Open-access AVALIAÇÃO DE PRESCRIÇÕES MÉDICAS DE MEDICAMENTOS EM UMA EMERGÊNCIA HOSPITALAR

RESUMO

Objetivo:  avaliar a adesão das prescrições médicas de medicamentos às recomendações para segurança do paciente por meio do checklist - Lista de Verificação de Segurança na Prescrição de Medicamentos.

Método:  trata-se de um estudo observacional, transversal, realizado entre maio a junho de 2022, com 341 prescrições médicas de medicamentos, numa emergência hospitalar no interior da Bahia - Brasil, cujos dados foram analisados através de análise descritiva.

Resultados:  80% a 89% das prescrições tiveram adesão às recomendações de segurança; o item de maior adesão foi identificação da data da prescrição, menor adesão foi possuir medicamentos com nomes semelhantes identificados com caixa alta ou negrito. Cerca de 18,63% (n=514) dos medicamentos prescritos fazem parte da lista de medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar.

Conclusão:  a avaliação das prescrições médicas de medicamentos evidenciou barreiras existentes na prática clínica, o que possibilita a elaboração de mecanismos mais efetivos para promoção da segurança do paciente.

DESCRITORES:
Prescrições de Medicamentos; Segurança do Paciente; Eventos Adversos; Serviço Hospitalar de Emergência.

HIGHLIGHTS

  1. Nenhuma amostra obteve 100% de adesão às recomendações de segurança.

  2. O item Número/Letra do leito apresentou adesão de 25,51%.

  3. A identificação de medicamentos com nomes semelhantes ocorreu em 0,23%.

  4. A maioria dos medicamentos potencialmente perigosos apresentou adesão ≤ 79%.

ABSTRACT

Objective:  To evaluate the adherence of medical prescriptions to patient safety recommendations using the Medication Prescription Safety Checklist.

Method:  This is an observational, cross-sectional study carried out between May and June 2022, with 341 medical prescriptions for medicines in a hospital emergency room in the interior of Bahia - Brazil, whose data were analyzed through descriptive analysis.

Results:  80% to 89% of the prescriptions adhered to the safety recommendations; the item with the highest adherence was identification of the date of the prescription, and the lowest adherence was having drugs with similar names identified in upper case or bold. Around 18.63% (n=514) of the drugs prescribed are on the list of potentially dangerous drugs for hospital use.

Conclusion:  The evaluation of medical prescriptions for medicines highlighted existing barriers in clinical practice, which makes it possible to develop more effective mechanisms to promote patient safety.

HIGHLIGHTS

  1. No sample achieved 100% adherence to safety recommendations.

  2. The item Bed number/letter showed 25.51% adherence.

  3. The identification of drugs with similar names occurred in 0.23%.

  4. The majority of potentially dangerous drugs showed adherence ≤ 79%.

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar la adhesión de las prescripciones médicas a las recomendaciones de seguridad del paciente utilizando la checklist - Lista de verificación de la Seguridad de la Prescripción de Medicamentos.

Método:  Se trata de un estudio observacional, transversal, realizado entre mayo y junio de 2022, con 341 prescripciones médicas de medicamentos, en la sala de urgencias de un hospital del interior de Bahia - Brasil, cuyos datos fueron analizados mediante análisis descriptivo.

Resultados:  Entre el 80% y el 89% de las prescripciones cumplieron las recomendaciones de seguridad; el punto con mayor cumplimiento fue la identificación de la fecha de la prescripción, y el de menor cumplimiento, que los medicamentos con nombres similares se identificaran en mayúsculas o en negrita. Alrededor del 18,63% (n=514) de los medicamentos prescriptos figuran en la lista de medicamentos potencialmente peligrosos de uso hospitalario. Conclusiones: La evaluación de las prescripciones médicas de medicamentos puso de manifiesto los obstáculos existentes en la práctica clínica, lo que permite desarrollar mecanismos más eficaces para promover la seguridad de los pacientes.

