RESUMO
Objetivos: construir, avaliar e testar cenário simulado usando a prática deliberada em ciclos rápidos para manejo da derivação ventricular externa no paciente pediátrico.
Métodos: estudo metodológico, com construção de cenário simulado baseado no conceito de engenharia dos cenários simulados e na NLN Jeffries Simulation Theory. O cenário foi apreciado por avaliadores, com cálculo do Coeficiente de Kappa Modificado e do Índice de Validade de Conteúdo, sendo testado com estudantes de enfermagem.
Resultados: construiu-se cenário com base em evidências atualizadas. Realizaram-se duas rodadas com sete avaliadores que apreciaram todos os elementos do cenário adequados, conforme as referências adotadas. No teste com o público-alvo, não houve necessidade de ajustes.
Conclusões: o cenário simulado baseado em evidências sobre o manejo da derivação ventricular externa em pediatria recebeu excelente avaliação dos avaliadores e do público-alvo durante a testagem. O uso da prática deliberada em ciclos rápidos mostrou-se promissor para o ensino-aprendizagem da temática.
Descritores:
Treinamento por Simulação; Enfermagem Pediátrica; Cuidados de Enfermagem; Derivações do Líquido Cefalorraquidiano; Treinamento com Simulação de Alta Fidelidade.
ABSTRACT
Objectives: to construct, assess, and test a simulated scenario using rapid-cycle deliberate practice for external ventricular drainage management in pediatric patients.
Methods: a methodological study, with the construction of a simulated scenario based on the concept of simulated scenario engineering and the NLN Jeffries Simulation Theory. The scenario was assessed by reviewers, who calculated the Modified Kappa Coefficient and Content Validity Index, and then tested it with nursing students.
Results: a scenario was constructed based on updated evidence. Two rounds were conducted with seven evaluators who assessed all elements of the scenario as appropriate, according to adopted references. In the test with the target audience, no adjustments were necessary.
Conclusions: the evidence-based simulated scenario on external ventricular drainage management in pediatrics received an excellent assessment from the evaluators and the target audience during testing. The use of rapid-cycle deliberate practice proved promising for teaching and learning the subject.
Descriptors:
Simulation Training; Pediatric Nursing; Nursing Care; Cerebrospinal Fluid Shunts; High Fidelity Simulation Training.
RESUMEN
Objetivos: construir, evaluar y probar un escenario simulado mediante práctica deliberada en ciclos rápidos para el manejo del drenaje ventricular externo en pacientes pediátricos.
Métodos: estudio metodológico, con la construcción de un escenario simulado basado en el concepto de ingeniería de escenarios simulados y la NLN Jeffries Simulation Theory. El escenario fue evaluado por revisores, quienes calcularon el Coeficiente Kappa Modificado y el Índice de Validez de Contenido, y lo probaron con estudiantes de enfermería.
Resultados: se construyó un escenario basado en evidencia actualizada. Se realizaron dos rondas con siete revisores, quienes evaluaron todos los elementos del escenario como adecuados, según las referencias adoptadas. En la prueba con el público objetivo, no fue necesario realizar ajustes.
Conclusiones: el escenario simulado basado en la evidencia sobre el manejo del drenaje ventricular externo en pediatría recibió excelentes evaluaciones de los evaluadores y del público objetivo durante la prueba. El uso de la práctica deliberada en ciclos rápidos resultó prometedor para la enseñanza y el aprendizaje del tema.
Descriptores:
Entrenamiento Simulado; Enfermería Pediátrica; Atención de Enfermería; Derivaciones del Líquido Cefalorraquídeo; Entrenamiento con Simulación de Alta Fidelidad.
INTRODUÇÃO
O julgamento clínico é uma habilidade não técnica que o enfermeiro precisa desenvolver devido à sua importância para o cuidado de enfermagem, que é permeado de tomadas de decisão clínicas diárias que exigem reflexão pautada em evidências para se obter resultados seguros e coerentes. Logo, como essa habilidade pode impactar profundamente os resultados dos pacientes, ela deve ser realizada de modo coeso, consistente, seguro e adequado, a fim de proporcionar um cuidado eficaz baseado em evidências(1-3).
