Open-access Conhecimentos e atitudes de profissionais e gestores de saúde da atenção primária sobre o envelhecimento

Knowledge and attitudes of primary healthcare professionals and managers regarding aging

RESUMO

O objetivo do estudo foi analisar atitudes e conhecimentos de profissionais e gestores de saúde que atuavam na atenção primária sobre o envelhecimento. Realizou-se um estudo quantitativo, de delineamento transversal, com uma amostra de conveniência. Utilizaram-se o Questionário Palmore-Neri-Cachioni de Conhecimentos Básicos sobre a Velhice - Atualizado e Revisado (2022) e a Escala Neri de Atitudes em Relação à Velhice. A coleta de dados ocorreu por meio da aplicação de questionário online, com 115 participantes. Os dados foram tratados por estatística descritiva para as variáveis sociodemo-gráficas e para os escores dos instrumentos aplicados. Realizaram-se testes de comparação de médias e de correlação, adotando-se significância de 5%. A maioria da amostra era composta por profissionais de saúde (66,96%), que apresentaram atitudes positivas (2,81; DP=0,48). A média de acertos do questionário de conhecimentos foi de 63,83% (DP=9,83). O sexo masculino apresentou maior conhecimento (p=0,04). O conhecimento não se relacionou às atitudes. A avaliação de atitudes e conhecimentos frente à pessoa idosa é essencial, pois pode refletir na adequada assistência em saúde a essa população. Os resultados poderão subsidiar intervenções eficazes, visando à promoção de um envelhecimento saudável, desde o processo formativo até a prática assistencial e as políticas públicas de saúde.

PALAVRAS-CHAVE
Idadismo; Longevidade; Pessoa idosa; Pessoal de saúde; Educação.

ABSTRACT

The aim of this study was to analyze the attitudes and knowledge of health professionals and managers working in Primary Care regarding aging. A quantitative cross-sectional study was conducted with a convenience sample. The Palmore-Neri-Cachioni Questionnaire of Basic Knowledge about Old Age - Updated and Revised (2022) and the Neri Scale of Attitudes Toward Old Age were used. Data collection was carried out through the application of an online questionnaire to 115 participants. The data were analyzed using descriptive statistics for sociodemographic variables and for the scores of the applied instruments. Mean comparison and correlation tests were performed, adopting a significance level of 5%. The majority of the sample consisted of health professionals (66.96%), who presented positive attitudes (2.81; SD=0.48). The average score on the knowledge questionnaire was 63.83% (SD=9.83). Males showed greater knowledge (p=0.04). Knowledge was not related to attitudes. Assessing attitudes and knowledge towards older adults is essential, as it can reflect on the appropriate healthcare provided to this population. The results may support effective interventions aimed at promoting healthy aging, from the educational process to healthcare practice and public health policies.

KEYWORDS
Ageism; Longevity; Elderly person; Healthcare personnel; Education.

Introdução

O crescimento da população idosa, que tem ocorrido em quase todo o planeta, pode ser justificado pelo aumento na expectativa de vida e pela redução das taxas de fecundidade e de mortalidade infantil1. As pessoas idosas apresentam características como a presença de Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNT), declínio funcional e cognitivo, redução da independência, necessidade de intervenções em saúde de alta complexidade e polifarmácia, aumentando, assim, a demanda pelos serviços de saúde1,2.

Nesse sentido, para alcançar um envelhecimento saudável, é necessária uma atuação qualificada, articulada e contínua3 dos serviços de saúde, com foco na prevenção, identificação e no monitoramento das CCNT4, bem como ações educativas, de promoção de saúde e de retardamento do surgimento de agravos3. Deve-se estabelecer a Atenção Primária à Saúde (APS) como prioridade5, pois é a ‘porta de entrada’ principal para o sistema de saúde público brasileiro, sendo o cuidado estruturado em uma equipe multiprofissional6 capaz de resolver a maioria das condições clínicas das pessoas idosas3.

