Open-access Para onde os ventos sopram? Novas cartografias políticas e extrativismo na Amazônia

Resumo

O objetivo deste artigo é contribuir com a análise de processos em curso na Amazônia provocados por novos interesses econômicos e geopolíticos por parte de agentes nacionais e internacionais. Procuramos identificar as cartografias de poder e os movimentos que alteram os territórios com grande velocidade e também a atuação de empresas e corporações responsáveis por conflitos com coletivos de atores sociais locais. Esse contexto revela um clima de violência que tende a se expandir. A análise e os dados resultam de pesquisa realizada em alguns municípios atravessados pela Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), no Oeste do Pará. Trata-se de uma das regiões da Amazônia mais afetadas pelas transformações socioeconômicas e ambientais em função da implantação de grandes projetos de infraestrutura - portos, estradas, ferrovias e hidrelétricas - para viabilizar o corredor de exportação de commodities e a expansão de empreendimentos agropecuários e minerais.

Palavras-chave:
Amazônia; cartografias políticas; conflitos; extrativismo; projetos de infraestrutura; desmatamento

Abstract

New cartographies: the objective of this article is to contribute to the analysis of economic and geopolitical processes by national and international agents. We seek to identify the cartographies of power and the movements that are rapidly altering territories. It also covers the actions of companies and corporations responsible for conflicts with social, ethnic, gender, and worker groups. This context reveals a climate of violence that tends to expand. The analysis and data are the result of research conducted in municipalities along the Cuiabá-Santarém Highway in the western state of Pará - BR-16. This is one of the most affected regions of the Amazon in terms of socioeconomic and environmental changes as a result of the implementation of large infrastructure projects - ports, roads, railways, and hydroelectric plants - to enable the export corridor for commodities and the expansion of agricultural and mining ventures.

Keywords:
Amazon; political cartography; conflicts; extractivism; infrastructure projects; deforestation

Resumen

El objetivo de este artículo es contribuir al análisis de los procesos en curso en la Amazonía, provocados por nuevos intereses económicos y geopolíticos de agentes nacionales e internacionales. Buscamos identificar las cartografías del poder y los movimientos que transforman los territorios con gran rapidez, así como la actuación de empresas y corporaciones responsables de conflictos con colectivos de actores sociales locales. Este contexto revela un clima de violencia que tiende a expandirse. El análisis y los datos proceden de una investigación realizada en algunos municipios atravesados por la carretera Cuiabá-Santarém (BR-163), en el oeste del estado de Pará. Se trata de una de las regiones de la Amazonía más afectadas por las transformaciones socioeconómicas y ambientales derivadas de la implantación de grandes proyectos de infraestructura -puertos, carreteras, ferrocarriles y centrales hidroeléctricas- destinados a viabilizar el corredor de exportación de materias primas y la expansión de emprendimientos agropecuarios y mineros.

Palabras-clave:
Amazonía; cartografías políticas; conflictos; extractivismo; proyectos de infraestructura; deforestación

Introdução

Este artigo parte de inquietações sobre os grandes desafios que a humanidade tem pela frente diante da iminência de acontecimentos inesperados decorrentes de mudanças climáticas sobre as quais nem a ciência nem a tecnologia têm respostas à altura de sua magnitude. A razão ocidental baseou as crenças da modernidade e formulou concepções que atravessariam os últimos séculos até o presente. É o caso da noção de desenvolvimento que se impôs progressivamente enquanto macronarrativa, vista por Rist (2002) como crença, para designar, seja o crescimento econômico associado às ideias de progresso e modernização, seja referido à justiça social e às políticas de redução da desigualdade social, incorporadas mais recentemente.

Muitos estudos da filosofia, da ciência e da arte dedicaram-se ao esclarecimento da modernidade em sua essência e, sobretudo, formularam uma crítica ao modelo de sociedade fundado na obsessão do crescimento econômico e da dominação da natureza (Bauman, 2007; Morin, 2008; Polanyi, 2000).

A Amazônia é epicentro do debate mundial sobre as emergências climáticas (Rodrigues, 2024). Cresce a esperança, no imaginário contemporâneo, sobre os serviços ecossistêmicos prestados (de suporte, provisão, regulação e cultura) e sobre a narrativa da necessidade de salvar a região e da suposta capacidade desta de salvar o planeta. Isso permitiria mudar ou adiar os efeitos negativos das mudanças climáticas, provocados, sobretudo, pelo modelo intensivo de produção e consumo de energia fóssil, que se associa mais recentemente com a economia verde/colonialismo de baixo carbono (Tornel, 2025).

Mas, afinal, qual o papel que a Amazônia pode ter nesses processos climáticos, se sua própria integridade está sob ameaça? Como imaginar o futuro do planeta sem o conectar aos efeitos da intensificação extrativista, do aumento dos incêndios, do desmatamento e da poluição das águas nessa última década? Tais questões orientam a análise sobre as dinâmicas atuais na Amazônia e o papel que possa ter na concertação mundial sobre o clima e a transição societal.

Há empreendimentos que são formadores e/ou indutores de novas ordens espaciais e capazes de ampliar os usos corporativos do território, o desmatamento, a land grabing, e violências e conflitos que já são observáveis historicamente na Amazônia. O cenário futuro seria sua ampliação face à presença de megaprojetos extrativistas que se instalam ou estão projetados para essa região. Isso porque os grandes empreendimentos se superpõem cada vez mais como estruturas estampadas na paisagem e nas dinâmicas territoriais dessa região, trazendo investimentos do sistema-mundo, com seus mecanismos especulativos, ligados, sobretudo, ao agronegócio e à mineração.

