Open-access Resistência antimicrobiana em bactérias isoladas de superfícies ambientais em abrigo municipal de cães: uma abordagem de Saúde Única

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Resumo

Ambientes compartilhados podem atuar como reservatórios de bactérias resistentes, favorecendo sua disseminação entre espécies e representando risco à saúde pública. Abrigos de cães, frequentemente com alta densidade populacional e infraestrutura sanitária limitada, podem favorecer a persistência e circulação desses microrganismos. O objetivo deste estudo foi avaliar o perfil de resistência antimicrobiana de bactérias presentes em superfícies ambientais de um abrigo municipal de cães no noroeste do Paraná, Brasil. Foram coletadas 60 amostras de superfícies frequentemente manipuladas, utilizando swabs estéreis. As amostras foram cultivadas em caldo Brain Heart Infusion e posteriormente semeadas em ágar sangue para isolamento de Staphylococcus spp. e enterobactérias. A identificação foi realizada por características morfológicas e testes bioquímicos, enquanto a resistência antimicrobiana foi determinada pelo teste de discodifusão. Isolados resistentes à oxacilina e cefoxitina foram submetidos à PCR para detecção do gene mecA. Das amostras analisadas, 45 % foram identificadas como Staphylococcus spp. e 11 % como enterobactérias. A maioria dos estafilococos apresentou elevada resistência a diversos antimicrobianos, com 88,9 % classificados como multirresistentes. Nenhum isolado apresentou o gene mecA. Os resultados evidenciam a presença de bactérias multirresistentes em superfícies do abrigo, indicando potencial risco de disseminação entre animais, humanos e ambiente.

Palavras-chave:
Abrigo de cães; enterobactérias; estafilococos; multirresistência; Saúde Pública.

Abstract

Shared environments can act as reservoirs of resistant bacteria, facilitating their dissemination between species and posing a risk to public health. Dog shelters, often characterized by high animal density and limited sanitary infrastructure, may favor the persistence and circulation of these microorganisms. This study aimed to evaluate the antimicrobial resistance profile of bacteria present on environmental surfaces in a municipal dog shelter located in northwestern Paraná, Brazil. Sixty samples were collected from frequently handled surfaces using sterile swabs. The samples were cultured in Brain Heart Infusion broth and subsequently plated on blood agar for the isolation of Staphylococcus spp. and Enterobacteriaceae. Identification was performed based on morphological characteristics and biochemical tests, while antimicrobial resistance was determined using the disk diffusion method. Isolates resistant to oxacillin and cefoxitin were subjected to PCR for the detection of the mecA gene. Among the samples analyzed, 45 % were identified as Staphylococcus spp. and 11 % as enterobacteria. Most staphylococcal isolates showed high resistance to several antimicrobials, with 88.9 % classified as multidrug-resistant. None of the isolates carried the mecA gene. These results demonstrate the presence of multidrug-resistant bacteria on shelter surfaces, indicating a potential risk of dissemination among animals, humans, and the environment.

Keywords:
Dog shelters; Enterobacteriaceae; multidrug resistance; public health; staphylococci.

1. Introdução

A Saúde Única (One Health) é uma abordagem integrada que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental, conforme definido pela Organização Mundial da Saúde e pela One Health Commission (1, 2). Essa abordagem promove a colaboração entre múltiplos setores para desenvolver e implementar políticas, programas, legislações e pesquisas voltados à melhoria dos desfechos em saúde e ao enfrentamento de desafios complexos, como segurança alimentar, doenças zoonóticas e resistência aos antimicrobianos (1-4). Embora o termo seja utilizado há mais de duas décadas (5), seu escopo evoluiu progressivamente para uma estrutura mais abrangente, contemplando essas quatro dimensões interconectadas.

A presença de bactérias no ambiente remonta a muito tempo (6), e deve-se lembrar que a resistência aos antimicrobianos possui natureza ecológica, resultante da interconexão e da diversidade dos sistemas vivos do planeta. Por essa razão, sabe-se que algumas bactérias patogênicas e os genes responsáveis pela resistência têm origem no ambiente (3, 6-8).

