Open-access Suporte do orientador, valores do trabalho e compromisso com a pesquisa de doutorandos em negócios

RESUMO

O objetivo deste artigo foi analisar a relação entre os suportes oferecidos pelo orientador e o compromisso com a pesquisa científica de doutorandos da área de negócios quando mediada pelos valores do trabalho. A análise dos suportes do orientador, à luz da teoria das necessidades psicológicas básicas (TNPB), possibilita compreender de que forma fatores contextuais, como os suportes do orientador, e fatores pessoais, como os valores do trabalho, influenciam o compromisso com a pesquisa científica. Ao integrar esses elementos simultaneamente, o estudo evidencia mecanismos mediadores e reforça o papel do orientador como facilitador do desenvolvimento acadêmico dos alunos. A relevância do tema está em compreender os suportes do orientador como fatores que influenciam o compromisso dos doutorandos com a pesquisa, o que é relevante, pois contribui para o desenvolvimento científico da área de negócios. Esses suportes estão associados à motivação, ao bem-estar e ao desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes, além de influenciarem os valores do trabalho. Os suportes do orientador para a autonomia, competência e relacionamento, preconizados pela TNPB, fornecem uma base reflexiva para que programas de pós-graduação desenvolvam diretrizes capazes de conciliar a produção científica com as necessidades dos alunos, aprimorando os resultados das orientações. Utilizando uma abordagem quantitativa, foram analisadas 503 respostas de doutorandos da área de negócios por meio de partial least squares - structural equation modeling (PLS-SEM). Os resultados evidenciam que os suportes do orientador constituem elementos contextuais importantes para o fortalecimento do compromisso com a pesquisa científica de doutorandos da área de negócios. O suporte à competência exerce efeito direto e positivo sobre esse compromisso, enquanto o suporte ao relacionamento influencia-o de forma indireta, por meio dos valores intrínsecos do trabalho. Esses achados oferecem subsídios para o aprimoramento das práticas de orientação e para a promoção de ambientes formativos mais favoráveis ao desenvolvimento de pesquisadores em formação.

Palavras-chave:
suporte do orientador; doutorado; necessidades psicológicas básicas; valores do trabalho; compromisso com a pesquisa científica

ABSTRACT

This study aimed to examine the relationship between doctoral supervisors’ support and business doctoral students’ commitment to scientific research, as mediated by work values. Examining supervisory support through the lens of Basic Psychological Needs Theory (BPNT) provides insights into how contextual factors, such as supervisory support, and personal factors, such as work values, influence commitment to scientific research. By simultaneously integrating these elements, the study highlights the underlying mediating mechanisms and reinforces the supervisor’s role as a facilitator of students’ academic development. The relevance of this topic lies in understanding supervisory support as a factor that influences doctoral students’ commitment to research, thereby contributing to the scientific advancement of the business field. Such support is associated with students’ motivation, well-being, and personal and professional development, while also shaping their work values. Supervisory support for autonomy, competence, and relatedness, as proposed by BPNT, provides a reflective framework for graduate programs to develop guidelines that reconcile scientific productivity with students’ psychological needs, thereby enhancing supervisory outcomes. Using a quantitative approach, data from 503 business doctoral students were analyzed through partial least squares structural equation modeling (PLS-SEM). The findings indicate that supervisory support constitutes an important contextual factor in strengthening business doctoral students’ commitment to scientific research. Competence support has a direct and positive effect on research commitment, whereas relatedness support exerts an indirect effect through intrinsic work values. These findings provide valuable insights for improving supervisory practices and fostering academic environments that better support the development of developing researchers.

Keywords:
supervisory support; doctoral education; basic psychological needs; work values; commitment to scientific research

1.INTRODUÇÃO

A interação entre orientador e orientando é discutida na literatura como fator significativo para a satisfação do aluno e seu êxito na pós-graduação (Van Rooij et al., 2021). Os estudantes relatam maior satisfação quando percebem que o orientador está disponível, seja por meio da presença física, de reuniões frequentes, de respostas aos e-mails ou de feedbacks contínuos sobre suas pesquisas (Van Rooij et al., 2021). Além disso, os suportes do orientador influenciam diretamente os resultados e as experiências acadêmicas dos estudantes (Curtin et al., 2016; De Clercq et al., 2021; Overall et al., 2011).

Não raramente, o processo de orientação e a relação orientador-orientando são secundarizados ou até mesmo negligenciados (Nóbrega, 2018). Em geral, os programas de pós-graduação não têm diretrizes específicas que norteiem o processo de orientação e, por isso, as experiências de orientação nos cursos de mestrado e doutorado resultam, em grande parte, das iniciativas individuais de cada docente ao longo de sua trajetória acadêmica (Eby et al., 2007). E mais, o processo de orientação é tratado como se não desencadeasse vínculos diretos entre essas duas pessoas, que, por vezes, se estendem por anos e dos quais se depende para a finalização exitosa dos produtos derivados das dissertações e teses (Nóbrega, 2018).

No Brasil, alguns estudos se dedicaram a compreender a relação orientador-orientando na pós-graduação. Especificamente, na área de negócios, Leite e Martins (2006) analisaram a relação orientador-orientando e suas influências no processo de produção de teses e dissertações dos programas de pós-graduação stricto sensu em contabilidade; Falaster et al. (2017) estudaram o efeito da orientação na produção científica dos alunos de doutorado em administração; Machado et al. (2018) se preocuparam com as características ideais do orientador e orientando nos cursos stricto sensu em contabilidade; Meurer et al. (2021) estudaram como os egressos de mestrado percebem os sentimentos vivenciados nas diferentes fases de orientação das dissertações em contabilidade; Martins et al. (2021) analisaram a influência da relação orientador-orientando nos sintomas da síndrome de burnout em cursos stricto sensu em contabilidade.

Em conjunto, esses estudos evidenciaram a relevância da temática da orientação acadêmica nos programas de pós-graduação da área de negócios e contribuíram para a compreensão de diferentes aspectos desse processo. A presente pesquisa insere-se nesse campo de investigação ao adotar a teoria das necessidades psicológicas básicas (TNPB) como lente teórica para a análise da relação orientador-orientando. Trata-se de uma estrutura teórica robusta, amplamente utilizada para explicar fenômenos, até mesmo aqueles relacionados à vida acadêmica (Guay, 2022).

