Open-access Zingiber officinale como aditivo fitogênico para codornas japonesas em postura

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Resumo

Objetivou-se avaliar os efeitos da inclusão de níveis crescentes de gengibre em pó (0; 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 %) na dieta de codornas japonesas em postura sobre o desempenho produtivo, a metabolização dos nutrientes, a qualidade dos ovos, a biometria do trato gastrointestinal e dos ossos (tíbia e fêmur), além do perfil bioquímico sanguíneo e tecidual. Foram utilizadas 150 codornas fêmeas (Coturnix coturnix japonica), com idade entre 40 e 52 semanas, distribuídas em delineamento inteiramente casualizado, com cinco tratamentos e seis repetições de cinco aves, durante 84 dias experimentais. A suplementação com gengibre promoveu melhora na conversão alimentar, aumento da metabolização aparente do extrato etéreo, alterações em algumas características da qualidade dos ovos, incluindo peso, coloração da gema e espessura da casca, além de modificar parâmetros bioquímicos relacionados ao metabolismo lipídico e mineral. Também foram observadas alterações na biometria do trato gastrointestinal, sem efeitos consistentes sobre as características ósseas das aves. Conclui-se que o gengibre em pó apresenta potencial como aditivo fitogênico para codornas japonesas em postura, contribuindo para melhorias na eficiência alimentar, em algumas características da qualidade dos ovos e na modulação de parâmetros bioquímicos, sem comprometer a produção de ovos ou a viabilidade das aves.

Palavras-chave:
aditivo natural; coturnicultura; desempenho produtivo; gengibre em pó

Abstract

The objective of this study was to evaluate the effects of increasing dietary levels of ginger powder (0, 0.5, 1.0, 1.5, and 2.0 %) on the productive performance, nutrient metabolization, egg quality, gastrointestinal tract and bone (tibia and femur) biometry, and blood and tissue biochemical profile of laying Japanese quails. A total of 150 female Japanese quails (Coturnix coturnix japonica), aged 40 to 52 weeks, were distributed in a completely randomized design with five treatments and six replicates of five birds each over an 84-day experimental period. Ginger supplementation improved feed conversion ratio, increased the apparent metabolization coefficient of ether extract, and influenced some egg quality traits, including egg weight, yolk color, and eggshell thickness. In addition, it modified biochemical parameters related to lipid and mineral metabolism and promoted changes in gastrointestinal tract biometry, without consistent effects on the birds' bone characteristics. Ginger powder has potential as a phytogenic feed additive for laying Japanese quails, contributing to improved feed efficiency, selected egg quality traits, and the modulation of biochemical parameters, without compromising egg production or bird viability.

Keywords:
natural additive; quail production; productive performance; powdered ginger

1. Introdução

Nos últimos anos, diversos países têm restringido ou proibido o uso de antibióticos como promotores de crescimento na alimentação animal devido aos riscos relacionados à seleção de microrganismos resistentes e aos impactos sobre a saúde pública. Nesse contexto, intensificou-se a busca por aditivos naturais capazes de promover melhorias no desempenho zootécnico e na saúde intestinal das aves, sem comprometer a segurança alimentar. Entre essas alternativas, os aditivos fitogênicos, obtidos a partir de plantas medicinais e seus derivados, têm despertado crescente interesse por apresentarem propriedades antioxidantes, antimicrobianas, anti-inflamatórias, imunomoduladoras e digestivas, podendo contribuir para maior eficiência produtiva e sustentabilidade dos sistemas de produção (1).

O gengibre (Zingiber officinale) contém diversos compostos bioativos, como flavonoides, terpenoides e ácidos fenólicos, responsáveis por importantes efeitos farmacológicos, incluindo atividades antioxidante, antimicrobiana, anti-inflamatória, imunomoduladora, antilipidêmica, anti-hiperglicêmica, antitumorigênica e cardioprotetora (2). Entre os principais componentes biologicamente ativos destacam-se gingerol, shogaol, gingerdiol, gingerdiona e zingibereno, compostos capazes de modular a microbiota intestinal, estimular o sistema digestório e influenciar a atividade enzimática e o pH gastrointestinal (3). Além disso, o gengibre é fonte de minerais como ferro, cálcio, fósforo, zinco, cobre, cromo e manganês, bem como vitamina C e compostos antioxidantes, incluindo polifenóis totais (840 mg/100 g), taninos (1,51 g/100 g) e flavonoides (2,98 g/100 g), apresentando elevada atividade antioxidante (4).

Estudos demonstram efeitos positivos da suplementação com gengibre na alimentação de aves. A inclusão de 0,05 g/kg de gengibre em pó na dieta aumentou a produção de ovos, a eclodibilidade, o desempenho reprodutivo e a eficiência econômica de codornas japonesas (1). Em galinhas poedeiras, a suplementação com 100 g/tonelada de gengibre melhorou a qualidade dos ovos, elevando a unidade Haugh e a altura do albúmen (5). Gurbuz e Salih (6) observaram aumento na produção de ovos e redução do teor de colesterol com a inclusão de 10, 20 e 30 g/kg de gengibre na dieta. Além disso, a adição de óleo essencial de gengibre a 300 μL/kg de ração promoveu aumento do peso e da espessura da casca dos ovos em galinhas poedeiras (7). Entretanto, os resultados disponíveis ainda são inconsistentes quanto aos níveis ideais de inclusão e aos mecanismos fisiológicos envolvidos, especialmente em codornas japonesas em postura.