No entanto, a falta de oportunidades para que estudantes e enfermeiros possam desenvolver e aperfeiçoar o seu julgamento clínico é destacada em estudos que mostram a necessidade de melhorar as experiências de aprendizagem(4). Portanto, é necessária a utilização de estratégias educacionais que permitam a prática repetitiva em um ambiente seguro e controlado, a fim de reforçar o processo de desenvolvimento do julgamento clínico desde a formação dos futuros enfermeiros(5,6). Isso irá favorecer a aquisição e desenvolvimento do conhecimento e de competências gerais, contribuindo para uma prática de excelência(7).
Nessa perspectiva, a simulação clínica, além de favorecer o aprimoramento de habilidades técnicas psicomotoras, contribui com o desenvolvimento de habilidades não técnicas, ao permitir o refinamento do pensamento crítico e reflexivo, possibilita a articulação de forma clara e coerente dos julgamentos clínicos que subsidiarão intervenções adequadas, entre outras. Os resultados da utilização dessa metodologia ativa são diversos, fornecendo segurança aos estudantes durante o seu desempenho, além de contribuir com o sistema de saúde, ao favorecer melhores resultados para os pacientes(8-10).
A simulação de alta fidelidade se sobressai face sua relevância e por proporcionar progresso no conhecimento e desempenho dos estudantes de enfermagem, principalmente em situações de atendimento onde o cenário é de gravidade. Tais resultados legitimam a importância e efetividade do uso dessa metodologia no processo formativo desse profissional(11).
Entre as estratégias de simulação clínica, destaca-se a prática deliberada em ciclos rápidos (PDCR), caracterizada por ciclos curtos e repetitivos de tarefas específicas, que são interrompidos brevemente sempre que há necessidade de correção. Nessas pausas, ocorre a oferta imediata de feedback diretivo, permitindo ao participante ajustar a prática, em tempo real, até atingir a maestria. Esse processo de alternância rápida entre prática, feedback e repetição favorece o aprimoramento contínuo das habilidades(12-14). Estudos prévios demonstram aumento na autoconfiança, na satisfação e nos desempenhos dos participantes quando utilizada a PDCR em atividades complexas(15).
Ao contrário da simulação tradicional, em que o feedback ocorre apenas após o término do cenário (debriefing pós-evento), na PDCR, o feedback é imediato e integrado ao momento da prática, permitindo correções rápidas e consolidação imediata das habilidades. Estudos prévios têm demonstrado maior efetividade da PDCR em melhorar o desempenho dos participantes em comparação com abordagens que oferecem feedback após o evento(16). Adicionalmente, outros estudos destacaram os efeitos positivos da PDCR para aumentar a aquisição de conhecimento sobre sepse em pediatria, aprimorar a execução de procedimentos médicos complexos e fortalecer a confiança no atendimento de trauma pediátrico(17-19).
Nessa perspectiva, o cuidado de enfermagem, diante do manejo adequado da derivação ventricular externa (DVE), é fundamental para reduzir riscos de complicações relacionados a essa situação. Dessa forma, utilizar uma metodologia de ensino que possibilite a ação imediata do participante com a execução de procedimentos que requerem habilidades para uma manipulação adequada e segura do sistema de DVE é de extrema importância(20).
Considerando a importância do cuidado minucioso acerca do manejo adequado da DVE, utilizar uma metodologia de ensino ativa que proporciona aos participantes a oportunidade de lapidar habilidades técnicas específicas e aprimorar a tomada de decisão em ambiente seguro e controlado contribui para o preparo de futuros profissionais para lidar de modo confiante e competente com situações reais, a fim de promover um cuidado seguro e eficaz.
OBJETIVOS
Construir, validar e testar um cenário simulado com o uso da PDCR para manejo da DVE no paciente pediátrico.
