Open-access As Missões: Modos Inventivos e Brincantes das Crianças Calungas

The Challenge: Inventive and Playful Ways of Calunga Children

Las Misiones: Formas Inventivas y Lúdicas de los Niños Calungas

Resumo:

Compreendendo a(s) infância(s) como uma construção social em um tempo-espaço e as crianças como sujeitos de direitos que participam ativamente dessa construção, ou seja, produzem cultura, acompanhamos, a partir da base teórica-metodológica etnográfica, o cotidiano de 4 crianças calungas . Buscou-se aprofundar conhecimentos sobre a realidade cotidiana da(s) infância(s) e do bairro que ali se engendram. Essas mesmas crianças permitiram o acesso e o convívio em suas casas, na circulação pelo bairro, no estar em espaços institucionais e privados, em conversas mais sérias sobre namoro, violência, cultura, lazer e direitos humanos. Dentre os resultados, destacaram-se os modos inventivos e brincantes de circular pelo bairro, nomeando essas aventuras brincantes de missões. Por meio delas, as crianças reivindicavam uma cidade menos adultocêntrica , transgredindo e inventando suas próprias regras de uso dos lugares por onde passavam. Aposta-se que pesquisas como essas possam subsidiar profissionais, serviços e políticas que atuem com crianças.

Palavras-chave:
Criança; Etnografia; Áreas de Pobreza; População Urbana

Abstract:

Understanding childhood (s) as a social construction in a time-space and children as subjects of rights who actively participate in this social construction, i.e., produce cultures, we follow, under a ethnographic theoretical-methodological basis, the daily life of four calunga children. We seek to further knowledge about the daily reality of childhood(s) and neighborhood that occur there. These children produce access and conviviality in their homes, the neighborhood, institutional and private spaces, and in more serious conversations about dating, violence, culture, leisure, and human rights. Among the results stood out the inventive and playful modes of movement around the neighborhood, naming these playful adventures as missions. By them, children claimed a less “adult-centered” city, transgressing and inventing their own rules of use and practice where they passed. Research such as this may hopefully support professionals, services, and policies that work with children.

Keywords:
Child; Etnography; Poverty Áreas; Urban Population

Resumen:

A partir de la comprensión de que la(s) infancia(s) es una construcción social en un tiempo-espacio y los niños son sujetos de derechos que participan activamente en esa construcción social, es decir, producen culturas, nos basamos en metodología etnográfica para seguir el cotidiano de cuatro niños calungas. Se buscó profundizar en el conocimiento sobre la realidad cotidiana de la(s) infancia(s) y del barrio que allí se engendran. Estos mismos niños nos permitieron el acceso y la socialización en sus casas, caminar por el barrio, estar en espacios institucionales y privados, en conversaciones más serias sobre noviazgo, violencia, cultura, recreación y derechos humanos. Entre los resultados se destacaron las formas ingeniosas y lúdicas de circular por el barrio, nombrando misiones en estas lúdicas aventuras. Con esto, los niños reivindicaban una ciudad menos adulta, transgrediendo e inventando sus propias normas de uso y prácticas de los lugares por donde pasaban. Se cree que investigaciones como esta pueden apoyar a profesionales, servicios y políticas dirigidas a niños.

Palabras clave:
Niño; Etnografía; Áreas de Pobreza; Población Urbana

Apresentação

Este artigo é parte de uma pesquisa que se inicia a partir da minha atuação profissional como educador social, já com formação em psicologia, ao integrar um projeto social de uma ONG sediada na cidade de São Vicente/SP e conhecida como Camará . Neste projeto , assumi a função de ampliar o repertório cultural das crianças que aqui serão nomeadas de crianças calungas para explicitar suas histórias e suas origens. Kalunga ou calunga, em sentido amplo, é um termo de origem das nações banto africana com múltiplos significados. Na dimensão espiritual desses povos, que não se separa da mundana, pode ser encarado o calunga como uma linha de passagem entre a terra dos mortos ancestrais e a dos vivos. A boneca Kalunga dos cortejos de maracatu sinaliza essa cosmovisão, pois representa uma rainha/entidade morta no momento presente do ritual (Silva, 1998 ). É também como essas nações africanas, que começaram a chegar ao litoral brasileiro pelo comércio escravagista, entendiam e nomeavam a travessia dos navios negreiros: calunga grande era o mar que atravessavam, e calunga pequeno era a terra a que iriam chegar. São Vicente/SP foi o primeiro calunga pequeno para os africanos que vinham trabalhar nos engenhos de açúcar (Moura, 2000 ).

As pessoas que nascem em São Vicente/SP são chamadas popularmente de vicentinas ou calungas . Preferimos o termo calunga para referenciar crianças negras, por trazer a perspectiva histórica do povo negro na constituição da sociedade brasileira, principalmente pelas graves consequências históricas desse período, ainda muito vivas na realidade brasileira atual (Maringoni, 2011 ). Acredita-se que, no século XIX, parte dos negros e negras libertos mais velhos, mitigados pelos anos de trabalho escravo, saíram dos quilombos na atual cidade de Santos/SP e ocuparam terras da atual São Vicente/SP, na época pouco povoada, para buscar uma vida de subsistência agrícola digna e pacata. Vale lembrar que a região da Baixada Santista possuía quilombos expressivos, e alguns dos motivos para isso eram: São Vicente/SP ser uma rota de fuga de escravos que vinham do interior; a região se encontrar próxima à cidade de São Paulo, polo da luta abolicionista; e o trânsito de ideias iluministas pelo porto. Há atas da câmara de São Vicente/SP que comprovam ter sido reconhecida a abolição da escravatura em 31 de outubro de 1886, 2 anos antes da Lei Áurea (Barbosa, 2018 ). Curioso é que, com esse histórico, não tenha sido contabilizada, no último censo realizado, nenhuma pessoa quilombola em São Vicente/SP, e apenas 19 em Santos/SP (IBGE, 2022 ).

Em pouco tempo no lugar de educador percebi que é impossível ampliar repertórios culturais sem me relacionar com as crianças calungas em seus universos culturais já herdados/consolidados. Para esse mergulho, houve a necessidade de distanciamento de um paradigma colonizatório (Prysthon, 2008 ), buscando uma relação de troca entre meus referenciais culturais e os das crianças calungas sem que o primeiro invalidasse o segundo.

