Resumo
Objetivo Mapear e descrever as tecnologias educacionais utilizadas no cuidado às pessoas com infecções sexualmente transmissíveis.
Métodos Revisão de escopo conduzida em conformidade com as recomendações do Joanna Briggs Institute. A busca foi realizada entre julho e agosto de 2023 nas bases de dados Medline, Web of Science, Scopus, LILACS, Biblioteca Virtual da Saúde, além de um repositório eletrônico e fontes de literatura cinzenta. Foram incluídos estudos sem restrição quanto ao delineamento metodológico, idioma ou data de publicação. A seleção dos estudos foi conduzida por dois revisores, de forma cega e independente, utilizando o software Rayyan. A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva.
Resultados Incluíram-se 27 estudos (24 artigos e três fontes cinzentas), com maior publicação em 2020 (6; 22,2%), e tiveram como desenho o estudo metodológico (10; 37,03%). A maioria das intervenções se concentrou no desenvolvimento de jogos, serious games ou orientações em softwares para computadores ou aplicativos móveis (13; 48,2%), seguidas por jogos de tabuleiro, materiais impressos, vídeos, blogs e podcasts.
Conclusão Identificaram-se variadas tecnologias educacionais voltadas, principalmente, a adolescentes e jovens, promovendo abordagens inovadoras e diversificadas para prevenção e manejo das infecções sexualmente transmissíveis. Open Science Framework: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/EWQYD
Descritores
Tecnologia educacional; Jogos experimentais; Jogos e brinquedos; Infecções sexualmente transmissíveis
Abstract
Objective To map and describe the educational technologies used in the care of people with sexually transmitted infections.
Methods A scoping review was conducted in accordance with JBI recommendations. The search was carried out between July and August 2023 in the MEDLINE, Web of Science, Scopus, LILACS, Virtual Health Library databases, as well as an electronic repository and grey literature sources. Studies were included without restriction as to methodological design, language, or publication date. Study selection was conducted by two reviewers in a blinded and independent manner using Rayyan software. Data analysis was performed using descriptive statistics.
Results Twenty-seven studies were included (24 articles and three grey sources), with the highest number published in 2020 (6; 22.2%), and had a methodological study design (10; 37.03%). Most interventions focused on the development of games, serious games, or guidance in computer software or mobile applications (13; 48.2%), followed by board games, printed materials, videos, blogs, and podcasts.
Conclusion Various educational technologies were identified, primarily aimed at adolescents and young people, promoting innovative and diverse approaches to sexually transmitted infection prevention and management.
Keywords
Educational technology; Experimental games; Games and toys; Sexually transmitted infections
Resumen
Objetivo Mapear y describir las tecnologías educativas utilizadas en la atención a personas con infecciones de transmisión sexual.
Métodos Revisión de alcance realizada de acuerdo con las recomendaciones del Joanna Briggs Institute. La búsqueda se llevó a cabo entre julio y agosto de 2023 en las bases de datos Medline, Web of Science, Scopus, LILACS, Biblioteca Virtual de la Salud, además de un repositorio electrónico y fuentes de literatura gris. Se incluyeron estudios sin restricciones en cuanto al diseño metodológico, al idioma y a la fecha de publicación. La selección de los estudios fue realizada por dos revisores, de forma ciega e independiente, utilizando el software Rayyan. El análisis de los datos se realizó mediante estadística descriptiva.
Resultados Se incluyeron 27 estudios (24 artículos y tres fuentes grises), con mayor publicación en 2020 (6; 22,2 %), y diseño de estudio metodológico (10; 37,03 %). La mayoría de las intervenciones se centró en el desarrollo de juegos, juegos serios u orientaciones en software para computadoras o aplicaciones móviles (13; 48,2 %), seguidos de juegos de mesa, material impreso, videos, blogs y pódcast.
Conclusión Se identificaron diversas tecnologías educativas dirigidas principalmente a adolescentes y jóvenes, que promueven enfoques innovadores y diversificados para la prevención y el manejo de las infecciones de transmisión sexual.