A TNPB ajuda a compreender a influência do contexto social na satisfação das necessidades básicas das pessoas, preconizando ser necessário que os indivíduos vivenciem um contexto de suporte para que as necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência e relacionamento sejam satisfeitas (Deci & Ryan, 2000). Além disso, essa teoria defende que o contexto social pode oferecer suporte ou frustrar tais necessidades e, com isso, influenciar a motivação do indivíduo (Deci & Ryan, 2000; Van der Linden et al., 2018).

A TNPB é adotada neste estudo como uma estrutura de reflexão para compreender as particularidades da relação orientador-orientando na pós-graduação, uma vez que os orientadores atuam como agentes centrais do contexto social acadêmico, podendo oferecer suporte ou frustrar a satisfação das necessidades psicológicas básicas dos orientandos (Devos et al., 2015; Van Rooij et al., 2021). Assim, os suportes oferecidos pelo orientador são operacionalizados a partir de três dimensões: suporte à autonomia, suporte à competência e suporte ao relacionamento.

Estudos pregressos destacaram que as ações de suporte do orientador no contexto da pós-graduação são nudges significativos para melhorar a experiência acadêmica do aluno. Overall et al. (2011) evidenciaram que o suporte do orientador à autonomia e à competência contribui para níveis altos de autoeficácia na pesquisa. Para Devos et al. (2015) , o suporte à autonomia pode levar a maior motivação e engajamento, enquanto a frustração da autonomia conduz ao abandono do curso. Chemers et al. (2011) indicaram que o suporte do orientador prediz indiretamente o comprometimento com a carreira científica, evidenciando que a qualidade da relação orientador-orientando pode funcionar tanto como antecedente quanto como preditor do engajamento do estudante em atividades de pesquisa.

No entanto, ainda persiste uma lacuna de investigação sobre como os orientadores e alunos constroem um contexto social de suporte à autonomia, à competência e ao relacionamento no ambiente da pós-graduação (Janssen et al., 2021), assim como sobre o papel do orientador na formação de pesquisadores ativos com interesse e gosto pela pesquisa científica durante e após a conclusão do curso (Sinclair et al., 2014).

Considerando-se que, no Brasil, não há especificamente o desenvolvimento de uma carreira científica, tal interesse e gosto pela pesquisa são denominados, neste estudo, de “compromisso com a pesquisa científica”, entendido como uma ocupação profissional acadêmica. Desse modo, utiliza-se o termo “compromisso com a pesquisa científica” para se referir ao interesse dos estudantes em trabalhar para o desenvolvimento da ciência (Chemers et al., 2011), por meio de atividades relacionadas à elaboração, divulgação e publicação de pesquisas científicas na área de negócios, independentemente de sua inserção na carreira acadêmica.

Assim, não se pode pressupor que todos os estudantes tenham como objetivo seguir a carreira acadêmica, tampouco que o processo de orientação determine escolhas profissionais prévias, mas que os suportes do orientador, oferecidos no contexto da pós-graduação, possam influenciar o modo como a pesquisa científica é incorporada como uma prática profissional ao longo da trajetória do estudante.

Outro aspecto importante é que os alunos são influenciados pelos valores dos grupos aos quais pertencem (Estrada et al., 2011). Nessa perspectiva, os orientadores “são os principais agentes de socialização que transmitem o conhecimento científico e os valores profissionais aos jovens pesquisadores, através da sua representação e integração na comunidade acadêmica” (Lam & Campos, 2015, p. 832). A socialização, portanto, envolve a aprendizagem de valores (Zanelli et al., 2014). Por isso, os orientadores podem influenciar os valores do trabalho dos seus orientandos ao compartilhar os objetivos da pós-graduação e da comunidade científica e, com isso, influenciar ocupações profissionais acadêmicas.

Valores do trabalho consistem em objetivos ou recompensas que as pessoas buscam, os quais podem ser influenciados pela experiência pessoal e pelo contexto cultural em que estão inseridos (Porto & Pilati, 2010). No ambiente acadêmico, os valores do trabalho estão relacionados ao engajamento no trabalho (Sortheix et al., 2013), à autoeficácia na decisão de carreira e à satisfação acadêmica (Doo & Park, 2019). Pesquisas empíricas demonstraram que os valores do trabalho têm impacto nos planos e nas decisões relativas às ocupações profissionais do indivíduo e também são fundamentais para a motivação e para o compromisso (Gesthuizen et al., 2019).

Posto isso, é razoável acreditar que os valores do trabalho sejam preditores das ocupações profissionais dos estudantes e que os suportes recebidos do orientador possam influenciar os valores do trabalho e o compromisso com a pesquisa científica de seus orientandos. Assim, neste estudo, busca-se responder à seguinte questão de pesquisa: qual a relação entre os suportes oferecidos pelo orientador e o compromisso com a pesquisa científica de doutorandos da área de negócios, quando mediada pelos valores do trabalho?

Ao explorar a relação entre orientador e orientando por meio da TNPB, o estudo amplia a compreensão sobre como os suportes oferecidos pelo orientador impactam o compromisso com a pesquisa científica de doutorandos da área de negócios, fortalecendo a aplicação da TNPB no contexto da pós-graduação stricto sensu no Brasil. Além disso, fornece elementos para que o corpo docente (experiente ou pouco experiente) identifique os suportes necessários no processo de orientação de teses, direcionando esforços para promover maior socialização acadêmica e o desenvolvimento profissional dos orientandos.

Do ponto de vista prático, a compreensão dos suportes envolvidos no processo de orientação ajuda os programas de pós-graduação a desenvolver diretrizes para melhorar os resultados provenientes das orientações diretas. Adicionalmente, ao considerar os valores do trabalho como mecanismo mediador entre os suportes do orientador e o compromisso com a pesquisa, o estudo também oferece uma contribuição teórica importante, articulando fatores contextuais e pessoais em um mesmo modelo conceitual testado empiricamente.

REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 TNPB

A TNPB sustenta que a motivação do indivíduo deve ser compreendida a partir das necessidades de autonomia, competência e relacionamento (Deci & Ryan, 2000). Essas necessidades podem ser apoiadas ou frustradas pelo contexto social, o que influencia tanto a motivação intrínseca quanto o processo de internalização da motivação extrínseca.