A resistência aos antimicrobianos (RAM) emergiu como um dos principais desafios da Saúde Única devido à interconexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental (6-12). Os compartimentos ambientais podem atuar como reservatórios e pontos críticos para genes de resistência aos antibióticos, favorecendo a persistência e a disseminação de microrganismos resistentes entre diferentes nichos ecológicos (6, 8, 11). Em ambientes veterinários, incluindo hospitais, clínicas e abrigos de animais, a estreita interação entre animais, seres humanos e superfícies contaminadas pode favorecer a circulação de bactérias multirresistentes e contribuir para sua manutenção no ambiente (9, 10). Superfícies ambientais frequentemente tocadas por animais e profissionais podem servir como potenciais fontes de contaminação microbiana, enfatizando a importância das medidas de biossegurança e higiene nessas instalações. Além disso, a troca de microrganismos resistentes entre ecossistemas interconectados evidencia a necessidade de vigilância contínua da resistência aos antimicrobianos em ambientes veterinários sob a perspectiva da Saúde Única (6, 9, 10, 12).

Espécies como Escherichia coli, Salmonella spp., Campylobacter spp., Clostridium chauvoei, Bacillus anthracis, Leptospira spp., Burkholderia pseudomallei e Staphylococcus spp. são exemplos de bactérias que podem ser transmitidas a humanos e animais por meio do contato direto com o solo, da ingestão de água ou alimentos contaminados ou por vetores biológicos. Essa transferência pode ocorrer de forma direta ou indireta, sendo favorecida por atividades humanas, como a agricultura intensiva, o uso indiscriminado de antibióticos e o descarte inadequado de resíduos. A exposição a essas bactérias representa um risco para a saúde pública e animal (7,10-12). Uma das hipóteses deste estudo foi que superfícies ambientais frequentemente manipuladas em um abrigo municipal de cães podem atuar como reservatórios de bactérias multirresistentes. Portanto, este estudo teve como objetivo investigar a ocorrência e os perfis de resistência aos antimicrobianos de Staphylococcus spp. e Enterobacteriaceae isolados de superfícies ambientais em um abrigo municipal de cães localizado no noroeste do Paraná, Brasil, bem como avaliar se a resistência fenotípica aos antibióticos β-lactâmicos em Staphylococcus spp. está associada à presença do gene mecA.

2. Material e métodos

2.1 Amostra, amostragem e local de coleta das amostras

Este estudo transversal descritivo foi conduzido em um abrigo municipal de cães localizado em um município da região noroeste do estado do Paraná, Brasil. Um total de 60 amostras ambientais foi coletado de superfícies e equipamentos frequentemente manipulados. A amostragem foi realizada por conveniência, e os locais de coleta foram selecionados com base em seu contato frequente com animais e funcionários, bem como em seu potencial papel como reservatórios de contaminação ambiental e de microrganismos resistentes aos antimicrobianos.

2.2 Coleta de swabs ambientais

Sessenta swabs estéreis foram utilizados para a coleta das amostras. Os pontos de amostragem selecionados incluíram frascos de álcool, armários, balanças, balcões e bancadas, bebedouros, pulverizadores, cambões, telefones celulares, comedouros, estetoscópios, focinheiras, gaiolas, geladeiras, interruptores de luz, laringoscópios, maçanetas, mangueiras, materiais cirúrgicos, mesas, pás, pias, portas de autoclaves, portões, respiradores, suportes, torneiras, vassouras e armários de medicamentos. Esses locais foram escolhidos por representarem superfícies de alto contato, frequentemente manipuladas por animais e funcionários, e que podem atuar como reservatórios de contaminação microbiana.

Antes da coleta, os swabs foram previamente umedecidos com solução salina estéril a 0,85 % e aplicados sobre toda a superfície de cada objeto selecionado, utilizando leve pressão e movimentos rotatórios. Como os objetos amostrados diferiam em tamanho e formato, nenhuma área fixa de amostragem foi estabelecida. Após a coleta, os swabs foram imediatamente acondicionados em meio de transporte Amies e encaminhados ao laboratório para processamento microbiológico.