ASPECTOS DESTACADOS

  1. Ninguna muestra alcanzó el 100% de adhesión a las recomendaciones de seguridad.

  2. El ítem Número/Letra del lecho tuvo una adhesión del 25,51%.

  3. La identificación de medicamentos con nombres similares se produjo en el 0,23%.

  4. La mayoría de los medicamentos potencialmente peligrosos mostraron una adhesión ≤ 79%.

INTRODUÇÃO

O elevado número de mortalidade relacionada à assistência à saúde foi precursor para elaboração das metas internacionais de segurança do paciente1. No Brasil, foi instituído em 2013 o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), cujo objetivo é contribuir para a qualificação do cuidado, instituindo as ações de segurança e os protocolos básicos para implantação dessas ações2. Dentre eles, o Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos que tem por finalidade a promoção de práticas seguras no uso de medicamentos3.

Desde então, a segurança do paciente é tema amplamente discutido na literatura científica, a qual evidencia importância de protocolos e rotinas para desenvolvimento da assistência de qualidade e da redução de riscos ao paciente O ambiente hospitalar tem se destacado entre os serviços de saúde mais estudados, entretanto este ainda se apresenta como cenário inseguro para os pacientes, sendo a emergência hospitalar um setor onde os pacientes permanecem por longo período expostos a riscos4-5.

Segundo o Relatório da Avaliação Nacional da Prática de Segurança do Paciente, realizado em unidades hospitalares que dispunham de Unidades de Terapia Intensiva (UTI), divulgado em 2022, há presença persistente de obstáculos para consolidação das práticas de segurança ao paciente nestes serviços. O Relatório apontou ainda que o Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos obteve o terceiro maior número de não conformidade entre os hospitais estudados6.

Atrelado a isto, houve um aumento na taxa de mortalidade relacionada a eventos adversos a medicamentos (EAM) no Brasil, atingindo uma média de 12,1 óbitos por um milhão de habitantes entre 2008 e 20167. Deste modo, compreende-se que os eventos adversos relacionados a medicamentos apresentam significativa relevância para a saúde.

Neste contexto, destacam-se os profissionais médicos responsáveis legais pelas prescrições de medicamentos. Elementos como a falta de experiência, sobrecarga de trabalho, inadequação das condições para prescrição, ausência de treinamento específico e de feedback quando identificado o erro, são percebidos como condições que favorecem a ocorrência de erros na prescrição8.

Assim, as prescrições médicas de medicamentos (PMM) são percebidas como objetos de investigação na análise da ocorrência de EAM em diferentes estudos8-11. Na busca de mitigar os riscos, a implantação de tecnologia da informação (TI) se apresenta como alternativa ao aprimorar o processo de gestão em saúde, incluindo a prescrição médica de medicamentos, contribuindo para redução da frequência de erros12.

Entretanto, apesar do crescente uso de TI nos hospitais, as PMM permanecem suscetíveis a erros que podem desencadear eventos adversos graves aos pacientes. Com intuito de avaliar a segurança das PMM emitidas via sistemas de informatização, foi elaborado e validado o checklist - Lista de Verificação de Segurança na Prescrição de Medicamentos (LVSPM)13, cujos itens avaliam a adesão das prescrições às recomendações presentes no Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos, sendo elas: os itens de verificação; indicação, cálculos de doses e quantidades de medicamentos; utilização de expressões vagas; posologia, diluição, velocidade, tempo de infusão e via de administração3.

Diante disto, este estudo tem por objetivo avaliar a adesão das prescrições médicas de medicamentos às recomendações para segurança do paciente por meio do checklist - Lista de Verificação de Segurança na Prescrição de Medicamentos.

MÉTODO

Estudo quantitativo, observacional e transversal realizado no município de Vitória da Conquista - BA - Brasil, em um serviço de emergência de um hospital geral, nos setores: ala feminina, ala masculina e sala de medicação. A coleta de dados ocorreu no período de maio a julho de 2022, a população estudada foi composta pelas PMM impressas, elaboradas e emitidas via Sistema SGH-SPdata, nos locais de estudo.