Para que as necessidades psicológicas básicas sejam satisfeitas, é necessário um contexto de suporte que disponha de recursos capazes de atender às demandas dos indivíduos ao longo de seu desenvolvimento (Van der Linden et al., 2018). A noção de “suporte às necessidades básicas” descreve as circunstâncias dos contextos sociais que afetam a motivação, o bem-estar e o desempenho (Deci et al., 2017). Nessa perspectiva, o contexto social compreende tanto a estrutura do ambiente quanto as pessoas nele envolvidas.

Nessa lógica, a TNPB aplica-se aos aspectos da relação orientador-orientando. Se é necessário um contexto social que forneça suporte para a satisfação das necessidades psicológicas básicas do indivíduo, na relação orientador-orientando, o suporte do orientador também pode representar uma variável importante para o desenvolvimento acadêmico dos alunos.

No contexto da pós-graduação, o suporte à autonomia pode ser percebido quando o orientador incentiva o senso de identidade dos estudantes nas ações realizadas, oferecendo oportunidades para que tenham iniciativa própria e façam escolhas relacionadas à sua pesquisa, encorajando sua perspectiva e evitando impor controle excessivo sobre cada etapa do processo acadêmico (Devos et al., 2015; Van Rooij et al., 2021).

O suporte à competência refere-se ao incentivo à aprendizagem, à comunicação clara dos resultados esperados e às orientações sobre como alcançá-los, sendo identificado quando o orientador explicita suas expectativas, oferece feedback construtivo e estimula o desenvolvimento de habilidades acadêmicas (Zeinstra et al., 2023).

Por fim, o suporte ao relacionamento refere-se ao estabelecimento de vínculos interpessoais que fazem com que os alunos se sintam parte do ambiente social da pós-graduação, identificado por meio do afeto, da empatia, da compreensão, da amizade e da escuta do orientador em relação aos seus orientandos (Devos et al., 2015; Zeinstra et al., 2023).

Nesse sentido, a qualidade da relação orientador-orientando pode ser compreendida a partir do suporte às necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência e relacionamento dos alunos (Janssen et al., 2021). Conforme argumentam Devos et al. (2015, p. 441), a utilização de uma teoria sólida “oferece uma compreensão mais profunda dos processos psicológicos subjacentes à relação entre o suporte do orientador e os resultados dos alunos”. Assim, a adoção de uma fundamentação teórica consistente mostra-se essencial para a compreensão do contexto da orientação.

2.2 Hipóteses e Modelo Teórico da Pesquisa

No contexto da pós-graduação, alguns estudos (Devos et al., 2015; Litalien & Guay, 2015; Su, 2019; Van der Linden et al., 2018) utilizaram a vertente da TNPB para investigar os efeitos do suporte do orientador nas experiências de aprendizagem dos estudantes de doutorado, com o intuito de compreender melhor como os suportes à autonomia, à competência e ao relacionamento são incorporados nesse contexto específico.

Devos et al. (2015) , ao analisarem os três tipos de suporte da TNPB, demonstraram que o suporte à autonomia pode levar a maior motivação e engajamento do orientando, o suporte à competência pode amenizar os desafios encontrados na pós-graduação, e o suporte ao relacionamento possibilita criar uma conexão entre orientador e orientando que tende a favorecer trabalhos bem-sucedidos.

Litalien e Guay (2015) evidenciaram que os suportes do orientador influenciam indiretamente a persistência nos estudos de doutorado, indicando que alunos que concluíram o curso perceberam interações mais frequentes de suporte às suas necessidades psicológicas básicas. Além disso, uma maior percepção de suporte contribuiu para que os doutorandos se sentissem mais eficazes em seus estudos. Resultados semelhantes foram encontrados por Van der Linden et al. (2018) , que também identificaram efeitos positivos do suporte do orientador sobre as intenções de persistência no doutorado.

Su (2019) constatou que os suportes do orientador estão positivamente relacionados à satisfação das necessidades dos doutorandos. O estudo indicou que a ausência de suporte do orientador tende a gerar efeitos negativos na aprendizagem, os quais podem ser atenuados quando os estudantes desenvolvem estratégias de autoconfiança e buscam apoio entre seus pares para lidar com necessidades não atendidas no processo de orientação.

Ainda que não fundamentados na TNPB, estudos anteriores também evidenciam os efeitos positivos dos suportes fornecidos pelo orientador sobre desfechos acadêmicos e profissionais. Chemers et al. (2011) identificaram efeitos indiretos e positivos do suporte do orientador sobre o compromisso com a carreira científica, enquanto Curtin et al. (2016) e German et al. (2019) verificaram que tais suportes influenciam positivamente o interesse dos estudantes em seguir a carreira acadêmica.

Portanto, de modo geral, a literatura pregressa indica que os suportes do orientador constituem variáveis relevantes na experiência do doutorado, influenciando a aprendizagem, a persistência no curso e, consequentemente, os aspectos relacionados ao desenvolvimento acadêmico e profissional dos estudantes. Nesse sentido, a hipótese H1 sustenta que:

H1: os suportes do orientador para (a) autonomia, (b) competência e (c) relacionamento exercem efeitos positivos no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado.

O compromisso com a pesquisa científica refere-se ao interesse e à identificação do indivíduo com a atividade de pesquisa, podendo se manifestar em diferentes contextos profissionais, até mesmo fora da carreira acadêmica formal. Ainda assim, a literatura empírica tem investigado esse interesse predominantemente a partir da intenção de seguir a carreira acadêmica. Estudos como os de Chemers et al. (2011) , Curtin et al. (2016) e German et al. (2019) evidenciaram que os suportes oferecidos pelos orientadores estão associados a uma maior propensão dos orientandos a seguir uma carreira acadêmica.

Contudo, German et al. (2019) observaram que estudantes de doutorado, independentemente do nível de satisfação com os suportes do orientador, ainda manifestavam intenção de se candidatar a posições acadêmicas. Esse achado revela que, embora o suporte do orientador represente um fator contextual importante nas escolhas profissionais, tais decisões também podem ser influenciadas por expectativas e objetivos individuais que os estudantes desejam alcançar ao longo de suas trajetórias profissionais.