Descriptores
Tecnología educativa; Juegos experimentales; Juegos y juguetes; Infecciones de transmisión sexual
Introdução
As infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) estão entre as causas mais frequentes de doenças no mundo. A cada dia, há mais de 1 milhão de novos casos de ISTs entre a população de 15 a 49 anos,(1) o que equivale a 376 milhões de novos casos anuais, entre clamídia, gonorreia, tricomoníase, sífilis e HIV.(2) Consideradas um problema de saúde pública, as ISTs estão geralmente associadas a graves sequelas de saúde e vida do indivíduo. Com isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu ações prioritárias para alcançar a meta de acabar com as ISTs até 2030.(3)
As ISTs são causadas por vírus, bactérias e outros microrganismos transmitidos pelo contato de mucosas ou pele com secreções corporais contaminadas, como a prática sexual sem o uso de camisinha masculina ou feminina com uma pessoa infectada. A transmissão também pode acontecer de mãe para filho(a) na gestação, no parto ou na amamentação.(4) Compreende-se como população de risco todo indivíduo sexualmente ativo, isto é, adolescentes, jovens e adultos, de todos os gêneros e raças, considerando a média de idade de iniciação sexual da população brasileira de 17 anos.(5)
A OMS desenvolve metas, normas e padrões globais para prevenção, teste e tratamento das ISTs. Como parte de sua missão, apoia os países a elaborar planos e diretrizes estratégicas, incluindo a criação de ambientes de cuidado que possibilitem aos indivíduos dialogar e discutir sobre as ISTs.(3)
O cuidado em saúde compreende o acolhimento, a escuta, o entendimento e o respeito ao contexto social do sujeito. Nesse sentido, ações de educação em saúde elaboradas por meio do diálogo entre os profissionais e o público-alvo, com auxílio de tecnologias, facilitam a construção e reconstrução do conhecimento coletivo.(6)
As tecnologias educacionais podem ser utilizadas como estratégia de educação em saúde no processo de ensino-aprendizagem, porém não suprimem a necessidade de orientações e práticas realizadas de forma presencial por profissionais de saúde.(7,8)As tecnologias educacionais representam um conjunto sistemático de conhecimento científico que ajuda a planejar, executar, controlar e acompanhar o processo educacional formal ou informal.(6,8) Além disso, o cuidado prestado horizontalmente em que o profissional inclui o indivíduo no processo, considerando o contexto e necessidade dos envolvidos pode estimular mudanças de comportamento individual, o que pode impactar significativamente a concepção de hábitos e vida saudáveis.(9)
Até o momento, não foram encontradas revisões de escopo ou sistemáticas disponíveis ou em andamento nas bases Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Joanna Briggs Institute (JBI), Cochrane e Open Science Framework sobre o tema. Identificou-se apenas um protocolo de revisão no repositório da Universidade Federal de Pernambuco focado na prevenção de ISTs em adolescentes, mas indisponível para acesso.
Diante desse cenário, e tendo em vista a relevância do tema, revisão de escopo que identifique tecnologias utilizadas no cuidado às ISTs para adolescentes, jovens, adultos e idosos, de todos os gêneros, identificação sexual e raça/cor, poderá ser utilizada para subsidiar as melhores práticas e uso de tecnologias no processo de educação em saúde, assim como identificar lacunas sobre o assunto, fomentando a criação e validação de novas tecnologias. Sendo assim, o objetivo desta revisão foi mapear e descrever as tecnologias educacionais utilizadas no cuidado às pessoas com ISTs.
Métodos
Trata-se de estudo de síntese de evidências, do tipo revisão de escopo, desenvolvido seguindo as diretrizes do JBI, estruturado conforme Preferred Reporting Items for Systematic Reviews for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). Esse tipo de revisão é realizado quando há o objetivo de fornecer uma visão ampliada ou mapear evidências e conhecimentos disponíveis, possibilitando, no campo da saúde, a identificação de lacunas do conhecimento, o esclarecimento de conceitos-chave e o relato sobre os tipos de evidências e suas aplicações práticas.(10)
O protocolo desta revisão foi registrado no Open Science Framework (https://doi.org/10.17605/OSF.IO/EWQYD).
