RESUMO
Objetivo: Adaptar transculturalmente o Algoritmo CASI para o português e contexto brasileiro.
Método: Estudo metodológico, realizado entre dezembro de 2023 e novembro de 2024, de adaptação transcultural do Algoritmo CASI para o português brasileiro, seguindo as diretrizes de Beaton e colaboradores, a partir de cinco etapas principais: tradução, síntese das traduções, tradução reversa, avaliação por um comitê de especialistas, pré-teste com público-alvo com tradução da versão final para o inglês e aprovação pelas autoras. A validação do conteúdo foi obtida por meio do Índice de Validade de Conteúdo e Razão de Validade do Conteúdo.
Resultados: A equivalência semântica, idiomática, cultural e conceitual foi avaliada por um comitê de seis especialistas, obtendo-se Índice de Validade de Conteúdo de 0,84. A clareza, compreensão e relevância do algoritmo foi avaliada por 66 enfermeiros, obtendo Índice de Validade de Conteúdo de 0,92 e Razão de Validade de Conteúdo de 0,85, indicando que há um consenso em relação ao conteúdo do Algoritmo CASI adaptado para o contexto brasileiro, e que estes concordam que os elementos são cruciais para o propósito da Ferramenta.
Conclusão: A adaptação transcultural do Algoritmo CASI para o português brasileiro foi realizada com sucesso, apresentando valores de IVC e CVR que indicam alta concordância entre os participantes sobre o conteúdo, a relevância, clareza e essencialidade dos itens da Ferramenta.
DESCRITORES:
Cateter venoso central; Enfermagem; Tradução; Comparação Transcultural; Segurança do paciente
ABSTRACT
Objective: to transculturally adapt the CASI Algorithm for Brazilian Portuguese and context.
Method: this is a methodological study conducted between December 2023 and November 2024, of the transcultural adaptation of the CASI Algorithm for Brazilian Portuguese following the guidelines of Beaton et al. based on five main stages: translation, synthesis of translations, back-translation, evaluation by a committee of experts, pre-testing with the target audience with translation of the final version into English, and approval by the authors. Content validation was obtained through the Content Validity Index and Content Validity Ratio.
Results: semantic, idiomatic, cultural, and conceptual equivalence was evaluated by a committee of six experts, obtaining a Content Validity Index of 0.84. The clarity, comprehension, and relevance of the algorithm were evaluated by 66 nurses, obtaining a Content Validity Index of 0.92 and a Content Validity Ratio of 0.85, indicating that there is a consensus regarding the content of the CASI Algorithm adapted to the Brazilian context, and that they agree that the elements are crucial for the purpose of the Tool.
Conclusion: The cross-cultural adaptation of the CASI Algorithm to Brazilian Portuguese was performed successfully, presenting CVI and CVR values which indicate high agreement among participants regarding the content, relevance, clarity, and essentiality of the Tool’s items.
DESCRIPTORS:
Central venous catheter; Nursing; Translation; Cross-cultural comparison; Patient safety
RESUMEN
Objetivo: adaptar transculturalmente el Algoritmo CASI al portugués brasileño y su contexto.
Método: estudio metodológico, realizado entre diciembre de 2023 y noviembre de 2024, sobre la adaptación transcultural del Algoritmo CASI al portugués brasileño, siguiendo las directrices de Beaton et al., basado en cinco etapas principales: traducción, síntesis de traducciones, retrotraducción, evaluación por un comité de expertos, preprueba con el público objetivo con traducción de la versión final al inglés y aprobación por los autores. La validación de contenido se obtuvo mediante el Índice de Validez de Contenido y el Índice de Validez de Contenido.
Resultados: la equivalencia semántica, idiomática, cultural y conceptual fue evaluada por un comité de seis expertos, obteniendo un Índice de Validez de Contenido de 0,84. Sesenta y seis enfermeras evaluaron la claridad, la comprensión y la relevancia del algoritmo, obteniendo un Índice de Validez de Contenido (IVC) de 0,92 y una Razón de Validez de Contenido (RVC) de 0,85. Esto indica consenso respecto al contenido del Algoritmo CASI adaptado al contexto brasileño y que coinciden en que sus elementos son cruciales para la finalidad de la herramienta.