Trabalhando no Camará, convivi com as crianças nas atividades do projeto, porém com a sensação de conhecê-las muito pouco para poder exercer bem a função de educador. Algo parecido acontecia nas escolas em que desenvolvíamos ações conjuntas: um hiato na relação entre as crianças e os educadores. Essa situação enfraquecia a experiência educativa, pois muitas vezes havia falhas de comunicação que dificultavam uma boa compreensão do que é ser criança ali.

Desse modo, nasceu a proposta de uma pesquisa em que se pudesse acompanhar o cotidiano das crianças para além dos espaços institucionais. Elas seriam as guias, e assim adentrei em seus espaços lúdicos, que tomam a cidade como território de acontecimento: as missões. Anterior à apresentação desse fazer infantil, seguem alguns pressupostos teóricos e contextuais que nos localizam na temática em questão.

Considerações teórico-metodológicas

Uma lógica amparada pelas instituições científicas e jurídicas que historicamente se instaurou como hegemônica e continua prevalente é a de que a infância é um momento da vida que deve ser conduzido por um adulto até “a luz” da racionalidade, instruindo e protegendo a criança, punindo-a e/ou reeducando-a para assim alcançar a maturidade e poder participar da sociedade numa perspectiva cidadã (Castro, 2004 ). Quando se trata de infâncias marginalizadas, esse olhar pode ser mais ostensivo (Rizzini & Pilotti, 2009 ).

Apesar das dificuldades históricas em reinventar o modo de olhar para a infância em nossa sociedade (Castro, 2004 ; Rizzini & Pilotti 2009 ), há avanços que abrem possibilidades de novos entendimentos nas relações adulto-criança no contemporâneo, tanto em relação à ampliação da rede protetiva e à garantia de direitos (Lei nº 8.069, 1990 ; Organização das Nações Unidas [ONU], 1989 ), quanto à maior abertura para escutar o que as crianças expressam em seus modos singulares de participar da vida das cidades. Há mudanças em curso que ainda não sabemos ao certo onde vão dar (Castro, 2013 ).

Aqui buscamos nos filiar às produções científicas que fortalecem redefinições conceituais sobre a infância e o modo como escutamos as crianças e nos relacionamos com elas. Para tanto, buscamos consonância com os referenciais ético-políticos da psicologia social contemporânea brasileira que reconhecem na infância modos singulares de existência que interdependem de diversos fatores presentes em um território para serem engendrados. Ou seja, não há uma só infância, mas várias, de acordo com contextos sociais, temporalidades e espaços, e ninguém melhor do que elas, as crianças, para falar sobre suas experiências.

Segundo esses novos olhares relacionais com as infâncias, elas são agentes, produzem cultura e são sujeitos políticos, terreno partilhado aqui com diferentes autores: Arroyo ( 2012 ), Castro ( 2004 , 2013 ), Cohn ( 2005 ), Fernandes ( 2004 ), Munarim & Girardello ( 2012 ), Pastore ( 2015 ), Sarmento ( 2003 ), Sarmento & Pinto ( 1997 ), Silva ( 2009 , 2018 ), Souza ( 2015 ).

Em relação à metodologia desse trabalho, nos apoiamos em referenciais de pesquisas de campo etnográficas, já que pretendíamos aprofundar o convívio com as crianças em seus cotidianos. A etnografia busca:

. . . estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Mas não são só essas coisas, as técnicas e os procedimentos determinados, que definem o empreendimento. O que o define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado a partir de uma “descrição densa” tomando emprestada uma noção de Gilbert Ryle

(Geertz, 1989 , p.15).

Os instrumentais operativos dessa etnografia foram a observação participante do cotidiano de quatro crianças, dois meninos e duas meninas na faixa etária entre 9 e 12 anos que moravam na Vila Margarida, periferia da cidade de São Vicente. Ademais, utilizamos os diários de campo para o registro dessa imersão. Na escrita do relatório final, organizamos o material etnográfico em categorias em que as falas e expressões das crianças apareciam mais. No processo de escrita, emergiram memórias do campo não registradas nos diários, novas articulações da experiência etnográfica com teorias, e, portanto, a necessidade de aprofundamento teórico. É o que (Strathern, 2014 ) nomeia como segunda etnografia , quando se busca organizar os registros, memórias, experiências, análises interculturais e articulações teóricas.

Durante todo o processo houve momentos de devolutiva com as crianças 1 e outros informantes chave do campo da pesquisa. Além dos instrumentos metodológicos da etnografia, há elementos que precisamos destacar para a realização da etnografia.

Para a pesquisa etnográfica, o pesquisador não é neutro no processo de pesquisa, é impossível se desarmar de quem se é, e temos muitas representações apriorísticas sobre o campo de pesquisa; entretanto, buscamos ser cuidadosos para que essas representações sociais produzidas fora do território não reduzam ou cristalizem as experiências vividas com os nativos (Caria, 2002 ). Buscamos, sim, que esses universos existenciais e simbólicos do pesquisador e do território vivo em que se adentra sejam postos em diálogo e analisados, inclusive com as tensões e angústias intrínsecas do que os une e os separa, sejam estas conscientes ou não.

Ou seja, no processo de andar, escrever e ver da pesquisa etnográfica (Silva, 2009 ), a reflexão e interpretação das teias de sentido produzidas e sentidas corpo-a-corpo a partir das alteridades é o modo possível para conhecer a cultura de um grupo social segundo a antropologia contemporânea (Laplantine, 2009) e chegar o mais próximo de uma descrição densa (Geertz, 1989 ).

Nesse jeito de fazer pesquisa, todos os objetos sociais, humanos e não humanos, estão em relação num tempo e num espaço : “Assim sendo, a etnografia só pode entender os seres humanos e suas ideias, sejam eles pequenos ou grandes, crianças, jovens ou anciãos, ricos ou pobres em deslocamentos constantes” (Silva, 2018 , p.3) .

Os(as) participantes da pesquisa e seu contexto

Os sujeitos da pesquisa, ou melhor, os co-pesquisadores , as crianças que participaram mais ativamente da pesquisa, eram ligados ao Instituto Camará pela facilidade da vinculação com eles e com seus familiares. O processo de seleção se deu em dois espaços do cotidiano institucional do Camará: as assembleias 2 e algumas ações educativas que aconteciam no bairro. Nas assembleias comecei a apresentar a proposta da pesquisa, porém esse se mostrou um espaço pouco poroso devido à grande demanda de pautas e decisões a serem tomadas sobre o cotidiano da organização. Restava pouco tempo para o diálogo com as crianças.