Embora existam estudos avaliando o efeito do gengibre sobre variáveis isoladas de desempenho ou qualidade dos ovos, ainda são escassas as pesquisas que investigam, de forma integrada, seus efeitos sobre o desempenho produtivo, a digestibilidade dos nutrientes, a qualidade dos ovos, a biometria do trato gastrointestinal, as características ósseas e o metabolismo bioquímico de codornas japonesas em postura. A compreensão conjunta dessas respostas é importante para elucidar os possíveis mecanismos de ação do gengibre e fornecer subsídios científicos para sua utilização como aditivo fitogênico em sistemas de produção de codornas.

Dessa forma, hipotetizou-se que a inclusão crescente de gengibre em pó na dieta de codornas japonesas em postura seria capaz de melhorar a eficiência alimentar, favorecer a digestibilidade dos nutrientes, promover alterações positivas na qualidade dos ovos e modular parâmetros bioquímicos e morfofisiológicos, sem comprometer a integridade óssea das aves.

Assim, objetivou-se avaliar os efeitos da inclusão de níveis crescentes de gengibre em pó (0,0; 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 %) na dieta de codornas japonesas em postura sobre o desempenho produtivo, a digestibilidade dos nutrientes, a qualidade dos ovos, a biometria do trato gastrointestinal e dos ossos (tíbia e fêmur), bem como sobre o perfil bioquímico sanguíneo e as características bioquímicas do fígado e do pâncreas.

2. Material e métodos

O experimento foi conduzido no Setor de Avicultura do Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde, GO, sendo as análises laboratoriais realizadas nos Laboratórios de Nutrição Animal e de Bioquímica e Metabolismo Animal da mesma instituição. O projeto experimental foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA), sob protocolo n° 6008300419.

Foram utilizadas 150 codornas japonesas fêmeas (Coturnix coturnix japonica), com idade entre 40 e 52 semanas, em terceiro ciclo de postura. As aves foram avaliadas nessa fase por corresponderem a um período de produção estabilizada, permitindo a avaliação dos efeitos da suplementação sobre parâmetros produtivos, digestivos e metabólicos com menor influência da fase inicial de postura. As aves foram previamente uniformizadas quanto ao peso corporal e distribuídas em gaiolas de arame galvanizado (38 × 40 × 23 cm), proporcionando densidade de 304 cm2/ave, equipadas com bebedouros tipo nipple, comedouros tipo calha e bandejas coletoras de excretas.

O programa de iluminação adotado foi de 16 horas diárias de luz natural e artificial, utilizando lâmpadas fluorescentes de 100 W. Água e ração foram fornecidas ad libitum durante todo o período experimental. O experimento teve duração total de 84 dias, divididos em três ciclos produtivos de 28 dias cada. A temperatura mínima e máxima, bem como a umidade relativa do ar no interior do galpão, foram registradas duas vezes ao dia (08h e 16h), utilizando termo-higrômetro digital posicionado ao centro do galpão, à altura das aves.

O delineamento experimental adotado foi inteiramente casualizado (DIC), composto por cinco tratamentos e seis repetições, com cinco aves por unidade experimental. Os tratamentos consistiram em dietas à base de milho e farelo de soja suplementadas com níveis crescentes de gengibre em pó (0,0; 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 %).

2.1 Preparação do gengibre

O gengibre (Zingiber officinale) foi obtido a partir de rizomas frescos adquiridos em propriedade rural localizada no município de Ouroana, GO (18°7′54″ S; 50°37′3″ O). Os rizomas foram fatiados, distribuídos em bandejas de alumínio e desidratados em estufa de circulação de ar a 40°C por 72 horas. Posteriormente, o material foi triturado em moinho de facas até obtenção de pó fino e armazenado sob congelamento (-18°C) até sua utilização.

A composição bromatológica do gengibre em pó foi determinada conforme metodologia descrita por Silva & Queiroz (8), apresentando: umidade de 8,33 %, proteína bruta de 9,33 %, extrato etéreo de 2,84 % e fibra bruta de 7,45 %. As dietas experimentais foram formuladas de acordo com as recomendações nutricionais de Rostagno et al. (9), sendo sua composição apresentada na Tabela 1.

Tabela 1
Composição centesimal e níveis nutricionais calculados das dietas à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5 %; 1,0 %; 1,5 % e 2,0 % de gengibre em pó.

2.2 Desempenho produtivo

Ao início e ao final de cada ciclo produtivo, aves e rações foram pesadas para determinação dos parâmetros produtivos. Os ovos foram coletados diariamente. Foram avaliados: Consumo de ração – foi calculado pela diferença entre a quantidade de ração fornecida e as sobras. Conversão alimentar por massa de ovos produzidos – foi dividido o total de ração consumida pelo peso dos ovos produzidos, sendo expressa em gramas de ração por grama de ovo (g/g). Conversão alimentar por dúzia de ovo – foi calculada pela divisão do consumo médio de ração por dúzias produzidas (g/dúzia).

O percentual de postura e viabilidade comercial - foi calculado pelos ovos que foram coletados, contando o número de íntegros, quebrados, trincados, com casca fina, sem casca, deformados, duas vezes ao dia para o cálculo do percentual de postura, com registros em planilhas próprias. A massa de ovos (g ave−1 dia−1) foi calculada pela multiplicação do percentual de postura (%) pelo peso médio dos ovos (g), dividindo-se o resultado por 100, conforme a equação: MO = (PP × PO)/100.

2.3 Ensaio de digestibilidade

A coleta total de excretas foi realizada entre o 15° e o 19° dia de cada ciclo experimental, duas vezes ao dia. Utilizou-se óxido férrico (Fe2O3) a 1 % como marcador externo no primeiro e último dia de coleta, conforme Silva & Queiroz (8). As amostras de excretas e rações foram armazenadas congeladas e posteriormente analisadas para determinação de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), extrato etéreo (EE) e fibra bruta (FB). As excretas foram pré-secadas em estufa de ventilação forçada a 55 ± 5°C, moídas em moinho tipo Wiley e analisadas segundo metodologias oficiais (8).