Entretanto, o envelhecimento torna-se um desafio quando a sociedade não consegue lidar com seu próprio processo de envelhecer, devido às atitudes negativas existentes em relação a essa fase do ciclo da vida7. Tais atitudes relacionam-se ao idadismo - termo criado pelo gerontólogo Robert Butler -, que se refere a estereótipos (pensamentos), preconceitos (sentimentos) e à discriminação (comportamentos) contra um indivíduo, devido à sua idade. De caráter multidimensional (cognitivo, afetivo e comportamental), pode ocorrer nos níveis micro (pessoal), meso (redes sociais) e macro (cultural/institucional), manifestando-se tanto consciente quanto inconscientemente, e sendo tanto direcionado a outras pessoas quanto a si mesmo8.

Nesse sentido, é frequente a ocorrência de atitudes negativas em relação às pessoas idosas nos diversos setores da sociedade9, inclusive no setor saúde, que foi apontado como o local de maior percepção de atitudes discriminatórias em um estudo com uma amostra representativa de pessoas idosas brasileiras10. Sabe-se que atitudes negativas sobre o envelhecimento interferem na tomada de decisões e na qualidade do atendimento prestado nos diversos serviços de saúde11, afetando negativamente a saúde e o bem-estar das pessoas idosas12, podendo, no nível institucional, traduzir-se em indeferimento de serviços ou procedimentos de saúde e, individualmente, em piora da qualidade de vida e longevidade. Portanto, o idadismo é considerado um determinante social e configura um problema de saúde pública8,13.

Com isso, a literatura científica busca compreender os motivos por trás do idadismo e das atitudes negativas sobre o envelhecimento, sendo o conhecimento acerca do envelhecimento um dos construtos mais amplamente estudados. Em geral, indivíduos que possuem um alto nível de idadismo apresentam baixo conhecimento gerontológico; portanto, a aquisição de novos conhecimentos é essencial para promover atitudes mais positivas14. De acordo com a Teoria Consistência-Atitude-Comportamento, o conhecimento apresenta uma relação causal com a determinação de atitudes sobre o envelhecimento15.

Tratando-se da área da saúde, é imprescindível que os indivíduos envolvidos direta e indiretamente com o cuidado ofertado conheçam as características e capacidades do envelhecimento para que suas atitudes sejam positivas16,17. Sendo assim, os profissionais de saúde devem conhecer as teorias biológicas, psicológicas, sociais e culturais do envelhecimento, enquanto os gestores de saúde devem implementar as políticas de saúde voltadas às pessoas idosas, garantir o acesso adequado a todos os serviços de saúde e promover uma educação permanente para os profissionais de saúde4,18.

Desse modo, a avaliação de conhecimentos e atitudes de profissionais e gestores de saúde no âmbito da APS sobre o envelhecimento é relevante, visto que estes são importantes atores quando se trata de assistência à saúde resolutiva à população idosa. Considerando que grande parte dos estudos sobre conhecimentos e atitudes acerca do envelhecimento é conduzida com profissionais da enfermagem ou estudantes da área da saúde4,15,19-24, e que poucos estudos são conduzidos no contexto da APS25,26 em uma amostra multiprofissional22 - não sendo identificados estudos conduzidos com gestores de saúde -, este estudo objetivou analisar atitudes e conhecimentos de profissionais e gestores de saúde que atuam no âmbito da APS sobre o envelhecimento.

Material e métodos

Trata-se de um estudo quantitativo de delineamento transversal, com amostra não probabilística de conveniência selecionada por acessibilidade, em que o tamanho da amostra não se baseou em cálculo estatístico. A amostra foi composta por profissionais e gestores de saúde que atuavam no âmbito da atenção primária no estado de Minas Gerais. Adotou-se, também, a Técnica Bola de Neve, a fim de aumentar o número de participantes.

Os critérios de inclusão para profissionais de saúde foram: atuar como profissional de saúde de nível superior na atenção primária; e, para gestores: atuar na gestão de saúde na atenção primária atualmente. Não foram adotados critérios de exclusão.

Destaca-se que o estudo foi desenvolvido com os profissionais e gestores de saúde matriculados e egressos do curso de formação do Projeto Rede de Enfrentamento da Obesidade e Doenças Crônicas de Minas Gerais (Renob-MG), da Universidade Federal de Viçosa, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de Alfenas, que se destinava a profissionais com formação em nível superior.

