RESUMO
A partir de uma pesquisa exploratória, são aqui observados os riscos discursivo-narrativos presentes nos meios de comunicação hegemônicos e não hegemônicos ao tratarem notícias ambientais atualmente no Brasil. Se, de um lado, o catastrofismo apocalíptico está à espreita ao se noticiar desastres ambientais, por acirramento das mudanças climáticas e/ou da inoperância de setores responsáveis, por outro se avistam aspectos da banalização, naturalização ou negação dos problemas ecológicos. Através dos conceitos de guerras narrativas e eco-comunicação, e do instrumental da Análise Crítica da Narrativa, este artigo identifica a estabilização dos discursos catastróficos e negacionistas em meios de comunicação no país, expondo suas marcas discursivas mais evidentes. No entanto, os resultados da investigação também apontam para práticas de linguagem que podem ser consideradas decoloniais, pois indicam a emergência de uma terceira via de construção narrativa, por sua vez ligada aos movimentos em prol de futuros possíveis.
Palavras-chave:
guerras narrativas; eco-comunicação; negacionismo climático; discurso; análise crítica da narrativa.
ABSTRACT
Based on an exploratory research, we observe here the discursive-narrative risks present in the hegemonic and nonhegemonic media when dealing with current environmental news in Brazil. If, on the one hand, apocalyptic catastrophic bias is lurking when environmental disasters are reported, due to the intensification of climate change and/or the ineffectiveness of responsible sectors, on the other hand, we see aspects of trivialisation, naturalization or denial of ecological problems. Through the concepts of narrative wars and eco-communication, and the instruments of Critical Narrative Analysis, this article identifies the stabilization of catastrophic and denialist media discourses in the country, exposing its most evident discursive marks. However, the investigation results also point to language practices that can be considered decolonial, as they indicate the emergence of a third way of narrative construction, in turn linked to movements to ensure possible futures.
Keywords:
narrative wars; eco-communication; climate change denial; discourse; critical analysis of the narrative
INTRODUÇÃO
Mudanças climáticas correspondem a mudanças discursivas, a mudanças narrativas. Mais que isso: a crise ambiental e civilizacional vivenciada em nível planetário é, em si, uma crise narrativa, segundo lideranças de povos indígenas brasileiros que estão na linha de frente de seu enfrentamento (Danowski; Viveiros de Castro, 2014; Krenak, 2019). Guerras narrativas têm se acirrado em contextos globais de informação via internet por agências transnacionais, meios de comunicação, redes sociais e parte da indústria de entretenimento (Chã, 2018; Cook, 2020; Ramirez, 2024; Carvalho, 2024), evidenciando fenômenos como o negacionismo climático. Uma vez que as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e o colapso da biosfera como um todo se impuseram discursivamente como verdade inconveniente - para utilizar um termo caro a Isabelle Stengers - em meios de comunicação, redes, produções literárias e audiovisuais, dois riscos principais têm se apresentado: catastrofismo por um lado e banalização e negacionismo por outro (Fonseca, 2024). Se qualquer um desses lados vencer, o mundo todo perde. Pode-se dizer que, no sentido discursivo-narrativo, o mundo inteiro hoje está em guerra. E „tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer“ (Benjamin, 2012 [1940], p. 244).
A partir das noções de guerras narrativas e eco-comunicação, este trabalho observa de modo exploratório como meios brasileiros hegemônicos e também os que se apresentam como não-hegemônicos têm lidado com tais riscos discursivos e semânticos, buscando verificar se, além desses pontos extremos, há espaço para comunicar o bem comum, os vínculos com o território, as possibilidades de futuro. Busca-se igualmente verificar a conexão entre os meios não hegemônicos e as produções ligadas a movimentos sociais, povos originários e organizações de base comunitária, ou seja, examinar como têm se desenvolvido novas construções narrativas fora dessa zona de risco, que sejam conformadas como eco-comunicação. Nesse processo, serão melhor definidos e articulados os conceitos de guerras narrativas e eco-comunicação (Fonseca, 2024), além do aporte da Análise Crítica da Narrativa (Motta, 2013), o que permite interface com as teorias da Linguagem, da Comunicação e da Ecologia Política.
Na primeira parte do artigo, com ferramentas da Análise Crítica da Narrativa, são apresentados exemplos de materialização linguístico-discursiva dos níveis de poder da narração jornalística, em uma comparação entre os jornais diários Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Valor Econômico, no tocante à cobertura informacional do novo dia do fogo, 23 de agosto de 2024. Antes, porém, a questão da narrativa é brevemente colocada.
Na segunda parte, observam-se dois meios não hegemônicos, suas principais características em termos de uso da linguagem ao tratar de notícias sobre meio ambiente, suas construções linguísticas, com escolhas lexicais que possam se configurar como índices interpretativos de sua posição discursiva. Os textos considerados foram veiculados em abril de 2024 em Sumaúma e junho e julho do mesmo ano na Agência Pública.
Em ambas as partes, o objetivo é tanto levantar evidências em meios de comunicação dos riscos discursivonarrativos de catastrofismo, de um lado, e banalização e negacionismo de outro, quanto observar a configuração de guerras narrativas em relação a problemas ambientais no Brasil, sobretudo no que diz respeito às mudanças climáticas. É possível observar guerras narrativas em relação a esse tema hoje no Brasil e sob quais índices de interpretação? É possível identificar a estabilização dos discursos catastróficos e negacionistas em meios de comunicação atualmente no país? Há perspectivas discursivo-narrativas outras, que configurem a construção de alternativas ao fim do mundo e ao negacionismo? A partir da hipótese de que existem tais perspectivas, investigamse as configurações do que pode ser considerado eco-comunicação - a capacidade de comunicar o incomunicável, o colapso climático e da biodiversidade, sem, no entanto, desvincular-se do território e das lutas sociais em prol de futuros possíveis.
1. AS NARRATIVAS DE GUERRA E AS GUERRAS NARRATIVAS
Narrativas podem se configurar como base ideológica de guerras, como armas de guerra e como resultado de guerra. Ou seja, estão presentes na origem, no processo e nos resultados das guerras. Sabe-se que guerras armadas não são a única configuração possível. As chamadas revoluções coloridas e a guerra não convencional são dois componentes que dão origem à teoria da guerra híbrida, segundo Koribko (2018, p. 11-13), para quem „a guerra indireta é uma das formas mais eficazes de combater um inimigo“, pois permite, dentre outras vantagens, „que um oponente derrote o adversário sem enfrentá-lo diretamente“. Postas em ação a partir de pressupostos geopolíticos, a mecânica central das guerras híbridas conta com dois fatores que particularmente interessam aqui: informação e mídia.1
Ao analisar a guerra na Ucrânia, Fiori (2023, itálico no original) coloca como certo que „todos os critérios conhecidos e utilizados até hoje para julgar as guerras sempre estiveram comprometidos com os valores, os objetivos e as narrativas das partes envolvidas no conflito“, sobretudo da parte vencedora. Se, no caso das guerras híbridas, fala-se de narrativas como meio, como parte do processo da própria guerra, aqui se destaca seu papel posterior, como resultado: parte vencedora, narrativa dominante.