Assim, comecei a me articular com uma educadora, residente do bairro Vila Margarida, que se mostrou grande facilitadora da pesquisa durante seu curso. Uma vez por semana, ela realizava atividades educativas que consistiam em leituras de livros e circulações brincantes pelo bairro. Em algumas dessas atividades, com combinado prévio, conversamos com calma sobre do que se tratava a pesquisa. Ao todo, foram 5 crianças que desejaram participar, porém, com uma delas, não foi possível estabelecer contato e sustentar um plano de encontros e convivências.

A pesquisa se iniciou ainda muito ligada ao cotidiano da ONG e, aos poucos, foram se criando outros caminhos. O lugar de educador da ONG, que era como me reconhecia e era reconhecido na relação com as crianças, aos poucos foi tensionado para a criação de novos modos relacionais, novas alteridades nas situações e olhares etnográficos (Silva, 2009 ). Aos poucos se construíram cada vez mais brechas para instalar um lugar relacional entre pesquisador e co-pesquisadores – as crianças, educadora informante etc. –, o que gerava uma estranheza para nós e para a comunidade, porém, sem esse movimento, muitas vezes forçado para ambos os lados, a proposta da pesquisa não teria acontecido.

A Vila Margarida é o bairro de São Vicente/SP em que as crianças moravam, e onde foi realizada a etnografia, localizada numa região periférica da cidade, no extremo oeste da parte insular. Sofre com um processo de aglomeração urbana desordenado e caótico, produzindo espaços que submeteram e submetem a população a situações de risco ambiental e social. Sua localização faz do bairro uma periferia próxima ao centro da cidade.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010 ), o bairro possui 28.618 moradores, sendo que aproximadamente 35% são crianças e adolescentes com idade entre 0 e 14 anos. É o terceiro bairro da cidade com menor renda de seus habitantes (IBGE, 2010 ). Seu crescimento populacional nos últimos dez anos alcançou 297,3% (IBGE, 2000 ). Nesse bairro há uma região chamada México 70, nome que é alusão à vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970, fato brasileiro conhecido por ofuscar as desigualdades econômicas, políticas e raciais na época.

A região é caracterizada por um núcleo habitacional subnormal de palafitas em que, segundo o último censo, vivem 19.000 pessoas. Esse núcleo é uma das favelas com maior precariedade e violação de direitos da Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS).

Apesar do processo de urbanização, observa-se um hibridismo com uma dimensão rural, algo parecido com o vivenciado por Silva ( 2018 ) em sua etnografia sobre a Catingueira, cidade do sertão paraibano. Caminhando pelo bairro e conversando com moradores, observa-se que muitas famílias criam animais, principalmente galos e galinhas, para o próprio sustento. Algumas casas possuem hortas e árvores frutíferas. A proximidade com o Mar Pequeno (conhecida como maré 3 ) propicia a prática de pesca de peixes e frutos do mar para venda ou consumo. Nas áreas de mangue há extração de caranguejos também para venda ou consumo. Nas regiões tardiamente ocupadas ainda não há asfalto (região próxima à rodovia imigrantes) e consegue-se ver alguns saguis, árvores frutíferas e pássaros. Fauna e flora típicas da Mata Atlântica.

No bairro, percebem-se desigualdades sociais de acordo com a região que se está, ou seja, há periferias dentro da própria periferia. Na região mais próxima do centro, as casas são de alvenaria e têm mais espaço, as ruas são asfaltadas e os moradores não identificam aquele espaço como favela. À medida que se aproxima da maré, adentrando a região do México 70, as casas ficam mais precárias, com terrenos divididos entre moradias de diferentes famílias (vilas); algumas casas são de alvenaria, mas já se encontram muitos barracos de madeira, até que se chega nas palafitas. As ruas não são asfaltadas e não têm nome, sendo identificadas com números. O saneamento básico, já precário, se torna inexistente. Quando as chuvas se intensificam, o que é comum na região, há sérios episódios de alagamento.

Há um canal que vai de um polo a outro do bairro e serve para escoar o esgoto. Esse canal faz a demarcação geográfica entre a Vila Margarida e a favela, ou “quebrada”, como as crianças chamavam o México 70.

O limitado acesso a atividades diversas de cultura, esporte, saúde e lazer, e a exposição a diversos fatores de risco, como a violação do direito à moradia e segurança alimentar, bem como a violência urbana e a presença do tráfico de drogas, principalmente enquanto esfera de cooptação infanto-juvenil, são características do bairro que afetam a população, especialmente as crianças. Falas queixosas sobre essas questões estão presentes neste trabalho.

Apesar da presença da violência, a rua é um espaço ocupado no bairro. Muitos colocam suas cadeiras nas calçadas, crianças brincam, adultos festejam. Para muitas crianças, a ocupação do espaço público é necessária, pois vivem em situação de grande vulnerabilidade nas palafitas do México 70, sendo a rua uma fuga das condições insalubres de suas casas, que têm muita umidade, pouca luz e pouco espaço.

Apresentado brevemente o local onde as crianças moravam, vamos às missões!

As missões: modos inventivos e brincantes das infâncias calungas

A infância que determina as práticas do espaço desenvolve a seguir os seus efeitos, prolifera, inunda os espaços privados e públicos, desfaz as suas superfícies legíveis e cria na cidade planejada uma cidade “metafórica” ou em deslocamento, tal como sonhava Kandinsky: uma enorme cidade construída segundo todas as regras da arquitetura e de repente sacudida por uma força que desafia os cálculos

(Certeau, 1998 , p.191).

Ao caminhar pelo bairro com as crianças, percebi um modo singular delas se reunirem, circularem pelo bairro e brincarem: as missões . Os meninos Zamba e Zaki 4 me apresentaram às missões, me convidando a brincar e me aventurar pelo bairro com eles. As meninas Ayo e Bina brincavam muito mais nos finais de semana, momento em que os pais não estavam trabalhando e ocupavam as ruas, os bares, cadeiras em frente de casa etc. e, assim, consideravam ser mais seguro para as crianças estarem na rua, sob seus olhares vigilantes. Além de um componente moral, que dividia entre o “bom” e o “mau” favelado, entre bandidos/vagabundos e trabalhadores, um olhar da classe dominante sobre a favela que a comunidade reproduzia (Silva, 2007 ), os relatos eram de que o bairro não era mais povoado apenas pelos “conhecidos” (proprietários naturais). Há um fluxo muito grande de “estranhos”, criando um clima de insegurança. Isso pode ser em parte explicado a partir do avanço da urbanização e de correntes migratórias, uma realidade na Baixada Santista, devido às promessas de trabalho no porto, construção civil e indústrias de algumas cidades, em especial Cubatão (Viana, 2010 ). Além disso, segundo a informante da pesquisa, havia a presença de complexa disputa pelo poder do tráfico de drogas local, com troca constante de lideranças, situação parecida com a constatada na pesquisa realizada nas ruas de Catumbi, bairro do Rio de Janeiro (Vogel & Mello, 2017 ) 5 .