A coleta de dados se deu em setembro de 2022 e foi realizada de forma online, via envio do link do formulário de pesquisa pelo Google Formulários aos profissionais e gestores de saúde matriculados e egressos do curso de formação do Projeto Renob-MG. Contou-se com o apoio das Superintendências Regionais de Saúde do estado e com o Conselho Regional de Nutricionistas da 9ª Região - Minas Gerais, para divulgação da pesquisa.

O formulário eletrônico de pesquisa abrangia as variáveis sociodemográficas, acadêmicas/profissionais, variáveis de interesse relacionadas à pessoa idosa, além dos instrumentos para avaliação de conhecimentos e atitudes sobre o envelhecimento. As variáveis de caracterização da amostra foram coletadas por meio de um questionário semiestruturado elaborado pelas autoras.

A avaliação de conhecimentos foi realizada utilizando o Questionário Palmore-Neri-Cachioni de Conhecimentos Básicos sobre a Velhice - Atualizado e Revisado (2022), de Simião et al.27. Com 25 itens que abarcam quatro aspectos do envelhecimento (físico, cognitivo, psicológico e social), possui respostas do tipo múltipla escolha e um escore total de 30 pontos, devido à presença de itens pertencentes a mais de um domínio. Quanto maior a pontuação, maior o conhecimento, podendo dar-se por média ou porcentagem de acertos.

Para a avaliação das atitudes, empregou-se a Escala Neri de Atitudes em Relação à Velhice, organizada em 30 itens referentes a quatro domínios fatoriais (cognição, agência, relacionamento social, persona). Trata-se de uma escala diferencial semântica (cada item se dá por dois adjetivos antônimos) de cinco pontos, o que permite identificar a direção (positiva e negativa) e a intensidade das repostas. Ressalta-se que alguns itens se apresentam com os adjetivos em posição invertida para evitar avaliações tendenciosas28. Ainda, para evitar possíveis vieses de conhecimento, foi disponibilizada uma lista para treino de vocabulário, com a definição de cada adjetivo da escala, que deveria ser consultado antes de iniciar-se o preenchimento. O escore é dado pela média aritmética, na qual quanto maior a pontuação, mais negativas são as atitudes.

Posteriormente, foi aplicado o Teste de Kolmogorov-Smirnov para determinação da normalidade dos dados. Assim, seguiram-se as análises de comparação de médias das respostas dos instrumentos com as demais variáveis. Utilizaram-se testes paramétricos - t de Student ou Anova, a depender do número de grupos a serem comparados - e o Qui-Quadrado (χ2) de Pearson (variáveis categóricas), ou, ainda, testes não paramétricos, como Mann-Whitney ou Kruskal-Wallis.

A correlação entre as variáveis foi dada pela correlação de Pearson ou Spearman, a depender da normalidade dos dados. Considerou-se efeito pequeno (r≥±0,1), efeito moderado (r≥±0,3) e efeito grande (r≥±0,5)29. Adotou-se o nível de significância de 5% (p<0,05). Utilizou-se o software Statistical Package for the Social Science (SPSS).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG) - Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 43590621.4.2001.5142 e Parecer nº 5.600.376 - e seguiu o que preconizam as Resoluções do Conselho Nacional de Saúde nº 466/201230 e nº 510/201631.

Resultados e discussão

Participaram do estudo 115 indivíduos, sendo a média de idade 38,06 anos (DP=8,01). Sobressaíram o sexo feminino (83,5%), enfermeiros (55,36%), formados há dez anos ou mais (56,25%), pós-graduados (64,3%). Entre os participantes, 63,4% cursaram disciplinas relativas à geriatria/gerontologia na graduação, 77,68% tiveram vivência prática com pessoas idosas na graduação; 91,96% não possuíam pós-graduação na área gerontológica e 68,7% não fizeram nenhum curso relacionado à pessoa idosa ou ao envelhecimento durante a carreira.

Ainda, a maioria possuía experiência profissional anterior (60%) e, quanto à atuação na APS, a maior parte atuava como profissional de saúde (66,96%) em Unidades Básicas de Saúde (UBS) (73,9%). Quanto ao vínculo, 48,7% estavam ligados a equipes de Saúde da Família (eSF) (48,7%) ou a equipes do Núcleo Ampliado de Saúde da Família (Nasf) (24,3%). Quase toda a amostra relatou convivência com pessoas idosas fora do ambiente de trabalho (95,7%) (tabela 1).