Conclusión: la adaptación transcultural del Algoritmo CASI al portugués brasileño se realizó con éxito, presentando valores de IVC y RVC que indican un alto grado de acuerdo entre los participantes respecto al contenido, la relevancia, la claridad y la esencialidad de los elementos de la herramienta.
DESCRIPTORES:
Catéter venoso central; Enfermería; Traducción; Comparación transcultural; Seguridad del paciente
INTRODUÇÃO
Pacientes críticos ou com questões de saúde complexas, em sua grande maioria, carecem de dispositivos de acesso vascular central (DAVC) durante sua estadia hospitalar1. Há uma estimativa de que 8% de adultos e 26% de crianças e adolescentes hospitalizados necessitem de inserção de um DAVC durante seu tratamento2.
Apesar de amplamente utilizados, estes dispositivos estão relacionados a complicações para os pacientes que podem levar ao aumento dos custos hospitalares, piora do prognóstico, maior tempo de internação hospitalar, dor e desconforto para o paciente, além da necessidade de retirada precoce do dispositivo3,4.
A inserção de um DAVC na rede venosa do indivíduo acarreta quebra da integridade da pele no local de inserção do dispositivo, e requer adoção de medidas de manutenção enquanto o dispositivo estiver in situ, como o uso de dispositivos de fixação, coberturas adesivas apropriadas e soluções antissépticas para limpeza da pele circundante1,2,5.
O gerenciamento do sítio de inserção do DAVC é usualmente realizado pelo profissional de saúde responsável, especialmente enfermeiros. Entretanto, problemas como a falta de padronização do cuidado, baixo nível de conhecimento dos profissionais responsáveis ou a utilização incorreta de coberturas adesivas podem levar ao desenvolvimento de danos à pele6,7.
Práticas de gerenciamento inadequadas expõe o paciente ao desenvolvimento de complicações cutâneas como o CASI (Catheter-Associated Skin Injury ou Lesão de Pele Associada ao Cateter), que representa 1,4% a 12% de complicações em DAVC, sendo um dano potencialmente grave e evitável para o paciente2.
Estudo chinês de incidência de CASI em pacientes adultos com PICC (Cateter Central de Inserção Periférica) identificou 173 casos, onde 56,1% (97/173) correspondiam a infecção no sítio de inserção, 16,8% (29/173) exsudação no local, 21,4% (37/173) dermatite irritante, 4,6% (8/173) de dermatite alérgica e 1,2% (2/173) de lesão ocasionada por tensão. Neste estudo os participantes mais propensos ao desenvolvimento de CASI foram idosos, com umidade e sudorese intensa, diabéticos e em uso de quimioterápicos8.
Embora CASI possa estar relacionada aos cuidados de gerenciamento no local do dispositivos5,6, compreende-se que todos os indivíduos com DAVC implantado estão susceptíveis ao desenvolvimento de complicações cutâneas2, características fisiológicas do paciente são um fator de risco significativo para o desenvolvimento dessas lesões como idades extremas, idosos e neonatos9, comorbidades prévias9 e condições da pele10. Entretanto, a causa pode ser multifatorial e outros fatores como trauma na inserção2, alta umidade8, agentes antissépticos para limpeza ao redor do dispositivo11, forças mecânicas para antissepsia da pele9, dispositivos de fixação e o adesivo das coberturas podem estar envolvidos7.
Reconhecendo o problema, em 2017 foi proposto o Algoritmo CASI (CVAD-Associated Skin Impairment Algorithm), uma ferramenta de auxílio para gerenciamento e decisão clínica dos profissionais de saúde responsáveis por dispositivos vasculares com complicações cutâneas ao redor do sítio de inserção destes dispositivos5.
O Algoritmo CASI é dividido em dois domínios sequenciais, o primeiro de avaliação da pele do paciente e o segundo de proteção da pele e promoção do conforto. Também apresenta orientações quanto a utilização de coberturas apropriadas e soluções antissépticas de acordo com o tipo de lesão observada5.
Embora o Algoritmo CASI esteja disponível para a comunidade científica e clínica, sua versão encontra-se apenas em inglês, e não há ferramentas semelhantes disponíveis em português ou adaptadas ao contexto brasileiro para o gerenciamento dessas lesões.