2.3 Técnicas laboratoriais

2.3.1 Isolamento das amostras e identificação dos isolados

Cada amostra foi inicialmente cultivada em caldo Brain Heart Infusion (BHI) (Laborclin, Pinhais, Paraná, Brasil) por 24 horas a 37 °C e, posteriormente, semeada em ágar sangue (Base de Ágar Sangue a 8 %) (Laborclin, Pinhais, Paraná, Brasil), sendo incubada a 37 °C por 24 a 48 horas para o isolamento de Staphylococcus spp. e enterobactérias. Após o período de incubação, foram observadas as características macroscópicas e microscópicas das colônias, e realizados os testes bioquímicos de catalase e coagulase para diferenciar Staphylococcus spp. coagulasepositivos (CoPS) e coagulase-negativos (CoNS), de acordo com Quinn et al. (13). Assim, os isolados de Staphylococcus foram classificados apenas de acordo com seu perfil de produção de coagulase, sem identificação em nível de espécie. Embora essa abordagem seja adequada para a caracterização fenotípica, ela limita a interpretação epidemiológica dos achados e não permite extrapolações quanto à ocorrência ou à distribuição de espécies específicas de Staphylococcus.

A identificação bioquímica das bactérias pertencentes à família Enterobacteriaceae foi realizada utilizando um conjunto de testes bioquímicos incluídos no Kit Enterobacteriaceae (Laborclin, Pinhais, Paraná, Brasil), de acordo com as instruções do fabricante.

2.3.2 Perfil de resistência bacteriana

Os isolados de CoPS e CoNS foram submetidos ao teste de difusão em disco, realizado de acordo com as diretrizes do Clinical and Laboratory Standards Institute (14). Os antibióticos testados foram selecionados com base nos agentes e concentrações indicados pelo CLSI (14, 15) e Br-CAST (16), bem como por critérios de relevância clínica e epidemiológica para Staphylococcus spp.: amicacina (30 µg), amoxicilina (10 µg), amoxicilina + ácido clavulânico (20/10 µg), azitromicina (15 µg), cefoxitina (30 µg), ceftiofur (30 µg), clindamicina (2 µg), cloranfenicol (30 µg), doxiciclina (30 µg), eritromicina (15 µg), meropenem (10 µg), norfloxacina (10 µg), oxacilina (1 µg) e rifampicina (5 µg) (Laborclin, Pinhais, Paraná, Brasil).

Os isolados de enterobactérias também foram submetidos ao teste de difusão em disco (14). Os antibióticos foram selecionados de acordo com as recomendações, agentes e concentrações do CLSI (14, 15) e Br-CAST (16), bem como por critérios de relevância clínica e epidemiológica para enterobactérias: amicacina (30 µg), amoxicilina + clavulanato (20/10 µg), cefoxitina (30 µg), cloranfenicol (30 µg), ceftiofur (30 µg), doxiciclina (30 µg), meropenem (10 µg) e norfloxacina (10 µg) (Laborclin, Pinhais, Paraná, Brasil). Todos os isolados resistentes a três ou mais classes de antibióticos foram classificados como multirresistentes (MDR) (14-16).

2.3.3 Pesquisa do gene mecA

O DNA dos isolados de Staphylococcus spp. classificados como resistentes à oxacilina e à cefoxitina foi extraído utilizando o kit PureLink Genomic DNA Kit, de acordo com as instruções do fabricante, e as reações de PCR foram realizadas utilizando os primers mecA1 (AAAATCGATGGTAAAGGTTGG) e mecA2 (AGTTCTGCAGTACCGGATTTG), seguindo a metodologia de Murakami et al. (17). Os produtos amplificados foram visualizados por eletroforese em gel de agarose a 2 %, corado com GelRed, utilizando marcador molecular de 100 pb, sendo os produtos observados como uma única banda de 533 pb. Como controle positivo, foi utilizada uma amostra previamente confirmada como positiva para o gene mecA, enquanto água Milli-Q foi empregada como controle negativo.

A investigação exclusiva do gene mecA justifica-se por seu papel fundamental como o principal determinante molecular da resistência à meticilina em Staphylococcus spp. Sua detecção representa o marcador mais específico e amplamente aceito para fenótipos resistentes à meticilina, permitindo a identificação precisa de isolados resistentes de relevância clínica. Além disso, a pesquisa direcionada do gene mecA possui importante valor epidemiológico para o monitoramento da disseminação de cepas resistentes em ambientes hospitalares e comunitários, subsidiando estratégias de vigilância e controle da resistência aos antimicrobianos.