Tabela 1
Caracterização da amostra de profissionais e gestores de saúde atuantes na Atenção Primária no estado de Minas Gerais. Alfenas, Minas Gerais, Brasil, 2022

Evidenciou-se que os indivíduos do sexo masculino sobressaíram em relação aos do sexo feminino quanto a terem cursado disciplinas da área gerontológica (p=0,049), embora o valor seja limítrofe, e à vivência prática com pessoas idosas na graduação (p=0,031). Dados não apresentados.

Os achados do presente estudo corroboram pesquisas nacionais quanto ao perfil dos trabalhadores da APS, sugerindo uma feminilização do quadro laboral, composto, em geral, por jovens (entre 30 e 40 anos) e pós-graduados, refletindo a busca por qualificação para o serviço32-34. A maior proporção de enfermeiros justifica-se pela presença de gestores com essa formação acadêmica, visto que há uma prevalência dessa categoria em cargos de gerência na APS34,35 e pelo fato de comporem a equipe mínima das eSF36.

Sobre as variáveis relacionadas à área gerontológica, é comum que pesquisadores encontrem pouco envolvimento dos profissionais participantes em disciplinas ou atividades ligadas à temática37. Vieira et al.26, ao estudarem médicos da APS, identificaram que a maioria não tinha especialização na área, não realizou cursos relativos à temática e não convivia com pessoas idosas antes de atuar na atenção primária. Por outro lado, a maior parte cursou disciplinas relativas ao envelhecimento humano na graduação.

Os participantes apresentaram atitude positiva, com escore médio de 2,81 pontos (DP=0,48). O domínio avaliado mais favoravelmente foi o relacionamento social (2,43; DP=0,60), enquanto o avaliado de forma menos positiva foi o domínio agência (2,98; DP=0,56) (tabela 2).

Tabela 2
Estatística descritiva por domínio da Escala Neri de Atitudes em Relação à Velhice para profissionais e gestores de saúde da APS. Alfenas, Minas Gerais, Brasil, 2022

Ao avaliar os itens individualmente, o item 2 (o idoso é construtivo/destrutivo), pertencente ao domínio relacionamento social, obteve a pontuação mais positiva (1,80; DP=1,00). Por outro lado, o item 26 (o idoso é rápido/lento), do domínio cognição, foi o avaliado de forma menos favorável, obtendo uma pontuação compatível a uma atitude neutra (3,53; DP=0,87).

Quando analisados os escores total e por domínios da escala de atitudes frente às variáveis de interesse, observou-se que apenas no domínio cognição os participantes que relataram conviver com pessoas idosas fora do trabalho apresentaram atitudes mais positivas do que aqueles sem convivência (p=0,016).

Resultados muito semelhantes foram relatados por Neri e Jorge38, que avaliaram estudantes de enfermagem, medicina, fisioterapia, educação física e pedagogia. Naquele estudo, os domínios mais e menos positivamente avaliados foram relacionamento social e agência, respectivamente. Já os itens mais e menos pontuados foram, respectivamente, os conceitos sábio e rápido. Os autores sugerem que a avaliação mais positiva para o domínio relacionamento social reflete experiências afetivas positivas ou que os participantes, visando evitar que suas respostas refletissem atitudes negativas e preconceituosas, podem ter assinalado pontuações mais positivas para itens de caráter afetivo. Ainda, discutem que o domínio agência pode ter sido prejudicado pela influência de saberes técnicos relativos ao processo de envelhecimento e à pessoa idosa, e a uma percepção mais realista decorrente do trabalho/estudo com e sobre a pessoa idosa, justificativa que se estende ao presente estudo.

Em contrapartida, achados de um estudo com médicos da APS divergiram do atual, já que tais profissionais tenderam a atitudes negativas. Naquela pesquisa, o domínio avaliado de forma mais desfavorável foi o relacionamento social, enquanto o mais positivo foi o agência26.

Entretanto, a avaliação positiva das atitudes em relação ao envelhecimento encontrada no presente estudo justifica-se pelas características da amostra, indo ao encontro de alguns fatores de proteção para o idadismo interpessoal, e que se relacionam a atitudes mais positivas, como: ser do sexo feminino, possuir maior conhecimento sobre o envelhecimento e mais contato com pessoas idosas7,39.

