Open-access A atuação do CFESS no caso de Azizi Pakhshan: entrevista com Iara Fraga

The role of CFESS in the case of Azizi Pakhshan: interview with Iara Fraga

Resumo:

Entrevista com Iara Vanessa Fraga de Santana, assistente social, docente pela Universidade Estadual do Ceará e doutora pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem tido importante participação nos debates políticos da categoria profissional como conselheira do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) na gestão “’Que nossas vozes ecoem vida e liberdade” (2023-2026). Acompanhou a articulação internacional em defesa da vida de Azizi Pakhshan, assistente social condenada à morte pelo Estado do Irã.

Palavras-chave:
Internacionalismo; Serviço Social; Povos árabes; Pena de morte; Anistia Internacional

Abstract:

Interview with Iara Vanessa Fraga de Santana, social worker, professor at the State University of Ceará, and PhD from the Federal University of Pernambuco. She has had significant participation in the political debates of the professional category. As a member of the Federal Council of Social Work (CFESS) during the administration “Let our voices resonate life and freedom” (2023-2026), she accompanied the international articulation in defense of the life of Azizi Pakhshan, a social worker sentenced to death by the State of Iran.

Keywords:
Internationalism; Social Work; Arabic peoples; Death penalty; Amnesty International

Caio Tanaka: Olá, Iara, em meu nome e do CFESS, agradeço à entrevista. Por favor, poderia se apresentar e falar um pouco sobre a Comissão de Relações Internacionais do CFESS?

Iara Fraga: Eu sou Iara Fraga, assistente social formada pela Universidade Estadual do Ceará, lugar onde estou docente adjunta do curso de Serviço Social e também do mestrado acadêmico em Serviço Social. Venho de uma caminhada de articulação com o movimento de mulheres negras e com os movimentos sociais do campo. Tive alguns anos de trabalho na assistência social, a partir da média complexidade no Centro Pop, mas também na saúde mental - no CAPS [Centro de Atenção Psicossocial] Geral -, na defesa e na promoção de direitos humanos de crianças e adolescentes no CEDECA [Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente] Ceará, e no Programa de Proteção a Defensores e Defensoras de Direitos Humanos, também do Ceará. A partir do mestrado, dos estudos na Escola Nacional Florestan Fernandes, passei a me aproximar das lutas internacionalistas. Mas não foi isso que me levou à Comissão de Relações Internacionais do CFESS, passei a compor essa comissão, junto à Comissão de Formação, por estar na docência. Passo a integrar a Comissão de Relações Internacionais do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) nesse triênio 2023-2026, na gestão “Que nossas vozes ecoem vida e liberdade”.

O nosso movimento de internacionalização1 tem origem na reconceituação junto a outros países da América Latina,2 que buscavam afirmar as nossas bandeiras latino-americanas de enfrentamento ao imperialismo norte-americano, a partir da década de 1960 e depois nas várias movimentações de resistência aos processos ditatoriais que foram sendo implantados em toda a América Latina. Tudo isso vai fazendo a gente se aproximar mais dos nossos países vizinhos. E nos anos 1990, as assistentes sociais brasileiras, o Serviço Social Brasileiro, têm uma importante contribuição para a criação do Comitê Mercosul,3 um comitê que vai tentar fortalecer a organização do Serviço Social na América Latina, que vai buscar contrapor os blocos, em especial o Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (North American Free Trade Agreement - Nafta), com o protagonismo do Canadá e dos Estados Unidos. Esse debate vai aparecer também no 8o Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) e, ainda naquela década, a gente começa a acompanhar as assembleias da Federação Internacional de Assistentes Sociais (FITS). Em 1996, o CFESS passa a integrar a FITS, e é também nessa década que a gente vai percebendo a necessidade de fortalecer o próprio Serviço Social latino-americano na FITS.

Logo depois de uma década de consolidação do neoliberalismo no Brasil, desde 1990, a gente entra nos anos 2000 com os governos que se autodeclaram progressistas e democráticos populares. Essa perspectiva de aliança com as grandes corporações permanece, junto a todas as dificuldades para a implementação das políticas públicas. O CFESS tem uma importante contribuição nesse início dos anos 2000, que é, além de fortalecer os países da América Latina para disputar também a FITS, estar à frente do Comitê Latino-Americano e Caribenho de Trabalho Social (COLACATS), que naquele momento, de 2011, 2012, 2013, existia essa principal intenção - de se mostrar para a Federação Internacional de Serviço Social. E conseguimos uma vitória com a eleição de uma presidenta argentina, que foi a Silvana Noemi Martínez.4 O COLACATS teve muito a contribuição do CFESS, e é dentro desse caminho que a gente vai dando continuidade a esse trabalho necessário de internacionalização do Serviço Social e de internacionalização das lutas.

