Open-access Consciência moral e cultura digital: desafios éticoteológicos no pontificado de Leão XIV

Moral Conscience and the Digital Culture: Ethical-Theological Challenges in the Pontificate of Leo XIV

Resumo

O artigo relaciona consciência moral e cultura digital, evidenciando os desafios ético-teológicos no pontificado de Leão XIV. Parte-se da sua inspiração em Leão XIII para analisar os posicionamentos pontifícios diante dos desafios morais das quatro revoluções industriais. Sustenta-se que a atual revolução, marcada pela pervasividade no campo social e individual, fragiliza a agência moral ao moldar afetos, relações e processos formativos. A hipótese principal sustenta que a ética teológica deve recuperar a centralidade da consciência (GS, n. 16) para fundamentar a defesa da dignidade humana diante das fortes influências das IAs. A abordagem integral de Papa Francisco diante dos desafios atuais, ao interpelar consciências institucionais, coletivas e individuais nos âmbitos econômico e educativo, constitui valioso legado para o presente. Conclui-se que Leão XIV não inaugura nova pauta na DSI, mas retoma o Depositum fidei de modo dinâmico para promover a dignidade humana diante dos desafios atuais.

Palavras-chave
Consciência Moral; Leão XIV; Cultura digital; Revolução tecnológica; Inteligência artificial

Abstract

The article relates moral conscience and digital culture, highlighting ethical-theological challenges in the pontificate of Leo XIV. It proceeds from his inspiration in Leo XIII to analyze papal positions in response to the moral challenges of the four industrial revolutions. It argues that the current revolution, marked by pervasiveness in both social and individual spheres, weakens moral agency by shaping affections, relationships, and formative processes. The main hypothesis holds that theological ethics must recover the centrality of conscience (GS, n. 16) to ground the defense of human dignity in the face of strong AI influences. Pope Francis’s integral approach to current challenges, by addressing institutional, collective, and individual consciences in the economic and educational spheres, constitutes a valuable legacy for the present. It concludes that Leo XIV does not inaugurate a new agenda in Catholic Social Teaching but dynamically retrieves the Depositum fidei to promote human dignity.

Keywords
Moral Conscience; Pope Leo XIV; Digital Culture; Technological Revolution; Artificial Intelligence

Introdução

Papa Leão XIV iniciou seu pontificado inspirado em Papa Leão XIII e em sua encíclica Rerum novarum (1891), assumindo o patrimônio da DSI e reafirmando a dignidade inalienável da pessoa humana ante presença massiva de sistemas de IA. Ao destacar a implementação do Concílio Vaticano II (1962-1965) durante o Pontificado de Papa Francisco, Leão XIV declara-se disposto a dialogar com o mundo contemporâneo, à luz de Gaudium et Spes (Leão XIV, 2025). Em sua primeira mensagem para o DMCS, defendeu vigorosamente a preservação de vozes e rostos humanos na cultura tecnológica (Leão XIV, 2026).

O artigo relaciona consciência moral e cultura digital, evidenciando os desafios ético-teológicos no pontificado de Leão XIV. Sustenta-se que a cultura digital, marcada pela pervasividade algorítmica e pelo avanço das IAs incidem diretamente na consciência moral, tanto na sua interioridade, como na dinâmica relacional e formativa. Diante desse cenário, propõe-se que a releitura de GS, n. 16, no horizonte da DSI e do Magistério recente, constitui um critério indispensável para a formação da consciência em vista do resgate e reforço da agência moral em tempos digitais.

Metodologicamente, a reflexão articula a análise histórico-teológica, hermenêutica conciliar e diálogo interdisciplinar com as ciências humanas. O percurso se desenvolve em três momentos: 1) análise das implicações ético-antropológicas das revoluções tecnológicas; 2) consideração crítica das respostas magisteriais às tecnologias, sobretudo no contexto dos MCS; 3) resgate da centralidade da consciência moral na DSI segundo o Magistério de Papa Francisco diante dos desafios éticos da cultura digital, bem como suas implicações para a Teologia Moral no processo formativo da consciência. Conclui-se que Papa Leão XIV não inaugura uma nova pauta ao interno da DSI, mas recorre ao Depositum fidei enquanto realidade dinâmica que ilumina a Igreja em sua missão hodierna.

1 As revoluções tecnológicas e suas implicações ético-antropológicas

A relação que Papa Leão XIV faz entre a revolução industrial enfrentada por Leão XIII no final do séc. XIX e a atual (Leão XIV, 2025), possui fatores de continuidade como de rupturas que precisam ser considerados ao examinar as implicações ético-antropológicas sobre a consciência moral na DSI na cultura digital.

Os fatores de continuidade referem-se à influência direta que cada avanço tecnológico exerce na sociedade. Com a denominada 1ª revolução industrial (entre 1760-1840) ocorre a mecanização dos meios de produção, redinamizando profundamente o mundo do trabalho e a economia1. As locomotivas a vapor revolucionam o transporte de produtos e pessoas, “encurtando” distâncias e redinamizando o tempo. Os avanços tecnológicos, acentuam-se na 2ª revolução industrial (final do séc. XIX e início do séc. XX) com a invenção da energia elétrica, implicando diretamente em duas coordenadas antropológicas: tempo e espaço. Mais que tempo cronológico e espaço geográfico, a incidência recai sobre a temporalidade e a espacialidade, com impactos evidentes na elaboração de juízos que norteiam as ações morais2. A redução do tempo para fabricar, transportar e vender os produtos preanunciavam mudanças fortes no ritmo da sociedade em todas as suas dimensões.