MÉTODOS
Aspectos éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas. Todos os participantes envolvidos no estudo assinaram consentimento de anuência online (avaliadores) e escrito (estudantes de enfermagem).
Desenho, período e local do estudo
Estudo metodológico, de abordagem quantitativa, seguindo as recomendações do Reporting guidelines for health care simulation research: extensions to the CONSORT and STROBE statements(21), compreendendo as etapas de construção de um cenário simulado utilizando a PDCR, sendo elas: 1) construção do cenário simulado baseado no conceito de engenharia dos cenários simulados(22) e na NLN Jeffries Simulation Theory(23); 2) apreciação do cenário por avaliadores com experiência nas áreas de interesse do estudo, encontrados por meio de busca na plataforma Lattes; e 3) teste do cenário simulado com o público-alvo.
O estudo foi realizado em universidade pública localizada no estado de São Paulo, Brasil, e aconteceu de maio a setembro de 2023.
População ou amostra; critérios de inclusão e exclusão
A etapa 2, apreciação do cenário construído por avaliadores, foi realizada integralmente de maneira online. Os avaliadores foram selecionados por conveniência por meio de buscas dos currículos na plataforma Lattes via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Foram selecionados participantes que atuassem ou tivessem atuado e possuíssem conhecimento nas áreas de interesse que envolvem o cuidado do paciente pediátrico em uso de DVE e/ou simulação clínica. A busca priorizou currículos nacionais com publicações nas áreas de interesse e/ou especializações lato sensu ou stricto sensu com temática nas áreas relacionadas, além de endereços eletrônicos disponíveis e atualizados. Preocupou-se em garantir pelo menos um convidado de cada região do país, a fim de tentar uma amostra heterogênea, considerando a diversidade geográfica, a potencial variação de experiências e as práticas nas áreas investigadas. Dessa forma, foram elencados 17 enfermeiros, que receberam uma carta convite por e-mail com um link para acessar o formulário eletrônico (Google Forms®), composto pelo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), para participação no estudo e pelo cenário simulado construído para apreciação. O formulário ficou disponível entre 19 de maio e 28 de junho de 2023, e foi respondido por sete participantes. O critério de exclusão do estudo abrangeu ausência de publicações e/ou experiência nas áreas de interesse, além de respostas duplicadas.
Na etapa 3, teste do cenário simulado, foram convidados por e-mail estudantes de enfermagem que já haviam cursado a disciplina sobre os aspectos fundamentais do cuidar em enfermagem. Apenas cinco estudantes do mesmo período letivo aceitaram participar. Após a confirmação da participação, foi agendada uma aula prática, na qual os estudantes tiveram contato inicial com os dispositivos do sistema de DVE e, em seguida, iniciou-se o cenário simulado. O número limitado de participantes decorreu da disponibilidade dos estudantes e do critério de seleção aplicado. A ausência na aula prática foi adotada como critério de exclusão.
Protocolo do estudo
A primeira etapa compreendeu a construção do cenário simulado embasado pelas recomendações propostas pelo modelo teórico da NLN Jeffries Simulation Theory(23) e da engenharia dos cenários simulados. A primeira descreve os seguintes componentes: contexto; histórico; participante; facilitador; design; práticas educativas; experiência de simulação; e resultados esperados. A segunda apresenta o referencial metodológico, que contempla a preparação dos 15 itens da encomenda da estação simulada, que se constitui no roteiro completo do cenário simulado, composto por: instruções do cenário e tarefas do estudante; orientações ao avaliador; lista de materiais e equipamentos; mapa de disposição dos móveis e recursos humanos dentro do ambiente físico da estação simulada; script do paciente simulado (caso seja simulação cênica); fluxograma de decisão do avaliador; e instrumento padronizado de avaliação (checklist)(22,23).