Tal tendência fortalece a razão privatista da terra - trata-se de um caminho de legitimação da propriedade privada da terra, assim como de colonialidade e mercantilização da natureza. Por isso, é fundamental entender para onde os ventos sopram no avanço da economia mundial e o que eles nos revelam sobre os impactos provocados na Amazônia e suas consequências em relação às mudanças climáticas.

Pretendemos, com este artigo, contribuir com as análises sobre processos muito complexos, marcados por interesses de diferentes agentes e agências que atuam na Amazônia de hoje. Ao mesmo tempo busca-se identificar novas cartografias (geo)políticas que se expressam como movimentos que alteram os territórios de antiga “ocupação” e ressaltam as disputas e confrontos de interesses entre empresas/corporações internacionais organizadas em cadeias produtivas e os atores locais. Assim como observa-se a emergência de novas formas de conflitualidades e suas simultaneidades em distintas regiões (Castro, 2019). Os resultados da pesquisa em curso apontam para a correlação entre o modelo intensivo de uso da terra - neoextrativista de grande escala -, a alteração intensiva do território e as mudanças do clima verificadas no país.

O trabalho de pesquisa contou com uma metodologia qualitativa e quantitativa realizada em municípios atravessados pelas rodovias BR-163 e BR-230, no Pará (Itaituba, Trairão e Novo Progresso), e a observação direta das dinâmicas socioeconômicas ali presentes. Do ponto de vista metodológico, este trabalho baseia-se em análises críticas, por meio de: i) pesquisa de campo, realizada em Itaituba, Rurópolis e Trairão, entre 2014 e 2024; ii) Cadernos de Conflitos no Campo da CPT; iii) entrevistas semiestruturadas com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Além disso, foram utilizados dados secundários produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e site institucional da concessionária da Br-163 (a Via Brasil Br-163) e MapBiomas Brasil.

Cabe ressaltar que desde 2014 realizamos pesquisas no Oeste do Pará. Acompanhamos, ao longo da última década, a emergência de novas problemáticas, refinando atualmente os estudos sobre a infraestrutura e a logística. Constatamos a superposição, nos mesmos territórios em análise, de várias dinâmicas socioeconômicas decorrentes de políticas governamentais e empresariais voltadas à infraestrutura de logística, tais como portos, rodovias, hidrovias, ferrovias e hidrelétricas. O objetivo principal desses empreendimentos construídos ou projetados é viabilizar e definir um novo patamar de fluidez para o percurso entre grandes distâncias visando o escoamento de commodities agrícolas e minerais e aumentar ganhos econômicos, principalmente de multinacionais, bancos, fundos e gestores de ativos.

Nas cidades de Itaituba, Santarém, Altamira, Trairão, Rurópolis e Novo Progresso, no Oeste do Pará, as lógicas de novas fronteiras se impõem às dinâmicas das fronteiras tradicionais e atravessam a vida nos vales dos rios Tapajós e Xingu. Embora a noção de fronteira seja clássica nos estudos sobre lugares de ocupação, conforme considera Martins (2009), a adotamos enquanto categoria histórica que nos ajuda a entender as dinâmicas territoriais - econômicas, sociais, étnicas, políticas, ambientais e institucionais. Cabe assinalar que essas dinâmicas estão e são um campo relacional: formado por agentes e agências, por interesses e alianças e conflitos que envolvem a ação do Estado, do mercado nacional e internacional e dos atores locais. Dinâmicas e campo relacional que são observáveis em lugares onde há uma rápida mudança no uso da terra, da qual está acontecendo a extração, exploração de certos recursos ou a produção/circulação de commodities específicas (Waroux & García, 2025).

Na contramão da sustentabilidade

A América Latina sempre teve sua economia marcada pela exploração intensiva de recursos naturais. Ao longo do tempo, as pautas do comércio exterior foram sustentadas pela intensificação da extração de bens primários e pelo avanço da fronteira sobre novos territórios. Quanto mais ricos em recursos da floresta, de rios, do solo e subsolo, maior a magnitude de sua exploração, na modalidade dominante do que tem sido o extrativismo como parte da acumulação de grande escala, cujas estratégias coloniais de conexão entre o ocidente e o mundo afro-americano estiveram presentes na história de todos os países das Américas.

O modelo de desenvolvimento adotado no Brasil apresenta esse mesmo padrão, pois se pautou no extrativismo vegetal, animal e mineral, com uma inserção internacional dependente, subordinada e funcional ao mercado do capitalismo transnacional, cujos marcadores do progresso e do desenvolvimento atualizam até o presente, o imaginário sobre “ser contemporâneo e moderno”, com ideologia calcada em uma cultura (geo)política de mercado e para o mercado (Wallerstein, 1989), notadamente das dinâmicas do mercado financeiro. Nesse contexto, alinham-se as ações (geo)políticas do Estado brasileiro que integram o processo de mundialização e financeirização global, como forma de cumprir uma agenda de consenso de commodities e transições lucrativas do extrativismo/colonialismo verde, conforme analisam Bringel e Svampa (2023).

Essa é uma agenda que se expressa em lugares atribuídos no sistema mundo: de um lado, os países especializados em exportar produtos in natura, semielaborados, matérias-primas, com reduzido valor agregado; e na outra ponta, os países exportadores de capital traduzido em equipamentos, patentes, tecnologias digitais, inteligência artificial, e uma gama de bens e produtos do mercado financeiro e de investimentos.