Nesse contexto, Papa Leão XIII inaugura a moderna DSI com a encíclica Rerum novarum (1891), oferecendo uma resposta cristã aos impactos sociopolíticos da revolução industrial. O Pontífice denuncia as injustiças que assolam os trabalhadores e critica a estrutura laboral orientada exclusivamente ao lucro. Defende o direito à propriedade privada no horizonte do bem comum e propõe a reconciliação entre as classes sociais, bem como o direito de associação dos operários e a responsabilidade do Estado na promoção da justiça social. Já na origem da DSI, portanto, é clara a interpelação à consciência moral coletiva em vista da promoção do bem comum.

Note-se, no entanto, que as tecnologias industriais não são tematizadas nas reflexões de Leão XIII, por serem consideradas eticamente neutras. Além disso, observa-se que sua reflexão social assume um caráter predominantemente ad intra, como evidencia a lista dos destinatários de Rerum Novarum: “A todos os nossos veneráveis irmãos, os Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos do orbe católico, em graça e comunhão com a Sé Apostólica”.

É crucial analisar como as tecnologias entram nas reflexões éticas do Magistério no campo da comunicação social. Tal conjuntura exigiu uma progressiva reconsideração sobre a consciência moral e sobre a relação dialógica do Magistério ao interno da Igreja e com a grande sociedade sempre mais tecnológica.

1.1 O posicionamento ético-moral do Magistério eclesiástico sobre os MCS

A relação do Magistério eclesiástico com os MCS foi sempre in-tensa3. Desde a invenção da Prensa de Gutenberg (séc. XV) até a atualidade, os pontífices consideraram as tecnologias da comunicação como dons de Deus e frutos do engenho humano. Elogiadas e utilizadas amplamente na Igreja por suas potencialidades, elas também foram mantidas sob severa vigilância eclesiástica em decorrência dos riscos que o mau uso trazia à moral e aos bons costumes do povo cristão. A história registra as rigorosas censuras aplicadas pelos papas para conter a difusão de livros considerados ofensivos à fé e à moral do povo católico. Segundo Puntel, “[...] apenas decorridos quarenta anos da publicação do primeiro livro por Gutenberg, a Universidade de Colônia, sob os aplausos do Papa Sisto IV (1471-1484), instituiu a censura prévia e mandou à fogueira os livros heréticos” (Puntel, 2015, p. 20). Nesse período, a consciência moral era submetida às normas eclesiásticas dentro da rigorosa casuística da disciplina penitencial. Em âmbito coletivo e institucional, a consciência eclesiástica se compreendia a partir da autorreferencialidade, com posturas rígidas e proibitivas no enfrentamento das crises sociopolíticas. Foi notável o rigor no combate ao Modernismo com Gregório XVI, em Mirari Vos (1832), e com Pio IX, em Quanta Cura e Syllabus (1864).

O séc. XX marca o início da atenção magisterial sistemática aos meios de comunicação audiovisuais. O rigor no combate à imoralidade vai se mesclando com exortações propositivas para que as potencialidades dos MCS fossem direcionadas para o bem comum. A cinematografia é abordada na encíclica Vigilanti cura (1936) por Papa Pio XI, que reconhece tanto o seu potencial formativo quanto seus riscos à fé e à moral. Posteriormente, sob o pontificado de Papa Pio XII, a reflexão amplia-se para incluir, além do cinema, o rádio e a televisão, por meio da encíclica Miranda prorsus (Pio XII, 1957). Neste documento evidencia-se a crescente preocupação acerca da influência cultural, educativa e ética dos novos MCS na formação da consciência individual e coletiva, cuja presença chega dentro dos lares4.

A atenção do Magistério eclesiástico à dimensão moral dos fiéis, no entanto, não contemplava a dimensão formativa da consciência moral para o exercício crítico do discernimento moral livre e responsável. A TM, fortemente ligada à canonística, deixava pouco espaço de reflexão e discernimento à consciência dentro da casuística pós-tridentina5. A necessidade de abertura dialógica com o mundo moderno, cujo ápice de um longo processo se deu com o Concílio Vaticano II (1962-1965), necessitava de uma reconsideração profunda sobre a identidade a função da consciência moral, não só individual, mas também coletiva e institucional em um cenário sócio-político cada vez mais influenciado pelos MCS.

O Concílio Vaticano II introduziu ineditamente na história dos concílios gerais da Igreja o tema da comunicação social, no decreto Inter mirifica (Concílio Vaticano II, 1963) (Puntel, 2015, p. 39). Nesse fato é possível entrever uma das “janelas vaticanas” sendo abertas para vislumbrar uma consciência eclesial mais dialógica com a grande sociedade, bem como entre a hierarquia e os leigos, segundo a eclesiologia Povo de Deus (LG, cap. 1). Essa abertura se pode constatar na notificação sobre os livros proibidos, da Congregação para a Doutrina da Fé, logo após o encerramento do Concílio:

[...] esta S. Congregação para a Doutrina da Fé, depois de discorrer com o Santo Padre, declara que o Índice conserva sua força moral, enquanto adverte a consciência dos fiéis que, por exigir-lhe o direito natural, abstenham-se de ler aqueles escritos que possam prejudicar a fé e os bons costumes; em tempo, declara que tal Índice não tem valor de lei eclesiástica com as censuras que o acompanhavam. [...] A Igreja confia na amadurecida consciência dos fiéis, especialmente dos autores e dos editores católicos, e de quantos se dedicam à formação dos jovens

(CDF, 1966, grifo nosso).