A pós-graduação é um período de transição do contexto educacional para o profissional e, por isso, é vista como uma etapa preparatória na qual os estudantes avaliam o grau de adequação das ocupações profissionais acadêmicas às suas aspirações pessoais e profissionais (Curtin et al., 2016). Por isso, fatores contextuais e pessoais são apontados como determinantes para as escolhas dos alunos no campo profissional e educacional (Atitsogbe & Bernaud, 2022). Em termos contextuais, estudos como os de Chemers et al. (2011) , Curtin et al. (2016) e German et al. (2019) apontam que os orientadores podem influenciar a trajetória e as escolhas ocupacionais de seus orientandos. Em termos pessoais, a literatura destaca a importância dos valores do trabalho como cruciais nas decisões ocupacionais dos estudantes (Sulistiobudi & Hutabarat, 2022).

Os valores do trabalho indicam aspectos importantes e preferenciais para o indivíduo no contexto ocupacional, pois atuam como “motores secundários de ação que são determinados pelas necessidades, bem como pela socialização, cognição e experiência” (Kooij et al., 2011, p. 199). São como recursos pessoais que podem ajudar na transição do estudante para a ocupação profissional ou carreira escolhida (Sortheix et al., 2013). Agbonlahor et al. (2021) mencionam que as preferências de carreira dos alunos começam a se desenvolver ao longo do período de pós-graduação, e que a escolha das diferentes ocupações profissionais pode ser influenciada por uma variedade de fatores. Logo, considerando que o “compromisso com a pesquisa científica” é uma ocupação profissional acadêmica, supõe-se que os valores do trabalho exerçam influência relevante sobre esse compromisso.

Aliado a isso, conjectura-se que os suportes oferecidos pelo orientador também exercem alguma influência sobre os valores do trabalho de seus orientandos. Embora os valores do trabalho tenham um caráter pessoal, são construídos pelas necessidades e pelo processo de socialização do indivíduo e, por isso, não podem ser simplesmente limitados à experiência individual (Zanelli et al., 2014). Durante a pós-graduação, o processo de integração e socialização do aluno na comunidade acadêmica é, em grande parte, liderado pelo orientador, que assume o papel de transmitir os valores profissionais e enriquecer a experiência do estudante que está ingressando na comunidade acadêmica (Lam & Campos, 2015).

Agbonlahor et al. (2021) destacam que as experiências vividas no doutorado funcionam como um período de socialização antecipada e que os alunos que trabalham mais de perto com o corpo docente tendem a receber uma preparação mais sólida para futuras ocupações acadêmicas. Assim, os contextos de suporte experienciados ao longo do doutorado podem influenciar a formação dos objetivos profissionais e a trajetória profissional dos estudantes.

Ao oferecer suporte à autonomia, à competência e ao relacionamento, os orientadores tendem a compartilhar com os alunos uma visão concreta da vida acadêmica e das ocupações profissionais acadêmicas (Austin, 2002), o que, por sua vez, contribui para o desenvolvimento e a consolidação dos valores do trabalho dos estudantes. Desse modo, ao analisar a relação entre os suportes oferecidos pelo orientador e o compromisso com a pesquisa científica, é razoável supor que essa relação também possa ocorrer por meio da influência desses suportes sobre os valores do trabalho dos orientandos, os quais, por sua vez, influenciam significativamente o compromisso com a pesquisa.

Os valores do trabalho são tradicionalmente classificados em intrínsecos e extrínsecos. Valores intrínsecos referem-se aos objetivos que os indivíduos buscam alcançar por meio do trabalho, como realização pessoal, crescimento e desafios profissionais, enquanto valores extrínsecos estão relacionados a recompensas externas, como estabilidade e independência financeira (Porto & Pilati, 2010). Doo e Park (2019) apontam que estudantes orientados por valores intrínsecos costumam fazer escolhas por ocupações profissionais que se alinhem aos seus interesses acadêmicos e promovam satisfação; aqueles guiados por valores extrínsecos buscam ocupações profissionais que gerem recompensas externas como realizações materiais e prestígio.

Estudantes de doutorado ingressam na pós-graduação em busca de recompensas, sejam essas intrínsecas ou extrínsecas (Agbonlahor et al., 2021). Tradicionalmente, as ocupações profissionais acadêmicas são frequentemente associadas a pessoas orientadas por valores intrínsecos (Teichler et al., 2013). Nessa lógica, conjectura-se que:

H2: os suportes do orientador para (a) autonomia, (b) competência e (c) relacionamento exercem efeitos positivos no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado quando mediados pelos valores intrínsecos do trabalho.

As ocupações profissionais acadêmicas, como o compromisso com a pesquisa científica, são, em geral, vistas como atraentes por envolverem desafios intelectuais, realização pessoal e oportunidades de crescimento, características tradicionalmente vinculadas aos valores intrínsecos do trabalho. Porém, recompensas externas, como independência financeira, estabilidade e prestígio, também são aspectos importantes que merecem ser considerados e que se referem aos valores extrínsecos do trabalho.

Apesar de a literatura não associar os valores extrínsecos às ocupações profissionais acadêmicas, supõe-se que estudantes motivados por valores extrínsecos também podem perceber as ocupações acadêmicas como atraentes, ao considerar a possibilidade de obter alguma recompensa externa por meio dessas. Por exemplo, um aluno orientado por valores extrínsecos, em algum momento de sua trajetória acadêmica, pode apresentar compromisso com a pesquisa científica ao perceber que essa atuação pode favorecer sua progressão profissional, o acesso a posições acadêmicas estáveis ou a cargos que envolvam reconhecimento social e retorno financeiro.

Nessa perspectiva, Sousa e Colauto (2021) destacaram que valores extrínsecos, especialmente aqueles relacionados à estabilidade no trabalho e à independência financeira, desempenham papel central nas escolhas ocupacionais dos estudantes da área de contabilidade. Essas descobertas podem estar associadas à natureza da amostra, uma vez que estudantes de pós-graduação costumam se encontrar em uma fase de desenvolvimento profissional marcada pela busca por progressão na carreira, maior remuneração e segurança financeira.