Guerras narrativas têm constituído a vida diária, nas mais distintas configurações: de meios hegemônicos e não hegemônicos a veiculações individualizadas multiplataformas, que Koribko (2018, p. 131) nomeia como „nova mídia“, em oposição a „mídia tradicional“. Essas guerras narrativas começam a ser percebidas não somente como posicionamento editorial de meios de comunicação, mas como força incentivada pelas principais plataformas digitais que atuam em nível global através da monetização, geralmente por interesses comerciais ou patrocínio de grupos interessados em difusão de fake news, desinformação e negacionismo, ligados a ideologias conservadoras de direita ou ultradireita (Lourenço, 2024; Ramirez, 2024).
Em “O narrador”, Benjamin (2012 [1936], p. 213) observou que a própria arte de narrar estava em extinção. “É como se estivéssemos sendo privados de uma faculdade que nos parecia totalmente segura e inalienável: a facilidade de intercambiar experiências”. Em momentos de grande terror, como aquele entre duas grandes guerras em que o autor se encontrava, e, da mesma forma, como o da vida contemporânea, com a iminência de colapsos climático-ambientais cada vez maiores, a experiência comunicativa falha e as narrativas são embaraçosas - hoje em intensidade elevada devido ao excesso de informação produzido pela intermidialidade digital.
O conhecimento a um clique, a sabedoria instantânea. Doce ilusão. A desinformação entrou em cena para nos mostrar que estamos expostos a um sem número de informações falsas, imprecisas, adulteradas, equivocadas, parcialmente corretas ou propositadamente “editadas”. Essa avalanche da “má informação” nos confunde, angustia, deprime, imobiliza (Alves, 2022).
Vive-se cada vez mais em um fogo cruzado de informações e contra-informações. No novo dia do fogo do estado de São Paulo, em 23 agosto de 2024, como será visto adiante, duas narrativas entraram em guerra: uma apresentava a suspeita de que os incêndios foram planejados, coordenados, outra afirmava que os incêndios atingiram a proporção observada por força, apenas, de condições climáticas específicas, como baixa umidade relativa do ar, calor e vento. A primeira foi defendida pelo presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, respaldado por imagens do satélite GOES da Administração Nacional Norte-Americana da Aeronáutica e do Espaço, a NASA. A segunda, pelo governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (do partido Republicanos). Como será visto à frente, os meios de comunicação oscilaram entre as duas narrativas, ora destacando as suspeitas do presidente do Ibama, ora, mais frequentemente, reproduzindo as afirmações do governador. Para Alves (2022):
Durante uma guerra, uma pandemia e uma crise climática como a que estamos vivendo, informações precisas são uma fonte de segurança emocional, física e digital. Elas são fundamentais para a nossa integridade corporal, a de nossos filhos, das nossas comunidades, para o equilíbrio da nossa saúde mental, para a estabilidade das nossas finanças, instituições, governos e do próprio planeta, e também para a construção das nossas identidades sociais e culturais. Por tudo isso precisamos saber se as informações que estamos acessando são confiáveis.
Mas nem sempre são. Por vezes caracterizam-se como narrativas fantasiosas. Os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho, resultados da mineração em Minas Gerais, nos anos de 2015 e 2019, respectivamente, mostraram-se também como desastres narrativos. O rompimento da barragem da Samarco, mineradora cujas acionistas são a Vale e a BHP Billiton, em Mariana, gerou processos além dos que configuram o desastre como crime ambiental ou exigem indenização e recuperação de áreas. As empresas foram condenadas na Justiça Federal ao pagamento de R$ 56 milhões de danos materiais e morais por narrativa fantasiosa, uma vez que a Renova, entidade fundada pelas mineradoras para gerenciar as reparações sociais, ambientais e indenizatórias, apresentou ações configuradas como uma campanha de marketing, não como reparações de fato:
Segundo o juiz Vinícius Cobucci, as peças veiculadas pela entidade tentam romantizar a reparação, são destinadas à autopromoção, relativizam o sofrimento dos atingidos. Ele considerou que houve “verdadeira campanha de desinformação, com o intuito de minimizar o impacto do rompimento da barragem” e avaliou que a “tentativa de controle da narrativa para criar uma campanha orquestrada de desinformação não é apenas imoral, como ilegal” (Rodrigues, 2024).
Veiculada primeiramente pela Agência Brasil, a notícia foi replicada por meios hegemônicos, como Folha de S. Paulo.
Uma guerra narrativa é ao mesmo tempo política e poética, pois envolve relações de poder e a construção de percepções de mundo, com elementos da categoria do sensível e do simbólico. De qualquer modo, todas as guerras são também guerras narrativas (Fonseca, 2024), disputam imaginários e registros na memória. São, simultaneamente, nos termos de Pêcheux (1997), estrutura e acontecimento: processos discursivos, subjetivos, ideológicos materializam-se através da materialidade linguística, no incessante jogo entre intra e interdiscurso.
Essa aproximação engaja concretamente maneiras de trabalhar sobre as materialidades discursivas, implicadas em rituais ideológicos, nos discursos filosóficos, em enunciados políticos, nas formas culturais e estéticas, através de suas relações com o cotidiano, com o ordinário do sentido (Pêcheux, 1997, p. 49).
Uma observação: as aqui colocadas guerras narrativas não têm similaridade com a noção de guerras de narrativas que frequentemente se alinha, na superfície, à ideologia „nem direita, nem esquerda“ e, mais profundamente, à própria direita. Convencionou-se falar no Brasil nas duas últimas décadas em disputa de narrativas para se referir, sobretudo, a posicionamentos ideológicos frequentemente polarizados. O termo tem sido usado para se referir tanto a duas versões ou opiniões sobre um mesmo fato ou processo quanto a duas visões diferentes de mundo. Já o termo guerra de narrativas serviu a alguns palestrantes e autores de livros para reforçar discursos contra os governos do Partido dos Trabalhadores de 2014 até as eleições presidenciais de 2018, quando o partido foi derrotado pela primeira e até agora única vez no século. Para distanciar-se do sentido comum de disputa de narrativas, da polarização e sobretudo do alinhamento à direita de guerras de narrativas, bem como para trabalhar com um espectro semântico mais ampliado das narrativas em jogo, optou-se aqui pelo termo guerras narrativas. Rolnik (2019), por exemplo, vai se referir à disputa de narrativas sobre as cidades, a financeirização dos territórios e as políticas públicas urbanas, e Fonseca (2024) sobre as narrativas do fim do mundo tal como é conhecido hoje, ambas em espectro ampliado se comparado à mera polarização política.