Além da questão da segurança, percebeu-se que, mesmo antes, no bairro de “conhecidos”, ser menina e mulher era mais perigoso. Há uma diferença substancial na liberdade de brincar pelo bairro entre os meninos e as meninas da pesquisa, pois as meninas corriam muito mais riscos nas ruas, de acordo com suas mães e avós. Elas já tinham sido meninas antes e sabiam disso. Assim, buscavam protegê-las. Essa diferença de cuidados com meninos e meninas é parecida com dados dos estudos de Fernandes ( 2004 ) com as trocinhas , como se autointitulavam os grupos infantis na década de 40 em São Paulo. Nesse estudo, os grupos de meninas e meninos não se misturavam no final da segunda infância. Os meninos se reuniam em diferentes locais dos bairros, já as meninas se encontravam quase sempre nos quintais de casa ou nas calçadas em frente a suas casas. Ou seja, lugares mais protegidos. Havia também a preocupação de um homem adulto circular sozinho com meninas pelo bairro. Na etnografia realizada por (Silva, 2018 ) em Catingueira/PB também há a percepção da diferença da liberdade em circular pelo bairro entre meninos e meninas, além da dificuldade de se aproximar das meninas durante sua etnografia, principalmente pelo fato de a pesquisadora ter privilegiado o espaço das ruas, e não espaços domésticos ou mais protegidos.

Aqui estamos falando em como a comunidade e as crianças, hegemonicamente, reproduziam ideias, valores e comportamentos da lógica machista e heteronormativa alicerçada no mundo do crime, independente do envolvimento direto com esse, no universo do funk ostentação (Vedovato Martins, 2016 ) e nos heróis da TV e do cinema (Munarim & Girardello, 2012 ). Assim, os meninos Zamba e Zaki exibiam a necessidade de defender seus postos de destemidos, sem sentimentos, “pegadores” e heróis. Entretanto, no seu brincar, percebiam-se grandes conflitos nesse processo de se tornar homem. Muitos, no ato fruitivo do brincar e do convívio, deixavam transparecer sentimentos e buscavam o aconchego terno entre os corpos, e não somente os socos, xingamentos ou chacotas. Então, eles eram heróis nas missões, competiam entre si e queriam mostrar potência diante dos pares. Ao mesmo tempo, principalmente nas dificuldades, cuidavam uns dos outros e trabalhavam em equipe.

As meninas pareciam passar por esses mesmos balizadores do crime, do funk e das mídias. Se criava a identidade da “novinha”, aquela com os mais desejados atributos físicos e habilidades da dança. Porém, como participavam de um grupo de dança do ventre e de formação política com educadoras da ONG Camará que haviam crescido no bairro, apresentavam um discurso mais consciente das violações que o machismo produzia em suas vidas, começando a se reconhecerem como meninas além desses estereótipos. Algo que somente as meninas apresentaram foram as aventuras noturnas por pontos do bairro para paquerarem. Mercadinhos, lanchonetes, certas ruas, eram alguns dos pontos eleitos para tal ação. Um tipo de circulação pelo bairro que as crianças não dão o nome de missões , mas que têm em comum uma forma singular de ocupação do bairro. Portanto, os namoricos, beijos e carícias escondidas eram uma realidade para as crianças, principalmente para as meninas, que se mantinha numa descoberta brincante com os próprios corpos, de modo mais inocente. Desse modo se revelava um outro registro sobre a sexualidade infantil, distante dos regimes de poder do mundo adulto sobre a criança. Eram práticas dissidentes, feitas às escondidas (Ferreira, 2016 ), transgressoras da lógica de circulação e ocupação do espaço, que vamos detalhar mais abaixo.

Segundo a informante, esse universo da paquera já na infância era uma realidade no bairro que mães e avós conheciam. Entretanto, cada vez mais, os namoricos e flertes das crianças e adolescentes não ficavam entre pares, e começava-se a apresentar grandes diferenças de idades nesses “rolos”, principalmente de homens em relação a meninas.

Nos trechos abaixo são ilustrados alguns elementos desse modo de brincar intitulado por elas de missões

Zamba pergunta o que eu queria fazer e digo para andarmos pelo bairro para conhecer os principais lugares que ele brincava, ficava etc. Ele me leva até o muro do postinho. Lá escalamos o muro, que não era muito alto, e ficamos conversando. Enquanto conversávamos ele andava se equilibrando no muro e se pendurava em um tronco que ficava encostado na quina do muro. Dizia que gostava muito de vir com seus amigos ali e começar algumas missões – o que descubro por ele que são aventuras em que grupo de crianças combinavam para brincar pelo bairro. Uma de suas missões preferidas era começar a escalada nesse muro e ir em direção a outros muros, finalizando no muro da ETEC (Escola Técnica do Bairro). Nesse caminho eles pegavam algumas frutas de árvores localizadas em terrenos pelo caminho e enfrentavam cães de guarda das casas e estabelecimentos. O objetivo da missão era sempre encontrar maiores desafios pela frente. Quando pergunto se o pessoal dono dos terrenos e das casas ali localizadas ficavam bravos, ele diz que não: Nem os cachorros nunca fizeram nada, apesar de ser arriscado. Só uma mulher síndica de um predinho não gosta da gente, ela fica brava. Escapá de suas broncas é o maior desafio dessa missão. Pergunto se ele e seus amigos faziam mais missões: Sim. Nos reunimos com os amigos e vamos tendo ideias. Nunca sabemos direito onde vamo ir. Penso que o bairro todo era um grande território do brincar. Com seus olhares imaginativos, um muro, por exemplo, virava uma grande brincadeira

(Trecho do diário de campo, 2018).