Tal manifestação de confiança na amadurecida consciência dos fiéis expressava sintonia com Gaudium et Spes sobre a responsabilidade dos leigos e a relação com seus pastores diante dos desafios emergentes em todos os níveis sociais:

Dos sacerdotes, esperam os leigos a luz e força espiritual. Mas não pensem que os seus pastores estão sempre de tal modo preparados que tenham uma solução pronta, para qualquer questão, mesmo grave, que surja, ou que tal é a sua missão. Antes, esclarecidos pela sabedoria cristã, e atendendo à doutrina do Magistério, assumam por si mesmos as próprias responsabilidades (GS, n. 43).

Dessa forma, o aggiornamento eclesial não dizia respeito apenas à dimensão institucional, e nem poderia ser mediada por normas rígidas e sanções severas (João XXIII, 1962). Era necessário seguir a via testemunhal dialógica, envolvendo toda a Igreja. Para isso, a TM necessitava de uma mudança de paradigma, deixando de lado a via do formalismo regrador da moral pós-tridentina para assumir a dimensão vocacional da fé batismal, comprometida a dar frutos na caridade para a vida do mundo (OT, n. 16).

1.2 A consciência moral no aggiornamento conciliar

Gaudium et spes, ao abordar temas cruciais da DSI, organiza-se em duas partes interdependentes: “A Igreja e a vocação do homem” e “Alguns problemas mais urgentes”. A dignidade da consciência moral articula as duas partes do documento com grande relevância para o projeto conciliar. Organizamos este denso parágrafo em 4 tópicos para melhor compreender as dimensões da consciência moral:

  1. No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser.

  2. Graças à consciência, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do próximo.

  3. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social.

  4. Quanto mais, portanto, prevalecer a reta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as normas objetivas da moralidade. Não raro, porém, acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito de pecar (GS, n. 16).

No ensinamento conciliar, a consciência moral abrange 4 dimensões complementares: (A) a interioridade, como lugar de escuta e diálogo com Deus; B) a exterioridade relacional, fundamentada no amor a Deus e ao próximo; C) a busca dialógica da verdade, mediante a reciprocidade entre consciências cristãs e não cristãs, superando a concepção clássica da TM casuística que reduzia a consciência à aplicação de normas a casos concretos, no âmbito da manualística (Majorano, 2000, p. 56); e D) a dimensão formativa, que, em sintonia com o respeito à consciência invencivelmente errônea, ultrapassa uma pedagogia baseada apenas em proibições e permissões, orientando-se para a assimilação de valores éticos fundamentais, em vista de um discernimento fecundo e de decisões livres e responsáveis.

Os padres conciliares, com uma renovada antropologia teológica, compreendem a consciência moral em referência à pessoa humana em sua integralidade. Segundo Junges, “[...] a consciência volta a ter uma dimensão globalizante e a exercer um papel fundamental para a realização da pessoa. Recupera também a sua dimensão teológica como lugar de encontro e escuta da vontade de Deus” (Junges, 1990, p. 176). Trata-se de um “centro integrador e irradiador da pessoa” (Junges, 1990, p. 172), com fortes implicações no modo de compreender e viver a dimensão moral à luz da fé cristã. Segundo Almeida (2024, p. 108), “A questão de fundo que o texto conciliar [GS, n. 16] quis salvaguardar está no fato de que a consciência dever ser sempre compreendida como um dinamismo do mistério da pessoa e sua dignidade em constante evolução e em relação consigo mesma, com Deus e com os outros” (Almeida, 2024, p.108). A densidade antropológica, teológica e ética da consciência moral expressa em GS, n. 16 permeia a renovação da TM e reforça seu compromisso com a DSI ante as frenéticas transformações sociais6.

Na análise subsequente, demonstraremos como o 3º e 4º estágios da revolução industrial trazem sérios desafios éticos à consciência moral em decorrência do nível sempre mais alto de pervasividade das novas tecnologias em todas as dimensões da vida humana em sociedade.

2 A Igreja e as questões éticas emergentes da 3ª e 4ª fases da revolução industrial

Entre grandes tensões político-sociais, contemporaneamente ao aggiornamento conciliar, ocorreu um grande avanço tecnológico, que constitui mais um estágio da revolução industrial, como forte impacto socioeclesial. Segundo (Schwab, 2017, p. 7).

A terceira revolução industrial começou na década de 60. Ela costuma ser chamada de revolução dos computadores ou digital, pois foi impulsionada pelo desenvolvimento de semicondutores, de grandes computadores centrais [mainframe computing] (anos 60), da computação pessoal (anos 1970 e 1980) e da internet (anos 90).

A marca dessa revolução é o armazenamento e compartilhamento de dados, somados ao rápido desenvolvimento das tecnologias digitais. De uma rede de comunicação militar norte-americana no contexto da Guerra Fria (ARPANET), a internet chega rapidamente às universidades, ao comércio e, com a World Wide Web, à comunicação global presente em todos os setores da sociedade (Tavares; Longo, 2022, p. 175s). Progressivamente, o Magistério reconhece que esse novo avanço tem um significado antropológico e as implicações éticas vão se tornando mais evidentes. Papa João Paulo II (1990) afirma que os meios de comunicação vão além do dado instrumental que potencializa o anúncio do evangelho, passando a influenciar a cultura. O Pontífice já chamava a atenção para as novas linguagens e as novas atitudes psicológicas derivadas do uso de tais tecnologias (RM, n. 37).