As questões de pesquisa e os critérios de elegibilidade foram definidos de acordo com o mnemônico sugerido pelo JBI: População (P) - Adolescentes, jovens, adultos e idosos de todos os gêneros, identificação sexual e raça/cor; Conceito (C) - Tecnologias educacionais utilizadas no cuidado às ISTs; e Contexto (C) - Qualquer cenário no Brasil da revisão pretendida. Acredita-se que, pela infinidade de produtos tecnológicos existentes, exista uma dimensão de tecnologias educacionais, inclusive aplicadas em diferentes contextos, que extrapola o setor de saúde, como em escolas e instituições de ensino. Com isso, utilizaram-se as perguntas: Quais tipos de tecnologias educacionais são utilizadas no cuidado às ISTs com adolescentes, jovens, adultos e idosos de todos os gêneros, identificação sexual e raça/cor? Como as diferentes tecnologias educacionais são utilizadas no cuidado às ISTs com adolescentes, jovens, adultos e idosos de todos os gêneros, identificação sexual e raça/cor?
Foram incluídos estudos em português, inglês e espanhol, sem recorte temporal ou restrição de desenho, que abordassem as variáveis da sigla PCC (População, Conceito e Contexto), envolvendo adolescentes, jovens, adultos e idosos de todos os gêneros, identidades sexuais e raças. Também foram considerados estudos sobre tecnologias educacionais aplicadas ao cuidado das ISTs em qualquer cenário no Brasil. Excluíram-se pesquisas que abordaram tecnologias educacionais voltadas exclusivamente à formação profissional.
A busca dos estudos ocorreu em três etapas, no período de julho a agosto de 2023, conforme indica o JBI. Inicialmente, com auxílio de um bibliotecário com experiência em ciências da saúde e com estudos de revisão, foram definidos os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS)/Medical Subject Headings (MeSH), palavras-chave e seleção das fontes de busca. Para isso, foi realizada pesquisa preliminar nas bases de dados MEDLINE via US National Library of Medicine National Institutes of Health (PubMed) e LILACS via Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), para análise das palavras utilizadas nos títulos e resumo dos artigos, e, assim, definição dos descritores e combinação da estratégia de pesquisa usando os operadores booleanos OR e AND.
Em seguida, foram elaborados comandos de busca com palavras recuperadas e descritores de vocabulários controlados (MeSH, DeCS), incluindo sinônimos e palavras-chave relevantes. Novas buscas foram realizadas nas bases MEDLINE via PubMed, Scopus, LILACS e Web of Science. Também houve busca na literatura cinzenta em fontes como OMS, Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Ministério da Saúde (MS) e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), com estratégias específicas para cada base (Quadro 1).
Por fim, na terceira etapa, as referências dos artigos selecionados para leitura na íntegra foram pesquisadas como fontes adicionais, a fim de identificar estudos relevantes que atendessem aos critérios de seleção e que não tivessem sido alcançados pela busca eletrônica nas fontes.
Todos os materiais e artigos identificados nas buscas foram agrupados e exportados para o gestor de referências EndNote Web, no qual foram identificadas as publicações duplicadas, que foram consideradas somente uma vez. Em seguida, os artigos foram exportados para o programa Rayyan, e foi feita a análise dos títulos e resumos por dois revisores independentes para seleção dos artigos para leitura do texto completo. O programa Rayyan foi utilizado por permitir o cegamento dos pesquisadores que, de maneira independente, realizaram a seleção dos estudos, e as divergências foram ponderadas por um terceiro pesquisador. Os resultados da seleção foram apresentados pelo fluxograma PRISMA-ScR.(10)
Os dados dos estudos incluídos na revisão de escopo foram extraídos pelos dois pesquisadores usando um instrumento organizado a partir do template disponibilizado pelo JBI contendo as seguintes informações: título; autores e ano; país, objetivo; população; contexto; desenho de estudo; tecnologia utilizada; abordagem utilizada; principais resultados.
Para análise dos dados, foi utilizada estatística descritiva com frequência absoluta e relativa, e os achados foram apresentados em quadros/tabelas. Os dados foram analisados de forma indutiva e organizados de acordo com o tipo de tecnologia desenvolvida. Assim, foram categorizados em jogos em computador/aplicativos, jogos de tabuleiro, materiais impressos e vídeos/blog/podcast.
Por se tratar de estudo de revisão, não foi necessário submeter o projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa; entretanto, os princípios éticos em pesquisa e o direito autoral das fontes foram respeitados.