Os avanços tecnológicos permitiram imprimir extraordinária rapidez no desmonte de recursos naturais e no seu transporte de um lugar a outro por grandes distâncias, amparados na chamada indústria 4.0. Nela, são adotadas práticas corporativas de controle dos processos produtivos que proporcionam a sincronização de fluxos em tempo real e possibilitam a fabricação de produtos unitários e personalizados (Rodrigues, 2020). Mas também cabe ressaltar que os avanços tecnológicos foram absorvidos nos processos de integração de informações e interoperabilidade, de normalização relacionada com sistemas ciberfísicos (CPS) e a Internet das Coisas (IoT), na cibersegurança e privacidade da informação e nos problemas de escalabilidade, por inserirem cada vez mais objetos conectados às redes de manufatura (Kohler & Weisz, 2016).

Todas essas mudanças podem ser observadas nos circuitos de transporte de produtos da Amazônia para o mercado global. Grandes volumes de matérias-primas, como parte de cadeias produtivas globais, são deslocados por vias rodoviárias, ferroviárias, hidroviárias e portuárias (Castro, 2012). Esse é um salto que foi possível devido ao enorme desenvolvimento da tecnologia de navegação fluvial e marítima, e que conseguiu eficácia e adequação de tempos e movimentos no espaço global.

A inovação tecnológica está no cerne da circulação de enormes volumes de carga, que permitiu extraordinária rapidez, eficácia e procedimentos just in time, adequando-se às novas exigências e temporalidades do mercado mundial. Estamos diante de situações mais complexas por meio das quais a sincronização financeirizada entre fluxos, fixos e cadeias de valores e as commodities aponta o fortalecimento da dependência do neoextrativismo (Soener, 2023; Castro, 2018; Rodrigues, 2024).

A revolução verde dos anos 1970 tornou a monocultura agrícola um motor de produção em massa de alimentos. Tudo isso acabou promovendo políticas voltadas ao crescimento da agricultura em larga escala, e por isso intensiva também no uso de insumos químicos, e, junto com outros setores, têm aproveitado o boom global de commodities que permanece à revelia de seus danos ambientais (Ollinaho, Pedlowski & Froger, 2023).

O resultado que temos hoje é devastador, sobretudo, referente às doenças provocadas pela poluição de terras e cursos d’água. Esse avanço da monocultura, da produção de grãos (soja e milho), de oleaginosas (dendê), de eucalipto e outras monoculturas, significa uma extração intensa e contínua de recursos, de nutrientes do solo e da água e lençóis freáticos - portanto, um processo neoextrativista pela intensidade tecnológica. Os relatos escutados no trabalho de campo se acumulam sobre as práticas de violência em territórios ocupados por populações tradicionais com seus sistemas de conhecimento e práticas de uso coletivo da terra e territórios. Muitas dessas violências são observadas nos processos de expropriação de terras, muitas vezes as empurrando para as periferias urbanas (Aldrich et al., 2020).

O neoextrativismo continua sendo um pilar da economia brasileira, pois “para além da propriedade dos recursos, reproduzem-se as regras e o funcionamento dos processos produtivos voltados para a competitividade, a eficiência, a maximização da renda e a externalização de impactos” (Gudynas, 2015, p. 15). Os processos de colonização das Américas agenciaram mecanismos de saque e apropriação de riquezas como práticas correntes. Tais dinâmicas permanecem fundamentais na produção de matérias-primas e figuram como corolários da dependência do Brasil - inclusive frente às grandes corporações globais -, reproduzindo a divisão internacional do trabalho e as práticas coloniais, ao passo que aprofundam os efeitos dos processos antrópicos evidenciados por Porto-Gonçalves (2012) e Leff (2020) na crítica da ecologia política.

Por outro lado, esse movimento ocorre no bojo de um longo processo estrutural de desindustrialização do país e de precarização do trabalho, que condena a economia brasileira à predação do patrimônio ambiental para geração de riqueza abstrata sob o comando da economia financeira internacional (Bronz, Zhouri & Castro, 2020). Países muito ricos em recursos naturais podem obter grandes somas de rendas financeiras, aumentar o Produto Interno Bruto, sem conseguir, no entanto, as bases necessárias para a redução da desigualdade social, pois esta implica em romper com as dinâmicas da dependência, da acumulação de capital e do colonialismo, potencializando, portanto, a concentração de terra e de riqueza.

Consequências socioambientais do neoextrativismo na Amazônia

Os resultados de processos sociometabólicos recentes, principalmente os mecanismos de “incorporação” da Amazônia ao espaço global, inserem-se em contextos econômicos e (geo)políticos distintos. Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, havia um otimismo em relação às possibilidades de generalização global dos processos associados ao liberalismo social e econômico, com a crescente destruição das formas de estruturação social tradicionais, a ascensão do moderno capitalismo industrial e a crescente integração produtiva da natureza e da tecnificação das estruturas produtivas.

Vive-se, assim, um outro período histórico no qual o presente está no horizonte dos ‘novos tempos’ da modernidade, e, principalmente, nas últimas décadas, ancoraram-se: i) no neoliberalismo, com o nexo Estado-Finanças (Aalbers, 2020); ii) na financeirização, com a proeminência dos fundos soberanos, na mudança de papéis dos bancos nacionais de desenvolvimento e dos bancos centrais e nos impactos da internacionalização da moeda; iii) no investimento público em infraestrutura regional e global (Vasilakos, Pitelis, Horsewood & Pitelis, 2023); iv) na “digitalização do mundo e da vida” (múltiplas tecnologias e redes técnicas); v) na economia de plataformas, semicondutores e inteligências artificiais; e, vi) ainda, na edição de uma agenda ambiental baseada e fundamentada em princípios de justiça, de direitos humanos, incorporando fortemente os desafios da crise ambiental.