2. NARRATIVAS DA ÁGUA E DO FOGO
No fim de um mundo melancólico os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas que ardem como o sol. João Cabral de Mello Neto, „O fim do mundo“, 1945
Chuvas e inundações inéditas e mal gerenciamento do poder público estadual colocaram parte do Rio Grande do Sul sob a água em maio de 2024. Os meios de comunicação ainda noticiavam os efeitos dessa catástrofe socioambiental quando outros pontos do país começaram a literalmente queimar. Em agosto de 2024 uma espessa camada de fumaça oriunda dos incêndios em dois biomas, a Amazônia e o Pantanal, cobriu todas as regiões do Brasil, com exceção do Nordeste, criando o efeito do sol cor de laranja. O Cerrado foi o próximo bioma a arder. E, entre 22 e 27 de agosto de 2024, mais de 44.600 hectares em áreas agrícolas do estado de São Paulo foram transformados em fuligem. O governo do estado estimou que as perdas superariam R$1 bilhão. Até 29 de agosto, prefeitos de 118 cidades do país decretaram emergência, sendo 51 somente de São Paulo. Foram 4,4 milhões de pessoas diretamente impactadas pelos incêndios.2
Cinco anos antes, o dia 11 de agosto de 2019 ficou conhecido como o dia do fogo, com incêndios devastando partes da Amazônia e tendo como epicentro Novo Progresso, município do Pará reconhecido como conservador, de direita, anti-indígena, anti-preservação da natureza, pró-armas, pró-agropecuária. Aquele era o primeiro ano de um governo federal alinhado às mesmas características representadas por Novo Progresso. Estabelecer relação entre os meses de agosto de 2019 e de 2024 e levantar a hipótese de que se tentava reproduzir, cinco anos depois, um dia do fogo ainda mais amplo e assustador para colocar na conta do atual governo federal fazia algum sentido. A hipótese foi reforçada pelos seguintes fatos: houve um dia e um horário de pico para disseminação dos maiores incêndios no estado de São Paulo, em 23 de agosto; os incêndios ocorreram, em sua ampla maioria, em áreas de agronegócio, com destaque para fazendas de cana de açúcar; e em todas o fogo começou a partir de estradas.
Os incêndios atingiram grandes proporções, chegaram a condomínios de classe alta, causaram adoecimento, morte, desocupação de moradias, bloqueios de rodovias, cancelamento de viagens aéreas, perdas de áreas naturais primárias, secundárias (regeneradas) ou de uso agropecuário, e uma fumaça tóxica cobriu praticamente todo o estado de São Paulo por alguns dias. Até a quinta-feira, 29 de agosto de 2024, conforme noticiado em diversos meios, seis homens haviam sido presos em flagrante no estado por atear fogo em matas e principalmente áreas de domínio agropecuário. Em Goiás, um homem preso pelo mesmo motivo declarou à polícia que recebeu R$300,00 para iniciar um incêndio em dada área. Segundo ele, as motivações eram políticas, mas não saberia dar mais detalhes.
O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, levanta a suspeita de que os incêndios em alguns estados, inclusive São Paulo, foram ações coordenadas e, portanto, criminosas.3 O próprio Ibama e a Polícia Federal iniciaram as investigações. Imagens do satélite GOES/ NOAA/ NASA revelaram anomalia térmica no estado de São Paulo no dia 23 de agosto, com intensificação anormal de focos de fogo e linhas de fumaça a partir das 12h30, horário de baixa umidade relativa do ar (Garrido, 2024). Elas foram divulgadas pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fez declarações descartando a suspeita de ações coordenadas, premeditadas.
Os grandes jornais hegemônicos do país aqui consultados - segundo critérios como tiragem, área de abrangência e acesso a versões digitais (Fonseca; Amato, 2017) - apresentaram matérias completas sobre o tema na edição de 27 de agosto, depois de divulgadas as imagens de satélite e a animação em time lapse do estado de São Paulo relativas ao dia 23 (disponível em Garrido, 2024). Entre o novo dia do fogo, 23, e o dia das principais edições sobre o tema, 27, vieram à tona tanto a suspeita liderada pelo presidente do Ibama de que se trataria de incêndios criminosos quanto a negativa do governador de São Paulo sobre os incêndios serem criminosos. Também vieram à tona os resultados das queimadas, como número de mortos e desabrigados, prejuízos nas lavouras e nas zonas urbanas, especialmente na região de Ribeirão Preto, informações sobre pessoas detidas, previsão do tempo etc. A seguir, o levantamento do que publicaram sobre o tema os principais jornais.
Destacam-se os elementos verbais e, nas imagens em screenshot dos jornais, a seguir, os elementos não verbais que colaboram para a construção de sentidos, segundo Silva e Hashiguti (2013), tais como fotografias, gráficos, corpo da letra e diagramação. Foi utilizada técnica de sombreamento do tipo benday nas imagens para destacar as partes consideradas neste trabalho. Foram colocados na legenda das imagens os links correspondentes às matérias aqui utilizadas. Cabe destacar, porém, que nem sempre os meios disponibilizam online exatamente o mesmo texto publicado em edição impressa. Nesses casos foram inseridos links de matérias semelhantes do mesmo meio.
I. O jornal Valor trouxe para a capa do dia 27 uma chamada que considera as duas posições, a do governo do estado, encabeçada pelo governador, e a de órgãos nacionais, como o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), esta última respaldada pelo cientista Carlos Nobre, maior especialista em estudos sobre o clima do país, referenciado internacionalmente por seus estudos sobre a Amazônia. Na capa, Valor apresenta as duas narrativas: a de que os incêndios não são criminosos, por um lado, e a de que provavelmente são criminosos, por outro, porém com uma tendência maior de filiação à narrativa do Ibama, uma vez que contrapôs as palavras do governador com as declarações do cientista Carlos Nobre, uma autoridade no assunto.
Na página A2, o jornal faz uma matéria principal em que novamente o governador declara que não é possível afirmar que sejam criminosos os incêndios, há também aí dados sobre as perdas no estado. Na A2, assim como na capa, o jornal usa conjunções do tipo „embora“ e „apesar de“ para contrapor a narrativa de que não é possível afirmar que sejam incêndios criminosos. Já numa matéria menor na mesma página, exclusiva com o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho declarou que não é possível saber quais as motivações de incêndios dessas proporções, como os que têm ocorrido na Amazônia, no Pantanal e no estado de São Paulo, mas que a causa do fogo é sempre humana, no caso do Brasil. O presidente do Ibama diz que o fogo no estado de São Paulo tem uma particularidade que levanta suspeitas, pela maneira como foi iniciado, pelas condições meteorológicas, pelos locais e pelos horários em que o fogo foi colocado.
Na página A14, o jornal apresenta uma entrevista especial com o cientista Carlos Nobre, que é colocado como uma grande referência internacional em estudos sobre a Amazônia e sobre o clima, e por isso ele tem conhecimento sobre o crime organizado em relação a queimadas criminosas tanto no bioma amazônico quanto em outros. O cientista dá peso à narrativa de que se trata de ações coordenadas para incendiar parte do estado de São Paulo e declara que a Polícia Federal terá de investigar essas queimadas do mesmo modo que investiga as demais ações do crime organizado.