Em relação às meninas, pergunto quais missões ela (Ayo) costuma fazer ali naquela região do bairro: Costumamo inventá as missão. Ultimamente tem sido brincá naquela casa abandonada ali. as vezes até em carro abandonado. As vezes vamos desbravando o bairro todo, mas aí minha mãe não gosta muito. Penso que os lugares sem vida ou que a priori não seriam atrativos viram grandes brincadeiras. Tudo pode ganhar a cor de uma brincadeira e aventura. Mesmo assim, andar por todo o bairro ainda parece algo perigoso para sua família

(Trecho do Diário de Campo, 2018).

As missões das crianças no bairro conferem uma citadinidade – relação dos citadinos entre si e com a cidade ou lugar espacial – muito singular. Essas relações podem mudar em cada implicação situacional 6 (Agier, 2011 ). Aqui vamos olhar para a tessitura de sentido das crianças com a rua e o brincar.

Para Agier ( 2011 ) há uma alternância entre o conhecido – cidade familiar vivida pelo citadino – e o desconhecido – cidade vivida pelo outro. A tensão entre essas polaridades é que determinam nossa maneira de viver a cidade e, principalmente, de imaginá-la.

No convívio de trabalho e pesquisa com as crianças, percebi outro modo de vivenciar o tempo e o espaço (Arroyo, 2012 ; Castro, 2013 ), que havia outros modos de racionalidade e expressão que não se enquadravam na racionalidade científica moderna positivista da “ordem e progresso”, mas muito mais em uma tradição poética, dançante, subversiva e profana, em que o mundo é vivenciado de forma mais espontânea, curiosa e brincante, em comparação com os adultos. As crianças estavam prontas para um constante fazer-se a si em alteridade com o mundo, resistindo a submeter-se a ele (Bondía, 2002 ).

Para se conseguir captar algo dos movimentos criativos da infância, há de se conviver com elas, permitindo-se ser um “adulto muito mais brincante” em alguns momentos (Pastore, 2015 ), um (re)tornar-se criança (Fernandes, 2004 ), colocando brincadeira, criatividade e imaginação como bússolas do viver. Esse elemento foi muito destacado pela etnografia feita por Souza ( 2015 ) com as crianças camponesas Capuxu, algumas muito pequenas, no sertão da Paraíba, para encontrar alguns elementos de formação de sujeito/pessoa naquele tempo, espaço e grupo social.

Dito de outro modo, não nos referimos à infância enquanto momento de vida que se converte completamente na “adultidade”, numa sequência linear dos ciclos de vida humanos. Claro que há mudanças, transformações, deslocamentos, mas a infância continua a nos povoar. A infância permanece em nós adultos como resíduo, recurso, ou até mesmo algema, de modo que o tempo passado vive em nós no momento presente e provoca uma abertura para uma virtualidade futura no passo-a-passo de nossa existência com a tessitura do tempo. Com isso, ao mesmo tempo vivemos a infância e estamos fora dela, vivemos a adolescência e estamos fora dela, sonhamos uma velhice e estamos fora dela, entendendo os modos de subjetivação ou estados de existência produzidos por registros temporais diversos, coexistentes, que se dão ao mesmo tempo, “. . . de modo que outras coerências a respeito das contradições da existência possam ser achadas” (Castro, 2013 , p. 34).

Nas missões de que participei com as crianças, percebi um modo próprio de ser criança e entrar em contato com o bairro e a cidade. A brincadeira de circular pelo bairro pode ser comparada a um registro narrativo, pois comunica algo, e os registros narrativos como “sintaxes espaciais”, pois “. . . funcionam como transportes, denotam circulações pelo território. Também funcionam como visibilidades de um dado lugar, classe social, gênero, faixa etária” (Certeau, 1998 , pp. 199-200). Assim:

O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua ou para os enunciados proferidos. Vendo as coisas no nível mais elementar, ele tem com efeito uma tríplice função ‘enunciativa’: é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre ( como o locutor se apropria e assume a língua); é uma realização espacial do lugar (assim como o ato de palavra é uma realização sonora da língua); enfim, implica relações entre posições diferenciadas, ou seja, ‘contratos’ pragmáticos sob a forma de movimentos (assim como a enunciação verbal é ‘alocução’, ‘coloca o outro em face’ do locutor e põe em jogo contratos entre colocutores). O ato de caminhar parece, portanto, encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação

(Certeau, 1998 , p. 177).

Sarmento ( 2003 ) também fala sobre uma gramática das culturas infantis que muito dialoga com essas ideias. Nessas narratividades e andanças brincantes infantis, nos situávamos mais próximos do conceito de percursos do que dos mapas (Certeau, 1998 ). Os percursos são atos narrativos de ir sem saber o que vai se achar, mais vinculados ao fazer, aos itinerários.

Sendo mais importantes do que o local a que se vai chegar, os percursos vêm antes dos mapas (Certeau, 1998 ), o que reforça a potência imaginativa da infância mesmo em ambientes que, a priori, parecem mostrar uma realidade muito dura, como pode ser o bairro Vila Margarida, em alguns momentos. A infância resiste em ser completamente roubada dela mesma.

As missões possuem esse caráter: não se sabe como começam e nem como terminam, o importante é fazer, praticar o bairro , num exercício imaginativo de encontrar desafios e criar modos, entre pares, de superá-los conjuntamente.

As árvores frutíferas ganham uma importância nessas missões, pois matam a fome e dão uma recompensa pelos riscos que se corre em cada empreitada. Nas caminhadas pelo bairro, era impressionante como as crianças sabiam os locais onde havia árvores frutíferas, fosse na rua, em estabelecimentos ou em casas. Muitas missões passavam por esses locais ou acabavam neles, e elas preferiam encontrar modos aventureiros de resgatá-las, muito mais do que pedir para os adultos. Isso aprendi numa caminhada, quando demonstraram interesse por mamões e eu prontamente disse para pedirmos na casa. Elas entenderam a ideia, mas acharam péssima, pois acabaria com a aventura.

Numa relação de poder entre os relatos de espaço que ganham status de verdade, ou seja, mapas que demarcam (Certeau, 1998 ), há a expectativa de as crianças ocuparem o bairro de modo ordenado: caminhando educadas, se deslocando para escolas ou estabelecimentos, brincando em locais seguros e com calma. Tanto que em muitos momentos houve conflitos dos educadores com o modo brincante com que as crianças circulavam pelas ruas, buscando justificar um disciplinamento pela égide da segurança. Na função que exercíamos, éramos responsáveis pela segurança das crianças, mas hoje reconheço exageros da parte dos educadores na forma de operar a disciplina.