Nesse sentido, torna-se essencial que essa Ferramenta, baseada em evidências científicas, seja disponibilizada e adaptada ao contexto brasileiro, de modo a padronizar o cuidado prestado, promover melhorias na segurança do paciente e elevar a qualidade da assistência. Assim, o objetivo deste estudo foi adaptar transculturalmente o Algoritmo CASI para o português e contexto brasileiro.
MÉTODO
Estudo metodológico de adaptação transcultural para o português e contexto brasileiro do Algoritmo CASI, realizado entre dezembro de 2023 a novembro de 2024. A adaptação transcultural de uma ferramenta para outro contexto cultural exige procedimentos sistemáticos e criteriosos, para garantir sua aplicabilidade e precisão no novo cenário12. Adotou-se o referencial metodológico proposto por Beaton e colaboradores12,13.
Após autorização das autoras principais para adaptação para o português brasileiro iniciou-se o processo de adaptação transcultural (Figura 1). Na primeira etapa, foram realizadas duas traduções iniciais do idioma original (inglês) do Algoritmo para o idioma de destino (português). Para realizar estas traduções, foram contratados dois tradutores bilíngues que tinham como língua materna o idioma brasileiro, um dos quais era da área da saúde. Cada tradutor realizou uma tradução independente com o intuito de obter uma versão aproximada congruente entre ambos os tradutores.
Na segunda etapa, as versões traduzidas pelo Tradutor 1 (T1) e Tradutor 2 (T2) foram sintetizadas, resultando em uma versão inicial de tradução chamada de T1-2. A síntese foi realizada em conjunto pelos pesquisadores e os entraves relacionados a traduções com ambiguidades semânticas, as quais poderiam resultar em interpretações divergentes, foram solucionados por meio de uma reunião entre estes.
A terceira etapa compreendeu o processo de tradução reversa para o inglês da versão T1-2 do Algoritmo CASI por dois tradutores bilíngues no inglês para avaliar potenciais erros de tradução e incoerências conceituais. Assim, gerando duas traduções reversas (RT1 e RT2), após foi realizado o processo de síntese pelos pesquisadores por meio de discussão e comparação com a versão original em reunião para solucionar erros conceituais ou de tradução, gerando então a tradução reversa comum chamada de RT1-2.
Na quarta etapa, a versão inicial do Algoritmo CASI traduzido para o português (T1-2) foi submetida à avaliação de um Comitê de Especialistas, compostos por enfermeiros especialistas em terapia infusional, com experiência em adaptação transcultural de instrumentos, e um professor de línguas especializado em traduções de documentos. Os especialistas foram selecionados por meio de uma busca avançada na Plataforma Lattes, utilizando filtros por “atuação profissional” na área de “Ciências da Saúde” e “Enfermagem”, e convidados a participar da pesquisa via e-mail. Após a anuência, receberam um link do Google Forms ® contendo os 13 itens do algoritmo juntamente com o questionário de avaliação.
O questionário de avaliação pelos especialistas foi elaborado com vistas a avaliar as quatro dimensões fundamentais consideradas em adaptações transculturais: equivalência semântica (“A tradução possui o mesmo significado ou similar ao da versão original?”), equivalência idiomática (“Expressões idiomáticas e/ou palavras de tradução difícil do instrumento original foram substituídas por palavras equivalentes?”), cultural (“A tradução destes itens possui relação com o contexto cultural da população na qual a Ferramenta será aplicada?”), e conceitual ( “A tradução deste item apresenta palavras com significados conceituais equivalentes à versão original do instrumento?”). Além dessas quatro dimensões principais, incluiu-se também uma pergunta sobre a correção gramatical da tradução, completando assim a avaliação linguística do algoritmo.
Cada um dos 13 itens que compunham o algoritmo foi avaliado individualmente pelos especialistas utilizando uma escala do tipo Likert (1=nenhuma equivalência, 2=pouca equivalência, 3=média equivalência, 4=muita equivalência, e 5=total equivalência) para obtenção das equivalências. Nos casos em que as opções escolhidas fossem as opções 1, 2 ou 3 foi solicitado que indicassem sugestões para possível modificação. Assim, a partir dos resultados da escala, foi calculado Índice de Validade de Conteúdo (IVC) para cada item, utilizando a fórmula IVC = (número de respostas 4 ou 5) / (número total de respostas), adotando-se 0,80 como ponto de corte para validação14,15.