Os critérios de inclusão foram: PMM emitidas via Sistema SGH-SPdata (sistema de informação utilizado no hospital de estudo), impressas, com até 48h após o vencimento das prescrições (válidas por 24h conforme protocolo do hospital), em condições de avaliação dos itens. E como critérios de exclusão: prescrições com danos (sujidade, rasgo etc.) que impediam avaliação dos componentes, e medicamentos prescritos por via diferente da prescrição original, ou seja, adicionados manualmente.

A amostra foi do tipo probabilística, aleatória simples. Para cálculo do número amostral foi considerado o número de prescrições médicas de medicamentos emitidas diariamente, com validade de 24h, nos setores emergenciais estudados, no período de março de 2021 a março de 2022, com nível de confiança de 95%, erro amostral de 5%, e percentual mínimo de 0,64% obtido de estudo semelhante de Carvalho e outros autores (2016)14. Assim, o tamanho amostral estimado foi de 338 prescrições médicas de medicamentos.

O estudo observou os itens que compunham as PMM avaliando se estes se adequam às recomendações de segurança conforme checklist LVSPM13. Além disso, foram coletados dados sobre o local de origem das PMM, tipo de prescritor, tipo de especialidade do prescritor das PMM.

Para avaliação da adesão das recomendações de segurança do paciente foi utilizado o checklist - LVSPM13, mediante autorização prévia da autora, estruturado no Kobotoolbox.org, sendo composto por dois blocos de questões.

O primeiro bloco, referente à identificação da prescrição, avalia nove itens, Q1 a Q9, sendo eles: 1. nome completo do paciente sem abreviações; 2. número do prontuário; 3. enfermaria/apartamento; 4. número/letra do leito; 5. nome completo do prescritor; 6. número registro no Conselho Profissional; 7. assinatura/senha do prescritor; 8. nome completo da instituição; e 9. identificação da data da prescrição13. Esse primeiro bloco foi avaliado uma única vez para cada prescrição médica de medicamentos.

O segundo bloco refere-se aos itens recomendados para os medicamentos e é composto por treze questões, Q10 a Q22, sendo elas: 10. possui abreviaturas; 11. contém via de administração abreviada conforme padronização da instituição; 12. padronizado na Denominação Comum Brasileira; 13. possui medicamentos com nomes semelhantes identificados com caixa alta ou negrito; 14. utiliza expressões de medidas não métricas (colher, ampola, frasco); 15. forma farmacêutica acompanhada de todas as informações necessárias; 16. unidade de medida claramente indicada, no caso de microgramas escrito por extenso; 17. utiliza ponto em substituição à vírgula na prescrição de dose; 18. utiliza zero antes da vírgula (ex. 0,5g ao invés de 500mg); 19. usa expressões como “uso contínuo” ou “sem parar” relacionadas à duração do tratamento; 20. expressão “se necessário” com dosagem, posologia, dose máxima diária e condição que determina o uso ou interrupções do uso; 21. contém informações sobre diluentes; e 22. definição da velocidade de infusão13. Este segundo bloco foi aplicado para cada medicamento constante em cada prescrição.

Cada questão tinha três opções de resposta, sendo conferido a cada resposta nominal, um código numérico. Para determinação do escore de adesão, foi realizado o somatório de respostas com código 1 (um), do total válido dos itens de 01 a 09 instrumento, convertidos para percentuais de 100%, e aos itens 10 a 22, a proporção do percentual de adesão foi calculada pela soma do código 1 (um), dividindo-se pelo número de itens válidos2.

Os itens 10, 14, 17, 18 e 19, foram considerados itens inversos, ou seja, a não adesão a estes itens recebeu o código 1 (um). Para coleta de dados do item Possui medicamentos com nomes semelhantes identificados com caixa alta ou negrito, foi considerada a lista de nomes de medicamentos com grafia ou som semelhantes13. Assim, por meio do checklist obteve-se o valor percentual de adesão às recomendações para segurança do paciente.

As prescrições foram agrupadas diariamente, durante três meses, enumeradas, e selecionadas de forma aleatória, alcançando um total de 350 PMM, sendo quatro excluídas por apresentarem sujidade, cinco por estarem com danos na impressão, impedindo a avaliação dos itens presentes nas prescrições.

Totalizando 341 prescrições médicas de medicamentos e 2579 medicamentos avaliados ao final.