Cabe ressaltar as ideias que emergem nesse cenário como dominantes - a exemplo da utopia da bioeconomia, da mobilização de discursos de sustentabilidade sem renúncia das estruturas da acumulação econômica, numa ordem multipolar - cujos atores globais influentes buscam legitimar e normalizar a conquista, a ocupação e a colonização (Rodrigues, Campos & Santana Jr, 2022). Esse cenário nos informa sobre a commodificação da economia, das relações e da produção (impositiva) de agendas e agentes globais.

Alinhado ao ideal neoliberal, o Estado brasileiro, entre 2019 e 2022, buscou flexibilizar e diminuir a fiscalização dos impactos ambientais, como destacam Vilani, Ferrante e Fearnside (2023). As pressões para enfraquecer os dispositivos legais de proteção ambiental constituem evidências confirmadas no trabalho de campo.

Não por acaso, ao longo do último governo do Brasil, houve o aumento enorme do desmatamento na Amazônia, inclusive estimulado por políticas e decretos antiambientais, tolerância e até incentivos às atividades ilegais, atingindo níveis recordes de desmatamento e focos de incêndios. As políticas atuais têm como direção a promoção dos direitos dos povos indígenas, a retomada da demarcação de Terras Indígenas e de Territórios Quilombolas, a preservação, a conservação e o uso sustentável dos ecossistemas, da biodiversidade e das florestas, correspondendo também à proteção e à restauração de espécies nativas, vegetação e fiscalização e monitoramento ambiental.

São boas as intenções ancoradas na legislação ambiental, no entanto, não arranham as conformações estruturais de reprodução do modelo vigente, produzindo evidências sobre as tensões para reduzir a eficácia dessas iniciativas. Os dados mostram a tendência de expansão das fronteiras agropecuárias e minerárias, perda de biodiversidade e a conflitualidade com atores locais (Peres et al., 2023).

Dinâmicas socioeconômicas e transformação dos territórios

[...] eu cheguei aqui no Pará foi dia quatro de agosto de setenta e cinco. Setenta e cinco [1975]. [...] quando eu cheguei aqui, essa estrada era só mato. Então você via a picadinha de um lado e pro outro, né? De quinhentos a quinhentos metros você entrar naquela picada, então lá dentro do mato tinha uma casa do colono... de colono ali. Aí começou a desbravar a Transmazônica e a Santarém-Cuiabá, né? Hum. Começou aí, começou então um pessoal aí do governo e prometeu que de cinco em cinco quilômetro era pra ter uma, uma escola, uma casa de escola (Entrevista realizada com um dos chamados pioneiros da Transamazônica/BR-230 e Santarém-Cuiabá/BR-163, em 13 de outubro de 2022).

A nova marcha para o Norte-Oeste é atravessada por histórias como esta, sobre as dinâmicas de fronteira e experiências sociais impregnadas de memórias e vivências. Esse camponês, migrante e “pioneiro” suprarreferido, traduz um recorte espaço-temporal do seu sentir-pensar, e permite-nos conectar a processos mundiais com as alterações locais. É o caso do Oeste do Pará, que é um “microespaço” representativo de uma cartografia histórica de conflitos, fruto do processo de formação socioeconômica e política que se construiu socialmente por meio da (uso da) violência: física, simbólica, epistêmica, étnica, racial e de gênero (Rodrigues, 2020).

A Amazônia está associada a uma história de violência colonial relacionada ao território e às tensões impostas às populações ali residentes, considerando as últimas décadas de acirramento dos processos de colonização e abertura de grandes eixos rodoviários, desde a Rodovia Belém-Brasília (BR-010), na década de 1950. O mapa dos conflitos agrários identifica a expropriação de populações tradicionais de suas terras, a grilagem de terras, as chacinas e mortes anunciadas por mandantes e seus pistoleiros, enquanto marcadores de lugares e tempos (Rodrigues, Campos & Santana Jr, 2022).

As imagens da violência estão registradas na memória e nos corpos das pessoas e, por isso, ela se tornou uma chave de interpretação das dinâmicas socioeconômicas nos territórios amazônicos. Além disso, com o mercado hiperglobalizado, os interesses econômicos nos recursos naturais ampliaram-se, intensificando as pressões e os conflitos em torno da terra, da floresta, das águas, do solo e do subsolo. Tal situação constitui uma espécie de movimento duplo: expansão de frentes de exploração econômica e ação do Estado brasileiro, com as políticas desenvolvimentistas (Rodrigues & Nahum, 2023).

Desde que a primeira grande estrada que liga a Amazônia ao resto do Brasil (Rodovia Belém-Brasília) foi pavimentada nos anos 1970, cerca de 94 milhões de hectares de vegetação natural da Amazônia (incluindo florestas e savanas arborizadas) foram desmatados. Durante o período 1985-2021, a área agrícola total aumentou ainda mais rapidamente para 43,5 Mha (pastagens de gado ~ 36,3 Mha; terras agrícolas ~ 7,2 Mha) (Peres et al., 2023). Observam-se no mapa as grandes alterações verificadas no uso e ocupação do solo de 1985 a 2020, e a persistência da perda da cobertura florestal, como identificado no arco do desmatamento, essa grande faixa demarcadora dos limites da floresta em movimento.

Figura 1
Uso e ocupação da terra na Amazônia Legal - 1985-1920

O crescimento do desmatamento se articula com a própria expansão e territorialização da pecuária e da exploração de madeira dos anos 1970-80, e da mineração, e atualmente pela economia de grãos e projetos de infraestrutura e de mineração. O desmatamento tende a avançar sobre as Unidades de Conservação e as Terras Indígenas ao longo da Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), seguindo o rio Tapajós. No atual governo, essa tendência se mantém.