Os coeficientes de metabolização aparente dos nutrientes foram determinados conforme a metodologia de coleta total de excretas descrita por Matterson et al. (10). As amostras das dietas experimentais e das excretas foram analisadas quanto aos teores de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), extrato etéreo (EE) e fibra bruta (FB), seguindo a metodologia descrita por Silva & Queiroz (8). A matéria seca das excretas foi determinada inicialmente em estufa de ventilação forçada a 55 ± 5 °C por 72 horas e, posteriormente, a matéria seca definitiva das dietas e das excretas foi obtida em estufa a 105 °C por 12 horas. O teor de nitrogênio foi determinado pelo método micro-Kjeldahl, sendo os valores de proteína bruta obtidos pela multiplicação do teor de nitrogênio pelo fator 6,25. O extrato etéreo foi determinado pelo método de Goldfisch, utilizando éter de petróleo como solvente, e a fibra bruta foi determinada após digestões ácida e alcalina, conforme metodologia descrita por Silva & Queiroz (8).

Os coeficientes de metabolização aparente da proteína bruta (CMPB), do extrato etéreo (CMEE) e da fibra bruta (CMFB) foram calculados pela expressão:

CM ( % ) = [ ( Nutriente ingerido − Nutriente excretado ) / Nutriente ingerido ] × 100

em que o nutriente ingerido (g) corresponde ao produto entre o consumo de ração e a concentração do respectivo nutriente na dieta, enquanto o nutriente excretado (g) foi obtido pelo produto entre a quantidade de excretas produzidas e a concentração do nutriente nas excretas.

2.4 Qualidade dos ovos

Durante uma semana de cada ciclo, foram coletados dois ovos íntegros por parcela (manhã e tarde) para determinação dos parâmetros a seguir: Qualidade externa: Peso dos ovos - com o peso total obtido pela pesagem em balança de precisão de 0,01g e o número de ovos por parcela, foi calculado o peso médio dos ovos das parcelas. Gravidade específica - todos os ovos íntegros produzidos por parcela foram submetidos à determinação da qualidade externa através da gravidade específica (g/mL) pelo método da imersão dos ovos em solução salina. As gravidades foram aferidas com a utilização de um densímetro de petróleo com as seguintes densidades: 1.060; 1.065; 1.070; 1.075; 1.080; 1.085; 1.090 e 1.100 (11). Unidade Haugh - foi obtida pela fórmula UH = 100 x log (H - 1,7 x P 0,37 + 7,6), sendo H a altura do albúmen (mm) e P o peso do ovo inteiro (g).

Qualidade interna: Peso de gema - foi coletado aleatoriamente, os ovos foram quebrados e suas gemas separadas manualmente e pesadas em balança de precisão de 0,01g. Peso do albúmen - foi obtido pela diferença entre o peso do ovo e dos pesos da casca e da gema. Altura da gema e albúmen - medida por um paquímetro digital com precisão de 0,01 mm. Diâmetro de gema e albúmen - foi obtido por um paquímetro digital com precisão de 0,01 mm. Cor da gema - avaliada por escore colorimétrico DSM® (leque ou abanico), na qual a cor da gema é comparada a uma escala de cores do abanico, e de acordo com a semelhança visual, obtida por três avaliadores, seguindo-se Galobart et al. (12). Porcentagem de gema - foram obtidas considerando o peso total do ovo e o peso da gema. pH da gema e albúmen - foi medido com pHmetro digital (13). Porcentagem de albúmen - foi determinada por diferença: 100 - (% de gema + % de casca). Índice de gema e albúmen - foi obtido por meio da divisão da altura pelo diâmetro da gema e do albúmen (14).

Peso da casca: as cascas foram secas em estufa de ventilação forçada por 24 horas a 105°C e novamente pesadas em balança de precisão de 0,01g. Espessura de casca - incluindo as membranas foram obtidos pelo valor médio três pontos diferentes, nos dois polos e na região lateral do ovo, com paquímetro digital, com precisão de 0,01 mm. Porcentagem de casca - foram obtidas considerando o peso total do ovo e o peso da casca.

2.5 Biometria do trato gastrointestinal

Ao final do experimento (84 dias), uma ave por repetição, representativa do peso médio da unidade experimental, foi eutanasiada por deslocamento cervical. Na necropsia, foram retiradas as vísceras (esôfago, papo, proventrículo, moela, fígado, intestino delgado, pâncreas e intestino grosso) que compõe o trato gastrointestinal (TGI), as quais foram medidas e pesadas,conforme descrito a seguir: tamanho do TGI desde a inserção do esôfago na orofaringe até a comunicação do intestino grosso com a cloaca; peso do pro-ventrículo mais moela (com conteúdo remanescente); peso do pâncreas, após a sua separação da alça duodenal; peso do intestino delgado, porção que compreende o final do estômago muscular até o início dos cecos; peso do intestino grosso, representado pelo peso dos cecos, do cólon e do reto, peso do fígado, dado pelo peso do fígado com a vesícula biliar. Os valores obtidos foram utilizados no cálculo do peso relativo de cada órgão, pela fórmula: Peso relativo do órgão = (peso do órgão / peso vivo) x 100 (15).

2.6 Perfil bioquímico sérico

Uma ave por repetição foi utilizada para coleta sanguínea após eutanásia. O sangue foi centrifugado a 6.000 rpm por 10 minutos para obtenção do soro (16). Foram determinados os teores de cálcio (Ca), fósforo (P), proteína total (PT), triglicerídeos (Trig), colesterol (Col), glutamato-oxaloacetato transaminase (AST), glutamato-piruvato transaminase (ALT) creatinina (Crea) e glicose (Gli) utilizando-se kits comerciais.