O IVC mensura o grau em que o conteúdo dos itens é considerado relevante e apropriado dentro de determinado contexto14. Dessa forma, o IVC avaliou a congruência quanto a opinião dos especialistas sobre o conteúdo dos itens, neste caso as equivalências da tradução para o português brasileiro15. Essa abordagem metodológica rigorosa permitiu garantir que a versão adaptada mantivesse as propriedades originais enquanto se adequava ao contexto brasileiro, e sua aplicabilidade na prática clínica nacional14,15.
A quinta etapa foi iniciada após obtenção da validade de conteúdo junto aos enfermeiros, e compreendeu a avaliação quanto a compreensão, clareza e relevância da versão adaptada do Algoritmo CASI pelo público-alvo. De acordo com o referencial metodológico adotado é necessário a participação mínima de 30 a 40 representantes do público-alvo nesta etapa12,13. A seleção da amostra inicial foi realizada por conveniência, com os participantes iniciais identificados por meio de filtragem na Plataforma Currículo Lattes, na área de “Enfermagem”. Esses indivíduos foram contatados via correio eletrônico. Posteriormente, adotou-se a técnica de amostragem em bola de neve (snowball sampling), na qual os participantes indicaram outros profissionais qualificados para integrarem o estudo e estes foram então contatados via e-mail ou WhatsApp ®. Os critérios de inclusão consistiram em ser enfermeiro assistencial ou docente de curso de graduação em enfermagem. Não foram incluídos graduandos em enfermagem e, como critério de exclusão, considerou-se o preenchimento incompleto do questionário de avaliação.
Instrumento estruturado em dois blocos foi criado para o pré-teste como público-alvo. O primeiro bloco continha as variáveis de caracterização dos participantes e o segundo bloco as variáveis de compreensão, clareza e relevância. O instrumento foi disponibilizado por meio do Google Forms ®para os participantes, e estes avaliaram os itens do algoritmo em sua totalidade utilizando uma escala do tipo Likert (1=muito ruim, 2=ruim, 3=nem boa nem ruim, 4=boa, 5=muito boa). Nos casos em que a opção escolhida fosse igual ou menor a três foi solicitado que os participantes deixassem sugestões para posterior discussão entre os pesquisadores. Os dados foram analisados por meio do Standard Statistical Software (SPSS) versão 29.0. A análise descritiva foi realizada para caracterizar a amostra e aplicou-se o IVC e o CVR (Razão de Validade de Conteúdo) com intuito de avaliar o conteúdo do Algoritmo pelos participantes, medindo a clareza, compreensão e relevância da Ferramenta16,17.
A Razão de Validade de Conteúdo (Content Validity Ratio - CVR) é definida como medida de validação de conteúdo com foco na essencialidade dos itens. Seu objetivo é garantir que os elementos realmente indispensáveis componham a ferramenta. Neste estudo, o RVC foi utilizado para mensurar a essencialidade do conteúdo traduzido do Algoritmo.16,17. Os valores de CVR variam de -1 (discordância total) a +1 (concordância total), sendo que valores superiores a zero indicam que mais da metade dos participantes consideram o conteúdo essencial. Além disso, o valor de CVR crítico varia conforme o tamanho da amostra, este valor refere-se a um número crítico que deve ser atingido para ser considerado adequado, que neste caso o valor crítico é 0,3 conforme referencial adotado17.
O CVR foi calculado para a Ferramenta em sua totalidade considerando compreensão, clareza e relevância, utilizando a fórmula CVR-I = (Ne - N/2) / (N/2), em que Ne representa o número de enfermeiros que responderam "concordo” e “concordo totalmente" e N o número total de participantes. Posteriormente, foi calculado a média do CVR pela soma dos valores individuais dividida pelo número total de itens na avaliação que neste caso são três (compreensão, clareza e relevância) 16,17.
Destaca-se que o estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina e todos os participantes do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS
A tradução do algoritmo obteve o título de “Algoritmo de Lesão de Pele Associado a Dispositivo de Acesso Vascular Central - Algoritmo CASI” para a versão brasileira (Figura 2). A etapa de tradução, síntese e tradução reversa seguiu conforme estabelecido anteriormente. Apesar das versões T1 e T2 serem bastante parecidas, durante o processo de síntese alguns itens foram ajustados para melhor adequação na versão inicial T1-2, esta etapa foi finalizada após discussão entre os pesquisadores. Na tradução reversa não foram encontradas discrepâncias significativas entre esta e a versão original, mantendo o significado original das palavras.