Itaituba e Novo Progresso, na BR-163, estão desde 2014 entre os municípios da Amazônia Legal com as maiores taxas de desmatamento, com um total acumulado, de 2014 a 2021, de 1.657,07 ha, em Novo Progresso e 1.292,56 ha, em Itaituba, para produção de pastagens, especulação de terra e plantios de monoculturas de grãos. O avanço das pastagens merece um destaque especial e por isso mostramos a seguir o seu desenvolvimento em duas décadas.

Figura 2
Gráfico de área de pastagens (ha) nos municípios da BR-163 (2000-2022)

As pastagens parecem ser um ponto para vários caminhos de transição no uso da terra. A floresta é convertida diretamente em pastagens ou em terras agrícolas com fins lucrativos, sendo que mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagens (Mapbiomas, 2024).

Esse processo resultou num crescimento de 363% da área de pastagem no bioma durante o período, com a superfície de pastos expandindo-se de 12,7 milhões para 59 milhões de hectares (Mapbiomas, 2024). Para Monteiro e Bernades (2024), o gado é utilizado para demarcar uma propriedade e especular a área, que provavelmente foi adquirida por mecanismos de burla, por meio da grilagem, como também para a “domesticação” da terra para que em seguida seja implementada a plantio de grãos. Cabe enfatizar que a pecuária contribui para a emissão de gases de efeito estufa, principalmente por meio da produção de metano e óxido nitroso, gerados pela digestão de ruminantes e pela gestão de fezes e urina (Da Costa, Debone & Miraglia, 2025).

Um tipo de violência extrativa, que por meio do desmatamento, o total acumulado de 2014 a 2024: 2.973,53 km² em Novo Progresso e 2.687,99 km² em Itaituba (INPE, 2025), principalmente para produção de pastagens. Isso é evidenciado no aumento percentual do número de cabeças de gado e o percentual de áreas de pastagens. Em Itaituba, Novo Progresso e Trairão, os percuntuais: do número de cabeças de gado (2004 a 2023) e área de pastagens (ha) (2000 a 2022), foram respectivamente, 123,60 %, 102,07 % e 349,2804 %1 (IBGE, 2025); e, 295,09 %, 388.92 % e 494.675 %2 (Mapbiomas, 2024). Cabe ressaltar que no Brasil as pastagens para gado de corte cobrem cerca de um quinto de todo o país, constituindo o maior fator de desmatamento nos hotspots de biodiversidade do Cerrado e da Bacia Amazônica (De Paula et al., 2025).

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra/CPT contidos no Relatório de Conflitos no Campo (2022), a Amazônia Legal concentrou, em 2022, um total de 1.107 conflitos no campo, o que representa mais da metade de todos os conflitos ocorridos no país (54,86%). Além disso, dos 47 assassinatos no campo registrados no Brasil em 2022, 34 ocorreram na Amazônia, o que representa 72,35% de todos os assassinatos no país.

Os fazendeiros foram responsáveis por 23% das ocorrências de conflito por terra, seguido do governo federal, com 16%. Em seguida, aparecem outros empresários (13%) e grileiros (11%). A principal mudança em relação ao ano de 2021 foi o crescimento da participação do governo federal nos conflitos de terra, que saltou de 10% para 16%. Isso está muito relacionado à expansão da apropriação ilegal de terras e da flexibilização do controle de crimes socioambientais nessas áreas. Cabe ressaltar que o município de Novo Progresso foi o epicentro do movimento coordenado por grandes fazendeiros para ocupar ilegalmente as Unidades de Conservação e as Terras Indígenas que somam grandes superfícies com floresta preservada e rica em minerais.

Para o agente social da CPT entrevistado, há uma:

[...] intensificação dos conflitos entre aqueles que querem de alguma forma tomar a terra e aqueles que querem continuar resistindo e permanecendo em seus territórios. Seja o conflito, ele vem por meio da retirada de madeira, de algumas áreas de assentamento, que são terras públicas, seja pra expansão dos portos, também pela especulação imobiliária, especulação de terras seja por meio do garimpo, da exploração de garimpo principalmente agora que invadem as terras indígenas e seja por esses grandes empreendimentos [...] (Entrevista realizada em agosto de 2022).

Para outro agente social da CPT entrevistado:

A cidade de Itaituba inchou. Nós temos agora mais violências na cidade; mais carros, mais gente, mais inchaço populacional e menos infraestrutura do ponto de vista das políticas públicas no território. Me parece também muito notório que, com tudo isso que eu acabei de falar, o Estado não efetiva as políticas públicas. Se já era um descaso antes, agora parece que ele tem sido mais proposital. O que a gente percebe é que o Estado de fato não é que ele seja ausente. Ele está presente, compactuando e favorecendo esses grandes empreendimentos, como os portos. A gente pode perceber os próprios processos de licenciamento. Então, o que mudou? O que era descaso antes do Estado, conforme a gente avaliava, hoje é mais presença com os projetos, os grandes empreendimentos, o agronegócio, justamente para favorecer todo esse contexto de avanço dos empreendimentos (Entrevista realizada em agosto de 2022).