Por fim, na página B8 o jornal traz informações sobre os prejuízos causados sobretudo na parte rural do estado de São Paulo, em caderno dedicado a agronegócios, com informações sobre possíveis alterações no preço do açúcar e do álcool na Bolsa de Valores, commodities largamente produzidas por São Paulo e cuja produção foi diretamente atingida pelos incêndios.
screenshot da capa do jornal Valor Econômico de 27 Ago 2024. Matéria em destaque disponível em: https://valor.globo.com/impresso/noticia/2024/08/27/incendios-em-sp-causam-perdas-de-ao-menos-r-1-bi-quatro-suspeitos-sao-presos.ghtml
screenshot da p. A2 do jornal Valor Econômico de 27 Ago 2024. Matéria em destaque disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/08/27/sp-prende-quatro-por-incendios-e-estima-perda-superior-a-r-1-bi.ghtml
screenshot da p. A14 do jornal Valor Econômico de 27 Ago 2024. Matéria disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/08/27/incendios-podem-ser-reacao-do-crime-a-maior-fiscalizacao-diz-nobre.ghtml#
screenshot da p. B8 do jornal Valor Econômico de 27 Ago 2024. Matéria semelhante disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/08/27/sp-prende-quatro-por-incendios-e-estima-perda-superior-a-r-1-bi.ghtml
II. O Globo também trouxe os incêndios na matéria de destaque da capa. O jornal coloca as duas narrativas preponderantes, tanto na capa quanto no editorial e em matérias dentro de seus cadernos. O tom geral de O Globo é que a origem dos incêndios provavelmente é criminosa. Embora na capa o jornal coloque mais a possibilidade de eventos com fogo perdurarem mais dois meses, segundo o Ibama, devido a condições climáticas, no editorial da página 2, que representa a opinião do meio de comunicação, O Globo afirma que todo incêndio desse tipo é criminoso, ou seja, o jornal reproduz as palavras do presidente do Ibama, e cobra punição aos envolvidos. „Seca severa favorece disseminação de focos de incêndio, mas a maioria deles tem origem criminosa“, diz o subtítulo do editorial.
Na página 13 o jornal destaca que as chamas se espalham com a falta de investimento. Nas duas matérias dessa página ele trata das questões de caminhões pipa e de aviões da Força Aérea Nacional (FAB) usados para combater incêndios, destacando a infraestrutura que precisa ser melhorada ao ouvir especialistas do Corpo dos Bombeiros e agentes do Ibama.
Por fim, na página 14 o Globo traz as prisões de pessoas que atearam fogo (quatro, até aquele momento, sendo três no estado de São Paulo e uma em Goiás). As prisões não indicam que eram ações com conexão entre si. Porém o jornal coloca que há uma suspeita declarada pelo Ministério do Meio Ambiente.
screenshot da p. 2 do jornal O Globo de 27 Ago 2024. Matéria em destaque disponível em: https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2024/08/e-preciso-ser-mais-firme-na-repressao-as-queimadas.ghtml
screenshot da p. 13 do jornal O Globo de 27 Ago 2024. O jornal não disponibilizou online as matérias dessa página, havendo somente textos semelhantes disponíveis em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/08/27/queimadas-em-sao-paulo-raizen-relata-impacto-em-18-milhao-de-toneladas-de-cana.ghtml; https://oglobo.globo.com/brasil/meio-ambiente/noticia/2024/08/26/ cargueiro-da-fab-adaptado-para-atuar-contra-incendios-nao-conseguiu-iniciar-operacoes-em-sp-por-causa-da-fumaca-densa.ghtml
screenshot da p. 14 do jornal O Globo de 27 Ago 2024. Matéria semelhante em destaque disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2024/08/27/incendios-em-sp-saiba-quem-sao-os-suspeitos-presos.ghtml
III. O Estado de S. Paulo, por sua vez, dá ênfase para o governador de São Paulo. Na capa só existe uma foto em destaque com chamada para as matérias, não existe nenhum texto na capa, apenas uma legenda da foto com opinião do governador - não sobre a guerra narrativa que se coloca e sim sobre o R$1 bilhão estimado como perda em função dos incêndios no estado.
O jornal destacou apenas a posição do governador sobre a guerra narrativa aqui em análise no subtítulo de uma matéria da página A16. Num primeiro momento, a impressão é que o Estadão ignora ou ao menos não participa dessa guerra narrativa, impressão que cai por terra pois o jornal coloca ao final dessa matéria principal da página A16 a discussão sobre as causas criminosas dos incêndios. O jornal chama nomes de autoridade para essa discussão - Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), e Paulo Artaxo, do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU - porém, eles dão mais provas à narrativa de que os incêndios foram provavelmente criminosos, e acabam ficando no último parágrafo da última coluna, bem ao final da matéria que cobre mais da metade da página. O governador dominou praticamente todas as colunas dessa matéria.
Esses índices demonstram que o jornal colocou o conflito em segundo plano, já que algo sobre ele não foi apresentado na capa, nem nas duas matérias da página A15 ou em algum dos títulos de textos que trataram dos incêndios no interior do jornal. Ao surgir no subtítulo da matéria em A16, dá indícios de filiação à posição discursiva do governador: „Tarcísio destaca perda de mais de 20 mil ha; Ibama e governo estadual divergem em relação a ações coordenadas“. A mesma tendência domina essa matéria inteira. Na mesma página, uma segunda matéria sobre o tema enfatiza exclusivamente os riscos à saúde do material particulado, que também causa o efeito de Sol laranja, além do dióxido de enxofre e do carbono.
Com relação à página A15, na primeira matéria, que domina mais da metade da página, o foco recai nas condições climáticas que irão persistir por dois meses, segundo previsões. Há nela uma tentativa de ataque ao governo federal, mas sem que nenhum personagem assumisse tal narrativa:
Na Floresta Amazônica e no Pantanal, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido alvo de críticas pelas falhas no combate às queimadas, que bateram recordes nos dois biomas. „Como a Cordilheira dos Andes é muito alta, essas correntes não se dispersam. Elas passam por Peru, Bolívia, e depois, dependendo da situação meteorológica, vão diretamente para Sul ou Sudeste. No verão, elas carregam umidade“, afirma Seluchi [do Cemaden]. „Mas nesta época do ano em que não chove, é como um rio seco, um jato de fumaça no Sudeste (...)“.
Na sequência da declaração de Seluchi, vem a declaração também sobre os rios voadores e o caminho que eles seguem do climatologista José Marengo, coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden. Ou seja, não há nada no texto que dê credibilidade factual à proposição do texto sobre críticas ao governo. A narrativa está solta, ou melhor, não há uma narrativa para dar suporte à afirmação. Há uma grave falha no que Motta (2023) coloca como valor-narrativa, a ser visto mais à frente: a moldura cognitiva que organiza e dá sentido à estória que se conta jornalisticamente. Na segunda matéria da A15 o foco é somente nos efeitos nocivos da fumaça à saúde.
screenshot da p. A15 do jornal O Estado de S. Paulo de 27 Ago 2024. Apenas uma das matérias da página está disponível online: https://www.estadao.com.br/saude/relatos-indicam-ate-60-de-aumento-nos-atendimentos-de-saude-em-decorrencia-dama-qualidade-do-ar-nprm/?srsltid=AfmBOoou5ytqpVzELuiDz3aAjfvPYdbZIyjscVdGEi4hH05k2sP67igL
screenshot da p. A16 do jornal O Estado de S. Paulo de 27 Ago 2024. Matéria disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/agronegocios/prejuizo-incendio-agronegocio-tarcisio/?srsltid=AfmBOop8UxRHg_DjoBFBfG98dvD552AHolSUyHwZu- 3OGJFTEM01WvUja
IV. No mesmo dia 27, a Folha de S. Paulo trouxe na capa o destaque para esse tema com uma grande foto e a informação de que o incêndio destrói lavouras e mata animais em São Paulo, como título da foto. A legenda em si diz que „o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não vê indícios de ação coordenada nas queimadas“. Na matéria da página B1, a Folha traz o seguinte título: „Tarcísio descarta articulação em incêndios; polícia discorda“. No subtítulo tem-se: „Quarto suspeito de envolvimento foi detido; usinas oferecem recompensas“. O texto polariza a opinião do governador, que não vê como criminosos os incêndios, com delegados e investigadores da Polícia Civil, que suspeitam se tratar de ações coordenadas.