Os dados foram tabulados utilizando o programa Microsoft Excel®, apresentados em frequências simples e percentuais. Os medicamentos prescritos foram agrupados conforme Anatomical Therapeutic Chemical - ATC, seguindo a OMS15, e classificados se pertencentes ou não a medicamentos potencialmente perigosos (MPP) de uso hospitalar16 para melhor apresentação das frequências e discussão dos dados. Foram consideradas seguras as variáveis que possuíram percentual de adesão de 100%, enquanto as adesões abaixo de 100% foram consideradas inseguras, com nível de insegurança inversamente proporcional à não adesão das recomendações.

O estudo faz parte do projeto de pesquisa intitulado “Avaliação da segurança do paciente na prescrição e administração de medicamentos”, o qual foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal da Bahia do Instituto Multidisciplinar em Saúde (CEP/UFBA-IMS), sob número do parecer 5.343.875.

RESULTADOS

As PMM totalizaram 341, com total de 2579 medicamentos, e uma média de 7,56 medicamentos por prescrição. A maioria de origem da sala de medicação (67,74%, n=231), prescritas por um profissional médico especialista (44,57%, n=152), sendo a especialidade predominante a cirurgia geral (33,55%, n=51), conforme a Tabela 1.

Quanto aos grupos medicamentosos prescritos, três apresentaram maiores frequências, sendo os medicamentos do Sistema Nervoso e Sistema Cardiovascular (27,22%, n=702; 27,22%, n=702), e os medicamentos do Trato Gastrointestinal e Metabolismo (23,77%, n= 613), conforme a Tabela 1.

Tabela 1
Caracterização das prescrições médicas de medicamentos (n=341) em um serviço de emergência. Vitória da Conquista, BA, Brasil, 2022

Adesão das PMM às recomendações de segurança

As adesões das PMM foram apresentadas em percentagem, por intervalo de frequências. Não foi identificada nenhuma amostra com 100% de adesão às recomendações de segurança do paciente. As prescrições médicas de medicamentos com adesão entre 80-89% apresentaram o maior intervalo de frequência com 50,73% (n=173) das PMM, conforme a Tabela 2.

Com relação à identificação da prescrição de medicamentos, o item de maior adesão foi “Identificação da data da Prescrição” (99,98%, n=339), enquanto o item de menor adesão foi “Número/Letra do leito” constante em apenas 25,5% (n=87) das PMM.

Em relação aos itens referentes à identificação do medicamento prescrito, o de menor adesão foi referente a possuir medicamentos com nomes semelhantes identificados com caixa alta ou negrito presente em apenas 0,23% (n=seis) dos medicamentos que apresentavam outros medicamentos com nomes semelhantes prescritos.

Em se tratando dos itens relacionados à frequência da administração de medicamentos, observa-se discrepância na adesão das recomendações, na qual o item :usa expressões como “uso contínuo” ou “sem parar” relacionado à duração do tratamento, considerado um item de insegurança, esteve em 19% (n=490), enquanto que o item: expressão “se necessário” com dosagem, posologia, dose máxima diária e condição que determina o uso ou interrupções do uso, considerado item de segurança, foi aderido em apenas 13,88% (n=358).

Observa-se baixa adesão nos itens: contém informações sobre diluentes em 3,72% (n=96) e definição da velocidade de infusão em 1,20% (n=31), conforme Tabela 2.

Tabela 2
Percentual de adesão, total e por item, das prescrições médicas de medicamentos (n=341) e dos medicamentos prescritos (n=2759), às recomendações de segurança. Vitória da Conquista, BA, Brasil, 2022

Adesão dos Grupos Medicamentosos às recomendações de segurança

No que diz respeito à adesão aos itens de recomendação de segurança relacionados aos grupos medicamentosos, 24,77% (n=639) dos medicamentos tiveram 100% de adesão aos itens de segurança. Os grupos medicamentosos Anti-infeccioso, Sangue e órgãos formadores de sangues, Trato gastrointestinal e metabolismo, Sistema Nervoso e Outros, apresentaram a maioria dos medicamentos (60,97%, n=164; 34,44, n=52; 60,36%, n=370; 51,57%, n=362; 42,96%, n=61) com adesão menor ou igual a 79%, conforme Tabela 3.