2.7 Análises hepáticas e pancreáticas

Na necropsia, as vísceras fígado e pâncreas foram removidos, acondicionados em recipientes devidamente identificados e rapidamente congelados, com o intuito de cessar a atividade enzimática. Este material foi homogeneizado (1g de tecido e 9 ml de água) e depois centrifugado a 8.000 rpm a 40 °C por 10 minutos. Todos os procedimentos foram realizados utilizando banho de gelo e água destilada para evitar a perda da atividade enzimática (16). Posteriormente foi coletado o sobrenadante para a determinação, em triplicata, dos teores de amilase (AM) e proteína total (PT) no pâncreas, e glutamato-oxalacetato transaminase (AST), glutamato-piruvato transaminase (ALT), triglicerídeos (Trig) e colesterol (Col) respectivamente no fígado, por kits comerciais.

2.8 Avaliação óssea

Para determinação do diâmetro e pesos das tíbias e dos fêmures, aos 84 dias de criação, após a eutanásia de uma ave de cada repetição por tratamento, as tíbias e os fêmures das pernas direitas foram removidos, identificadas, limpas de tecido aderente e posteriormente pesadas em balança analítica e seus diâmetros foram medidos com paquímetro digital (Jomarca). O índice de seedor (IS) foi obtido dividindo o peso (mg) pelo comprimento (mm) (17).

2.9 Análise estatística

Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) em delineamento inteiramente casualizado, utilizando o programa SISVAR versão 5.6 (18). Quando constatado efeito significativo pelo teste F (P < 0,05), realizou-se o ajuste de modelos de regressão linear e quadrática em função dos níveis de inclusão de gengibre em pó, sendo selecionado o modelo que apresentou significância estatística (P < 0,05) e maior coeficiente de determinação (R2).

Adicionalmente, os tratamentos contendo gengibre foram comparados ao tratamento controle (0,0 % de inclusão) por meio do teste de Dunnett, ao nível de 5 % de significância, utilizando o software R (19). Nas tabelas, médias seguidas por letras distintas diferem do tratamento controle pelo teste de Dunnett (P < 0,05).

3. Resultados

Durante o período experimental, a temperatura média ambiente variou entre 24,9 e 28,9 °C, enquanto a umidade relativa do ar apresentou valores médios entre 43 e 51 %. Os resultados de desempenho produtivo das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó estão apresentados na Tabela 2. A inclusão de gengibre não influenciou (P > 0,05) a massa de ovos (MO), o percentual de postura (PP) e a viabilidade das aves (VIA). Em contrapartida, foram observados efeitos significativos sobre o consumo de ração (CR), a conversão alimentar por massa de ovos (CAM) e a conversão alimentar por dúzia de ovos (CADz).

Tabela 2
Desempenho de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

O consumo de ração diferiu do tratamento controle nos níveis de 0,5; 1,5 e 2,0 % de inclusão de gengibre, apresentando ajuste quadrático (P < 0,05), com ponto de máxima resposta estimado em 0,85 % de inclusão. A conversão alimentar por massa de ovos apresentou diferença em relação ao controle no nível de 1,5 %, com ajuste quadrático e menor valor estimado em 1,44 % de inclusão. Da mesma forma, a conversão alimentar por dúzia de ovos diferiu do controle nos níveis de 1,5 e 2,0 %, apresentando comportamento quadrático, com menor valor estimado em 0,84 % de inclusão.

Os resultados referentes aos coeficientes de metabolização aparente dos nutrientes das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 3. A suplementação com gengibre não influenciou (P > 0,05) os coeficientes de metabolização aparente da proteína bruta (CMPB) e da fibra bruta (CMFB). Entretanto, foi observado efeito significativo para o coeficiente de metabolização aparente do extrato etéreo (CMEE), que diferiu do tratamento controle nos níveis de 1,0 e 1,5 % de inclusão. A análise de regressão indicou comportamento quadrático (P < 0,05), com ponto de máxima resposta estimado em 1,06 % de inclusão de gengibre em pó.

Tabela 3
Coeficiente de metabolizabilidade aparente de nutriente de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

Os resultados referentes à qualidade dos ovos das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 4. A suplementação com gengibre não influenciou (P > 0,05) a unidade Haugh, a gravidade específica, a altura, a porcentagem e o pH da gema, bem como as características do albúmen e os parâmetros de peso e porcentagem de casca.

Tabela 4
Qualidade de ovos de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

Entretanto, foram observados efeitos significativos para o peso dos ovos, o diâmetro, o índice e a coloração da gema, além da espessura da casca. O peso dos ovos diferiu do tratamento controle no nível de 1,5 % de inclusão, apresentando comportamento quadrático (P < 0,05), com ponto de máxima resposta estimado em 1,35 % de inclusão. O diâmetro da gema apresentou diferença em relação ao controle no nível de 1,0 %, enquanto o índice de gema diferiu nos níveis de 0,5 e 1,5 %, com ajuste quadrático. A coloração da gema apresentou diferenças em relação ao controle nos níveis de 0,5 e 2,0 % de inclusão. Para a espessura da casca, foi observada diferença apenas no nível de 2,0 % de inclusão de gengibre em pó.

Os resultados referentes à biometria do trato gastrointestinal das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 5. Os resultados referentes à biometria do trato gastrointestinal das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 5. Não foram observados efeitos (P > 0,05) da suplementação sobre o peso relativo do trato gastrointestinal, proventrículo + moela, intestino grosso, fígado e pâncreas.