Esses modos mais brincantes de circular pelos espaços – como Charlie Chaplin 7 fazia com seus objetos – podem ser reconhecidos como atos transgressores, pois tensionam as lógicas esperadas de circulação pela cidade. Isto é, o caminhante atualiza os ordenamentos que permitem e proíbem os locais em que se pode circular, muitas vezes inventando e improvisando outros modos de circulação, e possibilitando o abandono ou a aceitação dos elementos espaciais que encontra. Chaplin fazia isso com os objetos cênicos, multiplicando as possibilidades de uso de um mesmo objeto a partir da atuação e brincadeira (Certeau, 1998 ).

Essas transgressões serviam como tentativa de instalar o espírito das missões em cada deslocamento. Nessas aventuras, um conceito de Certeau ( 1998 ) que nos ajuda é o de delinquência. Para o autor, “se o delinquente só existe deslocando-se, se tem por especificidade de viver não a margem, mas nos interstícios dos códigos que desmancha e desloca, se ele se caracteriza pelo privilégio do discurso sobre o estado, o relato é delinquente” (p. 216).

Em outras palavras, a narrativa pode ganhar característica delinquente, pois cria e recria discursos em sua fruição, ou caminhar .

As crianças, com seu grande conhecimento das árvores frutíferas, de quais são as ruas que alagam, de onde há cachorros bravos, onde há muros que que podem subir etc., criam ordenamentos do espaço ancorados no que faz sentido para suas ações brincantes. As crianças, com seus jeitos singulares de falar e ler o mundo, subvertem os espaços, criam uma “cidade imaginária” que faça sentido para seus reais anseios.

Outros dois conceitos de Certeau ( 1998 ) que nos interessam nesse momento são os de tática e estratégia.

Esses conceitos estão se relacionando a todo momento na vida de um citadino, nas suas maneiras de fazer e viver a cidade. A estratégia dialoga mais com um próprio totalizante, mais visível, externo às próprias relações que o constituem. Como um mapa moderno, uma representação teatral, uma via para os carros passarem com suas placas, regras etc. A tática se encontra num espaço marginal, errante, que não tem um próprio, e se parece com uma usina de produção, um percurso sem fronteiras, vias pontilhadas – percursos – que se fazem e refazem no mapa .

Continuando a temática das missões e suas relações com as árvores frutíferas, interessante notar o fato de cada uma das crianças conhecer os trajetos que faziam situando-os sempre em relação ao “pé” de alguma fruta. Na Vila Margarida há muitos deles nas ruas e nas casas. As crianças conhecem todos e planejam suas aventuras brincantes, como pular muro, escalar, pegar frutas etc., levando em consideração encontrar essas árvores. Não que fosse uma regra rígida, mas muitas vezes essas árvores eram citadas. Nas andanças, passávamos por pés de acerola, carambola e mamão, e sempre as crianças sinalizavam quando estávamos chegando perto. Tentava entender a magia das árvores frutíferas, e reflito que realmente é mágico que a comida nasça de uma árvore, principalmente numa região em que a fome é uma realidade recorrente na vida das crianças. Meu olhar adulto de classe média urbana talvez não percebesse mais a mágica de uma planta poder fornecer alimento. Além do imaginário brincante, não se pode esquecer que aquele território é atravessado de modo central pela questão da fome e da escassez de recursos, algo que Quarto de Despejo de Maria Carolina de Jesus ( 1960 ) expõe. A sábia atenção em relação as árvores frutíferas do bairro provavelmente passam por aí também.

As missões têm relação com o conceito de tática , uma vez que se percebe nas crianças uma fruição inventiva própria do brincar – jogo simbólico. Em suas missões , reinventam e transgridem as linhas, limites e fronteiras do bairro, criam caminhos e rotas e delinquem o espaço. As árvores frutíferas, que são chamarizes, localizam as crianças e suas rotas brincantes. O bairro se torna outro lugar, mais possível de viver, e nesse desbravar errante se cria outro bairro, mais distante da violência do tráfico, da violência contra as mulheres e crianças, da prostituição, do lixo e das enchentes, da fome. Ali, por alguns momentos cria-se um local mágico pelo poder das árvores que alimentam. No caminhar brincante, o cotidiano se reinventa e tenta reaver sua falta, sua dureza, na resistência do jogo simbólico infantil, como bem apontam estudos sobre crianças em situação de guerra e violência (Sarmento, 2003 ). São as cidades imaginárias (Agier, 2011 ), cidades metafóricas e lugares sonhados (Certeau, 1998 ):

Caminhar é ter falta do lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio. A errância, multiplicada e reunida pela cidade, faz dela uma imensa experiência social da privação do lugar – uma experiência, é verdade, esfarelada em deportações inumeráveis e ínfimas (deslocamentos e caminhadas), compensada pelas relações e os cruzamentos desses êxodos que se entrelaçam, criando um tecido urbano, e posta sob o signo do que deveria ser, enfim, o lugar, mas é apenas um nome, a Cidade. A identidade fornecida por esse lugar é tanto simbólica (nomeada) quanto, malgrado a desigualdade dos títulos e das rendas entre habitantes da cidade, existe somente um pulular de passantes, uma rede de estadas tomadas de empréstimo por uma circulação, uma agitação através das aparências do próprio, um universo de locações frequentadas por um não lugar ou por lugares sonhados

(Certeau, 1998 , p. 183).

Nessa relação do lugar e não lugar, dos lugares sonhados, muitas ações cotidianas (falar, deslocar, fazer compras, preparar refeições, brincar, trabalhar, se exercitar, namorar etc.) podem encontrar maneiras de vencer a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos, como sutis vitórias contra os poderosos, as doenças, as violências, as desigualdades, uma “arte de dar golpes, astúcias de ‘caçadores’, mobilidade de mãos de obra, simulações polimorfas, achados que provocam euforia, tanto poéticos quanto bélicos” (Certeau, 1998 , p. 47).

Outro fator fundamental para continuar nossa análise é o recorte racial. Todas as crianças acompanhadas eram negras e periféricas. Assim, há forte ligação da história dessas crianças com a história da população negra brasileira. E a história da população negra, aqui, é atravessada violentamente pelo regime escravista e o racismo estrutural (Almeida, 2019 ; Campos, Carneiro, & Vilhena, 2006 ).