O jornal acaba citando que o Ministério do Meio Ambiente e a Polícia Federal também mantêm suspeitas de que os incêndios sejam criminosos, mas a polarização fica entre a opinião do governador, por um lado, e da Polícia e dos usineiros de açúcar e álcool, por outro. A página é completada com matéria lateral sobre o prejuízo de R$1 bilhão para o agronegócio paulista, e uma terceira matéria sobre o efeito destruidor do fogo em um assentamento, que gerou perdas de animais, casas, alimentos, utensílios e lavouras.
screenshot da p. B1 da Folha de S. Paulo de 27 Ago 2024. Matéria disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/08/tarcisio-descarta-acao-articulada-em-incendios-policia-investiga-se-ha-mandantes.shtml
A despeito de ser o jornal que menos trouxe informações na edição do dia 27 sobre as queimadas fora de controle em São Paulo, e sem a polarização entre órgãos federais e cientistas de um lado e governo do estado de outro, a Folha havia antecipado a pauta no dia anterior, segunda-feira, quando trouxe na capa, como manchete: „Produtores e governo veem indícios de crime em incêndios“, seguida do subtítulo: „PF abre inquéritos para investigar os casos de queimadas em SP; prejuízo nas lavouras de cana ultrapassa R$350 mi“.
Curiosamente, nessa matéria do dia 26, não está noticiado o posicionamento narrativo do governador que se evidenciou depois. Logo no primeiro parágrafo está: „A Polícia Federal abriu dois inquéritos para investigar suspeita de ação criminosa nos incêndios em São Paulo. O governador Tarcísio de Freitas também pôs a Polícia Civil para apurar o caso“. Ou seja, do dia 26 para o 27 o governador mudou de posição, deflagrando uma guerra narrativa. Isso é confirmado pela matéria na página B1 no próprio dia 26, cujo título é „Governos [federal e estadual] e produtores veem indícios de crime e PF e SP investigam incêndios“.
Em matéria no Estadão, dia 26, há a seguinte declaração do governador: „Nós tivemos ação de criminosos. É uma coisa que não vamos tolerar“. Porém, não se referia a ações coordenadas, e sim a casos isolados de dois homens que haviam sido detidos até aquele momento no estado. O Globo e Valor Econômico também noticiaram já no dia 26 as suspeitas de órgãos da administração federal, como Ibama e Ministério do Meio Ambiente, a prisão de suspeitos e a abertura de investigações por parte da Polícia Federal, mas sem declarações do governador sobre isso, o que demonstra que até as edições do dia 26 essa guerra narrativa não havia sido declarada.
screenshot da p. B1 do jornal Folha de S. Paulo de 26 Ago 2024. Matéria disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/08/governos-e-produtores-veem-indicios-de-crime-e-pf-e-sp-investigam-incendios.shtml#:~:text=Produtores%20 rurais%20de%20S%C3%A3o%20Paulo,aponta%20para%20uma%20a%C3%A7%C3%A3o%20coordenada.
3. NEGACIONISMO SORRATEIRO NOS MEIOS E FAKE NEWS NO METAVERSO
Enquanto o jornal Valor Econômico foi o que mais deu espaço para as queimadas e publicou na mesma edição uma entrevista de página inteira com o maior nome sobre o assunto, o cientista Carlos Nobre, que forneceu dados sustentando a suspeita de ações coordenadas, o Estadão deu um espaço mínimo e secundário a especialistas, que defendem a hipótese de incêndios criminosos, e amplo espaço para repetidamente o governador afirmar que não há indícios de que foram criminosos. A Folha de S. Paulo foi o jornal que menos deu espaço a essa guerra no dia 27 de agosto, mas antecipou o tema no dia 26, quando trouxe a narrativa única da suspeita sobre os incêndios serem criminosos, já que articulados no tempo, no espaço, nas condições atmosféricas. Inclusive apresentou governo federal e governo estadual sob esse mesmo guarda-chuva narrativo, evidenciando que o governadordo estado mudou de lado discursivo-narrativo literalmente de um dia para o outro. O Globo, por sua vez, foi contundente na afirmação de que, não só os incêndios eram provavelmente criminosos, como também que deveria haver mais repressão a esse tipo de crime. Porém, fez jogo discursivo duplo, já que o título da última matéria sobre o tema afirma que „Prisões por atear incêndios indicam ações sem conexão“.
A filiação a duas narrativas que se contradizem, como observado sobretudo em O Globo, pode se dar por diferentes motivos intra e extra jornalísticos. A pluralidade de vozes e opiniões em um meio é recomendada pelos manuais de redação jornalística e por entidades como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, além de poder indicar liberdade entre as editorias de um mesmo meio. Há porém outras possibilidades, como ser opção do jornal dar espaço às duas narrativas, ao menos até que uma se prove como verdade única ou preponderante, ou também como parte do conjunto de pós-verdades (Lourenço, 2024), do qual alguns políticos do Brasil, da Argentina e dos EUA são adeptos: dar duas declarações contraditórias sobre o mesmo tema, como temos de expulsar imigrantes e imigrantes serão bem-recebidos em nosso país. No caso de O Globo, pelo fato do editorial afirmar a opinião do jornal junto a uma das narrativas, essa última hipótese é descartada.
Segundo Motta (2013, p. 223-227), os níveis de poder da narração jornalística são índices de interpretação discursiva, ou seja, das posições construídas discursivamente que causam impactos na assistência e/ou em leitores e leitoras, influenciando na opinião pública. A construção discursiva de uma verdade ou proposição passa por diferentes etapas, normalmente de fora para dentro: de um narrador extradiegético/ fora da estória (normalmente o próprio meio de comunicação) a um narrador intradiegético (um/a repórter ou especialista consultado/a) ea um narrador-personagem. Essas etapas são claramente identificadas no caso da Folha no dia 27 e sobretudo do Estadão: etapa a etapa, constrói-se a verdade junto à narrativa do governador, que com isso provavelmente aumenta seu capital político.