Resultados
A busca final identificou 594 citações, sendo 143 na BVS, 33 na PubMed, 84 na Scopus, 149 na Web of Science, 35 na LILACS e 150 nos websites da OPAS/OMS/MS e da BDTD. Desses, 529 foram detectados com duplicidade e foram removidos, e 65 resumos permaneceram para análise. Desses, 25 foram excluídos porque não respondiam ao objetivo da revisão. Dos 40 materiais que seguiram para análise, 11 foram excluídos por não responderem às perguntas norteadoras, e dois artigos eram relacionados ao ensino de profissionais de saúde. Ao final, permaneceram 27 documentos que compuseram a revisão.(9,11-36) O fluxograma de busca e a seleção dos estudos encontram-se descritos na (Figura 1).
A maioria dos estudos selecionados foi publicada no ano de 2020(18-23) (6; 22,2%), e teve como desenho o estudo metodológico (10; 37,03%),(12,15,16,18,22,24,26,27,30,37) conforme apresentado no (Quadro 2). As tecnologias educacionais que emergiram nos estudos foram aplicadas em diferentes contextos, como instituições de ensino,(28,36) ambulatórios,(30) hospitais, unidades de saúde, unidades prisionais, de forma presencial e online. Além disso, abrangeram principalmente populações de adolescentes e jovens.(12,14-18, 21, 23,24, 26, 28, 30,31, 33,34, 36,37)
No mapeamento dos resultados, emergiram diferentes tipos de tecnologias educativas; entre elas: 13 (48,1%) estudos(12,15,17,18,19,21,24,25,26,27,29,32,34) desenvolveram jogos virtuais, videogames, serious games ou orientações em softwares para computadores ou aplicativos móveis; cinco (18,5%)(11,23,30,33,35) utilizaram jogos de tabuleiro; cinco (18,5%) estudos elaboraram materiais impressos como cartilhas(9,13,22), gibi(36) e jogos manuais(14); e os demais utilizaram tecnologias como vídeos educativos (7,4%)(20,28), blog(3,7%)(31) e podcast (3,7%)(16) (Figura 2).
Discussão
Na categoria jogos em computador/aplicativos, observou-se que os celulares, tablets e computadores ampliaram as possibilidades do uso de diferentes tecnologias educacionais, e ainda aumentaram a abrangência, abordagem e contextos de aplicação, proporcionando um espaço amplo de discussão e acesso a temas sobre sexualidade e ISTs.(12,15,17-19,25)
Jogos virtuais, aplicativos móveis e programas de computador foram as tecnologias mais destacadas nesta revisão, atraindo a nova geração com enredos interativos sobre sexualidade e ISTs.(24-27) O jogo SAAFE, por exemplo, oferece sete missões em uma realidade virtual onde os jogadores interagem com personagens para cumprir objetivos educativos. Cada missão aborda um tema específico, promovendo aprendizado envolvente.(21)
O aplicativo Girl Talk, no estudo realizado com adolescente do sexo feminino de 12 aos 17 anos, trouxe conteúdos como anatomia e fisiologia, saúde mental e física, prevenção da gravidez, sexualidade e relacionamentos, e prevenção de ISTs.(29)
No que diz respeito à experiência de jogo, estudo controlado randomizado investigou o efeito positivo do serious videogame na influência das atitudes, intenções, conhecimento e autoconfiança dos adolescentes em relação ao teste e aconselhamento sobre o HIV. Este estudo aponta para a capacidade de aumentar as taxas de testagem de HIV entre os jovens, além de sugerir que o videogame pode ser uma ferramenta eficaz na prevenção do HIV.(37)
Contudo, conforme discutido em um editorial, a disponibilidade de dispositivos de computação, como smartphones, tablets e computadores desktop, e a conexão com a Internet, apesar de crescerem, não estão amplamente difundidas ou acessíveis.(38)
Na categoria de jogos de tabuleiro, verificou-se que esses jogos se mostraram eficazes na educação em saúde, especialmente em grupos com facilitadores.(35) Estudo com dominó revelou maior conhecimento dos participantes sobre células, órgãos reprodutores, prevenção de ISTs/HIV/AIDS e gravidez não planejada. Contudo, dificuldades foram relatadas em relação ao entendimento de termos como “susceptíveis” e “sintomatologia”, e ao uso das peças relacionadas ao HPV e à sífilis congênita. Os jogos de tabuleiro incentivam a discussão coletiva, reflexão e esclarecimento de dúvidas, preenchendo lacunas sobre sexualidade e ISTs.(30,33,35)