Para a produção do caso clínico, utilizaram-se dois guidelines internacionais, sendo eles o Management of Pediatric Severe Traumatic Brain Injury: 2019 Consensus and Guidelines-Based Algorithm for First and Second Tier Therapies, Care of the Patient Undergoing Intracranial Pressure Monitoring/External Ventricular Drainage or Lumbar Drainage - AANN Clinical Practice Guideline Series e o parecer técnico nacional COREN-SP Nº 030/202136 sobre o manejo da DVE por profissionais de enfermagem(24-26).
Na segunda etapa, ocorreu a validação do cenário simulado construído. Os avaliadores receberam a carta convite por e-mail, que continha o link para o formulário eletrônico Google Forms®. Após o aceite e a assinatura do TCLE, o formulário era dividido em duas partes. A primeira era a ficha de caracterização sociodemográfica, que continha dados sociodemográficos, profissionais e acadêmicos dos avaliadores. A segunda parte continha os componentes propostos pela NLN Jeffries Simulation Theory, que seriam apreciados em relação ao cenário. Cada item foi avaliado utilizando uma escala tipo Likert de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente) pontos, seguido por espaço destinado às sugestões, caso houvesse. Era permitido apenas uma única resposta por e-mail, e a presença da ficha sociodemográfica subsidiou a exclusão de respostas duplicadas, garantindo a validade e unicidade dos dados coletados para o estudo.
A terceira etapa compôs o processo de teste de cenário com o público-alvo. O cenário simulado era de alta fidelidade, com participação de ator para desenvolver o papel do profissional enfermeiro na passagem de plantão. A pessoa designada para a atuação, além de ter feito escola de teatro, aperfeiçoou seus conhecimentos participando de uma disciplina cujo tema versava sobre o teatro para o aperfeiçoamento da relação médico-paciente. Para garantir a qualidade da encenação, foi realizado um treinamento oportuno pela facilitadora do cenário e pesquisadora principal do estudo, por ser instrutora em simulação clínica e apresentar experiência na área. O treinamento incluiu a leitura do script, análise do caso clínico completo e ensaio da cena, assegurando uma representação realista e didática. A fim de manter o realismo da cena, o cenário foi organizado no Laboratório de Habilidades e Simulação com dispositivos que compõem uma Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica, sendo o leito do paciente em questão organizado de acordo com as necessidades do momento.
Análise de dados
Para a análise de dados, utilizou-se o Coeficiente de Kappa Modificado (CKM), desenvolvido para estudos de validade de conteúdo para verificar a concordância entre os avaliadores. Valores superiores e iguais a 0,74 podem ser considerados excelentes(27-30). Utilizou-se também o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), método bastante usado na área da saúde, que mensura a proporção de avaliadores que concordam entre si sobre determinado aspecto do instrumento. O IVC avalia a relevância/representatividade por meio de escala tipo Likert com pontuação de 1 (não relevante ou não representativo) a 4 (item relevante ou representativo). Autores indicam que, no caso de apreciação realizada por seis ou mais avaliadores, recomenda-se uma taxa acima de 0,78; entretanto, destaca-se que os valores recomendados para verificar a validade de novos instrumentos devem ser de no mínimo 0,90(31,32).
Os dados coletados com os avaliadores por meio do formulário eletrônico Google Forms® foram organizados em planilha do Microsoft Excel®. Posteriormente, foram calculados o CKM e o IVC. Para os itens que obtiveram CKM < 0,74 e IVC < 0,90, houve a reformulação conforme as sugestões realizadas pelos avaliadores e envio do material editado para nova apreciação.
RESULTADOS
Construção do cenário
O cenário construído foi pautado na literatura com foco nos cuidados de enfermagem necessários para o adequado manejo do sistema de drenagem da DVE. O percurso de desenvolvimento da construção do cenário utilizou a PDCR como tipo de simulação escolhido. O cenário foi composto por três cenas sequenciais, que se desenvolveram de acordo com o caso clínico que embasou sua construção. Cada cena foi composta por uma tarefa a ser executada pelo estudante de enfermagem que prestava assistência ao paciente pediátrico em uso da DVE. Os cuidados necessários abrangiam o manejo e a manipulação adequados do paciente submetido à DVE.