Os meios hegemônicos, como observado, não se destacam por apresentar narrativas catastróficas ou apocalípticas, mas sim narrativas que banalizam ou normalizam, naturalizam, as mudanças climáticas. E isso se constitui como negacionismo. Não necessariamente o negacionismo climático. O que se evidenciou é que esses meios dão indícios de naturalizar as mudanças climáticas como responsáveis por todos os problemas ambientais, sobretudo os incontroláveis, como parte dos incêndios que atingiram o estado de São Paulo. Não há destaque para a implicação de gestores ou órgãos responsáveis, menos ainda para a discussão de possíveis causas fundantes, como uso indevido do solo (desmatamento, monocultivo, agronegócio, mineração, pecuária extensiva), economia baseada em combustíveis fósseis, consumo abusivo, mercantilização da natureza, capitalização e individualização das relações sociais, dentre outras causas colocadas por Marques (2018) em Capitalismo e colapso ambiental.
Tudo parece ter entrado para a conta das mudanças climáticas. Elas são colocadas como as culpadas únicas, as causadoras. Mas não se fala no que as causou, nem desde quando, muito menos sobre quem tem se beneficiado com isso. O negacionismo aqui, portanto, refere-se não ao fato de esconder as mudanças climáticas, mas de se esconder atrás delas.
Nesses mesmos dias, junto à suspeita de se tratar de incêndios criminosos, espalhou-se nas redes sociais a „notícia“ de que membros do Movimento de Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) foram responsáveis por grande parte das queimadas no estado de São Paulo. O movimento foi obrigado a negar a notícia, caracterizando-a como fake news. Mas, ao fazer isso, teve de afirmar em todos os seus meios (redes sociais, informativos, sites, podcasts) a sentença que condenava a si próprio: o MST [não] causou os incêndios que assolam SP. Negar a verdade acaba por evidenciar a verdade, por isso é discursivamente efetivo criar uma proposição falaciosa. De igual maneira, negar uma inverdade é uma forma de evidenciar exatamente essa inverdade. A vitória parece ser do lado que consegue obrigar a outra parte negar a proposição mentirosa. Pois no processo de negação há a afirmativa do que se quer negar. Esse é um dos truques - ou trunfos - do negacionismo.
Nas últimas décadas, com auxílio de algoritmos e mecanismos de produção e difusão de fake news, sobretudo vinculados à ascensão de uma espécie de nova direita ou ultradireita ou extrema direita ou, ainda, de uma direita cínica (Lourenço, 2024), foram produzidas guerras narrativas em prol da construção de mitos - ou heróis (Motta, 2013) -, naturalização da pobreza ou da desigualdade, e negacionismo climático.
Nas próprias enchentes do Rio Grande do Sul, foram difundidas diversas fake news. Meios de comunicação acabam por veicular matérias sobre elas, seja para alertar a população, seja para anunciar atitudes que estavam sendo tomadas pelo poder público a esse respeito. Em 8 de maio de 2024, por exemplo, a Folha publicou em seu site, seu jornal impresso e redes sociais: „Governo quer usar PF para investigar e responsabilizar quem divulga fake news sobre tragédia no RS“. Porém, quando laboratórios de verificação de informação identificaram que a maioria das fake news era disparada pela extrema direita, inclusive por sete deputados federais, sendo cinco do Partido Liberal e dois do União Brasil, a Folha relegou essa divulgação ao seu meio secundário e somente online, o UOL, que por sua vez expôs detalhes das contra-narrativas de desinformação:
Extrema direita quer impedir que governo ganhe visibilidade na tragédia. Para a coordenadora do Netlab, Marie Santini, as publicações que desinformam sobre a atuação dos entes federativos, sobretudo do governo federal, têm como objetivo impedir que o governo capitalize a exposição das ações de socorro ao estado gaúcho (…) ‘Empresários e civis são os verdadeiros heróis‘. Iniciativa privada e voluntários surgem como heróis. À medida em que ataca o Estado, a extrema direita também tenta emplacar nas redes uma hipervalorização da atuação de empresários e de civis voluntários na ajuda humanitária às vítimas (Aleixo, 2024).
Mitos e heróis são parte da construção narrativa jornalística que envolve personagens. Motta (2013, p. 189), a partir da compilação de autores que tratam sobre o tema, explicita as modalidades de identificação da audiência com o herói, que vai da identificação associativa ou admirativa por um herói perfeito à identificação catártica (por um herói oprimido que desperta zombaria) ou irônica (por um anti-herói). Como observado, não somente as notícias, mas também as fake news têm feito uso de tal arsenal narrativo. As notícias falsas sobre as enchentes no Sul colocaram representantes do governo federal em posição catártica ou irônica, e da iniciativa privada em posição admirativa ou associativa.
4. ENSAIOS SOBRE OS FINS E OS RECOMEÇOS
Os meios não hegemônicos de comunicação, aqui representados por Agência Pública e Sumaúma, apresentam dupla característica narrativa.4 A primeira confirma o risco discursivo-narrativo do catastrofismo, evidenciado sobretudo por escolhas lexicais que, para cativar ou chamar a atenção de leitores e leitoras, conferem certa dramaticidade trágica aos enunciados - o que Motta (2013, p. 229) situa como modelo dramático no plano do valor-narrativa. Os prints das chamadas de duas matérias de abril de 2024 de Sumaúma contêm exemplos dessa escolha lexical, com destaque para os termos fim do mundo (nas duas chamadas), destruição em cadeia e apocalipse.
Screenshot de duas matérias do site Sumaúma - Notícias do Centro do Mundo. Primeira: https://sumauma.com/rioparaguai-contra-o-fim-do-mundo/#:~:text=Em%20julho%20de%202023%2C%20ao,pela%20sua%20utilidade%20%C3%A0%20 humanidade.
A Agência Pública, por sua vez, tem intensificado o léxico apocalíptico a ponto de nomear seu recémlançado videocast como „Bom dia, fim do mundo“.5 Como subtítulo, os dizeres „Conversas para transformar a apatia em inquietação, sem derrotismo e também sem negacionismo“ demonstram que, mais além de catastrofismo, a nova mídia lançada pela Pública insere-se num discurso pós-crítico, que, através da percepção ambiental, apresenta perspectivas de luta ou resistência à ideia de fim (Fonseca, 2024). Nas palavras de Krenak (2019, p. 13), enquanto se puder contar mais uma história, „estaremos adiando o fim do mundo“. Não só o jornalismo, mas outras formas e manifestações da linguagem têm questionado o papel das narrativas no atual momento. Para Saavedra (2021, p. 18-19):
O fim do mundo é um cenário que se estende também a outras áreas, como política, artes, cultura e, obviamente, também à literatura. E então (...), como fica a literatura, este sonho acordado (ensueño, Tagestraum) da civilização se a própria civilização está sendo questionada? Seja pelas possibilidades tecnológicas que se abrem, seja pelo capitalismo que tudo permeia (na famosa pergunta de Mark Fisher: „É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?“). Como escrever em tempos tão urgentes e estranhos? (...) Como escrever num planeta em acelerada transformação? Escrevemos e já não é e, de novo, já não é, a cada frase. Em outras palavras, num mundo cada vez mais incerto, mais irreal, como abordar a realidade?
Alguns textos, sobretudo de colunistas, têm trazido um discurso que pode ser considerado catastrófico. Em 07 de junho de 2024, em „Um Dia do Meio Ambiente com gosto amargo“ (Girardi, 2024), um parágrafo trazia:
Ultrapassar pontualmente o marco de 1,5ºC não significa que a meta já foi perdida, já que ela se refere a um novo patamar de temperatura em um planeta aquecido de modo mais constante, sustentado no longo prazo. De modo que os mais otimistas ainda dizem que dá tempo de evitar o pior. Não falta quem diga, porém, que já era.