Além disso, resultados demonstraram aumento significativo do conhecimento em mulheres encarceradas, com retenção do aprendizado sobre prevenção e comportamentos de risco relacionados às ISTs.(11) Esses estudos evidenciam a utilidade das tecnologias educacionais para auxiliar educadores e profissionais de saúde no ensino e diálogo sobre sexualidade, mostrando sua eficácia em contextos diversos e com diferentes públicos.(23)
Na categoria de tecnologias em materiais impressos, como cartilhas, gibis, álbum seriado e almanaques, por sua vez, verificou-se que possibilitaram um cuidado continuado, ao permitir que o indivíduo levasse as informações para casa.(9,13,14,22,36) Desse modo, tais tecnologias favorecem o processo de educação em saúde por possuírem abordagem simples, ilustrativa e acessível,(39) constituindo uma ferramenta essencial para aqueles que não possuem acesso à internet, celulares e computadores. Por isso, são amplamente desenvolvidas e disseminadas como meios de orientação em saúde em diversas temáticas, como construção de cartilha para prevenção de quedas em hospital,(40) álbum seriado para prevenção de lesão por pressão,(41) almanaque das emoções para crianças e adolescente, entre outros.(42)
Realizar atividades de educação em saúde utilizando ferramentas que facilitem esse processo de comunicação contribui para o processo de autonomia do indivíduo. O envolvimento e participação do público ao qual se destinam tais tecnologias no seu desenvolvimento e aplicação permitem maior inclusão e adequabilidade à necessidade por eles apresentada.(43)
Estabelecer um diálogo efetivo com os jovens sobre os meios e cuidados essenciais para prevenir a contaminação pelas ISTs é essencial. Afinal, a falta de conhecimento tem sido apontada como um dos fatores de risco para o crescimento de casos de HIV entre os jovens.(44,45) Nesse sentido, observa-se a necessidade de trabalhar a mudança de comportamento da população, principalmente as chamadas “populações de risco”, construindo e aplicando atividades que comuniquem com estes indivíduos e sejam efetivas na promoção de mudanças.
Na categoria de vídeos/blog/podcast, o vídeo educativo sobre preservativo masculino elaborado para surdos e ouvintes, por exemplo, permitiu estabelecer uma comunicação efetiva e inclusão de uma população vulnerável.(28)
Vídeos educativos com uma abordagem de projeção multimídia e de maneiras diferentes abordaram as ISTs, apresentando informações relevantes e elucidando dúvidas frequentes. Um dos estudos utilizou o estilo de vídeo Draw my life, que, com apenas um personagem, conta uma história curta de forma ilustrativa e divertida, mudando cenários, fundos, adicionando objetos e ações.(46) Os vídeos também funcionam como ferramentas de inclusão, quando desenvolvidos para atender às necessidades e especificidades de um determinado público.
Houve um aumento no destaque para explorar novas abordagens no desenvolvimento de intervenções e mensagens eficazes. Isto inclui a integração de métodos de coprodução com avaliações experimentais, quase experimentais e no mundo real, em resposta a isso, foi conduzido um estudo de codesign com o propósito de criar filmes motivacionais, destinados a incentivar os pais a protegerem seus filhos adolescentes. A intenção é ressaltar os benefícios da prevenção do câncer, oferecendo informações precisas e convincentes sobre a segurança da vacina contra o papilomavírus humano (HPV). Além disso, enfatiza-se a importância de administrar a vacina na idade recomendada, enquanto se comunica a universalidade e a natureza comum da infecção pelo HPV.(47)
Os podcasts adquirem relevância entre as novas tecnologias, pois ocorrem de forma direta, dialogada e simplificada. Este recurso on-line de áudio foi produzido com a participação dos adolescentes. A maioria dos participantes disse conhecer as ISTs/HIV/AIDS (90%), HPV (75%), Herpes (61,7%) e Sífilis (61,7%), mas não houve níveis satisfatórios sobre a testagem de HIV e aconselhamento sobre sexualidade na escola. Além disso, os tópicos sobre primeira relação sexual e práticas sexuais, relação da bebida alcoólica com a percepção nos comportamentos sexuais, gravidez no contato sexual com penetração desprotegida e transmissão do HIV tiveram um nível de conhecimento regular.(16)
