Open-access Diaporthe longicolla, agente causal da queima da haste e da vagem, pode causar também a anomalia podridão de vagens e de grãos da soja?

Diaporthe longicolla, the causal agent of soybean stem and pod blight, also cause the anomaly pod and grain rot in soybeans?

RESUMO

O presente estudo teve como objetivo reproduzir os sintomas da queima da haste e da vagem (QHVS) pela inoculação com Diaporthe longicolla em plantas de soja. Em experimento conduzido em casa-de-vegetação, com controle parcial de temperatura, plantas de soja cultivar DM 5659 RSF foram inoculadas com D. longicolla isolado de grãos de soja com sintomas QHVS. Conídios na concentração de inóculo de 2 x 106 conídios alfa/mL de água + Tween 20 foram pulverizados sobre todos os órgãos de oito planta no estádio R5.2/R5.3, até o escorrimento e seguida mantidas em câmara úmida por 42 horas e repetida 12 dias após. Em ordem cronológica os sintomas resultantes da inoculação ocorreram em vagens, pecíolos, hastes, ramos e folhas, após 15, 30, 39 dias da inoculação do patógeno. Os grãos não se apresentaram podres, mas apenas sem brilho, enrugados e esbranquiçados. Picnídios foram formados em todos os órgãos submetidos à câmara úmida. Em hastes e ramos os sintomas surgiram aos 38 dias após a inoculação. Em folhas senescidas foram contados até 52 picnídios, e em valvas, 497/cm2. Em R8, a incidência de picnídios nas valvas senescidas foi de 88% e nas sementes não inoculadas de 10%. As plantas não inoculadas não manifestaram sintomas/sinais. Neste estudo foi reproduzido o quadro sintomatológico completo da QHVS descrito por Lehman (1923) acrescidos do ‘geográfico’ e o ‘cajado de pastor’. Como os sintomas/sinais reproduzidos em todos os órgãos são distintos dos observados em lavouras de soja com a podridão de vagens e de grãos da soja (PVGS) infere-se que essa anomalia possa ser de origem abiótica ou causada por outro fungo distinto de D. longicolla.

Palavras-chave
Glycine max ; seca da haste; cajado de pastor; geográfico

ABSTRACT

The present study aimed to reproduce the symptoms of soybean stem and pod blight (SSPB) by inoculating Diaporthe longicolla into soybean plants. In a greenhouse experiment with partial temperature control, soybean plants of the cultivar DM 5659 RSF were inoculated with D. longicolla isolated from soybean grains showing SSPB symptoms. The inoculum concentration of 2 x 106 alpha conidia/mL water + Tween 20 was sprayed on all organs of eight plants at the R5.2/R5.3 stage until runoff; the plants were then kept in a humid chamber for 42 hours and the procedure was repeated 12 days later. In chronological order, symptoms resulting from inoculation occurred in pods, petioles, stalks, branches and leaves after 15, 30 and 39 days of pathogen inoculation. The grains were not rotten but only dull, wrinkled and whitish. Pycnidia were formed in all organs subjected to the humid chamber. The symptoms were seen in stems and branches 38 days after inoculation. Up to 52 pycnidia were counted in senescent leaves, and valves showed 497 pycnidia/cm2. At R8, pycnidium incidence was 88% in senescent valves and 10% in non-inoculated seeds. Non-inoculated plants did not show any symptoms/signs. The current study reproduced the complete SSPB symptomatology described by Lehman (1923) plus the ‘geographic’ and ‘shepherd’s crook’. Since the symptoms/signs reproduced in all organs are different from those observed in soybean crops with soybean pod and grain rot, it can be inferred that this anomaly may be abiotic or caused by another fungus distinct from D. longicolla.

Keywords
Glycine max ; stem blight; ‘shepherd’s crook’; ‘geographic’

O Brasil, o maior produtor mundial de soja [Glycine max (L.) Merr. ], produziu na safra 2024/25, 167 milhões de toneladas de grãos (1). A ocorrência de ‘anomalias’ nessa cultura economicamente importante ao país, como a quebra da base da haste, a abertura de vagens imaturas e a podridão de vagens e grãos, têm preocupado produtores, consultores e pesquisadores. Essas anomalias devem ter a causa e os danos determinados e medidas de controle eficazes implementadas.