Versão Brasileira do Algoritmo de Lesão de Pele Associada ao Dispositivo de Acesso Vascular Central - Algoritmo CASI.
Na etapa do comitê de especialistas, foram convidados vinte e dois especialistas e obteve-se a resposta de seis. Destes cinco eram enfermeiros, doutores, especialistas em terapia infusional, estomaterapia e apresentavam experiência em metodologia de adaptação transcultural de instrumentos, e o sexto especialista era professor de Língua Inglesa. Todos apresentavam proficiência em língua inglesa e familiaridade com a mesma.
Os itens do Algoritmo CASI foram avaliados pelos especialistas quanto às equivalências, resultando em um IVC para cada equivalência, conforme demonstrado na Tabela 1. Destaca-se que todas as dimensões analisadas obtiveram valores de IVC acima do ponto de corte estabelecido (0,80), demonstrando que a opinião dos especialistas estão compatíveis quanto a adequação do conteúdo traduzido e adaptado com um IVC geral de 0,84. Esses resultados indicam que a versão adaptada do Algoritmo CASI para o português brasileiro preserva o significado original em todas as dimensões avaliadas, confirmando sua validade de conteúdo para o uso proposto.
Algumas alterações foram realizadas conforme sugestões recomendadas pelos especialistas. Estas mudanças focaram-se especialmente na adequação de termos, além de ajustes quanto as siglas e palavras com significado ambíguo no português. No que tange ao título, manteve-se a sigla CASI devido ao uso amplamente divulgado na literatura, e optou-se pela padronização do termo CVAD, do inglês Central Vascular Access Device, para o português Dispositivo de Acesso Vascular Central (DAVC). Além disso, o termo “curativo” foi modificado em todo o algoritmo para “cobertura”, o termo “sítio de inserção” foi padronizado em todo o texto nos casos em que o termo estava traduzido como “local de inserção” e “filme de barreira sem álcool” para “protetor cutâneo sem álcool (swab)”.
Houve discordância entre os avaliadores quanto ao termo “skin tears” e sua tradução para português brasileiro, o que poderia gerar erro na interpretação por ter sido traduzida inicialmente como “cortes” ou “laceração”, resultando em discussão entre os pesquisadores e busca na literatura quanto a nomenclatura para este termo. Em consenso foi optado pelo uso do termo “Lesão por fricção”, amplamente utilizado para lesões causadas por cisalhamento, fricção ou força bruta que resulta em uma divisão na pele de dimensão total ou parcial 18,19.
Na etapa correspondente ao pré-teste com o público-alvo, participaram sessenta e seis enfermeiros, na maioria com especialização (45,5%), com idade média de 35,38 anos (±9,38) e tempo médio de atuação profissional de 9,72 anos (±8,58) (Tabela 2).
Caracterização dos enfermeiros participantes da etapa de avaliação pelo público-alvo. Florianópolis, SC, Brasil, 2024. (n=66)
Quanto à área de atuação, a maioria atuava na assistência (75,8%), com 33,3% envolvidos em pesquisa, 31,8% no ensino, 13,6% em consultoria ou vendas e 6,1% na gestão. A distribuição regional revelou maior concentração no Sul (39,4%) e no Nordeste (31,8%), seguidos pelo Sudeste (22,7%), Norte (4,5%) e Centro-Oeste (1,5%).
A avaliação quanto clareza, compreensão e relevância pelos enfermeiros obteve IVC de 0,92, indicando que a adaptação do conteúdo proposto está adequada para os objetivos estabelecidos (Tabela 3). Além disso, o CVR calculado para o público-alvo foi de 0,85, valor acima do índice de corte (CVR=0,3), o que demonstra consenso entre os participantes sobre a relevância, a compreensão e a clareza dos itens. Não houve sugestões para alterações por parte do público-alvo, resultando na manutenção de todos os itens na versão final.
DISCUSSÃO
Dado o uso frequente de DAVC na prática clínica, espera-se que os profissionais de saúde responsáveis estejam devidamente capacitados para gerenciar esses dispositivos seguindo as melhores práticas disponíveis5,19. O uso de ferramentas que apoiem esses profissionais em suas atividades pode contribuir para melhorar a tomada de decisão clínica e prevenir possíveis complicações associadas ao uso desses dispositivos2,20.