Diante disso, conjectura-se que os valores extrínsecos também podem direcionar os estudantes a um compromisso com a pesquisa científica, quando vislumbram uma recompensa externa. Assim, a H3 sustenta que:

H3 : os suportes do orientador para (a) autonomia, (b) competência e (c) relacionamento exercem efeitos positivos no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado quando mediados pelos valores extrínsecos do trabalho.

Nesse contexto, apresenta-se, na Figura 1, o modelo teórico relacional da pesquisa.

Figura 1
Modelo teórico relacional da pesquisa

METODOLOGIA

O estudo adotou uma abordagem quantitativa, de caráter descritivo, e utilizou como estratégia para a coleta de dados o levantamento. Os respondentes foram pós-graduandos de doutorado acadêmico do Brasil das áreas de administração, contabilidade e economia que estavam na fase de desenvolvimento da tese. O estudo foi restrito (1) às áreas de administração, contabilidade e economia porque essas consubstanciam a “área de negócios”; (2) ao período de desenvolvimento da tese porque se entende que há maior intensidade nas relações entre orientador e orientando nessa fase do doutorado. Essas delimitações implicam restrições à generalização dos resultados para outros contextos acadêmicos e áreas do conhecimento.

Para identificar os respondentes, foi realizada uma busca pelos programas de doutorado acadêmico na área de negócios (administração, contabilidade e economia) no website da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). De acordo com a avaliação quadrienal 2017-2020 da CAPES, essas áreas contavam com 95 programas e 4.743 alunos matriculados. Para a coleta de dados, o questionário foi inicialmente enviado às coordenações dos 95 programas para divulgação direcionada aos alunos. Posteriormente, os e-mails dos 4.743 alunos foram coletados na Plataforma Sucupira, o que possibilitou o envio direto da pesquisa.

Como nem todos os alunos matriculados estavam desenvolvendo a tese, foi incluída uma pergunta-filtro no questionário. Apenas aqueles que indicaram estar em fases correspondentes ao desenvolvimento da tese puderam prosseguir no preenchimento do instrumento. As opções apresentadas incluíam: início da redação, ajustes após qualificação, ajustes pós-defesa ou submissão da produção científica. Havia ainda um campo aberto para informar outras fases, permitindo aos pesquisadores verificar se se enquadravam no escopo da pesquisa.

A coleta de dados ocorreu de 13 de julho a 9 de agosto de 2023 por meio de um instrumento eletrônico aplicado online pela plataforma SurveyMonkey®. O estudo foi conduzido em conformidade com as normas éticas para pesquisa com seres humanos, assegurando os direitos e interesses dos participantes, sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética n. 69452023.8.0000.0214.

O instrumento de coleta de dados foi estruturado em três seções. A primeira seção identificou o nível educacional, a área e a fase do doutorado dos respondentes. A segunda seção avaliou os suportes do orientador, os valores do trabalho e o compromisso com a pesquisa científica, utilizando escalas de 11 pontos (0 = discordo totalmente; 10 = concordo totalmente) para todos os itens. A terceira seção teve como objetivo mapear o perfil sociodemográfico dos participantes.

Para mensurar os suportes do orientador, foi desenvolvido um instrumento adequado ao contexto brasileiro. Inicialmente, realizou-se uma revisão de literatura fundamentada nos estudos de Devos et al. (2015), Overall et al. (2011), Van der Linden et al. (2018) e Zeinstra et al. (2023), com o objetivo de construir uma tabela de referência, abrangendo a denominação das dimensões do construto, os itens para mensurá-las e os estudos que subsidiaram essa construção (Hair et al., 2019). Em seguida, o instrumento passou por validação em três etapas: (1) validação teórica ou de face; (2) validação semântica; e (3) validação empírica (Hair et al., 2019). Após a validação, o instrumento contou com 21 itens, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1-
Itens que compuseram as dimensões do construto suportes do orientador

Para mensurar os valores do trabalho, foram utilizados 11 itens da Escala Revisada de Valores Relativos ao Trabalho, de Porto e Pilati (2010) , correspondentes às dimensões “segurança” e “autodeterminação e estimulação”. Essas dimensões representam, respectivamente, os valores extrínsecos e intrínsecos, amplamente empregados em estudos sobre valores do trabalho. Os itens que compuseram o construto valores do trabalho são apresentados na Tabela 2.

Tabela 2 -
Itens que compuseram o construto valores do trabalho

Para mensurar o compromisso com a pesquisa científica, foi utilizada parte da Escala de Comprometimento com a Carreira, desenvolvida por Carson e Bedeian (1994) e validada para o contexto brasileiro por Magalhães (2013) . A escala foi ajustada para refletir especificamente aspectos relacionados à pesquisa científica, sendo utilizados nove itens nesta pesquisa, conforme apresentado na Tabela 3.

Tabela 3-
Itens que compuseram o construto compromisso com a pesquisa científica

Ressalta-se que todas as adaptações do instrumento foram analisadas e validadas por dois professores doutores com experiência em educação contábil e por dois doutorandos da área de negócios que avaliaram sua clareza e a necessidade de ajustes adicionais.

Na análise dos dados, foram aplicadas técnicas de estatística descritiva por meio do software IBM SPSS Statistics® versão 22 e a técnica multivariada de modelagem de equações estruturais (MEE) por mínimos quadrados parciais por meio do software SmartPLS® 3.2.9. A amostra mínima estimada para utilizar a MEE foi calculada com o software G*Power 3.1.9.7®, o qual indicou um número mínimo de 138 respondentes [os parâmetros utilizados foram: effect size f2 = 0,15; α err prob = 0,05; power (1-β err prob) = 0,95; number of predictors = 5].

RESULTADOS

4.1 Caracterização dos Respondentes

Foram obtidas 503 respostas válidas, com predominância de respondentes do gênero masculino (51,9%). A maioria dos participantes estava na faixa etária de 26 a 36 anos (55,9%), e a maior parte cursava doutorado na área de administração (63%), seguida pelas áreas de economia (21,1%) e ciências contábeis (15,9%). Quanto às características acadêmicas, 68% estavam matriculados em universidades públicas. Com relação à orientação, 67,4% nunca pensaram em trocar de orientador, 20,7% já consideraram essa possibilidade e 11,9% precisaram efetivamente realizar a troca. Com relação ao curso de doutorado, 45,3% dos respondentes relataram ter cogitado desistir.