Ainda sobre os grupos medicamentosos, cerca de 18,63% (n=513) dos medicamentos prescritos fazem parte da lista de potencialmente perigosos (MPP) de uso hospitalar. Destes, os medicamentos do grupo Sistema Nervoso (47,76%, n=245) foi prevalente, sendo o Tramadol (35,02%, n=180) o medicamento mais prescrito. A maioria dos MPP de uso hospitalar prescritos apresentou percentual de adesão inferior ou igual a 79% (67,84%, n=348), conforme Tabela 3.

Tabela 3
Percentual de adesão total dos medicamentos prescritos (n=2759), por grupo medicamentoso, e dos medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar (n=513), às recomendações de segurança. Vitória da Conquista, BA, Brasil, 2022

DISCUSSÃO

A ausência de PMM seguras, associada à prescrição de mais de quatro medicamentos por paciente, podem contribuir para a vulnerabilidade dos pacientes na ocorrência de eventos adversos na emergência hospitalar. Em estudo publicado em 2022, realizado na região metropolitana do Estado de Goiás em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com a administração de 751 doses de medicamentos, apontou que 96,1% dos erros estavam associados à falta de informação sobre o medicamento administrado17. Outra questão que pode influenciar a ocorrência de eventos adversos relacionados à medicação é a polifarmácia, que contribui para internações por reações adversas a medicamentos, com altos custos para os serviços de saúde18.

Ao avaliar os itens de identificação das prescrições, percebeu-se que o uso do sistema de informação contribuiu para maiores adesões aos dados comuns às prescrições como nome da instituição, data, e informações do médico prescritor. O uso de recursos de tecnologia da informação é pontuado como ferramenta de apoio ao prescritor para evitar erros de prescrição10.

Em contrapartida, nota-se que a não obrigatoriedade de algumas informações, como identificação do local de internamento dos pacientes, atrelado ao fato de que esses dados muitas vezes não estão disponíveis ou inexistem, pois os pacientes estão acomodados em macas improvisadas instaladas em corredores hospitalares, realidade do hospital de estudo, podem contribuir com a não adesão aos itens. A baixa adesão ao número/letra de leito e a enfermaria/apartamento, foi encontrada também em estudo realizado na emergência de hospital nordestino, em 2005, com 1.585 prescrições, das quais 71,6% não apresentavam número do leito-box19.

Apesar de ser a primeira meta internacional proposta pela OMS, problemas na identificação do paciente e ausência de um sistema de identificação foram relatados em diferentes estudos, estando associados a eventos adversos preveníveis ocasionados pela troca de nome do paciente, administração errônea de medicamentos e realização de cuidados destinados a outros pacientes17,20-22.

A identificação de medicamentos com nomes semelhantes, em caixa alta ou negrito, está entre as medidas de baixo custo e de fácil aplicação, com lista elaborada pelo Instituto para práticas seguras no uso de medicamentos23, contudo apesar da alta adesão a Denominação Comum Brasileira (DCB), percebe-se falha no sistema de informação para que, quando prescritos, os medicamentos com nomes semelhantes estejam identificados.

A implantação de TI como os sistemas automatizados de prescrição é pontuada como uma das recomendações gerais para segurança no uso de medicamentos com grafias ou som semelhante, mas há outras recomendações necessárias para garantia dessa segurança, como a configuração do sistema e implantação de automatização na etapa de dispensação e administração de medicamentos23.

Contudo, é válido ressaltar que as pesquisas sobre o Tallmanletter, nome designado pela Institute for Safe Medication Practices - United Station of America (ISMP - USA), não sustentam o uso dessa estratégia. Conforme revisão de evidências desenvolvida pela instituição americana, há ausência de comprovações científicas quanto à sua eficácia, apesar disso, a estratégia se mantém recomendada visto que diferentes estudos em todo mundo apresentaram a fácil aplicabilidade do método, com fragilidade nos estudos que avaliaram sua eficácia24.