Na finalização desta etapa, utilizou-se o modelo teórico da NLN Jeffries Simulation Theory(23) para complementar a construção do cenário com as seguintes etapas: pré-briefing, momento no qual são apresentados o ambiente simulado e todos os recursos disponíveis na cena, assim como seu funcionamento; briefing, momento em que se apresentam as informações acerca do caso clínico, cenário simulado que consiste na definição dos objetivos, resolução dos problemas e tempo estimado de desenvolvimento das cenas; debriefing, no qual foi utilizada a ferramenta de debriefing em saúde PEARLS(33); e resultados esperados, o qual contemplou os aspectos de conhecimento cognitivo, julgamento clínico e habilidade prática.
Avaliação do conteúdo pelos avaliadores
Na etapa de avaliação do cenário simulado pelos avaliadores, foram convidados, inicialmente, 17 enfermeiros que atendiam aos critérios de inclusão do estudo; no entanto, apenas sete aceitaram o convite e retornaram dentro do período de tempo proposto. Na primeira rodada de avaliação, todos itens obtiveram IVC e CKM maior que 0,86 e 0,85, exceto o item “conteúdo do cenário facilita o pensamento crítico”, que obteve IVC de 0,71 e CKM de 0,66. Dessa forma, foram analisadas e acatadas as sugestões dos avaliadores, a fim de aprimorar o conteúdo do cenário simulado construído. Realizou-se uma segunda rodada de avaliação, seguindo o mesmo formato da primeira, obtendo-se um IVC e CKM de 1,00. Houve sugestões para adicionar às pistas do cenário o processo de sistematização da assistência de enfermagem no prontuário do paciente e para abordar esse tema no debriefing. Tal sugestão foi prontamente incorporada ao cenário, por ser considerado um critério importante.
Os avaliadores foram em sua maioria do sexo feminino; dois avaliadores apresentavam título de especialista; três possuíam pós-graduação stricto sensu nível mestrado ou doutorado; e dois possuíam pós-doutorado. Quatro avaliadores prestaram assistência a pacientes pediátricos em uso de DVE, e todos possuem experiência com simulação clínica por no mínimo dois e no máximo oito anos. Na Tabela 1, estão apresentados os valores de CKM e IVC.
Valores do Índice de Validade de Conteúdo e do Coeficiente de Kappa Modificado para cada um dos itens avaliados no cenário simulado completo, Campinas, São Paulo, Brasil, 2024
Testagem do cenário
No teste do cenário, cinco estudantes do sexto período do curso de enfermagem aceitaram e participaram do estudo. Na data agendada, compareceram ao Laboratório de Habilidades e Simulação da faculdade para participar de uma aula prática e, em seguida, de um cenário simulado.
A pesquisadora principal do estudo atuou como facilitadora do cenário, por ter experiência com simulação clínica e curso de facilitador em de simulação. Respeitaram-se as etapas de boas práticas em simulação clínica propostas pela INACSL(34). Contou-se com a presença de um profissional, com experiência em simulação clínica, para observar a execução do cenário pela facilitadora nessa fase de teste. Apoiou-se no checklist elaborado, em forma de tabela, listando 23 ações necessárias a serem executadas de forma a alcançar os objetivos específicos do cenário (Quadro 1), visando à execução do cuidado de enfermagem acerca do manejo adequado da DVE no paciente pediátrico. Esse instrumento foi utilizado para verificar o cumprimento ou não de cada ação esperada pelos participantes, interrompendo a cena quando a tarefa não era desempenhada de forma adequada e direcionando um feedback oportuno, permitindo a repetição da cena até que se alcançasse a excelência, conforme prevê a simulação escolhida. Com a execução correta das tarefas, a cena se seguia e o cenário continuava a se desenvolver até a sua conclusão.