Tabela 5
Biometria do trato gastrointestinal de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

Por outro lado, o comprimento do trato gastrointestinal e o peso relativo do intestino delgado foram influenciados pelos tratamentos. O comprimento do trato gastrointestinal diferiu do tratamento controle no nível de 1,0 % de inclusão, apresentando comportamento quadrático (P < 0,05), com ponto de máxima resposta estimado em 1,07 % de inclusão. O peso relativo do intestino delgado diferiu do controle no nível de 1,5 %, também apresentando ajuste quadrático, com ponto de máxima resposta estimado em 1,25 % de inclusão.

Os resultados referentes à biometria da tíbia e do fêmur das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 6. Os resultados referentes à biometria da tíbia e do fêmur das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 6. A suplementação com gengibre não influenciou (P > 0,05) o peso, o comprimento e o índice de Seedor da tíbia, bem como o peso, a largura e o índice de Seedor do fêmur.

Tabela 6
Biometria da tíbia e fêmur de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

Entretanto, foram observados efeitos significativos para a largura da tíbia e para o comprimento e a largura do fêmur. A largura da tíbia diferiu do tratamento controle no nível de 2,0 % de inclusão, apresentando ajuste quadrático (P < 0,05). Para o fêmur, as variáveis comprimento e largura apresentaram comportamento quadrático em função dos níveis de inclusão de gengibre em pó.

Os resultados referentes ao perfil bioquímico sanguíneo das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 7. A suplementação promoveu efeitos significativos (P < 0,05) sobre as concentrações séricas de cálcio, fósforo, relação Ca/P, proteínas totais, colesterol, triglicerídeos, creatinina, glicose, AST e ALT.

Tabela 7
Perfil bioquímico sanguíneo de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

As concentrações séricas de cálcio diferiram do tratamento controle em todos os níveis de inclusão, enquanto a relação Ca/P apresentou diferença apenas no nível de 1,0 %. As concentrações de proteínas totais diferiram do controle no nível de 1,5 %. Os níveis séricos de colesterol, triglicerídeos e creatinina diferiram do tratamento controle em todos os níveis de suplementação avaliados. Para glicose, observou-se diferença apenas no nível de 2,0 % de inclusão. As atividades séricas de AST e ALT também foram influenciadas pela suplementação, apresentando diferenças em relação ao tratamento controle.

Os resultados referentes ao perfil bioquímico dos tecidos hepático e pancreático das codornas japonesas alimentadas com dietas contendo níveis crescentes de gengibre em pó encontram-se apresentados na Tabela 8. No tecido hepático, não foram observadas diferenças (P > 0,05) para colesterol, AST e ALT. Entretanto, os níveis de triglicerídeos diferiram do tratamento controle nos níveis de 1,5 e 2,0 % de inclusão de gengibre em pó.

Tabela 8
Perfil bioquímico dos tecidos do fígado e pâncreas de codornas japonesas alimentadas com ração à base de milho e farelo de soja com a inclusão de 0,5; 1,0; 1,5 e 2,0 % de gengibre em pó.

No tecido pancreático, a suplementação não influenciou (P > 0,05) as concentrações de proteínas totais. Por outro lado, a atividade da amilase apresentou diferença em relação ao tratamento controle nos níveis de 1,5 e 2,0 % de inclusão, com comportamento quadrático (P < 0,05).

4. Discussão

A temperatura ambiente registrada durante o período experimental permaneceu dentro da zona de termoneutralidade para codornas adultas, estimada entre 18 e 28 °C, conforme descrito por Oide et al. (20). A temperatura máxima (28,9 °C) e mínima (24,9 °C), associadas à umidade relativa entre 43 e 51 %, indicam que as aves foram mantidas sob condições de conforto térmico, permitindo adequada expressão do potencial produtivo e minimizando interferências ambientais sobre as variáveis avaliadas.

A suplementação com gengibre em pó promoveu alterações em variáveis relacionadas à eficiência alimentar e à fisiologia digestiva das codornas japonesas, evidenciadas pela melhora da conversão alimentar, aumento do coeficiente de metabolização aparente do extrato etéreo e modificações na biometria do trato gastrointestinal. Em contrapartida, a massa de ovos, o percentual de postura e a viabilidade das aves não foram influenciados pelos tratamentos, indicando que a suplementação influenciou principalmente variáveis relacionadas à eficiência alimentar e à fisiologia digestiva, sem alterar os principais indicadores de produção.

Os efeitos observados podem estar relacionados às propriedades fisiológicas dos principais compostos bioativos presentes no gengibre, especialmente gingeróis, shogaóis e zingerona (2, 21). Esses compostos apresentam atividade antioxidante e anti-inflamatória, além de atuarem sobre o sistema digestório, estimulando a secreção de enzimas digestivas e de bile, favorecendo a digestão e a absorção dos nutrientes, particularmente dos lipídios. Além disso, estudos demonstram que os fitogênicos podem modular positivamente a microbiota intestinal, contribuindo para a manutenção da integridade da mucosa intestinal e para maior eficiência no aproveitamento dos nutrientes (3, 22-29).

No presente estudo, essa resposta fisiológica parece ser corroborada pelo aumento do coeficiente de metabolização aparente do extrato etéreo, associado ao maior comprimento do trato gastrointestinal e ao maior peso relativo do intestino delgado. Embora essas variáveis tenham sido avaliadas individualmente, sua interpretação conjunta sugere adaptações morfofuncionais capazes de favorecer o aproveitamento da fração lipídica da dieta. O maior desenvolvimento intestinal pode representar aumento da superfície absortiva disponível para digestão e absorção dos nutrientes, contribuindo para melhor eficiência alimentar observada nas aves suplementadas (21, 30, 31).