Os participantes apresentaram um percentual médio de acertos de 63,83% (DP=9,83), equivalente a 15,96 pontos. O domínio cognitivo obteve maior acerto (75,75%; DP=23,50), enquanto o psicológico obteve o menor percentual de acertos (54,01%; DP=13,24) (tabela 3).

Tabela 3
Estatística descritiva do percentual de acertos por domínio do Questionário Palmore-Neri-Cachioni para Avaliação de Conhecimentos Básicos sobre a Velhice - Atualizado e Revisado (2022) para profissionais e gestores de saúde da APS. Alfenas, Minas Gerais, Brasil, 2022

Ainda, evidenciou-se que nenhum item foi respondido de forma correta por todos os participantes. Entretanto, o item 6 (domínio físico), cuja sentença correta é ‘Considerando as alterações do processo natural do envelhecimento, a força física nas pessoas idosas: tende a declinar’, obteve 98,26% de acertos, correspondendo a 113 participantes. Em contrapartida, dois itens apresentaram a menor porcentagem de acertos: os itens 5 (domínio psicológico) e 10 (psicológico, social, físico), ambos com 13,91%, equivalendo a 16 participantes.

Diferentes resultados foram encontrados quanto ao nível de conhecimento gerontológico, verificando-se pontuações similares ao presente estudo19, bem como escores maiores11 e menores2,15,26,38,40,41. Em geral, os estudos que avaliaram tal construto apresentaram resultados parecidos no que diz respeito aos aspectos mais e menos conhecidos, já que os participantes demonstram maior clareza sobre questões relacionadas a aspectos físicos e cognitivos, e menor domínio dos aspectos sociais e psicológicos2,9,26,28,38,40. Este fato reforça a necessidade de empenho no ensino das dimensões psicológicas, sociais e antropológicas do envelhecimento, não se limitando a questões de ordem biológica9.

Ao analisar as pontuações do questionário quanto às variáveis de interesse, os indivíduos do sexo masculino apresentaram percentual de acertos significativamente maior no escore geral (p=0,04) e no domínio físico (p=0,006) do que os do sexo feminino. Também se evidenciou que os participantes que relataram ter experiência profissional anterior à atual apresentaram maior percentual de acertos no domínio social do que aqueles em sua primeira experiência (p=0,043).

A Teoria do Contato afirma que o nível de conhecimento sobre um grupo externo se eleva conforme aumenta o contato com ele41, o que pode justificar os achados do presente estudo. Esse resultado pode ser o reflexo do fato de os homens, em maior grau que as mulheres, terem experienciado a prática com pessoas idosas na graduação, impactando na aquisição de saberes.

A relação entre sexo e nível de conhecimento é conflitante, pois, em geral, não se encontra relação entre essas variáveis11,19. Contudo, Palmore42 garante que, quando mantido constante o nível educacional dos participantes, as pontuações não se diferiam quanto a sexo, etnia ou idade, sendo a educação o fator de maior impacto. Nesse sentido, os achados do estudo atual corroboram essa premissa, pois os homens, em maior proporção que as mulheres, cursaram disciplinas da área gerontológica.

Quando correlacionados os resultados do questionário Palmore-Neri-Cachioni - Atualizado e Revisado (2022) com os da Escala Neri, a fim de conhecer se o nível de conhecimento se relacionava às atitudes, evidenciou-se que, em relação à amostra estudada, o conhecimento não se relacionou com as atitudes, tanto no escore geral quanto nos domínios fatoriais (tabela 4).

Tabela 4
Correlação entre a Escala Neri e o percentual de acertos do Questionário Palmore-Neri-Cachioni de Conhecimentos Básicos sobre a Velhice - Atualizado e Revisado (2022) dos profissionais e gestores de saúde da APS. Alfenas, Minas Gerais, Brasil, 2022

Por outro lado, verificou-se a existência de correlação entre o conhecimento e cada um dos itens da escala de atitudes, observando-se correlação positiva e significativa, embora de efeito pequeno, para os itens 3 (r=0,198; p=0,034) e 4 (r=0,191; p=0,036). Desta forma, apesar da fraca correlação, pode-se compreender que os participantes que tinham maior nível de conhecimento sobre o envelhecimento consideravam as pessoas idosas pouco bem-humoradas e pouco aceitas. Tal achado pode refletir o ambiente de trabalho dos participantes na lida com pessoas idosas com agravos à saúde, assim impactando a percepção de humor e a aceitação desse grupo43. Além disso, o item 17 apresentou uma correlação negativa significativa e de efeito pequeno com o nível de conhecimento (r=-0,240; p=0,010); ou seja, os participantes com maior conhecimento consideravam as pessoas idosas mais generosas (tabela 5).