Há outros exemplos de escolhas lexicais que envolvem termos como: já era, fim do mundo, fim dos tempos, apocalipse, desastre, catástrofe etc., ao tratar de temas ambientais e socioambientais. Esses termos podem se constituir como estudo futuro.
Interessante, particularmente, é perceber que a Agência Pública mantém vínculos discursivo-narrativos com os territórios e os povos que os defendem, seja na forma de movimentos organizados ou em iniciativas isoladas ou, ainda, em sua luta diária, silenciosa e frequentemente silenciada por meios hegemônicos. Em 18 de maio de 2024, publicou o texto „Porto Alegre não deve copiar o mau exemplo de New Orleans“ (Amaral, 2024b), em que evidencia como funciona e tem se fortalecido o capitalismo de catástrofe. No caso, em ambas cidades, foram os bairros pobres e menos brancos os mais atingidos e que continuarão em nível elevado de risco.
Além disso, a Pública tem identificado guerras narrativas, embora não use esse termo. É o caso de „Lobby do petróleo vai além do negacionismo e atua para barrar alternativas limpas“, em 12 de julho de 2024, em que divulga resultados de um relatório internacional que identifica um manual de narrativas com estratégias contra as energias renováveis. E igualmente no caso de „O agro quer fazer um ‚rebranding‘“, de 05 de julho, ao desmascarar as tentativas discursivas do agronegócio, em um grande evento musical na capital paulista, se tornar sustentável. E, em um terceiro exemplo, em „Perda de água, seca recorde, desmatamento: a receita do fogo no Pantanal“, de 28 de junho, em que são discutidas, além das condições de risco da maior planície alagável do mundo, a guerra entre as narrativas pró e contra o governo federal atual e o anterior no combate a tais condições. Há outras situações em que o meio identificou uma guerra narrativa, e se posicionou, como no momento em que o bilionário Elon Musk posava de herói no Metaverso das redes sociais frente à catástrofe no Sul do Brasil.6
Nessa perspectiva, ao trazer temas espinhosos e esmiuçá-los, o meio acaba naturalmente apresentando indícios de narrativas catastróficas, mas mais por força do ofício e da matéria-prima a ser tratada do que necessariamente por filiação discursivo-narrativa.
A segunda característica narrativa dos meios não hegemônicos apresenta-se na forma de esforço em desmascarar narrativas falaciosas e, sobretudo, apontar para caminhos já endossados por movimentos sociais e entidades de referência. Isso foi observado nos exemplos relativos à guerra narrativa incêndios de SP foram coordenados x foram fruto apenas das condições atmosféricas. A Agência Pública antecipou-se em publicar matéria com dados do Ipam, Inpe e Nasa, corroborando cientificamente a hipótese do presidente do Ibama, de que houve alguma intencionalidade nas ações - na reportagem do dia 27, „Queimadas em São Paulo: 81% dos focos de calor foram em áreas de plantação e pastagem“. E também nos exemplos das guerras narrativas identificadas pela Pública, colocados acima.
É em ambas as características, mas principalmente na segunda, que os meios não hegemônicos revelam seu valor-narrativa. Para Motta (2023, p. 229-230, itálico original):
O valor-narrativa (...) é o valor maior que rege a apuração e a redação do texto jornalístico. Este valor funciona (...) como uma moldura cognitiva para enquadrar rápida e didaticamente a confusa e difusa realidade. O que rege a apuração e a redação do texto jornalístico é esse modelo dramático. Embora pouco estudado e citado na literatura da teoria do jornalismo, este é um valor superior aos demais valores-notícia. O desejo de qualquer repórter ou editor é, primeiro, compor uma boa narrativa, configurar uma estória dramática forte, coerente, completa, verídica. Os demais valores (atualidade, novidade, notoriedade, impacto etc.) decorrem do valor-narrativa, um valor englobante mais forte e mais abrangente. A ausência deste valor na maior parte dos manuais de jornalismo decorre da negativa dos jornalistas em aceitar que eles contam estórias, insistindo ainda ingenuamente que eles apenas reproduzem a realidade como um espelho.
Nesse sentido também se revelam práticas de eco-comunicação com as quais os meios se identificam ou as quais divulgam e delas fazem uso para a construção de suas narrativas, como as citadas no caso da Agência Pública, em identificação com habitantes mais pobres e menos brancos de territórios em risco, e, no caso de Sumaúma, com populações que dependem diretamente dos rios e das matas de biomas ameaçados. Esses meios tanto destacam a situação de tais grupos humanos quanto os utilizam como fonte de informação e comunicação. A conexão das estratégias de comunicação com a causa socioambiental por parte de movimentos sociais, indígenas ou grupos de jovens, atingindo interlocutores antes inalcançáveis sobretudo pela ampla utilização de redes sociais, é uma das características da eco-comunicação (Fonseca, 2024). A eco-comunicação confere visibilidade a temas e lutas normalmente invisibilizadas ou criminalizadas pelos meios de comunicação hegemônicos e discursos dominantes; apresenta a defesa da diversidade como garantia de vida, seja biodiversidade ou diversidade humana, cultural, identitária; e a defesa do que é comum às atuais, às pregressas e às futuras gerações humanas e nãohumanas, ou seja, defesa do território e das condições presentes e futuras de vida.
No espectro da eco-comunicação, encontram-se narrativas para resistir à barbárie, como as observadas sobre o MST e a articulação de movimentos indígenas, em meios como Sumaúma, Agência Pública e outros não considerados neste artigo. Os movimentos sociais, os coletivos populares, os júris cidadãos, as organizações de base social são ou poderiam ser, segundo Stengers (2015, p. 129), produtoras de „narrativas de que temos desesperadamente necessidade“:
Narrativas que dão àqueles que as ouvem o gosto daquilo que as produziu. Sim, uma situação pode se tornar interessante, digna de fazer pensar, capaz de suscitar o gosto pelo pensamento, se ela foi produzida por um processo de aprendizado concreto, em que as dificuldades, as hesitações, as escolhas, os erros fazem parte da narrativa tanto quanto os êxitos e as conclusões.
Foram identificadas, aqui, narrativas como espaço de disputa. Diferente das batalhas pela memória, as narrativas ambientais disputam o futuro, o que se torna central em meio ao capitalismo predatório, ao capitalismo de tragédia e todas as formas de neocolonialismo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS OU FUTURAS
Através de ferramentas da Análise Crítica da Narrativa (Motta, 2013) - etapas da construção discursiva da verdade, modalidades de identificação da audiência com o herói, e o valor-narrativa -, observou-se aqui a configuração de duas tendências discursivo-narrativas principais no jornalismo impresso brasileiro a respeito de matérias sobre meio ambiente, no período de abril a agosto de 2024.