A 4ª revolução industrial, marcada pela difusão da internet e das redes sociais digitais a partir dos anos 2000, amplia a pervasividade dos meios de comunicação em todas as esferas da vida social. Trata-se de uma revolução disruptiva que ultrapassa a lógica instrumental e se configurar como ambiências antropologicamente qualificadas. Os documentos Igreja e Internet e Ética na Internet, ambos de 2002, e as mensagens para o DMCS7 revelam, contudo, uma compreensão ainda marcada por categorias instrumentais. Um avanço interpretativo sobre o impacto do digital nas relações humanas ocorre quando Papa Bento XVI (2009) reconhece o surgimento de uma nova cultura comunicacional, geradora de relações que exigem cultivo do respeito, diálogo e amizade. Embora persistam limites que impedem compreender o ambiente digital como espaço antropológico integrado à vida cotidiana (Sbardelotto, 2012, p. 43-44), o Pontífice alemão convoca à responsabilidade moral no uso das novas tecnologias.

Os avanços tecnológicos, especialmente os complexos sistemas de IA, passam a exigir reflexões mais aprofundadas. Cresce rapidamente a incidência da lógica algorítmica na dimensão moral dos usuários, manipulando e condicionando as ações on-line. Notam-se impactos diretos da lógica digital sobre a autonomia, os afetos e a agência crítica dos sujeitos morais (Anjos, 2015). As redes sociais digitais oferecem elementos importantes para aprofundar essa questão.

2.1 Plataformas digitais como ambiências e os desafios ético-teológicos à consciência moral

As redes sociais digitais representam um dos pontos de maior interação entre a dimensão tecnológica e a antropológica, não pela via utilitária e/ou racional, mas sim por meio da dimensão afetiva, sentimental e simbólica. Tais plataformas transcendem seu substrato tecnológico e se configuram como novas ambiências de relacionamento, plenamente integradas ao cotidiano das pessoas. Spadaro, em 2012, alertava para o fato de que

a rede cada vez mais tende a se tornar transparente e invisível, tende exponencialmente a não ser mais ‘outro’ com relação à nossa vida diária. [...] A rede é um plano de existência crescentemente integrado com os outros planos e as mídias parecem ‘dissolver-se’ no ambiente”

(Spadaro, 2012, p. 18-19).

Segundo o teólogo jesuíta, “o ciberespaço é um ‘lugar’ emocionalmente quente e não tecnologicamente gélido, como se poderia imaginar” (Spadaro, 2012, p. 59). A lógica subjacente às ambiências digitais no campo das relações humanas afeta a dimensão afetiva-subjetiva da consciência moral. A pervasividade digital atua como um filtro que modula e molda os sentimentos, chegando à dimensão ética com incidência na elaboração dos sentidos existenciais e na compreensão ético-valorativa do agir humano. O vínculo entre humano e máquina, pela via dos afetos, inviabiliza uma compreensão binária entre on-line/off-line. A influência do digital ultrapassa os limites dos dispositivos conectáveis. A dinâmica onlife (Floridi, 2015), enquanto um ecossistema relacional, transforma profundamente o modo como o sujeito moral se compreende a si mesmo, o outro e o Totalmente Outro, com incidência direta nas ações.

Nesse sentido, a assunção massiva das novas tecnologias pelas pessoas configura a denominada era digital8. Uma de suas marcas são as interferências inéditas nas dimensões da temporalidade e da espacialidade, superiores às das revoluções tecnológicas anteriores. Klein (2023) destaca que essa imersão tecnológica no mais profundo do humano resulta de estratégias cuidadosamente planejadas no desenvolvimento de hardwares e softwares, orientados à cooptação, modulação e manipulação das experiências do sujeito9.

Entre as recentes inovações, o advento das inteligências artificiais generativas, em 2022, representa mais um passo na aproximação entre o antropológico e o digital. Diferentemente das tecnologias algorítmicas anteriores, restritas a sistemas e a especialistas, essas tecnologias algorítmicas passam a interagir diretamente com os usuários, utilizando linguagem natural (prompts) e simulando padrões afetivos humanos. Sua utilização não se restringe somente a fins profissionais e acadêmicos, mas abarca questões pessoais e afetivas. A rapidez e a profundidade dessas transformações levaram Giorgini e Magnin (2023) a caracterizar o momento atual como a entrada em uma civilização de algoritmos.

2.2 A consciência moral e as lógicas algorítmicas

Os impactos das tecnologias digitais na consciência comprometem seriamente a capacidade de agência moral, no plano individual e coletivo, bem como no institucional. Retomemos a divisão teórica de GS, n. 16, apresentada acima (ponto 1.1)10.

A primeira parte (A) se refere à dimensão da interioridade da consciência e sua experiência do princípio fundamental da moralidade: fugir do mal e buscar o bem. Esse exercício, realizado à luz da fé, se dá a partir da escuta da voz de Deus no coração. Ora, as mídias digitais, com sua forte influência na dimensão afetiva, atraem a atenção, consumindo momentos privados de silêncio reflexivo e de meditação orante, afetando a qualidade do sono e, não raro, desencadeando uma dinâmica viciosa ao afetar o sistema límbico de liberação de dopamina (Silva; Teodoro; Couto, 2024). A experiência de fé, algoritmizada como está, corre o risco de perder a profundidade existencial e os vínculos saudáveis com a vida eclesial local. A emergência de influenciadores digitais católicos (Medeiros et al., 2024), não raro de posicionamentos tradicionalistas e conservadores, visam substituir as consciências ao ditar normas e regras da “Verdade Católica” sem a atenção pastoral. Para esses grupos, a consciência volta a ser considerada como ato de aplicar princípios morais pré-definidos a casos concretos, e não uma dimensão integradora e irradiadora da pessoa, conforme orienta o Concílio.

