RESUMO
Introdução: A hospitalização é uma experiência potencialmente estressora, que gera medo, ansiedade e dificuldades de adaptação, especialmente diante de procedimentos invasivos.
Objetivo: Este estudo teve como objetivos construir e validar um protótipo gamificado como tecnologia educativa de apoio à prática da enfermagem durante a internação pediátrica.
Método: Trata-se de uma pesquisa metodológica, quantitativa, de produção tecnológica, desenvolvida em Curitiba, no Paraná. O estudo foi conduzido em seis etapas: levantamento do conteúdo, elaboração textual, desenvolvimento da estrutura do protótipo, organização dos tópicos e das ilustrações, construção do protótipo e validação de conteúdo. O protótipo “Pequeno herói no mundo do cuidado” direciona-se a crianças de 6 a 10 anos, abordando procedimentos hospitalares como aferição de sinais vitais, punção venosa, administração de medicamentos, curativos, exames e higienização das mãos. O conteúdo é apresentado de forma lúdica, visual, em linguagem acessível, com o intuito de obter um produto final interativo.
Resultado: A validação de conteúdo foi realizada por enfermeiros residentes da área pediátrica por meio do Índice de Validade de Conteúdo, com critério de aceitação ≥ 0,8.
Conclusão: Os resultados demonstraram concordância quanto à relevância, clareza e aplicabilidade do protótipo, indicando seu potencial para favorecer a adaptação da criança ao ambiente hospitalar e qualificar o cuidado de enfermagem pediátrica.
Palavras-chave:
Assistência de Enfermagem; Aplicativos Móveis; Assistência Integral à Saúde da Criança
ABSTRACT
Introduction: Hospitalization is a potentially stressful experience that generates fear, anxiety, and adaptation difficulties, especially when facing invasive procedures.
Objective: The study aimed to develop and validate a gamified prototype as an educational technology to support nursing practice during pediatric hospitalization.
Method: This is a methodological, quantitative research of technological production, conducted in Curitiba, Paraná. The study was carried out in six stages: content gathering, textual elaboration, prototype structure development, organization of topics and illustrations, prototype construction, and content validation. The prototype Little Hero in the World of Care is aimed at children aged 6 to 10 years old, addressing hospital procedures such as measuring vital signs, venipuncture, medication administration, dressings, exams, and hand hygiene. The content is presented in a playful, visual manner, with accessible language, aiming to achieve an interactive final product.
Results: Content validation was performed by pediatric nursing residents using the Content Validity Index, with an acceptance criterion of ≥0.8.
Conclusion: The results demonstrated consensus regarding the relevance, clarity, and applicability of the prototype, indicating its potential to promote the child’s adaptation to the hospital environment and qualify pediatric nursing care.
Keywords:
Nursing Care; Mobile Applications; Child Health; Health Education
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento infantil constitui um processo dinâmico que não se restringe aos aspectos genéticos relacionados à maturação biológica, sendo também influenciado pelos estímulos e pelas experiências vivenciados no ambiente em que a criança está inserida. As experiências ao longo da infância podem repercutir positiva ou negativamente na construção das respostas emocionais a situações adversas futuras1.
O adoecimento, especialmente quando resulta em hospitalização, configura-se como um evento potencialmente estressor, marcado por ruptura da rotina, afastamento do convívio familiar e inserção em um ambiente desconhecido. Na infância, essa experiência pode ser ainda mais desafiadora, considerando que a criança se encontra em processo de desenvolvimento emocional e de elaboração simbólica de seus sentimentos2. A hospitalização, indicada a partir da avaliação clínica e da necessidade de monitoramento contínuo ou intervenções terapêuticas, pode expor a criança a procedimentos invasivos e não invasivos indispensáveis ao tratamento3.
Entretanto, embora essenciais, tais procedimentos frequentemente representam as principais fontes de dor, medo e ansiedade durante a internação pediátrica⁴. A experiência dolorosa, além de seu componente sensorial, envolve dimensão emocional e subjetiva, estando frequentemente associada à ansiedade antecipatória, a qual não é plenamente manejada apenas com recursos farmacológicos4),(5. Nesse sentido, estratégias de abordagem cognitiva, baseadas na oferta de informações claras e adequadas à faixa etária sobre os procedimentos e possíveis sensações envolvidas, mostram-se relevantes para favorecer o enfrentamento e reduzir o sofrimento infantil5.