Está em estudo esclarecer a causa da anomalia denominada de podridão de vagens e de grãos da soja (PVGS). Em lavouras de Mato Grosso, essa anomalia apresenta lesões necróticas, principalmente, em vagens, atingindo e apodrecendo finalmente os grãos que se tornam pardo-escuros a negros. Em contraste, hastes, ramos, pecíolos e folhas apresentam-se sadios. Portanto, esses sintomas de lesões apenas em vagens e grãos, devem ser reproduzidos na prova de patogenicidade. Motivados pela percepção seletiva, fitopatologistas tem isolado dos grãos avariados diversos fungos como Colletotrichum, Fusarium, dando-se atenção especial aos do gênero Diaporthe.

Em soja, devido às dificuldades de identificação das espécies, muitos autores tratam o gênero Diaporthe como um conjunto de espécies, tendo se referido com Diaporthe spp. Assim, são relatados dois grupos de doenças com sintomatologia distinta: a queima da haste e da vagem da soja (QHVS) causada por Diaporthe longicolla e Diaporthe sojae (7) e os cancros da haste causados por Diaporthe aspalathi, Diaporthe caulivora e Diaporthe ueckeri (13).

Recentemente, foi relatada a patogenicidade de D. longicolla em vagens de soja destacadas por meio de ferimentos e ou por sua imersão no inóculo e com a produção de sintomas de podridão e de picnídios, porém, não descrevem a formação de lesões em vagens como ocorre na PVGS em lavouras (2).

Até a presente data são aguardadas respostas para as perguntas: em que órgãos, sintomas e sinais devem ser reproduzidos para provar que a inoculação de D. longicolla causa a PVGS? Pode D. longicolla causar dois quadros sintomatológicos distintos em soja, a QHVS e a PVGS?

Em levantamentos feitos no campo, a incidência da PVGS em vagens foi de 8,12 a 21,9% (3). Porém, no estádio final da evolução dos sintomas em valvas não foi relatada e quantificada a presença dos sinais (picnídios) ligados ao agente causal. Além disso, não foi encontrada na literatura consultada, a prova de patogenicidade com D. longicolla em planta de soja por inoculação de suspensão de esporos, estádio R5.2/5.3 na presença de hastes, ramos, pecíolos, vagens e folíolos seguida da descrição dos sintomas e sinais.

Diante desses fatos, a hipótese formulada é de que a inoculação de D. longicolla, patógeno já relatado em soja, reproduz os sintomas/sinais da QHVS e não os sintomas da PVGS, ainda sem referência à sua descrição. Assim, este estudo teve como objetivo, mediante prova de patogenicidade, demonstrar que a inoculação D. longicolla, em soja, reproduz em vagens, pecíolos, hastes, ramos e folhas unicamente os sintomas/sinais da PVGS.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi conduzido no Laboratório de Fitopatologia e casa-de-vegetação do Instituto Agris (Universidade de Passo Fundo, Parque Científico e Tecnológico, Passo Fundo, RS).

Foram utilizadas como hospedeira plantas de soja da cultivar DM 5659 RSF, cultivadas em ‘contêineres’ tipo floreira, em casa-de-vegetação com controle parcial de temperatura com duas regas ao dia.

O inóculo de D. longicolla foi obtido pelo isolamento, em meio Batata-dextrose-ágar + estreptomicina., de grãos de soja de plantas ostentando sintomas e sinais da queima da haste e da vagem – QHVS (isolado C-11, micoteca do Instituto Agris, identificado por análise molecular pela Syngenta Holambra, SP. A multiplicação do inóculo foi realizada de acordo com Seall (12).

Grupos de cinco plantas soja em quatro diferentes estádios fenológicos foram previamente inoculadas no ajuste da metodologia. No experimento final, foram inoculadas 12 plantas pela pulverização (borrifador manual) da suspensão dos conídios alfa em água + Tween 20 (0,1% em água destilada), numa concentração de 2 x 106, ajustada pela contagem em câmara de Neubauer, sobre todos os órgãos das plantas, incluindo folhas no estádio R5.2/R5.3 até o ponto de escorrimento. Quatro plantas foram mantidas sem a inoculação do patógeno.