4.2 Modelo de Mensuração

Na primeira etapa, foram avaliadas as cargas fatoriais dos indicadores, resultando na remoção de três itens com cargas inferiores a 0,708, conforme indica Hair et al. (2021) . Os itens com cargas próximas ao limite (λ = 0,654; λ = 0,685) foram mantidos, uma vez que sua exclusão não promoveu ganhos na consistência interna nem na validade convergente do modelo (Hair et al., 2021).

Na segunda etapa, avaliou-se a consistência interna por meio do alfa de Cronbach e da confiabilidade composta. Já na terceira etapa, a validade convergente foi avaliada por meio da variância média extraída [average variance extracted (AVE)] (Hair et al., 2021). Em seguida, a validade discriminante foi avaliada pelo critério de Fornell-Larcker, que exige que a raiz quadrada da AVE de cada construto seja maior que suas correlações com os demais, e pela razão heterocaracterística-monocaracterística [heterotrait-monotrait ratio (HTMT)], considerada uma abordagem mais robusta (Hair et al., 2021). O HTMT deve ser inferior a 0,9 para construções conceituais semelhantes e a 0,85 para diferentes.

Na Tabela 4 são apresentados os valores referentes aos modelos de mensuração.

Tabela 4 -
Modelo de mensuração

Conforme a Tabela 4, todos os construtos demonstraram adequada consistência interna, com alfa de Cronbach e confiabilidade composta acima de 0,7, bem como validade convergente satisfatória, indicada por AVE superior a 0,5, conforme Hair et al. (2021) . Adicionalmente, a raiz quadrada da AVE superou a variância compartilhada (cargas cruzadas), e os valores do HTMT ficaram abaixo dos limites estabelecidos, confirmando a validade discriminante e reforçando a solidez do modelo de mensuração.

4.3 Modelo Estrutural

A avaliação do modelo estrutural no partial least squares - structural equation modeling (PLS-SEM) considera a significância e relevância dos coeficientes de caminho, além do poder explicativo e preditivo do modelo (Hair et al., 2021). Esse processo incluiu: (a) análise da colinearidade via variance inflation factor (VIF); (b) significância e relevância dos coeficientes de caminho; (c) coeficiente de determinação (R²); e (d) tamanho do efeito (f²). Os valores desses indicadores iniciais são apresentados na Tabela 5.

Tabela 5-
Indicadores do modelo estrutural

Valores de VIF superiores a 5 indicam possíveis problemas de colinearidade entre os construtos preditores (Hair et al., 2021). Os resultados mostraram VIF inferiores a esse limite, indicando a ausência de colinearidade. Quanto ao poder explicativo do modelo (R²), o construto “compromisso com a pesquisa científica” apresentou uma variância explicada considerada grande. Já em termos de tamanho do efeito (f2), o construto “valores intrínsecos” apresentou um efeito grande na explicação do compromisso com a pesquisa científica.

A significância e a relevância dos coeficientes dos caminhos estruturais foram avaliadas por meio de bootstrapping com 5.000 subamostras, utilizando nível de confiança corrigido para viés e teste bicaudal.

Na Tabela 6 apresenta-se a avaliação do modelo estrutural.

Tabela 6-
Modelo estrutural

4.4 Discussão dos Resultados

Ao verificar especificamente se o suporte para a autonomia exerce efeito positivo no compromisso com a pesquisa científica (H1a), observa-se que essa relação foi estatisticamente não significativa (β = -0,039; p = 0,682). Desse modo, os resultados evidenciaram que o suporte do orientador à autonomia não exerce efeito sobre o compromisso com a pesquisa científica de doutorandos da área de negócios participantes desta pesquisa.

Sabe-se que o suporte à autonomia fornecido pelo orientador estimula o envolvimento ativo dos alunos na pesquisa e na definição de metas acadêmicas, promovendo maior apropriação e motivação (Van Rooij et al., 2021). Embora Overall et al. (2011) tenham encontrado que o suporte à autonomia contribui para níveis mais elevados de autoeficácia na pesquisa, os achados da presente investigação indicam que, isoladamente, não é suficiente para promover o compromisso com a pesquisa científica.

Devos et al. (2015) mencionam que, na lógica da TNPB, se o orientador concede muita autonomia sem a devida orientação, os alunos podem se sentir perdidos e inseguros em relação às suas escolhas, o que, por sua vez, pode comprometer o seu compromisso com a pesquisa científica.

Nesse sentido, Overall et al. (2011) destacaram que uma orientação eficaz deve equilibrar suporte à autonomia e suporte à competência, permitindo que os alunos desenvolvam suas próprias ideias enquanto aprimoram as habilidades necessárias às atividades que lhes são demandadas.

Com relação à hipótese H1b, os resultados revelaram que o suporte do orientador à competência exerceu efeito positivo e significativo sobre o compromisso com a pesquisa científica de doutorandos da área de negócios (β = 0,380; p = 0,000), confirmando a hipótese proposta. Esse achado representa um avanço em relação à literatura que, até o momento, havia identificado apenas a influência indireta do suporte à competência no compromisso com a carreira científica (Chemers et al., 2011). Além disso, essa descoberta se alinha a outros estudos que, muito embora não fundamentados na TNPB, confirmaram a influência positiva do suporte à competência na formação da identidade científica (Chemers et al., 2011) e na autoeficácia de carreira (Curtin et al., 2016).

A pesquisa, portanto, fornece evidências adicionais ao revelar uma influência direta e positiva do suporte à competência no compromisso de doutorandos com a pesquisa científica. Tal descoberta reforça o entendimento de que, ao fornecer feedback construtivo, estar disponível para discutir técnicas e habilidades de pesquisa, e comunicar claramente suas expectativas, o orientador ajuda os alunos a se sentirem mais competentes em suas atividades de pesquisa, promovendo o comprometimento dos alunos com a pesquisa científica.