A primeira refere-se à estabilização dos dois discursos dominantes: catastrofismo de um lado e banalização e/ou negacionismo de outro, tanto em meios hegemônicos como não hegemônicos, estes somente online. Há,no entanto, algumas diferenças entre os meios de comunicação no período considerado. Enquanto nos meios não hegemônicos, como Agência Pública e Sumaúma, a tendência foi de reprodução de termos que remetem a narrativas catastróficas - como fim do mundo, apocalipse, catástrofe -, em meios hegemônicos, como Folha de S. Paulo, Estadão, Valor e O Globo, os processos de banalização e certo negacionismo foram mais evidentes.
Esse negacionismo observado se dá em relação à responsabilização das catástrofes climáticas, colocando-as como efeitos naturais das mudanças climáticas - por sua vez, já dadas, estabelecidas, estabilizadas e provavelmente imutáveis, configurando-se em narrativas catastróficas do tipo conformadas, que reproduzem o discurso de que não há mais nada a se fazer para evitar o já iniciado colapso ambiental. Pouco ou nada se fala da reprodução de modelos coloniais e neocoloniais de exploração da natureza como responsáveis por tal colapso - modelos de uso do solo baseados em mineração, latifúndios, monocultivos, utilização de aditivos químicos, uso irracional de recursos hídricos, contaminação de solo, ar e água, e commoditização da produção, ou seja, no caso de países como o Brasil, agronegócio de exportação; ou modelos de desenvolvimento baseados na exploração, no refinoe na utilização massiva de petróleo e seus derivados, em permanente fossilização e carbonização da economia e dos territórios. E o fato de se falar pouco ou nada sobre modelos coloniais e neocoloniais de exploração nesses meios indica uma no mínimo indireta filiação discursivo-narrativa à própria matriz colonial - a mesma que causa devastação.
A base da observação dos meios hegemônicos foi a cobertura do chamado novo dia do fogo, sobretudo de 27 de agosto de 2024, quando duas narrativas entraram em guerra: a narrativa de que os incêndios no estado de São Paulo foram coordenados e portanto criminosos, e a narrativa de que foram as condições climáticas, e não ações articuladas, as causadoras de tais incêndios. Os meios hegemônicos aqui observados praticam, nessa cobertura, não o negacionismo climático, pois não escondem as mudanças climáticas, mas escondem as verdadeiras causas da crise planetária atrás das mudanças climáticas. Elas são colocadas como as responsáveis pelos problemas ambientais cada vez mais intensos e frequentes, sendo que elas, as mudanças climáticas, são em primeira instância um sintoma da doença que tem causado tais problemas. São o efeito, não a causa.
Apesar dessas principais tendências narrativas, observou-se a aqui chamada narrativa dos futuros possíveis, estas sim vinculadas a uma matriz discursiva decolonial. Configuradas como eco-comunicação, essas narrativas vinculam-se sobretudo a movimentos sociais, povos originários, sociedades de base comunitária e jovens. As narrativas são utilizadas, neste caso, como um instrumento de resistência à ideia de fim, conforme coloca Fonseca (2024), e encontram aderência nos meios não hegemônicos, que também são os que buscam identificar e nomear as causas da doença que tem como grande sintoma as mudanças climáticas. Dessa forma, a eco-comunicação apresenta-se como a capacidade de comunicar o incomunicável, o colapso climático e da biodiversidade, sem perder seu vínculo com o território e as lutas sociais. Não se observou essa mesma tendência nos meios hegemônicos aqui estudados. A Folha deu destaque em uma matéria aos efeitos do fogo em um assentamento dos sem-terra, mas essa consideração configura-se como exceção, não como regra. O domínio geral discursivo teve como base instâncias oficiais de gestão e grandes produtores agro-exportadores.
Não se trata de condenar meios de comunicação, de antemão. A cobertura jornalística ainda é - e poderia ser cada vez mais - um dos principais antídotos à falta de informação, ao negacionismo e ao catastrofismo. Mas, como exposto ao longo deste trabalho, os meios têm corrido o risco de atuarem em termos discursivos e narrativos no sentido daquilo que deveriam combater: a desinformação. A Análise Crítica da Narrativa mostrou-se como um conjunto de instrumentos capazes de atuar como termômetro da prática comunicativa hegemônica e contrahegemônica, o que é necessário e urgente, haja vista o que tem se apresentado por outros termômetros, estes em Celsius ou Fahrenheit: anomalias climáticas em nível planetário causando efeitos imprevisíveis em cadeia.
Subvertendo a máxima, em qualquer guerra o melhor ataque é a defesa. E a comunicação segue sendo potencialmente o melhor dispositivo de defesa que as sociedades humanas dispõem para enfrentar - quiçá evitar - os efeitos da crise civilizacional e das mudanças climáticas, e construir narrativas em direção a um futuro possível.
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1
Um dos mais novos modelos para desestabilização de Estado, as revoluções coloridas têm sido observadas em diversos pontos do globo nas últimas décadas como tentativa de construção de um mundo unipolar, sendo as categorias primárias de sua infraestrutura: ideologia, financiamento, social, treinamento, informação e mídia (Koribko, 2018, p. 113).
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2
Os dados foram divulgados por diversos meios de comunicação, por exemplo, as matérias das páginas A14 e A15 do jornal O Estado de S. Paulo de 27 de agosto de 2024, disponíveis mais à frente.
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3
A justificativa do presidente do Ibama para a hipótese de os incêndios serem propositais, e por isso estarem sob investigação, diz respeito ao fato de que todo fogo no Brasil é provocado por ação humana (intencional ou por descuido), e não houve registro de raios nas regiões queimadas no período em análise, além da coincidência de horários. Por isso, segundo ele, “a situação é bastante suspeita. Em algumas regiões, temos o fogo distribuído de maneira uniforme ao longo de estradas. Em alguns lugares, temos o fogo sendo colocado em momentos de difícil controle” (Amaral, 2024a).
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4
Trata-se aqui de um levantamento breve, exploratório, amostral, por isso a escolha de apenas dois meios, observados em abril (no caso de Sumaúma) e de junho a julho (no caso da Agência Pública) de 2024. Outros meios considerados não hegemônicos passíveis de estudo nesse sentido incluem Repórter Brasil, The Intercept Brasil, Outras Palavras e Revista Fórum, além de meios ligados a entidades como Instituto Socioambiental (ISA), Observatório da Mineração e Instituto Serrapilheira.
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5
Todos os episódios estão disponíveis em: https://apublica.org/podcast/2024/08/bom-dia-fim-do-mundo/
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6
As matérias da Agência Pública que identificam guerras narrativas e aqui são citadas apenas de modo ilustrativo estão disponíveis em: https://apublica.org/2024/07/lobby-do-petroleo-vai-alem-do-negacionismo-e-atua-para-barrar-alternativas-limpas/; https://apublica.org/2024/07/o-agro-quer-fazer-um-rebranding/; https://apublica.org/2024/06/perda-de-agua-seca-recorde-desmatamento-a-receitado-fogo-no-pantanal/ e https://apublica.org/2024/05/exclusivo-ex-ministro-fabio-faria-foi-diretor-de-empresa-que-levou-antenas-deelon-musk-ao-rs/
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
Todos os dados desta pesquisa são públicos e podem ser acessados através dos links mencionados ao longo do trabalho.
REFERÊNCIAS
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