3. Resultados

Das 60 amostras ambientais coletadas no abrigo, 11 % (7/60) foram identificadas como enterobactérias, e 45 % (27/60) dos isolados foram identificados fenotipicamente como Staphylococcus spp. Destes, 18,5 % (5/27) eram Staphylococcus coagulase-negativos, enquanto 81,5 % (22/27) dos isolados foram identificados como Staphylococcus coagulase-positivos (Tabela 1).

Tabela 1
Distribuição e identificação presuntiva dos isolados bacterianos recuperados de superfícies ambientais e fômites em um abrigo municipal de cães localizado em um município da região noroeste do estado do Paraná, Brasil, 2023.

Os isolados de Staphylococcus spp. apresentaram maior percentual de resistência aos seguintes antibióticos: clindamicina, com 96,3 % (26/27), seguida por rifampicina, com 88,9 % (24/27), oxacilina, com 81,5 % (22/27), eritromicina, com 77,8 % (21/27), e azitromicina, com 74,1 % (20/27) (Figura 1).

Figura 1
Relação entre o percentual de isolados de Staphylococcus spp. coletados do ambiente resistentes a cada antibiótico em amostras ambientais coletadas em um abrigo municipal. Legenda: AMI - amicacina; AMO - amoxicilina; AMC - amoxicilina + clavulanato; AZI - azitromicina; CFO - cefoxitina; CLI - clindamicina; CLO - cloranfenicol; CTF - ceftiofur; DOX - doxiciclina; ERI - eritromicina; MER - meropenem; NOR - norfloxacina; OXA - oxacilina; RIF - rifampicina.

O percentual de resistência aos antibióticos entre os tipos de isolados bacterianos foi equilibrado; em sete dos 14 antibióticos avaliados, os CoPS apresentaram maior percentual de resistência em comparação aos CoNS, destacando-se amoxicilina + clavulanato, amoxicilina, azitromicina, doxiciclina, eritromicina, norfloxacina e oxacilina. Da mesma forma, em sete dos 14 antibióticos, os CoNS apresentaram maior percentual de resistência do que os CoPS, destacandose amicacina, cefoxitina, clindamicina, cloranfenicol, ceftiofur, meropenem e rifampicina (Figura 2).

Figura 2
Relação entre o percentual de resistência aos antibióticos e o tipo de isolado bacteriano em amostras ambientais coletadas em um abrigo municipal. Legenda: AMI - amicacina; AMO - amoxicilina; AMC - amoxicilina + clavulanato; AZI - azitromicina; CFO - cefoxitina; CLI - clindamicina; CLO - cloranfenicol; CTF - ceftiofur; DOX - doxiciclina; ERI - eritromicina; MER - meropenem; NOR - norfloxacina; OXA - oxacilina; RIF - rifampicina; CoNS - Staphylococcus coagulase-negativo; CoPS - Staphylococcus coagulase-positivo não-aureus.

Figura 3
Relação da porcentagem das amostras resistentes para cada antibiótico, amostras ambientais coletadas em um abrigo municipal. Legenda: AMI - Amicacina, AMO -Amoxicilina, AMC- Amoxicilina + Clavulanato, CFO - Cefoxitina, CLO - Clorafenicol, CTF - Ceftiofur, DOX - Doxiciclina, MER - Meropenem, NOR - Norfloxacina.

Aproximadamente 88,9 % (24/27) dos isolados de Staphylococcus spp. coletados do ambiente foram classificados como multirresistentes. Em relação ao local de coleta, demonstrouse que as amostras coletadas da pia, armário/carrinho, balança da sala de atendimento e gaiola foram aquelas que apresentaram resistência ao maior número de antibióticos testados, 92,8 % (13/14). Interessantemente, amostras provenientes de telefones celulares comerciais também apresentaram resistência a diferentes antibióticos em 85,7 % (12/14). Nenhum isolado apresentou expressão do gene mecA.