Quanto ao suporte do orientador para o relacionamento, esse não exerceu efeito positivo sobre o compromisso com a pesquisa (H1c), dada a relação estatisticamente não significativa (β = -0,162; p = 0,098). O suporte ao relacionamento, isoladamente, não se mostrou capaz de predizer o compromisso com a pesquisa científica. À luz da TNPB, esse tipo de suporte foca na qualidade da relação interpessoal entre orientador e orientando. Reconhecido como relevante para a criação de um ambiente seguro e acolhedor, o suporte ao relacionamento tende a funcionar como um “pano de fundo” que favorece o bem-estar e o desenvolvimento saudável dos alunos. Por isso, os estudos têm associado esse tipo de suporte à satisfação do aluno (Overall et al., 2011) e à persistência no curso de doutorado (Van der Linden et al., 2018).

Overall et al. (2011) argumentam que o suporte ao relacionamento deve ser fortemente considerado pelos orientadores, por ser um preditor da satisfação e do bem-estar dos alunos. Os autores sugerem que um maior suporte ao relacionamento pode resultar em diversas vantagens, como experiências positivas de pesquisa, capacidade de adaptação diante de dificuldades e promoção indireta da autoeficácia na pesquisa, uma vez que os alunos enxergam na orientação um ambiente no qual podem buscar ajuda quando necessário.

Os achados evidenciados nessas hipóteses sugerem que, no contexto do doutorado em negócios, o compromisso com a pesquisa científica está menos associado à autonomia ou ao relacionamento interpessoal e mais à percepção de desenvolvimento efetivo das competências necessárias à atividade científica. Esse resultado pode decorrer das características próprias dos programas de doutorado na área de negócios, nos quais a pressão por produtividade, desempenho metodológico e resultados concretos torna o suporte à competência mais evidente do que outros tipos de suporte.

Adicionalmente, estudos sugerem que o impacto dos suportes fornecidos pelo orientador na experiência acadêmica dos doutorandos é mediado por variáveis pessoais dos estudantes (De Clercq et al., 2021; Litalien & Guay, 2015), o que implica que o efeito do suporte pode variar conforme as especificidades individuais dos alunos. Esse é um ponto crucial tanto para as pesquisas quanto para as práticas acadêmicas.

A hipótese H2 da pesquisa preconizava que “os suportes do orientador para (a) autonomia, (b) competência e (c) relacionamento exercem efeitos positivos no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado quando mediados pelos valores intrínsecos do trabalho”. No entanto, os resultados indicaram que os valores intrínsecos do trabalho não funcionaram como uma variável mediadora na relação entre o suporte à autonomia e o compromisso com a pesquisa científica (β = -0,021; p = 0,695), nem na relação entre o suporte à competência e o compromisso com a pesquisa científica (β = -0,031; p = 0,456). Tais relações não foram significativas, não suportando, portanto, as hipóteses H2a e H2b.

Em contrapartida, os resultados revelaram que os valores intrínsecos do trabalho exerceram influência mediadora na relação entre o suporte ao relacionamento e o compromisso com a pesquisa científica (β = 0,163; p = 0,003). Desse modo, a mediação foi aceita, indicando que o suporte do orientador para o relacionamento exerce efeito positivo no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado quando mediado pelos valores intrínsecos do trabalho (H2c). Esse achado é relevante porque confirma a importância do suporte ao relacionamento no processo de orientação, conforme mencionado por Overall et al. (2011) . Nota-se que, embora não haja relação direta entre o suporte ao relacionamento e o compromisso com a pesquisa científica, esse tipo de suporte influencia indiretamente esse compromisso por meio dos valores intrínsecos do trabalho.

De acordo com a TNPB, o suporte ao relacionamento envolve o estabelecimento de uma relação amigável, empática e saudável entre orientador e orientando, o que pode promover a sensação de pertencimento e segurança no orientando. Nesse sentido, o suporte ao relacionamento atua como um preditor da motivação intrínseca para o trabalho, aqui denominada valores intrínsecos do trabalho.

Os valores intrínsecos do trabalho referem-se à busca por ocupações profissionais que são gratificantes e prazerosas em si mesmas (Porto & Pilati, 2010). Quando os alunos desenvolvem ou têm valores intrínsecos, eles objetivam ocupações profissionais que lhes possibilitem realização pessoal e permitam aprender, explorar novas ideias e contribuir para o conhecimento. Daí a explicação para a relação entre os valores intrínsecos do trabalho e o compromisso com a pesquisa científica, que implica identificação, dedicação contínua à pesquisa e ao avanço de determinada área do conhecimento.

Isso significa que estudantes intrinsecamente motivados para o trabalho encontram satisfação no próprio processo de investigação, na descoberta de novos conhecimentos e na contribuição para o avanço do campo. Essa motivação intrínseca pode ser uma fonte valiosa de comprometimento com a pesquisa científica, mesmo quando as recompensas extrínsecas, como financiamento ou reconhecimento, não são imediatas ou garantidas.

Com relação às recompensas extrínsecas, a hipótese H3 da pesquisa investigou se “os suportes do orientador para (a) autonomia, (b) competência e (c) relacionamento exercem efeitos positivos no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado quando mediados pelos valores extrínsecos do trabalho”. Os resultados dessa análise indicaram que os valores extrínsecos do trabalho não desempenharam o papel mediador em nenhuma das relações nas quais foram testados. Ao analisar especificamente se o suporte à autonomia exerce efeito positivo no compromisso com a pesquisa científica de estudantes de doutorado quando mediado pelos valores extrínsecos do trabalho (H3a), os resultados não demonstraram relação significativa (β = 0,015; p = 0,157). Semelhantemente, os valores extrínsecos do trabalho não desempenharam papel mediador na relação entre o suporte à competência e o compromisso com a pesquisa científica (H3b: β = -0,004; p = 0,506), nem na relação entre o suporte ao relacionamento e o compromisso com a pesquisa científica (H3c: β = -0,004; p = 0,548).

Os achados revelaram que os valores extrínsecos do trabalho não funcionam como uma variável mediadora da relação entre os suportes do orientador e o compromisso com a pesquisa científica. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que, quando os alunos são focados principalmente em recompensas externas, seu compromisso com a pesquisa científica pode ser afetado, pois a pesquisa envolve trabalho árduo, dedicação e interesse pelo tema, aspectos que vão além de recompensas externas imediatas.