Os resultados referentes aos grupos medicamentosos variam de acordo com a pesquisa desenvolvida, podendo essa discrepância estar atrelada às variações de patologias, público e local de estudo11.

A média de 1,5 MPP por PMM, ausência de PMM com medicamentos potencialmente perigosos, e falta de diferenciação de medicamentos com nomes semelhantes, apontam na contramão da alta vigilância necessária para esse grupo medicamentoso. Ao analisar erros envolvendo MPP, foi percebido que a omissão de informações sobre o medicamento apresentou-se como o mais frequente11.

Além disso, o predomínio de medicamentos do grupo Sistema nervoso dentro dos MPP prescritos, converge como os mais prevalentes na ocorrência de notificações de incidentes, tendo reação adversa, flebite e erro de medicação como incidentes notificados entre os MPP25.

No que tange aos médicos, profissionais de saúde responsáveis no processo de prescrição, destaca-se que para estes profissionais, os erros nas prescrições de medicamentos estão associados a fatores como a mão-de-obra com baixa qualificação, conhecimentos específicos ineficazes, sobrecarga de trabalho, número desproporcional entre pacientes e médicos, e necessidade de maior agilidade na elaboração da prescrição ocasionada pela alta demanda de pacientes9.

Pontuaram também que a automatização dos processos, principalmente relacionados à prescrição, associado à simplificação dos procedimentos e treinamento constante de toda equipe, são possíveis estratégias para minimização de erros. Por fim, destacam a participação dos profissionais de Enfermagem e Farmácia na interpretação das prescrições, contribuindo para a perpetuação de erros relacionados à prescrição9.

Neste aspecto, os farmacêuticos se apresentam como barreiras nos erros de prescrição, sendo as intervenções farmacêuticas ferramentas importantes na garantia da segurança do paciente26. Para os profissionais de Enfermagem, é necessário ter conhecimento prévio acerca dos medicamentos administrados, sendo proibida a administração de medicamentos dos quais não conheçam a indicação, a ação, via de administração, e possíveis riscos, conforme cada grau de formação27, sendo estes a última barreira para que o erro não chegue ao paciente.

Este estudo limitou-se à coleta de informações das prescrições. Não foi avaliado o impacto que a não adesão às recomendações de segurança nas prescrições desempenha no processo de dispensação, preparo e administração dos medicamentos, e no risco de desenvolvimento de eventos adversos.

A segurança nas prescrições médicas de medicamentos é essencial para a garantia da redução de eventos adversos relacionados à medicação. São necessários estudos de maior tamanho amostral, em maiores centros hospitalares, que avaliem as prescrições médicas de medicamentos no que tange a adesão às recomendações de segurança e qualidade das prescrições para consolidar os resultados encontrados.

CONCLUSÃO

A avaliação das prescrições médicas de medicamentos evidenciou a ausência de totalidade na adesão às recomendações de segurança do paciente. A identificação do paciente apresentou-se mais insegura no que tange ao local de internamento, especificamente no número/letra do leito e enfermaria/apartamento. Em relação à identificação do medicamento notou-se uma adesão baixa nas PMM com nomes semelhantes, além de insegurança na informação sobre diluentes e definição de velocidade de infusão. Estando a ausência de segurança nas prescrições relacionadas à maioria dos grupos medicamentosos, com exceção dos medicamentos do Sistema Cardiovascular.

Além disso, através dos resultados obtidos é possível inferir que o uso de TI através de um sistema de informatização para elaboração e emissão de PMM não garante que essas atendam às recomendações dos órgãos governamentais. Neste aspecto, pontua-se a necessidade de que os sistemas de informatização sejam adaptados às realidades locais, com suporte para garantia de segurança na prescrição, além de um acompanhamento da gestão a fim de reconhecer os riscos existentes e planejar ações que contribuam para sua minimização.

Ademais, torna-se relevante que desde a formação profissional seja discutida a importância da segurança do paciente nas PMM e do trabalho interprofissional no intuito de avaliar e detectar possíveis não conformidades na prescrição médica de medicamentos.

REFERÊNCIAS

  • Editora associada: Dra. Luciana Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Nov 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    17 Maio 2023
  • Aceito
    16 Ago 2023
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