Com a letra B, evidencia-se que o intermédio entre a intimidade e a exterioridade relacional da consciência se dá pela lógica evangélica do amor a Deus e ao próximo. No entanto, os discursos de ódio crescem nas redes sociais, pois diferentes opiniões são manipuladas pelas bolhas de filtro digitais para suscitar respostas impulsivas em vez de diálogos reflexivos e construtivos.

Assim, a busca recíproca da verdade moral, identificada com a letra C, fica seriamente comprometida. Para além da impulsividade que permeia os discursos de ódio, a verdade é constantemente manipulada na cultura digital, resultando no fenômeno da pós-verdade (Guareschi; Amon; Guerra, 2017). Tal manipulação impacta uma referência ética fundamental: a verdade moral é verdade de vida e necessita ser buscada de modo reflexivo e respeitoso, e não manipulado segundo a lógica das bolhas algorítmicas. Ao comprometer o diálogo e a compreensão da verdade, a consciência moral é gravemente impactada.

A influência das tecnologias digitais na interioridade da consciência, em sua dimensão dialógica e na busca recíproca da verdade moral, torna-se ainda mais complexa ao afetar diretamente os processos formativos, conforme a última parte de GS, n. 16, indicada pela letra D. À medida em que se intensifica a interação humano-tecnologia, os âmbitos educativos tradicionais (família, escola e religião) são impactados negativamente na missão de transmitir valores fundamentais como respeito, compaixão, solidariedade, justiça e paz (Vidal, 1978, v. 1, p. 792-794). A aceleração e fragmentação dos ritmos de vida, somados à presença massiva de plataformas on-line, podem comprometer o encontro intergeracional e dificultar o diálogo sobre os riscos da imersão acrítica nas plataformas digitais.

A crise dialógica da era digital repercute também na política. Segundo Habermas (2023), a crise da democracia na cultura digital e a ascensão de regimes autoritários resultam da dificuldade de promover discussões racionais voltadas à deliberação coletiva na esfera pública em prol do bem comum. Esse contexto torna ainda mais urgente enfrentar o descompasso entre o avanço da digitalização, a crise da governança de redes sociais e IAs, e a formação da consciência moral. Além do letramento digital necessário para identificar conteúdos sintéticos, como fake news e deepfake, é fundamental cultivar a perspicácia para lidar com vieses e distorções de algoritmos capazes de manipular resultados eleitorais e guiar os rumos da política nacional e mundial (Gasda, 2024; Café da Manhã, 2026).

2.3 A pervasividade do digital e a exigência de uma abordagem formativa integral

Diante da pervasividade das lógicas algorítmicas nos diversos âmbitos da moralidade, torna-se evidente que os desafios atuais da era digital não podem ser tratados exclusivamente pela governança jurídica, nem pela incorporação de princípios éticos aos algoritmos, conforme propõe a algorética; tampouco pela responsabilização isolada das consciências individuais, cada vez mais imersas de modo acrítico nas plataformas digitais (Real Álvarez, 2024b, p. 292; Real Álvarez, 2024a). É urgente assumir um horizonte formativo integral, capaz de articular criticamente tecnologia digital, formação ética e discernimento moral. A abrangência e seriedade dos desafios éticos na 4ª revolução industrial exigem abordagem críticas que ultrapassem análises fragmentárias e/ou meramente reativas.

As intuições fundamentais do pensamento pedagógico de Paulo Freire oferecem pistas importantes para rever e potencializar a dimensão formativa na atualidade. O pedagogo pernambucano indica ações ético-pedagógicas fundamentais em vista a emersão de consciências críticas em contextos de forte dominação:

Insistimos, em todo o corpo de nosso estudo, na integração e não na acomodação, como atividade da órbita puramente humana. A integração resulta da capacidade de ajustar-se à realidade acrescida da de transformá-la, a que se junta a de optar, cuja nota fundamental é a criticidade. À medida em que o homem perde a capacidade de optar e vai sendo submetido a prescrições alheias que o minimizam e as suas decisões já não são suas, porque resultadas de comandos estranhos, já não se integra. Acomoda-se. Ajusta-se

(Freire, 2025, p. 58).

Tais considerações iluminam a ação pedagógica atual na formação da consciência ao denunciar a lógica das plataformas digitais baseadas na fácil adaptação e acomodação passiva dos usuários. Tais comandos estranhos bem podem ser aplicados às lógicas opacas das IAs, que apesar de ocultarem seu modus operandis, são feitas para atingir os objetivos das Big Techs (Coeckelbergh, 2023). Em tempos de interação intensa entre humano e tecnologia pela vida afetivo-simbólica, é fundamental insistir na integração crítica não de usuários, mas de sujeitos morais responsáveis na cultura digital. É preciso que os âmbitos educacionais levem em conta o grau de influência das tecnologias em todos os níveis da cultura atual, pois “não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio” (Freire, 2025, p. 51). Por fim, destacamos a consideração de Freire sobre a educação libertadora à luz do atual contexto em que a agência moral é cada vez mais instrumentalizada e enfraquecida:

A educação das massas se faz, assim, algo de absolutamente fundamental entre nós. Educação que, desvestida da roupagem alienada e alienante, seja uma força de mudança e de libertação. A opção, por isso, teria de ser, também, entre uma “educação” para a “domesticação”, para alienação, e uma educação para a liberdade. “Educação” para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito

(Freire, 2025, p. 52).