Novo Progresso possui inúmeros conflitos e grande violência contra trabalhadores rurais que vivem no assentamento chamado Terra Nossa. A violência, segundo os moradores, decorre das ações de grileiros, de garimpeiros, de mineradoras, da elite local e de madeireiros. O assentamento de pequenos produtores rurais sofre com a expansão da soja desde 2019 e vem sendo afetado por incêndios criminosos. As áreas incendiadas em 2019 ficaram conhecidas nacionalmente. Foram incêndios criminosos que ocorreram em uma data que ficou conhecida como o “Dia do Fogo”. Ocorreu, concomitantemente, em vários lugares da BR-163, incluindo as Unidades de Conservação, evidenciando uma ação planejada como recurso estratégico de ocupação ilegal de terras (Lacerda, 2023).

Essas áreas hoje conformam um continuum de terras que se tornaram campos de soja (Camargos, 2022). Algo muito semelhante vem ocorrendo em assentamentos de trabalhadores rurais nos municípios de Itaituba e Trairão, com ocorrências de invasão simultânea em várias áreas de assentamentos rurais, grilagem e venda ilegal de terras de uso coletivo. O Assentamento Areia, criado em 1998, no município de Trairão, foi invadido e está sendo explorado por madeireiros e há ocupação ilegal de lotes por fazendeiros.

Atores hegemônicos e escalas de ação e da espoliação

A Amazônia paraense, a partir das pesquisas na área referida, constitui a materialização de uma política escalar hegemônica pautada em megaprojetos neoextrativistas e pela intervenção do Estado na construção das seguintes obras de infraestrutura: ferrovia (Ferrogrão), hidrovias (Teles-Pires e Tapajós), dezenas de portos de grande e médio portes e a expansão da rodovia BR-163, complexo hidrelétricos de São Luiz, no rio Tapajós, de Cachoeira do Caí, de Jamanxim, de Cachoeira dos Patos, de Chacorão, de Jardim de Ouro e de Jatobá, além da hidrelétrica prevista para Oriximiná, na Calha Norte do rio Amazonas e pequenas centrais hidrelétricas (do Cupari e Itapacurá/Rurópolis e Itaituba). Igualmente cabe assinalar a pavimentação do trecho Distrito de Campo Verde/Itaituba e Rurópolis (BR-163/BR-230) e o projeto de concessão do médio rio Tapajós (de Itaituba a Santarém). Portanto, sinaliza uma confluência na agenda política e econômica.

A noção de desenvolvimento reforça a relevância dos projetos de infraestrutura de grande escala. O objetivo final desses projetos é produzir territórios transnacionais funcionais, que possam ser conectados a redes globais de produção e comércio. Portanto, há um movimento pendular de transformar territórios de vida e tradições e de direitos em um corredor de commodities, para escoar a grande produção, sobretudo, do Centro-Oeste e da Amazônia, onde ela se expande rapidamente. Esses projetos contribuiriam para formar um corredor multimodal commodities, composto por um complexo rodovia-ferrovia-hidrovias-portos. Isso evidencia o papel da logística de commodities e o lugar da Amazônia nas grandes cadeias produtivas globais (Ravena, 2012; Castro & Castro, 2022). Movimento este que, seguindo as dinâmicas econômicas e políticas atuais, projeta-se no futuro com cartografias de poder próprias.

Hoje, a maior materialização de megaprojetos neoextrativistas são os portos. No caso, o Complexo Portuário de Itaituba, sobre o rio Tapajós, conforme se vê na Figura 3, comporia ou integraria as redes globais de produção e distribuição de “alimentos” do agronegócio. No total, são mais de 20 portos funcionando e com perspectiva de que sejam construídos mais 20 portos, entre os municípios de Itaituba e Rurópolis.

Figura 3
Portos no rio Tapajós, Município de Itaituba, Pará

Essa territorialização pelos portos, enquanto cartografias de poder, constitui um processo de apropriação do espaço geográfico que integra mercados, a produção, as finanças e a instauração de uma nova divisão territorial do trabalho, verificando-se o acirramento de assimetrias e de desigualdades no espaço mundial e, sobretudo, regional e local.

Tal configuração de poder se manifesta atualmente pela presença de megaempresas globais, com capital gigante, na região de Itaituba e Santarém (Rodrigues, 2021). As grandes corporações agroalimentares que dominam o mercado e a circulação global de grãos, como a ADM, a Bunge, a Cargill e a Dreyfus, são poliempresas, em geral, consorciadas ou em rede, que têm incorporado novos investidores e novas regiões a processos rentistas espoliativos. Assim, as tradings e as multinacionais de grãos vêm disputando o controle da cadeia de abastecimento, com negociações de grandes volumes e o monopólio do uso dos territórios.

Ao dominarem um setor, por exemplo, de insumos e produtos agrícolas, por um período tão longo, os conglomerados empresariais influenciam não apenas a forma, o padrão de operação e os preços internos dos insumos, mas também a direção das inovações agrícolas e das políticas agrícolas conforme sinaliza Clapp (2021). Ainda cabe ressaltar que as obras de infraestrutura se impõem sobre as estruturas existentes como um poder transformador e se movimentam em processos de criação de novos territórios para apropriação, uso e organização de determinadas extensões do espaço por lógicas, técnicas e políticas hegemônicas.

Também está relacionada aos complexos portuários no Oeste do Pará, a territorialização de novo agente econômico hegemônico, de infraestrutura rodoviária, que é a Via Brasil BR-163. As obras de pavimentação da BR-163, entre os municípios de Novo Progresso e Itaituba, foram concluídas em novembro de 2019. Neste mesmo ano, o governo brasileiro criou um projeto de concessão por meio do Decreto nº 9.972. Em julho de 2021, houve o leilão e a concessão foi efetivada, sendo assinado o contrato por 10 anos, em abril de 2022, entre a concessionária, Via Brasil BR-163 e o Governo brasileiro (Rodrigues & Nahum, 2023).