Após a abolição da escravidão, as favelas foram o destino de muitos negros e negras brasileiros, pois, apesar da ampla diversidade cultural, seu surgimento tem íntima ligação com o modo com que foi realizada essa abolição: um povo liberto sem direito à terra e ao trabalho, com seus ritos e costumes excluídos e criminalizados e com uma narrativa histórica que não condiz com a realidade de muita luta, resistência e reflexão quilombola no avanço das conquistas de direitos para essa população (Gonçalves, 2021 ). Com isso, entende-se que a herança de violência contra o povo negro só ganhou novas modalidades de dominação, às vezes até mais perversas, pois travestindo-se de uma falsa ideia de liberdade e reparação.

Na circulação pelo bairro, de moradores hegemonicamente negros, a questão racial de modo geral não apareceu como dificultador, diferente do que ocorre em saídas em espaços públicos de lazer e cultura com crianças em outros lugares da cidade. Os olhares de medo e o distanciamento do grupo era o que mais denunciava o racismo e o preconceito com os “favelados”. Reiterando Feltran ( 2012 , p. 571): “Qualquer jovem negro usando touca e roupas largas produz medo entre os pedestres de classe média.”

Convivendo com as crianças, a questão do racismo aparecia. Percebiam-se distinções a partir das tonalidades da cor de pele. Os mais retintos eram alvo de racismo mais explícito; almejava-se um padrão de beleza de pele branca, loiro. Não havia a consciência de que todas eram negras. Nas meninas, pela formação política no grupo de dança do ventre, isso começou a mudar, elas esbanjavam seus cabelos crespos, eram apresentadas a outros padrões de corpo. Para os meninos, menos, e o preconceito e as chacotas eram frequentes para os mais retintos, e as meninas com traços mais brancos eram consideradas mais bonitas. Mesmo com essas agressões, esses entraves se enfraqueciam nas missões. Não havia exclusão. De maneira espontânea, as crianças faziam parte do grupo e criavam suas aventuras, o que demonstra que, mesmo com a pouca consciência de suas negritudes, reproduzindo valores e padrões das classes dominantes e suas mídias a partir da branquitude (Silva, 2007 ; Feltran, 2012 ; Bento, 2022 ), no brincar esses entraves se suspendiam, ao menos temporariamente, para fruir as missões. Ayo era uma menina negra retinta, de cabelos crespos, e sua amiga era loira de olhos claros. Em muitas cenas, brincavam e elogiavam mutuamente suas belezas, revelando a importância da espontaneidade das missões. Elas iam no passo a passo da brincadeira, compondo seu grupo, seus destinos, desafios.

Assim, percebemos que nas missões acontecia uma experiência que vai ao encontro dos outros sentidos do termo kalunga ou calunga, que, nas palavras de Tiganá Santana a partir das cosmologias Bakongo, é um processo, e princípio de mudança e vitalidade, um símbolo que agrega os mistérios da morte e inexoravelmente a vida, e “também significa presença. É justamente este princípio transformativo da própria experiência de se viver, vida que vem a partir da vida e que, de algum modo, sempre introduz presenças” (Santana, 2022 , pág. 42).

Outro fator já brevemente explicitado acima nas vivências brincantes das crianças pelo bairro está relacionado aos componentes da mídia e da sociedade de consumo globalizada encontradas, de modo mais feroz, em áreas urbanizadas. Todas as crianças, com maior ou menor acesso, assistiam TV, entravam na internet, e brincavam e se entretinham com esses dispositivos. Esses componentes interferem em padronizando o imaginário dos infantes, de modo que as brincadeiras e brinquedos sejam cada vez mais parecidos em diferentes partes do mundo, feitos com o mesmo material, com roteiros relacionados a empresas de fast-food, programas de TV, jogos da internet e videogames, segundo Munarim e Girardello ( 2012 ).

Esses autores trazem a especificidade desse processo no mundo das crianças contemporâneas e dizem que os modos como se organizam a mídia e as sociedades atuais contribuem para uma homogeneização dos pequenos. As cidades, inclusive na distribuição e divisão dos espaços, conformam modos de brincar das crianças. Áreas com processos de urbanização intensivos dispõem espaços confinados para elas, e esse confinamento dificulta o contato entre diferenças, seja de raça e classe social, preservando pouca liberdade de circulação e ampliação de recursos para a invenção de brincadeiras entre pares.

No caso de Vila Margarida, a convivência com as crianças e as andanças pelo bairro permitiram perceber que se trata de uma área urbanizada com elementos da vida rural caiçara. As paisagens em alguns lugares se mostravam entre o urbano e o rural. Principalmente nas regiões mais próximas da maré, com muitas famílias buscando auxílio para a subsistência na pesca, na criação de animais e em hortas, e residindo em barracos e palafitas, sem saneamento básico e em ruas de terra.

O bairro menos urbanizado permitia modos de brincar em que as crianças conseguiam se reunir de modo mais livre do olhar dos adultos e do confinamento por muros e/ou telas. Com isso, brincadeiras relacionadas à cultura popular e folclórica, patrimônio cultural vivido e modificado no tempo pelas crianças, sendo aprendidos e repassados entre seus pares 8 , eram muito vivas no bairro, coexistindo com os outros modos brincar e se entreter citados acima: meios digitais e de mídia, videogames, esportes, cinema, danças funk, por exemplo.

Neste trabalho, vislumbramos como se organizam as missões. Para Zamba e Zaki, havia uma liberdade enorme para serem e fazerem quase tudo o que quisessem. Muitas vezes, essas aventuras andantes eram permeadas por histórias de heróis que precisavam vencer os desafios que o bairro apresentava, um enredo bem conhecido da indústria cultural, mas esse era um pano de fundo que não ganhava tanta importância no processo de brincar das missões, pois não se sabia de antemão onde começariam as missões, quem participaria, quais seriam os desafios e provas para cada membro, que, inclusive, desafiavam as lógicas de interdição dos adultos no bairro, nem, por fim, quando acabariam.