Tabela 5
Correlação entre os itens da Escala Neri e o Percentual de acertos do Questionário Palmore-Neri-Cachioni de conhecimentos Básicos sobre a Velhice - Atualizado e Revisado (2022), dos profissionais e gestores de saúde da APS. Alfenas, Minas Gerais, Brasil, 2022

A relação entre o nível de conhecimento e as atitudes sobre o envelhecimento, embora documentada na literatura, apresenta resultados heterogêneos. Há estudos que demonstram maior conhecimento associado a atitudes negativas38,44, outros a atitudes positivas45 e pesquisas nas quais o nível de conhecimento não se relacionou às atitudes20. Essa variação, portanto, pode ser justificada pelas diferenças nos instrumentos utilizados, pela cultura e por limitações nos métodos e nas amostragens dos estudos14.

Em suma, este estudo apresenta como pontos fortes a inclusão de gestores de saúde na amostra, suprindo a escassez desses indivíduos em avaliações sobre conhecimentos e atitudes em relação ao envelhecimento. Destaca-se também a utilização do ‘Treino de Vocabulário’ antes da aplicação da escala de atitudes em relação à velhice, garantindo que todos os participantes estivesses nivelados quanto à compreensão dos conceitos abordados no instrumento. Como limitações, citam-se a abordagem transversal e a amostragem por conveniência, que impedem o estabelecimento de relações causais e a generalização dos resultados, além da presença de valores de ‘p’ limítrofes e correlações de efeito pequeno (fracas).

Desse modo, recomenda-se a realização de estudos com amostras representativas da população e delineamento longitudinal para a confirmação dos resultados encontrados e o estabelecimento da relação entre conhecimentos e atitudes, dado o caráter conflituoso na literatura19. Além disso, recomenda-se que os achados do estudo atual subsidiem alterações curriculares para uma abordagem do envelhecimento sob a ótica biopsicossocial, conjuntamente a intervenções promissoras na educação, mediante ações com base na empatia e no contato intergeracional, que aumentarão o conhecimento e, consequentemente, consolidarão atitudes positivas em relação ao envelhecimento7.

Conclusões

O estudo de conhecimentos e atitudes sobre o envelhecimento é relevante diante de uma sociedade que alcança, cada vez mais, a longevidade. Aliado a isso, a APS constitui a principal ‘porta de entrada’ e o nível assistencial de saúde com capacidade resolutiva para a maior parte das condições de saúde das pessoas idosas, contando com a atuação engajada de profissionais e gestores. Desse modo, faz-se necessário compreender os aspectos que podem preceder o idadismo, visto que impactam a qualidade da assistência prestada e refletem na saúde dos indivíduos idosos - faixa etária que mais cresce e que mais utiliza os serviços de saúde -, permitindo intervenções eficazes.

Dessa forma, com este estudo, foi possível compreender que a amostra apresentou maior saber sobre as dimensões cognitivas e menor conhecimento das dimensões psicológicas do envelhecer. Verificaram-se atitudes positivas, embora não tenha sido observada relação direta entre o nível de conhecimento e as atitudes.

Agradecimentos

Ao projeto de pesquisa Rede de Enfrentamento da Obesidade e Doenças Crônicas Não Transmissíveis (Renob-MG). Aos profissionais e gestores de saúde que participaram da pesquisa. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pela concessão de bolsa de estudos à primeira autora deste trabalho.

  • Suporte financeiro:
    este trabalho teve apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-Brasil (Capes) - Código de Financiamento 001

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão disponíveis sob demanda, condição justificada no manuscrito

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2026

Histórico

  • Recebido
    21 Abr 2025
  • Aceito
    27 Dez 2025
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