Os isolados provenientes das amostras ambientais caracterizados como enterobactérias foram identificados fenotipicamente como Hafnia alvei, Morganella morganii e Escherichia coli. Além disso, 85,7 % (6/7) desses isolados foram classificados como multirresistentes, ou seja, resistentes a pelo menos um antibiótico de três classes distintas (15) (Tabela 2).

Tabela 2
Perfil de resistência aos antimicrobianos de isolados de Enterobacteriaceae obtidos de amostras coletadas em um abrigo municipal de cães localizado em um município da região noroeste do estado do Paraná, Brasil, 2023.

Os isolados bacterianos identificados como enterobactérias provenientes de amostras ambientais que apresentaram os maiores percentuais de resistência (Figura 4) foram à amicacina, amoxicilina, cloranfenicol, cefoxitina e ceftiofur, com 85,7 % (6/7) de isolados resistentes, seguidos por amoxicilina + clavulanato, com 71,4 % (5/7), e meropenem, com 57,1 % (4/7) de isolados resistentes.

4. Discussão

A abordagem de Saúde Única (One Health) em relação ao ambiente em que os animais vivem é extremamente importante, considerando que 75 % das doenças existentes atualmente possuem origem zoonótica, e o ambiente em que esses animais estão inseridos pode estar contaminado por diferentes microrganismos, resistentes ou não aos antimicrobianos. Dessa forma, estudos sobre esses ambientes apresentam elevada relevância para a sociedade (7,8,18,19).

O presente estudo demonstrou uma prevalência de 45 % (27/60) de Staphylococcus spp., dos quais 18,5 % (5/27) eram Staphylococcus coagulase-negativos, enquanto 81,5 % (22/27) dos isolados foram identificados como Staphylococcus coagulase-positivos, e 11 % (7/60) como enterobactérias, resultado diferente. Os resultados obtidos no presente estudo em relação aos tipos bacterianos foram distintos daqueles encontrados por Horsman et al. (20), em seu trabalho realizado na Austrália, onde, das 50 amostras coletadas em um abrigo de animais, 60 % (30/50) foram identificadas como enterobactérias, enquanto 4 % (2/50) foram identificadas como Staphylococcus spp., assim como no estudo de Adams et al. (21), realizado em um abrigo de animais nos Estados Unidos da América, no qual enterobactérias foram isoladas em 100 % (17/17) das amostras coletadas do ambiente desses locais.

As variações observadas na prevalência bacteriana entre os países mencionados podem refletir uma combinação de influências multifatoriais, incluindo diferenças nas condições ambientais, práticas de saúde humana e veterinária, padrões de uso de antimicrobianos e normas de higiene e saneamento. Esses fatores provavelmente interagem de maneiras complexas, tornando desafiadoras as comparações diretas entre as regiões. Esse cenário reforça a importância da abordagem de Saúde Única (One Health), que reconhece a interconexão entre humanos, animais e ambiente no desenvolvimento de estratégias para monitorar, prevenir e controlar a disseminação de microrganismos resistentes aos antimicrobianos (22).

Neste estudo, Staphylococcus spp. foram isolados de armário/carrinho, balança da sala de atendimento, balcão, bebedouros, frasco pulverizador do pré-operatório, telefone celular, estetoscópio, frasco de álcool, gaiola, geladeira, laringoscópio, maçanetas, mesas, pá para coleta de fezes, pia, porta da autoclave, portão do canil, respirador, suporte para EPIs, suporte para fluidoterapia, torneira e vassoura. Staphylococcus spp. são bactérias amplamente distribuídas no ambiente e reconhecidas como parte da microbiota comensal da pele e das mucosas de humanos e animais, incluindo cães, podendo ser transferidas entre hospedeiros e o ambiente por meio do contato direto ou indireto com superfícies contaminadas. Objetos de uso frequente podem atuar como reservatórios e veículos para a disseminação dessas bactérias, favorecendo a ocorrência de infecções oportunistas (23). A presença de Staphylococcus spp. nesses locais reforça a importância da adoção de medidas adequadas de higiene e do monitoramento microbiológico ambiental como estratégias essenciais dentro da abordagem de Saúde Única (One Health), visando prevenir a disseminação de cepas resistentes.