É importante falar que, no início dos anos 2000, a Comissão de Relações Internacionais (RI) do CFESS foi ganhando um pouco mais de autonomia da Comissão de Formação, já que antes eram juntas - Comissão de Formação e Comissão de Relações Internacionais. Em 2005, há um desmembramento, a consolidação de duas comissões separadas. Está tudo dentro desse caminho de continuidade que tem lá nos anos 1960, enfrentamento à ditadura, neoliberalismo nos anos 1990, Mercosul, COLACATS e a própria Comissão de RI do CFESS reconhecendo a importância dessa compreensão e desse legado da luta socialista e comunista, da necessidade de ultrapassar mesmo as barreiras e as fronteiras impostas pelo Estado burguês.5

O comitê COLACATS foi criado em 2013, mas é resultado de um movimento que aconteceu em 20126 no Brasil, um workshop que teve a imensa contribuição da professora Elaine Behring. É a partir daí que em 2013 se cria o COLACATS, formado por 17 países da América Latina e Caribe.

Portanto, nesse processo de afirmação da necessidade de internacionalizar a resistência, da necessidade da solidariedade internacional anti-imperialista, da importância de afirmação da libertação de todas as formas de colonialismo, é que a gente dá continuidade neste triênio a esse trabalho mirando, em especial, o Sul Global e países de África e da América Latina, mas também no enfrentamento à barbárie, que foi e continua sendo a guerra contra palestinos.

Caio Tanaka: Poderia nos contar o que sabe de Azizi Pakhshan, como o caso chegou ao CFESS e por que vocês decidiram se envolver? Você considera que essa é uma causa do Serviço Social brasileiro?

Iara Fraga: O CFESS tem um reconhecimento internacional. O Serviço Social brasileiro é reconhecido como uma referência para o Serviço Social de vários países. Isso faz com que a gente sempre tenha demandas de companheiros(as) de outros países. Nesse triênio, tivemos algumas, como do Haiti e de outros(as) companheiros(as) de países africanos de língua portuguesa. A gente também vem afinando a nossa conversa com as assistentes sociais palestinas, nesse movimento de fortalecer a nossa solidariedade e nossa indignação com essa limpeza étnica do capital.7

Neste contexto, mantêm-se alguns diálogos com o Serviço Social da Espanha, que é um Serviço Social mais crítico. Na Conferência Mundial do Panamá de 2024, nos aproximamos e fizemos um enfrentamento durante a conferência aos ataques da Associação de Assistentes Sociais de Israel,8 e foi através das companheiras da Espanha que, em janeiro de 2025, nós tomamos conhecimento da condenação à morte da assistente social Azizi. É a partir daí que a gente inicia o diálogo com a Anistia Internacional (AI).

Através do grupo da FITS América Latina e das colegas da Espanha, tomamos conhecimento da condenação da Azizi. Havia um chamado internacional das colegas da Espanha para o caso. Nós compreendemos que essa condenação à morte - de uma assistente social defensora de direitos humanos -, que resultou do seu trabalho na defesa de direitos de crianças e mulheres, em especial refugiadas da Síria, esse também é um problema nosso. E foi a partir daí que decidimos tentar buscar formas de dar visibilidade a essa condenação, de movimentar a FITS para se implicar também nesse processo, não só por ser uma assistente social, mas também por ser uma defensora de direitos humanos que, em razão da defesa dos direitos humanos, foi condenada à morte. Isso é nosso, uma questão ética para nossa profissão, é uma causa nossa, do Serviço Social brasileiro. Somos formados por um conjunto de assistentes sociais que tem um projeto de profissão, mas que tem um projeto de sociedade, e esse projeto demanda necessariamente a denúncia e a intransigência contra toda e qualquer forma de tortura e de violação. É por isso que essa causa também é do Serviço Social brasileiro, não só porque a Azizi é assistente social, é por isso também, mas porque ela condensa um tanto das nossas defesas, do nosso projeto ético-político.