Após a inoculação as plantas foram mantidas em câmara úmida com saco plástico transparente, atomizados internamente com água destilada-esterilizada, por 42 horas. Após 12 dias, foram submetidas a nova câmara úmida por 42 h. Esse processo foi repetido por duas vezes simulando os períodos longos de molhamento que ocorrem em lavouras de soja após o estádio R7.

Após 40 dias da inoculação foi determinada a incidência de D. longicolla em valvas e sementes de plantas senescidas (R7). As sementes foram plaqueadas em gerboxes com BDA + S e as valvas colocadas em câmara úmida e incubadas em BOD a 25 oC ± 2. Na avaliação, foi descrita na linha do tempo a evolução dos sintomas em hastes, ramos, pecíolos, vagens e folíolos, determinada a densidade de picnídios, registrado o período de latência decorrido entre a deposição do inóculo na superfície do hospedeiro e o aparecimento dos primeiros sintomas ou sinais em cada órgão.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Sintomas e sinais em vagens: No estádio R5.3, com período latente de 15 dias, foram observados sintomas em algumas vagens que lenta e uniformemente amareleceram, sem lesões, tornando-se uniformemente pardas e caindo das plantas (Fig. 1A). Estas vagens, incubadas em câmara úmida, produziram 494 picnídios/cm2 (Fig. 1B).

Figura 1
Vagens de soja senescidas (A) e produção de picnídios de Diaporthe longicolla em câmara úmida (B).

Sintomas e sinais em pecíolos: Na sequência, foi observada a formação de lesões em 60% dos pecíolos. Aos 30 dias após a inoculação, foram observadas lesões necróticas que se iniciaram como estrias longas pardo-avermelhadas e com a evolução estrangulavam o pecíolo que se curva em vários ângulos terminando, em alguns pecíolos, com o sintoma clássico de ‘cajado de pastor, a queda do trifólio a eles inseridos e restando os pecíolos semelhantes a espetos (Fig. 2AB, respectivamente). Em câmara úmida, como nas vagens, formaram-se picnídios com período de latência de 30 dias (Fig. 2CD).

Figura 2
Lesões em pecíolos de soja (A), ‘cajado do pastor’ (B) e presença de picnídios de Diaporthe longicolla (CD).

Sintomas em folhas e folíolos: As primeiras folhas senesceram, caíram das plantas aos 14 dias após a inoculação, com áreas do limbo negras e claras (Fig. 3A). Em folíolos caídos, mantidos em câmara úmida, detectou-se a presença de picnídios mais concentrados nas áreas claras com uma densidade de 157/cm2 e exsudando conídios (Fig. 3B).

Figura 3
Folíolo de soja senescido com área negra (A) e presença de picnídios de Diaporthe longicolla na área clara (B), em câmara úmida

Sinais em hastes e ramos: Aos 38 dias após a inoculação foi detectada a presença de picnídios na base das hastes, dispostos longitudinal e linearmente confirmando período de latência longo. Aos 41 dias foi observada a presença de picnídios em toda a extensão das hastes e ramos nas plantas inoculadas numa densidade de 329/cm2 (Fig. 4). Ficou evidente que D. longicolla infecta a soja nos estádios vegetativos e devido a latência, evidencia sintomas/sinais após R7/R8, confirmando o relato de Kulik (6).

Figura 4
Picnídios de Diaporthe longicolla em linhas longitudinais, retas e paralelas em hastes e ramos.

Sintoma tipo geográfico: Finalmente, foram observados os primeiros sintomas do ‘geográfico’, com latência de 36 dias (Fig. 5). A associação de D. longicolla causando o ‘geográfico’ em soja, foi descrita pela primeira vez por Ghissi et al. (5).

Figura 5
Presença do sintoma tipo ‘geográfico’ em hastes e ramos de soja.

Incidência em valvas e sementes : A incidência de D. longicolla nas valvas senescidas das plantas inoculadas foi de 88% e em sementes em meio de cultura foi de 10% (Fig. 6)

Figura 6
Sementes de soja colonizadas por Diaporthe longicolla (A) e colônias reisoladas em meio de cultura (B).