Diante desse cenário, evidencia-se a importância da educação em saúde como estratégia de cuidado. Estudos recentes apontam a utilização de recursos como brinquedoterapia instrucional, cartilhas educativas e tecnologias digitais como ferramentas eficazes para preparar a criança para procedimentos hospitalares6)-(8. Entre essas possibilidades, destacam-se os serious games, definidos como jogos desenvolvidos com finalidades educativas específicas, que permitem a apresentação de situações simuladas, a construção de conhecimento e o aprendizado de forma lúdica e interativa9.
Apesar do avanço das tecnologias educacionais na área da saúde, observa-se escassez de estudos que explorem a gamificação como ferramenta de suporte à adaptação da criança aos procedimentos hospitalares durante a internação. Assim, emerge a seguinte questão de pesquisa:
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Quais são as contribuições de enfermeiros assistenciais do âmbito hospitalar para a construção de um protótipo de gamificação voltado à compreensão de crianças acerca dos procedimentos hospitalares em pediatria?
Com base nisso, o presente estudo teve como objetivos construir e validar um protótipo gamificado como tecnologia educativa de apoio à prática da enfermagem durante a internação pediátrica.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico, de abordagem quantitativa, voltado ao desenvolvimento e à validação de conteúdo de um protótipo tecnológico educacional destinado à preparação de crianças para procedimentos hospitalares. Estudos metodológicos visam à construção, à avaliação e ao aperfeiçoamento de instrumentos e tecnologias aplicados à prática em saúde10.
O protótipo foi desenvolvido para crianças de 6 a 10 anos, considerando o estágio operatório concreto do desenvolvimento cognitivo. A construção ocorreu em seis etapas: levantamento de conteúdo, elaboração textual, desenvolvimento estrutural, organização temática e criação de ilustrações, construção do protótipo e validação de conteúdo.
A tecnologia foi elaborada na plataforma Canva, com apoio de modelo de linguagem artificial da OpenAI para geração de imagens. O aplicativo contém seis módulos (punção venosa, sinais vitais, curativos, higienização das mãos, exames e administração de medicamentos), organizados em formato interativo e simulativo, totalizando 120 páginas.
A validação do conteúdo foi realizada com enfermeiros residentes de uma instituição de ensino do Sul do Brasil. Participaram residentes do primeiro e segundo ano que aceitaram integrar o estudo, sendo excluídos aqueles afastados por período superior a 30 dias. A coleta ocorreu entre outubro e novembro de 2025.
Utilizou-se questionário estruturado em duas partes: caracterização sociodemográfica e avaliação do protótipo quanto à utilidade, clareza, organização e aplicabilidade. Para validação, aplicou-se o Instrumento de Validação de Conteúdo Educativo em Saúde (IVCES), adaptado ao estudo, com escala tipo Likert (discordo, indiferente, concordo, concordo totalmente).
A análise foi realizada por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), considerando-se adequado valor ≥ 0,80. Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por estatística descritiva.
As sugestões dos participantes foram analisadas e incorporadas ao protótipo, incluindo ajustes na simulação da punção venosa e inserção de telas sobre higienização das mãos previamente aos procedimentos.
O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Pequeno Príncipe, sob CAAE nº 91158925.2.0000.5580 e Parecer nº 7.885.301, atendendo à Resolução nº 466/2012.
RESULTADOS
Construção do protótipo “Pequeno herói no mundo do cuidado”
A terceira etapa do projeto, que consistiu na construção do protótipo “Pequeno herói no mundo do cuidado”, foi inicialmente desenvolvida a partir da análise dos procedimentos mais frequentes na internação pediátrica. Em seguida, buscou-se identificar, por meio de artigos científicos, quais desses procedimentos eram os que mais causavam dor e medo em crianças. Essa associação permitiu selecionar práticas que, além de rotineiras, representam maior potencial de sofrimento infantil, garantindo a elaboração de um material útil e alinhado à realidade do enfermeiro pediátrico.
De acordo com o Parecer CRM-MG nº 168/201811, procedimentos realizados em regime de internação são aqueles destinados ao diagnóstico e/ou tratamento que demandam suporte da estrutura hospitalar e permanência superior a 12 horas. No contexto pediátrico, esses procedimentos podem demandar da equipe de enfermagem desde ações de menor complexidade, como aferição de sinais vitais, higienização do paciente, realização de curativos e controle de temperatura, até intervenções de maior complexidade, como punção venosa periférica, punção lombar, cateterismo vesical, sondagem gástrica, intubação endotraqueal e manobras de reanimação12.