Caio Tanaka: Poderia descrever quais foram os movimentos feitos para tentar ajudar Azizi? Tanto os nacionais quanto os internacionais.

Iara Fraga: No Brasil, oficiamos o Ministério das Relações Internacionais, especialmente o diplomata responsável pela região do Oriente Médio. Também oficiamos o Ministério dos Direitos Humanos, a Secretaria de Direitos Humanos, que trata de questões internacionais de violação aos direitos humanos internacionais. Nós fizemos uma série de diálogos com a própria FITS em nível mundial, mas também com a FITS América Latina, no sentido de buscar informações sobre a Azizi, já que a FITS também tomou conhecimento disso e estava em diálogo indireto com seus familiares. Mas também de buscar a visibilidade da FITS para esse caso. Importante destacar aqui que a Azizi é essa mulher, curda, naquela região em guerra. Tudo aconteceu junto ao que está acontecendo em Gaza9 com o povo palestino, também já estávamos nesse diálogo de mobilização e de incidência para que a FITS tomasse alguma posição, algum posicionamento mais crítico e radical com relação a Israel.

Inclusive, o presídio onde Azizi estava presa foi bombardeado pelo Estado de Israel em junho de 2025, levando algumas pessoas à morte. Naquele momento, nós novamente dialogamos com a Anistia Internacional e, em julho, recebemos a notícia da AI de que ela havia sobrevivido e sido transferida para outro presídio. Foi tudo bem junto nesse movimento de buscar se solidarizar e impedir que a Azizi fosse morta pelo Estado, pelo Tribunal Superior do Irã.

Gostaria de falar rapidamente da Azizi, dessa companheira que tem uma origem curda. Os curdos são povos, um grupo étnico que é um povo, uma nação que não tem Estado, que não tem um lugar. Esse povo ocupa alguns países do Oriente Médio; é um povo que resulta de um processo e de uma história muito antiga, ainda da Mesopotâmia, e que tem uma língua própria, que tem dialetos, que tem arte, cultura, e que tem lideranças majoritariamente de mulheres. Então, entre as pessoas curdas, é muito comum você ver lideranças mulheres, além de mulheres chefiando instituições em cargos elevados numa hierarquia.

É um povo que tem um histórico de conflitos territoriais, de perseguições também, e que tem um grupo considerável de muçulmanos. Então, é um povo perseguido pelo próprio Estado Islâmico, que distorce preceitos históricos do islamismo para justificar, de maneira radical e extremista, suas ações. Em nome disso, o Estado Islâmico permanece ainda nesse processo de extermínio das pessoas, e a população curda está dentro desse conflito da região.

Só para destacar isso mesmo, os(as) curdos(as) ainda buscam ter seu próprio Estado. E é uma população bem grande que está na Tunísia, na Síria, no próprio Irã, na Armênia e no Iraque. Esse povo está espalhado e é um povo perseguido, e a Azizi pertence a esse povo, acho que é importante isso.

Caio Tanaka: Você acredita que o caso de Azizi e de tantas outras mulheres que são submetidas a graves violações de direitos humanos tem relação com o avanço de uma sociabilidade ultraconservadora? Acha que pode ter rebatimentos para o Brasil também?

Iara Fraga: O caso da Azizi é, infelizmente, mais um caso de condenação à morte pelo tribunal iraniano. Esse país tem um histórico de penas de morte. Eu não sou uma grande estudiosa dessa realidade, mas entendo que tem relação sim com essa sociabilidade ultraconservadora, mas já é uma prática antiga lá do país e da região. O Irã é um dos países que mais condenam pessoas à morte, principalmente mulheres. Tem uma pesquisa do ano passado que apresenta esses dados, de condenação à morte de pessoas.10 Inclusive tem uma equipe destacada da Anistia Internacional só para acompanhar e tentar incidir na redução das condenações de pessoas à morte. Entendo que, com certeza, tem influência dessa onda que a gente voltou a viver, mas que tem principalmente relação com a organização mesmo cultural, social e econômica daquele país. Entendemos que estamos todos e todas conectadas por esse capital mundializado. Decerto, isso também tem rebatimentos para o Brasil. A gente também viveu nesses últimos anos um crescimento do discurso de ódio, na defesa da morte de pessoas negras, trans, de difusão do discurso misógino contra as mulheres. Portanto, isso também tem rebatimento sim no Brasil e a gente assistiu a isso, ficou muito explícito no período do Bolsonaro. Mas a gente ainda vive essas situações, por exemplo, os índices de feminicídios elevados que a gente viveu agora no final de 2025, que não é o Estado condenando e matando diretamente, como foi lá no caso da Azizi e de outras mulheres, mas são resultados das relações patriarcais e conservadoras.