Embora tenha sido observado aumento no consumo de ração em alguns níveis de inclusão, esse resultado não deve ser interpretado como consequência direta da maior digestibilidade dos nutrientes. Em aves, maior eficiência digestiva nem sempre está associada ao aumento do consumo alimentar, podendo inclusive resultar em manutenção ou redução da ingestão devido ao maior aproveitamento energético da dieta (22, 32, 33). Dessa forma, é plausível supor que o aumento do consumo observado esteja relacionado a outros mecanismos fisiológicos, como alterações na palatabilidade da dieta, estímulo da motilidade gastrointestinal ou modificações na dinâmica digestiva promovidas pelos compostos bioativos do gengibre. Entretanto, esses mecanismos não foram avaliados no presente estudo e, portanto, essa hipótese deve ser interpretada com cautela.

Os resultados obtidos estão parcialmente de acordo com estudos conduzidos em codornas japonesas e galinhas poedeiras, nos quais a suplementação com gengibre promoveu melhorias na eficiência alimentar e em alguns parâmetros produtivos, embora os efeitos sobre consumo de ração e produção de ovos sejam variáveis entre os estudos. Essas diferenças provavelmente estão relacionadas à forma de processamento do gengibre (pó, extrato ou óleo essencial), à concentração dos compostos bioativos, ao nível de inclusão na dieta, à idade das aves e às condições de criação, fatores que influenciam diretamente a resposta fisiológica aos aditivos fitogênicos (1, 5, 6, 26, 34-37).

Embora a suplementação com gengibre em pó não tenha alterado a maioria das características de qualidade interna e externa dos ovos, foram observadas respostas significativas para peso dos ovos, coloração da gema e espessura da casca. Esses resultados indicam que os efeitos do aditivo ocorreram de forma específica sobre determinados atributos relacionados à formação e à composição do ovo, sem comprometer sua qualidade geral.

O aumento do peso dos ovos pode estar relacionado ao melhor aproveitamento dos nutrientes promovido pela suplementação com gengibre. A maior eficiência na digestão e absorção de nutrientes, especialmente lipídios, aminoácidos e minerais, pode favorecer a deposição de componentes estruturais do ovo durante sua formação. Além disso, os compostos fenólicos presentes no gengibre apresentam elevada capacidade antioxidante, reduzindo o estresse oxidativo celular e possivelmente contribuindo para a manutenção da atividade metabólica dos tecidos envolvidos na síntese dos constituintes do ovo (1, 4, 5, 26, 38 - 42).

A maior intensidade de coloração da gema observada em alguns níveis de suplementação pode estar associada à elevada concentração de compostos fenólicos e pigmentos naturais, como a 6-desidrogingerdiona, capazes de intensificar a coloração amarela presentes no gengibre, bem como ao possível aumento da eficiência absortiva intestinal promovido pelos fitogênicos. Embora o gengibre não seja considerado uma fonte expressiva de carotenoides, sua atividade antioxidante pode contribuir para maior estabilidade e deposição dos pigmentos lipossolúveis provenientes da dieta na gema dos ovos (2, 12, 38, 43, 44).

A melhora observada na espessura da casca pode estar relacionada ao maior aproveitamento intestinal dos minerais envolvidos na mineralização do ovo, principalmente cálcio e fósforo (45, 46). Embora o presente estudo não tenha demonstrado alterações consistentes nos parâmetros ósseos, a modulação do metabolismo mineral observada no perfil bioquímico sugere que a suplementação com gengibre pode ter favorecido a disponibilidade desses minerais para a formação da casca, sem provocar alterações estruturais significativas no tecido ósseo das aves.

Os resultados obtidos corroboram parcialmente com estudos conduzidos com codornas japonesas e galinhas poedeiras que demonstraram melhorias em algumas características da qualidade dos ovos após a suplementação com gengibre. Entretanto, assim como observado no presente estudo, os efeitos nem sempre ocorrem para todas as variáveis avaliadas, evidenciando que a resposta depende da forma de processamento do gengibre, da concentração dos compostos bioativos, do nível de inclusão na dieta e das características fisiológicas das aves (6, 5, 26, 36, 37, 47).

Os resultados obtidos no presente estudo demonstraram que a suplementação com gengibre promoveu redução das concentrações séricas de colesterol e triglicerídeos, além de diminuir os níveis de triglicerídeos hepáticos. Paralelamente, foram observadas alterações nas atividades séricas das aminotransferases (AST e ALT), evidenciando que o gengibre exerceu efeitos não apenas sobre o metabolismo lipídico sistêmico, mas também sobre processos metabólicos relacionados à fisiologia hepática. Em conjunto, esses resultados indicam que a suplementação influenciou mecanismos envolvidos na síntese, utilização e deposição de lipídios, sem evidências de comprometimento funcional do fígado.

Os efeitos observados podem ser atribuídos aos compostos bioativos presentes no gengibre, principalmente gingeróis, shogaóis e outros compostos fenólicos, reconhecidos por exercerem ação antioxidante e moduladora sobre o metabolismo lipídico. Esses compostos são descritos na literatura como compostos capazes de reduzir o estresse oxidativo e modular vias envolvidas no metabolismo lipídico a expressão de enzimas e vias metabólicas envolvidas na lipogênese e na oxidação de ácidos graxos. Revisões recentes demonstram que extratos vegetais são capazes de modular a expressão de genes relacionados ao metabolismo lipídico, estimular a β-oxidação, reduzir a síntese de lipídios e atuar sobre vias regulatórias como PPARα e AMPK, contribuindo para menor deposição de gordura e menores concentrações de colesterol e triglicerídeos em aves (25, 27, 48, 49).