A pedagogia freireana, para o atual contexto, ilumina a necessidade premente de uma autocrítica ampla que abarque todos os âmbitos educacionais e todas as dimensões da consciência moral, a fim de perceber-se não apenas como usuários das mídias, mas como sujeitos capazes de habitar responsavelmente a cultura digital onlife. Indo mais além, pode-se levantar questionamentos sobre como a humanidade lida e lidará com as potencialidades e riscos das inteligências artificiais. As considerações de Schwab sobre quatro tipos de inteligência humana oferecem pistas fecundas para a educação e formação da consciência moral diante da influência das IAs:

Contextual (a mente): como compreendemos e aplicamos nosso conhecimento; Emocional (o coração): como processamos e integramos nossos pensamentos e sentimentos e como nos relacionamos conosco e com os outros; Inspirada (a alma): como usamos um senso de propósito individual e coletivo, confiança e outras virtudes para promover mudanças e agir em favor do bem comum; Física (o corpo): como cultivamos e mantemos nossa saúde e bem-estar pessoal e também o das pessoas ao nosso redor, para estarmos em condições de aplicar a energia necessária tanto para a transformação individual quanto dos sistemas

(Schwab, 2017, p. 106).

Tal reflexão aponta para os desafios ético-formativos que, sem dúvida, implicam na compreensão e vivência da fé. A seguir, apresentaremos alguns pontos do legado de Papa Francisco ao pontificado de Leão XIV baseados em uma visão integral sobre o significado e importância da consciência moral na cultura digital.

3 A consciência moral na DSI no Magistério recente ante os desafios da cultura digital

Leão XIV assume o grande legado de Papa Francisco, cujas interpelações à consciência institucional, coletiva e individual sempre estiveram na base de seus ensinamentos11. Como um “papa do fim do mundo”, convocou a Igreja e a humanidade a assumir as periferias geográficas, sociais e existenciais como categoria hermenêutica na análise dos rumos da humanidade. Internamente, Francisco propôs uma nova consciência eclesial em Evangelii gaudium, em vista de uma Igreja em saída missionária e sinodal, com uma dinâmica curial mais ágil e ao serviço do Povo de Deus. Com Amoris laetitia, criticou a dinâmica muitas vezes alfandegária que regia (rege?) a cúria romana, dioceses e paróquias. Empenhou-se para fazer emergir uma nova consciência eclesiástica movida pela compaixão misericordiosa com estruturas voltadas para acompanhar, discernir e integrar as fragilidades das famílias em situações irregulares. No diálogo com a grande sociedade, instigou uma nova consciência ambiental em Laudato si’, enfatizando a necessária mudança do paradigma tecnocrático que visa somente o lucro, para a dimensão ética do cuidado para com a natureza. Neste mesmo documento, desafiou os grandes líderes e toda a humanidade a reconhecerem-se parte da mesma Casa Comum e responsáveis por ela.

Ao considerar os inegáveis e rápidos avanços das tecnologias digitais que aceleram o ritmo de vida (LS, n. 18), Francisco protestou fortemente contra a cultura do descarte de recursos naturais, materiais e, sobretudo, de pessoas. Para ele, a consciência institucional, coletiva e individual na cultura digital é fortemente influenciada pelo individualismo que resulta na cultura da indiferença em um mundo imerso na lógica algorítmica da conexão, mas carente de comunhão. Por isso, em Fratelli Tutti propôs uma nova consciência global sobre a importância de reconhecer que vínculos legitimamente fraternos superam limites de consanguinidade, territorialidade, culturalidade, politicidade, religiosidade etc., e conduz à cultura do encontro. No pontificado de Papa Francisco, o Dicastério para as Comunicações lançou o Documento Rumo à presença plena (2023). Trata-se do documento magisterial que melhor integrou as dimensões ético-antropológicas à dimensão pastoral da Igreja12.

Quanto aos sistemas de IA, destaca-se, inicialmente, a iniciativa de, em 2020, promover o diálogo entre a Igreja (Pontifícia Academia para a Vida), Microsoft, IBM, FAO e o Ministério da Inovação do Estado italiano, com vistas ao lançamento de um Apelo por uma ética da IA (Ren AIssance Foundation, 2020). Em seguida, foram de significativa importância a mensagem para a celebração do dia mundial da paz (Francisco, 2023) e 58º DMCS (Francisco 2024). Por fim, o documento Antiqua et nova, publicado em 2025 pelos Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e Educação, amplia os horizontes de reflexão e orientação sobre as IAs.

3.1 Nova proposta formativa econômica e educacional à base da DSI

Diante da mudança de época pelo qual passa a humanidade nesta 4ª Revolução Industrial disruptiva, continua o legítimo clamor por uma educação à altura de formar a consciência moral em todos os seus níveis de atuação em vista do cultivo da liberdade responsável e criativa. Nesse sentido, Francisco propôs dois caminhos concretos em 2020 que tocam o cerne da DSI: A Economia de Francisco – que no Brasil se acrescentou a figura marcante de Clara – e o Pacto Educativo Global. Em ambas iniciativas, a dignidade da pessoa humana é a referência ética central, não podendo ser explorada pela dinâmica capitalista tecnocrática, nem submetida à educação bancária focada, quando muito, na profissionalização.