Caio Tanaka: Em 2026, mais uma vez, o mundo tem acompanhado o envolvimento dos Estados Unidos da América (EUA) com a escalada de conflitos de guerra e tensionamentos internacionais. Respectivamente, nos dias 3 de janeiro e 28 de fevereiro, Nicolás Maduro (presidente da Venezuela) e Ali Khamenei (chefe de Estado do Irã) foram vítimas de operações militares dos EUA em seus países - o primeiro está preso político e o segundo foi morto pela operação. O presidente norte-americano alega que o intuito é garantir estabilidade política e democracia para a população de ambos os países invadidos. Sabe-se que, historicamente, outros presidentes norte-americanos também interferiram de forma direta na política interna de outros países - Watergate,11 Operação Condor,12 execução de outros opositores políticos13 etc. Você pode falar um pouco sobre o tema? Qual a saída para a construção de alternativas para um mundo multipolar e internacionalista?

Iara Fraga: Entendo que os Estados Unidos permanecem impondo seu imperialismo no mundo em nome de uma falsa democracia e da liberdade. E agora alegam que essa ofensiva está relacionada ao impedimento do avanço de armamentos nucleares iranianos. É muito cruel. Respondo a essa pergunta em um momento de muita dor e tristeza diante dessa barbárie. Esses últimos ataques dos EUA e de Israel ao Irã já mataram mais de 600 pessoas e grande parte, mais de 150, são meninas com idade de 7 a 12 anos.

Os EUA também interromperam recentemente o fornecimento de petróleo a Cuba, inviabilizando o funcionamento de hospitais e transportes públicos, e sequestrou o presidente venezuelano. São ações que violam a soberania nacional dos países e revelam a ganância sem limites do capital, do modo de produção e reprodução das relações sociais que nos leva à barbárie e destrói a nós mesmas(os).

Logo, os Estados Unidos não têm o direito de impor suas ordens, não têm o direito de definir ou decidir sobre os rumos de outros países, é preciso um mundo onde as relações coloniais e neocoloniais sejam enterradas. Onde os organismos multilaterais internacionais realmente tenham poder e haja ruptura radical com esses blocos hegemônicos. Por isso é importante destacar o Sul Global, bem como o necessário levante dos países que serviram e continuam servindo com força de trabalho e com seus bens naturais os países de economia central. Esse outro mundo, multipolar e internacionalista, necessita do Sul Global fortalecido. Entendo que esses blocos regionais podem se fortalecer econômica, cultural e diplomaticamente. Em busca de um mundo socialista ou comunista, onde as pessoas possam viver em comunhão, possam viver comungando da vida verdadeira, da vida que valoriza todas as outras vidas.

Caio Tanaka: Por fim, você teria alguma mensagem para deixar? Além disso, como podemos acompanhar os desdobramentos sobre o caso de Azizi?

Iara Fraga: Esse mês de janeiro de 2026 completa exatamente um ano da condenação da Azizi, continuamos na busca por informações e buscando incidir. Recentemente, a gente fez um contato com a FITS da União Europeia para buscar uma forma de incidência por lá. E continuamos os diálogos com a Anistia Internacional, que está com dificuldade de saber informações sobre as condições de saúde de Azizi nesse momento. Entendo que podemos acompanhar os desdobramentos do caso pela própria Anistia Internacional e com firmeza nesse acompanhamento, inclusive retomando algumas incidências que a gente fez junto ao Ministério das Relações Exteriores aqui do Brasil.

Pelo Conselho Federal de Serviço Social, compreende-se que enfrentar essa injustiça, a condenação de uma mulher defensora de direitos humanos que foi condenada exatamente por isso, por estar defendendo mulheres e crianças refugiadas da Síria, é uma tarefa e uma missão nossa, é um trabalho de todos e todas nós, assistentes sociais comprometidos(as) com outro horizonte de justiça e liberdade para todas as pessoas. É isso que a gente deseja, que a gente possa compreender que as nossas lutas miúdas do cotidiano precisam estar conectadas com as lutas dos nossos companheiros e companheiras que estão nos outros países. É preciso cada vez mais ultrapassar fronteiras criadas para nos separar e nos dividir.