A redução simultânea dos triglicerídeos séricos e hepáticos observada neste estudo reforça a hipótese de que o gengibre exerceu efeito sistêmico sobre o metabolismo dos lipídios, e não apenas uma alteração pontual na circulação sanguínea. O fígado representa o principal órgão responsável pela síntese, armazenamento e distribuição de lipídios nas aves, sendo esperado que modificações na lipogênese hepática sejam acompanhadas por alterações nos níveis séricos de colesterol e triglicerídeos. Dessa forma, os resultados obtidos sugerem menor síntese e/ou maior utilização de lipídios, hipótese compatível com a ação hipolipidêmica atribuída aos compostos bioativos do gengibre (6, 26, 25, 42, 50).

Os resultados obtidos corroboram os descritos por Herve et al. (26), que verificaram redução significativa das concentrações séricas de colesterol, bem como diminuição das atividades de AST e ALT em codornas japonesas suplementadas com óleo essencial de gengibre, sem prejuízo ao desempenho produtivo. De forma semelhante, Kairalla et al. (51) observaram redução dos níveis séricos de colesterol e triglicerídeos em frangos alimentados com dietas contendo gengibre em pó, atribuindo esses efeitos à presença de compostos bioativos capazes de estimular enzimas digestivas, melhorar o aproveitamento dos nutrientes e favorecer a utilização dos lipídios pelo organismo (27, 34, 37, 38, 52, 53).

As alterações observadas nas atividades séricas de AST e ALT devem ser interpretadas com cautela. Embora essas enzimas sejam amplamente utilizadas como indicadores de alterações hepáticas, pequenas variações em suas atividades não necessariamente representam lesão hepatocelular (6, 21, 25, 26, 40, 54). Considerando que o presente estudo não identificou outros indicadores compatíveis com comprometimento hepático, é mais plausível interpretar essas respostas como adaptações metabólicas decorrentes da suplementação com gengibre, possivelmente relacionadas à reorganização do metabolismo lipídico e ao aumento da atividade metabólica hepática. Essa interpretação é reforçada pelos menores níveis de colesterol e triglicerídeos observados, indicando uma resposta fisiológica compatível com o efeito hipolipidêmico do gengibre.

Além das alterações observadas no perfil lipídico, a suplementação com gengibre promoveu modificações nas concentrações séricas de proteínas totais. As proteínas plasmáticas são sintetizadas predominantemente no fígado e constituem importantes indicadores da capacidade funcional hepática e do estado nutricional das aves. Assim, alterações nesse parâmetro devem ser interpretadas em conjunto com outros marcadores bioquímicos, como AST, ALT, colesterol e triglicerídeos (2, 47). Resultados semelhantes foram descritos por Shewita e Taha (55) e Ibtisham et al. (56), que observaram aumento das proteínas totais em aves suplementadas com gengibre, acompanhado por melhorias no perfil lipídico, sugerindo que essas alterações possam estar relacionadas à modulação da atividade metabólica hepática e à ação antioxidante dos compostos bioativos do gengibre, entretanto, como esse parâmetro pode ser influenciado por diversos fatores fisiológicos e nutricionais, sua interpretação deve ser realizada em conjunto com os demais indicadores bioquímicos.

Em conjunto, os resultados demonstram que o principal efeito metabólico do gengibre neste estudo foi a modulação do metabolismo lipídico, caracterizada pela redução das concentrações séricas e hepáticas de lipídios, provavelmente em decorrência da ação integrada de seus compostos fenólicos sobre mecanismos antioxidantes, digestivos e regulatórios do metabolismo. Esses achados reforçam o potencial do gengibre como aditivo fitogênico capaz de melhorar o metabolismo dos lipídios em codornas japonesas, sem evidências de efeitos adversos sobre a função hepática.

Entre os parâmetros relacionados ao metabolismo energético, observou-se aumento da concentração sérica de glicose apenas no maior nível de inclusão de gengibre (2,0 %), enquanto a creatinina também apresentou alteração significativa em relação ao tratamento controle. Entretanto, essas respostas não foram acompanhadas por alterações no desempenho produtivo, na viabilidade das aves ou em outros indicadores bioquímicos que sugerissem comprometimento fisiológico. Dessa forma, os resultados indicam que a suplementação influenciou alguns aspectos do metabolismo intermediário, porém seus efeitos devem ser interpretados de forma integrada aos demais parâmetros avaliados.

O aumento da glicose sérica observado no presente estudo merece atenção, uma vez que os efeitos do gengibre sobre o metabolismo glicídico em aves ainda são inconsistentes na literatura. De acordo com a revisão de Abd El-Hack et al. (1), o gengibre apresenta compostos bioativos capazes de modular diferentes vias metabólicas, incluindo aquelas relacionadas ao metabolismo energético, digestivo e antioxidante. Entretanto, a magnitude e a direção dessas respostas dependem de fatores como a dose utilizada, a forma de processamento do gengibre, a espécie, a idade e as condições fisiológicas das aves, não existindo um efeito uniforme sobre a glicemia (13).

Corroborando parcialmente os resultados obtidos, Ibtisham et al. (56) observaram aumento da glicose sérica em poedeiras suplementadas com gengibre em pó sob condições de estresse térmico, acompanhado por redução das concentrações séricas de colesterol e triglicerídeos e melhora do estado antioxidante das aves. Esses autores sugerem que esses resultados sugerem que a resposta glicêmica possa representar uma adaptação metabólica decorrente da maior disponibilidade energética e da ação antioxidante dos compostos bioativos do gengibre, e não necessariamente um efeito deletério sobre o metabolismo. No presente estudo, embora as aves tenham sido mantidas em condições distintas, a ocorrência simultânea de aumento da glicose e redução dos lipídios séricos reforça a hipótese de que o gengibre possa modular diferentes vias metabólicas de forma integrada.