A título de comparação, Sousa e Colauto (2021) constataram a predominância de valores extrínsecos entre estudantes de pós-graduação brasileiros da área de ciências contábeis, o que acende um sinal de alerta, uma vez que, no presente estudo, tais valores não se associaram ao compromisso com a pesquisa científica. Torna-se, portanto, pertinente refletir sobre como os cursos de doutorado da área de negócios e seus orientadores podem fomentar valores que fortaleçam o vínculo com a atividade científica, especialmente tendo em vista que os programas de doutorado acadêmico são concebidos para formar pesquisadores independentes e comprometidos com o avanço de suas áreas.

Em síntese, os resultados indicam que, no contexto do doutorado em negócios no Brasil, o compromisso com a pesquisa científica está mais associado à percepção de desenvolvimento de competências do que à autonomia ou ao relacionamento considerados isoladamente. Nessa perspectiva, doutorandos tendem a fortalecer seu compromisso com a pesquisa à medida que percebem avanços concretos em suas habilidades técnicas e em sua capacidade de produzir resultados academicamente reconhecidos. Esse achado sugere que os programas de doutorado devem dedicar maior atenção à formação de orientadores, promovendo boas práticas de orientação e valorizando o papel do orientador como facilitador do desenvolvimento acadêmico e profissional dos alunos.

A ausência de efeito direto do suporte à autonomia pode estar relacionada a características do contexto acadêmico nacional, ainda marcado por estruturas hierárquicas e trajetórias formativas mais direcionadas. Nessa realidade, níveis elevados de autonomia, quando não acompanhados de orientação clara, podem ser percebidos pelos doutorandos como distanciamento ou falta de direcionamento, o que contribui para explicar a ausência de associação significativa entre esse tipo de suporte e o compromisso com a pesquisa científica.

O suporte ao relacionamento não influenciou diretamente o compromisso com a pesquisa científica; entretanto, observou-se uma relação positiva e significativa ao considerar a mediação dos valores intrínsecos do trabalho. Esse resultado indica que interações baseadas em confiança, apoio emocional e empatia contribuem para fortalecer os valores intrínsecos dos estudantes, os quais parecem constituir um subsídio importante para o compromisso com a pesquisa científica. Em conjunto, esses achados sugerem que modelos fundamentados na TNPB podem assumir configurações específicas conforme o contexto nacional e disciplinar, demandando abordagens de orientação que integrem desenvolvimento técnico estruturado, apoio interpessoal e estratégias voltadas à promoção de valores intrínsecos.

CONCLUSÕES

Os resultados desta pesquisa evidenciaram que o suporte à competência exerce efeito direto e positivo sobre o compromisso com a pesquisa científica, enquanto os suportes à autonomia e ao relacionamento não apresentaram efeitos diretos significativos. No entanto, os valores intrínsecos do trabalho mediaram a relação entre suporte ao relacionamento e compromisso com a pesquisa científica, indicando que os aspectos interpessoais influenciam indiretamente o compromisso do estudante com a pesquisa. Os valores extrínsecos não atuaram como mediadores em nenhuma das relações testadas.

Em termos teóricos, o estudo contribui ao aplicar a TNPB (Deci & Ryan, 2000) à relação orientador-orientando, oferecendo uma análise mais profunda de como o contexto social da pós-graduação pode influenciar o progresso do aluno. Além disso, evidencia empiricamente a importância do suporte à competência, ampliando a discussão sobre orientação acadêmica e compromisso com a pesquisa científica, especialmente na área de negócios. Esse resultado conduz à reflexão de que os programas de doutorado devem se preocupar em capacitar seu corpo docente para oferecer esse tipo de suporte e fortalecer o desenvolvimento dos alunos.

A análise do compromisso com a pesquisa científica como ocupação profissional acadêmica permitiu considerar a pesquisa como um trabalho importante e necessário dentro do contexto acadêmico. Embora o suporte do orientador ao relacionamento não tenha influenciado diretamente o compromisso com a pesquisa científica, quando mediado pelos valores intrínsecos, apresentou efeito positivo e significativo. Assim, ao fornecer suporte interpessoal, os orientadores influenciam os valores intrínsecos dos alunos e, consequentemente, seu compromisso com a pesquisa científica, evidenciando a importância de valorizar as dimensões interpessoais da orientação para fomentar um ambiente acadêmico saudável e motivador.

Em termos de contribuições práticas e pedagógicas, os resultados fornecem subsídios para que os professores compreendam os tipos de suporte necessários no processo de orientação, visando ao desenvolvimento acadêmico e profissional dos alunos. Os colegiados dos programas de pós-graduação podem utilizar essas informações para elaborar diretrizes que atendam às necessidades dos estudantes, capacitar docentes e aprimorar as práticas de orientação, aumentando o desempenho, o engajamento e o compromisso dos doutorandos. Adicionalmente, o desenvolvimento do instrumento de mensuração dos suportes do orientador para a pós-graduação brasileira possibilita análises conjuntas com outras variáveis acadêmicas, oferecendo subsídios para melhorar a orientação de doutorado e o bem-estar dos estudantes.

Entre as limitações deste estudo, destaca-se que os dados refletem apenas a perspectiva dos alunos, são autorrelatados e foram coletados em caráter transversal. Além disso, os resultados são restritos à amostra da área de negócios, o que limita a generalização. Recomenda-se que pesquisas futuras adotem abordagens longitudinais e qualitativas, explorem a perspectiva de orientadores e pares e investiguem o impacto da frustração das necessidades de autonomia, competência e relacionamento durante o processo de orientação.

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Este é um texto bilíngue. Este artigo também foi traduzido para o idioma inglês, publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x20262475.en

Este artigo deriva de uma tese de doutorado defendida pela autora Rayane Camila da Silva Sousa, sob orientação do autor Romualdo Douglas Colauto, em 2023.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.

DECLARAÇÃO DE NÃO UTILIZAÇÃO DE IA

Os autores declaram que não utilizaram inteligência artificial generativa em nenhuma etapa da produção deste manuscrito (pesquisa, redação, análise de dados, fórmulas ou criação de elementos gráficos).

Editor-Chefe Acadêmico:

Andson Braga de Aguiar

Editor Associado:

Alison Martins Meurer

DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Set 2025
  • Aceito
    07 Out 2025
  • Aceito
    24 Mar 2026
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