Referências

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  • SILVANA, Martínez apresenta sua candidatura à presidência da FITS Global. CFESS Vídeos, 12 jun. 2018. 1 vídeo (2 min e 13 seg). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JD3tquHQGcE&t=1s Acesso em: 25 fev. 2026.
    » https://www.youtube.com/watch?v=JD3tquHQGcE&t=1s
  • 1
    A partir dessas ofensivas constantes aos países latinos-americanos, o Serviço Social, como categoria, mostrou-se antagônico a esse movimento, reivindicando permanentemente seu compromisso por um projeto político na profissão. As relações que foram estabelecidas pelo Serviço Social brasileiro no contexto mundial foram atravessadas pela multiplicidade e pela diversidade que assume o trabalho profissional no mundo. As reflexões sobre essa temática tiveram como parâmetros o projeto ético-político profissional e o fortalecimento do Serviço Social brasileiro para além das fronteiras nacionais, numa perspectiva internacionalista. Incorporando uma perspectiva histórico-crítica, a análise do movimento do Serviço Social brasileiro em direção aos organismos internacionais da profissão não se fez sem contradições, diante da crise estrutural do capitalismo e das medidas de contenção parametradas sob o avanço do neoliberalismo, que provocaram a destruição dos direitos e a restrição das políticas sociais (Diniz, 2019, p. 325-341).
  • 2
    Para Marilda Villela Iamamoto e Cláudia Mônica dos Santos (2021, p. 35), do ponto de vista geopolítico, a reconceituação foi um movimento de abrangência latino-americana. Esse ideário progressista de uma América Latina una e múltipla foi inaugurado na época da independência por Martí e Bolívar, com a defesa da integração latino-americana.
  • 3
    Na agenda do Comitê constavam as seguintes prioridades: construir princípios éticos comuns; regulamentar o livre trânsito dos(as) profissionais no âmbito do Mercosul; criar instrumentos jurídicos para regulamentação profissional nos países que ainda não a possuem; representar os interesses da América Latina junto à Federação Internacional de Assistentes Sociais (FITS); posicionar-se politicamente diante dos acontecimentos de conjuntura que envolvem os países do Mercosul. O fortalecimento da participação das organizações profissionais do Serviço Social nesse Comitê produziu avanços significativos em relação às seguintes questões: ao protocolo para circulação de serviços; aos princípios éticos comuns; e às diretrizes comuns para a formação profissional. É importante ressaltar que essa construção dos princípios éticos comuns foi difícil, mas trouxe diversos avanços para os países envolvidos, contribuindo inclusive para a elaboração de vários códigos de ética em países que ainda não possuíam essa normativa (Lemos; Matos; Ramos, 2021, p. 253).
  • 4
    É possível encontrar mais de um vídeo de apoio no perfil do CFESS no YouTube, destaque para: Silvana Martínez... (2018).
  • 5
    O internacionalismo não é uma corrente nova. Há um século, aproximadamente, percebe-se, na civilização europeia, a tendência a preparar uma organização internacional da humanidade. Tampouco é o internacionalismo uma corrente exclusivamente progressista e revolucionária. Há um internacionalismo socialista e um internacionalismo burguês, o que não tem nada de absurdo nem de contraditório. Quando se averigua sua origem histórica, o internacionalismo provém de uma ideia liberal, é consequência dela. A primeira grande incubadora dos embriões internacionalistas foi a escola de Manchester. O Estado liberal emancipou a indústria e o comércio das travas feudais e absolutistas. Os interesses capitalistas se desenvolveram independentemente do crescimento da nação. A nação, finalmente, não mais podia contê-los dentro de suas fronteiras. O capital se desnacionalizava. A indústria se lançava à conquista de mercados estrangeiros. A mercadoria não conhecia limites e batalhava para circular livremente através de todos os países. A burguesia fez-se, então, livre-cambista. A liberdade de mercado, como ideia e como prática, foi um passo ao internacionalismo, no qual o proletariado já reconhecia um dos seus fins, um de seus ideais. As fronteiras econômicas se debilitaram. E este acontecimento fortaleceu a esperança de anular um dia as fronteiras políticas (Mariátegui, 1924).
  • 6