O Algoritmo CASI se configura como uma ferramenta importante de auxílio para os profissionais de saúde frente as lesões de pele ao redor de DAVC5. Devido à carência de ferramentas que apoiem os profissionais brasileiros diante dessas complicações, tornou-se fundamental adaptar esta ferramenta já disponibilizada para a comunidade científica e clínica. Estudos indicam que adaptar ferramentas já disponibilizadas é melhor indicado frente a criação de novos instrumentos em uma nova língua, uniformizando o processo assistencial em todas as culturas21,22.
De acordo com a literatura, ainda não há consenso sobre a metodologia ideal para adaptar uma ferramenta a diferentes contextos culturais23. Contudo, destaca-se que esse processo deve ir além de uma simples tradução, exigindo uma adaptação que considere o contexto no qual será inserido, a população-alvo e as características específicas da ferramenta 21,23.
A adaptação do Algoritmo CASI seguiu um processo metodológico preciso e rigoroso, visando garantir que o algoritmo, em sua versão traduzida, seja capaz de reproduzir fielmente a função para o qual foi originalmente idealizado, no novo contexto em que será aplicado12-14,22.
Para assegurar equivalência adequada entre a versão original do Algoritmo e a versão adaptada, foram adotadas as diretrizes recomendadas por Beaton e colaboradores12,13. A metodologia proposta por este referencial é amplamente reconhecida nos estudos de adaptação transcultural na área da saúde, sendo um dos métodos mais empregados em pesquisas dessa natureza19,22-24.
Após a tradução inicial e os ajustes realizados em conjunto pelos pesquisadores, a validade das equivalências obtidas junto ao comitê de especialistas foi assegurada seguindo as recomendações da metodologia proposta. O IVC obtido foi de 0,84, indicando adequação do conteúdo adaptado pelos avaliadores14. Considerando que não há consenso sobre a quantidade ideal de especialistas para essa etapa, optou-se por formar um comitê com experiência específica no conteúdo do algoritmo, garantindo assim uma avaliação qualificada do construto adaptado24.
O comitê contou com seis especialistas incluindo cinco enfermeiros doutores em terapia infusional/estomaterapia e um linguista especializado. Como mencionado, todos os especialistas apresentavam experiência comprovada na área, produção científica relevante e proficiência em inglês. Apesar do número limitado de participantes, a expertise garantiu avaliações rigorosas, atingindo as recomendações mínimas indicadas na literatura14,15, e obtendo excelentes índices de validade de conteúdo (IVC = 0,84)15, demonstrando que, em estudos de validação, a qualificação técnica dos avaliadores é determinante para assegurar resultados confiáveis25.
Além disso, destaca-se que o Algoritmo CASI junto à população-alvo obteve índices de avaliação adequados quanto ao conteúdo adaptado, com IVC de 0,92 e CVR de 0,85. Esses valores indicam que os itens foram bem elaborados e atendem às expectativas e necessidades da população, o que garante que o conteúdo é relevante e significativo16,17.
O IVC de 0,92 reflete a concordância entre os enfermeiros sobre a relevância, clareza e adequação dos itens em relação ao construto adaptado. Valores acima de 0,78 são considerados excelentes, sugerindo que o conteúdo proposto é altamente representativo do que se pretende medir15. Por outro lado, o CVR de 0,85 (que varia de -1 a +1) demonstra que a maioria considerou os itens essenciais para a Ferramenta, sendo que o CVR acima de 0,3 (índice mínimo para o grupo de 66 participantes, como neste caso) indica que os itens são fundamentais e devem ser mantidos17.
A combinação do resultado do IVC e CVR reforça a validade de conteúdo da ferramenta, proporcionando maior confiança na precisão e na utilização do Algoritmo CASI para os objetivos que o mesmo se propõe15.
É importante destacar que as complicações cutâneas associadas aos cateteres vasculares são desconfortáveis, causam alterações na imagem da pele e podem progredir para alterações sistêmicas como infecções de corrente sanguínea ou falha do cateter2,9,26.
As diretrizes internacionais de prática clínica têm consistentemente recomendado o uso de tecnologias que ofereçam evidências de alta qualidade para apoiar os profissionais em sua prática diária1,27. Com o aumento de estudos demonstrando a elevada taxa de CASI em dispositivos vasculares, é considerável que ações coordenadas e sistemáticas para prevenir esses danos sejam implementadas4,8,26.