Em consonância com esse panorama, a pesquisa de Assis et al.13, que investigou as atividades mais frequentemente realizadas pela equipe de enfermagem em uma clínica pediátrica de um hospital do município de São Paulo, identificou, com base na Nursing Interventions Classification (NIC), diversas intervenções recorrentes, entre elas: controle e supervisão da deambulação; sondagem vesical; sondagem gastrointestinal; administração de medicamentos; punção venosa; monitorização dos sinais vitais; controle de infecção; ensino sobre o processo saúde-doença; e técnicas para acalmar.
Complementando essa perspectiva, o estudo de Tuncay et al.14 evidencia que procedimentos como punção venosa, administração de medicação e coleta de sangue estão entre aqueles que mais despertam sentimentos adversos nas crianças durante a hospitalização. Observa-se, portanto, que alguns dos procedimentos apontados como geradores de medo e ansiedade são justamente aqueles mais presentes na rotina da enfermagem pediátrica, conforme descrito por Assis et al.13.
Dessa forma, foram selecionados os procedimentos de aferição de sinais vitais, punção venosa, administração de medicamentos e higienização das mãos, considerando sua relevância para o controle de infecção e a realização de curativos e exames. A escolha dessas práticas também se fundamentou na vivência profissional das pesquisadoras em suas rotinas de trabalho como enfermeiras pediátricas.
O conteúdo utilizado para a elaboração do texto do protótipo foi desenvolvido com base em manuais e nos procedimentos operacionais padrão (POP) de instituições pediátricas12),(15. Após o levantamento do passo a passo dos procedimentos, o material foi simplificado e substituíram-se alguns termos técnicos por expressões mais acessíveis e genéricas, a fim de facilitar a compreensão pelo público infantil.
No processo de construção de telas do protótipo, o uso de elementos visuais também assumiu papel primordial. Conforme demonstram Rosso et al.16, as representações gráficas possibilitam a externalização de percepções, emoções e compreensões sobre o mundo social, constituindo-se como instrumento mediador entre a criança e os contextos institucionais nos quais está inserida.
Na etapa de adaptação, priorizou-se o uso de elementos visuais como estratégia de comunicação e educação em saúde, considerando sua relevância na construção da percepção da criança quanto ao ambiente hospitalar. Após ajustes nos comandos de geração e adequações no Canva, foi finalizada a versão da tela inicial do protótipo (Figura 1).
O uso de personagens foi adotado como estratégia lúdica para favorecer identificação e engajamento infantil, conforme descrito na literatura. Criaram-se dois personagens: uma enfermeira (Carla), associada aos procedimentos apresentados, e uma criança hospitalizada (Antônio), com o objetivo de promover reconhecimento e aproximação com a experiência de internação.
Jogos educacionais e estratégias de gamificação têm sido descritos como práticas eficazes para promover engajamento, motivação e aprendizagem significativa em diferentes contextos educativos, devido à sua capacidade de integrar elementos lúdicos e interativos que facilitam a assimilação do conteúdo17. Estudos recentes indicam que abordagens baseadas em jogos podem impactar positivamente tanto a cognição quanto as emoções dos aprendentes, inclusive influenciando a carga cognitiva de forma que torne a compreensão de informações complexas mais acessível18.
Ademais, a organização visual e a fragmentação das informações em unidades contribuem para reduzir a sobrecarga cognitiva e otimizar a retenção de conhecimento. Estratégias de segmentação demonstram diminuir a demanda de processamento simultâneo, dando espaço para que as informações se consolidem em significados para o aprendiz, antes de ele avançar no material apresentado, o que favorece a compreensão e a aprendizagem em ambientes de aprendizagem multimídia19.
Com base nesses pressupostos, os procedimentos de saúde foram distribuídos em diferentes widgets e apresentados de forma simplificada, respeitando o nível de desenvolvimento da faixa etária e buscando favorecer a compreensão e retenção do conteúdo, assim como prevenir a sobrecarga sensorial. Ao final da construção, obtiveram-se o menu principal e as telas dos widgets dos procedimentos, conforme mostra a Figura 2.
Obteve-se um total de seis widgets. O widget dos “Sinais vitais” foi elaborado como um reflexo da vivência da assistência: ambiente em que as crianças frequentemente interpretam equipamentos como termômetros, oxímetros e esfigmomanômetros como invasivos ou ameaçadores, principalmente quando não compreendem sua função. Segundo Souza et al.20, explicações simples e adequadas à idade ajudam a tornar esses instrumentos familiares, diminuindo a imprevisibilidade e favorecendo a cooperação durante os cuidados. Assim, incluir, no aplicativo, explicações visuais e lúdicas sobre os equipamentos utilizados nos sinais vitais constitui uma estratégia educativa que apoia o enfrentamento da hospitalização e melhora a experiência infantil.