Com isso, para as crianças, o exercício brincante das missões parece ser uma tática de (re)invenção e (re)apropriação da cidade, de resistência frente às durezas demasiado concretas de seus cotidianos, de alternativas frente a receitas homogeneizantes de seu brincar por parte da mídia e do consumo, do mundo regido pelos adultos. Um exercício dialético, pela brincadeira, em que se é produto e, ao mesmo tempo, produtor de cultura:

Nesse sentido, é importante ressaltar o entendimento da brincadeira como apropriação por parte das crianças de valores e características da realidade em que se encontram. E são imagens, inclusive as representadas pelos brinquedos, que possibilitam que essa cultura seja manipulada, questionada e renovada. A criança pode criar e recriar seus brinquedos, adaptando-os de acordo com sua imaginação, negando a proposta, como já dito, muitas vezes incompreensível da brincadeira dos adultos. E os elementos disponíveis para que essa experiência aconteça, os espaços e o material a ser compartilhado são de importância fundamental no acesso a certos aspectos da cultura pelas crianças

(Munarim & Girardello, 2012 , p. 341).

Conclusões

Nas aventuras brincantes pelo bairro, as quais as crianças chamavam de missões, nos pareceu se desenvolver um modo de agir com a cidade, mais do que de falar sobre ela, reivindicando um lugar menos “adultocentrado”, transgredindo e inventando regras próprias de uso e prática dos espaços no passo-a-passo da invenção da missão de cada dia, com aquele grupo. Ficou claro que sua organização coletiva e imaginação, que não eram neutras a estereótipos e signos midiáticos nem às condições de vida que levavam ao convívio com cenas de violação de suas dignidades, produziam momentos de novos contornos e funcionalidades aos espaços, abrindo a possibilidade de resistência, e de serem tratadas, ouvidas e vistas como sujeitos de direitos. Em meu sonho, espero que possamos estar lado a lado com elas, buscando criar redes de proteção de acordo com a gravidade de seus cotidianos, sem que o excesso de proteção as coloque em lugar de impotência e submissão. Desse modo acaba-se olhando para os modos singulares de pensar e agir dos infantes no estar e conviver do bairro, tentando desconstruir infâncias adjetivadas, por nós adultos, pela pobreza, aproximando-se e criando repertório teórico sobre uma existência de infância que se opera na beleza de um brincar em meio à dureza das condições materiais e estruturais daquela realidade.

Entende-se, assim, que a divulgação dessa pesquisa possa abrir possibilidades e ofertar subsídios a diferentes grupos, profissionais e serviços que atuam com esse público, seja no bairro Vila Margarida ou fora dele, para reverem estereótipos e preconceitos sobre as infâncias, principalmente das periferias de cidades, e, em especial, sobre a infância calunga.

Continuo próximo de alguns trabalhadores da ONG Camará e fico contente em saber dos efeitos produzidos no serviço, como a maior autonomia e ação de educadores negros e periféricos em projetos que envolvem a arte, o feminismo e a negritude em bairros como a Vila Margarida. Na pesquisa, uma educadora que cresceu no bairro foi a principal informante da etnografia, ajudando a compreender um pouco da realidade das crianças. Hoje ela é uma liderança nesses projetos. Em minha trajetória pessoal essa experiência foi de muito aprendizado. Na sala de aula da universidade em que trabalho hoje, trago o que foi vivido para a relação com os estudantes, entendendo como é necessário manter vivo um olhar em formação, brincante e curioso para a complexidade de componentes que engendram os encontros de cada dia, intersccionados pelas dimensões de classe, raça, gênero e localidade dos diferentes públicos com que atuamos (Campos, Carneiro, & Vilhena, 2006 ; Gonzalez, 2020 ).

Por fim, as missões muito nos ensinam e ensinaram quando mostraram que o brincar é um ato político e transformador que pode nos abrir para as possibilidades do que ainda não sabemos que existe, da criação de novas armas de luta, de novas rotas. Quando cedemos à força estranha de “se aventurar” e abrir para o que não sabemos , nos colocamos em risco e deixamos de lado os tantos cálculos que fazemos para domar o incalculável. Essa unidade estranha da vida – a aventura – é um momento “. . . insuperavelmente delimitado e colorido por uma profunda incompreensibilidade, como se essa experiência estivesse em algum lugar no vazio e gravitasse no nada” (Simmel apud Castro, 2013 , p. 172). “É como se estivesse no limiar do entendimento” (Strathern, 2014 , p. 355). É o que as crianças fazem em suas missões.

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  • 1
    No decorrer do texto, por “crianças” entenda-se as crianças pretas de Vila Margarida, bairro periférico de São Vicente/SP; crianças calungas, herdeiras da ancestralidade negra brasileira.
  • 2
    Reuniões semanais que acontecem nos bairros de inserção da ONG. Participam crianças, adolescentes, familiares, estagiários e educadores. É aberta para a comunidade. Busca-se realizar um processo democrático e de auto-gestão na escolha das pautas e tomadas de decisão, mostrando-se um desafio permanente para tal.
  • 3
    Modo como as crianças e adultos chamavam a costa litorânea do bairro banhada pelo “Mar Pequeno”. Local onde eram construídas as palafitas.
  • 4
    Para evitar a exposição das crianças, optou-se por utilizar nomes fictícios. Para os meninos, Zamba e Zaki, e, para as meninas, Ayo e Bina.
  • 5
    Pesquisa realizada na década de 70, pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM).
  • 6
    Com efeito, cada um entra numa situação e sai dela em função não tanto dos lugares e dos quadros institucionais em que se desenrola, mas do fato de ele ou ela partilhar o sentido em jogo na situação e compreendê-la o suficiente para poder entrar de uma maneira ou de outra nas interações em presença. (Agier, 2011 , p. 89).
  • 7
    Ator, dançarino, produtor e diretor inglês (1889-1977). Possui uma simbologia própria na relação com os objetos em seus filmes (Bazin, 2006).
  • 8
    Fernandes ( 2004 ) descreve esse processo em grupos infantis autointitulados de “trocinhas”, afirmando, já em meados do século XX, a importância do avanço de estudos com as crianças em que as considerassem como produtoras de culturas, e não meros receptáculos ou imitadores dos adultos.
  • Como citar:
    Rodrigues, B. A. C., Jurdi, A. P. S., & Borba, P. L. O. (2024). As Missões: Modos inventivos e brincantes das crianças calungas. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003268042
  • How to cite:
    Rodrigues, B. A. C., Jurdi, A. P. S., & Borba, P. L. O. (2024). The Challenge: Inventive and playful ways of calunga children. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003268042
  • Cómo citar:
    Rodrigues, B. A. C., Jurdi, A. P. S., & Borba, P. L. O. (2024). Las Misiones: Formas inventivas y lúdicas de los niños calungas. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003268042

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    20 Set 2022
  • Aceito
    30 Ago 2023
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