Tratam-se de projetos extremamente desafiadores diante do status quo da sociedade mundial. O objetivo central é combater o tecnoliberalismo que acentua a pobreza da maioria e enaltece um pequeno número de poderosos com riquezas estratosféricas obtidas com as Big Techs Google, Amazon, Apple, Meta e Microsoft (Sadin, 2017). Dentro dessa lógica tecnoliberalista, sistemas algorítmicos de IA são treinados para afetar a consciência crítica e, assim, manipular mundialmente a política partidária e implantar novas formas de exploração no mundo do trabalho e da economia. Os apelos que Francisco fez à TM para que deixe elaborações abstratas feitas em escrivaninhas (EG, n. 133; AL, n. 312) para ir ao encontro da realidade (Francisco, 2019), precisa ser continuada no atual pontificado. Colaborar com reflexões engajadas que cheguem às pessoas com formulações compreensíveis, assimiláveis e fundadas na escuta atenta da realidade é a missão fundamental de quem se dedica à elaboração da ética cristã hoje.

Papa Francisco abriu caminhos diretos de diálogo ad intra e ad extra para a vivência engajada da fé cristã na sociedade atual, em sintonia com reflexões sociológicas que criticam a liquefação das relações (Bauman, 2001) e a busca de uma desejada leveza que se frustra por querer eliminar os pesos da existência humana em sociedade ao invés de encará-los eticamente (Lipovetsky, 2016). O legado de Papa Francisco à DSI deixou a marca da pastoral regida pela espiritualidade misericordiosa que toca o profundo da consciência humana segundo a santidade vivida no cotidiano (Francisco, 2018). A TM também encontra nessa intuição magisterial um caminho fecundo para tocar os afetos, como tão bem fez a seu tempo o Patrono dos confessores e teólogos(as) morais, Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787). Também ele, imerso na revolução racionalista do século das luzes, assumiu a TM como ciência prática nutrida pela fé em prol da benignidade pastoral diante das fragilidades humanas sedentas da copiosa redenção de Cristo (Vidal, 2022). Jamais compreendeu a Moral como ciência de princípios categóricos e fonte de soluções prontas para todos os problemas, mas como ciência que ousa imergir-se na existência humana complexa em que a divisão entre certo e errado tem de ser clara como princípio, mas sempre ligado à complexidade dos contextos concretos (Liguori, 1780, p. 118).

Ao considerar os macrodesafios éticos emergentes na cultura digital, torna-se imprescindível explicitar e efetivar a contribuição da TM no aprofundamento da DSI, em sintonia com as orientações de Papa Leão XIV. Essa tarefa exige uma análise contínua e rigorosa da realidade. Assim, as categorias ético-teológicas poderão sustentar a missão da Igreja de acompanhar, discernir e integrar criticamente as novas fragilidades humanas que emergem das revoluções tecnológicas presentes e futuras.

Conclusão

A partir da preocupação atual de Papa Leão XIV com a revolução industrial e os avanços da IA à luz da DSI, destacamos elementos importantes dos posicionamentos do Magistério da Igreja diante dos desafios morais emergentes das quatro fases da revolução industrial. Mesmo na dinâmica disruptiva das IAs, em seus pontos de descontinuidade com as fases precedentes, fatores de continuidade são também evidentes: avanços que beneficiam a sociedade, trazendo em seu bojo desafios éticos de grande relevância. Buscamos evidenciar que as atuais tecnologias são ambientes antropológicos que extrapolam a dimensão do uso para se tornar espaços de vivência e elaboração de sentimentos e sentidos sobre quem somos e como agimos hoje.

Ao resgatar o Concílio Vaticano II e sua contribuição para a DSI, demonstramos que a consciência moral, tal como descrita n. 16 de Gaudium et Spes, está em sintonia com o amplo projeto de renovação da consciência eclesial, alicerçado no respeito à pessoa humana compreendida à luz de Cristo, o Homem novo (GS, n. 22). A TM é interpelada a refletir cientificamente sobre o agir cristão em sintonia com a realidade, movida pela dinâmica vocacional que não se limita à obediência cega a normas para abrir-se aos valores fundamentais na consolidação de opções fundamentais a partir da fé.

Em um momento em que a Igreja confia na consciência amadurecida dos fiéis, a 4ª revolução industrial produz tecnologias disruptivas e pervasivas que afetam cada vez mais o dinamismo crítico da consciência e provoca um descompasso entre avanço tecnológico, governança jurídica e dinâmica formativa. Por isso argumentamos, a partir da pedagogia de Paulo Freire, sobre a necessidade de uma nova dinâmica educativa que forme sujeitos morais capazes de guiar o avanço tecnológico a bem comum, respeitando a dignidade humana.

Trazendo, ainda que pontualmente, as contribuições dos pontífices pós-conciliares, em especial Papa Francisco, argumentamos que A economia de Francisco e Clara e o Pacto Educativo Global oferecem pistas fecundas para o aprofundamento da DSI a partir da formação de consciências comprometidas com o bem comum e a dignidade humana. As interpelações à TM, portanto, são evidentes, ao ser convocada a deixar as reflexões abstratas para imergir na realidade das pessoas, que hoje está irreversivelmente digitalizada e moldada pelas lógicas algorítmicas de IA.

Papa Leão XIV, portanto, não inaugura uma nova pauta ao se preocupar com os desafios emergentes no atual momento da revolução digital. Seu protagonismo está em reafirmar a DSI dentro de seu pontificado, mostrando que a fé cristã católica não responde a problemas novos com respostas retrógradas, mas lança mão de seu Depositum fidei em sintonia crítica e criativa com a realidade hodierna, sempre defendendo, como critério fundamental, a dignidade inviolável da pessoa humana em meio às revoluções tecnológicas.