A ocorrência de Staphylococcus spp. em superfícies ambientais observada no presente estudo é consistente com achados relatados em hospitais e clínicas veterinárias, onde esses microrganismos são frequentemente recuperados de superfícies de alto contato, equipamentos médicos, salas de atendimento, áreas cirúrgicas e unidades de terapia intensiva. Ambientes de assistência veterinária são reconhecidos como importantes reservatórios de bactérias potencialmente patogênicas e resistentes aos antimicrobianos devido à circulação constante de animais, profissionais e visitantes, bem como ao uso frequente de antimicrobianos. Estudos conduzidos em hospitais veterinários universitários e centros de referência demonstraram ampla contaminação ambiental por estafilococos, incluindo cepas multirresistentes, destacando o papel das superfícies ambientais na manutenção e disseminação desses microrganismos (23).

Os abrigos de animais representam nichos ecológicos únicos que podem favorecer a persistência de bactérias resistentes. Diferentemente dos hospitais, os abrigos frequentemente acolhem muitos animais com histórico clínico desconhecido, exposição prévia a antimicrobianos e diferentes origens. A alta densidade animal, a constante entrada e saída de animais e os desafios relacionados à infraestrutura e às condições de higienização podem contribuir para a contaminação ambiental e a circulação bacteriana. Estudos anteriores realizados em abrigos de animais de companhia relataram a recuperação de estafilococos e enterobactérias multirresistentes tanto de animais quanto de superfícies ambientais, corroborando os achados observados na presente investigação e destacando a importância da vigilância microbiológica contínua nessas instalações(20, 21).

A contaminação ambiental por bactérias resistentes aos antimicrobianos não está restrita às instalações veterinárias. Diversos estudos que avaliaram superfícies ambientais em espaços públicos, residências, centros de reabilitação, clínicas veterinárias e ambientes associados a animais demonstraram que objetos frequentemente manipulados podem atuar como reservatórios de microrganismos resistentes. Superfícies como maçanetas, pias, bancadas, gaiolas, telefones celulares e dispositivos médicos têm sido identificadas como importantes pontos de persistência e transmissão bacteriana (10, 23). No presente estudo, isolados resistentes foram recuperados de muitas dessas mesmas superfícies, reforçando o conceito de que reservatórios ambientais podem contribuir para a manutenção da resistência aos antimicrobianos nas interfaces interconectadas entre humanos, animais e ambiente (6, 8, 10, 11).

As similaridades observadas entre abrigos de animais, hospitais veterinários, clínicas e outros ambientes associados a animais sugerem que a resistência aos antimicrobianos deve ser abordada por meio de estratégias integradas de prevenção e controle de infecções. A higiene ambiental, os protocolos de desinfecção de rotina, os programas de uso racional de antimicrobianos e a vigilância contínua de microrganismos resistentes são medidas essenciais para reduzir a persistência e a disseminação de bactérias multirresistentes (3, 9, 10, 22). Sob a perspectiva da Saúde Única (One Health), o monitoramento da contaminação ambiental em abrigos de animais pode fornecer informações valiosas sobre potenciais reservatórios de resistência e contribuir para esforços mais amplos destinados a mitigar a resistência aos antimicrobianos em ecossistemas interconectados (1-3, 9).

Os isolados de Staphylococcus spp. apresentaram resistência à clindamicina (96,3 %), seguida por rifampicina (88,9 %), oxacilina (81,5 %), eritromicina (77,8 %) e azitromicina (74,1 %), resultado semelhante ao observado no trabalho de Horsman et al. (20), no qual esses mesmos antibióticos apresentaram prevalência de 100 % de isolados resistentes entre os testados. Esses antibióticos são comumente utilizados na medicina veterinária para casos de piodermite, abscessos, osteomielite, infecções dentárias, infecções cutâneas, infecções respiratórias, infecções gastrointestinais e infecções do trato urinário (24). Como esses ambientes abrigam cães de diferentes origens - sejam abandonados, resgatados de animais errantes ou nascidos no próprio abrigo - a saúde desses animais pode estar comprometida, tornando o uso de antibióticos inevitável nesses locais (20).

