução do cuidado, falta de autonomia, sofrem com maior controle hierárquico e vínculos mais precarizados. Estas diferenças são atravessadas por marcadores de classe social, raça e gênero, influenciando de maneira desigual a exposição aos riscos psicossociais e os impactos sobre a saúde mental. Assim, as análises sobre a ‘saúde dos profissionais de enfermagem’ devem considerar essas desigualdades internas, evitando generalizações33-35.

Esse processo de hierarquização, associado à elevada sobrecarga mental de trabalho, compromete as atividades desempenhadas pela equipe de enfermagem, sobretudo pelos enfermeiros que atuam nas UTI, uma vez que suas funções laborais exigem a tomada de decisões complexas em um ritmo de trabalho acelerado36,37.

A baixa autonomia, a limitada influência sobre o trabalho e a baixa qualidade das lideranças são fatores psicossociais que restringem a capacidade de decisão dos profissionais de enfermagem, comprometendo tanto sua saúde mental quanto a qualidade da assistência que oferecem. Desta forma, as lideranças devem ser compreendidas não apenas como suporte interpessoal, mas como elemento central na mediação das condições de trabalho, da autonomia profissional e do reconhecimento simbólico38.

Quanto às DE, a elevada prevalência autorrelatada entre enfermeiros (risco médio para 50,4% e alto para 42,5%) e técnicos de enfermagem (risco médio para 48,1% e alto para 26,5%) decorre da intersubjetividade das relações com pacientes, equipe e lideranças, o que vulnerabiliza a saúde dos profissionais participantes. Além disso, a falta de definição do escopo de atuação, a sobrecarga de trabalho, o sentimento de impotência, e a fadiga vulnerabilizam ainda mais a saúde desses profissionais39,40.

Com relação às limitações da pesquisa, o estudo transversal não aborda as questões temporais ao longo do estudo desenvolvido, não sendo possível estabelecer relações de causalidade. Além disto, existem poucos estudos em hospitais privados para comparação com outras pesquisas sobre os fatores psicossociais na enfermagem que também utilizaram as dimensões do COPSOQ no Brasil e em outros países, como demonstrado em tipos de estudos que corroboram a presente pesquisa18.

O fato de a coleta de dados ter ocorrido em período pré-pandemia também pode minimizar o impacto das mudanças globais na pandemia propriamente dita, especialmente na enfermagem, o que também fortalece a importância de novas pesquisas com aplicação do COPSOQ III para avaliar os fatores psicossociais no ambiente hospitalar, incluindo o incremento e o impacto das novas tecnologias na saúde, o movimento de restruturação e fusões de hospitais e a consolidação de grades Hospitais Universitários Brasileiros (HUB) que monopolizam o setor de saúde.

As principais contribuições para a área de enfermagem estão associadas à relevância do tema, ao ineditismo do estudo e à utilização do COPSOQ III na versão brasileira, além do fato de a pesquisa ter sido desenvolvida em uma instituição hospitalar privada, na qual o acesso para pesquisa e a obtenção de autorização são mais difíceis de serem alcançados, na busca por resultados sobre os fatores psicossociais para os profissionais de enfermagem do segmento privado. Em comparação com as versões curta e média, a aplicação da versão longa do COPSOQ III possibilitou um diagnóstico coletivo mais abrangente dos fatores de risco psicossociais da instituição hospitalar analisada.

Conclusões

Este estudo evidenciou os fatores psicossociais no trabalho da enfermagem no ambiente hospitalar e o impacto desses fatores nas saúdes física e mental desta categoria profissional. Entre as dimensões psicossociais de maior risco, se destacaram as demandas quantitativas, cognitivas e emocionais, as adversidades no exercício da função, a insegurança no trabalho, a falta de previsibilidade, a baixa qualidade das lideranças e o conflito entre vida profissional e privada. Tais dimensões tiveram como desfecho problemas de sono, estresse e sintomas depressivos. Houve associação entre cargo e área e as demandas quantitativas, cognitivas e emocionais.

Os resultados apontam para a necessidade de intervenções organizacionais sobre os fatores psicossociais identificados como críticos na percepção dos profissionais de enfermagem, que favoreçam a segurança psicológica, a valorização e o reconhecimento desta classe profissional.

Dessa forma, a preservação da saúde dos profissionais de enfermagem também melhorará a qualidade da assistência prestada aos pacientes, garantindo um serviço de saúde mais eficiente e humanizado.

  • Suporte financeiro:
    não houve

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão disponíveis sob demanda, condição justificada no manuscrito

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Jun 2025
  • Aceito
    27 Dez 2025
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