Desenho resumido do cenário simulado após apreciação dos avaliadores e testagem, Campinas, São Paulo, Brasil, 2023
Ao término do cenário, todos os participantes se reuniram para o debriefing, que passou pelos cinco passos indicados: preparação do terreno para criar um ambiente seguro de aprendizado; reação para explorar os sentimentos; descrição para esclarecer fatos; análise do momento para explorar os domínios de desempenho; e aplicação para destacar as lições principais.
O cenário simulado foi realizado simultaneamente pelos cinco participantes, com duração total de 15 minutos. Durante o cenário, foram realizadas três pausas breves para oferecer feedback diretivo imediato aos participantes, permitindo ajustes rápidos seguidos por repetições curtas da cena até a execução correta em ciclos que não ultrapassaram cinco minutos cada, conforme recomenda a PDCR(35).
Ao final do cenário, foi conduzido um debriefing pós-evento, com duração de 18 minutos, para consolidar o aprendizado. Esse formato proporcionou uma melhora significativa na performance dos participantes, assegurando o domínio das habilidades propostas pelo cenário simulado.
Não houve modificações a serem feitas no cenário após a testagem. A única sugestão foi melhorar o dispositivo que fixa o conjunto da DVE no suporte de soro ou trocar o suporte para um modelo que torne a manipulação de sua altura mais fácil.
DISCUSSÃO
O presente estudo construiu um cenário simulado com o uso da PDCR para o manejo da DVE no paciente pediátrico, planejado e estruturado com base em evidências científicas que orientam o cuidado do paciente que faz uso desse tipo de sistema de drenagem(24-26).
Para o cenário simulado construído sobre o manejo da DVE no paciente pediátrico, consideraram-se os elementos propostos pela INACSL(36), pela NLN Jeffries Simulation Theory e pelo conceito de engenharia dos cenários simulados(22), sendo apreciado por avaliadores em relação a esses elementos. Foi testado com estudantes de enfermagem, público-alvo, para que possa ser utilizado como intervenção educativa.
A avaliação foi realizada por sete avaliadores com experiência nas áreas de interesse, simulação clínica e cuidados ao paciente pediátrico em uso de DVE, sendo obtida por meio da avaliação de cada critério que compõe o cenário simulado. Os itens avaliados obtiveram IVC e CKM de, no mínimo, 0,85, considerados excelentes no que se refere à concordância da avaliação dos sete avaliadores. O item “conteúdo do cenário facilita o pensamento crítico” obteve IVC de 0,71 e CKM de 0,66. As sugestões enviadas foram acolhidas e submetidas a uma segunda avaliação, obtendo IVC e CKM de 1,00. O número de avaliadores obedece ao mínimo de cinco avaliadores, conforme as recomendações da literatura para a etapa de validação(31,32).
O processo de testagem do cenário simulado é importante e recomendado pelas diretrizes da INACSL para que, se houver, seja possível identificar erros ou equívocos que podem ocorrer durante a execução do cenário. Por esse motivo, é necessário que o participante desta etapa faça parte do público-alvo, conforme a literatura indica(27,37,38).
O manejo da DVE deve ser feito de forma coerente e sistematizada. Isso inclui o planejamento seguido da implementação de cuidados necessários, a fim de manter o paciente seguro, até que seja possível alcançar a meta terapêutica almejada pela equipe(39).
A PDCR, ainda pouco utilizada no ensino de enfermagem, é uma modalidade de simulação que tem ampliado seu uso devido à sua eficácia demonstrada no desenvolvimento de competências essenciais à prática clínica(35,40). Seu diferencial consiste no fornecimento imediato de feedback diretivo durante a simulação, permitindo ao participante repetir a tarefa até a execução correta, potencializando a retenção de habilidades e a autoconfiança(12,16,38,41).