Por outro lado, os resultados da literatura não são consensuais. Em um estudo recente com poedeiras ISA Brown, Zinalabidin et al. (57) verificaram que diferentes fontes e níveis de inclusão de gengibre não promoveram alterações significativas nas concentrações séricas de glicose, colesterol e proteínas totais, embora tenham observado redução dos triglicerídeos em alguns tratamentos. Essas divergências evidenciam que a resposta metabólica ao gengibre pode variar em função da origem da matéria-prima, do perfil de compostos bioativos, do nível de inclusão, da espécie e das condições experimentais adotadas, reforçando a necessidade de cautela na interpretação desses parâmetros (28, 29, 58, 59).

A creatinina é um metabólito oriundo do metabolismo muscular e sua concentração sérica é utilizada como indicador indireto da função renal e do metabolismo proteico. Embora tenham sido observadas diferenças entre os tratamentos, essas alterações não foram acompanhadas por evidências de comprometimento clínico ou por modificações em outros parâmetros bioquímicos compatíveis com disfunção renal. Assim, é provável que essa resposta represente uma adaptação fisiológica decorrente da suplementação, devendo ser interpretada em conjunto com os demais resultados do metabolismo energético (26, 44).

Em conjunto, os resultados sugerem que a suplementação com gengibre exerceu influência discreta sobre o metabolismo energético das codornas japonesas, evidenciada principalmente pela alteração da glicose sérica. Entretanto, considerando a ausência de prejuízos ao desempenho produtivo e a inconsistência dos resultados disponíveis na literatura, não é possível afirmar que o gengibre exerça efeito direto sobre a homeostase glicêmica das aves. Dessa forma, estudos adicionais são necessários para esclarecer os mecanismos fisiológicos envolvidos e determinar se essas alterações representam adaptações metabólicas transitórias ou efeitos dependentes da dose e das condições de criação.

A suplementação com gengibre promoveu alterações em alguns parâmetros relacionados ao metabolismo mineral, evidenciadas pelas modificações nas concentrações séricas de cálcio, fósforo e na relação Ca:P. Entretanto, essas alterações bioquímicas não foram acompanhadas por mudanças consistentes na biometria óssea, uma vez que a maioria das variáveis avaliadas na tíbia e no fêmur não apresentou diferenças significativas entre os tratamentos. Esses resultados indicam que, nas condições do presente estudo, os efeitos do gengibre sobre o metabolismo mineral não se refletiram em alterações estruturais relevantes no tecido ósseo das codornas.

O cálcio e o fósforo desempenham papel fundamental na mineralização óssea e na formação da casca dos ovos, sendo rigorosamente regulados por mecanismos hormonais e metabólicos que mantêm a homeostase mineral das aves. Dessa forma, alterações nas concentrações séricas desses minerais nem sempre resultam em modificações estruturais dos ossos, especialmente em experimentos de curta duração ou quando os níveis dietéticos de minerais atendem às exigências nutricionais das aves. Assim, as alterações bioquímicas observadas podem refletir ajustes fisiológicos na dinâmica do metabolismo mineral, sem necessariamente indicar alterações na deposição mineral do tecido ósseo (45, 46, 52, 60).

Embora não tenham sido observadas alterações expressivas nas características ósseas, a melhora da espessura da casca observada em um dos níveis de suplementação sugere que parte do cálcio absorvido pode ter sido direcionada preferencialmente para a formação da casca dos ovos. Em aves em postura, grande parte do cálcio disponível é mobilizada para atender à intensa demanda de calcificação da casca, o que pode explicar a ausência de respostas estruturais no tecido ósseo mesmo diante de alterações no metabolismo mineral (13, 14, 45, 61).

Os resultados obtidos corroboram estudos que relatam que a suplementação com fitogênicos pode modificar parâmetros bioquímicos relacionados ao metabolismo mineral sem promover alterações consistentes nas características ósseas. Essas diferenças entre respostas bioquímicas e estruturais evidenciam que o metabolismo mineral é altamente regulado e depende de diversos fatores, como idade das aves, estágio de produção, disponibilidade dietética de minerais e duração da suplementação (45, 46, 54).

Em conjunto, os resultados indicam que a suplementação com gengibre promoveu ajustes no metabolismo mineral das codornas japonesas, porém sem evidências de efeitos consistentes sobre a estrutura óssea. Dessa forma, os achados sugerem que o principal impacto da suplementação esteve relacionado à homeostase mineral e à formação da casca dos ovos, não sendo possível afirmar que o gengibre exerça efeito direto sobre o desenvolvimento ósseo nas condições avaliadas neste estudo.

5. Conclusão

O gengibre em pó apresenta potencial como aditivo fitogênico na alimentação de codornas japonesas em postura, promovendo melhorias na conversão alimentar, na metabolização aparente do extrato etéreo, em algumas características da qualidade dos ovos e na modulação de parâmetros bioquímicos relacionados ao metabolismo lipídico e mineral, sem comprometer a produção de ovos ou a viabilidade das aves. Assim, o gengibre constitui uma alternativa promissora aos promotores convencionais na alimentação de codornas, embora estudos adicionais sejam necessários para estabelecer níveis de inclusão mais consistentes e confirmar seus efeitos em diferentes condições de criação.

Declaração de uso de IA generativa

Os autores não utilizaram ferramentas ou tecnologias de inteligência artificial generativa na criação ou edição de qualquer parte deste manuscrito.

Declaração de disponibilidade de dados

O conjunto completo de dados que suporta os resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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autor correspondente: stefanesamp@gmail.com

Declaração de conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflitos de interesses.

Editor:

Rondineli P. Barbero

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Ago 2026
  • Aceito
    16 Jul 2026
  • Publicado
    24 Ago 2026
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