Já o processo de punção venosa é frequentemente percebido como doloroso e ameaçador pelas crianças, devido ao uso de agulhas e à sensação de invasão corporal, gerando ansiedade, choro, resistência ou comportamento de evitação21),(22.
Sendo assim, o segundo widget buscou mostrar o procedimento de punção por meio de apresentação do material utilizado e condução do passo a passo do procedimento, a fim de possibilitar a compreensão da criança quanto ao propósito do exame e à função da equipe de saúde, tornando o desconhecido previsível. Essa preparação prévia aumenta a cooperação e o senso de segurança e autonomia da criança, diminuindo a ansiedade e promovendo uma experiência hospitalar mais humanizada22.
Após inserção do cateter venoso periférico, normalmente não há necessidade de novas punções. Contudo, a administração medicamentosa ainda pode gerar ansiedade14. Para reduzir esse medo, foram adicionadas telas que enfatizam a não necessidade de novas perfurações, bem como uma representação simbólica dos medicamentos “combatendo” microrganismos patogênicos no widget “Administração de medicamentos”. Essa abordagem transforma um processo potencialmente assustador em narrativa lúdica de “heróis contra vilões”, promovendo compreensão positiva, segurança e engajamento infantil23.
O widget “Lavagem das mãos” foi construído com base em duas atribuições fundamentais da enfermagem: a educação em saúde e o controle de infecções relacionadas à assistência à saúde (Iras). A higienização das mãos é uma medida de prevenção central no cuidado seguro que reduziu de forma consistente a transmissão de microrganismos e a ocorrência de infecções em serviços de saúde; além disso, constitui um dos pilares dos programas de segurança do paciente no Brasil24.
No contexto hospitalar pediátrico, a criança está particularmente vulnerável à exposição a agentes infecciosos, o que destaca a necessidade de estratégias educativas que superem apenas a informação técnica. Intervenções lúdicas, como atividades planejadas para ensinar técnica e momentos de higienização, foram descritas em contextos brasileiros como recursos que favorecem a compreensão, estimulam o interesse e promovem a responsabilidade da criança em relação à própria saúde25. Essas práticas educativas, ao reunirem estímulos visuais, narrativas e participação ativa, contribuem para a internalização de hábitos preventivos, fortalecendo comportamentos de segurança em saúde desde a infância e apoiando a integralidade do cuidado em ambientes hospitalares pediátricos.
A explicação prévia do passo a passo do curativo, utilizando linguagem adequada à faixa etária, favorece a construção de confiança na equipe de saúde e maior cooperação da criança durante o procedimento, ao tornar a experiência mais previsível e compreensível26. Sendo assim, as telas do widget “Curativo” mostram como o curativo protege a ferida, previne infecções e favorece a cicatrização, além de orientarem sobre manipulações indevidas.
O medo diante de exames laboratoriais e de imagem é comum em crianças hospitalizadas e está frequentemente relacionado à antecipação de dor, ao desconhecimento do procedimento, ao ambiente hospitalar e à sensação de vulnerabilidade diante de dispositivos e contextos ainda não compreendidos. Evidências recentes apontam que estratégias de preparo prévio - como simulações interativas e abordagens educativas - podem reduzir significativamente a ansiedade e o medo pré-procedural em crianças submetidas a exames de ressonância magnética e outros exames de diagnóstico por imagem, ao proporcionarem maior familiaridade e previsibilidade do processo27. Portanto, as telas que abordam o procedimento “Exames” foram construídas por meio de explicações simples, com linguagem acessível e resgatando elementos do procedimento de punção (no caso do exame laboratorial), visando ao preparo lúdico e ao favorecimento da participação ativa da criança no cuidado.
Validação do protótipo
No que se refere à quarta etapa da pesquisa, tem-se a caracterização dos participantes responsáveis pela avaliação do protótipo: enfermeiros do segundo ano da residência. Participaram da avaliação 18 dos 20 residentes elegíveis (90%), sendo 17 (94,4%) do sexo feminino. A maioria possuía entre um e dois anos de graduação (72,2%).