Estudo de coorte prospectivo multicêntrico, conduzido em duas unidades de terapia intensiva com pacientes adultos brasileiros, identificou incidência de 31,8% (44/138) de lesões cutâneas em sítios de inserção de DAVCs. Este resultado pode ser atribuído a múltiplos fatores, como a própria condição clínica de pacientes críticos, que apresentam maior vulnerabilidade na integridade da pele, às características dos adesivos médicos e ao trauma mecânico causado pela aplicação e remoção repetitiva das coberturas28.
Diante da elevada prevalência de lesões cutâneas associadas a dispositivos intravasculares no Brasil, que apresenta taxas entre 28,5%10 e 31,8%28, a adaptação do Algoritmo CASI para o contexto nacional configura-se como uma iniciativa crucial e oportuna para subsidiar a padronização de cuidados e a melhora da segurança do paciente.
As autoras principais aprovaram a versão final em português do Algoritmo CASI. Ressalta-se que este é o primeiro estudo de adaptação transcultural do Algoritmo CASI para outro contexto cultural, além disso, não existe nenhuma outra ferramenta disponível em português ou dentro da prática clínica para apoiar os profissionais que lidam com danos cutâneos associados a estes dispositivos.
Apesar do sucesso na adaptação transcultural, estudos futuros são necessários para avançar na validação psicométrica do algoritmo, particularmente por meio de testes de confiabilidade (teste-reteste e interobservadores) e validação de critério contra padrões-ouro clínicos.
O estudo apresenta como principal limitação a baixa taxa de adesão ao Comitê de Especialistas, refletindo um desafio metodológico comum em estudos de validação e a baixa representatividade de participantes da região Centro-Oeste na etapa com o público-alvo, o que pode limitar a generalização dos resultados para essa região devido a diferenças regionais em práticas clínicas e recursos. Embora o tamanho amostral tenha atendido às recomendações do referencial metodológico adotado12,13, essa disparidade reforça a necessidade de futuros estudos com maior equilíbrio regional. Além disso, a ferramenta ainda não passou por validação clínica, constituindo outra limitação do estudo, uma vez que sua efetividade e aplicabilidade em situações reais de prática clínica ainda precisam ser confirmadas.
CONCLUSÃO
A adaptação transcultural do Algoritmo CASI para o contexto brasileiro foi conduzida com rigor metodológico, assegurando a relevância e aplicabilidade da ferramenta em um novo cenário cultural.
Os achados apontam para a adequação do Algoritmo em termos de representatividade dos itens para prática clínica. A disponibilização desse Algoritmo pode auxiliar os profissionais de saúde na tomada de decisões mais precisas e oportunas relacionadas às complicações cutâneas em pacientes com DAVC, promovendo melhores desfechos e contribuindo para a qualidade do cuidado no Brasil. A continuidade de estudos sobre a eficácia clínica do Algoritmo CASI é recomendada para fortalecer sua aplicação no cenário clínico.
AGRADECIMENTO
Agradecemos as autoras Daphne Broadhusrt e Amanda Ullman pela disponibilização da Ferramenta.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Pesquisa vinculada como um subprojeto do Projeto “Intervenções tecnológicas para prevenção de eventos adversos no uso de dispositivo de acesso vascular na população pediátrica” (CNPq/MCTI No 10/2023 - UNIVERSAL, Processo 406103/2023-2), vinculado a Universidade Federal de Santa Catarina.
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FINANCIAMENTO
Este trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Processo 406103/2023-2 e por meio da Bolsa de Produtividade em Pesquisa - Nível 2 (Chamada CNPq No 09/2022 - Processo 309565/2022-7) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) por meio da Bolsa de Doutorado, Processo 88887.980176/2024-00.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina, parecer nº 6.603.355, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 75322723.9.0000.0121.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente (Sayonara Stéfane Tavares de Moura). O conjunto de dados não está publicamente disponível devido ao fato de conter informação que compromete a privacidade dos participantes da pesquisa.
Editado por
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente (Sayonara Stéfane Tavares de Moura). O conjunto de dados não está publicamente disponível devido ao fato de conter informação que compromete a privacidade dos participantes da pesquisa.



Fonte: Adaptado de Beaton e colaboradores