Os estudos considerados nesta revisão de escopo utilizaram abordagens em variados contextos sociais e, ao utilizarem as tecnologias e jogos, desempenharam papel importante na efetividade das intervenções relacionadas às ISTs, promovendo ampliação e retenção dos conhecimentos traduzidos por essas tecnologias. Essas diferentes tecnologias educacionais foram utilizadas na difusão de informação e capacitação do seu público-alvo quanto às ISTs. Em sua maioria, abordavam as formas de prevenção, transmissão, sinais e sintomas, vacinas, tratamentos e cuidados pessoais, além do uso de preservativo masculino e feminino e riscos para a saúde. A tradução das informações embasadas em evidências era facilitada por profissionais ou estudantes de saúde que, com auxílio das tecnologias, fomentaram o debate e mediaram a reflexão dos indivíduos sobre ISTs para facilitar a aprendizagem do público-alvo.(48,49)
Como limitações da pesquisa, destacam-se os diferentes tipos de desenhos de estudos encontrados na literatura que versam sobre criação, validação e/ou aplicação das tecnologias. Com isso, cada estudo descreve de forma diferente a abordagem e funcionalidade do produto, por vezes sendo limitada a interpretação acerca do que realmente visa determinada tecnologia. Também foi encontrada uma variedade de aplicações tecnológicas voltadas às ISTs, e algumas delas são ferramentas de ensino destinadas à formação profissional, sendo, portanto, excluídas da presente revisão.
Cumpre destacar que, em termos de lacuna do conhecimento, estudos que abordam tecnologias educacionais com idosos são escassos por parte dos achados nesta revisão de escopo. Dessa forma, novos estudos com aprofundamento científico que incluam avaliação do uso das diversas tecnologias educacionais para esse público-alvo são necessários, pois adaptar tecnologias de acordo com os diferentes contextos sociais é primordial, assim como adequar abordagens conforme as necessidades de cada realidade. Também se mostrou evidente que tecnologias como chatbots educacionais, simulações, storytelling, quiz e inteligência artificial personalizada não foram encontradas na literatura e que precisariam de mais estudos para serem pensadas.
Conclusão
O estudo identificou diferentes tipos de tecnologias educacionais que abordavam o tema das ISTs e desenvolveu: 13 jogos virtuais, serious games ou orientações em softwares para computadores ou aplicativos móveis; cinco jogos de tabuleiro; cinco materiais impressos, como caça-palavras, gibi educacional e cartilhas; dois vídeos educativos; um blog; e um podcast. As tecnologias educacionais foram utilizadas na difusão de informação e capacitação do seu público-alvo quanto às ISTs, abordando as formas de prevenção, transmissão, sinais e sintomas, vacinas, tratamentos e cuidados pessoais, uso de preservativo masculino e feminino, e riscos para a saúde. A tradução das informações era facilitada por profissionais ou estudantes de saúde que, com auxílio das tecnologias, fomentaram o debate e mediaram a reflexão dos indivíduos sobre ISTs para facilitar a aprendizagem do público-alvo. Diversas tecnologias educacionais foram empregadas para tratar ISTs em diferentes grupos: com adolescentes, foram utilizados aplicativos, jogos virtuais, jogos de tabuleiro, blogs, quadrinhos educativos, podcasts e caça-palavras; para jovens, foram utilizados jogos de aplicativo; com adultos de todos os gêneros, foram utilizados jogos manuais e cartilhas; para surdos e ouvintes, foram utilizados vídeos educativos; no caso de mulheres encarceradas, foram utilizados materiais impressos e jogos de tabuleiro; e para homossexuais, cisgêneros e transgêneros, foram utilizados serious games e aplicativo móvel. As tecnologias educacionais mediaram o processo de cuidado e educação em saúde realizado pelos profissionais de saúde envolvidos, possibilitando uma abordagem mais acolhedora de escuta, entendimento e respeito ao sujeito. Essas tecnologias auxiliaram na construção e reconstrução do conhecimento coletivo, ampliando o letramento em saúde da população que utilizou as tecnologias.
Agradecimentos
Ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Espírito Santo (FAPES), processo nº 2022-57157.
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Editora Associada:
Rafaela Gessner Lourenço (https://orcid.org/0000-0002-3855-0003) Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
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