Quanto à familiaridade com tecnologias digitais em saúde, 50% relataram experiência moderada; 33,3%, pouca experiência; e 16,7%, experiência avançada. Em relação ao uso de aplicativos de saúde na prática assistencial, 55,6% referiram uso raro, enquanto 27,8% relataram uso frequente ou semanal.
No que concerne à familiaridade com aplicativos voltados à adaptação hospitalar infantil ou educação em saúde, 50% nunca haviam tido contato prévio com esse tipo de recurso.
Sobre a potencial utilização de aplicativos móveis para adaptação à internação hospitalar, 100% consideraram seu uso frequente ou sempre indicado. Resultado semelhante foi observado quanto ao uso para educação em saúde em pediatria, com 100% indicando utilização frequente ou sempre.
Houve concordância unânime quanto à coerência do conteúdo do protótipo com o objetivo proposto. Apenas um participante (5,5%) manifestou-se indiferente quanto ao potencial do material para promover mudanças de comportamento e atitudes.
A avaliação do protótipo por meio do IVCES evidenciou elevada concordância entre os residentes. No núcleo conteúdo, os itens apresentaram IVC entre 0,94 e 1,00, com concordância predominante entre “concordo totalmente” e “concordo”, conforme especificado na Tabela 1.
No núcleo estrutura e apresentação, os IVC variaram de 0,94 a 1,00, sendo observadas discordâncias pontuais (5,5%) em três itens relacionados à clareza, adequação sociocultural e necessidade das informações, conforme apresentado na Tabela 2.
Quanto ao núcleo relevância, todos os itens alcançaram IVC de 1,00, indicando concordância unânime quanto a pertinência científica, inovação tecnológica e estímulo ao aprendizado (Tabela 3).
Os números calculados indicaram superioridade ao esperado (mínimo de 0,8 e preferencialmente ≥ 0,9)10.
DISCUSSÃO
A construção e a validação do protótipo “Pequeno herói no mundo do cuidado” como ferramenta de apoio assistencial e pedagógica fundamentam-se no significativo crescimento de aplicativos móveis em saúde e na limitada oferta de tecnologias voltadas especificamente ao público infantil.
A educação no contexto da hospitalização constitui direito assegurado por legislação nacional e deve ser compreendida como responsabilidade compartilhada entre os setores da saúde e da educação28. A literatura aponta que a efetivação desse direito demanda articulação multiprofissional e desenvolvimento de estratégias pedagógicas adaptadas à condição clínica da criança29. Nesse cenário, tecnologias digitais, como jogos e aplicativos educativos, têm sido descritas como recursos que favorecem interação lúdica, engajamento e continuidade do processo de aprendizagem durante a internação30.
Entretanto, a maior parte dos participantes desta pesquisa relatou pouca ou moderada familiaridade com tecnologias digitais em saúde, e o uso de aplicativos na prática clínica mostrou-se ainda incipiente. Esses achados refletem desafios já descritos na literatura, como lacunas na formação e na competência digital dos profissionais, barreiras organizacionais e insuficiente oferta de tecnologias específicas para determinados contextos assistenciais, incluindo a pediatria7.
Outro ponto, evidenciado sobre aplicativos móveis em saúde infantil, é o cenário de construção e disponibilização de ferramentas voltadas ao cuidado da criança marcado por limitações quanto ao rigor científico, à documentação de validação e à padronização de usabilidade, o que dificulta a avaliação robusta da eficácia de seu uso pelas crianças e o acesso dos profissionais da área a tecnologias comprovadamente eficazes33.
Quanto à frequência ideal de utilização de aplicativos para adaptação hospitalar, os residentes consideraram o uso “frequente” ou “sempre”, evidenciando percepção unânime da relevância dessas tecnologias como suporte à educação em saúde e adaptação da criança ao contexto hospitalar. Contudo, embora a maioria tenha preferido o uso frequente de aplicativos, os participantes também reconheceram a importância de métodos complementares presenciais, por meio de materiais educativos e abordagens humanizadas que considerem as experiências e interações diretas.
A literatura aponta que estratégias digitais não substituem o cuidado humano, mas podem integrá-lo, especialmente quando associadas à comunicação com valorização do vínculo profissional-paciente e a participação ativa do usuário nos processos de cuidado(31). Ademais, estudos sobre saúde digital demonstram que a incorporação de tecnologias permite reduzir atividades repetitivas e operacionais, disponibilizando tempo dos profissionais de saúde para foco em aspectos relacionais e terapêuticos do cuidado(33).