Siglas
  • AL  Exortação Apostólica Amoris laetitia
  • CDF  Congregação para a Doutrina da Fé
  • DMCS  Dia Mundial das Comunicações Sociais
  • DSI  Doutrina Social da Igreja
  • EG  Exortação Apostólica Evangelii gaudium
  • FAO   Food and Agriculture Organization
  • GS  Constituição Pastoral Gaudium et spes
  • IA; IAs  Inteligência(s) Artificial(is)
  • IBM   International Business Machines Corporation
  • MCS  Meios de Comunicação Social
  • RM  Carta Encíclica Redemptoris missio
  • RPP  Dicastério para a Comunicação Rumo à presença plena
  • TM  Teologia Moral

1

Para a datação e especificação das 4 revoluções industriais, seguimos a exposição de Schwab, 2017, p. 6-9.

2

Tempo/espaço e a relação com a dimensão moral é abordada por Vidal (1978, v. 1, p. 311-325) no tópico “coordenadas antropológicas do agir moral”. Bauman (2001, p. 107-149) também as integra em sua análise sociológica.

3

A temática é amplamente abordada nos seguintes estudos: Dale, 1973; Puntel, 2010; Puntel, 2015. Especificamente a relação entre a Igreja e Internet, conferir Sbardelotto (2011); Tavares, 2025, p. 91-161.

4

“Portanto, o primeiro dever do radiouvinte é a apurada escolha dos programas. A transmissão radiofónica não deve ser um intruso, mas um amigo que entra no lar, mediante convite consciente e livre. Ai daquele que não sabe escolher os amigos que introduz no santuário da família!” (Pio XII, 1957, não paginado).

5

As palavras de B. Häring citadas a seguir se referem ao contexto da fundação da Accademia Alfonsiana, em 1948: “[…] Era necessário pôr fim ao perigoso concubinato com o direito canônico, no qual, notoriamente, a moral se encontrava sob as pantufas do direito! Era preciso regressar a uma teologia integral, a um matrimônio casto, no qual a Palavra de Deus mostra o caminho, a uma fé que produz frutos em amor, justiça e paz! Sublinhei fortemente o significado das ciências humanas no esforço permanente, necessário ao conhecimento humano, que é histórico e inculturado” (Häring, 1997, p. 14, itálico nosso). Para fins metodológicos, informa-se que todas as obras em língua estrangeira serão citadas em tradução nossa.

6

Manieri; Matta; Montagna (2025, p. 78) relacionam moral e DSI: “Reforma social: deve começar pela renovação da moral (conversão dos corações), pois, no fundo, o problema social é um problema moral. Quem quer renovar o mundo deve começar por renovar a si mesmo, pois é preciso cortar o mal pela raiz. ‘O mal está em nós, e é por aí que a reforma deve começar’. A reforma social deve ter em vista também a renovação dos costumes, assim como a das instituições (ambiente)”.

7

Sbardelotto evidencia que somente em 2002, na mensagem para o DMCS (João Paulo II, 2002) um pontífice trata especificamente a internet em um documento oficial (Sbardelotto, 2012, p. 40). Um estudo atualizado das mensagens pontifícias para o DMCS encontra-se em: Zacharias, 2025, p. 19-85.

8

Segundo dados do final de 2025 presentes no site DataReportal 2026, a realidade digital no Brasil revela que o número de celulares equivale a 102% da população, enquanto 185 milhões de pessoas (89%) usam a internet, dedicando em média 53h30min semanais a esse ambiente. Destaca-se a centralidade das redes sociais digitais, utilizadas por 95% dos internautas com 16 anos ou mais, com predomínio de vídeos curtos, notícias e vídeos longos. É significativo o uso de smartphones por 98% dos internautas a partir de 16 anos, seguido de smart TVs (74,7%) e Laptops (53%) (DATAREPORTAL, 2026).

9

Conferir o tópico 2. Sentido da digitalização: máquina cultural para a transformação do sujeito (Klein, 2023, p. 162-176).

10

Para o aprofundamento da temática, conferir Tavares, 2025, p. 163-232.

11

Para o aprofundamento desta temática, conferir Tavares, 2025, p. 233-284.

12

Sustenta-se essa afirmação a partir da leitura dos documentos da Igreja sobre comunicação sob a perspectiva ético-teológica. No caso de RPP, a leitura não se fecha no campo pastoral, o que abre outros horizontes de reflexão: “O objetivo consiste em abordar algumas das principais questões sobre o modo como os cristãos deveriam participar nas redes sociais. Elas não tencionam ser ‘diretrizes’ exatas para o ministério pastoral nesta área. Ao contrário, espera-se promover uma reflexão comum sobre nossas experiências digitais, incentivando os indivíduos e as comunidades a adotar uma abordagem criativa e construtiva que possa fomentar uma cultura da proximidade”. O próprio título do documento coloca em primeiro lugar o dado antropológico representado nos termos Presença Plena e Participação, ambos considerados a partir da dimensão pastoral fundada no dinamismo misericordioso da parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Só então entram as redes socias, não como tecnologia, mas como ambiências nas redes sociais. Importante notar ainda que o termo Digital não aparece no título, antecipando a reflexão contida no texto sobre a integração on-line/off-line presente na cultura digital (RPP, n. 9-10).

Disponibilidade de dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.

Referências

Correspondência

E-mail: tavarescssr@gmail.com Endereço: Largo Branccacio, 31 00184 – Roma, Itália

Editores:

Márcia Eloi Rodrigues e Franklin Alves Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2026
  • Aceito
    05 Jun 2026
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