Este estudo focou na reprodução dos sintomas e sinais resultantes da inoculação de D. longicolla em soja, no estádio fenológico R5.2/R5.3, na presença de todos os órgãos exceto flores. Os sintomas/sinais não se confinaram apenas em vagens. Esta é uma evidência de que a PVGS possa ter causa abiótica por ser mais frequente em vagens com hastes, ramos, pecíolos aparentemente sadios e sem a presença do ‘geográfico’ e o ‘cajado de pastor’. Contrariamente, é bem descrito e documentado que D. longicolla e D. sojae, envolvidos com a QHVS, colonizam todos os órgãos do hospedeiro inclusive folhas e causando deterioração de grãos e não grão podres negros. Portanto, na prática dos postulados de Koch, confirmou-se o quadro sintomatológico da QHVS descrita por Lehman (7), da deterioração de grãos (8) e do geográfico (5).

A QHVS é de fácil e segura diagnose – picnídios em linhas retas, paralelas longitudinalmente presentes em hastes, ramos e pecíolos causada por D. longicolla e D. sojae (7, 10). Também é peculiar a formação do sintoma tipo ‘geográfico’ em todos os órgãos parasitados inclusive nas raízes, próximo ou após a colheita da soja (5).

Foi relatado que plantas de soja cultivadas em casa-de-vegetação e inoculadas com D. longicolla, reproduziram os sintomas da anomalia (PVGS) observados em lavouras de soja, principalmente em Mato Grosso, e que, portanto, a PVGS pode ter causa biótica, causada por Diaporthe spp. (2). Também descreveram sintomas e sinais em vagens destacadas, mas não nos demais órgãos com semelhança ao já descrito no trabalho pioneiro de Lehman (7). O texto descreve parcialmente a reprodução dos sintomas da QHVS inclusive com a produção de picnídios, o que não ocorre com a PVGS em lavouras.

Tem sido observado em lavouras de soja a campo que a PVGS causa lesões necróticas principalmente em vagens, e aparentemente com hastes, ramos, pecíolos e folhas sadios (11). Também na PVGS, não tem sido relatada a presença de sinais (picnídios distribuídos em linhas reatas) como ocorre em todos os órgãos com a QHVS. Estes sintomas, sem sinais, devem ser reproduzidos apenas nas vagens. No trabalho exaustivo relatado por Farias Neto et al. (3) não há referência aos sinais.

A inoculação com D. longicolla no presente trabalho, não reproduziu os sintomas da anomalia PGVS, podendo ser de natureza abiótica, ou ser causada por outro patógeno que na prova de patogenicidade deve reproduzir fielmente os sintomas observados em lavouras a campo. Várias espécies de Diaporthe podem causar sintomas semelhantes na soja, e os desafios e mudanças na taxonomia e identificação podem ter levado a inconsistências na identificação de espécies associadas a sintomas diferentes em diversos estudos (4, 9).

Em lavouras, a frequência de períodos de molhamento resultantes de chuvas na maturação da soja resulta em sintomas/sinais intensos na maioria dos órgãos com a formação do ‘geográfico (5). Essa intensidade não foi reproduzida em casa-de-vegetação resultante de menor intensidade da doença, porém, com sintomas/sinais presentes em todos os órgãos inoculados inclusive do geográfico e sinais em folhas. As plantas não inoculadas mantiveram-se sadias.

Este é o primeiro registro e descrição de sintomas tipo ‘cajado de pastor’ produzido por D. longicolla em soja. No presente estudo a inoculação de D. longicolla reproduziu o quadro sintomatológico relatado por Lehman (7), incluindo-se também o geográfico e o cajado de pastor.

Considerando que ainda não foi relatada a descrição detalhada do complexo de sintomas da PVGS, essa tarefa é ferramenta indispensável na busca de sua causa e na distinção de outras doenças como a QHVS, da antracnose e da cercosporiose (Tabela 1).

Tabela 1
Comparação entre a queima da haste e da vagem da soja (QHVS) e a podridão de vagens e de grãos da soja (PVGS)

Concluindo, a hipótese formulada de que a inoculação de Diaporthe longicolla em soja reproduz os sintomas/sinais da QHVS e não os sintomas da PVGS foi confirmada.

  • Reis, E.M.; Guerra, W.D.; Reis, A.C.C. Diaporthe longicolla, agente causal da queima da haste e da vagem, pode causar também a anomalia podridão de vagens e de grãos da soja? Summa Phytopathologica, v.52, p.1-6, 2026.

Declaração de disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Jun 2025
  • Aceito
    01 Set 2025
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