A elevada resistência de Staphylococcus spp. a esses antibióticos pode ser explicada por múltiplos mecanismos genéticos e adaptativos, que podem refletir a pressão seletiva causada pelo uso frequente e, muitas vezes, inadequado desses fármacos, por mutações e por resistência cruzada. Além disso, a capacidade de formação de biofilmes aumenta ainda mais a tolerância bacteriana, criando barreiras físicas e favorecendo a sobrevivência de subpopulações menos sensíveis(22, 25).

A ausência do gene mecA é um achado relevante, pois indica que a resistência à meticilina nos isolados de Staphylococcus spp. investigados não é mediada pelo mecanismo clássico de codificação da PBP2a. Isso sugere que vias alternativas de resistência, como a superexpressão ou modificação de outras proteínas ligadoras de penicilina ou a presença de homólogos do mecA (por exemplo, mecC), podem estar envolvidas. Portanto, isolados negativos para mecA não devem ser imediatamente classificados como sensíveis sem uma caracterização fenotípica e molecular adicional, destacando a importância de abordagens diagnósticas complementares para definir com precisão o perfil de resistência.

A detecção de resistência à oxacilina em isolados de Staphylococcus spp. provenientes de cães na ausência do gene mecA evidencia a complexidade dos mecanismos de resistência aos β-lactâmicos e as limitações dos testes fenotípicos como ferramenta diagnóstica isolada. Embora o mecA permaneça como o principal determinante da resistência à meticilina, estudos envolvendo isolados caninos têm relatado cepas resistentes à oxacilina negativas para mecA, sugerindo o envolvimento de mecanismos alternativos. Estes podem incluir a presença do mecC, um homólogo do mecA que pode não ser detectado por ensaios moleculares convencionais, bem como a hiperprodução de β-lactamases, particularmente associada a fenótipos de Staphylococcus aureus com resistência limítrofe à oxacilina (BORSA). Além disso, modificações nas proteínas ligadoras de penicilina (PBPs) nativas e alterações regulatórias que afetam a síntese da parede celular podem reduzir a afinidade pelos β-lactâmicos e contribuir para a diminuição da suscetibilidade. A coexistência desses mecanismos evidencia a heterogeneidade da resistência à meticilina/oxacilina em estafilococos provenientes de cães e reforça que fenótipos negativos para mecA não devem ser interpretados como totalmente suscetíveis sem investigação molecular adicional (26-29).

Enterobactérias identificadas fenotipicamente como Hafnia alvei, Morganella morganii e Escherichia coli foram isoladas de balanças, bebedouros, comedouros, gaiolas, maçanetas, mangueiras e equipamentos cirúrgicos para esterilização. Esses objetos são frequentemente encontrados em ambientes hospitalares e comunitários. Esses microrganismos, que fazem parte da microbiota intestinal de cães e outros animais, podem contaminar áreas do ambiente devido ao contato com fezes e secreções, aumentando o risco de transmissão e infecção, especialmente em locais com alta concentração de animais e circulação de pessoas (30), como ocorre em abrigos de cães, a exemplo do abrigo estudado.

A presença de enterobactérias em superfícies como gaiolas, bebedouros e utensílios de alimentação destaca a importância de protocolos rigorosos de limpeza e desinfecção para prevenir a disseminação de cepas patogênicas e resistentes aos antimicrobianos, alinhandose aos princípios da Saúde Única (One Health) para o controle de infecções em ambientes veterinários.

Neste estudo, as enterobactérias apresentaram as maiores taxas de resistência (85,7 %) à amicacina, amoxicilina, cloranfenicol, cefoxitina e ceftiofur, seguidas por amoxicilina + clavulanato, com 71,4 %, e meropenem, com 57,1 % de isolados resistentes. Esse resultado difere do encontrado por Horsman et al. (20), em seu estudo realizado em Brisbane, Austrália, no qual foram observados maiores percentuais de resistência aos antimicrobianos ticarcilina (93,10 %; 81/87), sulfametoxazol + trimetoprima (60,91 %; 53/87), tetraciclina (57,47 %; 50/87) e cloranfenicol (56,32 %; 49/87).