A Via Brasil BR-163 foi concedida a quatro empresas: Conasa Infraestrutura, Zeta Infraestrutura, Construtora Rocha Cavalcante e M4 Investimentos & Participações, porém, está inserida ao Grupo Conasa, a Conasa Infraestrutura, que é uma holding administradora de Sociedades de Propósito Específico (SPE), que atua no segmento de saneamento, iluminação pública e rodovia (Via Brasil, 2025) e possui a Generate Capital, fundo verde de investimentos norte-americano como acionista. Em 2023 esse fundo passa a ser acionista majoritária da Conasa, com 60% de participação financeira e 44% de controle. A Conasa Infraestrutura é responsável pela gestão de mais de 1.000 quilômetros na rodovia que liga as áreas densas de produção de grãos, em Mato Grosso, aos portos no Pará. Esse trecho é um dos principais corredores para o escoamento de grãos aos terminais portuários do Arco Norte (Rio Tapajós).

Segundo Kanai & Schindler (2019, p. 303) é preciso “aumentar a competitividade econômica por meio de maior conectividade com cadeias de valor transnacionais”. A produção e o controle de infraestruturas e da logística integrada (cartografia política de poder) promoveram o controle e modelaram o espaço geográfico e garantiram fluxos regulares de commodities. O complexo portuário corporativo (envolvendo Cargil, Bunge, Amaggi, Cianport e Hidrovias do Brasil), instalado em Itaituba movimentaram quase de 79 milhões de toneladas de commodities agrícolas (soja e milho), entre 2014 e 2024, sendo 39,0 milhões de soja e 39,5 milhões de milho (ANTAQ, 2025), conforme a figura 4.

Figura 4
Gráfico do total de movimentação portuária em toneladas (t) pelos portos no médio Tapajós, Itaituba (2014 - 2024)

Conforme Mataveli et al. (2021) o planejamento e as obras de infraestrutura divulgam promessas de progresso e futuro imaginados, de desenvolvimento e de geração de empregos. Com isso, contribui para um processo intenso de especulação fundiária e imobiliária, grilagem de terras e processos de sua aquisição, construção de infraestruturas e expansão da monocultura de grãos em Trairão, Rurópolis e Novo Progresso.

Todas essas dinâmicas territoriais são marcadas por conflitos de terras em municípios da BR-163 (2013 a 2023), conforme a figura 5.

Figura 5
Conflitos de terras em municípios da BR-163 (2013 a 2023)

Na esteira desses conflitos são as multiplas violências, que podem ser assim tipificadas: i) conflitos pelo uso da água (rios e lagos), entre pescadores e empresas; ii) violação de direitos humanos, pois conforme a Convenção 169 da OIT, povos e comunidades tradicionais e originárias devem ser consultadas face à ação e/ou aos projeto(s) que os afetem; iii) poluição (sonora, visual, hídrica e do ar); iv) aumento da exploração sexual, da violência urbana e rural; v) expansão de rede de narcotráfico e mercado de drogas; v) além disso, especulação imobiliária e fundiária, que acabam por intensificar as lutas pela terra e a posse de pequenos produtores; vi) desmatamento; vii) aumento do custo de vida, da produção de vulnerabilidades socioeconômicas de comunidades e povos tradicionais, que dificulta a manutenção/ conservação de seus modos de vida e a fixação nos seus territórios (Rodrigues & Castro, 2025). No plano nacional, as pesquisas têm demonstrado como esses processos reconfiguram as dinâmicas de apropriação da terra no mercado internacional por grupos estrangeiros (Sauer & Leite, 2012).

Além de tudo isso, vem repercutindo a não regularização de imóveis agrários e urbanos, no aumento dos valores dos aluguéis e no custo de vida, assim como na intensificação de acidentes de trânsito, ameaças de mortes e conflitos fundiários. Os acidentes com esses empreendimentos têm atingido grupos locais e se tornou um elemento de conflito.

Para Santos (2013, p. 171), “a geografia dos fluxos depende [também], assim, da geografia dos fixos”, isto é, da multiplicação e operação de portos da região norte e da melhoria e manutenção da rodovia BR-163 (Santarém-Cuiabá), concluída em novembro de 2019. Hoje, fluem por ela mais de 18 milhões de toneladas de grãos. Hoje há na região de BR-163, de Sinop (MT) a Itaituba (PA), a maior concentração de megacorporações agroalimentares (agronegócios/pecuária/frigoríficos) do Brasil e do mundo. Elas dominam o setor de insumos e produtos agrícolas e exercem influência não apenas sobre os preços dos produtos, mas também sobre a direção das inovações e das políticas agrícolas e dos sistemas modais da logística nacional, com interesse especial voltado, nesse momento, à Amazônia Legal.

Inclusive, tais megacorporações praticam lobby para mais créditos, financiamentos, flexibilização ambiental (PL da devastação, licenciamento ambiental e anistia a desmatadores da Amazônia Legal) e a liberalização de territórios resguardados pela Constituição de 1988 (marco temporal para terras de povos originários, projetos logísticos e exploração petrolífera da margem equatorial do país). Nos espaços de interlocução com outros atores e na diversidade de percepções vindas dos movimentos sociais, por exemplo, encontramos outras leituras dos processos de e ao desenvolvimento e das questões que estão na base dos principais desafios contemporâneos e de sua crítica.

Cabe destacar que as intervenções das megacorporações na Amazônia não vem ocorrendo de forma tranquila, tampouco com passividade. Há insurgências e lutas políticas que os povos amazônicos vêm forjando para interromper ou barrar a cadeia de suprimentos de commodities, os projetos extrativistas contínuos de colonização, a extração de recursos de seus territórios, a violação de direitos humanos e a negação à autodeterminação e à existência dos povos indígenas e tradicionais.