Assim, acredita-se que, com o uso de aplicativos educativos voltados à promoção da educação em saúde, o profissional possa dinamizar o processo educativo, criando um ponto de partida para a comunicação com a criança e articulando cenários simulados no aplicativo com a prática assistencial. Dessa forma, a tecnologia deixa de ser apenas um recurso informativo e passa a atuar como mediadora do cuidado, ao favorecer a compreensão da criança, diminuir ansiedades e fortalecer sua participação ativa no processo de hospitalização.
Espera-se que crianças hígidas acometidas por doenças agudas esporádicas não necessitem vivenciar múltiplos episódios de hospitalização. Entretanto, parte-se do entendimento de que a criança se encontra no início de seu ciclo de vida e, portanto, está suscetível a experimentar outras situações de saúde e doença que podem demandar atendimento hospitalar e, consequentemente, a realização de procedimentos médicos. Diante disso, torna-se imprescindível o preparo dessa criança para enfrentar esses momentos com maior resiliência e menor sofrimento23.
Nesse contexto, a humanização do contato inicial e a disponibilização de explicações claras e linguagem acessível desde a infância assumem papel central para promover confiança e reduzir a ansiedade em relação a profissionais e ambientes de atendimento, de modo a fortalecer a participação ativa da criança no cuidado e mitigar repercussões futuras1),(23.
No aplicativo “Pequeno príncipe no mundo do cuidado”, disponibilizou-se um espaço para a indicação dos pontos positivos, e ele foi amplamente elogiado, com citações referentes à relevância, à ludicidade, à utilidade, ao design e à linguagem acessível da ferramenta, ressaltando a importância desses aspectos para a promoção de um atendimento humanizado.
O processo de validação evidenciou elevada concordância entre os residentes quanto à coerência, relevância e adequação do conteúdo, estrutura e apresentação do protótipo (IVC por núcleo: conteúdo e estrutura = 0,94; relevância = 1,00). No processo de validação, os residentes fizeram algumas sugestões, o que resultou em ajustes que incluíram simplificação da linguagem - por exemplo, substituição de termos técnicos como scalp e “garrote” - e adaptação de telas de punção e higienização das mãos.
Essas alterações reforçam que a validação prévia do protótipo é essencial, pois permitiram identificar inconsistências, garantir adequação ao público-alvo e assegurar que o produto seja funcional e educativo(33).
No que se refere às limitações do estudo, destaca-se que a validação do protótipo foi realizada exclusivamente com enfermeiros residentes, o que pode restringir a generalização dos resultados para outros contextos assistenciais. Além disso, embora o instrumento tenha alcançado elevados IVC, não houve etapa de validação semântica e de usabilidade com o público-alvo final, nem aplicação clínica para mensuração de desfechos objetivos, como redução de ansiedade e dor ou melhora na cooperação durante os procedimentos.
Ressalta-se ainda que a avaliação se concentrou na análise do conteúdo, estrutura e relevância, não contemplando testes longitudinais que permitissem verificar retenção de conhecimento ao longo do tempo. Assim, recomenda-se que estudos futuros ampliem o número e a diversidade de avaliadores, incluam a validação direta com crianças hospitalizadas e investiguem o impacto do uso do protótipo em indicadores clínicos e emocionais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento e a validação do protótipo “Pequeno herói no mundo do cuidado” evidenciam que recursos digitais educativos podem atuar como ferramentas complementares valiosas na preparação de crianças para procedimentos hospitalares.
A construção do aplicativo, fundamentada em princípios de ludicidade, segmentação de informações e linguagem adequada à faixa etária, permite reduzir a ansiedade, favorecer a compreensão e promover participação ativa da criança no cuidado.
A validação realizada por enfermeiros residentes demonstrou alta concordância quanto à relevância, coerência e aplicabilidade do protótipo, reforçando a importância de processos sistemáticos de validação prévia. Apesar das limitações, o estudo sugere que a integração de tecnologias educacionais ao cuidado pediátrico pode potencializar o vínculo profissional-paciente, otimizar o tempo da equipe de saúde e contribuir para experiências hospitalares mais humanizadas.
Estudos futuros devem incluir avaliação direta com o público-alvo infantil e mensuração de desfechos clínicos e emocionais, permitindo consolidar evidências sobre a efetividade de intervenções gamificadas na pediatria.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos o apoio da Fundação Araucária/SETI por meio de edital do Pesquisa Básica Aplicada, para a publicação do presente artigo.
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Fonte: Elaborada pelas autoras.