A literatura evidencia que cenários simulados cuidadosamente estruturados favorecem resultados positivos em aquisição de conhecimento(42), habilidades práticas, correlação teoria-prática, confiança e autoeficácia. Dessa maneira, para garantir essa efetividade, é importante seguir percurso metodológico rigoroso para construção de cenário(43). O segundo aspecto é utilizar um caso clínico pautado em diretrizes que orientem as boas práticas diante do tema exposto. O terceiro aspecto é elaborar objetivos de aprendizagem claros, seguindo as boas práticas em simulação(44). Nesta perspectiva, sobressai o método SMART(4) para a construção de objetivos de aprendizagem específicos, mensuráveis, alcançáveis, realistas e com prazo definido.
Durante o presente estudo, os participantes destacaram positivamente a PDCR, especialmente por receberem feedback imediatamente após a interrupção da cena, permitindo correção rápida e repetição até alcançar a excelência. Embora o debriefing pós-evento seja uma ferramenta valiosa na simulação tradicional, na PDCR, ele assume uma função complementar, ocorrendo após a conclusão total do cenário, visando consolidar e maximizar o aprendizado obtido durante as interrupções. Por isso, é essencial adaptar o uso do debriefing ao propósito da prática deliberada, garantindo alinhamento e clareza metodológica.
Vale lembrar que este estudo representa uma avaliação preliminar da PDCR no contexto estudado. Novas investigações são necessárias para consolidar os achados e aprimorar os métodos utilizados. Estudos futuros podem confirmar o potencial da PDCR em aprimorar o raciocínio clínico e a tomada de decisão em situações pediátricas críticas, com impacto positivo nos resultados assistenciais e na segurança do paciente(45-47).
Limitações do estudo
O presente estudo teve como limitações o reduzido número de avaliadores para a apreciação do cenário simulado e de estudantes para a testagem.
Contribuições para a área da enfermagem
O manejo da DVE é composto por ações criteriosas e minuciosas, embasadas em pensamento crítico e julgamento clínico prévio, para que as ações sejam iniciadas e executadas de modo assertivo, garantindo um cuidado de enfermagem adequado e seguro para o paciente. Espera-se que o presente estudo seja utilizado no processo de ensino-aprendizagem de estudantes de enfermagem e de profissionais de enfermagem que devem realizar este cuidado, agregando conhecimento teórico-prático e lapidando habilidades práticas deste público, com vistas a solidificar esse processo e viabilizar práticas adequadas, seguras e de qualidade no cuidado do paciente pediátrico em uso de DVE.
A simulação clínica, com escolha adequada do tipo de simulação diante dos objetivos a serem alcançados, deve ser cada vez mais utilizada em instituições de ensino, a fim de promover correlação da teoria com a prática e oportunizar a vivência de estudantes de enfermagem em situações de maior complexidade, preparando-o para atuação no cenário prático real. A escolha da PDCR, quando possível, é positiva, pois permite treinar e aperfeiçoar as habilidades práticas necessárias ao cuidado proposto, por oferecer diversas oportunidades de repetição, favorecendo uma melhora no desempenho.
CONCLUSÕES
O cenário simulado para o manejo da DVE no paciente pediátrico foi desenvolvido com base em literatura específica no tema. O processo de construção, validação e testagem foi estruturado para assegurar um processo de ensino-aprendizagem eficaz, recebendo excelente apreciação dos avaliadores e público-alvo. A PDCR se mostrou uma abordagem promissora, pois oferece feedback imediato e permite a repetição das tarefas até alcançar a excelência.
Amplamente utilizada na formação em saúde, a simulação clínica propõe um ambiente seguro e controlado, permitindo que estudantes sejam expostos a casos complexos sem causar danos a pacientes reais. Nesse contexto, cenários realistas proporcionam experiências ricas, promovendo o aprimoramento de habilidades técnicas e não técnicas, como comunicação, trabalho em equipe e tomada de decisão. Aplicada ao manejo da DVE pediátrica, a PDCR reforça seu valor como ferramenta educacional inovadora, contribuindo significativamente para a qualidade e segurança do cuidado em enfermagem.
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL
Os dados de pesquisa estão disponíveis em repositório: https://doi.org/10.25824/redu/KXBNDW.
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