    Em junho de 2010, na 20a Conferência Mundial de Hong Kong, a categoria profissional de assistentes sociais brasileiras, através do CFESS e com o apoio de representantes da América Latina, aprovou a proposta de organização de um workshop para encontrar pontos convergentes entre os projetos profissionais dos países membros da FITS. O motivo se dá pelo contexto internacional que buscava compreender o Serviço Social no mundo e aprovar uma definição universal de “trabalho social” para a FITS. Até então, a definição utilizada era a aprovada em Montreal (Canadá) no ano 2000, substituindo a definição de 1982. Nota-se, através de textos do CFESS (2011), que o conselho disputava a definição de trabalho social apresentando princípios do projeto ético-político profissional brasileiro. Encontraram-se desafios, ao passo que, ao contrário de uma proposta emancipatória, a definição vigente era sintética e sem reflexão ou fundamentação histórico-crítica.
  • 7
    Refere-se ao conceito de Karl Marx em O Capital: crítica da economia política. Podem-se destacar trechos do Livro primeiro, volume II, capítulo XXV, “Teoria moderna da colonização” (Marx, 1982, p. 883), que trata da subordinação servil, da colonização e de violentas expropriações contra a vida da classe trabalhadora no século XVI.
  • 8
    Em 2024, na Conferência Mundial do Panamá, foi pautada a questão do genocídio em Gaza por parte do Estado de Israel contra o povo palestino. Esse trecho faz referência à reação negativa e pró-Israel por parte da Associação de Assistentes Sociais de Israel, o que posteriormente culminou no tensionamento pela votação (em fevereiro de 2026), sem sucesso, da expulsão ou suspensão da Associação de Assistentes Sociais de Israel do conjunto da FITS.
  • 9
    Em entrevista de Tariq Ali (2024) com Rashid Khalidi, Khalidi afirma que antes da institucionalização do Estado de Israel, o território da Palestina era ocupação-colonial do Império Britânico e, entre 1936-1939, os palestinos se impuseram contra o poder colonial por sua independência. A Revolta Árabe foi esmagada pelo que ainda era o império mais poderoso do mundo na época, causando muitas baixas e profundas marcas no povo palestino que luta até hoje por sua independência. No processo de aniquilação árabe, os ingleses deram treinamentos para as forças sionistas e ensinaram todas as suas táticas coloniais de guerra. O que antes era uma ocupação militar-colonial britânica se transformou em ocupação militar-colonial israelense entre novembro de 1947 e maio de 1948.
  • 10
    Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), o Irã atingiu 975 execuções em 2024, sendo o país que com maior número de condenações por pena de morte desde 2015. O relatório ainda aponta perseguição contra mulheres, prisões políticas, tortura e diversas violações de direitos contra pessoas encarceradas (cf. ONU pede..., 2025).
  • 11
    Watergate foi uma operação da CIA (Agência Central de Inteligência), sob comando do ex-presidente norte-americano Richard Nixon, em que o ex-diretor da CIA, William Colby, afirmou que as operações americanas de espionagem variavam “consoante a conjuntura das relações Este-Oeste”, que aconteciam por razões políticas ou de segurança, para evitar que pudessem afetar de forma negativa os interesses dos Estados Unidos, investindo milhões de dólares para que alguns governos “não caíssem em mãos de elementos que nos fossem hostis”. O dossiê de Noam Chomsky sobre o caso revela que a CIA, com o apoio da Casa Branca, investiu 8 milhões de dólares para ajudar campanhas de adversários do “governo marxista do presidente Salvador Allende”. A intervenção americana nos assuntos internos do Chile se efetivou através de um violento golpe de Estado que assassinou Allende em 11 de setembro de 1973 (Chomsky; Herman, 1976, p. 137).
  • 12
    O Tribunal Russell II, em 1976, julgou o papel determinante exercido pelo imperialismo norte-americano no apoio e na sustentação de violações de direitos humanos e ditaduras militares no Brasil, no Chile, na Bolívia e no Uruguai (Ampuero, 2014).
  • 13
    Che Guevara foi morto na guerrilha da Bolívia em 8 de outubro de 1967. Antes de ser capturado, tropas do exército boliviano recebiam treinamento especial antiguerrilha do exército norte-americano e contavam com informações privilegiadas da CIA, que espionava Che desde 1961, segundo Antonio Carlos da Graça (Guevara, 1980).
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  • Editora responsável:
    Priscila Flório Augusto

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Mar 2026
  • Aceito
    07 Abr 2026
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