Algumas limitações metodológicas devem ser consideradas na interpretação dos resultados deste estudo. Primeiramente, a identificação bacteriana foi baseada exclusivamente em métodos fenotípicos. No caso de Staphylococcus spp., os isolados foram classificados apenas como coagulase-positivos (CoPS) ou coagulase-negativos (CoNS), o que, embora seja adequado para a caracterização microbiológica de rotina, limita a interpretação epidemiológica dos achados e não permite extrapolações quanto à ocorrência de espécies específicas. Além disso, não foram empregados métodos moleculares para identificação em nível de espécie, impedindo uma avaliação mais detalhada da diversidade e da distribuição das espécies bacterianas presentes no ambiente do abrigo.

Outra limitação é o pequeno número de isolados de enterobactérias obtidos (n = 7), o que restringe inferências mais amplas sobre o perfil de resistência aos antimicrobianos desses microrganismos no ambiente estudado. Portanto, estudos futuros utilizando amostragens mais amplas e técnicas moleculares para identificação bacteriana são necessários para proporcionar uma compreensão mais abrangente da dinâmica da resistência aos antimicrobianos em abrigos de animais.

Algumas limitações deste estudo devem ser consideradas na interpretação dos achados. A identificação de Staphylococcus spp. foi baseada exclusivamente em métodos fenotípicos, com os isolados sendo classificados apenas como coagulase-positivos (CoPS) ou coagulasenegativos (CoNS). Embora essa abordagem seja amplamente utilizada na microbiologia de rotina e permita a avaliação dos perfis de resistência aos antimicrobianos, ela limita a interpretação epidemiológica dos resultados e impede extrapolações quanto à ocorrência e à distribuição de espécies específicas de Staphylococcus. Além disso, o pequeno número de isolados de enterobactérias obtidos restringe inferências mais amplas sobre o perfil de resistência desses microrganismos no ambiente do abrigo. Ademais, apenas o gene mecA foi investigado em isolados resistentes à oxacilina e à cefoxitina, e outros mecanismos potencialmente envolvidos na resistência aos β-lactâmicos não foram avaliados. Portanto, estudos futuros empregando identificação em nível de espécie e técnicas mais abrangentes de caracterização molecular são necessários para proporcionar uma compreensão mais completa da dinâmica da resistência aos antimicrobianos em abrigos de animais.

5. Conclusão

Os resultados deste estudo demonstram a presença de bactérias multirresistentes (MDR) no ambiente de um abrigo de cães, incluindo Staphylococcus spp. coagulase-positivos (CoPS) e enterobactérias, como Escherichia coli e Morganella morganii, isoladas de superfícies de alto contato. Esses achados indicam contaminação ambiental por microrganismos resistentes aos antimicrobianos nas condições avaliadas. Os perfis de resistência observados, incluindo redução da suscetibilidade a diversos antimicrobianos de relevância clínica tanto em estafilococos quanto em enterobactérias, evidenciam a presença de padrões complexos de resistência entre os isolados ambientais. Em estafilococos resistentes à oxacilina, a ausência do gene mecA sugere que mecanismos alternativos de resistência podem estar envolvidos, embora estes não tenham sido investigados adicionalmente neste estudo.

Entretanto, este estudo não avaliou a dinâmica de transmissão, a colonização em animais ou humanos, nem possíveis vias de exposição e, portanto, não podem ser estabelecidas conclusões quanto à transmissão interespecífica ou ao impacto epidemiológico. Os achados estão limitados à caracterização microbiológica ambiental e não devem ser extrapolados além do ambiente estudado. Apesar disso, os resultados reforçam a importância da manutenção de práticas de higiene e biossegurança em ambientes de abrigos de animais e destacam a relevância do monitoramento contínuo da resistência aos antimicrobianos nesses locais.

Declaração de uso de IA generativa

Os autores não utilizaram ferramentas ou tecnologias de inteligência artificial generativa na criação ou edição de qualquer parte deste manuscrito.

Declaração de disponibilidade de dados

O conjunto completo de dados que sustenta os resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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autor correspondente: danieladib@prof.unipar.br

Editor:

Luiz Augusto B. Brito

Declaração de conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Abr 2026
  • Aceito
    07 Jul 2026
  • Publicado
    06 Ago 2026
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