Entre essas lutas políticas, citamos a ocupação do porto da maior multinacional do setor agroalimentar do mundo, a Cargill, em Santarém (PA). Durante 33 dias - de 22 de janeiro a 23 de fevereiro de 2026 - mais de 1.200 indígenas, de 14 etnias, ocuparam o terminal da empresa, protestando contra o Decreto nº 12.600/2025, que privatizava três rios amazônicos (Tapajós, Madeira e Tocantins), e contra a dragagem do rio Tapajós para fins de potencializar os interesses do porto e tornar o rio um corredor de commodities. Finalmente o referido Decreto foi revogado pelo governo federal no dia 23 de fevereiro de 2026.

A mobilização denunciou os riscos da privatização e da dragagem, promoveu a interrupção do descarregamento de caminhões de grãos no porto e, em seguida, a paralisação das operações da empresa. Os manifestantes também exigiram a consulta prévia, livre e informada como direito universal dos povos tradicionais, conforme disposto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece a obrigação dos Estados de consultar os povos interessados, por meio de procedimentos adequados e, em particular, de suas instituições representativas, sempre que forem previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente.

A luta dos povos indígenas, em conjunto com diversos movimentos sociais que ocuparam o Porto da Cargill, foi uma luta anticapitalista, fundamentada em uma cosmovisão distinta da racionalidade ocidental e do projeto de “modernidade”. Constituiu um conflito pela existência, pela reprodução social, pela preservação de tradições, culturas, modos de vida e territorialidades específicas, bem como pelos direitos dos povos tradicionais. Afirmou-se, ainda, a natureza como sujeito de direitos, não podendo, portanto, ser comercializada ou mercantilizada. Assim, esse ato político enviou múltiplas mensagens: i) a união, os esforços e a organização política podem garantir vitórias sociais e políticas, inclusive sobre megaprojetos neoextrativistas (traçados pelo Estado e ou por corporações); ii) não há acordo ou negociação sobre a flexibilização dos direitos fundamentais, territoriais e ambientais, nem sobre os direitos da natureza e do bem viver.

A mobilização contrapôs-se, portanto, aos processos de captura, de exploração e extração de energia a serviço de uma economia política operada pelo Estado em parceria com megacorporações, e materializada por infraestruturas modernistas (Dunlap, 2026). Dessa forma, os conflitos socioterritoriais estão no horizonte e os povos indígenas sinalizam, nesses atos, a direção dos ventos diante dos imperativos de mercados e da mercantilização que impulsionam a economia capitalista global. Este processo também se centra na implantação de tecnologias violentas, por meio da normatização de suas lógicas, aparatos e subjetividades, colonizando e pacificando diversas culturas e naturezas, com o objetivo de integrar e reconfigurar a Terra e os territórios (Dunlap, 2026).

Conclusões

Se as crises do capitalismo contaram com os recursos da ciência e os avanços tecnológicos para renovar os ciclos de acumulação de capital e promover o encontro com novas fronteiras de recursos, hoje a “consciência ambiental” exige rupturas epistemológicas e ontológicas para poder conceber outras possibilidades de conhecimento e sobrevivência planetária. Este artigo sinalizou sobre as novas cartografias de poder que estruturam os movimentos de expansão neoextrativista em direção Amazônia e o aumento dos conflitos como um padrão estabelecido, e alimentado pela parceria Estado-Mercado/corporações. Apesar do discurso institucional estatal falar em manter a floresta em pé (e se comprometer com acordo de Paris, sobre mudanças climáticas), com a restauração de áreas degradadas, mesmo via mercantilização da natureza (crédito de carbono e outros dispositivos do mercado verde) e promover socioeconomia baseado em valores sociais dos povos da floresta, águas e da terra. A nossa análise indica muitos agentes econômicos, escalas de ação e espoliação e uma cartografia política de desembarque na Amazônia Legal de muitos projetos neoxtrativistas, assim como muitos processos de apropriação de terras e expropriação social e ambiental e diversos conflitos socioterritoriais.

Em conclusão, essa é a direção tomada pelos ventos na atual cartografia política dominante, o neoextrativismo. O desafio é também saber o comportamento e ações do Estado brasileiro para cumprimento dos acordos internacionais (do clima, de direitos humanos e do acordo União Europeia e Mercosul). E, sobretudo, impasses ou encruzilhadas para manter a imensa sociobiodiversidade que além de um regulador climático é um dos principais patrimônios naturais e culturais e fonte de reprodução social do povo brasileiro e particularmente, dos povos que habitam as Amazônias.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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    » https://doi.org/10.1016/j.worlddev.2025.107109

1

- Cabeças de gado: 180.160/2004-402.848/2023-Itaituba; 378.573/2004-764.993/2023-Novo Progresso; 36.686/2004-164.823/2023-Trairão (IBGE, 2025).

2

- Área de pastagens (ha): 146.889/2000-433.615/2022-Itaituba;148.579/2000-726.436/2022- Novo Progresso; 24.132/2000-143.507/2022-Triarão (Mapbiomas, 2025).

Declaração de disponibilidade de dados:

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Edna Castro

✉ edna.mrcastro@gmail.com

Jondison Cardoso Rodrigues

✉ jondisoncardosorodrigues@gmail.com

Editor Responsável

Pedro Roberto Jacobi

Editor Associado

Rylanneive Teixeira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2025
  • Aceito
    01 Dez 2025
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